A Guerra de José Vigoa: Um Breve Discurso Sobre o Método Eco-extremista

Texto extraído e traduzido da primeira edição da Revista Atassa, divulgada publicamente na web. Este escrito compartilhado de maneira investigativa discute ricamente o “método eco-extremista” de operar.

A coisa mais notável que o eco-extremismo empreendeu durante o ano passado foi a sua maior clareza na organização. Embora o seu modo de atacar sempre tenha sido pequeno, disperso e reservado; e embora tenha sempre renunciado ao discurso revolucionário ou à discussão de um “movimento”, apenas uma ruptura ressonante poderia deixar claro que o ethos do eco-extremismo é diferente daquele dos anarquistas e outros terroristas radicais. Em comparação com o ativista, o eco-extremista busca emular o criminoso. Em vez do Partido, o niilista individualista constrói uma “sociedade secreta” (muitas vezes secreta mesmo entre eles). Em vez de um movimento, aqueles que realizam a defesa extremista da Natureza Selvagem defendem uma máfia. Se o surgimento do eco-extremismo sinaliza a travessia da ponte para sair da Terra do Progresso e do Iluminismo, a nova etapa do manejo da selvageria está incendiando esta ponte e observando-a arder.

Claro, existem razões teóricas para isso. Para realizar ações eco-extremistas, os próprios atores requerem uma maior autonomia e anonimato, assim como os delinquentes. O liberal, o esquerdista, o anarquista, o anarco-primitivista defendem ações que outros podem emular e proclamar como o Crucificado no Evangelho: “Vá e faça o mesmo”. Querem “produzir em massa” um curso de ação e comportamentos desenvolvidos para se adaptar a todas as situações e contingências possíveis. Tudo é em “código aberto” e para que todos vejam. Isso responde a sua necessidade do ethos democrático, sua Fé no Povo, seu Dogma da Bondade Fundamental da Natureza Humana. Mesmo os mais compreensivos leitores híper-civilizados param na literatura eco-extremista e se perguntam: “Mas o que eu devo FAZER? Como posso aplicar isso a MINHA PRÓPRIA VIDA?, etc.,” Se você tiver que se perguntar, então não há resposta no seu caso.

O eco-extremista é um oportunista. Ele é um individualista. Não existe um molde eco-extremista assim como há um molde comunista, anarquista ou primitivista. Cada um é diferente, assim como cada crime é diferente. O ativista moderno busca limitar o caos e a contingência: o eco-extremista conta com eles, e até mesmo prospera neles. As massas de ativistas híper-civilizados, desde os pacifistas até os Black Bloc, buscam se mover como uma coluna de tropas napoleônicas, com disciplina, objetivo comum e com uma força que confronta o Estado em uma situação de “duplo poder”. Estes são tão fortes quanto o seu elo mais fraco. A ação eco-extremista é a guerra de guerrilha no sentido pleno do termo: não apenas na prática, mas também no propósito. O eco-extremista, como o criminoso, luta apenas por si mesmo, em benefício próprio, e com os que mesmo longe lutam de maneira similar; aqueles que buscam igualar seus atos baixo as suas próprias circunstâncias.

É por isso que o eco-extremismo é a “pedra de tropeço e rocha que faz cair, porque tropeçam com a palavra” (1 Pedro 2: 8). Mesmo aqueles que simpatizam, esses líderes de torcida de esquerda que querem ser um pouco mais militantes e pensam que algumas poucas palavras em apoio a ITS aumentam a sua credibilidade com “pós-esquerdistas”, não entendem este primeiro princípio eco-extremista. O eco-extremismo não se trata de algumas poucas palavras militantes que estimulam a conversação, ou uma forma ligeiramente mais violenta de pessimismo passivo que permeia nos círculos intelectuais progressistas, se é que são honestos. O eco-extremismo é uma cumplicidade conspirativa, uma afinidade violenta e uma simpatia que leva à ilegalidade. O eco-extremismo não é outro ídolo ideológico que alguém tem no altar junto com o anarquismo insurrecional, o anarco-primitivismo, o eco-anarquismo, o niilismo passivo, etc. O eco-extremismo é o rompimento dos ídolos, até mesmo o ídolo da “autorrealização” e “autonomia” dentro da podre civilização tecno-industrial. É o zelo santo do fanático frente as blasfêmias contra a Natureza Selvagem, o desejo ganancioso da violência contra a vítima híper-civilizada e a singular paciência necessária para atacar o inimigo no momento oportuno. Qualquer semelhança com as ideologias que o precederam é superficial, na melhor das hipóteses.

Para irmos além, tomaremos algumas lições da vida de um guerrilheiro/criminoso moderno, alguém que teve opiniões semelhantes sobre a legitimidade da atividade criminosa em uma sociedade corrupta. Falamos aqui de José Vigoa, ex-Spetsnaz (NdT1), possível oficial da inteligência cubana, traficante de drogas e ladrão de cassinos que era o terror nas ruas de Las Vegas durante os anos de 1999 e 2000. Durante esse tempo, ele e seu pequeno bando roubaram alguns dos maiores cassinos de Las Vegas, incluindo o MGM e o Bellagio. Vigoa também matou dois seguranças de um carro forte que tentavam dar uma de heróis durante um roubo. Não nos debruçaremos sobre os detalhes biográficos de Vigoa aqui, apenas citaremos passagens do fascinante relato de John Huddy, “Storming Las Vegas: How a Cuban-Born, Soviet-Trained Commando Took Down the Strip to the Tune of Five World-Class Hotels, Three Armored Cars and Millions of Dollars”, e comentaremos sobre isso, conforme for o caso. Com isso, buscamos aprender com as regras do compromisso e esclarecer como o ataque individualista acontecerá a partir de agora no futuro. O futuro, tanto quanto se pode falar dele, pertence ao individualista, ao caos e a amoralidade.

“Não é que José Vigoa pense bem na determinação dos guardas da Brinks, já que estragaram o que poderia ter sido o seu roubo de aposentadoria. “Estúpidos heróis, merda!” , pensa Vigoa enquanto dispara fogo pesado contra os guardas e se retira ao rodeio que o espera. Vigoa se surpreende que os homens mal pagos da Brinks lutem. Se não fosse pela linha de fogo que veio contra ele e o gringo louco que atirou por cima do baú, Vigoa diria na cara deles o quão absurdos são: eu não estou tentando roubar seu dinheiro, ou faltar-lhe com respeito, ou roubar algo de sua família. Quero pegar o dinheiro dos donos gordos do cassino, do porco que tem milhões e milhões e explora seus empregados com salários de merda.” (16)

Intrépido, Vigoa realiza uma reunião pós-missão e anuncia uma nova política: “Da próxima vez nós disparamos primeiro e não faremos perguntas a ninguém. Não perguntarei aos guardas por seus malditos relógios. Todo mundo quer ser um herói neste país”. Vigoa escreve mais tarde em seu diário: “No meu mundo, você é o caçador ou o caçado. Las Vegas faz isso, Vigoa aceita.” (22)

A abertura do livro descreve um robusto roubo de veículos blindados no Desert Inn Hotel de Las Vegas, quando Vigoa e sua equipe abriram fogo cedo demais para que os guardas entregassem o dinheiro, permitindo assim que eles devolvessem os disparos e se defendessem. Isso seria um problema na onda de crimes de Vigoa: que os pobres guardas que tinham tudo a perder e nada a ganhar, com as balas revidadas defendiam o dinheiro de seus chefes de qualquer maneira. Talvez aqui vejamos que os “híper-civilizados”, longe de serem inocentes ou explorados, sustentam um sistema injusto por algum senso de orgulho ou hábito. A civilização não suprime os instintos animais, mas aproveita-se deles para os seus próprios fins, e neste caso, para defender o conceito de propriedade privada e o “trabalho bem feito” do trabalhador honesto. Poderia haver mais provas de que os híper-civilizados nunca se voltam contra o sistema tecno-industrial? (16)

“Os roubos e as táticas de pequenas unidades utilizadas pelo grupo lembraram a polícia de seu próprio treinamento. Os veteranos da Marinha e do Exército reconhecem as táticas de guerra de guerrilhas das Forças Especiais. O agente especial Brett. W Shields do FBI percebe que o bando usava as doutrinas clássicas dos comandos: (1) inserção clandestina, (2) combate breve e violento, (3) fuga rápida e (4) retirada rápida e enganosa. A polícia percebe que eles estão contra um criminoso organizado e tão colorido e letal quanto qualquer valentão da velha escola, mas que possui uma inteligência excepcional no campo de batalha, poder de fogo moderno e sofisticadas táticas de pequenas unidades.” (25)

Esta “militarização” da atividade criminosa é um tema comum em nossos dias, como veremos mais adiante.

“O que Vigoa chamava do Demônio Feroz estava sacudindo-o agora; logo estaria acordado. Vigoa poderia sentir a sua força bruta e o calor acumulando forçar por todo o seu corpo. Uma vez que ele havia temido o sentimento, pensou que era o que o havia atraído para a vida do crime e brutalidade, mas Vigoa sabia melhor agora. O Demônio Feroz era seu escudo e salvação, a força primitiva que o matinha vivo. Estava acordado e cada vez mais forte, e logo estaria livre para fazer o seu trabalho.” (104)

Esta passagem refere-se a um episódio no início da carreira de Vigoa, mas como muitos individualistas e selvagens de antigamente, Vigoa também tinha um espírito de orientação no combate. Para ser mais do que se pode fazer como um mero animal mortal, e para atacar, muitas vezes é preciso a inspiração de um espírito, de um demônio, como na crença grega antiga. Não é de surpreender que Vigoa acreditasse nisso, e pela qual o anarquista ou esquerdista zombaram disso, já que o poder destes vêm do povo segundo as suas crenças humanistas. Aqueles que aspiram a ações inumanas devem ter ajuda inumana.

Muitos traficantes também eram viciados e usavam seus lucros para sustentar os seus hábitos, mas Vigoa não. Sua abstinência não era moral, mas de vida e morte. “Você tem que manter o cérebro limpo”, advertiu a um de seus aliados. “Tem que estar em alerta em todos os momentos, mesmo quando esteja dormindo, fazendo amor ou com a sua família. Você tem que enxergar mais longe que os outros homens e em todos os cantos. Tem que ver nos corações dos homens. Você tem que ler os olhos do seu inimigo e saber que estão prestes a atacar, ou um dia eles tentarão te matar.” (106)

Vigoa ensina a sobriedade e vigilância pela mesma razão que os eco-extremistas: não por razões morais, mas por um propósito individualista. O objetivo do eco-extremista é o ataque, e os inimigos estão em todas as partes. A sobriedade e a vigilância são sempre necessárias. Alguns dirão que isso equivale ao ascetismo: que tal vida é um abraço desnecessário nas dificuldades para algum tipo de desfecho moral inverso. Nada poderia estar mais longe da verdade. O homem híper-civilizado espera ser defendido por sua tecnologia, seus edifícios e sua moralidade. Mesmo o mais amoral dos egoístas híper-civilizados baseia-se na civilização e suas pompas por sua “amoralidade”. A condição real do homem sem civilização é da constante vigilância: na selva, no bosque, na planície, e nos mares. Estamos tão separados de nossos sentidos e de uma vida de compromisso com as coisas selvagens, que acreditamos que uma vida de vigilância e sobriedade é uma vida de privação. A alternativa, no entanto, é a vida do animal do zoológico: não estamos sob nenhuma ameaça física porque vivemos em jaulas. Pelo menos, o eco-extremista resiste à vida na jaula, embora seja apenas para atacar e voltar a lutar outro dia. A alternativa é tentar encontrar a liberdade dentro da jaula, o que é um absurdo.

“De certa forma, o desaparecimento de Pedro foi algo bom”, diz Vigoa mais tarde. “Nos colocaram a prova. Depois que Pedro foi expulso do estacionamento, não nos desmoronamos nem nos deixamos entrar em pânico. É assim que é no combate real. Sempre há surpresas. Nada nunca acontece da maneira que se supõe que irá acontecer, e o plano é apenas o primeiro passo. Sempre haverá um refluxo e fluxo na luta. É como você reage às surpresas que importam. Nós fizemos bem.” (146-147)

O contexto para esta reflexão é o roubo do MGM que o bando de Vigoa realizou, e a lição aqui é óbvia. Sigamos adiante.

“Embora não seja o assalto mais lucrativo, o roubo ao Mandalay Bay será o modelo seguido pela quadrilha nos assaltos, sem resistência, e exatamente segundo o plano. O roubo atual dos dois guardas do Brinks leva menos de um minuto, e a fuga ainda menos tempo. Para quando a polícia chegar, os atiradores já tem desaparecido faz tempo. Ninguém sabe exatamente em que direção fugiram os suspeitos, as descrições do veículo de fuga variam, algumas testemunhas descrevem os bandidos como homens negros e não há evidências balísticas nem impressões digitais.” (186)

Este é um bom resumo das táticas do bando de Vigoa, que focou na velocidade e na precisão na hora de realizar os seus roubos e fugas.

“Como um tubarão, Vigoa pensou que foi encorajado por um impulso primordial, até mesmo o vício fora de seu controle. Talvez seus roubos não fossem sobre o bem ou o mal, o dinheiro, a vingança pelas injustiças passadas, ou mesmo pela família. Eles eram sobre o poder, a violência, o perigo e a emoção da caça. Os tubarões fizeram o que fizeram sem arrependimento, e o mesmo fez Vigoa. A polícia não poderia compreender isso, pensou Vigoa. Não tem ideia de quem ou com quem estão lidando.” (158)

É estranho que todos os “anarquistas verdes”, apesar de seus esforços pela “reselvagização” e por seus estudos antropológicos dos povos primitivos, não possam entender o que um criminoso comum aprendeu tão bem. Ou seja, a violência não era um meio para um fim na vida “primitiva”, mas muitas vezes um fim em si mesmo: um modo de vida. A emoção da caça e do ataque não é absorvida pelo hippie reselvageado em nossos dias, mas pelo criminoso e o vândalo, com todas as suas contradições e egoísmos.

“No geral, talvez o bando de Vigoa nunca poderia trabalhar com a precisão dos comandos Spetsnaz, mas era possível ensiná-lo a obedecer ordens simples e executar os planos bem desenhados de Vigoa. Mais tarde ele escreveu: “Uma de minhas habilidades especiais, na guerra e no crime, era treinar meus homens duramente simulando a missão uma vez e outra, às vezes vinte ou trinta vezes. Não havia lugar para o erro. A polícia e o exército os descobrem o tempo todo, mesmo quando você treina bem haverá erros. No meu negócio, posso cometer cinco roubos bem sucedidos, mas se cometo um pequeno erro ou permito que meus homens sejam descuidados e indisciplinados, todos morreremos ou seremos presos e cumpriremos largas penas.” (161)

Aqui começa uma parte crucial no livro, onde Vigoa começa a descrever sua metodologia com mais detalhes. Aqui vemos que Vigoa, porque é um homem de ação, não tem nenhum problema em exercer a autoridade. Embora os eco-extremistas tendam a ser individualistas, eles não tem problema algum com a autoridade, já que é concebível que uma situação assim possa surgir onde um pequeno grupo se forma para realizar uma ação particular. Ao contrário do anarquista ou do esquerdista, a organização não é uma função da ideologia, mas da eficácia em uma situação apropriada onde a velocidade e a precisão são fundamentais. Portanto, o eco-extremismo não possui problemas com a autoridade.

E agora a equipe poderia recitar as Regras de Vigoa quase palavra por palavra:

– “Não falar durante um trabalho, exceto na hora de “gelar” a vítima (ordenando-a que jogue a sua arma). Silêncio absoluto entre os membros da unidade.

– Plano A: Desarmar os guardas. Plano B: Matá-los sem hesitar se resistirem.

– Vigoa, e apenas Vigoa dá as ordens de quando se retirar para o carro na fuga.

– O segundo veículo de fuga (tecnicamente conhecido como o primeiro carro de fuga) estará dentro da distância próxima do trabalho porque o condutor dentro do veículo foi ensinado a utilizá-lo como aríete (NdT2), e poderia danificar o primeiro carro na cena do crime.

– São necessários no mínimo três carros por trabalho. Estes veículos, além do primeiro carro de fuga – aquele cuja a placa todas as testemunhas anotam imediatamente, fazem um total de quatro carros por trabalho.

– A velocidade é essencial – um minuto e fora. (Quando Suárez começa a protestar que levará tanto tempo apenas para recolher o saque, Vigoa o interrompe: “Isto não é o cinema, menino, as pessoas tem telefones celulares, ligam ao 911, e os estúpidos [a polícia] sairão para fora de suas lojas de rosquinhas para uma pequena ação”.)

– Não se pode deixar nos estacionamentos dos cassinos os carros que serão utilizados, porque a segurança tem estado anotando os números das placas. Utilize estacionamentos de apartamentos.

– O caos é fundamental. (Vigoa diz a seu bando: “Quem sabe o que é modus operandi?”. Silêncio. “Bem, porque não temos um. Há que ser imprevisíveis. Isso é a guerra. Seja previsível e morra”).

– Não deixe nada para trás.

– Máscaras de esqui e roupa escura. Sempre use luvas. Utilize as máscaras até chegar ao terceiro carro de fuga.” (165 – 166)

Nestas regras, vemos novamente a ênfase na autoridade, velocidade e precisão. Mas também vemos um aceno ao caos. Os eco-extremistas buscam ser o caos, a Natureza Selvagem em uma sociedade domesticada e artificial. Eles tampouco tem modus operandi. Eles não querem nada da sociedade, exceto atacá-la, então seus métodos não são tão diferentes de seus fins: atacam pelo bem do ataque. Isso permite que eles sejam imprevisíveis como Vigoa procurou ser.

“Não quero matar ninguém em meus roubos. Não queria matar os guardas do shopping. Mas depois do Desert Inn, percebi que todo americano quer ser um cowboy. Chamo isso de herói de merda. Você tem que ser John Wayne, Mel Gibson e Bruce Willis, e se faz coisas estúpidas, me obriga a fazer o que faço, o que não é totalmente estúpido, porque para sobreviver eu vou explodir o seu maldito cérebro. Vou mandar você no trem para o inferno por um capricho. Meu capricho.” (223)

Esta passagem descreve o que aconteceu quando Vigoa e seu bando tentaram roubar um carro blindado e tiveram que matar os dois seguranças porque decidiram lutar. Mais uma vez, os híper-civilizados defendem a civilização mesmo quando ela não é de seus interesses materiais. Chame-os como quiser, mas eles não são amigos do individualista ou da Natureza Selvagem para o assunto.

“Eu não estava drogado ou bêbado, mas tinha certeza. Muito confiante. Era o clima da festa. Me senti bem e suave, quase em transe. Me senti invencível e foi então que baixei a minha guarda. Assim como os hotéis fizeram quando os ricos, advogados e contadores deram conta dos gangsters italianos difíceis”. (248 – 249)

Vigoa descreve aqui como estar com a guarda baixa o levou a sua queda. Durante seu roubo do Bellagio, Vigoa usava o chapéu errado e foi identificado pelas câmeras de segurança, mostrando seu rosto em todas os noticiários. Isso é também uma advertência contra a vida dupla: Vigoa era um homem de família e deixou que uma festa familiar o relaxasse demais e o fizesse perder o foco. Em última análise, por isso foi capturado: uma parte de sua vida dupla contaminou a outra.

“Em 3 de Junho de 2002, eu estava pronto para sair, pronto para fugir da prisão de Clark County pela noite. Seria um presente bom e definitivo meu para todos os agentes da lei, sem mencionar a publicidade para o DA (NdT3) e algo para manter as pessoas ocupadas com as notícias. Mas algo inesperado e não planejado aconteceu. Um amigo meu foi preso com vinho feito na prisão. A polícia me perguntou se poderiam entrar em minha cela por um segundo porque alguém foi preso com vinho, e a polícia queria saber se eu tinha alguma coisa. Eles olharam em volta e não encontraram nada. Estava trabalhando aquele dia na janela, fazendo o meu último trabalho, mas não tinha as placas de metal coladas ou muito bem disfarçadas, porque a busca nas celas foi tão repentina, e eu estava tão perto de fazer a checagem – e a nova correção oficial inexperiente descobriu meu trabalho por acidente. Foi um tiro de sorte.” (335)

Depois que Vigoa foi capturado, um integrante de sua equipe estava preparado para testemunhar contra ele em troca de clemência. Esta pessoa, no entanto, terminou pendurada em sua cela em circunstâncias misteriosas. Apesar de estar em isolamento a maior parte do dia, Vigoa estava tentando sair pelas grandes de sua janela e escapar. Isso demonstra o espírito indomável de Vigoa: mesmo quando estava prestes a ser condenado a prisão perpétua, ele ainda encontrou a possibilidade de tentar escapar.

O tom de nossa primeira e das subsequentes entrevistas é prático e até cordial. Mas quando Vigoa compara o tiroteio de Ross e as trágicas mortes na guerra, eu o interrompo. “Roubar as pessoas à mão armada não é guerra”, lhe digo. “Roubar as pessoas sob a mira de uma arma para se enriquecer e depois atirar nelas quando resistem é assassinato.”

O rosto de Vigoa escurece. Ele me olha duramente, e nos olhamos nos olhos. Há uma longa pausa e depois suspira. “Tem razão, não é guerra.”, diz Vigoa. “-Bem, talvez um pouco como a guerra. Na guerra não matamos apenas soldados, mas também pessoas inocentes. Mas às vezes um homem não tem outra opção.” Vigoa ainda está atônito porque os guardas do Desert Inn e do Ross arriscaram suas vidas pelo dinheiro de outra pessoa.” (354 – 355)

Quando é questionado pelo autor do livro, Vigoa resiste à moral híper-civilizada, e se nega a excluir o “inocente” em seus ataques indiscriminados. Mais uma vez, é muito revelador que ele entenda o que tantos “eruditos” não conseguem: que os inocentes não são tão inocentes assim, e que as pessoas “fazendo o seu trabalho” são justamente os que sustentam a civilização.

“José Vigoa é um exemplo do criminoso mais temido no futuro”, disse o xerife Bill Young. “Nas forças de segurança os EUA sabemos exatamente como lidar como o bandido de rua, mas estamos muito atrasados com os estrangeiros nascidos e treinados, que são inteligentes e não cometem delitos porque são viciados ou precisam de dinheiro para drogas. Estamos vendo cada vez mais esses caras em Las Vegas, particularmente no Oriente Médio, nos Estados Bálticos e na América do Sul. Seus valores são muito diferentes dos nossos, e o lado implacável que eles mostram deixa muitos policiais americanos atordoados. Muitos desses caras tem formação militar e são sofisticados e bem instruídos. Será necessário um esforço conjunto de nossa parte para lidar eficazmente com os José Vigoas do mundo”.

“A história de José Maual Vigoa Pérez acaba por ser a história do nosso tempo.” (364)

Assim termina o livro de John Huddy sobre um grande ladrão individualista que passará o resto de sua vida em uma prisão nos Estados Unidos. A partir desta passagem, fica claro que José Vigoa foi um pioneiro: um presságio das coisas por virem. Acredito que o eco-extremismo compartilha muitas das mesmas características que o xerife descreve aqui: pessoas que são treinadas (mesmo as que se autotreinam), indiscriminadamente violentas, bem instruídas e comprometidas com o empreendimento criminoso. À medida que a estrutura da sociedade continua a se desintegrar (no sentido institucional), e implacáveis em seus métodos. Isso, portanto, não é uma previsão, mas a leitura do inevitável. “As coisas desmoronam, o centro não aguenta…”

O eco-extremista é aquele que se entregou ao caos que ameaça a civilização tecno-industrial. Aprendem com José Vigoa, as tribos primitivas, companheiros terroristas, e qualquer um que possa fornecer exemplos sobre como conduzir uma guerra pessoal em defesa extrema da Natureza Selvagem, embora essa defesa seja apenas olho por olho, dente por dente.

Fonte:

Huddy, John. Storming Las Vegas: How a Cuban-Born, Soviet-Trained Commando Took Down the Strip to the Tune of Five World-Class Hotels, Three Armored Cars, and Millions of Dollars. New York: Ballantine Books, 2008

(NdT) Notas do tradutor:

*Forças especiais russas. Vigoa como soldado cubano foi treinado na antiga URSS, sob a doutrinação das forças de elite.

**Utilizar um carro como “aríete” é tomá-lo como uma arma para quebrar portas e penetrar obstáculos na fuga.

***District Attorney, o procurador.

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JOSÉ VIGOA: DADOS BIOGRÁFICOS

José Vigoa foi o maior assaltante de Las Vegas. Nasceu em 24 de Dezembro de 1959, em Caimito del Guayabla, Cuba. Ele cresceu sob o regime socialista implementado por Castro.

Aos 13 anos foi enviado para a URSS e lá ficou por 6 anos para receber treinamento militar.

Após terminar o treinamento de Spetsnaz, encabeçou um grupo armado de cubanos no Afeganistão que combateram contra os Talibãs enfrentando a União Soviética e seus aliados naqueles anos.

Após os confrontos Vigoa retorna a Cuba, mas logo depois decide sair do país e em 1980 chega a cidade americana de Las Vegas.

Sem oportunidades de emprego e se vendo numa plena crise de imigração que sacudia os Estados Unidos, se torna traficante, mas em 1989 é preso em uma operação especial da DEA, e é acusado de tráfico de cocaína.

Vai para a prisão cumprindo uma sentença de 7 anos e, em dezembro de 1996 sai baixo liberdade condicional.

Vigoa, fora da cadeia, sedento de vingança, começa a preparar um plano criminoso elaborado que o colocaria na história. Treina seus amigos no hostil deserto de Nevada (Oscar Cisneros, Luis Suarez e Pedro Duran), começa a juntar armas curtas e vigiar cassinos de luxo, hotéis caros e carros blindados que transportavam dinheiro destes mesmos negócios. Assim, a espetacular carreira criminosa de Vigoa dá seus primeiros passos:

– 20 de Setembro de 1998, Vigoa e seus homens assaltam o cassino MGM Grand, vão para a saída previamente vistoriada onde emboscam dois guardas armados que levam sacos cheios de dinheiro do mesmo cassino. Roubam suas armas e levam 1 milhão e meio de dólares em dinheiro vivo, além de cheques.

O trabalho é limpo, sem disparar nenhum tiro. Os ladrões fogem sem deixar pistas. A polícia ainda não sabe o que estão enfrentando…

– Outubro de 1998: O bando de Vigoa se faz passar por empregados e rouba 11 veículos de uma loja de aluguel de carros. Estes ao serem muito difíceis de rastrear seriam utilizados para escapar nos assaltos que tinham pensado mais adiante. Este é o maior roubo de carros de Las Vegas.

– 28 de Junho de 1999: Em uma tarde ensolarada, o grupo liderado por Vigoa embosca um par de guardas de um blindado que saía do cassino Desert Inn. Os guardas resistem ao assalto e começa um tiroteio onde os guardas são feridos. Nesta ocasião Vigoa e companhia partem sem um único dólar, e embora a fuga deles seja implacável, essa seria uma lição que os marcaria.

– Agosto de 1999: O famoso e luxuoso casino Mandalay Bay é roubado por um grupo de homens armados, desta vez o montante seria de 100 mil dólares em dinheiro, os responsáveis seria o bando de Vigoa que foge sem deixar pistas para a polícia.

– 03 de Março de 2000: Homens encapuzados emboscam um veículo blindado que saía de uma loja de roupas em Henderson, os guardas resistem ao assalto e Vigoa com um Fuzil AK-47 os assassina a sangue frio. A polícia procura desesperadamente os assaltantes e os assassinos, mas não há nenhuma pista.

– 22 de Abril de 2000: Pistoleiros roubam dois seguranças do luxuoso hotel New York New York. Levam milhares de dólares e, como em todos os casos, não deixam nenhuma pista conclusiva para as investigações da desmoralizada polícia de Las Vegas.

– Junho de 2000: Em uma operação que dura aproximadamente 1 minuto, três homens se dirigem aos caixas principais do famoso cassino Bellagio e com pistola em mãos levam todo o dinheiro que encontram. Vigoa dirige o assalto desde o bar e dá a ordem para abandonar o lugar. O centro de operações em segurança do cassino capta todo o assalto em suas câmeras de segurança, e alertam os guardas que logo seguem o carro onde fugia o bando de Vigoa. Este, percebendo a presença dos guardas, com um só disparo no pneu deles, os detém e consegue escapar.

O roubo do Bellagio foi de 200 mil dólares em dinheiro.

É aqui onde começa a queda do bando de assaltantes mais famoso de Las Vegas.

Após o espetacular assalto ao Bellagio, os mesmos proprietários do cassino forneceram as imagens das câmeras de segurança à polícia, que cederam a todos os noticiários. Assim, difundiram as imagens dos rostos dos ladrões em todos os veículos da época; o oficial da liberdade condicional de Vigoa o reconhece e dá informações à polícia que rapidamente começa a caçada.

– 07 de Junho de 2000: Vigoa é localizado saindo de um shopping center com sua família, e é seguido pela polícia. Ao perceber a presença da polícia, Vigoa acelera seu carro e começa uma feroz perseguição, a equipe da SWAT fecha a estrada fazendo com que Vigoa saia do veículo deixando sua família dentro dele, e fugindo a pé tentando despistar seus verdugos. Ao se ver encurralado Vigoa luta fisicamente com os policiais que tentam prendê-lo, os enfrenta, mas o número o supera. São necessários 4 agentes para imobilizá-lo e ele é preso.

Já na prisão, os juízes pensam em decretar a pena de morte a Vigoa devido os assassinatos dos guardas do Henderson, e após prender seu amigo Oscar Cisneros, obrigam-no a depor contra Vigoa, mas este amanhece enforcado e o caso se afunda, a única testemunha que iria depor contra Vigoa está morta, não se sabe se Cisneros decidiu cometer suicídio em vez de enviar a morte o chefe criminoso de seu próprio bando, ou se alguém o matou fazendo com que o fato parecesse um suicídio.

– 03 de Junho de 2002: Vigoa tenta escapar da prisão, mas é descoberto pelos guardas.

– 16 de Agosto de 2002: Vigoa é julgado e este se declara culpado de 43 acusações de crimes não graves e 3 acusações de crimes graves. O condenam a sentença perpétua, onde ele passa seus dias pensando em como escapar, se a vida o permite…

“Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica

Análise do novo livro de Theodore Kaczynski traduzida da primeira edição da Revista Atassa. No texto se discute e analisa desde a perspectiva dos eco-extremistas os principais fundamentos da teoria do influente teórico.

A diferença principal entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecno-industrial. Nós atacamos porque o futuro é incerto.” – Reação Selvagem, em Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem.

Introdução

Em setembro de 2016, Kaczynski lançou sua análise mais ambiciosa de sua tão falada “revolução contra o sistema tecnológico” na forma do livro Revolução Antitecnológica: Por Que e Como (RA), um texto com mais de 200 páginas dedicado apenas a várias questões relacionadas a ação revolucionária contra o sistema tecnológico. Leitores familiares com os escritos de Kaczynski saberão que essa noção de uma revolução contra o sistema tecnológico sempre foi uma parte importante do pensamento de Kaczynski. A noção aparece pela primeira vez na forma de um chamado pela destruição completa da civilização industrial no primeiro comunicado do Freedom Club enviado ao San Francisco Examiner em 1985, e continuou a aparecer nos escritos de Kaczynski. Por exemplo, no famoso trecho de A Sociedade Industrial e o Seu Futuro (ASIEOSF) em 1995:

Nós advogamos então por uma revolução contra o sistema industrial. Essa revolução pode ser ou não ser violenta; ela pode ser súbita ou um processo gradual ocorrendo ao longo de algumas décadas.”

Apesar de ser um elemento importante de seu pensamento, uma análise mais profunda das questões envolvidas em tal revolução estão em grande parte ausentes de ASIEOSF, e espalhada por ensaios como “A Revolução Que Está Por Vir” e “Atinja Onde Dói”, para mencionar alguns dos mais pertinentes. Parece que esse livro tenta expandir um elemento essencial, porém sub-analisado do seu pensamento. Como uma breve análise, o livro é dividido em duas partes que correspondem a dois pontos de interesse indicados no subtítulo, tanto o porquê de Kaczynski ver uma revolução contra o sistema tecnoindustrial como a única resposta plausível para “os principais perigos que pairam sobre nós”, quanto sugestões de “estratégia central” para preparar e realizar tal revolução.

Vale notar que apesar de ser uma expansão do tratamento de assuntos relacionados a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, grande parte do conteúdo de RA não pode ser considerado particularmente inovador para qualquer um que está acostumado com os escritos de Kaczynski; não há muito de novo do ponto de vista teórico. Muitos dos elementos centrais apresentados nessa obra podem ser encontrados de forma dispersa em ensaios e cartas em Escravidão Tecnológica por um leitor cuidadoso com capacidade de sintetizar os comentários feitos ao longo dessas peças. Fundamentalmente, a base teórica de Kaczynski permanece a mesma de sempre, enquanto a maior parte do livro é dedicada a oferecer uma extensão dessa base através de uma análise histórica e de argumentos delineados de forma mais rigorosa. A exceção disso é a exploração da teoria do colapso por parte de Kaczynski no segundo capítulo.

Antes de se aprofundar na análise do livro, eu vou abrir o jogo e expor a minha posição ideológica. É importante notar que muitas das minhas críticas ao RA estão ligadas à minha afinidade com eco-extremistas. Das várias críticas que ITS (Individualistas Tendendo ao Selvagem) e Reação Selvagem apresentaram contra Kaczynski até o seu enfoque no presente como o único foco de ação razoável (e o seu ceticismo em relação a especulações futuras), eu valorizo muito as contribuições dos eco-extremistas para o pensamento anticivilização. Vale também notar que grande parte dessas críticas estão disponíveis em outros lugares, então eu não vou dedicar muito espaço as nuances das críticas levantadas pelos eco-extremistas, a não ser onde elas se mostrem pertinentes ao conteúdo do RA. Tendo dito isso, o produto final da obra de Kaczynski é um tratamento sistemático e unidimensional de uma questão que passou a constituir um elemento central de seu pensamento. Sendo assim, RA desempenha um papel importante na obra de Kaczynski, sendo também importante para aqueles que estão interessados nas nuances de seus pensamentos sobre a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, apesar da minha desconfiança pessoal do pensamento revolucionário que caracteriza a obra.

1. O Desenvolvimento de uma Sociedade Jamais pode ser Sujeito ao Controle Racional.

Kaczynski abre o primeiro capítulo da obra com uma exploração da tese que sociedades complexas jamais podem ser racionalmente controladas. Essa exploração é uma expansão da sua crítica contra soluções reformistas para os problemas do sistema tecnológico apresentada pela primeira vez em ASIEOSF nas seções intituladas “Alguns Princípios da História” e “A Sociedade Tecnoindustrial não Pode ser Reformada” (Parágrafos 99-113). O foco principal dessas duas secções do ASIEOSF é ilustrar que “Pessoas não escolhem conscientemente e racionalmente a forma de sua sociedade. Sociedades se desenvolvem através de um processo de evolução social que não está sob controle humano racional” (“Escravidão Tecnológica”, p 68). A tese principal do primeiro capítulo de RA é a mesma tese apresentada nos capítulos mencionados de ASIEOSF.

A diferença entre os dois escritos está principalmente nos argumentos fornecidos para apoiar a tese. Enquanto a tese em ASIEOSF é baseada em uma dedução lógica de uma série de premissas precedentes, em RA ela é em grande parte pressuposta, e a maior parte do ensaio é dedicada em fornecer exemplos históricos que demonstrem sua veracidade em eventos reais. Kaczynski deriva uma vasta gama de exemplos da história escrita para ilustrar essa tendência (a esse ponto praticamente um truísmo para quase todos que apresentam alguma perspectiva anticivilização) dos planos para controle racional de sociedades de larga escala raramente ocorrerem como planejado. “De fato, fracasso é a norma” (RA, p.7). Além do mais, Kaczynski oferece uma série de cenários cada vez mais implausíveis para testar a força de sua tese. Ele até mesmo continua com esses cenários em seu primeiro apêndice, “Em Apoio ao Primeiro Capítulo”, que consiste em uma série de experimentos mentais usando mais cenários hipotéticos (novamente, cada um mais absurdo do que o último caso você não esteja ainda convencido). Previsivelmente, Kaczynski lida com cada contraponto demonstrando que mesmo permitindo uma série de cenários cada vez mais implausíveis, o controle racional de sociedades complexas permanece fora da capacidade humana e mesmo não humana (usando, por exemplo, a aplicação de algo como o teorema de incompletude de Godel para demonstrar a impossibilidade de qualquer sistema totalizador para o controle não-humano da trajetória de uma sociedade). A imagem da nossa sociedade complexa que emerge no fim é análoga a de um navio sem ninguém no timão. Mas é pior ainda; esse é um navio tão massivo e complexo que nenhuma pessoa ou coletivo de pessoas a bordo sabe o suficiente sobre esse gigante para ser capaz de dirigi-lo conscientemente, e nem seria capaz de saber. Essa é a imagem de um gigantesco monstro sem precedente histórico diante do qual somos impotentes.

Novamente, nada disso é algo que Kaczynski não tenha dito de uma forma ou outra ao longo de sua obra. Apesar disso, esse livro mais recente – que tem a intenção de elaborar mais sobre a impossibilidade do controle racional da sociedade e ilustrar a veracidade do conceito através de uma série de exemplos históricos – é admirável. De certa forma, não há muito o que falar sobre esse capítulo, pois eu não discordo de maneira significativa com a tese e concordo em grande parte com as suas conclusões. No fim das contas, é difícil encontrar muito do que reclamar em relação a análise apresentada aqui.

II. Porque o Sistema Tecnológico vai Destruir a si Mesmo

Como mencionado na introdução, esse capítulo contém algumas das poucas inovações teóricas no livro. Esse capítulo é dedicado a uma exposição da necessidade de auto-aniquilação por parte do sistema tecnológico. Para dar um contexto teórico: em respeito à perspectiva de colapso do sistema tecnológico, a maneira que Kaczynski tem lidado com o rumo da sociedade tecnológica no passado admite que a sua trajetória não está sujeita ao controle de seres humanos (veja o comentário do primeiro capítulo), mas ele tem sido hesitante em fazer qualquer afirmação forte sobre a necessidade de um colapso.

A maioria das explorações teóricas ocorrem na segunda secção do capítulo. É ali que ele apresenta a estrutura formal da teoria em termos gerais e abstratos. Para apresentar a sua teoria, ele se foca primariamente no que ele chama de “sistemas auto-propagantes”. Esse conceito é central a suas explorações aqui, e ele descreve esses sistemas como qualquer “sistema que tenda a promover a sua própria sobrevivência e propagação”. (RA, p42.) Kaczynski apresenta exemplos de sistemas auto-propagantes que variam de organismos biológicos individuais até grupos de organismos biológicos, que incluem grupos de seres humanos. Sociedades humanas complexas como a sociedade industrial moderna se encaixam nessa categoria de sistemas auto-propagantes. Seguindo essa definição geral, Kaczynski passa o resto da segunda secção apresentando sete proposições sobre características estruturais de sistemas auto-propagantes, e por extensão, sociedades complexas, que representam o conteúdo formal da sua teoria de colapso. Kaczynski também utilizará essas proposições na terceira e quarta secções para mostrar como os eventos que estão ocorrendo na sociedade moderna, assim como o que ele enxerga como o resultado necessário, seguem as dinâmicas estruturais apresentadas em sua teoria. Essencialmente, essas sete proposições constituem o cerne de sua teoria em abstrato, e eu as repetirei aqui para o leitor:

1. Em qualquer ambiente suficientemente abundante, sistemas auto-propagantes surgirão, e a seleção natural levará a evolução de sistemas auto-propagantes que desenvolverão meios cada vez mais sofisticados, sutis e complexos de sobreviver e de se propagar.

2. No curto prazo, a seleção natural favorece sistemas auto-propagantes que buscam vantagem a curto prazo com pouca ou nenhuma consideração pelas consequências de longo prazo.

3. Subsistemas auto-propagantes de um determinado supersistema tendem a se tornar dependentes do supersistema e de condições específicas que prevalecem no supersistema.

4. Questões de transporte e comunicação impõe um limite no tamanho da região geográfica pela qual um sistema auto-propagante consegue estender as suas operações.

5. O limite mais importante e o único limite consistente do tamanho da área geográfica pela qual grupos auto-propagantes humanos podem estender as suas operações é o limite imposto pelos meios disponíveis de transporte e comunicação. Em outras palavras, apesar de nem todos os grupos humanos auto-propagantes tenderem a expandir as suas operações por uma região de tamanho máximo, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes que operam ao longo de regiões que se aproximam o tamanho máximo disponível pelos meios disponíveis de transporte e comunicação.

6. Em tempos modernos, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo. Além do mais, mesmo que os seres humanos sejam substituídos por máquinas ou outras entidades, a seleção natural ainda tenderá a criar outros sistemas auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo.

7. Enquanto os problemas atuais de transporte e comunicação não constituem limitações efetivas no tamanho das regiões geográficas nas quais sistemas auto-propagantes operam, a seleção natural tende a criar um mundo no qual o poder é em grande parte concentrado nas mãos de um número relativamente pequeno de sistemas auto-propagantes globais.

Kaczynski tenta estabelecer argumentos para demonstrar a veracidade de cada proposição apresentada na segunda secção, ou como ele diz, para demonstrar que nós temos evidência suficiente para acreditar que essas proposições são, ao menos, razoavelmente precisas. Como afirmações abstratas sobre tendências de sistemas auto-propagantes, e depois sobre sociedades complexas (ao menos sob a luz de várias presunções), nenhuma das proposições parece claramente problemática. Não vale a pena gastar o tempo ou a sanidade do leitor com um foco míope nos detalhes precisos de cada proposição. Para os objetivos desse ensaio, é suficiente permitir que as proposições se sustentem apesar da possibilidade de alguns equívocos em suas respectivas formulações. Ele também se esforça ao máximo para mostrar que cada proposição pode ser logicamente inferida da anterior, o que é característico de sua forma de trabalhar. Ele pode ter desistido de trabalhar com matemática avançada há muito tempo atrás, mas seu pensamento ainda é em grande parte guiado pela rigidez formal de um matemático. A formulação da segunda secção não é imune a meticulosidade excessiva, como leitores atentos podem ter notado ao ler as sete proposições listadas anteriormente. Apesar de seus melhores esforços, as conexões que ele tenta fazer parecem forçadas às vezes, e as secções parecem pular de ponto em ponto com ligações que dão a impressão de terem sido feitas a força em uma tentativa de dar a teoria alguma forma de certeza lógica. A apresentação é desprovida da sistematicidade frequentemente presente nos escritos de Kaczynski.

Me parece que os problemas com essa secção são parte de um problema maior com o capítulo como um todo. O problema não envolve essa ou aquela proposição ou mesmo conexões questionáveis entre elas; apesar de haver razões para criticar esses fatores também, como notado. Em minha opinião, o problema está nas extensões que Kaczynski tenta fazer em relação as conclusões que ele tenta derivar desse capítulo. As conexões suspeitas entre proposições e a falta de fluidez com a qual a teoria é apresentada parece surgir de um capítulo que propõe mais do que deveria. Kaczynski é honesto em relação ao fato de que nesse capítulo, e mais especificamente na segunda secção, ele está argumentando “que existe de fato um processo” pelo qual sociedades tecnologicamente avançadas se autodestroem, e que ele está apresentando uma teoria sobre como esse processo funcionaria. Infelizmente, eu não acho que esse capítulo cumpre as expectativas, nem que ele apresenta um argumento sólido para acreditar na ruína inevitável da sociedade tecnológica, por mais que Kaczynski não concorde.

Eu notei nas secções introdutórias deste ensaio que muitas das minhas discordâncias em relação ao livro vem da minha afinidade com críticas e perspectivas apresentadas por eco-extremistas sobre muitas dessas questões, e esse é um exemplo. Eu não acho que a tese que Kaczynski está tentando provar pode ser apresentada honestamente sem entrar em um nível de especulação que torna essa tarefa intelectual sem sentido. Levando isso em consideração, o fracasso de qualquer tentativa de prever com precisão o futuro da nossa ou de qualquer sociedade tecnologicamente avançada não me surpreende. A ideia da autodestruição inevitável da civilização tecnoindustrial, e especialmente a ideia de que alguém vai apresentar uma teoria descrevendo-a – isso se aplica a todas as sociedades tecnologicamente avançadas em qualquer tempo ou lugar – é uma ideia que não me parece plausível sem entrar em especulações revolucionárias.

O que é particularmente interessante para mim é que a impossibilidade de desenvolver tal teoria é algo que deveria ser realisticamente implicado por algumas das explorações do primeiro capítulo, que demonstra por exemplo a impossibilidade de controlar sociedades complexas racionalmente. Uma das mais importantes razões (mas certamente não a única) para a impossibilidade desse controle é o limite do conhecimento humano, e mais especificamente da capacidade de entender apropriadamente o tipo de problemas de conhecimento dos quais emergem campos da matemática como a teoria de sistemas dinâmicos e o que é frequentemente chamado coloquialmente de “teoria do caos e da complexidade”.

A quantidade e o tipo de variáveis em jogo em um sistema como a nossa sociedade tecnológica moderna significa que nós estamos lidando com um sistema que se comporta de acordo com as descrições apresentadas pela teoria de sistemas dinâmicos (pense em algo como sistemas climáticos e a dificuldade de prever o clima a longo prazo). Em tais sistemas, previsões a longo prazo se tornam impossíveis devido à complexidade e as tendências comportamentais do sistema envolvido. Nesse caso, essa impossibilidade se aplica tanto a análises reformistas/progressivas quanto ao tipo de conclusões que Kaczynski tenta apresentar aqui no segundo capítulo (e nós veremos que as repercussões lógicas do primeiro capítulo tem consequências para o resto do livro e para o planejamento de revolucionário de poltrona apresentado Kaczynski mais à frente no livro). A complexidade do sistema com que estamos lidando é tanto que esse tipo de teorização se torna praticamente impossível sem adentrar em meras especulações. Levando isso em consideração, nós nos encontramos em um impasse devido a impossibilidade de dizer qualquer coisa quanto as perspectivas de um colapso. Mas como dito antes, há um “primitivismo sem catástrofe”, e os eco-extremistas nos mostraram como.

No fim das contas, Kaczynski pegou o dinamismo, complexidade e poder da sociedade moderna e criou uma interpretação que os entende como as sementes de sua própria destruição, o que convenientemente se encaixa a sua práxis revolucionária. Mas a sua conclusão não é a única possível. Ela envolve uma série de saltos teóricos para terrenos dos quais não podemos falar com boa consciência intelectual. Apesar de toda essa teorização, podemos igualmente concluir que todo esse dinamismo da sociedade moderna que Kaczynski vê como a sua ruína pode ser justamente a causa de sua autopreservação. Essa é, por exemplo, a forma de pensamento que caracteriza os ecomodernistas. Ao tentar responder questões como essa, nós devemos ser honestos com nós mesmos e admitir que nós simplesmente não temos as respostas. No final nós nos deparamos com o fato de que o futuro é incerto, e nos resta apenas o presente. A catástrofe pode ou não chegar, mas se ela chegar ela pode terminar aperfeiçoando a civilização ao invés de se tornar o messias dos teóricos anticivilização. Mas mesmo que isso seja verdade, os eco-extremistas mostraram que isso não é um motivo para ficar quieto. É melhor ter um realismo inabalável e a determinação de um guerreiro do que os confortos milenários de sonhos revolucionários. Eu termino essa secção com as palavras pertinentes de Reação Selvagem:

Pessoalmente, nós não sabemos por quanto tempo as estruturas que mantém a civilização em seu caminho decadente vão durar. Nós podemos ler muito sobre as várias teorias existentes, mas no fim das contas nós terminaremos esperando pelo profético ano em que talvez tudo acabará. De qualquer forma, tudo que os estudiosos podem oferecer são teorias. O aqui e agora denota tudo que é ruim…Como individualistas nós decidimos deixar de esperar por uma crise e tomar as nossas vidas em nossas próprias mãos. Por que? Porque nós já estamos vivendo. Nós não queremos esperar porque a Natureza nos encoraja a retrucar os golpes que ela tem recebido agora.” – Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem

III. Como Transformar uma Sociedade: Erros a Evitar

Com a conclusão do primeiro e segundo capítulo, Kaczynski muda o foco de suas explicações sobre as razões pelas quais ele vê uma revolução antitecnologia como a resposta necessária para o sistema tecnológico para tentar explicar como alguém poderia trabalhar para trazer tal revolução. Essas considerações permeiam este capítulo, assim como o quarto capítulo. Mais especificamente, e aqui o título do capítulo é enganoso, o terceiro capítulo é dedicado em extrair uma série de regras gerais e abstratas que Kaczynski vê como uma parte integral do sucesso de qualquer movimento revolucionário, antitecnologia ou não. Ao apresentar essas regras, Kaczynski começa, como de costume, apresentando uma série de postulados dos quais ele procura derivar essas regras para a ação revolucionária. A primeira secção do terceiro capítulo apresenta quatro postulados, repetidos aqui para o leitor:

1. Você não pode mudar uma sociedade lutando por objetivos vagos e abstratos. Você precisa de um objetivo claro e concreto. Como disse um ativista experiente: “Objetivos vagos e generalizados raramente são atingidos. O segredo é conceber um objetivo específico que vai inevitavelmente impelir a sua comunidade na direção que você quer ir”.

2. Pregar apenas – a mera difusão de ideias – não é capaz de provocar mudanças importantes e duradouras no comportamento de seres humanos, a não ser em uma pequena minoria.

3. Todos os movimentos radicais tendem a atrair pessoas que são sinceras, mas cujos objetivos são apenas ligados aos objetivos do movimento até um certo ponto. O resultado é que os objetivos iniciais do movimento podem ser distorcidos ou completamente alterados.

4. Todo movimento radical que adquire grande poder se torna corrupto quando seus líderes originais (aqueles que entraram no movimento quando ele era relativamente fraco) estão mortos ou politicamente inativos. Ao dizer que um movimento se tornou corrupto, isso significa que os seus membros, e especialmente os seus líderes, buscam primariamente ganhos pessoais (como dinheiro, segurança, status social, posições poderosas ou uma carreira) ao invés de se dedicarem sinceramente aos ideais de um movimento.

A partir desses postulados ele deriva cinco regras:

1. Para mudar uma sociedade de uma forma especifica, um movimento deve escolher um único objetivo simples e claro que irá levar uma mudança desejada se perseguido com sucesso.

2. Se um movimento busca transformar uma sociedade, o objetivo escolhido pelo movimento tem que ser um objetivo que tenha consequências irreversíveis uma vez que ele seja cumprido. Isso significa que uma vez que a sociedade seja transformada através desse objetivo, a mudança permanecerá sem a necessidade de nenhum esforço por parte do movimento ou de qualquer outra pessoa ou grupo.

3. Uma vez que o objetivo tenha sido escolhido, é preciso convencer uma minoria de pessoas a se dedicar ao seu cumprimento através de métodos mais poderosos do que a mera pregação de ideias. Em outras palavras, essa minoria deve se organizar para tomar ações práticas.

4. Para se manter fiel ao seu objetivo, um movimento radical deve encontrar uma forma de expulsar de suas fileiras qualquer pessoa que não seja compatível com o movimento, mas que tenha intenções de participar dele.

5. A partir do ponto que um movimento tenha se tornado poderoso o suficiente para cumprir o seu objetivo, ele deve cumpri-lo o mais rápido possível, e em qualquer caso, antes que os revolucionários originais (aqueles que se juntaram ao movimento quando ele era relativamente fraco) morram ou se tornem politicamente inativos.

Depois da apresentação dos postulados e da derivação das regras, Kaczynski dedica o resto do capítulo examinando a falsidade ou veracidade das regras. Para fazer isso, ele se apoia em registros históricos, citando vários casos para demonstrar que a veracidade de qualquer regra determinada pode ser verificada em eventos históricos. Para demonstrar a importância da aderência a essas regras, o autor cita vários exemplos onde o não-seguimento dessas regras resultou em problemas ou catástrofe para movimentos envolvidos. Apesar disso, o cerne teórico dessa parte está na própria lista de regra para movimentos revolucionários. Como mencionado na introdução, grande parte da base teórica do livro reflete o que já foi dito em sua obra e expande sobre essa base. Isso é verdadeiro para o terceiro capítulo, e eu acredito que leitores familiares com o trabalho de Kaczynski vão reconhecer os temas apresentados aqui de escritos como ASIEOSF, “O Melhor Truque do Sistema”, “A Revolução que Está por vir” e “Atinja Onde Dói”, que tem todos secções dedicadas a questões estratégicas para ação revolucionária contra a sociedade tecnológica.

Eu devo admitir que à primeira vista esse capítulo é fácil de aceitar se você se deixar levar de maneira não-crítica pelo fluxo do pensamento de Kaczynski. Muitos de seus postulados parecem ao menos instintivamente plausíveis tendo em vista a nossa experiência cotidiana ou um conhecimento geral da história, e as regras derivadas desses postulados parecem ser coerentes, além de uma extensão natural desses postulados. Seu recurso ao registro histórico para embasar seus postulados e regras é caracteristicamente metódico, de forma comparável a análise detalhada do primeiro capítulo. O resultado é um capítulo que poderá convencer muitos. E de fato, muitos chegaram a conclusões similares seguindo essa linha de raciocínio. Basta ler os escritos do Último Reducto (UR) ou dos Indomitistas para encontrar exemplos de grupos e indivíduos que seguiram grande parte do pensamento de Kaczynski ao pé da letra. É fácil se deixar levar pelas suas teorias de revolucionário de poltrona e esquecer do fato que a grande maioria do conteúdo dessas teorias é puramente especulativo, pensado de forma teórica dentro de uma cela de prisão no Colorado. Essa situação é análoga a maneira que alguns físicos falam sobre ficarem tão encantados com a elegância de teorias matemáticas que eles terminam acreditando que essa elegância tem que ser a expressão de alguma verdade. Apesar disso, a realidade nunca teve nenhuma obrigação de se conformar com o que nós desejamos, e isso é verdade para as teorias de Kaczynski tanto quanto para os físicos perseguindo o tênue rastro da teoria das cordas.

Eu não estou apenas sendo exigente. Há muitas críticas legítimas a serem feitas sobre o conteúdo desse capítulo (se nós decidirmos entreter esse tipo de teorização de poltrona). Para elaborar um pouco, há óbvias contradições entre o planejamento revolucionário apresentado nesse capítulo e as conclusões apresentadas no primeiro capítulo, que praticamente proíbem esse tipo de planejamento. Se você se recorda, nós notamos que as observações lógicas do primeiro capítulo se aplicam não apenas a reformistas/progressistas tentando direcionar a sociedade para os rumos que desejam, mas também a revolucionários que visam perturbá-la com ações revolucionárias. Esse observação é verdadeira devido a impossibilidade de fazer previsões a longo prazo, justamente o tipo de previsões necessárias para que um movimento revolucionário trace um plano e aja de acordo com ele. Certamente, é possível tentar tornar as regras suficientemente gerais para que elas possam ser aplicadas a diversas situações, mas a esse ponto uma regra tão abstrata tem pouca relação com as particularidades concretas de eventos reais. Para ser justo, Kaczynski admite no terceiro capítulo que essas regras não devem ser interpretadas como “regras rígidas” (Ra, p.119) devido as dificuldades já discutidas em prever situações reais comas quais um movimento revolucionário teria que lidar, mas nós já explicamos porque esse reconhecimento não muda muita coisa. Essa contradição entre capítulos não é a única crítica que eu tenho a fazer desse capítulo. A tentativa de Kaczynski de derivar axiomas não-históricos de exemplos históricos, por exemplo, tornam suas regras e postulados ao menos duvidosos,pelo menos aos olhos de um approach histórico. Esse mesmo problema ocorre no quarto capítulo.

Alguns talvez diriam que essa análise do trabalho de Kaczynski é excessivamente pessimista, derrotista, etc. Outros diriam que ela é rápida demais em jogar fora o trabalho de Kaczynski, mesmo que nós tenhamos levantado várias objeções legítimas. Alguns como o UR acusaram o ITS e o Reação Selvagem dessas mesmas coisas quando eles expressaram uma dose de ceticismo saudável em relação a esse tipo de teorização revolucionária. Essas são as mesmas pessoas que demonstram uma esperança ingênua em frente a essas críticas, refletindo a ingenuidade revolucionária de Kaczynski ao invés de levantar o véu de suas próprias ilusões esperançosas e aceitar o mundo como ele é. No fim das contas, como o Reação Selvagem disse em sua resposta ao UR, grande parte da base para tal revolução contra o sistema tecnológico permanece “ao vento”:

Concluindo esse ponto, a base estratégica para a “grande revolução” é suposição, “talvez”, “esperamos que sim”, “provavelmente”, “no melhor dos casos”, “depende”, em outras palavras, nada concreto, tudo ao vento. Isso tudo nos lembra do que um comediante mexicano popular disse uma vez em seu programa: “talvez sim, talvez não, mas provavelmente quem sabe.” – Reação Selvagem em Algumas Palavras Sobre o Presente e NÃO o Futuro.

IV. Guia Estratégico Para Um Movimento Revolucionário

Enquanto o terceiro capítulo lidou com questões estratégicas de uma revolução antitecnologia em termos mais abstratos, tentando destilar as regras mais críticas para um movimento revolucionário, esse capítulo apresenta um olhar mais abrangente e marginalmente mais realista do programa revolucionário de Kaczynski. Ele cobre diversas coisas nesse capítulo, tratando de muitas questões relacionadas aos caminhos que ele acredita que um movimento revolucionário deve ou não deve tomar. Para aqueles que são familiares com a história das revoluções comunistas, grande parte do programa que ele oferece aqui é derivado das reflexões de figuras chave do pensamento marxista revolucionário. Lenin, Trotsky, Mao e Castro são grandes influências por exemplo. Apesar disso, grande parte do pensamento dessas figuras foi adaptado ao neo-ludismo de Kaczynski. Essa dependência na revolução russa e em outras revoluções comunistas não é algo novo ou surpreendente. Os revolucionários russos e franceses tem sido a tempos uma inspiração para os pensamentos de Kaczynski sobre a ação revolucionária, e a dimensão das revoluções comunistas seguindo a ascensão dos bolcheviques em 1917 fazem da revolução russa e das outras revoluções relacionadas uma fonte óbvia de interesse e inspiração para aqueles com predileções revolucionárias.

Em relação a uma análise crítica desse capítulo, há várias críticas a serem feitas que eu irei oferecer aqui. A primeira e mais óbvia crítica se relaciona primariamente ao tipo de teorização revolucionária que Kaczynski está fazendo aqui e ao grau em que essa teorização ocorre no campo da especulação pura. Há vários momentos no terceiro capítulo que seguem a mesma predileção por planejamento revolucionário oferecido no terceiro capítulo, que as vezes se parecem com tentativas de formalizar sua estratégia. Esse tratamento obviamente reflete aquele do terceiro capítulo, e consequentemente está sujeito as mesmas críticas do pensamento revolucionário apresentadas anteriormente nesse ensaio. Além domais, outra crítica lida com os paralelos que Kaczynski tenta derivar recorrendo constantemente a revoluções comunistas, tanto no nível das ideias que ele tira de seus respectivos teóricos quanto ao seu uso dessas revoluções para justificar a plausibilidade do seu modelo particular de revolução antitecnologia. Eu não sou o primeiro a apontar esses problemas. Em vários comunicados, tanto o ITS quanto o Reação Selvagem criticaram detalhadamente o recurso de Kaczynski às revoluções da Rússia e da França (as críticas mais detalhadas estão na primeira fase dos comunicados do ITS e nas diversas publicações de Reação Selvagem). Essas críticas demonstram as diversas formas em que o papo de Kaczynski sobre uma revolução global ocupa o domínio da fantasia. Nem a revolução russa, nem a francesa, e nenhuma outra revolução fora a industrial conseguiu estender seu alcance pelo planeta inteiro, como eles notaram. As guerras históricas não são comparações análogas.

Também há uma crítica metodológica a que eu me referi brevemente na última secção; isso é, Kaczynski tem uma tendência de olhar para o passado sem considerar o contexto histórico dos eventos que ele está analisando. No terceiro capítulo,por exemplo, ele usa exemplos históricos continuamente para mostrar que vários de seus postulados e regras podem ser derivados da história enquanto ele ignora completamente uma análise do contexto histórico no qual esses eventos ocorreram, além de diferenças entre esses contextos e o nosso atual contexto contemporâneo. A nossa sociedade tecnológica moderna não é a Rússia de Lenin e Trotsky, a China de Mao, a Cuba de Castro, etc. Há vastas diferenças entre a fábrica social, ideológica e material da nossa sociedade contemporânea e a dessas épocas históricas, o que torna qualquer correlação tênue, a não ser da forma mais geral. Como notado na última secção, ele mostra momentos de honestidade onde ele admite que o recurso a história nem sempre fornecerá lições que podem ser facilmente adaptadas de um período histórico passado para o presente. Mas como discutimos aqui, essa honestidade não é exatamente útil. Para recapitular, se as lições derivadas são gerais o suficiente para serem aplicadas a várias situações, elas provavelmente são praticamente inúteis em qualquer situação concreta. Essas abstrações de uma regra geral pouco nos ajudam ao nos depararmos com a complexidade de qualquer problema real.

Os pontos mencionados são certamente problemas reais com as teorias de Kaczynski no quarto capítulo, mas eles não são o maior problema que eu tive com o capítulo. O que eu achei o elemento mais incomodo desse capítulo é o uso constante que Kaczynski faz de uma “crise futura” especulativa como um elemento central de sua práxis revolucionária. O papel messiânico de uma catástrofe para sua revolução antitecnologia se torna cada vez mais óbvio ao longo desse capítulo,chegando ao ponto de se tornar cada vez mais questionável se o programa revolucionário de Kaczynski seria capaz de encarar algo como um “Ataque sem Catástrofe”, para fazer um paralelo ao “Primitivismo sem Catástrofe” de Abe Cabrera. Como o Reação Selvagem expressou anteriormente, enquanto grande parte da reação significativa ao sistema continuar dependendo de uma crise especulativa, “é tudo ao vento”.Minhas rejeições aqui e ali vão de encontro com as críticas eco-extremistas,nesse caso, uma particularmente central: a rejeição dos eco-extremistas de uma revolução como uma forma válida de reação contra o sistema industrial, contra o leviatã da civilização e contra a própria domesticação. Desde os primeiros comunicados do ITS em 2011, eles persistiram com seu foco obstinado no presente como o único ponto sensato para agir e atacar. No primeiro comunicado do ITS seguindo a dissolução voluntária do Reação Selvagem, eles falam o seguinte sobre esse assunto: “Nós não desejamos, não procuramos, não achamos necessário e nem nos interessamos em lutar por uma revolução. Nós desprezamos o termo e acreditamos que esse é um objetivo não existente. Nós atacamos no presente porque ele é tudo que existe”. Ao longo desse ensaio, nós expressamos críticas ao pensamento revolucionário de Kaczynski; muitas dessas análises permanecem relevantes aqui. Nós falamos da impossibilidade em falar honestamente sobre as perspectivas de catástrofes,falamos sobre os problemas com o planejamento revolucionário, etc. Basta dizer que levando em conta essas análises, eu não vejo nenhuma razão para fazer concessões aqui.

Kaczynski e companhia podem sentar e esperar pelo messias do colapso antes de atacar em nome da Natureza Selvagem, mas a marcha da civilização continua a dobrar tudo que é selvagem e natural de acordo com seus desejos e destruir tudo que se recusa a se submeter. O que nos confronta é um presente que demanda que nós ajamos agora. Para encerrar, eu deixo que o ITS expresse em suas próprias palavras esse ataque sem catástrofe:

A natureza selvagem não pode mais esperar. A civilização se expande indiscriminadamente as custas de tudo que é natural. Nós não ficaremos parados de bobeira observando passivamente enquanto o homem moderno rasga a terra em busca de minerais, enterrando-a sob toneladas de concreto ou perfurando montanhas inteiras para construir túneis. Nós estamos em uma guerra contra a civilização e o progresso, e também contra aqueles que a melhoram ou a apoiam com a sua passividade. Qualquer um!” – Individualidades Tendendo ao Selvagem (Its) em seu Sétimo Comunicado

Conclusão

O que falta falar sobre o último livro de Kaczynski então? Eu notei na introdução que dentro do contexto da obra de Kaczynski esse livro ocupa um papel importante como um tratado obstinado e sistemático de seus pensamentos a respeito da ação revolucionária contra o sistema tecnológico. De um ponto de vista puramente acadêmico sobre o autor eu mantenho essa opinião. Eu também notei brevemente a raiz das minhas objeções sob uma perspectiva eco-extremista, e através das análises presentes eu tentei delinear o conteúdo dessas objeções. E é a partir dessa perspectiva que eu acho grande parte do livro simplesmente inaceitável. É dessa perspectiva que eu afirmo a rejeição eco-extremista de ilusões revolucionárias. Eu afirmo o foco dos eco-extremistas no presente como o único foco de ataque. Eu afirmo a honestidade obstinada dos eco-extremistas em face do horrível presente. Eu afirmo a determinação guerreira dos eco-extremistas em lutar mesmo sabendo que essa pode ser uma guerra suicida, além de outros pontos de uma perspectiva eco-extremista. Essas são posições simplesmente irreconciliáveis com a de Kaczynski. Que assim seja. Haverão aqueles sem ouvidos para ouvir. Haverão aqueles que denunciarão essas rejeições como niilistas, pessimistas, derrotistas, etc. Haverão aqueles que trocarão a honestidade pelos confortos de uma ingenuidade revolucionária. Que assim seja. Para eles, tudo que eu tenho a dizer é “Boa Sorte”. Mas para mim e para outros com quem o chamado ressoa, o que Kaczynski tem a oferecer é algo com o que eu não posso concordar. Eu encerro essa conclusão e esse ensaio com uma expressão do espírito dos eco-extremistas do editorial da Regresión #4:

A realidade às vezes nos apresenta um cenário extremamente derrotista e pessimista. Apesar disso, aceitar a realidade é crucial para removermos a venda e aceitarmos as coisas como elas são, mesmo que isso seja difícil. Essa venda, é claro, é a utopia. Muitos criticaram Individualistas Tendendo ao Selvagem, o Reação Selvagem e outros grupos por rejeitar a ideia de um “amanhã melhor”. Eles criticam esses grupos por não esperar um resultado positivo da luta nessa guerra, ou por rejeitar a esperança. Mas as pessoas sempre ouvirão apenas o que eles querem, e não a realidade. O individualista eco-extremista é pessimista e realista ao mesmo tempo. Ele não ouve o falatório do otimista pueril; para ele, o mundo é cheio de duras realidades, e ele deve confrontar essas realidades com força, se defendendo delas com dentes e garras” – Reação Selvagem

O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante

Texto traduzido da Revista Ajajema número 4, divulgada publicamente na web.

Diz-se que o rio Pascagoula, que está dentro do que agora é o estado Norte Americano de Mississippi, canta. O que seriam os estranhos sons feitos pelo rio que muitos dizem que soam como cantos? Alguns creditam a musicalidade do rio a Sereias ou outros seres mitológicos. De qualquer forma, a lenda mais popular data da época anterior a chegada dos europeus, quando o que agora é o Sudeste dos Estados Unidos estava dotado de muitos cacicaços poderosos. De acordo com a lenda,

As tribos Biloxi e Pascagoula viveram por séculos de forma pacífica onde agora é o sul de Mississipi, antes que uma separação entre as tribos resultasse em sua mútua extinção. Altama, cacique dos Pascagoula, se apaixonou por Anola, uma princesa Biloxi que estava noiva do Cacique dos Biloxi, indo contra as tradições das tribos. Altama e Anola queriam estar juntos sem se importar com as consequências. Em resposta, os Biloxi fizeram guerra contra os Pascagoula, matando-os e tomando-os como escravos devido a decisão que Altama havia tomado. Eles decidiram permanecer leais a Altama, e como grupo pensaram que era melhor morrer pelas próprias mãos do que converter-se em escravos, acreditavam que se encontrariam novamente no mundo dos mortos e viveriam em um mundo sem guerra. Altama, Anola, e o povo Pascagoula escolheram afogar-se no rio, e enquanto cantavam sua canção de morte, deram as mãos e caminharam rumo às águas. De acordo com a lenda local, a desaparição do povo Pascagoula ecoa nos míticos sons que vem do rio.

O principal elemento da subjugação que a civilização utiliza é o medo. A domesticação e a escravidão não existiriam sem o medo, sem a firme convicção de que não há nada pior que a morte, que a escravidão e a servidão são melhores alternativas que o final de nossa existência material individual. Deveríamos recordar, especialmente aqueles de nós que viemos de algum dos povos discutidos nestas páginas que nós também somos filhos do medo. Muitas pessoas, como os Pascagoula, tem agora poucos ou nenhum descendente, mas chegaram a conclusão de que era melhor guerrear e/ou morrer que viver como escravos. Somos os filhos da derrota, os nascidos mortos da liberdade. Mas já é demasiado tarde para este tipo de discurso…

Talvez a civilização dure outros dez anos, ou outros dez mil anos. Talvez sejamos hostis a ela agora, mas nos resignemos daqui algumas décadas. Pode ser que sejamos forçados a alimentar a nossos próprios filhos com mentiras e engolir nosso orgulho para suportar o dia. No mínimo, não deveríamos engolir nosso orgulho por completo, nem deveríamos engolir a falsidade da irmandade universal ou o progresso humano. A cada momento nesta apodrecida sociedade deveríamos dar-nos conta de que nos é vendida uma farsa, e alimentar o ódio e o ressentimento de acordo com isso…

Nós os editores não somos capazes nem estamos dispostos a te oferecer sugestões do que você deveria fazer com isso, só que é este ressentimento que te faz manter-se humano, animal e vivo. Mesmo se nenhuma catástrofe acabar com a civilização, a catástrofe de nossa própria domesticação é suficiente para fazer-nos refletir sobre o quanto temos perdido e o que se pode ser feito a respeito. Não há soluções fáceis, e provavelmente nunca houve. Deveríamos nos apegar a esta íntima parte de nós mesmos que a civilização nunca pode tocar, a parte que inspira medo ao híper-civilizado e que se manifesta nas sombras: uma ameaça invisível constantemente em tocaia.

E para aqueles que fazem um pouco mais do que isso, podemos finalizar oferecendo esta dobra pagã eco-extremista:

Que a lua os siga guiando. Que a chuva os refresque.

Que o sol aqueça seus corpos. Que os console o som dos grilos.

Que a Terra manche seus pés. Que as montanhas lhes ofereçam refúgio.

Que a escura noite os esconda. Que suas pegadas sejam apagadas pelo vento.

Para sempre!

Chicomoztoc, 2 de Dezembro.

Tendências Cristãs Pseudo-humanistas

Tradução de Humanist pseudo-christian tendencies, uma resposta publicada na web redigida por encarregados da Revista Atassa a alguns anarquistas.

Li o texto “Tendências Misantrópicas Selvagens” há alguns meses em seu espanhol original. Embora eu ache este ensaio muito mais justo que muitas das críticas feitas nos últimos dois anos, há questões expostas que creio que seria benéfico abordar. Limitarei a minha discussão aos temas Natureza Selvagem, autoridade e misantropia.

Natureza Selvagem

Sobre este assunto existe o ensaio “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?“, que é muito fácil de encontrar. Mas para a questão, citarei uma passagem de uma entrevista realizada por John Jacobi a um eco-extremista:

“… estou consciente de que não sou o salvador da Terra, que a única coisa que pode ser “salva” é a minha própria vida e a maneira como eu me relaciono com o meu grupo de afinidade. A Natureza Selvagem sou EU e meu grupo que se agarra ao ato de não deixar morrer os instintos animais que ainda possuímos. Nos despojaram de tudo, até mesmo de um lugar no qual poderíamos habitar livremente, nos distanciaram de nossos ambientes selvagens, de nossas terras ancestrais e sepultaram-nas com cimento, então a única Natureza Selvagem sou eu e meu grupo, reselvageá-la é o que costumo fazer.” (Trecho de “Diálogo entre um “Eco-extremista” e um “Selvagista”“)

Já sobre o assunto de espíritos/deuses, o seguinte texto de um eco-extremista na Argentina eloquentemente explica a sua defesa pessoal do animismo personalizado:

“Não me surpreende em nada vindo de um grupo de indivíduos tão apegados às lógicas civilizadas, que aderiram a um dos pilares do pensamento empírico e mecanicista, como é o ateísmo. O que dizer sobre este assunto que ainda já não tenha sido dito? Nós, os e as eco-extremistas, temos muito bem destacadas as nossas crenças e visões espirituais, criamos as nossas deidades com base em experiências pessoais na Natureza Selvagem, e veneramos de forma animista os espíritos que habitam nela, como fizeram os nossos antepassados séculos antes da invasão. Estas deidades agarradas à Terra, ao primitivo, nos acompanham e nos guiam a todo momento, nos empurram à confrontação com a mega-máquina civilizadora, nos provém de força e mantém ativo nosso indômito caráter guerreiro. Por todas estas razões e algumas outras, é que rimos dos ateus e seu cientificismo humanista, daqueles e daquelas que baseiam a sua percepção da realidade em uma visão completamente fria, matemática, mecânica, robótica, artificial, etc. Nós não nos importamos que ante as nossas crenças venham a tachar-nos de tolos, crédulos ou de românticos, isso já fizeram os colonizadores no passado, e o fazem a todo momento os híper-civilizados que simplesmente não entendem o idioma do vento, não percebem os sussurros dos vales, o grito dos vulcões ou a sabedoria das árvores. A tudo isso nos dirigimos ao invés de máquinas e robôs, nós preferimos adorar paganamente o espírito da serpente em vez da deusa da razão e seus fiéis discípulos, a ciência e a tecnologia.” (De “Uma Defesa Conceitual do Selvagem: Uma Resposta à Semente de Libertação)

E, em comparação, incluímos um texto de um eco-extremista/niilista do continente europeu:

“Aqui na Europa há também grupúsculos de terroristas niilistas, criminosos individualistas e extremistas e misantropos vivos caminhando, e lembramos mais uma vez que alguns destes grupúsculos foram até pouco tempo próximos a vocês e seus ambientes de podridão, que sabemos quem é quem e por onde anda cada um, que a violência e o atentado para nós não é algo novo, mas uma prática que se tornou uma extensão do próprio ser, então tem sido parte de nossa vida durante alguns anos já… nós não temos “deidades pagãs”, o que temos são armas, explosivos e informação, então, vigiem as suas palavras, suas valentias de internet podem custar caro na vida real.” (De “Algumas Notas Sobre as Recentes Difamações e Breves Esclarecimentos“, O Inimigo Interno)

Os anarquistas autores do texto, certamente, se sentirão mais confusos após ler esta citação, já que nela é expressada um desgosto com a postura contraditória de obedecer aos deuses pagãos e ao mesmo tempo aos próprios caprichos. Dos trechos que citei, o principal ponto de partida é que a ideia de “Natureza Selvagem” como uma entidade autônoma e transcendental não é um dogma obrigatório do eco-extremismo, nem mesmo está imposto especificadamente em nenhum sentido. Um indivíduo pode estar de acordo com ITS e grupos afins, embora não acredite nisso em absoluto, ou em alguns casos, estando em desacordo (ver, por exemplo, o comunicado emitido pelo “Grupúsculo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem”, de Março de 2017). Isso não é retroceder: aqueles que prestam atenção sabem disso há muito tempo. Em nosso atomizado mundo moderno, todas as crenças são individuais e pessoais, e não se traduzem bem quando são impostas ou mesmo comunicadas aos outros. A Máfia Eco-extremista é uma frente unida de individualistas que aderem a crenças pessoais que estão em confrontação com a humanidade moderna. Este pode não ser um alvo ideal para anotar pontos polêmicos fáceis, mas tem sido o caso durante um par de anos.

De qualquer forma, darei minha própria interpretação pessoal do que acredito, sendo o escritor prolífico que sou. Não creio que a imanência e a transcendência com respeito a entidades espirituais sejam inerentemente opostas. Em muitas tradições espirituais, inclusive os pagãos europeus e até certo ponto da teologia cristã mística, adorar deuses transcendentes é realmente um exercício para retornar ao que você realmente é. É um exercício de autoconhecimento. Embora isso possa ser facilmente corrompido em cultos cívicos e alienados, o verdadeiro mago na antiguidade utilizou o ritual e o simbolismo para ascender à divindade (ver, por exemplo, o Corpus Hermeticum). Na verdade, esta foi a base da filosofia moderna, como no Rosacrucianismo de Descartes e Hegel, e a obsessão com a alquimia até Isaac Newton (a alquimia é mais uma transformação pessoal que a mudança de metais básicos a precisos, cf. Carl Jung). Portanto, é obtuso citar Stirner (um discípulo de Hegel, mesmo que ele fosse um rebelde), mas não se dar conta das origens “sacras” de seu próprio discurso filosófico. Continuo afirmando que a “libertação” é um conceito intrinsecamente religioso, não importa o quanto tente fugir de seu passado cristão.

Portanto, é um pouco ridículo pensar que esses eco-extremistas que aderem a uma disciplina espiritual estejam fazendo igual os cruzados quando seguiam a voz do Papa e os jihadistas escutando os gritos militantes do ímã local. Ver a devastação da Natureza Selvagem, sua pavimentação, sua exploração e sua desaparição poderia ser uma experiência espiritual negativa o suficiente para desencadear um despertar em alguns indivíduos (ouvir um chamado, talvez). Eu senti isso. Talvez o/os autor/autores não o sentiram, e talvez acreditem que alguns estão tomando isso mais literalmente do que deveriam. Há muito tempo deixei de considerar a humanidade como o único agente convincente que poderia convocar a minha lealdade, e tampouco acredito muito em mim mesmo para crer que sou o fim absoluto e o fim de tudo (escrevo mais sobre isso abaixo). Não invejo aqueles que tomam as suas deidades literalmente, mesmo que eu não o faça. Em minha opinião, me adiro ao Desconhecido. Às vezes os chamo de “Deuses Escuros”, aqueles que restaram da devastação que é a modernidade, talvez agora sem rosto, sem voz, mas uma presença, no entanto. Não tenho ideia de como adorá-los, ou se eles deveriam ser adorados. Eles não “falam” comigo, mas sei que estão ali, esperando, quebrando os moldes da ilusão civilizada.

Meus deuses estão mortos. A única coisa que falta é matar os seus. Mesmo que esses deuses sejam abstrações como “Humanidade”, “Liberdade”, ou qualquer outra coisa.

Autoridade

Claro, voltamos ao assunto da dominação e da autoridade. Ele/os autor/autores anarquista(s) enfatizam os argumentos cansativos do caráter anti-natural da autoridade, e assim por diante. (“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros…”. Muito obrigado, Rousseau.) Agora vou citar um par de passagens que nos ajudarão a abordar este tema (de novo):

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.” (De “Já Haviam Se Atrasado: Reação Selvagem em Resposta a “Destrua as Prisões“)

– E também:

“Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.” (De “Selvagens Politicamente Incorretos“)

Em um “gol contra” um pouco humilhante, mas talvez involuntário, os autores anarquistas citam os Ona da Terra do Fogo sem se dar conta de que eles, sendo simples caçadores-coletores, tinham uma sociedade baseada no patriarcado:

“A posse patrilocal e patrilinear dos territórios concedeu aos homens o direito exclusivo sobre a terra, que era importante não tanto para os terrenos de caça do guanaco ou outra fauna e os recursos naturais. Mesmo quando um homem passou a residir na linhagem de sua mãe, seu pai e seus tios continuaram sendo as figuras dominantes. O fato de que a fabricação de bens, ferramentas e artigos domésticos possa ser ensinado a todas as crianças e adultos jovens, permitiu aos produtores dominar a economia e manter um nível igualitário de apropriação e produção, frustrando assim qualquer possibilidade de subordinação, exceto a sexual. Esta “exceção” equivale a uma ruptura na sociedade que torna impossível caracterizá-la como igualitária. Poderia ser chamada de “igualitária patriarcal”, mas este rótulo parece ser contraditório ou enganoso.” –Anne MacKaye Chapman, “Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam (“Selk’nam” é outro nome para os Ona)

O mesmo caso ocorre em uma antiga cultura “simples” como a dos povos aborígenes australianos. Embora exista uma grande controvérsia sobre se os europeus exageraram na misoginia dos povos colonizados “não contatados”, há evidências menos anedóticas de que a “dominação” e a autoridade eram uma realidade entre os caçadores coletores “materialmente simples”:

“O paleopatologista Stephen Webb publicou em 1995 sua análise de 4.500 ossos de indivíduos do continente australiano que remontam 50 mil anos. (As inestimáveis coleções de ossos da época foram entregues oficialmente às comunidades aborígenes para que promovessem um novo enterro, o que deteve os estudos de rastreamento). Webb descobriu taxas de lesões e fraturas muito desproporcionais nos crânios das mulheres, sugerindo ataques deliberados e muitas vezes ataques por trás, talvez em disputas internas. Nos trópicos, por exemplo, a frequência de mulheres com traumatismo cranioencefálico foi de aproximadamente 20-33%, frente a 6,5-26% para os homens.

Os resultados mais extremos foram na costa sul, de Swanport a Adelaide, com taxas de traumatismo cranioencefálico feminino de até 40-44%, sendo duas a quatro vezes a taxa de traumatismo masculino. Nas áreas desérticas e da costa sul, 5-6% dos crânios femininos tinham três lesões cranianas separadas, e 11-12% tinham duas lesões.” (de “A Longa História da Violência Aborígene – Parte II, recuperado do site The Quadrant“)

Claro, poderíamos citar todos os tipos de exemplos brutais de abusos misóginos, bem como o desenvolvimento de hierarquias entre os caçadores-coletores como no norte da Califórnia e nos construtores de montículos da Poverty Point no que é agora Luisiana…. Não importa. O ponto é indicar que não somos afetados pela torpe tentativa de nos explodir com o nosso próprio petardo. O eco-extremismo não desafia a “dominação” ou autoridade do passado, nem finge que pode aboli-las para sempre. É uma ideia muito tola de se apegar em qualquer caso.

Digamos o que é óbvio: os eco-extremistas e os niilistas misantropos não mostram adesão a qualquer autoridade humana tal como existe atualmente, e sei também que nem poderiam fazê-lo em um futuro previsível. A própria natureza do que significa ser um individualista eco-extremista/niilista exclui ipso facto qualquer tentativa de criar uma autoridade transpessoal no presente como é comumente entendido. Talvez ITS tenha uma hierarquia militar que se estenda para além das fronteiras e continentes, mas eu duvido muito. Tenho entendido que se trata de um grupo de individualistas comprometidos em uma guerra assimétrica. Qualquer conversa sobre “autoridade” no sentido comum do termo é meramente hipotética.

Quando os eco-extremistas falam de autoridade, eles o fazem de maneira puramente instrumental. A autoridade em seu uso (para além dos aspectos “espirituais” discutidos anteriormente) tem mais semelhança com a estrutura de uma gangue ou máfia e menos a ver com um governo ou um partido político. Não há outra maneira de apoiar outro tratamento do assunto até onde eu possa ver. Se na execução de um crime alguém está “no comando”, a vida dos delinquentes poderá depender de que todos façam o que diz esta pessoa. Se uma determinada pessoa alcança um conhecimento espiritual superior ou o conhecimento de ervas medicinais, essa é a única autoridade que o eco-extremismo parece estar falando. Ao contrário do/dos anarquista/anarquistas autor/autores, eles não tem a ilusão de “construir novas formas de relacionamento entre todos os seres que habitam este mundo e estes com a Terra”.

Você pode pensar que, porque algumas pessoas falam que estão livres da “dominação”, o sangue delas não é vermelho como o dos demais. É bastante lamentável que um animal fique doente e talvez viva quatro anos e meio para falar sobre estar livre de “toda a dominação”. Alguém poderia falar também sobre estar livre da gravidade ou da segunda lei da termodinâmica. Estamos limitados por todos os lugares em nosso contexto, desde quando atravessamos a rua até o que podemos comer no café da manhã. Os eco-extremistas têm o objetivo muito simples e compreensível de se vingar e ver as coisas arderem e serem destruídas. A “destruição de toda autoridade” nem sequer parece significar algo em concreto, e muito menos possível.

“Somos soldados, não se pode escapar deste fato. Soldados no sentido tradicional e soldados em um sentido diferente. Somos guerreiros espirituais, temos uma causa ímpia para colocar um fim na humanidade. Não estamos lutando para preservar nações ou governos. Estamos lutando para retornar a nossos deuses, para nos tornarmos eles. Somos soldados em um sentido tradicional porque esse tipo de resultado não acontecerá sem combate. Tomar a ofensiva é a única coisa nobre que pode ser feita. Goebbels declarou ao povo alemão quando estavam sendo invadidos, “o ódio é nossa oração, a vingança é nosso grito de batalha”. O fedor de uma espécie inferior já não pode ser tolerada. A única solução para uma sociedade doente é a aniquilação.” –Tempel ov Blood, Liber 333

Misantropia

Direi que, pelo menos para mim, a misantropia não é um ato de aprovação do juízo moral. A não ser que alguém seja um completo e desmedido otimista, é evidente que existe um problema. O eco-extremismo em alguns lugares argumentou que o problema é físico, não moral. Como formulado no já extinto blog Wandering Cannibals:

“Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista. Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são humanos demais…”

Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria? Aqueles que se opõem à misantropia parecem pensar que o problema é qualitativo quando, na verdade, é quantitativo. Não é uma questão de inocência ou culpa, é apenas que existem muitos malditos, amorosos e éticos humanos que pensam que suas vidas e seu bem-estar são invioláveis. Que tocar em um fio de cabelo de suas cabeças é um sacrilégio ou, o horror dos horrores!.… autoridade.

Mas, na verdade, não adianta nada discutir o assunto. Isso se torna um exercício tragicômico uma vez que os anarquistas “niilistas” começam a acusar os eco-extremistas de moralismo por realizar as ações mais imorais imagináveis. Dizem algo como: se eles fossem realmente individualistas e “não dominados”, não atacariam a humanidade em absoluto, ou atacariam apenas aqueles que têm a responsabilidade “direta” pela dominação, seja lá o que isso signifique. Sinceramente, o/os anarquista/anarquistas autor/autores parece/parecem abertamente vago/vagos sobre a condenação do ataque indiscriminado, já que é um ponto que levantam. Falo mais de fanboys egoístas que começam um jogo bobo de quem pode se importar menos, que de alguma maneira é algo como o que se segue:

A: “Eu sou amoral, então ataco a sociedade e os humanos.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com a sociedade nem com os humanos, e você simplesmente estaria fazendo as suas coisas.”

A: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com quem estou atacando.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria se eu me importasse com quem você atacou…”

Etc., etc….. Sério, tem sido assim há dois anos. Sabe quantos executivos o/os autor/autores do texto poderia/poderiam ter aleijado até agora?

Ah, é. Me esqueci que ele/eles não tem a intenção de ser uma ameaça para ninguém, exceto talvez para os eco-extremistas, e nem sequer pode/podem prender um deles. Só pra constar, me lembra a polícia.

Então, para concluir, não me importa se os eco-extremistas citam o Monstro Voador de Espaguete para queimar, matar e mutilar. Para mim, é o mesmo: no fim de tudo, somos estúpidos humanos. Tampouco me importam os objetivos absurdos como “a destruição de toda autoridade”. Isso é muito abstrato para que entenda o meu pequeno cérebro, o que é uma boa maneira de dizer que é uma porcaria. Finalmente, eu não gosto muito dos humanos porque não parecem gostar muito de si mesmos. Eles estão defecando coletivamente sobre o único planeta que têm, e cada dia se tornam mais mecânicos e artificiais. Sobre este último ponto, não sei porque sou obrigado a me sensibilizar ou me preocupar com os seres humanos atacados no presente, já que qualquer pessoa aleatória em Paris, Jakarta ou Kinshasa é tão abstrata como Zeus ou como um membro de uma tribo indígena extinta. Para citar o grande reacionário De Maistre:

“A Constituição de 1795, assim como suas predecessoras, foi feita para o homem. Mas não existe no mundo nada que se possa chamar de homem. Ao longo de minha vida, tenho visto franceses, italianos, russos, etc.; sei também, graças a Montesquieu, que se pode ser persa. Mas, quanto ao homem, afirmo que, em toda minha vida, jamais o encontrei; se ele existe, desconheço-o completamente”

Tenho pouco tempo para aqueles que estão obcecados pelos ideais de uma sociedade que supostamente desejam destruir. Se estas pessoas finalmente começam a atacar o que odeiam, e se realmente atacam, não haverá ninguém mais satisfeito que eu. Mas se continuam emitindo anátemas de dentro do escritório da Mãe Superiora do Convento da Santa Anarquia, estarão confirmando minhas piores suspeitas de suas verdadeiras intenções.