Uma Era de Monstros

Tradução do poema An Age of Monsters, de Shaughnessy.

Creio que a guerra da humanidade contra a terra só conseguiu matar os deuses mais gentis
Os deuses que eram amigos dos humanos nas velhas histórias
Mas a arrogância do homem é grande, e seu poder contra a fúria do mundo é limitado
E trará, devido à sua arrogância, uma era de monstros
Os poderes sombrios e ctônicos* NdT1 que emergem das entranhas do mundo
Os monstros que sempre atormentaram o mundo dos homens
Os furiosos deuses das velhas histórias, violentos e cruéis, devoradores de mundos
Inimigos da raça humana, estes serão os deuses do futuro
E quem ame o divino deverá aprender a amar os deuses mais sombrios

Nota do Tradutor:

1: Ctônico se refere às deidades e poderes do submundo.

Canção de Vento

Tradução de Wind Song, escrito de Shaugnessy.

Eu ouvi a tempestade cantar canções elogiando a violência do mundo
Na grande voz cacofônica do vento e da chuva
Os escuros céus ferventes que empretecem o Céu (NdT)
A jovem bétula se inclina diante do poder dos ventos
Dez mil folhas douradas reluzentes caindo ante as correntes de ar
As margens do grande rio engolem as chuvas que caem
Não mais para conter a fúria
Eu ouvi a tempestade cantar canções elogiando a violência do mundo
Um tipo de beleza que te faz humilde
Uma severa recordação do lugar final da humanidade frente a glória da terra.

Nota do Tradutor:

Na oração a primeira ocasião em que se usa a palavra “céu” é para se referir ao local físico, e na segunda se refere ao céu de forma figurativa.

O Espírito do Mundo

Trudução do escrito The World Spirit, de Shaughnessy.

Montanha, pico, beleza, himalaia, nuvens, sol, divindade, deuses, deus, luz, foto,

O Espírito do Mundo

O espírito antigo do mundo não é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó

É o silencioso esplendor do sol dourado

E a violência dos céus naquelas velhas tempestades sobre as colinas onduladas

É o jovem crescimento da primavera, um festejo para o cervo do inverno

E as ensanguentadas mandíbulas do lobo feroz

Formoso e selvagem

A glória divina do mundo, o fluxo de seu poder sublime

 

A Divindade dos Falcões

Tradução do escrito The divinity of hawks de Shaugnessy.

O orgulhoso falcão sobre os ramos torcidos do velho álamo
Forma escura contra o céu da primavera
A violência do céu em seu olhar implacável
Desdobrando suas grandes velas
Saindo de sua posição elevada
A sombra turva sobre as pastagens iluminadas pelo sol
Uma morte brilhante sob as grandes asas
O afiado bico avermelhado com o jovem sol
Estas notas nas grandes sinfonias da terra se sustentam com ritos de sangue

Réquiem

Tradução do escrito Requiem de Shaugnessy.

A velha canção do coiote nos campos distantes parece sombria em meu coração

O som dos pássaros desce das escassas árvores jovens

Notas roucas de sinfonias quebradas soando pela tarde

A luz tardia do sol dourado ainda cai sobre os destroços do mundo

Talvez para beijar o cadáver retorcido uma última vez

Tal é o triunfo comovente da modernidade

Para trocar a glória completa e incompreensível do mundo

Pelos sonhos vazios dos homens

As Bestas Devem Permanecer Unidas

Tradução de Beast must stick together, escrito por Ramon Elani.

—Para Bec

“Se os viajantes incansáveis não fossem em si a causa, então, como a fragrância e a cor da lótus no céu, não haveria percepção do universo”.
—Nagarjuna

A besta jovem disse à velha: Como posso viver neste mundo?

Este mundo dilacerado, quebrado.

A besta velha respondeu à jovem: Siga o teu alento. Fale com os espíritos nas poças.

Estas coisas acontecerão.

A besta jovem disse à velha: Tudo o que vejo é asqueroso e indescritivelmente feio.

Um mundo que é rasgado e eu igualmente rasgado dentro dele.

A besta velha respondeu à jovem: Vá a floresta, faça tortas e lenços.

Escuta as vozes da tempestade sobre as falésias.

A besta jovem disse à velha: Oh, velha bruxa! Busco o profundo poço nas florestas escuras.

Não consigo encontrá-lo.

A besta velha respondeu à jovem: Tu apenas o encontrarás nas profundezas escuras do silêncio.

O que tu procurarás que não poderás encontrar em teu interior?

A besta jovem disse à velha: Mas eu fervo em ira! Anseio sangue e vingança!

Os deuses deverão presenciar o terror que desatarei sobre este mundo maligno.

A besta velha respondeu à jovem: A menos que você faça um buraco em ti mesmo, não haverá lugar para que os deuses habitem em teu interior.

A besta jovem disse à velha: Meu coração é negro e não posso deixar a minha amargura.

Cuspo na paz e na gentileza do sono.

A besta velha respondeu à jovem: Quando estiver sozinha no gelo, cercada por demônios, haverá apenas a voz de tua verdadeira alma para guiar-te.

A besta jovem disse à velha: Tempestade antiga, me carregue na corrente, estou flutuando, atormentada pelos olhos sempre observadores da escuridão.

A besta velha respondeu à jovem: Olha para os cortes sobre meu peito, eu tirei a minha carne com cortes irregulares de uma faca esfoladora.

A besta jovem disse à velha: Te prepararei um festejo e uma reluzente carne vermelha que te dará água na boca.

A besta velha respondeu à jovem. Olha esta lança na qual eu me empalei.

Olha para as tranças de cabelo com as quais eu me estrangulei.

A besta jovem disse à velha: Te vi na casa escura que estava afogada em fumaça. Te vi caminhar com a lua.

A besta velha respondeu à jovem: Eu matei a meu irmão com suas escuras mãos aquela noite.

Eu matei a todos eles por seu silêncio.

A besta jovem disse à velha: O que viste caminhando entre as estrelas?

O que escutaste nos sussurros da neve?

A besta velha respondeu à jovem: O demônio azul se levanta das profundezas glaciais.

Ele infinca as suas afiadas garras nas entranhas do mundo.

A besta jovem disse à velha: Te afogarás em lágrimas? Um mar de óxido.

Despedaçado em fragmentos pelas ondas de ferro.

A besta velha respondeu à jovem: Submerja-te profundamente no abismo do oceano e não temas.

Depois de tudo, as bestas devem permanecer unidas.

Tocaia

Poema Tocaia pertencente à Revista Anhangá 2.

Tocaia

De Tocaia, silenciosos como a Lambú por entre os galhos;

De Tocaia, observadores como o Jacurutu estático;

De Tocaia, caçadores como a Sussuarana pronta para o ataque;

De Tocaia, contundentes como a Sucuri finalizando o abate;

De Tocaia, pacientes desde o alto como o Carcará;

De Tocaia, distantes como o Gavião-Pombo pairando no ar;

De Tocaia, escondidos em grutas como os Morcegos;

De Tocaia, vagantes das Chapadas como os Cervos;

De Tocaia, farejando a presa como o Teiú pela vegetação rasteira;

De Tocaia, subestimados, mas homicidas como o Tamanduá-Bandeira;

De Tocaia, entocados por aí como o Tatu em seu abrigo;

De Tocaia, agouros do Terror como o chocalho da Cascavél anunciando o perigo;

De Tocaia, inesperados como a Jararaca atacando;

De Tocaia, estratégicos como a Jaguatirica se rastejando;

De Tocaia, atentos como a Pega de olho na ameaça;

De Tocaia, sempre despertos como a Paca;

De Tocaia, ariscos como a Raposa em sua trajetória;

De Tocaia, desde o Nada e Fatal como o ataque do Caipora;

De Tocaia, vigiando a tudo como o Tetéu;

De Tocaia, analisando a podridão como o Urubu desde os céus,

De Tocaia, preparados sempre como a Aranha-Armadeira;

De Tocaia, guerreando mortalmente como as Abelhas;

De Tocaia, destrutivos como uma manada de Catitu passando;

De Tocaia, ágeis como a Cutia se deslocando;

De Tocaia, cuidadosos como a Lebre por entre os campos;

De Tocaia, sedentos por sangue como a Piranha em um ataque relâmpago;

De Tocaia, caminhantes como o Aguaraçu mata à dentro;

De Tocaia, florescendo no submundo como sementes levadas ao Vento;

De Tocaia, ferozes como o Jaguar abocanhando o pescoço;

De Tocaia, ameaça noturna e implacável como o Lobo;

De Tocaia, assassinos como o Jacaré estraçalhando a carne;

De Tocaia, invisíveis como o Urutau por entre as árvores;

De Tocaia, certeiros como a Surucucu cravando suas presas;

De Tocaia, rasgando o humano como um Tubarão desde as profundezas;

De Tocaia, migratórios como a Andorinha em sua viagem;

De Tocaia, Indiscriminados como a Natureza Selvagem!

-Urucun

Facas nas Sombras

Tradução de Cuchillos en Las Sombras, poema da Revista Regresión N° 6, compartilhada publicamente na web.

Facas nas Sombras

Oh, carne que se despedaça!
Sangue chove sobre o asfalto,
O grito implora, quase chora,
Um corpo se desvanece no alto.

Corpo falecido por um rugir,
Um uivo e um sagaz miado,
Disfarçados de facas destinadas a ferir,
Apagar o brilho para o civilizado.

A sombra esconde o ato,
Os rostos tingidos das meninas selvagens;
Compartilham destruições e toques,
Apenas as estrelas acareciam os pesares.

Pesares, dores, tragédias….,
As quais fomos condenados, acorrentados.
Bosques indômitos, apenas na memória,
Facas na escuridão, por cada selvagem assassinado.

-Luas de Abril-

Um Poema de Guerra

Texto de A. traduzido da Revista Ajajema 2, publicação compartilhada publicamente na web.

Caminho nos bosques e escuto as canções das aves e o esmagar das folhas, mas as máquinas que gemem e gritam ficam mais barulhentas a cada dia.

Tudo o que escuto é morte.

Caminho nos bosques e busco os selvagens, os coelhos, os cervos e javalis

Seus corpos jazem apodrecidos em um montículo e isso preenche o meu coração de dor.

Tudo o que cheiro é morte.

Caminho nos bosques e busco os antigos carvalhos, praias e cinzas

Seus corpos jazem empilhados ao lado do caminho e a sabedoria de anos

se perde após o “progresso”. Tento respirar, mas o ar está enfermo

Tudo o que saboreio é morte.

Diante de mim jaz uma paisagem torturada, uma ferida aberta e supurante sobre a terra

Onde as máquinas de nossa morte coletiva rastejam como parasitas

Arrancando as entranhas da terra para construir seus monumentos da artificialidade.

Diante de mim jaz uma montanha, uma montanha que nunca deveria ter existido e está alinhada com árvores, filas após filas de árvores que nunca deveriam ter existido.

Árvores que já estão mortas.

O sangue da terra corre para trás e encharca minha pele, sei que me envenena

Mas esta agonia eu mesmo faço. Tomo este sofrimento e o converto em uma arma em meu interior, o qual se estende do abismo de minha mente até a palma das minhas mãos, onde a conspiração se torna realidade.

Caminho nos bosques e escuto o som de meus inimigos, sei que me temem,

Porque seu sofrimento já não é uma opção. É tão duro como uma realidade

Como a dor a qual todos nós fomos submetidos. A vingança arde luminosamente em minhas mãos

Tudo o que vejo é morte.

-A

Buscadores da Paz

Tradução de Seekers After Peace, escrito por Sokaksin.

Vocês, buscadores da paz
Vossas aventuras febris para escapar do mundo
Oh, eles não encontrarão outro mundo além deste!
E se é a paz o que estão buscando deverão encontrá-la aqui
Juntem suas forças para ficar frente ao sublime
Para ver o brilho profundo na beleza e na fealdade do mundo
Para ver e amar a esmagadora glória das coisas
E não escapar rumo à invenções
Esta é vossa única paz

Uma Grande e Terrível Tormenta

Texto escrito por A. para a Ash and Ruin (Subversive nihilist periodical). Foi extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

O império da “humanidade” tem a certeza de sua queda.
A chuva, vil e ácida, tem vindo a cair sobre todos nós
como as lágrimas de uma dor silenciosa por bastante tempo,
No entanto, poucos prestam atenção à tormenta que se aproxima.
Os perdidos e os covardes marcham animados aos montes para o topo da ilusão
construindo os muros de sua própria prisão
na vã esperança de que podem esconder de vista
as nuvens escuras que agora surgem acima de todos.
Mas nada pode deter as marés crescentes
ou deter a marcha dos desertos
que consumirá as cidades
e deixará apenas ruínas em seu rastro.
Com desprezo, amargura e ceticismo
Penetro a escuridão que me rodeia.
E sem qualquer esperança por um amanhã melhor
Eu abraço a tormenta e vagueio por ela.
Carrego minha tocha na noite
E escuto os gritos de batalha através do estrondo.
Ansiosamente vou ainda mais em direção ao Desconhecido
Na busca de uma vida que vala a pena.
A chuva torrencialmente chicoteia em direção abaixo
E a noite é escura e impenetrável
Exceto para os incêndios no horizonte
Que são minha única bússola…

– A