Um obituário antes da morte de nossos parentes de baleias

Tradução do texto A pre-death obituary for our whale kin, do blog The Cult of Infinity .

“O mundo dos sons das baleias reverbera nas profundezas dos mares, de centenas de metros a centenas de quilômetros. Ele é completamente alheio à paisagem sonora da humanidade, gritando e cantando no ar, onde canções e discursos não sonham em chegar tão longe. Padrões profundos e estrondosos são encontrados abaixo da superfície, e talvez a música possa nos ajudar a encontrar sentido quando as palavras e a lógica falham.” – David Rothenberg

Talvez a razão pela qual as baleias pareçam tão tristes e melancólicas seja porque elas previram o destino de sua espécie. É preciso se perguntar se elas sabiam como seria. A prática generalizada da caça às baleias e sua crueldade visceral pode tê-las levado a crer que esta seria a causa de seu desaparecimento do ecossistema, mas e se elas pudessem ter visto o seu destino, e se de alguma maneira tivessem previsto que não seria a caça, mas sim a morte lenta e dolorosa ao serem preenchidas com detritos humanos? Ou que sua linguagem e senso de direção, fundamentais para sua sobrevivência, seriam profundamente afetados pelo sonar naval? E as provas bem documentadas de armas nucleares?

A Marinha dos Estados Unidos conhecia as canções das baleias jubartes antes do público em geral. Por décadas, eles publicaram guias e treinaram cadetes sobre como reconhecer e diferenciar estes sons de outros sinais subaquáticos, como por exemplo, o ruído do radar inimigo. Claro, a observação das canções das baleias precede qualquer gravação. Elas podem ter sido a inspiração para as sereias encontradas na jornada épica de Odisseu… e é muito bonito pensar que os homens ficaram tão hipnotizados pelos gemidos e lamentos que colidiam contra penhascos e desapareciam.

Em 1585, um viajante holandês chamando Adriaen Coenen escreveu que o som das baleias beluga, também conhecidas como ‘canários marinhos’, ou baleias brancas pelos russos, era como “o canto dos humanos… se uma tempestade é iminente, elas brincam na superfície da água e é dito que elas lamentam quando são pegas… elas gostam de escutar canções tocadas por alaúde, arpa, flauta e instrumentos similares”. Como David Rothenberg observou em seu livro Thousand Mile Song, “por um longo tempo as pessoas sentiram que estes animais estão bastante intrigados com a vida humana para gostar de ouvir nossas canções.”

Elas já não ouvem mais músicas agradáveis, mas um grito tortuoso que sem dúvidas leva muitas ao suicídio. Não é um ruído do qual possam escapar, sim algo imposto, assim como a música e o som que são usados em guerras psicológicas e durante torturas. Para os cadetes da marinha, as canções eram simplesmente “evidências biológicas” que precisavam ser diferenciadas das “não biológicas”.

Embora a Marinha possa ser responsável pela interrupção das migrações devido o sonar, todo tipo de poluição acústica ameaça as baleias, e o oceano não foi menos afetado do que as criaturas terrestres pela incessante perturbação criada pelos seres humanos. As baleias, por exemplo, gravitam naturalmente em direção aos motores dos navios, o que resulta em horríveis e profundas lacerações que geralmente são fatais. Há também o som estridente da exploração sísmica de petróleo e gás.

As baleias são observadas encalhadas há séculos, no entanto não há explicações concretas sobre o porque de centenas encalharem ao mesmo tempo. Alguns especulam que a proliferação de algas vermelhas, que em 2018 devastaram a costa da Flórida, possa desempenhar um papel. Essas “marés vermelhas”, como são chamadas, foram registradas desde os anos 1500 pelos exploradores espanhóis, e são conhecidas por ocorreram após tempestades particularmente fortes. À medida que o oceano se aquece e as tempestades se tornam cada vez mais intensas, estas plantas se tornam cada vez mais tóxicas.

As baleias são frequentemente descritas como “extraterrestres”, o que é adequado. O mar profundo foi a última fronteira para a humanidade aqui na terra. A pressão das profundezas impedia que os humanos descobrissem seus segredos bem guardados. O homo sapiens é uma criatura muito curiosa, e que exige tudo do mundo não-humano. Querem saber o que estes sons significam, ou para onde vão quando desaparecem, para depois se divertir e se acasalar sem serem interrompidos por estas criaturas estranhas que os seguem e observam. As linhas entre os zoológicos e a natureza nunca foram tão porosas, e é sabido que as criaturas do zoológico exibem características ansiosas, se movem de um lado para o outro ou muitas vezes sequer se movem.

Quando as primeiras gravações de canções de baleias foram escutadas por multidões de ambientalistas na época em que o movimento internacional de conservação estava começando com o maciço “Dia da Terra”, elas tiveram um efeito hipnótico. A multidão permaneceu em silêncio enquanto ouvia a triste música que provocou o mesmo efeito de quando as primeiras imagens da própria terra foram mostradas ao mundo, isto é, uma percepção momentânea do quanto podemos perder. Mas esses sentimentos logo desapareceram, já que as pessoas saíram das ruas e começaram a promover a responsabilidade individual como a reciclagem e medidas contra a produção de lixo. O Greenpeace foi encorajado quando as canções das baleias atraíam cada vez mais pessoas a ineficazes organizações sem fins lucrativos que agora nos honram com constantes pedidos de doações ou com assinaturas em uma petição inútil. E enquanto as pessoas se enfurecem com o lixo jogado no quintal, não se importam para onde todo o lixo está indo, desde que esteja fora de vista.

Somente na Tailândia, cerca de 300 mamíferos marinhos morrem por ingestão de plástico a cada ano. Não é preciso ser um cientista para entender o que acontece com estas criaturas que recebem uma dieta constante de lixo. Seus estômagos são bloqueados com tudo o que não pode ser digerido, causando uma morte lenta, certamente agonizante devido à fome. Simplesmente não podem colocar comida de verdade em seus estômagos.

Claro, o plástico não é a única coisa que ameaça a vida dos oceanos; das baleias ao krill, do qual elas dependem, todos vivem em mares cheios de derramamentos venenosos provenientes de fábricas. A única coisa que chama a atenção para esta paródia é o sushi, cada vez mais caro, mas tóxico. A demanda por mariscos, bem como a toxicidade da carne das criaturas, nunca foi tão grande, e isso na medida em que os recursos se escasseiam. Até agora, as pessoas mais afetadas não são as que mais aparecem nos noticiários; sim os indígenas e os pobres que dependem da pesca em pequena escala para manter suas famílias, e ocasionalmente da baleia para alimentar a um povoado inteiro durante bastante tempo. No que diz respeito às práticas indígenas, o respeito dado a seu sustento permitiu uma abordagem sustentável, mas tudo foi arrastado pelas marés do progresso. Assim como nos parques nacionais com a proibição da caça, muitos povos nativos não podem continuar com suas antigas formas de se alimentar, o que por sua vez interrompe outros aspectos da cultura, uma vez que a caça e as festas comunais permitiam a coesão social.

As baleias nos deram de tudo, desde o óleo até o entretenimento, e sustentam uma massiva indústria do turismo, projetada para dar às pessoas uma ideia de sua magnificência. Suas imagens foram usadas para vender produtos e movimentos ecológicos às massas. Orcas, jubartes e golfinhos tem sido particularmente eficazes para abrir carteiras. E como retribuímos a eles? Para início de conversa, todo esse dinheiro movimentado só beneficiou os humanos, responsáveis pela destruição das baleias.

Apesar do otimismo implacável que nos empurram goela abaixo, é cada vez mais óbvio que o tempo está acabando. Não há mais tempo para elas, e não há mais para nós. No mais otimista dos cenários, as reformas podem atrasar um pouco as coisas, enquanto o homo sapiens tenta freneticamente encontrar um novo planeta para destruir. Talvez haja outro planeta com oceanos e mais baleias para se conquistar.

Este é um comprimido amargo de se engolir, mas que a humanidade deve e eventualmente engolirá.