Vagabundo

Texto extraído de uma das edições da Revista Ajajema.

Como um egoísta com uma personalidade veementemente antissocial e niilista, deveria ser bastante aparente que meus interesses, paixões e desejos se movem de forma completamente contrária aos interesses, padrões, leis e moralidade de qualquer sociedade ou estado. Sem estar disposto a ceder, retroceder ou comprometer-me por alguém, minha vida de criminalidade e excomunhão se iniciou em minha juventude, quando decidi que não desperdiçaria um segundo sequer de minha vida tentando ganhar aceitação ou aprovação daqueles que me rodeavam.

Por que eu deveria me importar em ser valorizado por outras pessoas que, francamente, me enojam por completo, e que odeio sua asquerosa existência humana tanto quanto a minha? Rechaço essa prática humilhante que constitui a fábrica social em sua totalidade, um tecido vil de fraqueza, imbecilidade, timidez e estupidez. Esta rejeição, em todo caso, não é passiva, é algo que eu sempre abordei com desprezo absoluto, hostilidade e frequentemente com atos de violência contra aqueles que tentaram se impor a mim ou a quaisquer correntes que flutuavam sobre minha florescente individualidade.

Na medida em que eu aprendi a viver por minha própria força de vontade, os muros carcerários da escola já não puderam me conter e nem a imundice pode me alcançar, então passei todo o meu tempo matando aula e inicialmente aproveitei este tempo livre recém-adquirido vagando por florestas e edifícios abandonados, escutando música, desenhando e escrevendo. Quando isso não era particularmente satisfatório, mergulhava mais fundo em artes mais sombrias e secretas. Dia após dia, a prática de furtos, invasão de propriedade privada, roubo e vandalismo se tornou minha vida diária. Uma reação a ser criada nesta desprezível sociedade que eu nunca poderia pertencer, uma sociedade que nunca respeitei ou tolerei nem o mínimo.

Então, quando eu era apenas um adolescente, senti o desejo de “fazer uma declaração” sobre todos estes pensamentos e sentimentos fervendo dentro de mim, então eu fugi de casa uma noite e me dirigi a uma igreja local. Coberto pelas árvores, escalei a cerca ao redor do edifício e ergui uma pesada pedra do chão. Eu a levantei com os dois braços e lancei com toda a minha força, destruindo a cabeça e os braços das estátuas nos jardins da igreja, aquelas mesmas estátuas que eu via ao passar caminhando quase todos os dias, e as mesmas que eu cuspia vis maldições de ódio e nojo. Depois de alguns minutos de uma excitante iconoclastia, percebi que estava fazendo muito barulho, então decidi fugir antes que um potencial herói pudesse intervir. Mais tarde, reconheci que aquela atividade noturna foi meu primeiro ataque direto motivado por razões puramente egoístas contra um símbolo e pilar institucional da civilização.

Soube naquele momento que era apenas o começo. Pouco tempo depois, por várias razões acumuladas em relação à minha hostilidade e à minha personalidade inflexível, abandonei a escola. Rejeitei a ideia de combater a servidão a partir de dentro e, por quase dois anos, mantive um teto sobre minha cabeça graças ao envolvimento em vários golpes pequenos e atos de fraude. Eu enchia meu estômago, juntando uma quantia relativa de dinheiro de tempos em tempos através do meu engenho, habilidades, enganos e com a ajuda de amigos. Mas comecei a ficar cada vez mais insatisfeito com esta miserável existência, jogando videogames, fumando maconha e indo a festas me embebedar. Naquela época também comecei a me identificar como “anarquista” em vez daquele outro rótulo que eu tinha “portado”, de misantropo. (Também acho engraçado ver como como isso fechou o círculo e mais uma vez abraço minhas tendências misantropas e rejeito o altruísmo alardeado pelos numerosos sacerdotes dentro dos tempos ideológicos do “Anarquismo”.)

Continuei buscando a emoção do crime e a aventura da rebelião. Então peguei minha confiável mochila e dei um passo mais adiante. Eu fui para uma floresta onde vivi entre outros “anarquistas” por alguns anos, e lá passei incontáveis horas com zines e literatura eco-anarquista, descobrindo várias habilidades através do autoaprendizado. A fim de reduzir minhas chances de ser pego e acusado mais do que o habitual pela polícia da região, rejeitei por um tempo as artes obscuras do roubo e comecei a me sustentar praticando freeganismo. Também aprendi a fazer fogueiras, construir abrigos e viver com o que a natureza tivesse para me oferecer. Aprendi a identificar e a preparar plantas comestíveis, e também a me mover rapidamente entre as árvores, sem ser visto ou escutado. Havia aprendido muito, e ainda sim queria seguir aprendendo e crescendo.

Então veio a inevitável colisão entre aqueles indivíduos e eu. Numa manhã brilhante e ensolarada, mal consegui conter minha alegria e emoção, me aproximei dos meus “compas” com uma cópia impressa do comunicado recém publicado do Núcleo Olga da Federação Anarquista Informal, reivindicando a responsabilidade pelo disparo no joelho de Roberto Adionfli, um pedaço de merda a serviço da empresa nuclear italiana Ansaldo Nucleare. Apesar de ter sentido que compartilhávamos um desprezo mútuo pela indústria nucelar e pela sociedade em geral, eles ficaram revoltados com aquele corajoso ato de terrorismo e com a sua ousada afirmação, e soube aí que já não podia mais ter a verdadeira afinidade entre aqueles indivíduos e eu, então eu parti e os deixei com seu ativismo idealista e sua covardia anarco-social.

Depois de um particular encontro com os robôs da “lei e da ordem” da qual não darei mais detalhes, tive que fugir e retomar as artes negras mais uma vez, abraçando a vida de vagabundo “ilegalista”. Vivendo em permanente movimento. Já não tinha que me preocupar com a possibilidade dos policiais me reconhecerem, já que viajava de cidade em cidade, de costa a costa, de picos de montanhas até as margens de algum rio. Através do autoaprendizado adquiri mais habilidades vindas de gerações de canalhas e sem vergonhas, como por exemplo, usar disfarces que permitam uma pessoa atravessar cidades sem ser notado, deslocando-me sem deixar nenhuma impressão digital pelo caminho, sempre pedindo carona e utilizando bicicletas do mercado negro ou roubadas. Também comecei a praticar a arte de abrir fechaduras, extrair dinheiro de carteiras e o furto com a utilização de mais ferramentas e meios para alcançar minhas próprias metas e sem jamais submeter-me à ditadura moral-ética alheia e o sufocamento do trabalho.

Sou um marginal arrogante, inóspito e intolerante. Se me faço chamar “ilegalista” não é porque aderi a qualquer doutrina pré-estabelecida de “criminalidade”, não utilizo este termo como uma placa, pois creio que todas as identidades são mantos da civilização que reproduzem intermináveis papéis e ideais que só limitam a autodeterminação de minha individualidade no presente. Se me faço chamar “ilegalista” é porque sinto que viver contra as leis e a moralidade estabelecida por esta repugnante sociedade é a única forma que poderia viver sem sofrer a derrota da humilhação diária e o tédio, que são endêmicos da vida dentro da prisão que são estes sistemas que odeio, e se me faço chamar “ilegalista” é porque sinto muito fortemente que neste termo existe uma expressão muito compreensiva de meu implacável e desavergonhado ego.

“Fazia uma busca existencial eterna que parte desde mim, e nada mais. Devo domar a existência e não deixar que a existência me dome. Sou uma semente da civilização e seu veneno ao mesmo tempo…”