Um Falso Escape

Tradução do escrito de Huehuecoyotl que faz duras críticas a uma das práticas mais comuns na vida civilizada, o vício.

Diferindo das críticas tradicionais o autor não apenas critica o vício em substâncias psicotrópicas que dissociam a realidade e projetam o viciado a um cenário surreal, mas se refere também ao vício em ideologias transformadoras e utopistas que colocam de lado o aqui e o agora pessimista e criam um delirante mundo fantástico que é ansiado pelos seus adictos.

A mentira chamada civilização é uma hidra; cada uma de suas cabeças busca a hora certa para morder, para matar nossos instintos selvagens e nos transformar em robôs que caminham em condição de cúmplices. Desta condição ninguém está livre de se encontrar dentro desta sociedade. Para nós eco-extremistas tudo isso é uma constante guerra interna e contínua, onde há tentativas de viver longe das práticas e dos valores sociais. Várias destas práticas são, para muitos sujeitos -até mesmo os que chamam a si mesmos de “anti-sistema”- libertadoras, quando na verdade são práticas impostas pela civilização. Neste trabalho irei me referir a uma prática social na qual um grande número de hiper-civilizados e sujeitos com “posturas anti-sistêmicas” estão imersos: a vida dentro de um vício. Estas pessoas encontram muitas razões e justificativas para levar esta vida cíclica: a diversão, uma medida contra a tristeza, a decepção, “abrir a mente”, e a que para mim é a mais desprezível; a busca pela fuga da realidade.

A realidade nos golpeia constantemente, vivemos dentro de um mundo no qual o caminho em direção à morte vai se tornando mais e mais curto de maneira rápida. Esta é a cotidianidade chata e depressiva a que uma grande parte da cidadania está presa: estresse, trabalho, família, escola, rotina, transporte, tráfego, etc. Ante todas estas dores “escapes” são buscados, algo que dê um fôlego e faça esquecer estes maus momentos. Seria um erro pensar que ditas fugas que se tornam parte de uma vida cíclica são apenas substâncias ingeridas.

A grande dominação tecnológica é um forte pilar da vida cíclica, tornou-se “normal” ver jovens que na maior parte de sua vida vão com o celular em mãos -isso literalmente-, escravos e aprisionados, fundidos a um “mundinho” virtual com amigos igualmente virtuais e uma forte dependência das redes sociais, as quais não passam nem uns minutos sequer sem revisá-las. Estes são dependentes totais dos celulares e das redes sociais -dentro disso tudo a morbidez e a opulência ditam o dia a dia-, assim caminha grande parte da sociedade, em especial, a juventude, em direção a uma vida de progresso e tecnologia. Anseiam dentro de seus aparatos celulares a “vida ideal” que querem alcançar enquanto ao redor tudo o que é vivo segue desaparecendo. Sua vida ideal se resume no consumismo desenfreado, em relações banais, uma existência onde tudo é assumido como verdade e nada é submetido a críticas. A juventude segue já perdida, são tão dependentes tanto do celular como do álcool. Não vejo nenhuma esperança no futuro. Alguns ilusoriamente pensariam que as gerações futuras ao verem a grande destruição da Natureza Selvagem refletiriam e optariam por uma vida antagônica à estabelecida dentro da civilização tecno-industrial. Eu acho isso incrível. Os “jovens” que para os estúpidos esquerdistas são biologicamente revolucionários se encontram também na condição de hiper-civilizados, levando a cabo as mesmas ações dos adultos, envolvidos em seus estudos, deixando toda sua vitalidade para o “grande” progresso da humanidade, um progresso que está a poucos passos do precipício. Se os jovens são “nossos” próximos revolucionários, a onde iria sua revolução? Ainda que os modos de produção fossem alterados a produção continuaria a durar. E esta revolução… Que revolução poderia fazer um jovem que na maioria de sua existência se encontra ligado a um aparato tecnológico? Como teria vigência a ideia do “povo organizado” se este “povo” segue acorrentado à tecnologias, e segue perpetuando o estilo de vida dentro dos cânones da tecno-indústria? Que isso não seja uma confusão, como eco-extremista não tento estabelecer uma revolução que derrube a civilização tecno-industrial como uma “resposta” ou uma “melhor” revolução. Então, por que criticar a ideia de uma revolução? Ou por que criticar os jovens que se sentem revolucionários?

Penso que em alguns jovens existe um sentimento de culpabilidade ou indignação diante das situações que eles consideram como injustiça. Então, optam por se apropriar de ideologias que propõem uma mudança…, enchem suas cabeça com ideias revolucionárias, e vivem com base em utopias, meros anseios. Isto não deixa de ser um escape da realidade, ignorando a decadente realidade presente e esperando a revolução que chegará. Vivem em seu eterno sonho. Não vejo diferenças de uma pessoa presa a algum videogame com uma outra presa à ideia da revolução. Ambas ignoram o aqui e o agora. Porque o ato de pensar em seu mundo virtual bem como em seu mundo mais justo que algum dia chegará mantém a cabeça ocupada, e no segundo caso, os “revolucionários”, cura-os do profundo sentimento de culpabilidade. Para muitos esta afirmação que aqui faço será incômoda, alarmante e indignante. Responderão eufóricos que ao contrário daqueles que se mantém dentro da realidade virtual, eles como revolucionários realmente analisam a realidade e enfrentam-na. Será isso verdade? Quão real será seu enfrentamento contra a realidade se em suas redes sociais ante os olhos de todos difundem o que fazem sem medo de serem presos? Um enfrentamento “real” contra a realidade dá possibilidades de expressar seus posicionamentos aos quatro cantos? Alguns até mesmo se põem a encher a cara enquanto permanecem “de pé em luta”. Que engraçada é a forma de enfrentar a realidade destes “revolucionários”. Nós eco-extremistas sabemos que estamos diante de um risco constante, que nossas palavras e ações são incômodas para cidadãos e autoridades. Sabemos que as forças de segurança que operam nos distintos territórios onde atentam os selvagens eco-extremistas estão atrás de nós, é por isso que nós seguimos sempre despertos, por isso que rejeitamos tudo aquilo que distorça nossa realidade, porque a aceitamos e a enfrentamos por mais deprimente que seja, é por isso que vários individualistas se propuseram a difundir seus conhecimentos sobre como sobreviver dentro da civilização. Seguimos nos mantendo fora das grades, seguimos conspirando dentro de suas urbes.

Romper com a ilusão revolucionária não é fácil, mas enquanto se vive nela se ignora a realidade presente, tudo se torna tão utópico que se esquece do agora. A revolução que promulgam jamais chegará, o humano perdeu sua condição natural e se transformou em um robô que trabalha à serviço do progresso destruidor da Natureza. Quando será que esses jovens se darão conta da ilusão em que vivem? Eu não sei, talvez seguirão toda a vida perseguindo o fantasma da revolução, porque não é nada mais que isso: uma ideia morta.

Falei daqueles acorrentados tanto ao mundo virtual como dos que se encontram arrastando as correntes do anseio. Ambos desprezíveis para mim, ambos buscando falsas saídas para a realidade existente. Outros, os que há de monte em todas as cidades, tem caído na hipocrisia de falar de posturas antagônicas à realidade com uma garrafa na mão e seu corpo infestado de substâncias psicotrópicas. Abundam, há em todas as partes, suas razões? Muitas: para escapar das dores da vida, para agigantar a felicidade, felicidade que como já disseram em diversos comunicados eco-extremistas, é totalmente falsa. Em sua condição total de hiper-civilizados, não são capazes de levar a cabo convivência alguma a não ser por meio de uma substância que altere sua percepção da realidade, uma fuga nauseante e falsa onde apenas perpetuam os modos de “diversão” que impõe a civilização. Tristes são aqueles que tentam sanar suas dores sedando-se desenfreadamente. Parece que a hidra tecno-industrial fala e de sua boca sangrando sai as palavras que ordena a seu escravo: se está triste, drogue-se! Se deseja estar feliz, drogue-se! A toda dor ou a todo desejo insaciável de diversão a civilização oferece uma grande quantidade de substâncias psicotrópicas. O triunfo total: se você quer ser rebelde, igualmente drogue-se, e com isso o feroz guerreiro que poderia se lançar a uma guerra contra a realidade terminará transformado em um escravo dócil. A hidra rindo pronuncia sua sentença: a civilização triunfou, o guerreiro já está sedado! Não há “liberdade” alguma em uma vida cíclica. Muitos ignorantes catalogarão estas palavras de moralismo, mas cairiam em um erro pensar que como eco-extremista rejeito essas substâncias por considerar que é “mal” ingeri-las. Tentarão justificar de milhões de formas, justificando suas cadeias. Estas palavras não são uma questão de moral, já que me posiciono como um ser amoral. Estas palavras nascem de um desprezo, um desprezo à vida cíclica, às substâncias e às práticas que levam a essa vida. Se sentem tão vivos quando estão tão mortos, tão dependentes de uma substância ou de uma prática que sem isso o viver se tornaria algo impossível. Não é questão de moral nem muito menos que nos espantemos e cataloguemos essas práticas como “más”, é mero desprezo a suas atividades “libertadoras” que mais são um atalho à vida cíclica. No momento, até aqui chegarão estas palavras, haverá mais tempo para ir mais a fundo na crítica à vida cíclica e as distintas formas que ela se apresenta.

Adiante críticos terroristas!

Longa vida à guerra amoral eco-extremista!

Morte à vida cíclica dos hiper-civilizados!

Huehuecoyotl

Outono de 2016

Por quê te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor

Tradução de uma reflexão do autor Huehuecoyotl.

“Quanto a mim, eu nunca compreendi como dois seres que se amam e acreditam encontrar neste amor a felicidade suprema, não preferem romper violentamente com todas as convenções sociais e sofrer todo o tipo de vergonha, ao invés de abandonar a vida, renunciando a uma aventura além da qual não se imagina que existam outras.” (a) Diria Schopenhauer talvez em uma noite aterrorizante, talvez em uma noite semelhante a esta na qual eu penso sobre o fato de amar, sobre o amor e como se relaciona com a sociedade moderna.

Em primeiro lugar, há tempos tenho escrito um texto sobre os discursos promovidos pelos mass media e como estes regem a vida cotidiana do humano moderno, o texto ainda não está finalizado, ainda falta um tempo para terminá-lo, poli-lo e trazê-lo à luz. No entanto, isso não me impede de escrever um pouco sobre o amor nesta noite de abril. Mas o que tem haver com isso o texto mencionado? Para mim, a relação está no que é o amor nesta época moderna ou o que se formou pelo entendimento de amor -como em outras épocas passadas- através de discursos, discursos destinados novamente a moldar e reger o atuar do humano.

Assim como o velho Schopenhauer não conseguia compreender a felicidade que encontravam dois seres ao se amar, eu em algumas várias dezenas de anos depois não posso compreender como o humano encontra a felicidade amando ao próximo quando este sujeito referido como próximo é ou pode ser alguém tão distante e desconhecido. Aqui encaixa perfeitamente a frase “amor ao povo” muito entonada por aqueles esquerdistas de coração nobre.

O “amor ao povo”, quem é o povo e por que deveria eu amá-lo?, me questiono. Nestes tempos modernos o amor ao próximo se tornou uma faca de dois gumes, e talvez dizer que tem apenas dois gumes ainda é pouco. A onde quero chegar com isso? Bem, que o humano moderno em sua vida cotidiana tem sido bombardeado por discursos que lhe sussurram sutilmente ou, noutros casos, lhe gritam de forma aterrorizante que ele deve amar a seu próximo, aquele filho de Deus que é igual a ele e que, portanto, merece o seu amor, tolerância, respeito e compreensão. Por quê é meu próximo? Por quê eu devo sentir alguma afinidade com este “próximo” se os nossos interesses são distintos? É aqui onde eu me pergunto, por quê o amar? Por quê amar o próximo se eu não tenho nenhum apego por ele?

Volto a recordar o assunto que preocupava a Schopenhauer e a mim, que era: como se alcança a felicidade através do amor a um ser? Reconheço que para mim a finalidade de amar não é totalmente semelhante à concepção de Schopenhauer, para mim o amor ao próximo, assim como é uma arma de multi-gumes, possui múltiplos interesses e finalidades. Quais são estas?

As respostas ao questionamento anterior são incontáveis e recaem no interesse do sujeito que está refletindo sobre o tema, para mim e meus interesses um motivo pelo qual o humano moderno ama o próximo e não só isso, garante também que os diversos contextos sociais em que este se desenvolve se inteirem deste amor ao próximo expressado e demonstrado por ele. Como efeito, o interesse por amar ao próximo e demonstrá-lo recai na busca pelo reconhecimento social tão característico do humano moderno. (b)

É assim como o amor ao próximo se transforma em um objetivo, uma vez que o humano moderno busca obter um reconhecimento social ao demonstrar o seu amor por este ente nomeado como o “próximo” por mais desconhecido que seja. Atos de altruísmo difundidos por diversos meios, principalmente os cibernéticos, fazem com que os humanos sintam empatia e apego com quem realiza o ato altruísta, até mesmo atos de “caridade” com os animais, e ainda mais recentemente, com o que eles entendem -ou se fizeram entender- por natureza.

Esse sentimentalismo aparentemente inocente, amoroso e compassivo para com as pessoas, animais e plantas, não é nada mais que uma falácia, uma mentira na qual os humanos modernos atuam em sua busca insaciável por reconhecimento social, desejo e busca que na maior parte das ocasiões é invisível para os híper-civilizados. O fato de que um sujeito de bom coração alimente com uma pizza um morador de rua, dê a um cachorrinho moribundo algo para beber ou regue a uma planta a ponto de secar não significa nada, nem mudará absolutamente nada, o mundo seguirá em seu caminho rumo ao abismo, caminho na qual é guiado e empurrado pelos humanos. Então, por que o humano moderno faz isso? Se desculpam dizendo que esta ação muda o mundo de quem recebe a ação, o que para mim é estúpido e falso.

Quem recebe a nobre ação, ou melhor dizendo, a “amorosa ação”, segue vivendo dentro de um contexto social, e assim é com o morador de rua que segue vivendo dentro da sociedade na qual carece de oportunidades de trabalho, o cachorrinho e a planta seguem dentro de um mundo envenenado onde cedo ou tarde a atividade humana os destruirá. O ato de amor desculpado na empatia e o altruísmo é o ato mais falso que alguém pode cometer.

Seu amoroso altruísmo está encharcado de interesse por obter o reconhecimento social, embora o neguem, já que, o desejo de consegui-lo é algo que se encontra escondido na consciência do humano. Como escrevi no começo, a vida do humano moderno é controlada. Aquele que se vê livre é apenas um cego! Os discursos expressos na publicidade desempenham um papel importantíssimo no controle do híper-civilizado que cada vez mais se ajoelha perante a isso, sempre de uma maneira imperceptível para ele.

Até aqui escreverei nesta ocasião, sei que o texto é apenas uma ligeira introdução a um tema com múltiplas arestas como é o amor, sempre tão controverso. Espero que estes diversos textos que escrevi se relacionem entre si e sejam de interesse e sirvam como contribuição para a tendência. Por enquanto, me parece que é um breve, mas claro esboço de um aspecto dos muitos que podem se desenvolver em termos de amor, isso a partir de minha perspectiva como eco-extremista.

-Huehuecoyotl-
Torreón, Abril de 2017.

Notas:

(a). Veja em: Arthur, S. (n.d.). El amor. En, El amor, las mujeres y la muerte.

(b). Para uma melhor referência sobre o conceito de “reconhecimento social”, veja o texto que escrevi junto com Ozomatli para a Revista Regresión: Huehuecoyotl, & Ozomatli. (4 de Abril de 2017). “Algunas reflexiones sobre el actuar del humano moderno desde una perspectiva eco-extremista.” Regresión. Cuadernos Contra el Progreso Tecnoindustrial, número 7.