[EN – PDF] African Medicine – A Complete Guide to Yoruba Healing Science

A combination of West African Healing Wisdom, spirituality, and modern science, presents a self-care healing guide in which Concepts such as Orisha Energies form the basis for diagnosis and treatment of chronic illnesses that most frequently threatened balanced health. The Yoruba people, a tribe in West Africa, are considered to be the oldest herbalists on the planet. After living in ancient benin for a time, they settle in Egypt , bringing with them an herbal, dietary, and healing drum system dating back 75,000 Years BC. Dr. Tariq Sawandi presents Yoruba medicine as a comprehensive system of healthcare that heals the whole person, mind, body, and spirit. Chapters include the history, philosophy, methodology, and medicinal usage of African and Caribbean herbs, Roots, gemstones, and sound to heal cancer, sickle cell anemia, high blood pressure, diabetes, HIV/AIDS, and other chronic diseases. This empowering book gives you many approaches to balanced health with easy-to-use charts, diagrams, and tables.

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Uma Era de Monstros

Tradução do poema An Age of Monsters, de Shaughnessy.

Creio que a guerra da humanidade contra a terra só conseguiu matar os deuses mais gentis
Os deuses que eram amigos dos humanos nas velhas histórias
Mas a arrogância do homem é grande, e seu poder contra a fúria do mundo é limitado
E trará, devido à sua arrogância, uma era de monstros
Os poderes sombrios e ctônicos* NdT1 que emergem das entranhas do mundo
Os monstros que sempre atormentaram o mundo dos homens
Os furiosos deuses das velhas histórias, violentos e cruéis, devoradores de mundos
Inimigos da raça humana, estes serão os deuses do futuro
E quem ame o divino deverá aprender a amar os deuses mais sombrios

Nota do Tradutor:

1: Ctônico se refere às deidades e poderes do submundo.

Minha Autoridade

Texto extraído da terceira edição da Revista Ajajema.

É um pouco difícil para mim começar a escrever algumas palavras, posto que os teóricos da tendência se lançaram no abismo das reflexões. Tanto que muitas vezes sinto que logo ficaremos sem mais nada para dizer. Muitas coisas já foram ditas, cada uma igualmente interessante. Reflexões muito letradas, especialmente a dos manos dos EUA. Às vezes invejo a capacidade reflexiva e intelectual dos compas. Ler cada palavra dos irmãos e irmãs de tantos lugares é uma alegria e um tremendo impulso anímico para o espírito. Cada uma de suas contribuições para a guerra, cada texto encorajando a Máfia, cada escrito resgatando as vidas dos povos primitivos, as reflexões enaltecendo o Oculto e o Desconhecido, e suas bocas lançando maldições pagãs em detrimento da civilização e a humanidade. Tudo isso é uma lufada de ar fresco para os individualistas que lhes custa tirar dentro de si as palavras, como é o meu caso.

Sabendo disso, atrevo-me a escrever algumas palavras sobre a autoridade da Natureza Selvagem, de suas indiscriminadas manifestações, de seus massacres contra a humanidade, do chamado que fizeram alguns compas para alegrarmo-nos com cada tragédia caótica da Terra sobre a civilização.

Os irmãos do grupo editorial da Revista Ajajema fizera-me o convite para eu somar com alguma contribuição para a sua terceira edição, e com prazer me animo e escrevo estas palavras soltas. Reflexões caóticas a quem interesse. Aí vou eu…

Comecemos com uma pergunta bastante básica, o que é autoridade? Ou, pelo menos, o que eu entendo por ela. A autoridade vem sendo uma figura (mística ou real) a qual você deve respeito e/ou obediência. A autoridade hoje em dia é vista como algo bastante ruim, repressiva, abusadora, tanto que há radicais que visam eliminá-la e, de certa forma eu encontro uma afinidade aí. Sem dúvida a autoridade civilizada é uma verdadeira merda, mas, ao contrário destes radicais, não me esforço para erradicá-la. Acredito que tudo dentro da vida civilizada é repugnante, então por que tenho que parar e me concentrar em apenas um aspecto dela? É uma pergunta muito boa. Eu não rechaço a autoridade humana como instinto, aquela ancestral que sempre esteve presente. Os compas escreveram bastante a respeito do termo autoridade “inócua” e “iníqua”.

A primeira coisa que tenho que dizer é que não tenho problemas com a “autoridade humana”, não tenho problemas com alguém que me diga o que eu tenha que fazer. Não sou um “anti-autoritário”, porque ao contrário deles, eu acredito na autoridade, creio ser capaz de dar ou receber uma ordem, e aqui não vejo nenhuma relação de submissão. Obviamente, aqui me refiro claramente àquela autoridade inócua que pode exercer, por exemplo, um compa quando estamos em uma ação, quando ele é o encarregado a me dar a ordem para que eu possa me aproximar do alvo para atacar, ou quando este mesmo cúmplice tem que me chamar a atenção quando estou cometendo um erro que pode colocar em risco o plano, ou quando eu devo ser o encarregado de decidir quais serão as rotas de fuga e então guiar os outros, e mais um monte de exemplos do exercício da autoridade. Eu poderia dizer da mesma forma que, em alguns casos, a “autoridade biológica” (os irmãos, os pais, os avós, etc.) podem ser também um exemplo de autoridade inócua. E mesmo sabendo o quão desgraçados podem ser os familiares biológicos em algumas ocasiões, ninguém pode negar o quão vital e necessária é a autoridade, por exemplo, de uma mãe a seus filhos pequenos.

Nem preciso falar sobre isso, que “sinto certo rechaço” pela autoridade humana civilizada, e aqui me refiro a todos estes seres que em sua maioria estão por trás de um uniforme dentro das grandes cidades. E quando digo que “sinto certo rechaço”, quero dizer que realmente não tenho um sério conflito com ela. Entendo e sou consciente de que as cidades e a civilização enquanto existam estão e estarão controladas pela autoridade, não há dúvidas quanto a isso, então, estar em “guerra contra a autoridade” pelo menos eu não vejo como algo para concentrar minhas energias e minha vingança.

Bem, isso é o que posso dizer sobre o que penso da “autoridade real”. Acredito que seja necessário dizer algo da autoridade ancestral e onipotente que é a Natureza Selvagem, daquela “autoridade mística” representada por todo o desconhecido da Terra, aquela que se manifesta com a chuva e o raio, com os tsunamis e as erupções, nas luzes do céu escuro após um terremoto e no som dos rios, evitando os séculos de intelectualidade e raciocínio científico do porque que as coisas acontecem, e jogando fora todo o lixo da teoria humanoide que se atreve a explicar o inexplicável. Para todos estes eu digo: humanos modernos híper-civilizados, me deixem com minha essência primitiva, essa que tinham os antigos humanos que sim sabiam de algo.

Eu digo isso com o maior orgulho, a Natureza Selvagem é minha autoridade, e por quê? Porque ela está acima de Mim, acima de tudo e todos, ela é quem me rege, a ela devo obediência e respeito, ponto. Seus ciclos naturais são os que me ditam as normas que devo seguir. Assim como a porra do motorista de um carro segue as leis do trânsito, eu sigo as leis a Terra. As nuvens negras me indicam chuva, a chuva me indica refúgio, e logo me sugere para me preparar para o frio posterior. Os rios tem a força ancestral e eterna da Terra, eu me aproximo deles quando estou perdido, sei que me guiarão em meu caminho. Os demais animais são capazes de seguir as leis da Terra, sabem onde e quando dormir, onde e quando acordar, onde e quando se esconder, onde e quando se alimentar ou procriar.

A espécie humana perdeu todo o contato com a maravilha da Terra. Ela se tornou incapaz de combater um resfriado, agora curam-no abruptamente com químicos nocivos. Como alguns irmãos disseram, “quem não tem dinheiro fica gripado”, pura verdade!

Muito tem sido dito sobre os desastres naturais, eles inclusive são festejados por alguns compas que fizeram um chamado para se alegrar com a desgraça humana, chamado ao qual, sem dúvida, me somo. Eu li que algumas pessoas por aí são contra a comemoração de desgraças como estas, já que em alguns casos as vítimas são pessoas extremamente pobres, elas ficam indignadas por nos alegrarmos com os mortos, especialmente quando são crianças, nos chamam de monstros perversos por essa e outras coisas mais.

O que me ocorre com estas posturas classistas é um tremendo asco, isto é, se o furacão destrói um bairro burguês cheio de milionários e mata a todos, que bonito! Mas se a chuva inunda algum povoado de algum país asiático bastante pobre, que pena. Como se as manifestações da Terra se importassem quão rica ou pobre uma pessoa é. Ou celebramos o Caos sem nenhum problema e sem a mínima culpa ou calamos a nossa boca de merda. Esses aí que andam se alegrando quando morrem policiais ou os filhos dos ricos empresários e que entram em choque quando nós nos regozijamos com a morte humana indiscriminada são uns hipócritas moralistas.

Devo o respeito e a obediência a todas as belezas e a violência da Terra, a cada um de seus ciclos primordiais. À garoa de manhãzinha em pleno verão que encharca os campos e montanhas. Aos insetos que se escondem embaixo da terra no inverno, e que saem em massa para estocar alimento no verão. Às chuvas de inverno que inundam toda a cidade, a que torpemente amaldiçoa o humano híper-civilizado. Ao verão infernal que esquenta a terra e propaga incêndios ferozes. Ao canto dos grilos e o voo do pássaro. Ao grito da raposa. Ao por do sol que nos mostra a maravilha do céu. À lua cheia que aparece quando tudo está escuro e que brilha como o dia. À precaução e o sigilo dos coelhos que esperam que as montanhas cubram a lua antes de saírem para comer. Ao medo que senti quando dormi em meio ao selvagem e que me paralisava ao escutar o som de algum animal, às pisadas de algum ser entre as árvores que fazem com que meu ser se angustie, à este maravilhoso pavor que só algumas pessoas experimentaram. Às profundidades dos oceanos. Aos abismos infinitos das montanhas. À cordilheira que mantém o gelo para sempre. À erva e as flores que persistem em pleno deserto. Às mariposas, borboletas e vespas que aparecem em meu caminho.

Eu rezo a todo o oculto e desconhecido da Terra, me curvo e me entrego. Decidi confiar-me aos espíritos dos antigos sempre que deixo o meu refúgio, lhes agradeço por terem cuidado de mim em minhas andanças terroristas até meu retorno. Eu toquei as terras com meus pés e mãos em um ato de conexão suprema com a Terra e toda a beleza dela. Me olharam com desgosto por falar com as plantas e saudar os animais de rua. Porque sempre peço permissão à árvore quando vou arrancar alguma de suas folhas, peço permissão e agradeço. Tudo isso faz parte de meus processos individuais e únicos que não se encontram regidos por nenhuma ideologia, é uma conduta caótica e selvagem que adora e enaltece o Selvagem e o esquecido pelo ser humano moderno híper-civilizado.

Pela autoridade da Terra sobre Meu ser!

Amém…

Espírito Tanu

Breves palavras a respeito da violência do Céu

Tradução do texto Brief words on the violence of heaven, de Sokaksin.

A violência no núcleo do mundo é parte integrante da beleza e da vida do tudo. Assim são as coisas. O mundo não pode se sustentar sem a escuridão, e não poderia ficar sem luz, ou o jogo sem fim de sua interpretação e determinação mútua. Esta é a verdade do mundo. Em tal mundo a graça inefável que traz as bagas da primavera ao urso também escreve o drama eterno do alce e dos lobos. Uma vida de morte, uma morte de vida. Na teia de uma incontável quantidade de seres, em seu sofrimento e sua fortuna, na forma da terra e a integridade do todo. É simples ver o surgimento mútuo do todo na floração da primavera e a atividade das abelhas, mas mesmo o corpo falador da lebre no ajustado aperto das mandíbulas do coiote reflete a beleza do todo. Como Jeffers observava em seu poema Fogo nas Colinas, “a beleza nem sempre é amorosa…”. O sangue nas rochas, os ossos dos cervos branqueados pelo sol, as poderosas mandíbulas do grande leão da montanha, perfeitas para matar, o uivo do coiote e o grito da morte do alce. A ferocidade e a violência indiscriminada do eco-extremismo é a representação deste fundamento, a violência divina que trabalha e sempre trabalhou no coração do mundo.

O eco-extremismo é continuamente assediado pelas fileiras dos fracos híper-civilizados, por sua aparente “psicopatia”, porque se atreve a materializar esta violência primordial contra a ordem artificial do Leviatã. No altar da lei e da ordem, o eco-extremismo oferece a profanação e um sacrifício de sangue para a terra selvagem. Ao se negar ter um contato mínimo com a linha do humanismo e do progressismo, ele se situa em oposição a tudo o que a civilização tecno-industrial (e isso também se refere ao próprio Homem em si) representa. Está oposto em sua essência a toda a infraestrutura podre, desde a “rede” a qualquer cidadão híper-civilizado que igualmente é a manifestação da civilização, tal como a represa da hidroelétrica que afeta a vida do rio. Ele se recusa a por a vazia abstração do “Homem” no topo do ser e ataca com selvageria tudo aquilo que canibaliza a beleza do todo pelo desolado aterro da modernidade. O eco-extremismo é o ataque do lobo feroz, olhando contra o gado domesticado. É a fúria do urso pardo contra aquele que vagueia de forma insolente dentro de seus domínios. É a força do búfalo e as janelas quebradas ao lado do metal dobrado contra os híper-civilizados que esqueceram a força e a fúria desta escuridão primitiva e seu lugar nas grandes redes do mundo, redes dentro dais quais elas permanecem impotentes apesar do engrandecimento de suas próprias abstrações.

A ordem da terra foi forjada sobre aeons através desta violência divina. Este é o caminho. Daí surgiu a beleza implacável daquele mundo trans-humano que o homem e sua sociedade tecno-industrial busca profanar para si mesmo. Cada explosão de uma bomba, cada jorro de sangue derramado é um golpe a partir daquele núcleo primitivo de selvageria, que permanece contra as ilusões e pretensões do homem moderno, sua civilização e tudo o que ele representa.

-Sokaksin

Notas Sobre a Espiritualidade Africana

Pese a discordância com o que chamam de “pan-africanismo” o texto Notas Sobre a Espiritualidade Africana da autora Anin Urasse é uma interessante leitura, sua visão sobre espiritualidade, ancestralidade e natureza se acerca bastante do que defendem os eco-extremistas. Alguns textos como “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?” de Chahta-Ima, “Animismo Apofático“, de Abe Cabrera, “Busca o Teu EU Espiritual“, de XL, “É o Momento de Beijar a Terra Novamente” (publicado em Reflexiones Eco-extremistas N°3), “Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo“, de Hast Hax, e (por que não?) “Apocalipsis Ohlone“, também de Abe Cabrera, são alguns dos escritos que corroboram com isso.

Muitos irmãos e irmãs me escrevem com dúvidas acerca da espiritualidade africana. Pessoalmente eu não acredito na possibilidade de nos emancipar sem resgatá-la. Mas os yurugus colocaram várias pulgas atrás de nossa orelha né? Principalmente na universidade e zzzzz… Então escrevo essa reflexão aqui pra sintetizar um pouco das respostas que tenho dado, compartilhar um pouco do que aprendi sobre o assunto. (Veja: eu não tô falando de nenhum culto específico. Eu tô falando de cosmologia do berço civilizatório africano que, pra início de conversa, não conhece a ideia de “religião”.)

Você precisa de fé pra saber que você teve tataravó? Existe a possibilidade de você existir sem bisavô?

Você precisa de fé pra constatar a existência do mar, da terra, dos rios, dos raios, das plantas… das forças da natureza em geral? É preciso fé pra saber que os minerais existem?

Espiritualidade africana é culto de ancestral e de forças da natureza. Portanto, não estamos falando de fé, mas de fatos: você tem bisavó e no encontro do rio com o mar existe o mangue. Ponto.

Todas as pessoas têm ancestrais, sem os quais não seríamos possíveis: “você tem os olhos de sua avó!”, “você tem o mesmo gênio de seu pai!”. Nossos ancestrais influenciam em nossa vida. A isso os yurugus chamam de genética e/ou epigenética. Nesse texto, continuarei chamando de ancestralidade. A gente dança, canta e cozinha pros nossos ancestrais pra agradecê-los. Pra pedir. Pra se alegrar. De sul a norte, de oeste a leste da África é assim. (E se você acha isso bobo, estranho, ridículo ou “do diabo”, se pergunte porque sempre fazem a gente minimizar a cultura de nosso povo.)

Nós somos a reencarnação de nossos ancestrais. Nossos filhos são os ancestrais que trazemos de volta ao mundo e quando “morrermos”, nos tornaremos ancestrais. Aliás, não há morte. Há um ciclo. Nosso povo é formado dos que estão aqui, dos que virão e do que já foram. Nos influenciamos mutuamente. Portanto se não cuidamos dos nossos ancestrais enfraquecemos enquanto pessoa e enquanto povo. E só a título de curiosidade, nossos ancestrais moram no chão, não no céu.

Com as forças da natureza a mesma coisa. Nossos ancestrais são os criadores da tecnologia, lembre-se disso. E eles descobriram o segredo de manipular energia. Só que como não somos um povo de destruição, ao invés de inventarmos bombas nucleares pra destruir cidades inteiras, a gente descobriu, através de manipulação dos elementos da natureza, como sermos pessoas melhores. Cultuamos a natureza não por ela, mas por nós. Cada elemento da natureza nos da uma lição de como viver. Lembre-se ainda de outro fato: 96% da massa do universo é ESCURA. A natureza vibra em nós como em ninguém mais. Tem muito segredo nessa melanina que a gente carrega.

Nossos “deuses” não estão distantes, no céu, sentados numa nuvem mandando raios de castigo. Eles dançam conosco. Ou melhor, dançamos com eles. Trocando em miúdos: a gente sabe que não vive sem a natureza então além de cuidar dela, nós a cultuamos.

É simplesmente isso. É simples e absurdamente complexo. “Ubuntu” nunca foi sobre você e eu, ou sobre nosso grupinho. Mas sobre você, eu, nosso grupinho, nossos ancestrais, os que virão, os animais, as plantas, os rios, os mares, os minerais, os vulcões, o ar..

Pense bem antes de negar esse cosmo-sentido de mundo. Não é possível que um continente inteiro esteja errado só porque um europeu disse. Se não, o que? Você acha que nossos ancestrais mentem?

Busca o Teu EU Espiritual

Tradução do texto Busca Tu YO Espiritual, da Revista Ajajema 3, compartilhada publicamente na web.

Desde pequeno eu tive um sonho frequente, e não sei bem se é um sonho ou um pesadelo, mas isso pouco importa. Nele eu sinto que sou uma pequeníssima parte de um todo e que este todo me absorve, e então me sinto impotente, sinto que caio por uma das bordas deste todo e que nunca chego a um final, e logo me afundo em desespero e as ânsias me consomem até que acordo. Este sonho eu tive desde muito pequeno. Já em minha adolescência foi frequente a chamada “paralisia do sono”. A ciência a explica como o momento em que o seu cérebro se “apaga” ao dormir, mas o seu corpo segue com algumas funções como a visão e o olfato, só que é impossível se mover. Associam isso ao cansaço excessivo, etc. Se você nunca passou por isso, deixe-me lhe dizer que no início é uma experiência assustadora, perceber que você pode mover os seus olhos, mas é incapaz de poder mover um só dedo ou de gritar, realmente é algo bastante perturbador. Minha família sempre viu isso como algo do diabo. Vindo de uma família religiosa, é natural que associem estas coisas com um castigo de Deus por eu ter me distanciado de seus mandamentos, etc. As etapas que tive em minha vida me deixaram valiosos ensinos que formaram as crenças pessoais que defendo agora na atualidade. Desde que eu me lembro sempre fui uma pessoa espiritual, sempre à procura de algo mais além, tentando me preencher com a sabedoria dos mais velhos ou de outras maneiras, através do que dizem os livros sobre crenças animistas ancestrais, tanto que cheguei a viver com pessoas que me abriram a visão a respeito disso.

Confesso que quando eu era mais jovem e me declarava anarquista, negava com todas as minhas mais fracas forças a espiritualidade, confundia a religião com as crenças, e ao mesmo tempo em que levantava a bandeira do ateísmo racional e irracional que alça a ciência moderna, em algum momento me dei conta de que tudo isso era um lixo, e que enquanto eu reivindicava estas posturas distantes eu estava negando a mim mesmo, estava negando a minha curiosidade, a minha vontade de experimentar e de explorar caminhos insuspeitados em companhia do Inominável. Então me distanciei destas posturas puritanas e me pus a conhecer mais, a deixar de lado o vício civilizado que dita que porque estamos nesta era “híper-moderna” nós “transcendemos” a crença nas forças da natureza. No começo era difícil para mim a ideia de que a chuva é algo mais que um processo hidrológico, que o fogo não é apenas parte de uma mistura de condições que fazem com que a chama seja produzida, ou que a escuridão é “simplesmente” escuridão. Mas com o decorrer dos ciclos eu aprendi a ver tudo isso e mais através de uma visão espiritualizada, embora não totalmente, eu devo esclarecer.

Foi há muito tempo atrás durante estes episódios de paralisia do sono que, enquanto eu me encontrava sem mobilidade, senti claramente a presença de um ser que me pegava pelas costas e me apertava com bastante força. Vi que tinha a pele escura e percebi que os seus braços estavam cobertos por cicatrizes. Logo sucumbi à situação e simplesmente me deixei levar. No começo senti medo, mas depois a paz me invadiu, então a partir daquele momento estes episódios pararam de me causar medo.

Anos mais tarde, em uma sessão com pessoas que levam a sério a prática da Santeria, tive a oportunidade de realizar um ritual enquanto um jovem era possuído por um guia (como eles dizem). O guia naquele momento era um ancião que formava parte de uma tribo de nativos amazônicos massacrados por europeus. Ele me convidou a fumar um tabaco natural com ele. O guia não falava espanhol, era uma especie de português arcaico misturado com ruídos parecidos aos chamados “clicks” dos Bosquímanos. Lembro-me que o quarto estava coberto por fumaça de tabaco, um silêncio intrigante reinava ali, algumas pessoas borrifavam água em torno de nós, uns mantinham a cabeça baixa, já outros viam expectantes o panorama, e eu, inexplicavelmente entendia o idioma do guia. Ele me disse muitas coisas, das quais eu não posso falar, mas me surpreendeu como ele sabia de algumas coisas que apenas eu sabia, como aquele episódio em minha adolescência com a presença noturna que eu mencionei acima. O guia me deu o seu nome, me disse que era um antepassado meu da África, me disse que as suas cicatrizes eram porque havia sido um bravo guerreiro, que eu era o seu reflexo e que não deveria rejeitá-lo. O jovem possuído despertou e pediu água…

Uma anciã apontou para o céu e disse: “Há aqueles que tentam ir mais além, uma maldição recairá sobre as suas cabeças”. Estas palavras à primeira vista não me pareceram muito contundentes, era apenas um comentário de uma curandeira com quem eu estava aprendendo a arte da cura por meio de ervas ancestrais, mas neste mesmo dia cheguei eu em casa e fui ver algumas notícias, foi quando vi que um astronauta (creio que era italiano) da Estação Espacial Internacional havia sido afetado pelo Desconhecido. Em um caminhada rotineira o capacete do astronauta começou a se encher de água, água que saía do Nada, então ele teve que ser atendido medicamente já que quase se afogou. Os engenheiros especializados, os físicos, etc., não puderam dar uma explicação concreta sobre o ocorrido (até agora). Foi então que as palavras da anciã ressoaram em minha cabeça, validando o que foi dito. Os humanos modernos desafiam o Selvagem e pensam que todos os caminhos são permitidos para eles, se aventuram naquilo que pensam conhecer, mas na verdade não conhecem uma única parte. A imensidão do Desconhecido é algo inexplicável, as suas obras são indizíveis, é incompreensível para quase todos os humanos modernos, apenas alguns poucos compreendem que não somos o centro do universo, mas uma parte dele.

“Há pessoas que tem mais trevas que luz em seu interior, mas você tem os dois quase no mesmo nível”, estas palavras foram as que uma vez me disse um ocultista durante uma conversa à meia noite em uma Lua Nova. Velas negras iluminavam símbolos estranhos, havia cheiro de enxofre e um som de metais se chocando nos acompanhava. Dentro da cabana era possível sentir uma atmosfera pesada, densa como névoa. Lá fora, a floresta estava em silêncio, cheirando a puro gelo, símbolos foram acesos com álcool. Você alguma vez já caminhou sozinho no bosque pela noite? Você já sentiu alguém ou algo te observando naquele momento? Tive esta sensação aquela vez, não sentia medo, mas um pouco de ansiedade que lentamente foi desaparecendo. Esta noite era muito escura, nem sequer podia ver as minhas próprias mãos. Estávamos sentados com os olhos fechados enquanto ele falava em línguas estranhas e às vezes gritava, as mãos suavam, os ouvidos estavam atentos, havia um frio nos ossos. O ser humano moderno está muito ocidentalizado, pensa que estes tipos de experiências são “ruins”, temem ao Desconhecido. Eu não o temo, aprendi a não temê-lo, eu o respeito. “Todos temos um Abismo, é necessário mergulhar-nos nele, e quando o fizermos, poderemos observá-lo e, ao mesmo tempo, saber que o Abismo também nos “vê”.”

As vivências e experiências que um individualista chega a ter centrando-se na espiritualidade são, muitas das vezes, resultado do risco de saber algo além, de sair do cofre em que nos metemos, de romper as crenças cotidianas impostas culturalmente. No começo, parece ser um mundo bastante hostil, mas quando você interage de maneira mais íntima com tudo isso a recompensa é grandiosa. Atreva-se, busque o seu Eu espiritual.

XL.

Animismo Apofático

Tradução do texto reflexivo de Abe Cabrera.

As pessoas modernas, claro, não podem deixar de cercar isso com os seus olhos, e tenho a mesma tentação. No meu caso, enquanto o bom anarquista ou o esquerdista pode condenar a “superstição” porque pensam que conhecem a história, eu conheço a história ainda melhor, então eu penso duas vezes antes de fazer isso. Hegel escreveu em algum lugar que enquanto os gregos antigos podiam se curvar aos ídolos o homem moderno já não pode. Isso porque ele se tornou um ídolo de si mesmo, de sua realização científica e da compreensão do mundo. Embora eu vá mais longe que muitos defensores “anti-civilização”, em minha apreciação da ciência e da tecnologia moderna (principalmente pelo que fazem, não pelo que representam), eu sei muito bem que eles são também produto de certa forma de pensamento religioso, de uma genealogia que remonta a Einstein e Newton e a magia renascentista, ao neoplatonismo, a escolástica, a Aristóteles, aos pré-socráticos, e assim por diante. Recusar a “mistificação” da Natureza baseado puramente na racionalidade do Iluminismo parece ir parar bem abaixo das origens históricas da “racionalidade” no Ocidente. Não vejo o pensamento secular como algo que não seja um desvio de todas estas tendências. Este poderia ser um bom ponto a partir do nível abstrato, mas em termos concretos as pessoas modernas estão radicalmente separadas da “espiritualidade” como algo diferente de uma escolha do consumidor. Um eco-extremista já apontou isso como no longo ensaio de Halputta Hadjo, “Os Calusa: Um Reino Selvagem?”:

“Antes de discutir a religião Calusa e a posição dos espanhóis em relação a ela sinto que é apropriado discutir brevemente o cisma na mente moderna entre a religião e o conhecimento. Para chegar imediatamente ao ponto, a religião na maior parte de sua existência tem sido uma coisa eminentemente prática. Isto é, como as pessoas acreditavam e como sabiam que o mundo era um só em si mesmo. Isso porque os seres humanos, em geral, não tem o luxo de fazer atos de fé, esperando contra toda a esperança. “Bem-aventurados os que ainda não viram, no entanto creem” teria sido uma premissa incompreensível para qualquer pessoa “primitiva”, e esse foi o caso mais provável com os Calusa. Seus espíritos e seu ambiente era um só, suas práticas religiosas e sua forma de vida eram uma só, não havia nenhuma razão para duvidar disso já que se baseavam nas coisas que constituíam sua realidade cotidiana. O Calusa acreditava em um mundo cheio de deuses, algo que não podemos nos conceber em nossa mentalidade tão ocidental e secularizada. Portanto, desafiar suas crenças era desafiar sua forma de vida. Fora a maioria dos povos de sua região foram os Calusa que conservaram suas crenças até o fim. Eles nunca foram conquistados, mas desapareceram gradualmente junto com o mundo espiritual que habitavam.”

No Ocidente moderno não vemos que são os nossos espíritos, ou melhor, a Terra, que nos alimentam. A civilização nos alimenta, a tecnologia nos veste, a moral nos protege, etc. Portanto, não é de surpreender que até mesmo os mais “radicais” ideólogos híper-civilizados voltem seus olhos para os sistemas do passado para se aproximarem destes mundos e encontrá-los dispostos. Não sentem qualquer conexão com eles, podem até respeitá-los, mas não será subjugada qualquer entidade numinosa nem fingirão ser seu mensageiro, etc.

Como então se concentra a ideia do “paganismo/animismo” (sim, há uma diferença, mas eu não me importo com esse ponto)? Como recuperar os “deuses”? É mesmo necessário, desejável, etc.? Sinto que Halputta Hadjo em seu ensaio já abordou esse ponto no final de seu trabalho, mas irei fornecer minha própria abordagem. O que segue é minha própria tentativa de ser um animista no século XXI, com todas as contradições no pensamento e nenhum destes rituais frescos. É minha atitude e acima de tudo minha compreensão de que provavelmente nunca terei o que preciso, porque sentir que é “preciso” é o problema em primeiro lugar.

Minha própria entrada na crítica contra a civilização vem da sensação de lugar. De fato, os livros influentes para mim nos últimos anos não tem sido sobre a teoria, mas sobre onde plantar meus pés agora e onde os plantei. Por exemplo, tive o grande prazer de traduzir o XVI comunicado de ITS da cidade de Torreón, Coahuila. Esta é a cidade de meus avós, minha mãe foi criada em um pequeno povoado nos arredores. Eu ia muitas vezes ali nas férias quando era criança, e a sensação que eu tinha é que era feio e muito pouco atraente. Um deserto sem muito o que ver, cheirava a animais de fazenda e havia construções de adobe em ruínas. Eu não esperava mais visitar aquele lugar. De fato, eu apaguei da minha memória a paisagem da minha cabeça. Então esta parte do comunicado soou verdadeira para mim:

“A Natureza Selvagem foi destruída, o futuro ideal é tão cinza e inerte. Desde esta realidade atacamos; somos individualistas travando uma guerra vingativa em nome da montanha derrubada para construir uma mega estrada, pela flora e fauna destruída em nome do progresso, em nosso ser levamos a essência do rio desaparecido por alguma grande represa.”

“Merecido tem Torreón e seus cidadãos, que com suas práticas colaboram para a perpetuação da civilização tecno-industrial. Você vê o horizonte e encontra uma colina negra artificial criada pela empresa “socialmente responsável” de nome Peñoles, água envenenada, o ar contaminado, fauna e flora aniquilada pela expansão sem freio que tem a urbe. Por tudo isso…., três mortos parece pouco para nós.”

Agora, não sou o maior admirador da prosa histriônica. Eu seguro o meu nariz e faço todo o possível para traduzir estas coisas. Mas o sentimento não está longe do que eu sinto. Embora eu seja o primeiro a admitir que a Natureza muda e muda com frequência, o que os humanos modernos fazem com o meio ambiente segue sendo repulsivo e enlouquecedor. Não é a mudança o problema, é a taxa de mudança juntamente com a arrogância atrás dela, a miopia, o fracasso em parar de danificar nosso ambiente que é apenas uma extensão de nossa ferida e da alienação entre pessoas. Cheguei à conclusão há alguns anos de que se você não pode amar a seu entorno, a água, as árvores, o ar que respira, etc., você não quer mais nada. E sim, para mim, neste mundo, ITS tem sentido. Chame-me de psicopata, o que quer que seja, eu não me importo.

Como os eco-extremistas de La Laguna eu olho para aquele lugar agora tão distante em minhas memórias de infância, mas também para o lugar onde eu cresci, para os rios e pântanos que secaram quando a água foi utilizada para irrigar os campos e ajudar o gado com sede. Olho os rios por aqui que os antigos *temporeiros dizem, eles costumavam ser claros quando estavam crescendo, você podia ver o seu fundo, mas agora são cinzentos e opacos. Olho os pinheiros e os ciprestes e aos poucos grandes ciprestes, grossos e sábios, atados pela idade e a ferocidade: o resto das velhas árvores que não foram cortadas para fazer a Grande Cidade que posso ver através de Ok’wata. O eco-modernista e o progressista me dirão para eu deixar a natureza selvagem ir, para não chorar, e para olhar para frente. Eu rejeito isso, eu nego com todo o meu ser. Enquanto outros híper-civilizados não veem mais que shoppings e parques, vejo uma cena de crime, de fato, a cena do único crime que vale a pena abordar. Minha existência e a existência dos que amo é baseada em uma mentira, uma ordem social que não tem o direito de estar aqui. Ou tem um “direito”, mas não merece meu respeito ou lealdade. Nem uma porção disso.

Admito que não posso ser animista como os povos primitivos foram. Sei que as estrelas são apenas bolas mortas de gás, que a lua é uma rocha fria em órbita ao redor da Terra, que a doença é resultado de micróbios e vírus e não de um poderoso Xamã a três aldeias de distância jogando feitiços, e assim sucessivamente. Eu sei destas coisas, mas porque eu as conheço é esse o problema. As conheço pelo sistema, para o qual sou um meio e não um fim. Eu sei disso por causa de um sistema que é racional quando se dirige a estas coisas, que pode manipular matéria inanimada, mas que não tem ideia de como organizar e controlar animais humanos reais em muitas circunstâncias. Eu as conheço por causa do sistema que põe em perigo a Terra por causa de milhões de dólares ou de ideologias estúpidas. Minha adesão a um “animismo” é minha preferência por não tê-lo conhecido. Claro, isso não é possível agora, não posso praticar lobotomia em mim mesmo para eliminar o conhecimento moderno. Mas eu posso estar bem consciente do preço e declarar que ainda não vale a pena.

Tenho uma excepcional formação teológica/espiritual, mesmo que seja em meu catolicismo ancestral e em outros caminhos espirituais que resolvi estudar aleatoriamente. Tenho que admitir que a adesão ao “animismo” me deixa frio porque sei muito sobre os rituais e os dogmas para ir inventando o meu próprio credo. Eu nunca serei capaz de evocar os deuses mesoamericanos ou amaldiçoar as pessoas com a cara fechada. Mas muito menos serei capaz de condenar as pessoas que fazem isso, muito pelo contrário. Pode ser que eu não seja capaz de crer que as árvores, as rochas, os cervos, os jacarés, as bagas, etc., tenham espírito, e todos estejam sofrendo devido a nossa aflição contra o planeta, por nossa negligência e ganância, mas eu reconheço que eu gostaria de alcançar isso. No entanto, tenho aqueles momentos de atenção, aqueles momentos de assombro e admiração que todos devemos ter diante da Natureza Selvagem, e isso é o suficiente para mim, suponho.

O apofático é da escola do pensamento teológico que afirma que só podemos nos aproximar do Divino ou o Transcendente através da negação. Ou seja, conhecemos o Divino não pelo que é, mas pelo que não é. Minha própria crença no animismo é que todas as ideologias humanas se desmoronam, todas são o resultado de se voltar para a própria cabeça, para as ideias e certezas de uma pessoa, em vez de partir. Os olhos estão destinados a ver as coisas, os ouvidos a escutá-las, as línguas para prová-las etc. As coisas são primárias, não as faculdades que as percebem e processam. Meu verdadeiro ser está fora de mim, e o sentido do homem está fora de sua própria história… Não posso concluir esta reflexão de melhor modo que citando o poema de Robinson Jeffers, “Credo”, em sua totalidade:

Meu amigo da Ásia tem poderes e magia, arranca uma folha azul de uma jovem borracha-azul

E olhando-a, coletando e acalmando

O Deus em sua mente cria um oceano mais real que o oceano, o sal, o real

Péssima presença, o poder das águas.

Ele crê que nada é real exceto quando o fazemos. Eu humildemente encontrei em meu sangue

Foi criado ao oeste do Cáucaso o misticismo mais duro.

A multidão está em minha mente, mas creio que o oceano na abóbada de osso está sozinho

O oceano na abóbada do osso: ali está o oceano;

A água é a água, o penhasco é a rocha, vem os choques e os flashes de realidade. A mente

Entre, feche os olhos, o espírito é uma paisagem; A desoladora beleza

A beleza das coisas nasceu ante os olhos e foi suficiente para si mesma; A dolorosa beleza

Permanecerá quando não haja mais coração para quebrar

* Povos antigos que sem auxílio tecnológico moderno faziam a previsão do tempo.

Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo

Texto traduzido da Revista Regresión número 7, divulgada publicamente na web.

Os Seris foi um grupo de nativos provenientes do que agora é o estado de Sonora, eram basicamente caçadores-coletores e pescadores. Ao serem nômades por excelência os territórios onde habitavam iam desde o deserto de Encino até o rio São Inácio, municípios como o de Guaymas, passando pelas Ilhas Tubarão, São Estevão, entre outras, ou seja, as ilhas costeiras mais próximas do território “sonorense” onde chegavam remando com embarcações muito primitivas. Os grupos Seris eram divididos em bandos, os quais por sua vez, se dividiam em clãs.

A grande maioria dos Seris eram guerreiros, e com isso ocasionalmente se declaravam em conflito entre cada clã. Geralmente as guerras entre eles eram acompanhadas de uma carregada dose de animismo. Como exemplo temos a história de “O Invencível”, um Xamã do bando III que enviou uma incursão de guerreiros até as subdivisões vizinhas, assassinando a muitas pessoas.

Como qualquer grupo nativo este povo tinha uma relação muito íntima com o seu entorno, suas crenças se baseavam nas correntes do mar, nos ciclos da chuva, no sol e na lua, enalteciam o tubarão, a tartaruga e os animais do deserto. A cosmologia dos Seris era simples e nada complexa, dado o seu entorno hostil e seu modo de vida nômade não tiveram tempo para se fazerem adoradores nem terem deidades complexas. Era dito que os Xamãs dos bandos e subdivisões podiam carregar grandes pedras e dobrá-las apenas com a mente.

Embora cada bando tivesse suas particularidades, apenas alguns poucos ofereceram uma resistência feroz à chegada dos europeus. Estes selvagens nunca se deixaram conquistar nem pela espada nem pela cruz, sempre se tornaram hostis diante do alheio e lutaram até a morte com a intenção de preservar os seus conhecimentos e as suas crenças ancestrais. De fato, hoje em dia, os Seris ou “Comcaac” (como se chamam hoje), são um dos poucos grupos indígenas sem intervenção católica em suas crenças animistas. Nas zonas Seris de agora não há nenhuma igreja católica nem padres, embora haja algumas igrejas protestantes.

Voltando ao assunto sobre a chegada dos espanhóis, lá pelos anos de 1855 quando os europeus pretenderam conquistar territórios e converter à fé católica os hostis Seris, se deram conta de que estes representavam uma antíteses do que eles queriam. Dado que seu território era tremendamente hostil, os Seris em si eram bastante duros, eles não se destinaram a serem subjugados, eles não podiam ser escravizados nem vendidos como mão de obra barata já que fugiam na primeira oportunidade. À parte de que não sabiam cultivar, não tinham riquezas acumuladas como outros povos mesoamericanos, etc. Diante disso os espanhóis junto como os rancheiros mexicanos daquela época decidiram exterminá-los, sem mais. Devido a isso, neste ano começaram as Guerras Encinas, conflito bélico que duraria mais de 12 anos.

Embora coubesse dizer aqui que nem todos os bandos Seris reagiram da mesma forma diante da invasão, como por exemplo, o bando VI, que era mais primitivo, vivia em covas e não usavam arcos nem flechas, apenas eram expertos no uso do arpão, se alimentavam de mariscos, iguanas e maguey. Eram desconfiados e impetuosos, sua zona era a ilha de São Estevão. A este bando não lhe interessava o novo mundo nem os brancos, já que estavam praticamente ilhados em sua pequena ilha, mas por ser um dos grupos Seris foram os primeiros a serem atacados pelos invasores.

É dito que um barco europeu chegou até a Ilha de São Estevão e enganando aos Seris com presentes os fizeram subir, e estes foram aprisionados (embora não todos). Os homens foram assassinados e as mulheres e crianças foram levadas a terra continental como cativos.

Ao mesmo tempo o bando II que era relacionando com a pilhagem e o roubo de gado dos brancos foi reduzido pelos espanhóis, fazendo-os retirar-se em direção aos pântanos inacessíveis da Baía de Kino onde assassinaram a todos, menos a um dos jovens guerreiros que conseguiu chegar a Ilha Tubarão onde avisou aos demais Seris. Foi assim que os bandos I, III e IV se uniram contra os invasores e contra os indígenas aliados dos brancos (chamados entre eles de “pápagos”), fazendo da Ilha Tubarão um verdadeiro campo de batalha. Vários espanhóis morreram nos encontros com estes hostis. As montanhas ingrimes serviam de refúgio para os guerreiros, aqueles que com sua sabedoria ancestral acertaram vários golpes contra os europeus.

Os espanhóis não sabiam como encontrar água potável na ilha (coisa que os Seris sabiam por ser seu território), então, em várias ocasiões os brancos retrocederam desidratados e cansados depois de suas armadilhas, e estes ao não encontrar os nativos nas montanhas (como se houvessem desaparecido), tiveram que empregar vírus estranhos contra os Seris (varíola, sarampo, etc.), fazendo que seu número se reduzisse gradualmente, até a sua destruição, embora não completa.

Voltando ao assunto, em plena Guerra Encima, os Xamãs diziam que os espíritos dos animais acompanhavam aos Seris nas batalhas e que eles ajudavam-nos a seguir adiante. Aqueles guerreiros com uma superioridade espiritual maior que os outros, por sua parte, contavam histórias a seus clãs depois das batalhas travadas, que eles mesmos se convertiam em animais para, deste modo, poder escapar sem que os invasores percebessem. Um exemplo do tipo foi um guerreiro conhecido como “Coiote Iguana”. É contado que em uma ocasião foi capturado e amarrado nos pês e mãos e jogado no mar para que se afogasse, mas ele se converteu em uma iguana e pode escapar. Em outra ocasião que era perseguido pelos espanhóis, os quais tinham o encurralado, ele se converteu em um coiote e pode passar despercebido zombando de seus captores.

Esta tradição animista não é rara dentro da cultura dos Seris. A habilidade de converter-se em um animal em certas circunstâncias passando do plano espiritual ao físico tem acompanhado a várias culturas ao redor do mundo, desde os aborígenes australianos até os yanomamis amazônicos. Hoje em dia isto é conhecido como “nahualismo”. Também não é raro que os eco-extremistas em seus comunicados relatem que se converteram em animais, antes, durante e depois da realização de um atentado, já que esta tradição ancestral pagã igualmente os acompanha.

O que quero expressar com esta informação dentro deste pequeno texto é a geração de um impulso que faça com que os individualistas regressem àquelas práticas pagãs que tanto aterrorizaram e confundiram aos ocidentais daquela época. Nesta guerra contra o progresso humano o plano físico é importante, mas o espiritual é primordial. Aprendamos com os Seris, aprendamos com a sua dura defesa extremista do Selvagem, convertamo-nos em animais e os espíritos de nossos ancestrais nos guiarão pelo caminho que nos tem preparado.

Em nome do Desconhecido!

Com a Natureza Selvagem do nosso lado!

Frente a batalha gritemos HOKA HEY!

Hast Hax

Apocalipsis Ohlone

Tradução do texto do investigador Abe Cabrera publicado em seu blog Wandering Cannibals.

Estive lutando um pouco para chegar a uma reflexão sobre o vigésimo nono comunicado de ITS, considerando que creio que é importante e digno de um comentário. Há algumas coisas que ainda não estou seguro sobre este texto, e algumas outras que creio que se articulam de uma maneira fascinante. Por exemplo, este é o primeiro texto eco-extremista que é expressamente extincionista, ao menos nos termos da espécia humana em seu estado atual em 2016. Não creio que isso tenha sido abordado antes de modo tão cru: no máximo, em alguns textos eco-extremistas foi falado de ataques indiscriminados como se as vidas dos híper-civilizados não importassem. Aqui, a diferença é que o texto abordado diz que o híper-civilizado deve ser extinto. Ponto final.

Eu observei que no passado as culturas mais civilizadas tinham um ponto de vista apocalíptico (“Apocalipse” em grego significa “Revelação”). A civilização sempre teve um desejo de morte. Os líderes de algumas das nações mais poderosas da Terra hoje professam religiões que creem que o mundo terminará com uma chuva de fogo, e que isso é uma coisa boa. Outros são guiados por ideologias que afirmam que o mundo físico é meramente uma ilusão. O estranho então não é que o eco-extremismo tenha uma visão pessimista da humanidade, é mais, é que os que criticam o eco-extremismo sobre este fato nem se dão conta de que isso não é nada excepcional no contexto da civilização, como se desenvolveu durante milhares de anos. De fato, a questão mais urgente, comparativamente falando, é porque o progressismo de esquerda consideraria a humanidade como algo distinto de um esforço finito: um projeto com uma data de vencimento. O livro “The Ohlone Way: Indian life in the San Francisco-Monterey Bay Area” de Malcolm Margolin, é um dos livros mais influentes que já li nos últimos anos. Cresci naquela parte do mundo, então sua descrição da terra antes da chegada dos europeus me tocou como uma tonelada de tijolos. Lembro-me desta região como um intercâmbio entre a terra agrícola e urbana, com um terreno montanhoso selvagem no meio. Antes dos europeus, a terra estava úmida e cheia de caça, era o lugar de animais como a lontra do rio e o urso pardo que já não podem mais ser vistos ali.

Um trecho interessante no livro indica que o “Ohlone” (agrupamento das tribos linguísticas dessa região que possivelmente seja arbitrária), tinha um sentido de natureza finita da existência humana como um todo. Como escreve Margolin:

“Mas no fundo [o Ohlone] sabia que seu mundo estava condenado, destinado à completa destruição. No princípio, no Tempo Sagrado, o poder era puro e impressionante, mas desde então esteve sempre deslizando, diminuindo em qualidade, quantidade e intensidade. As pessoas de hoje eram menos poderosas que seus avós antes deles. Um pessimismo e um fatalismo enraizados percorriam sua visão de mundo. As coisas estavam piorando em cada geração, e em algum momento no futuro deste magnífico mundo, como os mundos anteriores, estaria minado pelo poder. As pessoas deixariam de fazer suas danças e cerimônias, e o mundo Ohlone – seu formoso mundo vivo – entraria em colapso sobre si mesmo e se dissolveria no caos. Então talvez os espíritos se levantariam novamente, misteriosamente nascidos de uma inundação – espíritos como a Águia, o Coiote e o Colibri – para criar mais uma vez um mundo novo, claro, incrivelmente poderoso, um mundo talvez povoado por uma nova raça de pessoas, mas um Mundo que certamente não teria os Ohlones.”

Estou disposto a admitir que algumas das ideias de Margolin podem aqui ser uma profecia posterior aos acontecimentos de um povo conquistado. Mas existe uma interessante base existencial para os povos indígenas da costa central da Califórnia acreditarem nisso. Por um lado, relativamente falando, não havia muitos deles. Estes indígenas viviam em uma terra cheia de animais, e o homem nem sequer era o animal mais perigoso da Califórnia antes da chegada dos europeus. Havia uma boa chance de que os adultos fossem atacados por ursos pardos ou perseguidos por gatos selvagens, assim como nesta era moderna, sempre há uma boa possibilidade de morrer de um acidente de carro. Margolin escreve:

“Mas o conhecimento íntimo dos animais não levou à conquista, nem sua familiaridade desprezada. Os Ohlones viviam em um mundo em que as pessoas eram escassas e os animais eram muitos, onde o arco e a flecha eram o auge da tecnologia, onde um cervo que não se aproximasse de uma maneira adequada poderia escapar facilmente, e um urso poderia concebivelmente atacar. Vivia em um mundo onde o reino animal ainda não havia caído sob o domínio da raça humana e onde (como é difícil para nós compreender plenamente as implicações disso!) as pessoas ainda não se viam como os senhores indiscutíveis de toda a criação. Os Ohlones, como os caçadores de todo o mundo, adoravam os espíritos dos animais como deuses, imitavam movimentos de animais em suas danças, buscavam poderes animais em seus sonhos e até mesmo se viam como pertencentes a clãs com os animais, como os seus antepassados. A poderosa e graciosa vida animal da Área da Baía não só encheu seu mundo, mas encheu também suas mentes.”

O híper-civilizado, é claro, interpõe-se, a “Água debaixo da ponte!” aqui, mas na verdade não é. Meu próprio senso é que, o ódio à humanidade por si só é gerado por muita familiaridade. Os povos indígenas do centro da Califórnia (e de outros lugares) podiam olhar uma paisagem, pradarias, montanhas, rios, etc., e ver uma abundância de vida, uma panóplia de seres vivos. O homem moderno faz isso de modo que, quando olhe, enxergue apenas a si mesmo. Alguns podem dizer que isso é uma coisa boa, mas acima de tudo ele mesmo fica chateado com isso. O bem elimina a humanidade através de seus óculos de sol, fones de ouvido, telas de smartphones, etc. Ou consome a humanidade como mercadoria, auto-selecionada, criada para vender de acordo com a atratividade física, a inteligência percebida, o interesse comum, etc. Pensam que não há nada fora do ser humano, fora do ego e fora dos pensamentos sobre o mundo. E as pessoas se sentem particularmente inteligentes e eruditas ao pensar em tais absurdos, apesar de sangrarem e se decomporem aos demais… Minhas próprias investigações sobre a chegada da civilização europeia a partes do que hoje é “América”, concluem que a última ferramenta da conquista não era a tecnologia ou a doença (tomada em si mesma). Era um jogo de números: havia apenas mais homens brancos, especialmente no que agora são os Estados Unidos. Os guerreiros indígenas eram frequentemente mais valentes, melhores lutadores e com vantagem no campo, mas as ondas de conquistadores e imigrantes continuavam vindo e devastando a terra, transformando-a, matando os animais e despejando-a de suas características anteriores em muitos lugares. Não é que os povos indígenas tivessem necessariamente uma perspectiva mais “holística” da terra, ou que fossem mais “virtuosos”, que não eram muitos. A diferença quantitativa foi feita para as diferenças qualitativas em perspectiva. Em lugares cheios de energia, vibrantes e cheios de vida, é difícil conceber a superioridade humana como um conceito plausível. Pegue a destruição da terra, da vida silvestre, contaminando os rios e envenenando o ar, para chegar ao lugar onde se olha ao redor e se vê apenas o Homem. E então ele acaba odiando a si mesmo, tendo que olhar fixamente para si próprio e ter o poder absoluto percebido em se matar, levando junto o resto do planeta. Os povos indígenas da Califórnia, é claro, morreram, seu mundo foi silenciado junto com tantos outros. O que os substituiu é agora o mundialmente famoso Silicon Valley, junto com o que tem sido considerado o “Salad Bowl of the United States,” produzindo grande parte da alface e outros produtos consumidos nas mesas dos estadunidenses. O progressista não quer admitir isso, mas a troca entre o Homem e a Natureza neste ponto é uma preposição “ou bem/ou”, não “ambas/e” preposições. Você pode ter seres humanos, a grande maioria dos quais dependem ou apoiam a civilização e tudo o que ela representa ou pode ter coisas como água limpa e ar fresco que fazem com que a vida humana vala a pena viver. Você não pode ter ambos, não nesta etapa do jogo. É por isso que não choro pelos híper-civilizados, e não me queixo dos atos indiscriminados contra eles, e sigo escrevendo sobre estes atos. Uma vez que você se converte em um inimigo da civilização, se você é realmente um inimigo da própria humanidade, isso depende de como honestamente você tira suas premissas.

Como eu disse no início desta reflexão, as pessoas mais civilizadas admitem isso em segundo plano. Elas acreditam que Jesus, Alá ou Javé, virá e destruirá o mundo com fogo e estabelecerão uma Cidade Eterna que não pode desmoronar ou decair. São esses ateus e esquerdistas menos honestos que confundem a humanidade com um projeto transparente e permanente. Os primeiros acreditam que é preciso seguir a moralidade para que esta Cidade Eterna possa surgir, os últimos creem que é preciso seguir a moralidade para manter a Humanidade tal como está flutuando em sua missão de se tornar uma instituição eterna. Os primeiro se baseiam numa mentira, mas é muito realista em termos de meios para alcançar o resultado desejado. Os últimos são, sem dúvida, completamente enganados.

A falta de preocupação com os híper-civilizados, pelos domesticados que apenas amam a si mesmos, é base do pensamento eco-extremista, e é um aspecto desse pensamento que defendo totalmente. Não posso deixar de citar o poema de Robinson Jeffers na íntegra, este é o texto mais apropriado para pôr fim a esta reflexão. Descreve uma cena da terra de Esselen, ao sul do território “Ohlone”:

“Mãos Dentro de uma caverna em um estreito desfiladeiro próximo de Tassajara

A Abóboda de pedra é pintada com as mãos;

Uma multidão de mãos no crepúsculo, uma nuvem de palmas de homens, não mais,

Não há outra foto. Não há ninguém que diga

Se os tímidos e silenciosos marrons que estão mortos tentaram

Religião ou magia, ou fizeram seus traços

Na ociosidade da arte; Mas sobre a divisão dos anos estes cuidadosos

Sinais-manuais agora são como uma mensagem selada

Dizendo: “Olhe: nós também somos humanos, Tínhamos mãos, não patas.

Todos louvam

Vocês com as mãos mais inteligentes, nossos fornecedores

No formoso país; Desfrutar dela na temporada, de sua beleza, e baixa

E foi suplantado; Porque vocês também são humanos.”

Repensando a Violência: Contra o Instrumentalismo

Tradução do texto Rethinking violence: against instrumentalism, escrito  por Sokaksin e publicado em seu blog que discute a tendência eco-extremista.

Estive conversando há alguns dias atrás quando surgiu o tema dos bombardeios, o qual me resultou emocionante, devo admitir. A conversa eventualmente se aprofundou para uma discussão a respeito da motivação para os ataques e foi além, formou-se uma discussão sobre a violência extremista em geral. A medida que a conversação foi se desenvolvendo eu fiquei com isso na cabeça, fomentando mais pensamentos, até que comecei a me dar conta de que há um instrumentalismo profundamente enraizado em nossa atitude moderna em relação à violência. Quantas vezes vimos pessoas chorando e se perguntando “Por quê? Qual foi o objetivo disso?” após algum tiroteio, bombardeios, etc? Lamentando-se pela violência aparentemente sem sentido, por esta não responder a nenhum propósito concebível. E para mim pareceu, a medida que eu seguia remoendo este assunto, que a nossa perspectiva instrumentalista profundamente enraizada é uma das causas do desconforto a respeito de como grande parte da violência relacionada com as ações eco-extremistas se desenvolve.

Como observado, há um alto grau de incômodo que rodeia os atos de violência que não são de alguma forma justificados como recurso para algum objetivo maior, mensagem ou contexto progressista na qual a violência é limpada e purificada, batizada e adequada às nossas sensibilidades modernas. Tememos a violência que não atua a serviço de um “bem maior”. Por exemplo, você pode ver isso comumente em círculos anarquistas quando se põem a jogar LARPing (NdT1) sobre a gloriosa revolução anarquista (a propósito, ainda seguimos esperando por ela). Sempre o tema é discutido há um pouco daquela repugnância e apreensão tão particular que tem os híper-civilizados com a violência. E assim a vulgaridade e a depravação da violência se torna “pura e boa” aos olhos apenas como recurso para a necessidade revolucionária de suprimir forças contra-revolucionárias ou qualquer outra coisa do tipo, em sua necessidade de se acomodar no reino da solidariedade, igualdade e qualquer outra anarco-frase desencadeada com a nova revolução.

A razão pela qual a violência eco-extremista deixa as pessoas incomodadas, ou uma das muitas, é que em seu descarado desinteresse pelos cálculos de “meios-e-fins” acaba por ser veementemente anti-instrumentalista. Um exemplo muito esclarecedor foi o bombardeio ao oficial da Codelco (em parte porque o fim do ataque é uma expressão ainda mais clara do ponto): embora separadamente, pode-se facilmente encontrar numerosos exempos em qualquer número dos comunicados que fazem uma contagem de suas façanhas ou nas cronologias publicadas em vários números da Revista Regresión. Mas continuando: após um ataque tão monumental, ITS não lançou nenhuma espécie de comunicado exigindo uma série de mudanças políticas para tornar a violação que a Codelco exerce sobre a terra um pouco mais amável. Por outro lado, o ataque a Landerretche é a personificação de um animus delendi desencadeado como uma resposta dos abismos sombrios da própria terra. Em suas próprias palavras:

“Este atentado não foi um ato político, não nos interessa a política, somos indivíduos raivosamente anti-políticos. Não nos interessa porra nenhuma as lutas sociais e seus dirigentes, cagamos para a cidadania e o povo cúmplice do sistema tecnológico-industrial. TAMPOUCO é um ataque que pretenda denunciar a empresa Codelco. NÃO buscamos que agora usem caminhões elétricos ou a painel solar, NÃO queremos que agora despejem seus dejetos tóxicos com menor toxicidade, NÃO buscamos que agora sejam responsáveis com o meio ambeite, não desejamos nada disso. […] Este foi um atentado de vingança Selvagem, em nome da Terra que morre pelo progresso humano.” – Vigésimo primeiro comunicado de Individualistas Tendendo ao Selvagem

Contra esta progressista atitude instrumentalista da violência está a descarga anti-instrumentalista de forças violentas, uma forma de “guerra total” canalizando o poder indiscriminado e a violência da própria terra. A violência eco-extremista (como eu a compreendi e senti uma afinidade por ela) sempre teve elementos desta personificação, uma abordagem xamanística para canalizar o mundo espiritual e suas energias basilares que desencadeiam um caos primordial sobre os fantasmas que os homens têm trazido sobre esta terra. Esses atos são as mensagens da terra enviadas sobre as asas de anjos negros para lembrarem os homens de sua pequenez diante do abismo primitivo e indomável, uma confrontação com o selvagismo sempre presente que rechaça todas as maquinizações do homem através da explosão de uma bomba e o rasgar da carne. Mesmo em seu desdobramento de ataques violentos contra os seus inimigos, o eco-extremismo continua a se posicionar veementemente contra a moderna civilização tecno-industrial em todas as suas formas, inclusive a própria forma de guerra.

Deve-se notar que escrevo isso como uma pessoa que foi uma vez, se não for contrária, então, pelo menos, cética em relação à abordagem eco-extremista da violência. Quando me deparei pela primeira vez com o trabalho da tendência as minhas reações não foram diferentes de algumas das respostas que questionam a eficácia e o propósito das ações nas quais os eco-extremistas estão envolvidos. Neste ponto, eu partia de uma perspectiva inclinada ao Kaczynkismo ortodoxo que aborda o ataque desde um enfoque muito mais moderno, instrumental e militarista. Esta parece ser uma abordagem/perspectiva que colore a maior parte de nossos pensamentos sobre “travar uma guerra”, os propósitos e objetivos de um ataque violento.

Mas a posição eco-extremista oferece e continua demonstrando uma concisa contra-partida frente a nossos entendimentos muito mais modernos sobre o lugar e o papel da violência e nossas concepções sobre a guerra. A guerra eco-extremista, ao contrário de, digamos, a abordagem instrumental e militarista dos eco-radicais inspirados em Kaczynski, é a personificação de uma forma de violência primordial e um estado de guerra total que espelha a violência da própria natureza. A forma de guerra eco-extremista é uma continuação e a representação coerente de seu anti-modernismo, anti-progressismo, anti-humanismo e afins. Sua guerra cospe nos decretos sagrados da lei e da ordem que são impostos até mesmo nas formas de violência que são vistas como aceitáveis aos olhos do híper-civilizados. Em vez das regras de compromisso dos homens oferece apenas a lei natural, a violência primitiva.

Nota do tradutor:

1. LARP significa Live Action Role Playing-Game (Jogo de Interpretação ao Vivo). Portanto, a expressão LARping usada no contexto acima implica em uma espécie de “fantasia personificada” que os anarquistas têm com a sua tão desejada revolução.