Excursionismo

Tradução do texto Hiking, escrito por Abe Cabrera.

Cenas de uma vida dupla.

“Só queremos deixar claro que nenhum ser humano estará tranquilo na natureza, nós não acreditamos ser coiotes, lobos, ou qualquer coisa assim, mas nós somos aqueles que não hesitarão em disparar uma arma para que nenhum ser humano pise na pouca natureza semivirgem que ainda existe, então a partir daqui advertimos que nenhum eventinho desses como a “montanha fantasma” que organizam, as visitas à “floresta dos vagalumes”, passeios pelos bosques, eventos humanistas e estúpidos de “sobrevivência primitivista”, nenhuma pessoa é bem-vinda na natureza, será melhor que se abstenham de querer entrar e é melhor que fiquem em suas malditas cidades”.

– Vigésimo Nono Comunicado de ITS/GITS

“Quero viver nas florestas com predadores. Não quero ser o animal mais perigoso nas matas quando entro nelas. Eu gosto de saber que existe um predador maior por aí, um que pertence e se encaixa em um ecossistema saudável. Odeio a ideia da natureza como um espaço rural, livre de todas as ameaças. Essa é a visão do invasor, não a minha.”

– Rod Coronado, “A Resiliência do Selvagem: Lobos Falando e Espreitando com Rod Coronado.”

Black and Green Review Nº 1 (primavera de 2015), página 108.

Quando ando pela floresta, tento estar o mais atento possível. Mas no fundo da minha mente, eu sei que estou em um lugar seguro. De fato, até digo a minhas filhas que o lugar que fico mais nervoso é o estacionamento subterrâneo do shopping. Este é o lugar mais antinatural que um humano poderia conceber, razão pela qual é um dos mais provocadores de ansiedade que alguém possa imaginar. De qualquer forma, o problema real são os carros dando ré, que é uma das situações mais notáveis para acidentes de carros. As crianças, sendo pequenas, poderiam facilmente serem atropeladas por um condutor que não presta atenção ao que está atrás dele. Em comparação com a floresta aqui, o máximo que poderia ser encontrado seria uma serpente ou parar sobre um formigueiro. Com muita sorte se poderia encontrar um lagarto tomando sol, ao lado de um pântano ou uma lagoa. Mas os lagartos são muito tímidos, e fugiriam para a água se alguém os encontrasse.

Ironicamente, em locais selvagens no Oeste, mesmo em lugares que parecem muito mais desenvolvidos, caminhar na natureza poderia ser potencialmente uma proposta muito mais perigosa. Quando eu morava nas montanhas da Califórnia Central, sempre tive medo de me encontrar com um leão da montanha, especialmente quando alguém dizia que havia visto um em alguma montanha, fora do local onde eu estava me hospedando. Lembro-me de ter ficado em outro lugar, e tive que sair para caminhar muito cedo pela manhã, no escuro, e estava desesperadamente com medo de me encontrar com um leão da montanha ou um urso. Os porcos selvagens eram também uma preocupação. No deserto eram os cães errantes que eu mais temia, e levava inclusive uma vara. Uma serpente cascavel poderia ser facilmente evitada: ao contrário das pantanosas florestas de pinheiros, há pouca grama no deserto para que se escondam. O máximo que eu vi foi um pequeno lince ou um coiote meio emaciado. Ao me verem sequer mudaram seus cursos, seguiram vagando.

Também vi coisas menos ameaçantes. Os cervos são abundantes a oeste, já que a caça é estritamente proibida. Caminhando nas terras de Robinsón Jeffers, especificamente em Wolf Point, cheguei a dois metros de um cervo, e fiquei diante dele. Ele me olhou e não tinha medo. Durante semanas em um dos lugares em que eu estava hospedado, mencionado acima, uma família de cervos passava todas as tardes, perto das cinco horas em ponto: uma cerva e cerca de cinco filhotes. Certa manhã, acordei para encontrar com um lindo cervo de cifres predominantes que havia sido atropelado campina abaixo. Essa visão partiu meu coração.

Houve outros encontros, e haverá mais sem dúvidas. Mas estou começando a perceber que estas epifanias do Deus Selvagem do mundo, se manifestam dentro do cativeiro Babilônico, uma curta, mas trágica época em que um animal decidiu que dominará tudo, e que tudo que restar o servirá enquanto sua existência puder se beneficiar disso. Por exemplo, os lagartos nesta área quase foram extintos no início do século passado. Ursos, lobos, panteras e martas vagavam por estas florestas. Sem dúvida, o grande coro dos pássaros foi uma grande orquestra até não muito tempo atrás. A floresta abre de tempos em tempos mausoléus a céu aberto, e inconfundivelmente silenciosos em comparação a quando uma sinfonia total de animais acrescentava suas medidas musicais. E elas (as florestas atuais) *¹ foram feitas desta maneira por e para o homem. Eu já comentei como minha área nativa na Califórnia foi alterada além do reconhecível.

Declaro tudo isso porque recentemente me pediram para refletir sobre o selvagem *². Para mim, não existe tal coisa. A “natureza” existe completamente a critério do homem. Leia um livro como A Terra dos Cervos: A Caça na América Para o Equilíbrio Ecológico e a Essência da Vida Selvagem, e você percebe que mesmo os selvagens e impressionantes cervos são meramente um produto da civilização: uma população que é permitida vagar e que são extraídos de acordo com cotas muito estritas do governo. De fato, a forma pela qual algumas pessoas caçam cervos, usando milho para atraí-los e ficando a postos para disparar contra eles, já que o cervo não consegue levantar seu olhar, está mais para um massacre que para uma caçada. Existe até um procedimento que a pessoa deve seguir se ela atropela um cervo (que é um acidente muito comum em algumas partes dos Estados Unidos). Em algumas partes do sul, enquanto se está transbordando de árvores, elas são colhidas de acordo com uma determinada agenda. Há a temporada dos lagartos, dos patos, etc., etc. Considerando o número de armas nesta parte do mundo, e o entusiasmo de alguns em usá-las contra animais comparativamente indefesos, a única coisa que impede estas criaturas de serem extintas é o Estado. Muitos animais foram extintos apoiando esta hipótese, uma vez que o governo foi menos entusiasta para protegê-los.

Então enquanto as pessoas pensam que o Estado está contra a “Natureza”, eu estou um pouco relutante em concordar. Se o Estado e a sociedade tecnoindustrial entrassem em colapso amanhã, os primeiros a morrerem seriam todos os animais. Todos os cervos: mortos. Tartarugas: mortas. Lagoas e rios: saturados pela pesca. As pessoas até mesmo começariam a matar os guaxinins e gambás (que eu ouvi dizer que caem bem se vão acompanhados com batatas). Talvez comecem a comer tatus, que dizem que carregam lepra, e depois cães e gatos, e assim por diante. Muitos romances distópicos foram escritos sobre isso. Se a sociedade tecnoindustrial entrasse em colapso amanhã, o leve, mas entusiasta coro da floresta, cairia em silêncio total, enquanto milhões de humanos vagariam pelos espaços silvestres a procura de carne para se alimentar. A descrição de Paul Theroux do silencioso campo da Angola destruído pela guerra, em seu livro The Last Train to Zona Verde, vem à mente.

Claro, agora é muito mais perigoso andar pelos bairros mais distantes, Eu sei, tendo sido assaltado uma vez, tarde da noite, na Califórnia (não levaram nada, e descobri que eu poderia aguentar um soco). Os tiroteios geralmente ocorrem à noite, assim como todos os tipos de assassinatos, roubos de veículos, violações, assaltos, etc. Homo homini lupus*³, especialmente quando todos os lupis reais, foram massacrados pelas mãos do homo sapiens. Ou talvez não seja tão sábio ao tentar criar um mundo em que ele é o único predador a ser temido. É verdade, talvez, que a única Natureza Selvagem que resta está no coração do homem: em seu coração mortal, frio, onde apenas outros homens são presas. No final, este é o mundo que criamos. Um em que a única forma de replicar a sensação do homem primitivo, caminhando pelo bosque primaveril, é afrontando outro homem na floresta artificial de concreto, concebida fora de sua mente limitada. Lá pelo menos deve permanecer alerta e consciente de sua própria mortalidade. Na floresta real, a reserva que sobrou da civilização, é como um claustro monástico em comparação.

De qualquer forma, penso eu, que posso entrar na floresta, no pântano, e nas águas para expressar minha dor. Talvez algum dia, outro homem possa sentir a plenitude de viver entre as árvores, rochas e águas, onde ele é meramente outro animal, a potencial comida de algum animal, e somente outra voz na grande Roda Cósmica. Isso e nada mais. Talvez isso aconteça novamente no sonho do Mundo, talvez não, mas não voltarei a cometer o erro de acreditar que sou eu quem está sonhando.

1. * Esclarecimento do tradutor.
2. * Referindo neste caso a áreas selvagens, geograficamente.
3. * (O homem é o lobo do homem)

Aponte Mais Alto

Tradução do escrito Aim Higher, de Abe Cabrera.

Alfredo Bonanno abre sua famosa obra, “O Prazer Armado”, com esta passagem:

“Por que diabos estes benditos meninos atiraram contra Montanelli nas pernas? Não teria sido melhor ter disparado na boca? Claro que sim. Mas, além disso, teria sido mais grave. Mais vingativo e sombrio. Deixar fodida uma besta como esta pode ter um lado mais significativo, mais profundo, que vai além da vingança, do castigo pela responsabilidade de Montanelli, jornalista fascista e servo dos grandes senhores. Aleijá-lo significa forçá-lo a desistir, a lembrar-se. Por outro lado, é uma diversão mais agradável que atirar em sua boca, com pedaços de cérebros saindo de seus olhos.”

Claro, matar alguém é muito mais definitivo que deixá-lo coxo, sem dúvida. E talvez haja também consequências legais envolvidas (peso na consciência?). É como quando algumas pessoas dizem que a vida na prisão é pior que a pena de morte. Há um ponto aí, dependendo da perspectiva do observador. Pessoas inocentes podem ser libertadas, mas não podem ser ressuscitadas. Talvez um fascista coxo possa mudar seus costumes, ou talvez você apenas quer que ele sofra. Talvez você durma melhor à noite sabendo que “só o deixou coxo”. Ler a mente de alguém é um exercício fútil, então pararei por aqui.

Mas por que disparar na cara de um fascista seria mais “grave”, mais “vingativo e sombrio”? (“Ma sarebbe stato anche più pesante. Più vendicativo e più cupo.”) Bonnano passa a falar da piedade dos revolucionários, levando em consideração que a revolução está longe de ser piedosa. Para ele, estão apenas de fofoquinha, para se divertirem contra a máquina cinzenta que busca nos oprimir, e outro monte de blá blá blá insurrecional sobre ter esperança, mas sem realmente ter esperança, lutar, mas se divertir ao mesmo tempo, etc. Tudo se resume em ultrapassar estas dicotomias, e é por isso que a coisa menos grave é mais divertida enquanto que a coisa mais sensível (disparar na cara e eliminá-lo) é de alguma forma a coisa mais moral, o mais “sombrio”, e o menos subversivo.

Mas, de acordo com alguns grandes insurrecionalistas sem insurreição, ainda mais subversivo é não fazer completamente nada e fingir que o mundo “normal”, o mundo em que se vive de fato, o de milhões de pessoas, simplesmente não existe. Veja você, tudo se trata de fugas binárias, bem e mal, revolução e vida real, natureza e civilização, o Eu e Você, o Um e os Muitos, etc., apenas afirmando que não existem. (Isso me lembra a história talvez apócrifa da Rainha Vitória apagando a Bolívia do mapa após o Embaixador de Sua Majestade Real ter sido expulso do país e posto nas ruas montando um burro como forma de humilhação). Veja como tudo se trata da percepção; estar consciente em oposição e ser “inconsciente” (estar acordado* NdT 1, como as crianças dizem nos dias de hoje). E neste sentido, fazer qualquer coisa que se assemelhe remotamente ao terrorismo, violência revolucionária, ou mesmo a violência criminal, é cair nas mãos do Binarismo Opressor. Em sua bolha, se você denuncia o Binário desde o começo, você vencerá e terá transcendido. Sim, eu também sou um bastardo em minha imaginação. Meus amigos imaginários também pensam que sou especial (“Insurrecionalistas sem insurreição” me lembra a caracterização do comunista Bukharin dizendo que o anarquista é um liberal com uma bomba. Você pode fazer a aritmética sozinho). Foi aproximadamente na metade da minha vida, mas ainda posso me lembrar da Ideologia Alemã e processando o jovem Marx, seu ponto principal era que a refutação de algo no abstrato não destrói aquilo no mundo físico. Eu não vou entrar em toda a polêmica do “São Marx”, mas vou tentar citar Teses sobre Feuerbach encima de outra problemática hegeliana que o autor comunista aborda:

“O problema de saber se ao pensamento humano pode ser atribuído uma verdade objetiva não é um problema teórico, mas um problema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a mundanidade de seu pensamento. O litígio sobre a realidade ou irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico…

A vida social é, em essência, prática. Todos os mistérios que levam a teoria ao misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.”

Vamos salvar o leitor de toda a questão de “o ponto está em mudar isso”. Outro marxista (Trotsky?) resumiu o princípio mais sucintamente dizendo algo como (parafraseando): “Quando uma ideia busca o controle das massas, se converte em uma força material.” Não importa se uma ideia é “falsa”, se existe um deus ou não, etc. Deveria importar, mas realmente não é assim. Se as pessoas estão prontas para matar ou morrer por ela, é uma realidade física, pode até ser uma realidade física superior (um deus?). O progresso, por exemplo, pode ser um fantasma sem base na “realidade física”, mas essa ideia criou a Hidrelétrica das Três Gargantas na China: a crença firme na ordem, no futuro, na benevolência da dominação do homem sobre a natureza, νόμος sobre φύσις. Você se negar a lidar com isso e retrair sua própria imaginação e opinião significa simplesmente que você acaba protegido por sua fortaleza de opiniões intransponíveis. Isso parece uma vitória pírrica, se é que alguma vez existiu uma.

Mas vamos voltar ao tiro na perna: não poderíamos dizer que este “prazer” está infectado pela ideologia neo-cristã, como um malware criando um backdoor no software insurrecional? Por que não é divertido ver cérebros escorrendo pelo oco de um olho, mas ver um fascista se contorcendo de dor porque lhe espatifaram a patela é legal? Pode ser que haja medo que te considerem um psicopata por matar alguém, mas regojizar-se por deixar alguém coxo não deveria te catalogar no status de psicopata, é? (explique isso para uma pessoa comum para ver se compram a ideia). Não poderia ter nada a ver com todo o assunto de “Não Matarás”, certo? Ou o monopólio absoluto sobre a vida e a morte que o Rei, o Estado, etc., reivindicaram sobre as pessoas por milênios no contexto europeu? Talvez estas pessoas deveriam começar a ser honestas consigo mesmas, mas provavelmente não o farão. Elas não deveriam se surpreender, em todos os casos, quando algum de seus compas chegue a conclusão de que todo o derramamento de sangue é “fascista”, ou se alguns mais ainda confusos flertam com os “movimentos sociais” que promovem a intervenção do Estado para desarmar todo o mundo.

A moeda humana, mesmo para o mais fervoroso insurrecionalsita, para o traidor da espécie mais entusiasta, é preciosa demais. Não vamos invalidar esta moeda, eles exortam; ao fazê-lo, a pessoa cai no cálculo moral da sociedade. Ao ser imoral, reverencia-se a moralidade, em oposição a ter a atitude correta, a “consciência correta”. Uma percepção tão alta pode tornar a travessia de uma rua um ato revolucionário, pode criar abundância do nada, pode partir o mar. Mas em termos de desafiar o humanismo inerente, o cristianismo inerente a todas as ideologias “radicais”, não podemos fazer isso. Desculpe, não vamos prestar-lhes atenção, e seguiremos com a próxima moda da semana que prometa salvar uma sociedade que não quer ser salva, ou ao menos nosso confortável lugar nela.

Atirar no joelho é atirar nos ramos mais altos. O atacante está claramente perturbado por algo a ponto de usar a violência. Por que você quer ferir essa pessoa? Por que ela tem poder? Quem lhe deu esse poder? Ou quem consente que o tenha? Há mais de “nós” que “deles”, certo? Com quem você realmente está zangado? Você realmente acha que matará a árvore se você podar o suficiente? O que te impede de atirar na raiz? Quando você se vê de frente para o indivíduo e para o coletivo, o que te impede de apontar mais alto, acima dos joelhos, na direção de onde o problema realmente está? Além do bode expiatório para a Massa amorfa que o mantém em sua posição de poder?

Nota do Tradutor:

1. A palavra usada em inglês é “woke”, termo político de origem afro-americana que se refere a uma consciência perceptiva respeito à justiça social e a justiça racial. Nas acepções mais modernas do termo, é usado para falar de consciência social em termos gerais.

Uma Abordagem Extra-moral à Artificialidade

Tradução da reflexão Extramoral Approach Artificiality, extraída do blog Antisocial Evolution.

As leis sociais são um sistema de regras impostas à maioria das pessoas civilizadas desde o nascimento. Elas são um conjunto de regras que governam como você deve viver para fazer a sociedade funcionar: não roube, seja uma boa pessoa, trate os outros como você gostaria de ser tratado, somos todos iguais e se pudéssemos deixar de lado nossas diferenças e trabalhar juntos nós viveríamos em uma utopia de ouro. Estas leis são uma mistura da espuma borbulhante da doutrina judaico-cristã tradicional e o humanismo liberal moderno. É a maior fraude de todos os tempos, o engano mestre, um sistema de mentiras envolvidas em um lindo pacote e chamadas de civilização. É como ser fodido por um porco vestido de freira.

Logo está a lei natural, a lei real, a natureza primitiva do homem, a parte de nosso cérebro que se desenvolveu ao longo dos últimos milhares de anos, sobrevivendo às eras glaciais, secas, em florestas, desertos, à pragas e guerras. É o cérebro do lagarto, o cérebro animal, a parte de nós que impulsiona instintos e comportamentos nos níveis mais profundos.

Em nossa ignorância pensamos que somos removidos a um nível de distância das bestas da terra. Qualquer um que tenha animais de estimação ou que tenha estado no meio da natureza sabe que existe uma lei selvagem que reina acima de tudo: a sobrevivência do mais apto, afunda-se ou nada, aprende a voar ou morre tentando. “Vitória ou Valhala.”

Isso não quer dizer que o altruísmo em certo ponto não exista. Experimentos mostraram que os ratos arriscam suas vidas para libertar seus amigos do cativeiro. Os bonobos nas tribos compartilham a comida entre si. Um cachorro poderia adotar um gatinho órfão como se fosse seu e cuidar dele.

Não estou dizendo que a “bondade” não exista em nossa natureza primitiva. Mesmo assim, as leis da sociedade civilizada são uma farsa. As regras escritas em tábuas de pedra e assinadas por “deus” eram, obviamente, dirigidas a pessoas nos escalões mais baixos da sociedade – não para os ricos e poderosos.

Se você olha a demografia de hoje, são os pobres que são os mais religiosos e os ricos os menos. Os ricos mentirão, roubarão e serão opressivos contra qualquer um que cruze em seu caminho – isso se chama viver sob as leis naturais.

A lei natural é viciosa. Ela é a mãe que insiste e critica, que aponta suas maiores inseguranças com risadas em um sorriso maligno. Ela não é a pequena amorosa Terra, mãe das flores, doces e abraços. Ela é Kali em um embate, incendiando florestas no chão. É a furiosa e ciumenta Hera, atormentando e destruindo aqueles que se opõem a ela. Sua compaixão é grande para aqueles que a respeitam, mas sua ira é a morte experimentada milhares de vezes em um tsunami, por isso andamos em nossas vidas diárias, falando, atuando e respirando sob as leis sociais – quando no fundo de nosso subconsciente – estamos vivendo sob a lei natural. Por que o homem estabelecido com uma esposa e uma família arrisca tudo por uma noite de paixão com uma mulher jovem e bonita, mesmo quando ele sabe que as repercussões poderiam ser a solidão, o divórcio, e intermináveis pagamentos de pensão alimentícia? Por que os líderes de países levam seu próprio povo à ruína com dívidas intermináveis e guerras em busca de riqueza – mesmo quando estão em risco?

Os tolos e os idiotas quebram a cabeça e ficam com suas mandíbulas abertas, estáticos por aí, como se fossem uma horda de vaginas arregaçadas. Um ponto de interrogação que paira no ar como um fedor estagnado.

No início de nossas vidas, estamos posicionados em um tabuleiro de xadrez, mas nos dizem que é um tabuleiro de damas. Como peões obedientes, nos concentramos em avançar um quadrado de cada vez – apenas para nos vermos surpreendidos e espancados quando a torre captura nossas vidas com uma varredura limpa. Como ela pode fazer isso? É justo? Como ela pode simplesmente atravessar todo o tabuleiro? Claro que ela pode, quando você percebe o jogo que está jogando.

Assim que acorda, você está na selva, bebê. Como primatas, é onde começamos e nunca saímos realmente. É claro, talvez sejamos astutos o bastante para criar pequenas casas e estradas ou cercar subúrbios que podem dividir nossas falsas vidas acomodadas.

Mas a civilização, como a conhecemos, tem apenas 5.000 anos de idade. A moderna sociedade industrial tem apenas 200 anos de idade. As leis reais dos homens foram estabelecidas ao longo dos 40.000 anos de nossa existência como bestas, e até mesmo as leis de outros primatas antes disso sequer acontecer.

Poderia a psique humana mudar tão rápido para se adaptar às leis humanitárias, liberais e cristãs? Talvez quando se corte as genitais e lobotomize a mente. Por que você acha que os antidepressivos prevalecem tanto na sociedade de hoje? Por que você acha que as pessoas vão a caras terapias por causa de seus flácidos casamentos e vida sexual?

Então acorde da ilusão. Tudo o que foi dito a você é uma mentira. Perceba o jogo que você está jogando e jogue-o bem. Não há equivalentes. Apenas ganhadores e perdedores. Você é o lobo ou a presa?

Breves palavras a respeito da violência do Céu

Tradução do texto Brief words on the violence of heaven, de Sokaksin.

A violência no núcleo do mundo é parte integrante da beleza e da vida do tudo. Assim são as coisas. O mundo não pode se sustentar sem a escuridão, e não poderia ficar sem luz, ou o jogo sem fim de sua interpretação e determinação mútua. Esta é a verdade do mundo. Em tal mundo a graça inefável que traz as bagas da primavera ao urso também escreve o drama eterno do alce e dos lobos. Uma vida de morte, uma morte de vida. Na teia de uma incontável quantidade de seres, em seu sofrimento e sua fortuna, na forma da terra e a integridade do todo. É simples ver o surgimento mútuo do todo na floração da primavera e a atividade das abelhas, mas mesmo o corpo falador da lebre no ajustado aperto das mandíbulas do coiote reflete a beleza do todo. Como Jeffers observava em seu poema Fogo nas Colinas, “a beleza nem sempre é amorosa…”. O sangue nas rochas, os ossos dos cervos branqueados pelo sol, as poderosas mandíbulas do grande leão da montanha, perfeitas para matar, o uivo do coiote e o grito da morte do alce. A ferocidade e a violência indiscriminada do eco-extremismo é a representação deste fundamento, a violência divina que trabalha e sempre trabalhou no coração do mundo.

O eco-extremismo é continuamente assediado pelas fileiras dos fracos híper-civilizados, por sua aparente “psicopatia”, porque se atreve a materializar esta violência primordial contra a ordem artificial do Leviatã. No altar da lei e da ordem, o eco-extremismo oferece a profanação e um sacrifício de sangue para a terra selvagem. Ao se negar ter um contato mínimo com a linha do humanismo e do progressismo, ele se situa em oposição a tudo o que a civilização tecno-industrial (e isso também se refere ao próprio Homem em si) representa. Está oposto em sua essência a toda a infraestrutura podre, desde a “rede” a qualquer cidadão híper-civilizado que igualmente é a manifestação da civilização, tal como a represa da hidroelétrica que afeta a vida do rio. Ele se recusa a por a vazia abstração do “Homem” no topo do ser e ataca com selvageria tudo aquilo que canibaliza a beleza do todo pelo desolado aterro da modernidade. O eco-extremismo é o ataque do lobo feroz, olhando contra o gado domesticado. É a fúria do urso pardo contra aquele que vagueia de forma insolente dentro de seus domínios. É a força do búfalo e as janelas quebradas ao lado do metal dobrado contra os híper-civilizados que esqueceram a força e a fúria desta escuridão primitiva e seu lugar nas grandes redes do mundo, redes dentro dais quais elas permanecem impotentes apesar do engrandecimento de suas próprias abstrações.

A ordem da terra foi forjada sobre aeons através desta violência divina. Este é o caminho. Daí surgiu a beleza implacável daquele mundo trans-humano que o homem e sua sociedade tecno-industrial busca profanar para si mesmo. Cada explosão de uma bomba, cada jorro de sangue derramado é um golpe a partir daquele núcleo primitivo de selvageria, que permanece contra as ilusões e pretensões do homem moderno, sua civilização e tudo o que ele representa.

-Sokaksin

Paper On Decolonial Violence and Eco-Extremism For 2018 ASN Conference

Paper On Decolonial Violence and Eco-Extremism For 2018 ASN Conference é um artigo escrito por Julian Langer do blog Eco-Revolt e Feral Culture que foi apresentado em 13 de Setembro de 2018 durante a Anarchist Studies Network Conference, na Universidade de Loughborough. Neste denso texto o autor aborda a posição moralizante da esquerda (incluindo os anarquistas) em torno da “violência” que é abordada amplamente e como o eco-extremismo ultrapassa esta barreira.

On September the 13th I presented this paper at the Anarchist Studies Network Conference, at Loughborough University. This was written to be spoken and I haven’t edited it to make it any more readable.
*
Pessimist political theorist Jacques Camatte, whose writings after his years of being a Marxist theoretician influenced anarchist discourse at the time – in particular the anarcho­primitivist wing – stated in his work Against Domestication that – “There are others who believe they can fight against violence by putting forward remedies against aggressiveness, and so on. These people all subscribe, in a general way, to the proposition that each problem presupposes its own particular scientific solution. They are therefore essentially passive, since they take the view that the human being is a simple object to be manipulated. They are also completely unequipped to create new interhuman relationships (which is something they have in common with the adversaries of science); they are unable to see that a scientific solution is a capitalist solution, because it eliminates humans and lays open the prospect of a totally controlled society.”

It seems abundantly obvious that we live amidst a great deal of violence and that violence and the need to end it is the dominant theme within the narrative we are located within. The violence of rape culture; the violence of racial and colonial oppression; the violence of ISIS, Islamists and the international forces against them; the violence of Russia, North Korea and the USA; the violence of school shootings in America; the violence of mass stabbings from gangs in London; of bombs, cars, guns, knives and penises. Many acts of violence are spoken of less; the violence of animal traps; the violence of chainsaws; the violence of dehabitation to develop an area, or to grow industrial monocultures of crops, to feed a growing population.

Within radical discourse, particularly that of the anarchist tradition, we generally have somewhat of a strained relationship with violence. My wish here is to identify a theme within our discussions which often gets over looked – this theme is one regarding interiorisation and exterioisation, under the gaze of an big-­Other. I will focus this within contemporary discourse around decolonial, anti-­colonial and eco­-extremist activities. This will also involve, in the later part of this paper, an ontological assertion, regarding what violence actually is.

Last year the Chilean indigenous anti­-colonial organisation Fight Of The Rebel Territory, in a single action, burned down 29 logging vehicles. Between January andMay 2016 the group committed 30 similar acts of property damage, in defence of the land they live upon, the forests and the wildlife. Similarly, MEND, the Movement for the Emancipation of the Niger Delta, an armed militant organisation of loose cells engaged in guerrilla warfare against oil companies, have blown up pipelines, attacked oil fields and kidnapped oil workers, as part of their anti­-colonial activities.

As voices for the English speaking radical environmentalist and anti­-colonial milieus, groups like Earth First! and Deep Green Resistance have spoken out in support for these groups, and others like them, seeking to legitimise them, within the context of radical discourse. This involves undergoing a process that Deleuze and Guattari called territorialisation, where a process of interiorisation brings these groups into the structure of particular machine. This brings these groups into the space of moral­ acceptablity, within a left­-wing oriented moral framework. From this, these actions, the activities of these groups, and similar others, become part of the narrative of left­ wing radical politics, regarding the progress of civilisation and history. They become characters within the chapters preceding the “revolution” and, in a similar way to that being described by Camatte in the quote I stated earlier, they are viewed as passive objects to be scientifically manipulated. As characters within the metadrama they reside within, they are allocated an identity that functions entirely as a symbolic signifier for an Other, who stands as the parental superego, granting their struggles as legitimate, like God determining who is going to heaven, or rather who will not be thrown into the gulag, even the anarchist one, after the revolution – interiorised – and who will be cast into hell, or the gulag, again, even the gulag
constructed by anarchists – exteriorised.

This is also the case in decolonial struggles that aren’t necessarily connected to eco-radical struggles, such as the Palestinian struggle against the violences of Israel, where unarmed protestors are painted as “innocent” by pacifist Leftist organisations that use their struggle as a platform for their own, with the implication being that armed Palestinians, such as Hamas, are legitimate targets for statist colonial violence.

While the organisations leaders, who might be educated in the western philosophies of Marxism, anarchist, etc., might embrace this ideological trajectory, I think that, in actuality, outside of this interiorisation, those individuals who are actively engaged in the actions of these organisations and similar ones; they do not care about progress, history, capitalism or any of that. They care about the forests, lands, wildlife, rivers and world that they are immersed in and live as Extensions of.

This machinic enframing functions, in the way Heidegger describes regarding technology and enframing, whereby, as objects, symbols and characters of a technological description, they fit within the mode of human existence stated before, that of the lef-t­wing ideological narrative, dehumanised, inanimate and un­-animal.

Now I want to turn to something that might seem in many ways entirely opposite, but I argue stems from the same narrative I have been describing here. To do this though, I’m going to do a short bit of history.

Ted Kaczynski’s 17 ­year bombing campaign is arguably the most successful campaign of its type. As the Unabomber, Kaczynski sent 16 bombs, to various locations within the USA. It was only after the publication of his manifesto, Industrial Society and its Future, that his motivations became clear and he captured. The work is a brilliantly articulated critique of technological society, which includes a critique of Leftism, which I will not go into here, as it is not necessary for this and would take up too much space. I only acknowledge it for its relevance for what I am about to go into.

Kaczynski’s influence, regarding the anti­-colonial space, is particularly noteworthy, regarding the post­-anarchist nihilist­-terrorist movement called Eco-­Extremism. Growing out of dark­net nihilist­-anarchist anti­-civ discussions, and almost entirely located within Southern and Central America, from indigenous anti­-civ individuals, with only a few cells within Europe, this movement is one that has actively sought to exteriorise themselves from the left­-wing narrative and machine.

In their anti­progressive anti­meliorist activities, the group which is the most vocal proponent of Eco-­Extremism, Individualists Tending Towards the Wild (translated from Spanish), ITS (as the S stands for savagery), focused their early activities on, like Kaczynski, bombing university institutions, such as nano-­technology laboratories; before moving onto their famed, through moral disgust, indiscriminate killings, in the name of Wild Nature.

In case you are unfamiliar with the group, I’d like to state here quotations from their earlier communiqués –

1. “Civilization is collapsing and a new world will be born, through the efforts of anti­civilization warriors? Please! Let us see the truth, plant our feet on the ground and let leftism and illusions fly from our minds. The revolution has never existed, nor have revolutionaries; those who view themselves as “potential revolutionaries”and seek a “radical anti­technology shift” are truly being idealistic and irrational because none of that exists, in this dying world only Individual Autonomy exists and it is for this that we fight.”

2. “A world without domestication, with a system stopped by the work of the “revolutionaries,” with Wild Nature born from the ashes of the old technological regime and the human species (what remains) returned to the wild, is completely illusory and dreamy.”

3. “ITS shows its true face, we go to the central point, the fierce defense of Wild Nature (including human); we do not negotiate, we carry out our task with the necessary materials, without compassion and accepting the responsibility of the act. Our instincts make us do it, since (as we have said before) we are in favor of natural violence against civilized destruction.”

The response ITS has received has been one of active exteriorisation on the part of leftists and moral-­anarchists. The left­-anarchist publication Its Going Down in particular spoke out against ITS, noticeably following their 29th communiqué, where they claimed responsibility for the murder of a woman in a forest, and have demonised anarchists and westerners who include Eco­-Extremism within discussions. Its Going Down struck ITS with the label of Eco­-Fascism in one of their condemnations of the group, in an obvious attempt to morally demonise them, excluding them from the community of groups and organisations deemed acceptable within anarchist morality. This is, like with MEND and Fight of the Rebel Territory, done under the gaze of a parental superego Other, repressing that which is deemed morally unacceptable, from a position of moral authority, as God. This is an example of what Camatte described, where the leftist condemners of ITS and Eco-­Extremism treat Eco­-Extremists, those interested in Eco-­Extremism and their own sympathisers and supporters, as objects for scientific manipulation, in a capitalistic move to control, to territorialise.

The Eco­Extremist journal Regresion Magazine makes a noticeable attempt to exteriorise itself, in both its name and its contents. It describes itself as the antonym to progress, as the antithetical regressive force, placing its strategy as one of active Marxist style dualistic dialectics. The magazine is one that claims to actively not want to be read or be trying to find readers, but makes itself available to read online by anyone. It is actively saying “we are not one of you” and “we are not a part of this”, in a very similar way to how Leftists seek to exteriorise Eco-­Extremism. From these examples I have presented, I have looked to identify that, in both positive and negative moral framings, through both interiorising and exteriorising within the narrative of progress, revolution and history, the leftist relationship towards anti­-colonial and decolonial radical and extremist projects is one whose machinic structure is functionally and ideologically colonialist and racist. The left does not accept or condemn the actions of indigenous and anti­-civ groups simply on their own terms, but layers it with the symbology of its own ideological design. As well as this, the decolonial movement has become so much a part of the Leftist machine, that, in the case of Eco­Extremists, indigenous peoples are moving away from the struggle.

At this point I feel to move to somewhere slightly different to where we have been for the bulk of this, though not straying too far away. I frame this in geographical place, rather than historical time, because what I am moving to is neither historically progressive nor reactionary, or regressive, whichever term you prefer, but metaphysically presentist, in an egoist and phenomenologically immediatist sense. Karl Popper stated in his work The Open Society and Its Enemies, where he critiques the teleological historicism of Hegel, Marx and similar thinkers as being fundamentally totalitarian, “History has no meaning”– a proposition undoubtedly disagreeable to anyone who embraces Leftist political positions, but this is the sentiment I wish to move forward from.

This is the matter of destruction, which I will later differentiate from violence. Now, when I look outwards from myself at what post-­anarchist discourse and action means now, in this present moment, as we find ourselves in systematic crisis, ecological collapse and amidst so much violence, it seems to me that we can really only being talking about ontology. I am not meaning that we are talking about and can only talk about vague and abstract concepts, but rather that at the root of our discourses and that if we are honest about our discussions we are talking about psycho­ontics, social­ontics, eco­-ontics, about Realities and about the Real – I am delving here, through bringing ontics in alongside ontology, into the world of Things (capital T) and reification (using the term equally in the sense meant by good old Commie Marx and the sense of the fallacy of concretism, also know as hypostatization).

These ontological discussions might often be framed within Symbolic theatres of ideologies, interiorising and exteriorising, in processes of territorialisation. But underneath this clothing, the bare­naked flesh of our discourse, lives and selves, isontological. We are, in many ways, all practicing ontological anarchists.

From this, I make this assertion, that the ontological anarchist project is one of active destruction, in the Heideggerian sense (with the k replacing the c) – I like to borrow Discordian philosopher Robert Anton Wilson’s term guerrilla ontology for this. As Heidegger found, destruction is a presentist task and doesn’t fit into normal categories of positive­negative, being nihilistically amoral and not positioned within the past. Being non­dualistically positive or negative, destruction here is a radically monist force, in the way collectivist­-anarchist Bakunin suggests when he stated “the passion for destruction is also a creative passion”– immediate; unlike the gnostic traditions of left­-wing revolutionary ideology, where both theory and practice retain an esoteric dualism, towards objects that can be manipulated scientifically.

Even more than as an anti­political practice, I assert that the actual objectless creative­destruction of Being is the process of becoming that is happening always. Civilisation and history, in this sense, are attempts to halt this process and create, through Symbolic reification, a social ontology of structured-­absolute space – the construction of territories, of objects with interiors and exteriors, of nature and the space that is outside of nature (civilisation), of sets and categories; a theatre of phantasms, technologically inauthentic, in the sense Heidegger argues, attempting to repress the relationality of Being, as temporally extended unfoldings, or rather the happening of life as the open space of possibility. Civilisation, in order to continue the machinery of its functioning, must restrict, through colonisation, morality, etc., the open space of possibility, through interiorisation and exteriorisation aimed towards a totalitarian narrative, with one directed pathway.

Now, in one sense what I, as someone from the anti­-civ world, am saying here is that we should do away with sets, categories, territories, interiors, exteriors, inclusion, exclusion, objects, symbols and other technological phantasms, but this seems unlikely at this present time to lead to much. So, alongside this, I wish to make another assertion for us as individuals, or rather as singularities, involved in the decolonial and anti­-colonial projects of deterritorialisation; that we radically embrace the notion of monism­as­pluralism; not to interiorise the cartography of radical space in a new way to the one we now do. Rather, to leave the situation as messy and to not judge the mess through moral condemnation, and not fit events within the structures of left­-wing ideology, but to leave it all in the open space of possibility. Perhaps this could be considered the eco­anarchist equivalent of Bergson’s liberal notion of the open society – though also, perhaps not. If, though, we are dealing with ontological processes, I suggest we consider our perceptions ofreality, as space and time, in the way the mathematician Poincare suggests in his philosophy of geometry; as having been born out of intuitions, which became tied to normative conventions rather than facts.

This is obviously a very uncomfortable idea I am asserting, as it leaves open basically everything, but if we are going to decolonised the structurally racist psychic­space of anti­colonial politics, then we are left with this space of discomfort, where we are having to acknowledge without morally categorising, in an anti­political sense.

Finally, I also wish to make an ontical assertion here, for the purposes of discourse, that much of what gets categorised as violence by anti­-colonial and eco­radical groups is not violence, with violence being a reified object of civilisation, signifying violation. Rather what is often in this way categorised as violence is actually an embrace of wild non­ontical acosmic ontological creative­destruction. Violation, in this way, seems to be the basic machinic functioning of civilisation – flipping ITS’s assertion of nature being violent and civilisation being destructive. The object of civilisation is the object of violence. This is not to seek to legitimise those actions I am describing as destructive rather than violent, but to differentiate for the purposes of post­-anarchist praxis.

To violate is to interrupt the flow of a space and to create a blockage, like a dam blocking a river, like a military coming to interrupt the everyday life of a community, like a penis forcing its way into somewhere through rape. Destruction is a creative aspect of the actualising­becoming­temporal processes of space that is Being. Destruction is the opening up of space.

To decolonise is to destroy the colonial production­narrative that is this culture. Lets deterritorialise, without reterritorialising, and not judge what grows out of the open space. Lets leave things open and not treat the world as an object for our manipulation. Lets not try to be God and lets destroy totalitarianism. Lets live free from interiors and exteriors, from inclusion and exclusion. Lets actually do no borders and no boundaries, and be anarchists embracing anarchy. Poincare said “Geometry is not true, it is advantageous”, but this does not go far enough – geometry isn’t true, but it can be adventurous!

This goes further than just the decolonial space obviously, as it includes the spaces of anti­patriarchy, radical environmentalism and anti­state theory and practice, as these also could do with deconstructing their territories and embrace the ontological notion of monism = pluralism – but there is not space in this essay to include thesestruggles.

I’d like to end this with this quote from autonomous-­Marxist philosopher Agamben – “What had to remain in the collective unconscious as a monstrous hybrid of human and animal, divided between the forest and the city – the werewolf – is, therefore, in its origin the figure of the man who has been banned from the city. That such a man is defined as a wolf­-man and not simply as a wolf … is decisive here. The life of the bandit, like that of the sacred man, is not a piece of animal nature without any relation to law and the city. It is, rather, a threshold of indistinction and of passage be­tween animal and man, physis and nomos, exclusion and inclusion: the life of the bandit is the life of the loup garou, the werewolf, who is precisely neither man nor beast, and who dwells paradoxically within both while belonging to neither.”

Halputta

Tradução do texto do autor Bowlegs que aborda o “ataque indiscriminado” defendido pelos eco-extremistas. O contexto deste escrito é o ataque de um caiman contra uma criança de 2 anos na Disney, em 2016.

O caiman é um caçador noturno. Durante o dia, na maioria das vezes ele é visto com apenas a cabeça acima da água, descansando. Mas quando o sol se põe, ele começa a caçar. Caça indiscriminadamente, quase como uma “máquina”, dirão alguns tolos. Mas estão errados, as mandíbulas podem facilmente quebrar uma perna, ou um braço ou algo mais. Sua cauda se move rapidamente na água à procura de presas, suas poderosas garras se movem na terra, tudo isso é a força da Natureza. Caso percebe algo se movendo na costa, o espreita, o ataca, o morde, o leva abruptamente para a água, o afoga, e, finalmente, o devora. Sem se importar com o que seja. Talvez, se percebe que não é algo tão saboroso, o deixa, mas sempre ataca primeiro, morde primeiro, e então decide se consumirá ou não. O caiman faz o que caimans fazem, não pode fazer nada a mais. Todo o raciocínio do mundo não pode mudá-lo.

As aldeias que se formaram em torno das águas dos caimans sabiam muito bem como eram. Os reverenciavam, como um dos donos das águas. Os hiper-civilizados, com sua arrogância e sua ignorância, anseiam que a Natureza se curve à sua vontade. Mas são descuidados, se sentem seguros, e a Natureza outra vez ataca.

Isso ocorreu no “Reino Mágico”, no que hoje é conhecido como o estado da Flórida, nos Estados Unidos. Uma família de Nebraska, estado do interior e sem litoral, pensava em deixar seu bebê de 2 anos brincar na margem de um lago próximo a seu hotel, em torno das 21 horas. Claro, os caimans estavam caçando, e o bebê se converteu em uma presa. O pai viu o caiman agarrar o seu filho, lutou com ele, mas nada pode fazer. O caiman levou o menino, mas não o comeu. O deixou na água, afogado e morto, uma tragédia para a família jovem do interior que estava de férias na Disneylândia com o seu bebê. Os civilizados, por pura vingança travestida de “segurança” mataram o caiman, depois outro e outro, procurando o culpado, o criminoso, o animal delinquente que se atreveu a seguir com sua natureza feroz, aconteça o que acontecer. Ainda não estão seguros se pegaram o malfeitor.

Cada selvagem nestas terras sabe que não se deve estar próximo a margem a esta hora da noite, pois é o momento de se respeitar a hora do caiman, da puma, do urso, das serpentes, e outros animais que são manifestação da força e esplendor da Natureza, a Vida e a Morte. Todo o Selvagem. Mas a família “inocente” não, a família “inocente” pensava que seu filho estava em uma “banheira”, brincando em sua casa com seus bonecos. Foi um momento de alegria e relaxamento que se converteu na vingança pela escravidão da Natureza. Assim, o pai pagou o preço mais alto:

“No meio da noite, Deus matou a todos os primogênitos da Terra do Egito, desde o primogênito do faraó, que se assenta sobre o seu trono, até o primogênito do prisioneiro na cadeia…”

O eco-extremista é uma manifestação da Natureza, não tão perfeito como o caiman, é claro. É um ser rejeitado, um produto defeituoso e mal feito da sociedade tecno-industrial. Por isso não respeita suas leis, seu horário, sua ordem. Ataca como o caiman e depois se esconde na escuridão das podres urbes como um caiman se esconde na água pantanosa, sempre observando. E acima de tudo, é indiscriminado. Quando lhe aparece a presa, já era, não há remédio. Não é que não tenha “livre arbítrio”, o que francamente é uma piada. A civilização não nos dá escolha, é uma questão que ou você aceita completamente ou te classificam como um delinquente, um criminoso, um perverso. Bem, o eco-extremismo rejeita a falsa escolha do sistema tecno-industrial. A única escolha que será oferecida é o ataque, o fogo, a morte, até mesmo de “inocentes”.

Que os hiper-civilizados, até mesmo os mais progressistas ou também os “anti-autoritários”, morram de asco pensando nos atos indiscriminados dos eco-extremistas. Como os caimans, não é possível mudá-los. É uma questão de caçar ou ser presa, às vezes acontece de você ser uma, outras vezes não.

Ânimo, sempre foi assim.

Boa sorte.

-Bowlegs

kvco-hvse (junho), ano do crucificado, 2016.

Ataques Indiscriminados? Mas que diabos passa com eles!!

Tradução de um texto do editor-chefe da Revista Regresión publicado na web. Nele se abordam dois tópicos defendidos por eco-extremistas, “debate amoral” e “ataque indiscriminado”. Trata também de indiretas de anarquistas e algumas coisas mais.

“Assim, porque és morno, e não frio nem quente, te vomitarei de Minha boca.” – A.

Já faz algum tempo que tenho escrito sobre o posicionamento a respeito dos ataques indiscriminados de parte dos grupos eco-extremistas que já se espalharam do Norte da América até o Sul, e que tem causado muito incômodo em setores anarquistas radicais e não é preciso nem dizer nos círculos da esquerda moderna…

O discurso de desconforto destes grupos tem sua origem nos comunicados do projeto iniciado por ITS em 2011, onde se mostravam a favor da violência terrorista contra aqueles que tendem ao progresso tecno-industrial, sem se importar em causar danos a terceiros.

Isso ficou claro após o primeiro atentado do grupo, onde um trabalhador da UPVM não entregou ao alvo o pacote-bomba abandonado no campus, e decidiu o abrir. Suas feridas foram o começo de uma história de ataques que até hoje prevalece.

Desde o começo, ITS, sem dúvida alguma, foi um grupo sui generis, que chegou com força derrubando, com suas críticas, posicionamentos vitimistas, civilizados, progressistas, humanistas, etc., e se embrionando em vários círculos (eco) anarquistas daquela época.

Um pouco de história

No México houve incômodos e vários se escandalizaram pelas palavras e atos do grupo em questão, sendo alguns deles; coletivos, organizações e sujeitos que defendem ideologias tradicionais de esquerda (comunistas ou anarquistas), que são antagônicas ao Estado, às instituições, partidos políticos, etc., e que não compreendiam a emergente tendência do eco-extremismo (e, aparentemente, ainda não entendem).

O que foi toda aquela onda de comunicados e atentados contra cientistas em 2011? Alguns eunucos berravam que ITS era obra de um plano macabro para justificar a repressão contra os movimentos sociais e/ou anarquistas daqueles anos.

De onde veio um grupo tão incorreto na hora de atacar? O que significam essas reivindicações a favor da Natureza Selvagem? Mas o México não era “terra” de Zapatistas, vermelhos e anarquistas cagões que enxiam a boca com discursos autonomistas-populistas? Por acaso são uma nova cisão de algum grupo armado comunista? São realmente ecologistas radicais como dizem ser ou são uma estratégia militar para prender os gritalhões de sempre que clamam por justiça? Por acaso eles são punks fazendo uma piada de mal gosto?

NÃO, ITS é um grupo de individualistas provenientes do eco-anarquismo que se distanciaram de tantas ideias utópicas e irreais, que criticaram e se auto-criticaram, que avançaram entre as sombras e que planificaram o ataque aqui e agora.

ITS rosna ferozmente dizendo que: não há NADA a mudar na sociedade, MUITO MENOS há um “paraíso primitivista” pelo qual lutar, a revolução NÃO existe, NÃO somos anarquistas, comunistas, feministas, punks, nem nenhum outro esteriótipo “radical”, estamos em GUERRA contra a civilização, contra o sistema tecnológico, contra a ciência e contra tudo o que queira domesticar a Natureza Selvagem e queira nos artificializar como humanos agarrados à nossas raízes mais profundas. Não negamos NOSSAS contradições e pouco nos importa sermos vistos como “incoerentes” por aqueles que nos criticam estupidamente dizendo: “se se opõem à tecnologia por que usam internet!”. Frente a essas críticas vagas e sem base alguma nosso escarro cuspido em suas patéticas caras.

Após a primeira fase de ITS em 2011; chegou a segunda marcada após publicar o seu sexto comunicado em janeiro de 2012, no qual comentava várias auto-críticas que fizeram com que ITS se desprendesse quase por completo de sua herança anarquista e sua discursiva “kaczynskiana”.

Sua terceira fase em 2014 com “Reacción Salvaje” foi mais que clara em seu discurso, mantendo sua atitude indiscriminada nos ataques que levaram a cabo seus diferentes grupúsculos. Dos 25 comunicados que emitiram em um ano, 15 foram reivindicações.

ITS não mentia quando escrevia tranquilamente em seus comunicados que não lhe interessava os feridos que deixavam em seus ataques, que eram indiscriminados em seu atuar e isso era verdade.

Em abril de 2011, ITS deixou ferido gravemente um trabalhador da UPVM no Estado do México. Em agosto um pacote-bomba deixava feridos a dois importantes professores da Tec de Monterrey no mesmo estado. Em novembro assassinaram com um tiro na cabeça um renomado pesquisador de biotecnologia em Morelos. Em dezembro um envelope-bomba feriu mais um professor da UPP em Hidalgo. Em 2013, um funcionário dos correios resultava ferido após roubar um pacote-bomba de uma caixa de correios da Cidade do México. Ou seja, no período de 2011-2013, ITS deixou 5 feridos e um morto, sendo 4 em gravidade e 2 não tinham haver com as pessoas-alvos.

Os feridos também se repetiram com RS. Em julho de 2015 um funcionário público membro da Comissão de Direitos Humanos teve queimaduras após abrir um pacote encontrado na garagem de seu edifício-sede no Estado do México. Em 14 de agosto uma secretária do Grupo Cuevas (engenheiros ligados a ICA) foi ferida da mesma forma após abrir um pacote abandonado em seus escritórios no mesmo estado.

Após a morte de RS, os grupos eco-extremistas que o presidiram já contam com seu histórico de feridos após seus ataques. Em outubro de 2015 nove bombas-relógio em nove ônibus da Mexibús foram detonadas, e embora o ataque tenha sido contra o transporte público, não houve mais que um ferido apenas. Na ação havia o risco de mais de uma pessoa sair com severos danos físicos, mas para a “Seita Pagã das Montanhas e Grupos Afins” isso pouco importava.

Em novembro daquele mesmo ano um pacote-bomba aberto dentro do Conselho Nacional Agropecuário na Cidade do México feriu o vice-presidente da Aliança Pró-Transgênicos e também sua secretária e dois civis que se encontravam próximos. O “Círculo Eco-extremista de Terrorismo e Sabotagem” se responsabilizou pelo atendado.

Mais dois grupos provenientes da morte de RS, o “Grupúsculo Indiscriminado” e “Ouroboros Niilista” (agora Ouroboros Silvestre), tentaram detonar seus explosivos sem se importar com terceiros feridos, e, embora aparentemente seus ataques tenham sido frustrados, a intenção segue.

Em janeiro deste ano (2016) ITS voltou a aparecer publicamente com seu primeiro comunicado, e o que parecia mais uma etapa “das de sempre” dentro desta guerra se converteu em surpresa para muitos. Quinze dias depois da publicação de seu primeiro texto, ITS havia realizado seis ataques com explosivos em três diferentes estados do país. Sua capacidade operacional deu muito o que falar. Uma semana depois de seu segundo comunicado reivindicando esses ataques de janeiro e fevereiro, um ônibus Transantiago era reduzido a sucada queimada na capital chilena em plena luz do dia. O nome assinante que se responsabilizava pelo ataque era: “Individualistas Tendendo ao Selvagem-Chile“.

Com este terceiro comunicado do grupo a internacionalização do eco-extremismo indiscriminado era evidente. Uma semana após a queima do ônibus era publicado o quarto comunicado assinado por “Individualistas Tendendo ao Selvagem-Argentina“, onde se responsabilizavam por um artefato explosivo na Fundação de Nanotecnologia e também por várias mensagens de ameaças contra cientistas e contra a imprensa. Também haviam deixado um pacote com pólvora negra e uma mensagem em uma estação de ônibus em Buenos Aires.

Embora ITS em fevereiro tenha atuado em três países diferentes sob suas próprias pautas, totalizando 10 diferentes atos e alguns deles sendo em plena luz do dia, a onda de atentados feriu a apenas dois civis.

Em março o quinto comunicado de ITS-América (México, Chile e Argentina), defendeu e sublinhou o posicionamento que teve desde 2011: NÃO importa se civis sejam feridos, isso é uma GUERRA, o ataque é indiscriminado. ITS NÃO reconhece moralismo no ataque.

Após estas incômodas palavras, houve reações…

“Debates”, notas e indiretas

Após a difusão dos ataques de grupos eco-extremistas no México em diferentes blogs de “contrainformação” anarquista, muitos deles expressaram seu desacordo através de notas no rodapé da página ao publicar estes comunicados. Alguns se limitaram a apenas publicá-los sem qualquer aponte ou opinião e já outros simplesmente não publicam nada referente a nossas posturas, e é compreensível, NEM todos os blogs, revistas e demais projetos de tendência anárquica tem a obrigação de publicar o que os grupos eco-extremistas dizem ou fazem, sempre haverá diferenças, algumas positivas e outras mais negativas. O que quer enfatizar o Grupo Editorial da Revista Regresión (que é parte de ITS-México), é o seguinte:

– NÃO queremos que os demais aceitem nossos “términos e condições”, NÃO tentamos ser agradáveis ou amigáveis com estranhos, ou queremos que certos grupos ou indivíduos “tornem-se” como nós. NÃO nos interessa “converter” a ninguém do eco-anarquismo ao eco-extremismo. Os poucos que decidiram adotar esta postura estão convencidos de que um projeto como este deve ser defendido com unhas e dentes, pensado e planificado para dar golpes mais certeiros.

– Alguns anarcos tem dito que somos uma “Máfia”. Para estes criticões e bocas grandes que andam difamando nosso projeto tanto no México como em outros países onde o eco-extremismo já tem presença, nós vamos tomar isso como um elogio.

Nós somos um tipo especial de crime, delinquentes que se aglomeraram em um grupo para atacar em diferentes lugares tanto no México quanto no Chile, Argentina e outros países. Não pensem duas vezes ao tentar “nos insultar” dizendo que somos terroristas ou uma nova classe de máfia, porque isso não nos insulta e porque nós SOMOS!

– Todos podem expressar sua raiva ao ler nossas linhas, muitos gringos “anarco-zerzianos” às escondidas fizeram isso. Para citar um exemplo, no portal “Anarchist News” os comunicado de ITS foram censurados por sermos consideramos “reacionários”, e não dizemos isso com uma atitude vitimista, dizemos para que os blogs que não estejam de acordo com nosso discurso deixem de se comportar de forma tão pluralista e se realmente lhes causam incômodo nossas incorretas, terroristas e mafiosas palavras, deixe-as de publicar, afinal nos fariam um favor.

– Como decidimos, todos podem expressar sua incompatibilidade com o eco-extremismo indiscriminado que defendemos, isso também fizeram os auto-denominados “Célula Revolucionária Paulino Scarfó” (CRPS) em seu comunicado de fevereiro deste ano, no qual fazem alusões indiretas ao atentado de ITS no Chile. Repetimos, é saudável criticar e expressar desacordos, MAS lançar indiretas NÃO, filhos da mãe! Melhor se tivessem assinado como “Célula Anarco-cristã León Tolstói”. Parece que estes anarquistas não tem memória histórica ou que sofrem de uma amnésia terrível ao mencionar aquele que foi companheiro do TERRORISTA Severino Di Giovanni, o anarquista que fez voar pelos ares o consulado italiano em Buenos Aires, matando a vários fascistas, mas também ferido a civis, aquele que matou a um anarquista que lhe marcava como “fascista”.

Scarfó acompanhou a Di Giovanni na fase mais violenta de sua Guerra Individualista contra alvos móveis e simbólicos, ele foi um INDISCRIMINADO, de fato foi condenado pelos mesmos anarquistas de sua época, pois seus métodos de luta foram considerados “inapropriados”.

É verdade CRPS, os grupos eco-extremistas, ITS e muito menos nós somos revolucionários, também não compartilhamos seu discurso tão repetitivo e chato, só que nós ao contrário de vocês, somos diretos e não andamos com putas insinuações e rodeios imbecis!

Alguns posicionamentos nossos para “Nigra Truo” (NT)

Há alguns dias um integrante do blog “Por la Anarquía” publicou um texto onde é possível ler a sua posição a favor e contra do eco-extremismo. Até agora é a única crítica mais sincera, pois ele não se concentra APENAS em criticar o que defendemos, mas também faz algumas críticas aos ambientes anarquistas.

Embora isso, NT não se salva de nossa resposta à suas críticas, por isso temos que esclarecer o seguinte:

– Aparentemente, NT confundiu a informação que tem de ITS e escreveu que é uma contradição empurrar o Debate Amoral que propuseram os niilistas da Casa Editorial “Nechayevshchina” (Nechayevshchina Ed.) e ao mesmo tempo ter a regra moral de: “A Natureza é o bem, a Civilização é o mal”. A NT recordamos que ITS tem diferentes fases, e embora o grupo defendesse muito esse lema Naturien desde 2011, os ITS de hoje são diferentes, faz anos que ITS não havia empregado essa frase, por isso, caro NT, lamento sarcasticamente dizer-lhe que, sua crítica referente a este ponto cai por seu próprio peso, posto que, ITS já não defende esse lema, pois a Natureza Selvagem está em um plano “extra-moral”.

Ao ler a crítica de NT parece ser que ele tem se confundido com o que nós, os que defendem a tendência do eco-extremismo, entendemos por Ataques Indiscriminados. Um ataque desses não é colocar uma bomba na casa de papelão de um mendigo, não é incendiar uma barraca de um vendedor ambulante, NÃO, quando nos referimos a Ataques Indiscriminados é que vamos colocar uma bomba em algum lugar específico, empresa, universidade, casa particular, automóvel, instituição, etc., onde esteja nosso alvo-humano a ser atacado, sem se importar que o explosivo alcance a civis. Ataque Indiscriminado é incendiar algum lugar simbólico sem se importar que haja “gente inocente”, sempre acertando o Progresso Humano. Ataque Indiscriminado é o que tem feito ITS desde 2011, e que foi abordado no início deste texto, é enviar pacotes-bombas sem se importar que terceiros sejam afetados, sempre tendo como objetivo desestabilizar, aterrorizar e implantar o caos em uma sociedade carente de pensamentos próprios.

– Seguimos festejando os “desastres naturais”, os quais podem ser vistos como atos de vingança ou como reações violentas da Natureza Selvagem (dependendo da auto-cosmovisão individualista que se distancia daquela que defende a cultura civilizada), derivadas da destruição ambiental que por sua vez é provocada por mãos humanas, tanto de gigantescas multinacionais como por seus peões “proletários”.

Conclusão

Uma maneira de finalizar este texto é somente dizendo que os ataques de grupos eco-extremistas irão continuar assim como seu incômodo discurso. Sempre haverá pontos em acordo-desacordo, convites para debates, indiretas, e merda derramada da boca de alguns, mas que se saiba bem o que haverá enquanto sigamos existindo, é uma resposta de nós, os terroristas, os incorretos, os que não se calam do que pensam ,os que aclaram antes de mais nada, os da Máfia Eco-extremista!!

Com a fúria desconhecida da Natureza Selvagem!

Com Chahta-Ima, Nechayevshchina e Maldición Eco-extremista!

Com ITS-México, Chile e Argentina!

Adiante com a Guerra!

___________________________________

Xale: Editor-chefe da Revista Regresión

México, inverno de 2016

Duras Palavras: uma conversa Eco-extremista

Esta é a tradução de uma extensa discussão de natureza jornalística divulgada na web através da publicação Atltlachinolli: Conversaciones Eco-Extremistas, onde Xale, editor-chefe da Revista Regressión, responde às questões postas por HH. No texto eles passam por assuntos como a etapa de ITS iniciada em 2016 juntamente com sua internacionalização e evolução, abordam o paganismo, a importância da atividade delinquencial para a tendência discutida, niilismo e a relação da tendência com os niilistas terroristas da Itália, eco-extremismo nos EUA, “reselvagização”, problemáticas com os anarquistas e vários outros temas que compõem a tendência eco-extremista.

“Duras são estas palavras! Quem pode ouvi-las?”

– (João 6:60)

Como leitor nunca estive muito satisfeito com todas as entrevistas que foram feitas com vários eco-extremistas durante alguns anos. Os interlocutores sempre foram mal informados, de má fé, não dispostos a aprender algo novo ou simplesmente não são muito inteligentes. De todos os modos, como um leitor um pouco mais informado queria fazer umas perguntas que realmente vão ao fundo do eco-extremismo, suas origens e sua evolução recente. Neste sentido, Xale, editor-chefe da Revista Regresión e membro de ITS-México, um especialista sobre estas questões, foi bastante generoso com seu tempo para responder às seguintes perguntas ou/e pensamentos.

Há de notar que tivemos esta conversa num espírito jornalístico. Fizemos e respondemos as perguntas para informar e não exortar neste documento. O interlocutor principal se declara independente de ITS ou do eco-extremismo, e apenas faz a entrevista para informar ou “entreter”.

Comecemos:

HH: Desde o início da nova fase de ITS e sua internacionalização, quais são as lições que você crê que aprenderam os eco-extremistas? Como crê você que o eco-extremismo evoluiu desde o início deste ano?

Xale: Este ano gregoriano tem sido bastante movimentado, cheio de novas notícias, novas cumplicidades e novas tonalidades nos atos e discursos dos eco-extremistas.

Como individualista partidário desta tendência penso que as lições deixadas durante a expansão do eco-extremismo são diversas e variam dependendo do individualista que as experimenta, mas pessoalmente falando penso que tem havido um avanço qualitativo referente a atos extremos contra o objetivo que o leitor inteligente conhece, a civilização e seu progresso.

Os eco-extremistas no Chile que aderiram a ITS ensinaram que se pode gerar um dano impressionante com apenas 1 litro ou menos de líquido inflamável, como fizeram com o ônibus Transantiago e com o centro comercial Mall Vivo, em fevereiro e maio, respectivamente. Também nos ensinaram que, embora em alguns casos os dispositivos não funcionem, a ameaça prevalece, os ânimos não se deterioram e a guerra de nervos prossegue.

Os eco-extremistas que se encontram na Argentina igualmente aderidos ao projeto de ITS ensinaram uma muito particular atitude terrorista e indiscriminada, as recentes ameaças de bomba em colégios, universidades e estações de metrô em maio e junho. É possível ver um rastro evidente do desprezo à vida civilizada em todas as suas variantes e em todos seus cantos. Isso também é evidenciado após ler seu comunicado emitido neste mês de agosto no qual se fazem responsáveis por envenenar dezenas de garrafas de Coca-Cola que foram distribuídas em um par de supermercados de Buenos Aires, ameaçando de maneira formidável a estabilidade social e física dos hiper-civilizados.

Os eco-extremistas no Brasil que também se uniram recentemente a ITS mostraram o fator surpresa, atacaram ferozmente e ensinaram que a ameaça de ITS é imprescindível. Sua sagaz atitude materializada em três quilos de pólvora negra detonada em um centro comercial de Brasília deixa desmoralizada as autoridades que mexem e remexem tentando encontrar os responsáveis por esta tendência que está presente em quatro países e que segue com suas ameaças.

Os eco-extremistas no México, lugar onde se forjou o projeto internacional de ITS, também ensinaram várias lições. Seu atentado homicida contra o chefe de serviços da faculdade de química na UNAM quis demonstrar a facilidade de atacar a qualquer momento os hiper-civilizados com apenas uma faca e alcançar o objetivo, demonstrou que é possível atacar o mais elevado local de aprendizagem dentro de suas próprias instalações, escarmentando as autoridades (com a morte de um homem no campus) por ocultar seus atentados passados na CU.

Seus constantes ataques com explosivos também evidenciam sua capacidade de ataque, sua diversidade no modus operandi e sua imparável atividade, embora seus atentados sejam censurados.

O antigo ITS em 2011 se concentrou em expandir à nível nacional e daquele ano até 2013 teve presença na Cidade do México, Estado do México, Morelos, Hidalgo, Coahuila, Veracruz e Guanajuato. Nos anos sucedidos esta expansão parou um pouco, e agora ITS-México, regionalmente falando, tem presença apenas na Cidade do México, Estado do México, Michoacán, Jalisco e Coahuila, embora tenha se internacionalizado, o que ensina a perseverança e a continuidade deste projeto.

Agora entrando no âmbito da teoria, o eco-extremismo também tem crescido nisso. No ciclo de RS (Reação Selvagem), ao menos eu considero que os editores da Revista Regresión juntamente com os grupúsculos do RS deram as bases teóricas para a tendência, as quais concentraram-se no estudo de grupos caçadores-coletores nômades da região, resgatando sua atitude hostil frente ao alheio e seu animismo pagão. Terminado este ciclo com RS, considero que “deixamos em paz” estas questões e nos concentramos na prática até que outros teóricos colocaram o dedo mais uma vez no assunto. Chahta-Ima, considero que é o mais importante teórico eco-extremista no decorrer deste novo ciclo, seus ensaios e investigações tem sido fundamentais para que outros individualistas cresçam e tenham fundamentações históricas para atacar ou seguir atacando.

O eco-extremista necessita de prática e teoria, necessita saber e fazer, necessita conhecer, aprender e ao mesmo tempo ensinar com atos e palavras a seus irmãos de guerra.

Em geral, o eco-extremismo não tem “planos futuros”, não atua sob um “programa” específico, não se alinha a procedimentos de luta pré-determinados, não possui uma estratégia a seguir, nós eco-extremistas atuamos sob a espontaneidade, fazemos coisas que consideramos oportunas ou não, para gerar uma reação, seguimos nossos instintos animais e prosseguimos com a herança de Guerra até que, como um pombo migratório, desapareçamos.

HH: Creio que as pessoas que leem a literatura eco-extremista não entendem o papel da “guerra de nervos”. Sei que foi explicado, mas ainda sim há críticas às ações eco-extremistas onde estipulam que devem ter um foco em atacar a infraestrutura elétrica ou o que quer que seja. Dizem que as ações dos eco-extremistas variam entre piadas de mal gosto (com bomba) ou assassinato psicopata (como houve na UNAM). As pessoas não sabem muito bem que tudo isso é parte de uma tática que é a “guerra dos nervos”. A clandestinidade, a decepção, o ataque indiscriminado, etc…, não funcionam apenas para golpear as estruturas da civilização (as quais, claramente falando, são difíceis de se atacar, e ao serem destruídas, são reconstruídas, dando assim mais trabalho “útil” para a massa), mas também para que o eco-extremista se converta no “monstro debaixo da cama”, uma ameaça a mais que a civilização criou. Ao menos para mim esta etapa do eco-extremismo sublinha este aspecto de ITS e os demais grupos.

Xale: Sim, as pessoas que tem dito que os atos de ITS e de outros grupos são “piadas de mau gosto” ou atos realizados por “assassinos psicopatas” talvez pensem que a guerra contra a civilização é apenas um jogo, talvez pensem que é apenas atacar centrais elétricas ou objetivos semelhantes. Nós e os demais eco-extremistas deixamos de pensar isso e tomamos a Guerra contra a civilização como um todo, como uma guerra REAL e não a entendemos como um fato onde se deva realizar atos “aceitáveis” para os demais radicais ou que midiaticamente sejam vistos como “espetaculares”. Embora os atos de ITS resultem incorretos para algumas pessoas, incômodos e insuportáveis, é exatamente o que deseja o eco-extremismo, demonstrar que a Guerra contra a Civilização tem que ser levada à sério e apenas deve ser travada por individualistas que realmente desprezam a morte e todo o progresso humano, há de haver sangue derramado, há de se ter feridas, mortes, uma vez que esta é a Guerra e nós que a levamos a cabo não hesitamos em aceitá-la.

Ultimamente o mundo ocidental tem andado catalogando as pessoas que realizam qualquer ato de violência extrema como “psicopatas”, “mercenários”, etc., e isso podemos ver nos atos terroristas do Estado Islâmico, e de fato é uma estratégia dos governos e seus meios de comunicação para desacreditar as causas maiores “rebaixando-as” a uma desordem mental ou o que seja. Não é surpreendente que as pessoas que portam os valores ocidentais sigam a mesma linha estratégica para também desacreditar os eco-extremistas.

HH: Qual é a relação entre o eco-extremismo e o niilismo? Pergunto porque aparenta que o terrorismo niilista é como “a rama” do eco-extremismo na Itália e, talvez, em alguns outros lugares.

Xale: Há pouco tempo se vem somando e desenvolvendo em conjunto com o eco-extremismo a tendência terrorista-niilista, aquela que não é passiva e que renega todos os valores morais fundamentais da civilização. O niilismo-terrorista e, em especial, o que tem defendido alguns grupos de individualistas na Itália, é a filosofia na qual encontramos a verdadeira afinidade, uma vez que é totalmente contrária ao humanismo e ao progressismo que os eco-extremistas tanto criticam.

Penso que os individualistas da América (de qualquer país) sintam simpatia com o eco-extremismo e isso pode ser visto na expansão do ITS e no fato de que certos grupos tem adotado pequenas, mas importantes, características desta tendência. Mas tenho notado que os “latino americanos”, em particular, sentem-se mais atraídos que os europeus que acabam se inclinando mais pelo niilismo, embora a esta altura o eco-extremismo e o niilismo-terrorista andem de mãos dadas.

Não é de se admirar que aqueles que habitam as terras deste lado do mundo se sintam atraídos por esta tendência já que o eco-extremismo é o chamado de nossos ancestrais. Não é uma guerra pelo separatismo nativo, pela identidade indígena ou para dar um sentido político a tudo isso, não, é uma guerra que herdamos de nossos ancestrais, invocamos os mortos de nossos avós e eles nos possuíram. Qualquer individualista que tenha no sangue a ferocidade dos antigos, diga-se teochichimecas, yahis, selknam, a grande variedade de tribos amazônicas, etc., é claro que se voltará para ver o que fazemos e o que dizemos. Penso que é uma questão até mesmo genética (isso, cientificamente explicando), muitos de nós eco-extremistas viemos de famílias nativas, isso nos faz continuar o conflito por aqueles que deram suas vidas, isto é, não somos estranhos, ainda testemunhamos a esse chamamento selvagem para nos defendermos por todos os meios necessários.

Historicamente a América foi invadida pelos brancos lá pelo século XVI, e com eles chegou a destruição, chegaram as epidemias e as desgraças. Violaram nossos terrenos sagrados, profanaram as tumbas de nossos mortos, mataram nossos sábios anciãos, escravizaram nossas mulheres, venderam nossos filhos, queimaram nossas casas, saquearam a Terra extraindo minerais praticando mineração das formas mais desrespeitosas, mataram as presas que caçávamos com veneração, escarneceram nossas deidades e crenças, exterminaram nossa língua, nossa cultura, jogaram-na ao esquecimento, e tudo isso e mais aconteceu em mais ou menos 500 anos, relativamente faz pouco tempo. Hoje a situação já não é racial, já não é o homem branco que faz estas atrocidades, é a civilização em seu conjunto. Já não temos nada pelo que lutar, já não temos terras ancestrais, já não temos uma comunidade com a qual compartilhar a língua, tradições, ambientes, já não há anciões sábios que nos presenteiem o conhecimento ancestral. Temos sido domesticados por anos, nos fizeram viver em grandes cidades, nos obrigaram a necessitar de dinheiro para sobreviver nas urbes e trabalhar como escravos para obtê-lo, nos fizeram crer que a ciência a tudo explicaria ou que a religião é a salvação eterna, nos aprisionaram em escolas onde nos “educaram”, tentaram arrancar nosso espírito guerreiro ofuscando-o com a modernidade e a religião, progresso e monotonia, drogas e diversão ambígua, humanismo e não-violência, tentaram enterrar na cova mais profunda a história maldita de nossos antepassados que emboscaram a seus inimigos, os flecharam, arrancaram seus coros cabeludos, cortaram seus tendões para servir de suporte para suas flechas, conspiraram e lutaram entregando suas vidas. Xale, o tlatoani (1) teochichimeca vive em mim, fala comigo através do vento das tempestades, nos trovões que caem indiscriminadamente sobre a cidade, me sussurra pelo musgo do rio, no Sangue de Grado (2) que se levanta em direção ao sol, na sombra da algaroba, me acorda no serpentear do fogo na fogueira, nos olhos do coiote noturno, no frio gélido da montanha, nas pegadas de veado no monte, me fala e sussurra a mim, me ensina e me guia, me ensinou a me transformar em um animal selvagem quando executo atentados sozinho ou com minha manada, me disse que todos os eco-extremistas tem um espírito que também os acompanha, me disse que com o simples fato de que tenhamos este tipo de pensamento nós somos um perigo para nossos inimigos, e uma das coisas mais importantes que me disse é que a vingança será terrível…

HH: Sim, me parece que os niilistas-terroristas na Europa tem seu modo muito particular de se comunicar. Mas acima de tudo a afinidade vem da ação. Alguns niilistas em outros lugares pensam que o eco-extremismo está tentando envergonhar os niilistas que pensam que fazer algo é “moralismo”. Sei que não é o seu caso nem de seus afins na Europa mas, em sua opinião, há como ser niilista sem atacar fisicamente esta sociedade? Alguns niilistas dizem que “seu Ego” não inclina ao ataque, e melhor fazem o que lhes dá vontade.

Xale: Esta é uma atitude própria de um niilista passivo que diz que o ataque não é parte essencial de seu pensamento. É entendível que o niilismo tenha esse tipo de variante e deturpações nesta era moderna, mas isso não se alinha ao pensamento original. É bem sabido por muitos que antes da Revolução de Outubro na Rússia existiam uma grande quantidade de homens, mulheres e sociedades secretas que com seus atentados indiscriminados e seletivos empurraram ao abismo a Rússia Czarista, e estes foram os fundadores do terrível niilismo, o original. Estas mulheres e homens causaram feridas na sociedade, foram os que empurraram o enfrentamento contra as guardas do regime, os que confeccionavam bombas para lançá-las contra os responsáveis por seus problemas sociais e econômicos, os que apunhalaram e encheram suas mãos de sangue. Para sua época estavam bastante avançados, hoje em dia como muitos aspectos “relaxaram” os novos niilistas se dedicam a criticar sem fazer nada, relaxam-se e se afundam em sua imobilidade, até mesmo há uma variante filosófica niilista que se baseia mais na arte (?), e desgraçadamente isso também é “niilismo”. O que eu resgataria sobre isso é que mesmo nesta era de adoçamento existem os verdadeiros niilistas que enfrentam ferozmente a sociedade assim como os pensadores originais fizeram, e a exemplo disso temos na Itália a “Seita Niilista da Livre Morte”, a “Seita do Niilístico Momento Mori” e o “Clã Terrorista Niilista Cenaze”, aqueles que com suas palavras e atos demonstraram que o ataque, o atentado, é uma parte importante para ser um niilista verdadeiro.

HH: Com relação a esta pergunta parece que a diferença entre a primeira etapa de ITS e a etapa de Reação Selvagem foi um retorno às fontes indígenas-selvagens-pagãs em RS. Certamente ainda há referências a “Chicomoztoc”, etc. Mas percebi uma redução deste aspecto e uma abertura a outras ideias e maneiras de se compreender as coisas. É correta tal percepção? É uma parte necessária para a expansão do eco-extremismo?

Xale: Sim, como eu havia respondido acima na primeira pergunta, nesta nova etapa do eco-extremismo temos deixado de lado o tema dos povos nativos, mas apenas um pouco, já que ultimamente temos abraçado completamente o estudo da questão sobre o paganismo.

Esta “redução” na temática nativa pode ser vista nos comunicados emitidos ultimamente e no conteúdo da Revista Regresión, e como efetivamente você disse, houve uma abertura a outras questões que tem haver com o niilismo e a atividade delinquencial, embora eu deva esclarecer que não é porque nós consideramos mais importante falar destas questões do que se aprofundar nos estudos da guerra nativa. NÃO, é o momento de cobrir mais variantes que compõem a tendência eco-extremista.

Com RS houve um estudo concreto e focado na guerra nativa, de fato a maioria dos comunicados dos grupúsculos que o integraram faziam referência à herança de guerra de nossos antepassados, mas passado este ciclo e tendo maior presença e mais indivíduos que participam da prática e teoria, é necessário fazer uma abertura de temas para solidificar esta tendência.

HH: É interessante porque ser nativo em lugares como Canadá e Estados Unidos não significa nem ilegalidade nem a guerra contra a civilização. As tribos modernas às vezes funcionam como empresas, tem cassinos ou vendem suas terras para a exploração de petróleo. No entanto, alguns críticos tem dito que o eco-extremismo explora a memória de “indígenas mortos” para suas doentes causas antissociais. Como você caracterizaria a relação do eco-extremismo com os indígenas de hoje em dia tão distantes (e às vezes aliados) com a civilização?

Xale: Essa crítica sempre me faz rir muito. Dizer que estamos explorando as “memórias” de “indígenas mortos” é apenas alongar a lista de desculpas que tem esse tipo de críticos. Os eco-extremistas não exploram as memórias de ninguém, seríamos “antissociais doentes” se justificássemos com este mesmo discurso a violação e prostituição de crianças, o tráfico de órgãos, o sexo com cadáveres e outras doenças derivadas da atrofiada mente dos hiper-civilizados, mas como apenas justificamos os atos incorretos contra a civilização, atos que levaram a cabo nossos antepassados e que inclusive algumas tribos selvagens ainda praticam, esta crítica está completamente equivocada.

Não vou negar que muitos grupos indígenas e nativos de várias partes do mundo são cúmplices das grandes empresas que devastam seus territórios, muito menos vou negar que muitos indígenas aqui no México, inclusive, se afastaram de suas tradições e adotaram as práticas ocidentais, gerando um dano em seus ambientes controlados por grandes corporações. Grupos de nativos que não estão absorvidos pela cultura dominante podem ser contados nos dedos, são muito poucos. Embora eu deva dizer que em muitos dos casos em que os indígenas se afastam de suas origens é por vontade própria, uma vez que eles decidem se adaptar ao modo de vida dos outros, em outros casos os indígenas são manipulados e postos em condições que os forçam a abandonar as montanhas e se unir aos não-vivos das cidades. Por aqui é bem sabido de que empresas chegam até as aldeias remotas e para conseguir mão de obra barata convencem os indígenas a trabalharem nas cidades com a promessa de que terão dinheiro e comodidades, algo completamente falso, já que quando não necessitam mais deles os abandonam e os deixam a mercê. Sobreviver em uma cidade tão monstruosa como a capital mexicana e sua área metropolitana é muito difícil para pessoas que são de fora, então estes indígenas terminam como vagabundos viciados, na prisão ou mortos. A situação é lastimável, claro, mas é parte da realidade.

HH: O eco-extremismo tem uma relação bastante complicada com o anarquismo, mas às vezes também se refere “à Anarquia, mas não o anarquismo”. É possível ser anarquista e estar aliado ao eco-extremismo? Como seria isso?

Xale: Recentemente escrevi para a próxima edição da Revista Regresión (N°6) um texto intitulado “Anarquistas Indiscriminados“, onde exponho os terríveis atos terroristas que realizaram alguns anarquistas na história sepultada no panteão do esquecimento. No texto eu menciono a constante briga entre os anarco-bandidos e os anarquistas humanistas a partir de suas perspectivas da época porque os primeiros atentavam contra seus objetivos sem se importar em ferir civis ou inocentes, atos que correspondem à terminologia do Ataque Indiscriminado, prática que tem sido um ponto de debate para muitos anarquistas da atualidade.

Com este texto público em breve eu me emprego a evidenciar que alguns anarquistas do século XIX atuavam indiscriminadamente, violando os códigos morais e políticos próprios do anarquismo e como os entendia a grande maioria do movimento anárquico tradicional.

Com o texto pretendo também “puxar” (mesmo que por um momento) estes anarcos das tumbas onde a história oficial e não oficial pretendia deixá-los.

É engraçado ler como lá por meados do século XX os atos terroristas de Di Giovanni (por exemplo) assustavam os anarco-sociais, e ler como é que se assustam alguns anarquistas de hoje em dia quando se inteiram de nossos atentados. É praticamente a mesma acusação histórica, “bandidos”, “desumanos”, “esses não são companheiros”, “excluamos eles do nosso movimento”, “são covardes que atacam ao acaso”, etc.

Respondendo à sua pergunta, penso que SE pode haver anarquistas aliados com os eco-extremistas desde que estes anarquistas respondam firmemente às características de seus antepassados demoníacos e terroristas. Contrariamente, um anarquista humanista que se preocupa com a sociedade e que sonha com um “mundo melhor” NÃO pode ser aliado dos eco-extremistas.

HH: Qual seria a diferença entre um anarquista que simpatiza com o eco-extremismo e um que severamente o rechaça?

Xale: A diferença teria que ser um tanto abismal. De fato um anarquista que simpatiza com o eco-extremismo teria que subverter com o que foi dito por pensadores anárquicos tradicionais e com isso abalar seu humanismo e seu progressismo úteis para alcançar um mundo sem “estado-capital”, teria que deixar de lado as utopias e se concentrar no presente decadente e pessimista no qual nos encontramos, assumindo seu papel como indivíduo dentro desta época e atuando em consequência, teria que desprezar tudo o que é humano (em termos filosóficos), teria que fazer as coisas que se tem que fazer respondendo friamente e inteligentemente sem importar que terceiros sejam afetados. Teria que ser como Di Giovanni, como Mario Buda, como Santiago Salvador, como os anarquistas galeanistas.

HH: Me parece que o anarquismo “social” é um vestígio da antiga política das massas. Não posso comentar muito já que nunca fui anarquista e não conheço muito bem a história. No entanto, suspeito que grande parte da atividade individualista que você menciona ocorreu antes da “época moderna das Revoluções”, como na Rússia em 1917, Espanha nos anos 30, etc. O anarquista social moderno tem muita dificuldade em terminar este capítulo, embora o resto mo mundo (político ou não) já tenha renunciado a toda essa coisa das massas lutando nas ruas ou o que seja. Contudo, no extremismo islâmico quando não é uma questão de guerra convencional muitas de suas ações são individualistas e indiscriminadas, mas o anarquista social não pode se separar da atitude de “despertar as massas” para forjar um “novo amanhecer” uma vez que não pode renunciar à velha análise e fazer isso retiraria toda sua esperança e o converteria em um eco-extremista niilista asqueroso, ou algo do tipo.

Xale: O contexto histórico em que se desataram os demônios da anarquia maldita foi antes e depois da Revolução Bolchevique e antes da Guerra Civil espanhola de 1936.

Por exemplo, Santiago Salvador atuou sozinho em novembro de 1893. O homem escolheu como objetivo o Grande Teatro de Liceu em Barcelona, isso em vingança pelo fuzilamento de seu amigo Paulino Pallás (outro anarquista terrorista que em setembro daquele mesmo ano atentou contra o general Martínez Campos em pleno desfile militar em Barcelona. O terrorista lançou um par de bombas contra sua carruagem, o general atentado ficou ferido, assim como outros dois generais e houve a morte de um guarda civil, além de deixar dezenas de civis feridos). Salvador escondeu entre suas roupas duas bombas Orsini, um explosivo muito popular entre os anarquistas daquela época que detonava ao se chocar fortemente contra o solo ou qualquer superfície sólida. O terrorista esperou até que a ópera estivesse na metade para que o teatro estivesse cheio, e quando percebeu o momento oportuno lançou indiscriminadamente desde um balcão as duas bombas contra o público. A primeira causou um ruído infernal e ensurdecedor arremessando pedaços de corpos, sangue e estilhaços por todas as partes, a segunda caiu no voluptuoso vestido de uma mulher que havia sido ferida após a primeira explosão, mas não detonou já que seu vestido amorteceu a queda. Este atentado anarquista deixou um saldo de 22 mortos e 35 feridos em gravidade.

Talvez muitos anarquistas de agora não recordem que o autor deste ataque foi um de seus antepassados políticos. É uma pena que um personagem tão emblemático que na sua época foi um terrível inimigo da sociedade e do sistema seja condenado ao esquecimento (como muitos outros), só que não totalmente, pois ainda existem alguns poucos que se lembram deles.

HH: Há certa ambiguidade em termos de “reselvagear-se” (“re-wilding”, em inglês). Às vezes diz-se que o eco-extremista tem que fazer o possível para não estar dependente da civilização, mas ainda voltando-se para o “não há futuro”. Há uma posição sobre a “reselvagização” ou é algo que depende de cada eco-extremista?

Xale: a reselvagização como nós a entendemos talvez difira um pouco do que entendem os ianques eco-radicais com seu “rewilding”, que creio que foram os primeiros a empregar o término. Desde o início eles o empregaram para designar uma ação a favor da natureza selvagem sempre relacionada com a preservação de entornos e o florescimento da natureza em certos espaços urbanizados que pouco a pouco vão se tornando feral.

Eu pessoalmente conheço alguns eco-extremistas que não nasceram na cidade e que neste exato momento estão levando uma vida de nômades em algum lugar da geografia “mexicana”. Eles saem por um tempo, regressam a seus lugares e então decidem atacar a civilização. É uma estratégia muito adequada.

Este tipo de eco-extremistas decidiram se reselvagear na natureza selvagem, andar como nômades, saber caçar, fazer fogo por fricção, usar peles, coletar sua comida, etc., eu pessoalmente respeito muito seu modo de vida e acho que se isso é o que eles querem fazer, adiante. De qualquer forma estar em contato com a natureza selvagem sempre te cria algo belo, você dá um valor muito mais especial às coisas. Este tipo de eco-extemistas também entendem que não há futuro, por isso vão às montanhas antes que estes entornos sejam devastados por completo. Felizmente aqui no México ainda temos lugares selvagens se comparado a outras partes do mundo onde quase não há mais nada ou os entornos viraram reservas.

Por outro lado os eco-extremistas da cidade também se reselvageiam individualmente a sua maneira. Muitos de nós sabemos fazer algo do que sabem fazer os eco-extremistas nômades para enfrentar qualquer situação que apareça em nosso caminho, mas na cidade é preciso saber se deslocar, há que ser um lobo vestido de ovelha. Os eco-extremistas da cidade se empregam à guerra, a saber atacar, emboscar, enganar as autoridades, assaltar, utilizar armas, provar o último suspiro após tirar a vida do inimigo, e tudo isso e mais também é reselvagear-se, é regressar ao primitivo em um conflito herdado por nossos ancestrais colocando em prática as táticas que usaram os antigos, só que dentro de outras condições. De fato o homicídio que levou a cabo ITS se apresenta como uma “reselvagização individualista”. Assassinando o empregando da UNAM ITS não SÓ pretendia eliminá-lo e criar reações, mas também com o mesmo ato os membros de ITS assassinaram o seu civilizado interior, onde matam à punhaladas pouco a pouco os valores ocidentais que são empurrados a eles desde pequenos.

Para mim e para os meus, os eco-extremistas da cidade e fora dela, não há futuro, apenas há o presente. Não temos nada pelo que lutar, exceto por nós mesmos. Reselvagear-nos é saber se mover como os caçadores, convertendo-nos em animais, é aprender a atacar o inimigo, odiá-lo, derramar seu sangue, cortar sua cabeleira e oferecê-la aos mortos. Igualmente também é conhecer a natureza selvagem, perder-se nos ambientes, estar em contato com seus ciclos, apreciá-la, respirá-la e amá-la.

HH: Algumas pessoas acusam o eco-extremismo de estar a favor da autoridade, uma vez que rechaça o anarquismo. O eco-extremismo possui uma posição abstrata sobre a “autoridade” ou é uma pergunta meramente escolástica na atualidade?

Xale: Não há como negar, a autoridade teve um papel importante nas sociedades humanas. Em cada grupo étnico antigo sempre houve um líder tanto de guerra como espiritual. A mulher coletora que fornecia a comida quando a caça escasseava também poderia ser considerada uma espécie de autoridade, a “cabeça” da tribo em tempos difíceis. Só há algum tempo tem sido visto apenas o lado negativo da autoridade com os autoritarismos, tem sido traduzido como uma figura concreta que “querem nos impor algo pela força”, e isso devemos à cultura ocidental que temos impregnada na cabeça. A educação forçada acompanhada de uma figura de autoridade que nos diz o que fazer e o que dizer é o modelo no qual fomos criados, e até certo ponto é compreensivo que muitos considerem a autoridade como algo prejudicial e invasivo.

É necessário se livrar da cultura ocidental para ver a autoridade com outros olhos, sabendo diferenciar entre uma figura de autoridade que a todo custo quer impor algo e uma figura de autoridade que dado o seu conhecimento nos compartilha lições valiosas.

Assim, sem meias palavras, posso dizer que o eco-extremismo não demoniza a autoridade, não a rejeita categoricamente como fazem os anarquistas, por exemplo, uma vez que não vemos apenas as partes negativas visualizadas da maneira ocidental, mas também as partes positivas visualizadas da forma nativa. De fato, ao contrário do que dizem os anarquistas, muitos grupos anarquistas tiveram líderes e figuras de autoridade, agora se estes eram chamados de maneira diferente a como “um exemplo a ser seguido”, etc., isso aí já é outra história. Dito isso podemos ver que na história dos anarco-bandidos, por exemplo, sempre houve um anarquista dentro destes grupos que teve maior presença, que incitava, que tinha mais iniciativa que os demais, que tinha um conhecimento mais elaborado, e para esclarecer com exemplos há Di Giovanni, aquele que foi o líder de seu bando dada a sua dedicação a tudo o que fazia, desde atentados à bomba, edição de jornais e livros, escrita de cartas onde ele sempre se defendia das calúnias dos anarco-franciscanos, até a execução de pessoas indesejáveis, assaltos, etc. Num outro exemplo Bonnot foi quem liderava seu grupo de assaltantes na França dado ao fato de que ele tinha maior conhecimento nos assaltos. Miguel Arcángel Rosigna foi quem liderava seu grupo de assaltantes no Uruguai dada a sua inteligência e sua metodologia quase perfeita para cometer roubos e realizar fugas da prisão.

Até mesmo Bakunin pode ser considerado como uma figura de autoridade, mas não faça o sinal da cruz diante disso leitor anarquista. De fato ele é um exemplo de uma figura de autoridade não nociva que com suas teorias ensinou coisas valiosas a muitos e devido a isso o movimento anarquista tornou-se uma ameaça para seus inimigos.

Então, resumindo um pouco tudo isso e respondendo à sua pergunta, penso que a autoridade para os eco-extremistas é um tema abstrato no qual não colocamos uma ênfase especial já que não há nenhum problema em aceitar isso.

HH: É verdade que o esquerdismo e o anarquismo (em geral) trata a autoridade como uma categoria metafísica absoluta quando tradicionalmente nunca foi assim. Eu culpo o fato de que o homem moderno não pode fazer nada, é completamente domesticado, e por isso se obceca pela questão da autoridade. Em outras sociedades a autoridade era, em especial, carismática, mas nos bandos mais primitivos houve leis e códigos sociais que ou alguém seguia ou seguia. Recentemente li sobre alguém que disse que o anarquista moderno não aguentaria viver em um bando primitivo uma vez que todos tinham seus papeis definidos dentro do bando e sua obrigação não poderia ser variada. E atenção, tudo isso sem estado ou polícia. Por outro lado o anarquista social parece completamente obrigado por sua solidariedade e reciprocidade entre “companheiros” ou o que quer que seja, mas nunca se questiona sobre esta moral…

Xale: Concordo com você, um anarco-primitivista certamente seria chutado como um cão num bando primitivo se algum dia tentasse se encaixar em um. Certamente estaria reprovando coisas e incitando os demais a se “rebelarem” contra o xamã ou algo assim.

HH: Creio que há muitos leitores interessados, especialmente nos Estados Unidos, que pensam que o eco-extremismo não é para eles, uma vez que lá o estado é bastante poderoso e as ações eco-extremistas não parecem possíveis. Existe alguma maneira de “ser eco-extremista” ianque sem ser jogado imediatamente na prisão ou morto pela polícia?

Xale: Sinceramente, penso que as pessoas que creem que o eco-extremismo não possa ser possível porque tem “em casa” as maiores agências de segurança do mundo, são pessoas medrosas que não conseguem pensar em formas convincentes de levar a cabo atentados nos Estados Unidos sem serem detidas. É bem verdade que a NSA espia a maioria dos radicais e de fato o FBI tem uma lista daqueles que podem gerar problemas, é verdade também que a polícia possui infiltrados muito bem preparados para desarticular grupos extremistas, isso eu não vou negar, mas penso que o problema aqui reside nas pessoas que são buscadas, que são marcadas em uma lista e que sua foto está no sistema, são pessoas que se relacionam com certos movimentos e que as agências de segurança já tem certa suspeita deles. As pessoas destes movimentos gostam de ser protagonistas, de serem reconhecidas como as “mais radicais”, gostam dos holofotes e da algazarra dentro de sua cena. Agora pensemos em um eco-extremista que não se importe com isso, que atue só ou com um cúmplice, que tenha um perfil discreto, que nunca assista nem frequente lugares onde haja pessoas que pertençam a movimentos radicais (anarquistas, ambientalistas, ecologistas, okupas, etc.), e pensemos que este eco-extremista saiba ocultar (o máximo possível) seu rastro na web, pensemos que seja extremamente cuidadoso, desconfiado e inteligente. Sob certas condições penso que este eco-extremista possa executar atentados sem ser detido ou morto pela polícia. Embora pareça fácil eu sei que não é, o eco-extremista deve ter convicção, dedicação, paciência e ser comprometido.

Um eco-extremista é bastante capaz de executar atentados nos Estados Unidos, sair ileso e continuar com a guerra, disso estou seguro. Talvez o tempo provará que estou certo, ou talvez não…

HH: Esta é uma questão muito sensível, e aqui não estou sugerindo nada específico, claro. Estou apenas observando. Mas parece que o ataque individualista e às vezes indiscriminado é um tema abordado ultimamente pelos gringos, ou pelo menos é algo que obceca a mentalidade ianque. John Zerzan, por exemplo, é obcecado pela questão do “mass shooter”, o atirador que mata pessoas inocentes em clubes, escolas ou qualquer lugar público sem razão alguma aparente ou por razões “doentes”. Como você sabe, todo o mundo na Ianquelândia tem armas, e muitas armas, de todos os calibres, etc. O atirador sempre se suicida no fim do ataque ou é preso pela polícia, mas nunca há maneiras de impedir estes “lobos solitários” até que seja tarde demais. Menciono isso porque pode explicar a reação dos bons anarcos sobre os ataques dos eco-extremistas: não é uma questão de estar distante da vida rotineira deles, mas é parte da vida cotidiana dos ianques: um “louco” com uma pistola mata pessoas por frustração e nada mais.

Xale: Me parece que o que você menciona é até uma questão cultural, embora no México não há muitos casos conhecidos de uma pessoa que se põe a disparar em quantas pessoas conseguir. As pessoas que tem armas por aqui é porque usam elas para proteção, para vingança ou para algum trabalho (assassinato por aluguel, assalto, sequestro, etc.). Quando uma pessoa é encontrada assassinada as pessoas ao invés de dizerem que foi por frustração ou resultado de uma pessoa com desordem mental, dizem: “talvez ele merecia” , ou “para que resistir ao assalto?!”.

Recordo de algo parecido que aconteceu por aqui e que é próximo ao termo “mass shooter”, quando em 2009 um homem estava pintando slogans na estação Balderas de metrô da Cidade do México, slogans sobre o aquecimento global, a responsabilidade dos governos, etc., um policial tentou detê-lo (saibamos que o que ocorreu foi num horário de pico quando havia uma maior quantidade de pessoas no metrô), o homem lutou com o policial e do meio dos seus pertences sacou um revólver e o matou. Muitos passageiros se assustaram e fugiram apavorados ou trataram de se esconder dentro dos vagões, alguns cidadãos heróis tentaram desarmar o homem que sem nenhum remorso igualmente atirou contra eles, deixando alguns feridos e um outro morto na rinha. Por fim a arma ficou sem balas, ele foi encurralado, quase linchado e foi preso. Depois a imprensa publicou que o homem sofria de esquizofrenia devido a tratamentos que teve numa clínica psiquiátrica e que por isso sua reação foi tão violenta. Como esperado, o homem foi condenado a passar alguns anos em uma clínica de “saúde mental” e depois saiu livre. Talvez neste caso em particular as pessoas daqui tacharam o homem como um “porra louca”, mas o contexto é muito diferente do que se passa lá pelos Estados Unidos, embora as causas centrais sigam sendo as mesmas. Nesta caso, os medicamentos que fizeram com que o homem sofresse esquizofrenia, estes medicamentos e tratamentos médicos são derivados do grande problema, a civilização.

Agora falando do contexto gringo, em minha perspectiva penso que os “mass shooters” tem verdadeiras razões para realizar estes tipos de atos indiscriminados, não fazem simplesmente porque sim, ou do nada, não disparam apenas por disparar, houve algo que os empurrou a fazer isso, a planificar. Assassinar a uma grande quantidade de pessoas utilizando este modus operandi pode ser resultado de uma grande matiz de causas e efeitos como por exemplo, religiosos e sociais, clínicos e culturais, econômicos e políticos, etc. É bem sabido que pessoas devido o assédio escolar um dia decidem chegar ao colégio com rifles de assalto e matar aos que os molestavam, já outros, por injustiças raciais contra os afroamericanos, outros por razões religiosas atentam contra a sociedade gringa por considerá-la inimiga de Alá, outros por suposta “supremacia branca”, outros por ter a mente atrofiada devido a medicamentos psiquiátricos. No caso de um eco-extremista estadunidense, se algum dia houver alguém que realize um ato deste tipo, certamente as razões pelas quais atuará seriam atacadas, mas nós, seus afins, saberíamos que era a única opção e a reconheceríamos completamente. Com isso chegamos à conclusão de que a civilização é o problema e a atacamos sem contemplações, ou seja, todas essas causas e razões, ações e consequências, são derivadas por toda uma rede de condições variadas, e penso eu que uma análise mais profunda é merecida antes de haver a condenação destes atos. Embora esses e outros casos sejam, para mim, apenas uma reação dos instintos animais humanos que tentam se desenvolver na civilização e que ao não poder se desenvolver como antes, encontram uma saída sob estas condições, há que se aceitar, todos nós na civilização estamos em certo grau “frustrados” por uma ou por outra razão, então dizer que estes fatos são derivados da frustração não é um julgamento TÃO equivocado afinal.

HH: Penso que “a obra teórica” na fase atual é encontrar uma maneira de restabelecer o paganismo/animismo além da mente secular do esquerdismo e o monoteísmo ocidental. Para mim, isso significa um conhecimento profundo do seu lugar. Você acha que uma mudança de percepção, longe do humanismo e do antropocentrismo, mudaria a retórica “pessimista” do eco-extremismo? Ou seja, se a Natureza vence no fim da história, e o homem civilizado é o “vilão derrotado”, isso significaria que os “verdadeiros niilistas” são os que defendem a civilização, e, (por que não?) a sociedade e a humanidade propriamente dita. O que você acha desta análise?

Xale: A mudança de percepção da qual você fala teria que ser radical, teríamos que passar de pessimistas a otimistas, e de niilistas a positivistas.

Talvez haja por aí algum eco-extremista ou não propriamente dito que, dado o seu desenvolvimento cultural, suas condições sociais, tenha uma percepção distinta de tudo isso e que, como você menciona, considera a humanidade moderna como os verdadeiros niilistas, embora se tivesse tal percepção, penso que isso não mudaria a ideia central da defesa individualista da natureza selvagem e o reconhecimento encarnado de deidades antigas ligadas a essa natureza que penso que são as bases fundamentais da tendência.

Mas a realidade dita este cenário pessimista e é nele em que nos desenvolvemos, não temos outra escolha a optar e agir em conformidade.

HH: Qual é o papel da delinquência no eco-extremismo? Parece que ele tem surgido como um tema significante nos blogs, na Revista Regresión, etc. O que você diria para as pessoas que se opõem à delinquência dizendo que ela também é parte da civilização e não merece ser idealizada?

Xale: As atividades delinquenciais são uma parte fundamental da tendência do eco-extremismo. É delinquência roubar, plantar bombas, incendiar coisas, ameaçar pessoas, adquirir os ingredientes para a fabricação de mesclas explosivas, transportar explosivos e armas, armazená-los, conspirar com individualistas de outras partes do mundo para executar atentados, assassinar pessoas; inclusive é um delito grave (dependendo do país onde você esteja) difundir, traduzir e editar este tipo de mensagem incitando direta ou indiretamente a cometer crimes, etc. Nós eco-extremistas somos delinquentes, criminais, assaltantes, assassinos e atentadores, essa é a essência desta tendência, a sua natureza. Nisto não há uma idealização, há uma prática herdada dos selvagens nus que roubavam gado dos espanhóis, dos que os emboscavam e assaltavam suas caravanas, daqueles que assassinavam o inimigo, dos que invadiam povoados inteiros reduzindo-os à cinzas, dos que afiavam as pontas de suas flechas embebecidas de veneno, etc., uma prática que seguimos, só que em um contexto e época diferente, mas que no fim das contas a mesma guerra é levada a cabo. Essa coisa referente à prática da delinquência, mas como termo, temos cunhado como retórica. Se a sociedade e as autoridades dizem que somos delinquentes isso nós somos, se dizem que somos terroristas isso também somos, esses rótulos não nos assustam, não vamos nos defender dizendo que não somos criminosos porque dentro de seus términos jurídicos nós somos, não vamos nos indignar como a maioria dos “revolucionários” e radicais fazem quando nos chamam destas formas, os eco-extremistas não defendem causas “justas”, não representam sua “compaixão” e seu “humanismo”, pelo contrário, representam a violência e o desprezo pela vida civilizada.

É verdade que muitas pessoas veem a delinquência como parte da civilização, muitos talvez pensem que é produto das condições sociais na qual estão submetidas as pessoas dentro da civilização, e em parte isso é verdade. Evidentemente, se a civilização não existisse a delinquência dentro do aspecto jurídico muito menos, mas repito, apenas dentro do aspecto jurídico, uma vez que os “crimes” contra alguém existiriam sem civilização. Mas mesmo sem civilização os atos delinquenciais seriam classificados como crimes? Ou seriam classificados como retribuições? Nesta era moderna dá no mesmo qualquer uma das duas categorizações? É a delinquência uma atividade que surge dos problemas de uma civilização ou pode ser considerada como uma consequência sem que esteja estritamente relacionada com as condições civilizadas? Devemos recordar que tudo neste mundo e fora dele é regido por ciclos, tudo é um constante movimento onde cada ação contribui uma reação.

Sobre isso colocarei um exemplo. Os astecas consideravam bárbaros e incivilizados os teochichimecas e não se atreviam a explorar a Grande Chichimeca, e quando fizeram isso deram de cara com selvagens hostis que os expulsaram violentamente. Os astecas não consideravam esses nativos criminosos ou delinquentes, mas simplesmente “não civilizados”, gente sem cultura, etc. Sob esta lógica os astecas se concentraram então em erguer sua civilização sem se meter em territórios da Teotlalpan Tlacochcalco Mictlampa (“lugar do norte onde se esconde a morte”, em nahuatl), talvez suas deidades lhes recomendassem a não se meter com os teochichimecas e essa recomendação eles houvessem escutado e a respeitaram. Após isso se dedicaram a conquistar e expandir seu primeiro império sob outras tribos que eram mais fáceis de dominar. Os chichimecas de guerra ao verem que os civilizados pré-hispânicos não entravam em seus territórios não viram a necessidade de causar um conflito generalizado contra estes.

Quando os espanhóis chegaram na Grande Chichimeca empreenderam uma campanha à sangue e fogo contra esses incivilizados malditos, e eles responderam com uma fúria semelhante à do branco, inclusive pior. Com isso foram então considerados criminosos pelas leis da coroa espanhola e foram presos, escravizados, domesticados ou exterminados. Ou seja, a ação dos espanhóis que se meteram com os teochichimecas provocou uma reação destes.

Mesmo se os ocidentais não tivessem chegado com essa insaciável atitude de subjugar a tudo e a todos, penso que os teochichimecas tivessem seguido com suas vidas simples e às vezes guerreando com tribos vizinhas como era há séculos tradição dada sua natureza conflituosa.

O mesmo se passa com os eco-extremistas dado que a civilização quer nos artificializar, nos mecanizar e nos domesticar completamente. Frente a isso nós respondemos violentamente como fizeram nossos ancestrais, e é deste modo que a delinquência não é completamente um produto da civilização moderna como tal, não surge com ela, é dado o nome de “crime” pelas leis dela, mas na verdade é uma consequência geral da ação dependendo do sistema estabelecido; chama-se civilização, sistema de dominação, etc. Todo este raciocínio baseia-se apenas no aspecto jurídico-histórico, penal-oficialista, mas se destroçarmos o termo da “delinquência” um pouco mais veremos que é muito relativo e que se apoia em uma posição moral fixa assim como exemplifico a seguir:

– Um homem assalta um banco à mão armada, ameaça explodir os miolos da cabeça do caixa se este não lhe der todo o dinheiro. Neste caso, o assaltante talvez considere que neste momento esteja cometendo um crime ou talvez não, talvez considere que esteja fazendo algo “ruim” ou talvez não, talvez como muitos assaltantes da Cidade do México considere o assalto à mão armada apenas como mais um “trabalho” onde se consegue dinheiro se arriscando, empregando força e inteligência assim como faz um mineiro, um limpador de vidros de grandes edifícios ou um trabalhador metalúrgico. Mas para o caixa, para o gerente da agência bancária e para a polícia, esse homem é um delinquente e está trabalhando “mal”.

– Um trabalhador de um matadouro mata dezenas de cabeças de gado diariamente. Ele corta a garganta com uma faca bastante afiada para que sangrem até a morte e sua carne possa ser processada. É um trabalho sujo, mas no fim das contas é um trabalho que o empregado considera “bom”, pois no fim de semana consegue uma remuneração para sustentar sua família e como um adicional contribui com a indústria alimentícia. Cortar gargantas de gados não é considerado “ruim” e muito menos um crime, mas para muitos veganos radicais o que este senhor que trabalha no matadouro faz é “ruim”, e é um delinquente por assassinar animais para que os outros comam, e por isso os veganos decidem incendiar seu carro.

– Um estudante de direito tem vontade de “triunfar” na vida, para isso durante sua vida acadêmica ele não se importa de passar por cima dos outros para alcançar ser alguém reconhecido dentro da advocacia. Ele utiliza artimanhas para conseguir seus títulos e, finalmente, torna-se um advogado importante. Em sua carreira se encarrega de por na cadeia pessoas acusadas falsamente e beneficiar seus clientes que sempre são ricos. Para o advogado isso não é “ruim” e muito menos ele se considera um delinquente por prender pessoas por meio de provas falsas enquanto recebia uma grande quantidade de dinheiro por cada caso ganho ao mesmo tempo que seus clientes endinheirados ficavam satisfeitos. Mas os familiares das pessoas que foram presas não pensam como ele, para eles não é “bom” o que faz o advogado, e um deles, em especial, o considera um delinquente, um criminoso, e sabendo que para este tipo de pessoa não há juiz que julgue, o familiar decide segui-lo e lhe mete um tiro na cabeça.

Como é possível ver nestes exemplos e como eu disse acima, se analisarmos o término “delinquência” em muitos casos veremos que é relativo. Claro, os eco-extremistas não veem a atividade delinquencial como algo “ruim” nem como algo “bom”, mas sim como uma consequência, empregando e defendendo o termo dentro da retórica que nos caracteriza.

HH: O que você diria da turma de Zerzan que acredita que os eco-extremistas deveriam fugir para a serra para lutar contra os cartéis para libertar os terrenos selvagens?

Xale: Caramba! Outra vez Zerzan e seus apóstolos. Cada vez mais me surpreende sua imbecilidade e a falta de coerência em suas críticas. Ha-ha, nota-se que acabaram suas críticas e agora seguem vomitando barbaridades como essas. Dizer isso é como se um ignorante perguntasse a estes anarco-primitivistas zerzianos, “por quê criticam tanto a tecnologia e possuem um programa de rádio na internet?”. Foram estúpidos ao dizer que temos que combater os cartéis para que deixem em paz as zonas montanhosas onde têm presença.

Para responder à sua pergunta eu perguntaria a Zerzan e a seus discípulos, porque teríamos que fugir para as montanhas e lutar com assassinos deste ou daquele cartel? Isso teríamos que fazer se nossa meta fosse “libertar a terra”, se nossa meta fosse “reselvagear” ao estilo gringo, mas como não temos essas finalidades, dane-se. Não resta dúvidas que o chefe Zerzan e seus subordinados apenas pensam dentro de seus termos, não podem fazer uma crítica sincera ou certeira porque não conseguem sair da sua mentalidade quadrada ondem pensam que tem a razão em tudo que pregam. Que lástima. Esperávamos que com tudo o que foi escrito contra o seu (anarco) primitivismo fosse sacada uma crítica adequada, mas nos equivocamos, talvez seja para uma outra vida…

HH: Com esta pergunta termina nossa conversa. A verdade é que poucos que leem este texto estarão de acordo com todo seu conteúdo, mas a verdade é que parece que o eco-extremismo não tem um caminho fixo previsível. É verdade que, como tendência definida, é muito jovem. Tem apenas cinco anos, e mudou bastante em muitos de seus aspectos. Mas nós estamos vivendo nas ruínas das utopias fracassadas, sejam socialistas, capitalistas ou religiosas, e o eco-extremismo seguirá sendo uma opção dentro deste âmbito. As pessoas odeiam o eco-extremismo não apenas porque ele se opõe à sociedade, mas também porque a reflete sem as ilusões dos civilizados, reflete o desgosto e a frustração do que os hiper-civilizados sentem, porém não podem mudar. É um ataque contra todas as mentiras de um mundo domesticado. Nem os próprios idealistas engolem a pílula do otimismo e do humanismo. O mundo está no precipício e não há como regressar. Alea iacta est.

Uma guerra sem baixas civis: uma defesa eco-extremista da violência indiscriminada

Escrito do autor Chahta-Ima em torno do tópico “violência indiscriminada” defendida por Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). Este texto foi extraído da web.

Sendo um propagandista eco-extremista, percebo as reações dos leitores anarquistas e esquerdistas ao ler sobre as ações de ITS e outros grupos eco-extremistas. A primeira reação geralmente é de repulsão. Como pode ser que os eco-extremistas executem atentados contra as pessoas e a propriedade, como incendiar ônibus ou enviar pacotes-bombas que podem causar danos a “civis inocentes”? E se uma criança estiver perto do explosivo? Ou se a secretária do cientista, também uma mãe e uma esposa, abre o pacote e morre ao invés do cientista? De onde vem esta obsessão com a violência niilista onde inocentes são mortos? Isso não ajuda a “causa” pela destruição da civilização? Não é um sinal de que os eco-extremistas estão mentalmente perturbados, talvez irritados com seus pais, precisam tomar seus medicamentos, são uns excluídos, etc.?

Em realidade, a oposição dos esquerdistas, anarquistas, anarco-primitivistas, e vários outros tipos de pessoas que se opõem à violência eco-extremista, é hipócrita, é hipocrisia à nível de que Nietzsche e qualquer outro pensador adepto poderia refutar. Posto que a civilização, assim como qualquer ideologia, se baseia na violência indiscriminada, e no esforço de esconder esta violência à luz do dia.

Vamos fazer os cálculos: a oposição à violência eco-extremista pode ser considerada desde o ponto de vista da regra de ouro cristã: “trate os demais como você gostaria que fosse tratado”, “você não iria gostar que alguém explodisse uma bomba no ônibus em que estivesse viajando”, “você não quer perder os dedos em uma explosão, ou que alguém dê tiros em sua cabeça quando você apenas está trabalhando para triunfar”, “todos temos o direito de trabalharmos e ganhar a vida honestamente”, certo? Mas a probabilidade de estar próximo a uma explosão eco-extremista é mínima, você tem mais probabilidade de ganhar na loteria. Em comparação, a probabilidade de morrer em um acidente de carro é muito mais alta, e a probabilidade de morrer por uma doença causada por comer comida processada, como câncer ou cardiopatia, é ainda mais alta. Costumam dizer, em último caso, alguém morreu de “causas naturais”, mas, por outro lado, se alguém morre em um ataque — “baixa civil” — na guerra eco-extremista é uma tragédia. Isso é um absurdo.

Claro, uma condenação da violência eco-extremista neste caso, é uma aprovação tácita da violência do Estado ou da civilização. Para o liberal burguês, “a violência terrorista” é horrível, uma vez que somente o Estado pode determinar quem deve perder a vida (por exemplo: se alguém vive no Iêmen ou Afeganistão teria mais a temer do que apenas acidentes de carros, pois há “drones” que lançam morte diariamente, porém não há nenhum inconveniente porque tudo foi aprovado pela democracia yanqui). Por outro lado, parece que a esquerda e os anarquistas tem mais direto a criticar a violência, posto que se opõem ao Estado e ao capitalismo. De qualquer forma ainda inventam fantasias onde tomam o poder e executam aos parasitas ricos que foram julgados e sentenciados à morte em suas reuniões, e os matam de maneira cruel e sem piedade, não considerando que os burgueses também são pais, filhos, cônjuges, etc. E obviamente, a violência na dita Revolução será a menor possível, uma vez que, poucos inocentes morreram desnecessariamente em uma revolta popular.

Colidimos com a Grande Ilusão da Civilização, que nos obriga a nos preocupar com pessoas que nunca vamos conhecer, a ter empatia com o cidadão abstrato, o companheiro, e um filho de Deus. Devemos nos preocupar vendo um ônibus queimado, ou um escritório destruído, ou os vestígios de um artefato explosivo deixado do lado de fora de um ministério do governo. Nós somos obrigados a nos perguntar coisas como: o que aconteceria se minha filha estivesse em frente a este edifício? E se minha mulher estivesse neste escritório? Se eu fosse este cientista morto e coberto de sangue no estacionamento? Bom, se assim fosse, o que mudaria? Mas, na realidade, você não estava ali, então, porque está fazendo este filme?

Não é esta a grande narrativa da civilização, que todos nós estamos envolvidos nesta questão? É mentira, porque não estamos. Você é um elo a mais na cadeia, e se a Grande Máquina da civilização escolhe te rejeitar, você será jogado ao lixo. Você não tem nenhuma agenda pessoal, a moralidade é uma ilusão. Somente cobre a violência e morte necessária para produzir a comida que você come e a roupa que veste. É perfeitamente aceitável que numerosos animais morram, que queimem os bosques, que pavimentem os campos, que milhões sejam feitos escravos em fábricas, que sejam erguidos monumentos para as pessoas que destruíram o mundo dos selvagens, que sacrifiquem os sonhos e a sanidade mental dos que vivem hoje para obter um “amanhã melhor”, mas pela amor de Deus, não deixem uma bomba em frente a um ministério do governo, isso não aguentamos!

Aqui te apresento a chave para tua libertação: você não deve nada à sociedade, e não tem que fazer o que te pedem. Essas pessoas que são assassinadas no outro lado do mundo não se preocupam com você, e nunca se preocuparão. Você é uma pessoa a mais nos números de Dunbar: será uma notícia no jornal e será esquecido. Se identificar com a morte de um cidadão ou um “filho de Deus” a milhares de quilômetros de você, é a maneira em que a sociedade te manipula para que faça o que te é ordenado: é uma ferramenta para tua domesticação e nada mais.

O poeta estadunidense Robinson Jeffers escreveu que, a crueldade é algo muito natural, mas o homem civilizado acredita que é contrária à natureza. Os europeus observaram que alguns grupos indígenas do norte da Alta Califórnia, eram os mais pacíficos e ao mesmo tempo os mais violentos: pacíficos porque não tiveram guerras organizadas, violentos porque usaram a violência para solucionar problemas interpessoais. Os que se opõem com mais fervor à violência eco-extremista, estão defendendo o direito exclusivo do Estado e a civilização de determinar quais, entre os seres humanos, devem viver ou morrer. As pessoas com esta atitude são propriedade exclusiva do Estado, então como se atrevem os eco-extremistas, a desafiar este direito absoluto que existe há mais de dez mil anos, as leis que determinam a vida e a morte?

Termino este discurso com duas citações (apócrifos?) de Joseph Stalin, a primeira é: ” não se pode fazer omelete sem quebrar alguns ovos”. Os que se opõem ao eco-extremismo dirão que estamos sacrificando a vida de inocentes para estabelecer nosso Paraíso na terra. Qualquer pessoa com a mínima inteligência para ler um pouco, perceberá que isso é uma mentira. O eco-extremismo não busca quebrar alguns ovos para fazer um omelete, pelo contrário, ele quer destruir a caixa inteira, e se alguns ovos se quebrem neste acontecimento, de qualquer forma, quantos ovos são quebrados em uma propriedade industrial a cada dia?

A segunda citação é: “uma única morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística”. Não é esta a lógica da civilização, do esquerdista e do anarquista? Pretendem ignorar que o mundo está sendo destruído pela civilização, se perturbam um pouco pelos selvagens que morreram defendendo a terra de seus ancestrais, fazem um videogame em sua imaginação onde estrangulam os capitalistas dormindo em suas camas, mas se veem um ônibus queimado ou um laboratório destruído, gritam, “Meu Deus, que barbaridade!”.

Talvez você acredite que estes atos são poucos efetivos, talvez acredite que são atos de sociopatas, ou o que quer que seja. Não queremos mudar o mundo, preferimos vê-lo consumido em chamas. E se você não vê a destruição da Terra, dos rios, montanhas, florestas e oceanos, esta é a verdadeira loucura, não podemos te ajudar, e não queremos te ajudar. Apenas se agache quando ver-nos chegar.

– Chahta-Ima

Pensamentos Sobre a Moralidade

Tradução do texto Thoughts on Morality, de Abe Cabrera.

Ao investigar sobre a “Creek War” (Guerra dos Creek) algo curioso que encontrei foi a atitude dos índios em relação aos escravos negros. Para os Creek e os Seminoles, um escravo não era livre em virtude de que a escravidão era uma instituição imoral e, portanto, ilegítima. Um escravo deixava de ser escravo quando decidia não mais sê-lo e fugia. Uma das questões que os brancos tinham com estes índios era sobre como abrigavam os escravos fugitivos, e este foi um grande ponto de disputa na segunda guerra Seminol. Mas isso não foi por causa da atitude “iluminada” dos índios. Eles não estavam acima de tomar os escravos negros por conta própria, ou de mantê-los subjugados. O ponto era que a “liberdade” e a “dignidade” concedida a todos os seres humanos pelo Iluminismo não era um fato para a mente incivilizada. Tinha que ser “ganhada” ou “tomada” daqueles que a levaram embora.

Eu deixei para trás a ideia dos sentimentos nobres, aqueles sentimentos passageiros que apenas desejam coisas boas para me fazerem uma boa pessoa. Tenho visto muitos casos em que as pessoas acreditavam na piedade apenas para cometer atrocidades, ou cometiam atrocidades em nome da piedade. É melhor simplesmente se deixar esvaziar destes sentimentos: o que tiver de acontecer, acontecerá. A morte chega em breve, a fadiga traz o esquecimento, uma dormência de sofrimento prolongado.

A única vitória é trazida por seguir permanecendo aqui e de pé. As pessoas querem que a sua vida e a dignidade sejam reconhecidas meramente por existir. Não funciona assim. Este é o sonho esquerdista, mas nunca alcança nada, que todos temos um significado simplesmente porque somos/estamos: estamos unidos ao nobre selvagem e ao futuro transhumanista explorador das estrelas por causa de alguma continuidade… Continuidade! Que mentira fabulosa! Todos os selvagens são assassinados, e por dançar em suas tumbas… quer dizer, “honrá-los”, obtemos a sabedoria e o poder que eles ainda deveriam ter, mas que não tem. Acreditamos que somos todos iguais, mas não somos. De fato, é esse pensamento de que somos todos iguais, que somos a “humanidade” que nos leva a derrubar a floresta, contaminar os rios, levar a terra ao esgotamento, e pavimentar o resto. Porque somos a humanidade, porque este é o nosso “bem”. A humanidade é a inimiga da natureza porque é inimiga do lugar, do físico, do selvagem. Existem os seres humanos (animais humanos) e depois há a Gloriosa Humanidade. Se alguém olha a humanidade de frente e a declara a própria oposição, ou é um tolo ou um covarde.

A separação do ser humano/animal e a Humanidade não é tão simples. De fato, é praticamente impossível. É como pedir aos animais que fiquem longe do bebedouro durante o verão quente. Postular as ações indiscriminadas e seletivas é postular a superioridade do inumano sobre o humano, que os seres humanos não são um sistema fechado, eles “se abrem” a algo maior que eles mesmos (embora eles não entendam nem o obtenham). Para destruir estas coisas maiores (Natureza Selvagem), eles falham em sua vocação, ou seja, estão aberto ao universo, sendo apenas outra força dentro dele e agindo como tal.

Postular a “amoralidade” é buscar a destruição de todos os obstáculos pelo caminho. É postular o individual sobre a sociedade, o caos sobre a ordem. É postular que os pecados de omissão (não fazer nada) não são menos graves que os pecados cometidos (fazer algo). Que a paz civilizada está construída sobre um monte de ossos branqueados de selvagens extintos. Que você não pode vencer o universo com um bom comportamento. Que você se recusa a negociar a regra de ouro porque apenas a escravidão e o vício provém disso (e não do tipo recomendado). A “Amoralidade” reconhece que todos temos a “nossas mãos manchadas de sangue”, porque todos estamos banhados neste sangue. Nossa sociedade foi irrigada com ele. Então isso destrói o amor por completo? Não necessariamente, mas certamente se opõe à sua codificação: sua consagração dentro do reino dos direitos e da “dignidade inerente” da pessoa ipso facto. Posso esperar por piedade daqueles que amo, e desejar a destruição daqueles que não: o desejar não me faz nobre nem me deixa de fazê-lo. Não sou Deus: minha Palavra não está no começo e nada foi criado por ela, mas é perfeitamente razoável que eu odeie a um sistema que transforma meus desejos ou qualquer outro em um código universal de moralidade: hipocrisia? Isso Importa?

Por quê te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor

Tradução de uma reflexão do autor Huehuecoyotl.

“Quanto a mim, eu nunca compreendi como dois seres que se amam e acreditam encontrar neste amor a felicidade suprema, não preferem romper violentamente com todas as convenções sociais e sofrer todo o tipo de vergonha, ao invés de abandonar a vida, renunciando a uma aventura além da qual não se imagina que existam outras.” (a) Diria Schopenhauer talvez em uma noite aterrorizante, talvez em uma noite semelhante a esta na qual eu penso sobre o fato de amar, sobre o amor e como se relaciona com a sociedade moderna.

Em primeiro lugar, há tempos tenho escrito um texto sobre os discursos promovidos pelos mass media e como estes regem a vida cotidiana do humano moderno, o texto ainda não está finalizado, ainda falta um tempo para terminá-lo, poli-lo e trazê-lo à luz. No entanto, isso não me impede de escrever um pouco sobre o amor nesta noite de abril. Mas o que tem haver com isso o texto mencionado? Para mim, a relação está no que é o amor nesta época moderna ou o que se formou pelo entendimento de amor -como em outras épocas passadas- através de discursos, discursos destinados novamente a moldar e reger o atuar do humano.

Assim como o velho Schopenhauer não conseguia compreender a felicidade que encontravam dois seres ao se amar, eu em algumas várias dezenas de anos depois não posso compreender como o humano encontra a felicidade amando ao próximo quando este sujeito referido como próximo é ou pode ser alguém tão distante e desconhecido. Aqui encaixa perfeitamente a frase “amor ao povo” muito entonada por aqueles esquerdistas de coração nobre.

O “amor ao povo”, quem é o povo e por que deveria eu amá-lo?, me questiono. Nestes tempos modernos o amor ao próximo se tornou uma faca de dois gumes, e talvez dizer que tem apenas dois gumes ainda é pouco. A onde quero chegar com isso? Bem, que o humano moderno em sua vida cotidiana tem sido bombardeado por discursos que lhe sussurram sutilmente ou, noutros casos, lhe gritam de forma aterrorizante que ele deve amar a seu próximo, aquele filho de Deus que é igual a ele e que, portanto, merece o seu amor, tolerância, respeito e compreensão. Por quê é meu próximo? Por quê eu devo sentir alguma afinidade com este “próximo” se os nossos interesses são distintos? É aqui onde eu me pergunto, por quê o amar? Por quê amar o próximo se eu não tenho nenhum apego por ele?

Volto a recordar o assunto que preocupava a Schopenhauer e a mim, que era: como se alcança a felicidade através do amor a um ser? Reconheço que para mim a finalidade de amar não é totalmente semelhante à concepção de Schopenhauer, para mim o amor ao próximo, assim como é uma arma de multi-gumes, possui múltiplos interesses e finalidades. Quais são estas?

As respostas ao questionamento anterior são incontáveis e recaem no interesse do sujeito que está refletindo sobre o tema, para mim e meus interesses um motivo pelo qual o humano moderno ama o próximo e não só isso, garante também que os diversos contextos sociais em que este se desenvolve se inteirem deste amor ao próximo expressado e demonstrado por ele. Como efeito, o interesse por amar ao próximo e demonstrá-lo recai na busca pelo reconhecimento social tão característico do humano moderno. (b)

É assim como o amor ao próximo se transforma em um objetivo, uma vez que o humano moderno busca obter um reconhecimento social ao demonstrar o seu amor por este ente nomeado como o “próximo” por mais desconhecido que seja. Atos de altruísmo difundidos por diversos meios, principalmente os cibernéticos, fazem com que os humanos sintam empatia e apego com quem realiza o ato altruísta, até mesmo atos de “caridade” com os animais, e ainda mais recentemente, com o que eles entendem -ou se fizeram entender- por natureza.

Esse sentimentalismo aparentemente inocente, amoroso e compassivo para com as pessoas, animais e plantas, não é nada mais que uma falácia, uma mentira na qual os humanos modernos atuam em sua busca insaciável por reconhecimento social, desejo e busca que na maior parte das ocasiões é invisível para os híper-civilizados. O fato de que um sujeito de bom coração alimente com uma pizza um morador de rua, dê a um cachorrinho moribundo algo para beber ou regue a uma planta a ponto de secar não significa nada, nem mudará absolutamente nada, o mundo seguirá em seu caminho rumo ao abismo, caminho na qual é guiado e empurrado pelos humanos. Então, por que o humano moderno faz isso? Se desculpam dizendo que esta ação muda o mundo de quem recebe a ação, o que para mim é estúpido e falso.

Quem recebe a nobre ação, ou melhor dizendo, a “amorosa ação”, segue vivendo dentro de um contexto social, e assim é com o morador de rua que segue vivendo dentro da sociedade na qual carece de oportunidades de trabalho, o cachorrinho e a planta seguem dentro de um mundo envenenado onde cedo ou tarde a atividade humana os destruirá. O ato de amor desculpado na empatia e o altruísmo é o ato mais falso que alguém pode cometer.

Seu amoroso altruísmo está encharcado de interesse por obter o reconhecimento social, embora o neguem, já que, o desejo de consegui-lo é algo que se encontra escondido na consciência do humano. Como escrevi no começo, a vida do humano moderno é controlada. Aquele que se vê livre é apenas um cego! Os discursos expressos na publicidade desempenham um papel importantíssimo no controle do híper-civilizado que cada vez mais se ajoelha perante a isso, sempre de uma maneira imperceptível para ele.

Até aqui escreverei nesta ocasião, sei que o texto é apenas uma ligeira introdução a um tema com múltiplas arestas como é o amor, sempre tão controverso. Espero que estes diversos textos que escrevi se relacionem entre si e sejam de interesse e sirvam como contribuição para a tendência. Por enquanto, me parece que é um breve, mas claro esboço de um aspecto dos muitos que podem se desenvolver em termos de amor, isso a partir de minha perspectiva como eco-extremista.

-Huehuecoyotl-
Torreón, Abril de 2017.

Notas:

(a). Veja em: Arthur, S. (n.d.). El amor. En, El amor, las mujeres y la muerte.

(b). Para uma melhor referência sobre o conceito de “reconhecimento social”, veja o texto que escrevi junto com Ozomatli para a Revista Regresión: Huehuecoyotl, & Ozomatli. (4 de Abril de 2017). “Algunas reflexiones sobre el actuar del humano moderno desde una perspectiva eco-extremista.” Regresión. Cuadernos Contra el Progreso Tecnoindustrial, número 7.

Moralidade

Tradução do texto Morality, extraído do blog Antisocial Evolution.

A moral é a teoria de que todo ato humano deve ser bom ou ruim. O propósito de todos os sistemas morais é fixar o comportamento humano mediante a imposição de normas absolutas desenhadas de tal maneira que permaneçam além do exame e da crítica. Todos os sistemas morais são apresentados como a norma superior, a lei absoluta, a ordem peremptória que impõe a todos, em todos os momentos, o que devem fazer e o que não devem, sendo aplicável a todos os seres humanos sem exceção.

Para entender plenamente como funciona a moralidade como mecanismo de controle é útil examinar as funções pedagógicas subjacentes aos códigos morais e as justificativas utilizadas para exigir a obediência universal. Até recentemente, uma das mais comuns dessas justificativas era um dito Deus e, de fato, isso não acabou por completo. Este deus diz a nós o que é certo e o que é errado, ou o “assim diz a crença”. Este conceito metafísico do sonho emite regras para que nós obedeçamos, e se nos recusarmos a fazê-lo, esse deus nos castigará horrivelmente. No entanto, ao ameaçar a outras pessoas dessa maneira, o moralista mudou uma postura por outra postura moral, rumo à outra postura de conveniência pessoal, para evitar os resultados dolorosos de não se submeter a alguém ou a algo mais poderoso que nós mesmos. Claro, existem aqueles que não acreditam em um deus e que, no entanto, são crentes na moralidade. Estes moralistas humanistas buscam uma sanção para seus códigos morais em alguma outra ideia fixa: o Bem Comum, uma concepção teleológica da evolução humana, das necessidades da humanidade ou da sociedade, direitos naturais, e assim por diante. Uma análise crítica deste tipo de justificativa moral demonstra que não há mais nada atrás do que está atrás da “vontade de Deus”. Conceitos como o “bem comum” ou “bem-estar social” são meras peças retóricas de grande ressonância utilizadas para disfarçar os interesses particulares daqueles que as utilizam. É precisamente este disfarce de interesses particulares como leis morais que se escondem por trás da máscara ideológica da moralidade. Os sistemas morais funcionam como um ocultamento do propósito real e do motivo e quase sempre são uma “vontade de poder” disfarçada. Mergulhe os planos luminosos dos Salvadores Morais da Humanidade no ácido da análise brutal e veja o padrão escondido no rolo: o desejo de forçar uma certa linha de ação sobre todos, o desejo de governar e reprimir. Somente quando, em certos momentos e lugares, por meio da força física ou astúcia superior, alguns conseguem impor a sua interpretação moral particular aos outros de uma única moral que triunfa, entendida e seguida por todos da mesma maneira -como na Idade Média, quando a Igreja Católica dissolveu toda a variedade na unidade, ou como vemos hoje em certas partes do mundo islâmico.

Um dos usos mais populares do mito moral é adicionar um enfeite ao já desagradável prato da política. Ao converter até as mais insignificantes das atividades políticas em uma cruzada moral, se pode assegurar o apoio dos crédulos, os vingativos e os ciumentos, além de dar uma pseudo-força aos fracos e vacilantes. Enquanto se espera que aqueles que desejam governar os outros invoquem repreensões morais em uma tentativa de converter (ou purgar) o iconoclasta desviador ou crítico, é profundamente desanimador observar os autoproclamados anarquistas atuando na mesma farsa, na forma dos códigos do discurso politicamente correto, as restrições dietéticas, as escolhas dos consumidores, a ética social dogmática e as moralidades escravagistas como o pacifismo. É difícil imaginar algo mais desfiado, mais irremediavelmente plausível para fundar uma rebelião antiautoritária que a moral, mas os anarquistas o fazem o tempo todo, em detrimento de sua própria luta e credibilidade.

O egoísmo consciente do egoísmo –não é nem moral nem imoral– está além do “bem” e do “mal”. É amoral. Um egoísta pode ser verdadeiro ou mentiroso, considerado ou desconsiderado, generoso ou cruel, de acordo com a sua natureza, gostos ou circunstâncias, e a seu próprio risco, mas não é obrigado a ser nada disso. É possível que uma pessoa se comporte de modo que a moral tache de “bom” ou de “mal”, mas fazem isso apenas porque seus interesses julgam e mentem em uma direção ou outra, não porque esta pessoa está possuída pelo aspecto do moralismo ou do imoralismo.

Enquanto o moralista tende a ver os conflitos entre indivíduos (e grupos e instituições) em termos de “certo” e “errado”, o egoísta nunca considera um adversário correto ou incorreto em nenhum sentido moral. Cada um está simplesmente perseguindo o cumprimento de sua própria agenda, e se o conflito não pode ser resolvido de outra maneira, deve ser resolvido pela força. Bem, não se enganem, ao repudir a ideia de moralidade os egoístas não fazem exceção à “violência”. Tampouco fazem qualquer distinção piedosa entre o nível da força ou a força de retaliação. Qualquer uma das formas é usada se for uma maneira conveniente de perseguir um dado fim, e para o egoísta não há lei moral que proíba a violência à qual eles devam subordinar sua vontade à soberania pessoal.

Para o egoísta consciente a inexistência da moralidade é tão verdadeira como dois e dois são quatro e, neste sentido, o egoísmo supera os limites das mais ousadas especulações do anarquismo sobre a soberania individual, atuando como um poderoso solvente para uma imaginação obstruída por teorias de “certo ou errado”. Só depois de escrutinar todo o horizonte da amoralidade -o nada que resta na ausência do bem e do mal ou de qualquer outra autoridade metafísica- o indivíduo se encontra cara a cara com a liberdade emocionante e terrível em que nada é verdadeiro e tudo é permitido.

 

Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez

Taduzido do blog investigativo Malpaís.

Para colocar mais conteúdo neste blog, e também para se concentrar no ponto de vista eco-extremista, ocasionalmente, colocaremos resumos de livros, especialmente de livros que talvez possam ser inacessíveis para a maioria dos eco-extremistas e seus cúmplices hispanofalantes. Começamos com o recente livro do professor mexicano-estadunidense de História pela Universidade da Califórnia Davis Andrés Reséndez, chamado “The Other Slavery: The Uncovered Story of Indian Enslavement in America” (A Outra Escravidão: A História Relevada da Escravidão Indígena na América). Este livro recém publicado tem muito haver com temas discutidos na Revista Regresión e em outros textos, e em alguns assuntos mais conhecidos na América Latina em comparação com terras anglófonas. Por essa razão, não nos concentraremos em resumir o livro completo, já que muito do conteúdo é ensinado em várias faculdades e até mesmo em escolas como história da colônia e do Vice Reino. Por exemplo, quase todo mundo sabe sobre a escravidão dos indígenas no México e Peru, não é necessário abordar esta questão novamente.

Deve-se notar, no entanto, que tem havido bastante “revisionismo” entre os teóricos sobre o progresso da civilização no que hoje é conhecido como “as Américas”. Os escritores estadunidenses Charles Mann no livro “1491” e Jared Diamond em “Guns, Germs, and Steel” (Armas, Germes e Aço), dão a impressão de que a violência do colonizador foi exagerada em algumas fontes históricas. Neste livro, pelo menos, Reséndez refuta este revisionismo. A conquista era tão sangrenta como Bartolomeu de las Casas e outros escreveram.

No entanto, não queremos permanecer no âmbito de fazer os pobres indígenas como “mártires”, que é o que o discurso esquerdista faz com seu culto ao “nobre selvagem”. Queremos aqui concentrar-nos nos trechos do texto que compliquem a questão o suficiente. Em seu capítulo “Powerful Nomads” (Nômades Poderosos), Reséndez descreve o papel da introdução do cavalo nas tribos de caçadores-coletores.

O autor escreve:

“Os exemplos mais dramáticos da reinvenção índia ocorreram no que é hoje o sudoeste americano. Muitos fatores levaram os indígenas daquela região a se tornarem traficantes [de escravos]. A atividade contra a escravidão da coroa espanhola e as proibições legais contra a escravidão dos índios dissuadiram alguns caçadores de escravos no norte do México, deixando espaço para que outros retomassem o papel. Além disso, as rebeliões do século XVII que culminaram na Grande Rebelião do Norte, restringiram a troca de escravos indígenas e abriram mais lugares para a caça de escravos, criando mais oportunidades. Mais importante, a utilização de cavalos e armas de fogo se acelerou naquela época, dando a alguns índios a capacidade de escravizar outros povos. Os novos traficantes, novas vítimas e novas rotas para o transporte de escravos surgiram nos séculos XVII e XVIII. Algumas comunidades nativas experimentaram um processo da “desterritorialização”, como chamou Cecilia Sheridan, deixando suas terras ancestrais, juntando-se com outros grupos, e reinventando-se como bandos móveis capazes de operar em longas distâncias. Ganhavam a vida com o comércio de pilhagem da guerra, incluindo cavalos e cativos.”

No sudoeste do que hoje é conhecido como “Estados Unidos”, sobretudo nas Grandes Planícies (Great Plains) no centro do país, houve uma “revolução do cavalo”. Não era uma questão de introduzir o comportamento bélico nos povos que eram historicamente caçadores-coletores, melhor, os índios itinerantes fizeram tudo o que os povos com cavalos fizeram (mover-se, caçar, participar do comércio, fazer guerra, etc.). Era apenas uma questão de “fazer melhor”.

Algumas tribos se beneficiaram mais do que outras, e essas tribos geralmente escravizaram outras, incluindo outros caçadores-coletores e povos que praticavam a agricultura. Os Comanches foram um exemplo de uma tribo “menor” que se converteu em um grande “império caçador-coletor”, que ganhava suas riquezas de saqueamentos e assaltos. E a atividade mais lucrativa foi o comércio de escravos. Embora a escravização dos índios fosse ilegal no império espanhol, a lei era geralmente ignorada.

Os Comanches, em particular, caçavam escravos para trocá-los por cavalos, rifles e navalhas de metal. Mas também incluíram alguns escravos em sua sociedade. Geralmente nos roubos, os Comanches matavam a todos os machos adultos, mas levavam os meninos e as mulheres que poderiam servir para aumentar a sua quantidade. Como povo poligâmico, um guerreiro poderia ter muitas esposas, até dez ou mais se tivesse muito êxito na guerra. As mulheres não serviam apenas para o prestígio ou gratificação sexual; ter muitas mulheres também era útil porque um guerreiro podia matar muitos bisontes em apenas uma hora, e era o dever da mulher processar a carne dos animais mortos, o qual era um processo muito trabalhoso.

Reséndez descreve a preparação para uma incursão que indicava que um grupo de guerreiros iria desfilar publicamente com os seus cavalos, de modo a irem convidando outros a se unirem. Grandes espetáculos de cavalos e adornos pessoais foram vistos naquela época, a força e a valentia dos guerreiros foram avaliadas para determinar o potencial êxito da incursão. Uma dança de guerra precederia o ataque, que poderia se espalhar longe no México, a certa distância do território Comanche.

Reséndez descreve uma incursão significativa em meados dos anos 1800:

“As testemunhas enfatizaram o sigilo nos ataques dos índios, que em um instante poderiam transformar uma boa noite de sono em uma cena surrealista de caos absoluto com gritos de “Os Bárbaros!”, disparos, cavalos galopando, e flechas voando. Fazendas periféricas, casas isoladas e pastores que exerciam seu comércio em áreas remotas eram presas fáceis. Mas os guerreiros Comanches às vezes se dirigiam também às grandes cidades do México. Em dezembro de 1840 e janeiro de 1841, um grupo de atacantes indígenas passou duas semanas assaltando fazendas nas proximidades de Saltillo, a capital do estado de Coahuila, movendo-se de uma fazenda a outra, como se estivessem desafiando completamente qualquer consequência mexicana. Em uma proeza da “audácia inconcebível” como a imprensa mexicana os qualificou, apareceram bem nas imediações da cidade antes de serem expulsos apressadamente pelas autoridades mexicanas. Da mesma forma, em agosto de 1846, durante um dos ataques mais ousados e descarados de todos, cerca de quinhentos Comanches cortaram uma faixa através de Chihuahua e Durango. George F. Ruxton, um inglês que viajava pelo norte do México naquela época, nos deixou um retrato sombrio: “ranchos abandonados, estradas intransitáveis e povos barricados, vivem com medo de ataques dos índios.” Quando ele chegou a cidade de Durango, em Setembro, se surpreendeu ao saber que a conversa daqueles 18 mil habitantes da cidade não era sobre o curso da batalha Estados Unidos–Guerra Mexicana, mas de uma possível invasão dos Comanches que haviam estado devastando as fazendas no nordeste da cidade do século”.

Os Comanches não eram a única tribo que realizava invasões. Reséndez fala dos Apaches e Utes que também se alimentavam de outros índios e dos não-índios igualmente. As histórias de Mangas Coloradas e Gerônimo são amplamente conhecidas e exigem pouca descrição aqui. Os Apaches se diferenciavam de outras tribos em que, até o século XVII, eram algumas das piores vítimas da escravidão dos espanhóis para trabalhar nas minas de prata do norte do México. Após a chegada do século XIX e da República Mexicana, esforçaram-se para se tornar sedentários e agricultores, mas devido à diminuição da presença militar na fronteira mexicana, começaram rapidamente a fazer das invasões uma forma de vida, como muitos de seus vizinhos. Eles ferozmente se enfrentaram com os militares mexicanos que muitas vezes terminaram em combates corpo a corpo, e como em muitos outros casos, os homens escravos foram mortos ou escravizados pura e simplesmente, enquanto que as mulheres e os meninos muitas vezes dissolvidos na comunidade Apache.

Os cativos nem sempre foram tratados muito “humanamente”, no entanto, esta não é a história de Matilda Lockhart, capturada pelos Comanches e depois, “devolvida à civilização”:

“…tinha hematomas e feridas por todo o seu corpo, e seu nariz havia sido cortado, suas fossas nasais abertas e despojadas de carne, especialmente o nariz, e estavam a gritar e a rir como demônios quando ela chorava.” “Muitas vezes sequestravam estes prisioneiros, especialmente se tivessem meios para o resgate. Os mórmons, ao chegar a Utah na metade do século XIX se encontraram com o chefe Walkara dos Ute, que segundo o líder mórmom Brigham Young, nunca foi sem “uma quantidade de meninos índios escravos”. Young comentou que, “eu vi seus escravos tão emaciados que não eram capazes de ficar de pé. Ele tinha o hábito de amarrá-los fora de seu acampamento à noite, nus e com necessidade de comer, a menos que fosse tão frio que pensasse que iam morrer de frio.” “Os meninos de Walkara foram literalmente descritos por outra testemunha como “esqueletos vivos”, “literalmente mortos de fome por seus captores”.

Walkara foi chamado, o “Falcão das Montanhas”, vendia as crianças indígenas de outras tribos como os Paiute por armas e outros bens da civilização. Ele cavalgava e negociava em lugares distantes como a Califórnia, e era conhecido por roubar gado e cavalos, bem como as caravanas. Os recém chegados mórmons o temiam muito e tentaram atender a Walkara e os Utes, mas eram muitas vezes incapazes de deter a sua barbárie. Na tentativa de evitar a venda de crianças indígenas, os mórmons foram testemunhos de uma outra cena horripilante quando o irmão de Walkara, Arapeen, disse a ele que se recusaram a comprar as crianças indígenas que ele vendia:

“Vários de nós estávamos presentes quando ele pegou uma das crianças pelas canelas e tacou seu cérebro no chão duro, depois atirou seu corpo em nossa direção e nos disse que se tivéssemos corações teríamos salvado a sua vida”.

Os Utes também participaram da destruição da tribo Navajo, juntamente com as forças do governo dos Estados Unidos, embora com um elevado grau de autonomia para que pudessem roubar e escravizar os Navajo.

Claro, existem outras partes deste livro que não iremos discutir aqui, que cobrem ditos aspectos da história como a rebelião do povo e ainda uma seção sobre a Guerra Chichimeca, que foi descrita com detalhes na Revista Regresión. A razão pela qual discutimos esse tema no livro em particular é outro golpe ao mito do “bom selvagem”. Os pessimistas, é claro, dizem que as tribos como os Comanches, Apaches, Utes, etc., não se converteram em guerreiros e cruéis até que domesticaram o cavalo e foram atraídos para tornarem-se isso pela promessa de bens dos europeus (pistolas, facas, cavalos, etc.), isso é verdade até certo ponto, mas talvez também levante a questão de que “sempre foram assim”, e a introdução do cavalo e outras novidades, foram apenas mais um manifesto óbvio. A civilização não é a mancha do pecado original na alma do “bom selvagem”, é o meio para amplificar e realizar algo que já está lá, o que faz com que tudo o consuma e desequilibre.

No entanto, nossa tendência não volta atrás apenas na herança selvagem dessas tribos, pelo contrário. Um selvagem não pode escolher o “momento ideal” para ser um selvagem, onde quer que esteja, e agir em consequência. Para o anarquista verde, talvez Mangas Coloradas e Walkara são “vilões” que caíram na armadilha da civilização, escravizando e vendendo seus prisioneiros. O eco-extremismo renuncia a tais “moralidades de ataque”. As vítimas não são “santos de nossa devoção”, não se contraem novamente pela inevitável crueldade da vida. Essas coisas têm que ser assim, e os golpes devem ser devolvidos a base de golpes.

O que é ainda mais revelador é como isso se reflete na utopia do “futuro primitivo do anarquista verde”. Estou certo de que eles mesmos se darão uma lobotomia a fim de desdomesticar o cavalo, esquecer como usar armas de fogo e metal, e se tornar completamente nômades que andam apenas a pé, porque caso contrário, isso levaria a “hierarquia”, e não podemos chegar a isso. Também se esquecerão dos reatores nucleares, aviões, naves espaciais, etc., etc. Portanto, um bando do “futuro primitivo” nunca poderia cair na venda de crianças esqueléticas em mercados de escravos e açoitar crânios de crianças pequenas quando as pessoas se neguem a comprá-las… Não, eu tenho certeza de que estes “anarquistas verdes” preservarão sua “pureza de coração” em mundo tecno-industrial depois do colapso, ao contrário de pecadores indignos da história, como Gerônimo, Mangas Coloradas, Walkara e o resto dos repreensíveis de salvação na história anarquista…

Os Eco-extremistas são selvagens no aqui e agora, atacam no aqui e agora, usam as ferramentas do presente para lutar contra o que procura escravizá-los e domesticá-los. Isso pode parecer hipócrita, mas pelo menos eles são uma boa companhia. Como qualquer pessoa sensata, eles utilizam as armas à mão para lutar contra o inimigo. Termino esta reflexão com uma passagem de um artigo da Revista Regresión número 3 em relação a este tema:

“Aqui fica respondida a pergunta que foi abordada nesta quarta lição, não podemos nos limitar às antigas ferramentas de guerra apenas porque criticamos este sistema tecnológico, devemos utilizar as armas do mesmo sistema para combatê-lo. Assim como os nativos americanos, os participantes da matança da Pequeno Grande Chifre não se detiveram na utilização destes rifles de repetição, então que nos não nos detenhamos na hora de utilizar a arma moderna que possa causar baixas no inimigo.”

Chicomoztoc, Lua cheia de Julho, 2016

-Arco de Huizache

Tendências Cristãs Pseudo-humanistas

Tradução de Humanist pseudo-christian tendencies, uma resposta publicada na web redigida por encarregados da Revista Atassa a alguns anarquistas.

Li o texto “Tendências Misantrópicas Selvagens” há alguns meses em seu espanhol original. Embora eu ache este ensaio muito mais justo que muitas das críticas feitas nos últimos dois anos, há questões expostas que creio que seria benéfico abordar. Limitarei a minha discussão aos temas Natureza Selvagem, autoridade e misantropia.

Natureza Selvagem

Sobre este assunto existe o ensaio “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?“, que é muito fácil de encontrar. Mas para a questão, citarei uma passagem de uma entrevista realizada por John Jacobi a um eco-extremista:

“… estou consciente de que não sou o salvador da Terra, que a única coisa que pode ser “salva” é a minha própria vida e a maneira como eu me relaciono com o meu grupo de afinidade. A Natureza Selvagem sou EU e meu grupo que se agarra ao ato de não deixar morrer os instintos animais que ainda possuímos. Nos despojaram de tudo, até mesmo de um lugar no qual poderíamos habitar livremente, nos distanciaram de nossos ambientes selvagens, de nossas terras ancestrais e sepultaram-nas com cimento, então a única Natureza Selvagem sou eu e meu grupo, reselvageá-la é o que costumo fazer.” (Trecho de “Diálogo entre um “Eco-extremista” e um “Selvagista”“)

Já sobre o assunto de espíritos/deuses, o seguinte texto de um eco-extremista na Argentina eloquentemente explica a sua defesa pessoal do animismo personalizado:

“Não me surpreende em nada vindo de um grupo de indivíduos tão apegados às lógicas civilizadas, que aderiram a um dos pilares do pensamento empírico e mecanicista, como é o ateísmo. O que dizer sobre este assunto que ainda já não tenha sido dito? Nós, os e as eco-extremistas, temos muito bem destacadas as nossas crenças e visões espirituais, criamos as nossas deidades com base em experiências pessoais na Natureza Selvagem, e veneramos de forma animista os espíritos que habitam nela, como fizeram os nossos antepassados séculos antes da invasão. Estas deidades agarradas à Terra, ao primitivo, nos acompanham e nos guiam a todo momento, nos empurram à confrontação com a mega-máquina civilizadora, nos provém de força e mantém ativo nosso indômito caráter guerreiro. Por todas estas razões e algumas outras, é que rimos dos ateus e seu cientificismo humanista, daqueles e daquelas que baseiam a sua percepção da realidade em uma visão completamente fria, matemática, mecânica, robótica, artificial, etc. Nós não nos importamos que ante as nossas crenças venham a tachar-nos de tolos, crédulos ou de românticos, isso já fizeram os colonizadores no passado, e o fazem a todo momento os híper-civilizados que simplesmente não entendem o idioma do vento, não percebem os sussurros dos vales, o grito dos vulcões ou a sabedoria das árvores. A tudo isso nos dirigimos ao invés de máquinas e robôs, nós preferimos adorar paganamente o espírito da serpente em vez da deusa da razão e seus fiéis discípulos, a ciência e a tecnologia.” (De “Uma Defesa Conceitual do Selvagem: Uma Resposta à Semente de Libertação)

E, em comparação, incluímos um texto de um eco-extremista/niilista do continente europeu:

“Aqui na Europa há também grupúsculos de terroristas niilistas, criminosos individualistas e extremistas e misantropos vivos caminhando, e lembramos mais uma vez que alguns destes grupúsculos foram até pouco tempo próximos a vocês e seus ambientes de podridão, que sabemos quem é quem e por onde anda cada um, que a violência e o atentado para nós não é algo novo, mas uma prática que se tornou uma extensão do próprio ser, então tem sido parte de nossa vida durante alguns anos já… nós não temos “deidades pagãs”, o que temos são armas, explosivos e informação, então, vigiem as suas palavras, suas valentias de internet podem custar caro na vida real.” (De “Algumas Notas Sobre as Recentes Difamações e Breves Esclarecimentos“, O Inimigo Interno)

Os anarquistas autores do texto, certamente, se sentirão mais confusos após ler esta citação, já que nela é expressada um desgosto com a postura contraditória de obedecer aos deuses pagãos e ao mesmo tempo aos próprios caprichos. Dos trechos que citei, o principal ponto de partida é que a ideia de “Natureza Selvagem” como uma entidade autônoma e transcendental não é um dogma obrigatório do eco-extremismo, nem mesmo está imposto especificadamente em nenhum sentido. Um indivíduo pode estar de acordo com ITS e grupos afins, embora não acredite nisso em absoluto, ou em alguns casos, estando em desacordo (ver, por exemplo, o comunicado emitido pelo “Grupúsculo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem”, de Março de 2017). Isso não é retroceder: aqueles que prestam atenção sabem disso há muito tempo. Em nosso atomizado mundo moderno, todas as crenças são individuais e pessoais, e não se traduzem bem quando são impostas ou mesmo comunicadas aos outros. A Máfia Eco-extremista é uma frente unida de individualistas que aderem a crenças pessoais que estão em confrontação com a humanidade moderna. Este pode não ser um alvo ideal para anotar pontos polêmicos fáceis, mas tem sido o caso durante um par de anos.

De qualquer forma, darei minha própria interpretação pessoal do que acredito, sendo o escritor prolífico que sou. Não creio que a imanência e a transcendência com respeito a entidades espirituais sejam inerentemente opostas. Em muitas tradições espirituais, inclusive os pagãos europeus e até certo ponto da teologia cristã mística, adorar deuses transcendentes é realmente um exercício para retornar ao que você realmente é. É um exercício de autoconhecimento. Embora isso possa ser facilmente corrompido em cultos cívicos e alienados, o verdadeiro mago na antiguidade utilizou o ritual e o simbolismo para ascender à divindade (ver, por exemplo, o Corpus Hermeticum). Na verdade, esta foi a base da filosofia moderna, como no Rosacrucianismo de Descartes e Hegel, e a obsessão com a alquimia até Isaac Newton (a alquimia é mais uma transformação pessoal que a mudança de metais básicos a precisos, cf. Carl Jung). Portanto, é obtuso citar Stirner (um discípulo de Hegel, mesmo que ele fosse um rebelde), mas não se dar conta das origens “sacras” de seu próprio discurso filosófico. Continuo afirmando que a “libertação” é um conceito intrinsecamente religioso, não importa o quanto tente fugir de seu passado cristão.

Portanto, é um pouco ridículo pensar que esses eco-extremistas que aderem a uma disciplina espiritual estejam fazendo igual os cruzados quando seguiam a voz do Papa e os jihadistas escutando os gritos militantes do ímã local. Ver a devastação da Natureza Selvagem, sua pavimentação, sua exploração e sua desaparição poderia ser uma experiência espiritual negativa o suficiente para desencadear um despertar em alguns indivíduos (ouvir um chamado, talvez). Eu senti isso. Talvez o/os autor/autores não o sentiram, e talvez acreditem que alguns estão tomando isso mais literalmente do que deveriam. Há muito tempo deixei de considerar a humanidade como o único agente convincente que poderia convocar a minha lealdade, e tampouco acredito muito em mim mesmo para crer que sou o fim absoluto e o fim de tudo (escrevo mais sobre isso abaixo). Não invejo aqueles que tomam as suas deidades literalmente, mesmo que eu não o faça. Em minha opinião, me adiro ao Desconhecido. Às vezes os chamo de “Deuses Escuros”, aqueles que restaram da devastação que é a modernidade, talvez agora sem rosto, sem voz, mas uma presença, no entanto. Não tenho ideia de como adorá-los, ou se eles deveriam ser adorados. Eles não “falam” comigo, mas sei que estão ali, esperando, quebrando os moldes da ilusão civilizada.

Meus deuses estão mortos. A única coisa que falta é matar os seus. Mesmo que esses deuses sejam abstrações como “Humanidade”, “Liberdade”, ou qualquer outra coisa.

Autoridade

Claro, voltamos ao assunto da dominação e da autoridade. Ele/os autor/autores anarquista(s) enfatizam os argumentos cansativos do caráter anti-natural da autoridade, e assim por diante. (“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros…”. Muito obrigado, Rousseau.) Agora vou citar um par de passagens que nos ajudarão a abordar este tema (de novo):

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.” (De “Já Haviam Se Atrasado: Reação Selvagem em Resposta a “Destrua as Prisões“)

– E também:

“Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.” (De “Selvagens Politicamente Incorretos“)

Em um “gol contra” um pouco humilhante, mas talvez involuntário, os autores anarquistas citam os Ona da Terra do Fogo sem se dar conta de que eles, sendo simples caçadores-coletores, tinham uma sociedade baseada no patriarcado:

“A posse patrilocal e patrilinear dos territórios concedeu aos homens o direito exclusivo sobre a terra, que era importante não tanto para os terrenos de caça do guanaco ou outra fauna e os recursos naturais. Mesmo quando um homem passou a residir na linhagem de sua mãe, seu pai e seus tios continuaram sendo as figuras dominantes. O fato de que a fabricação de bens, ferramentas e artigos domésticos possa ser ensinado a todas as crianças e adultos jovens, permitiu aos produtores dominar a economia e manter um nível igualitário de apropriação e produção, frustrando assim qualquer possibilidade de subordinação, exceto a sexual. Esta “exceção” equivale a uma ruptura na sociedade que torna impossível caracterizá-la como igualitária. Poderia ser chamada de “igualitária patriarcal”, mas este rótulo parece ser contraditório ou enganoso.” –Anne MacKaye Chapman, “Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam (“Selk’nam” é outro nome para os Ona)

O mesmo caso ocorre em uma antiga cultura “simples” como a dos povos aborígenes australianos. Embora exista uma grande controvérsia sobre se os europeus exageraram na misoginia dos povos colonizados “não contatados”, há evidências menos anedóticas de que a “dominação” e a autoridade eram uma realidade entre os caçadores coletores “materialmente simples”:

“O paleopatologista Stephen Webb publicou em 1995 sua análise de 4.500 ossos de indivíduos do continente australiano que remontam 50 mil anos. (As inestimáveis coleções de ossos da época foram entregues oficialmente às comunidades aborígenes para que promovessem um novo enterro, o que deteve os estudos de rastreamento). Webb descobriu taxas de lesões e fraturas muito desproporcionais nos crânios das mulheres, sugerindo ataques deliberados e muitas vezes ataques por trás, talvez em disputas internas. Nos trópicos, por exemplo, a frequência de mulheres com traumatismo cranioencefálico foi de aproximadamente 20-33%, frente a 6,5-26% para os homens.

Os resultados mais extremos foram na costa sul, de Swanport a Adelaide, com taxas de traumatismo cranioencefálico feminino de até 40-44%, sendo duas a quatro vezes a taxa de traumatismo masculino. Nas áreas desérticas e da costa sul, 5-6% dos crânios femininos tinham três lesões cranianas separadas, e 11-12% tinham duas lesões.” (de “A Longa História da Violência Aborígene – Parte II, recuperado do site The Quadrant“)

Claro, poderíamos citar todos os tipos de exemplos brutais de abusos misóginos, bem como o desenvolvimento de hierarquias entre os caçadores-coletores como no norte da Califórnia e nos construtores de montículos da Poverty Point no que é agora Luisiana…. Não importa. O ponto é indicar que não somos afetados pela torpe tentativa de nos explodir com o nosso próprio petardo. O eco-extremismo não desafia a “dominação” ou autoridade do passado, nem finge que pode aboli-las para sempre. É uma ideia muito tola de se apegar em qualquer caso.

Digamos o que é óbvio: os eco-extremistas e os niilistas misantropos não mostram adesão a qualquer autoridade humana tal como existe atualmente, e sei também que nem poderiam fazê-lo em um futuro previsível. A própria natureza do que significa ser um individualista eco-extremista/niilista exclui ipso facto qualquer tentativa de criar uma autoridade transpessoal no presente como é comumente entendido. Talvez ITS tenha uma hierarquia militar que se estenda para além das fronteiras e continentes, mas eu duvido muito. Tenho entendido que se trata de um grupo de individualistas comprometidos em uma guerra assimétrica. Qualquer conversa sobre “autoridade” no sentido comum do termo é meramente hipotética.

Quando os eco-extremistas falam de autoridade, eles o fazem de maneira puramente instrumental. A autoridade em seu uso (para além dos aspectos “espirituais” discutidos anteriormente) tem mais semelhança com a estrutura de uma gangue ou máfia e menos a ver com um governo ou um partido político. Não há outra maneira de apoiar outro tratamento do assunto até onde eu possa ver. Se na execução de um crime alguém está “no comando”, a vida dos delinquentes poderá depender de que todos façam o que diz esta pessoa. Se uma determinada pessoa alcança um conhecimento espiritual superior ou o conhecimento de ervas medicinais, essa é a única autoridade que o eco-extremismo parece estar falando. Ao contrário do/dos anarquista/anarquistas autor/autores, eles não tem a ilusão de “construir novas formas de relacionamento entre todos os seres que habitam este mundo e estes com a Terra”.

Você pode pensar que, porque algumas pessoas falam que estão livres da “dominação”, o sangue delas não é vermelho como o dos demais. É bastante lamentável que um animal fique doente e talvez viva quatro anos e meio para falar sobre estar livre de “toda a dominação”. Alguém poderia falar também sobre estar livre da gravidade ou da segunda lei da termodinâmica. Estamos limitados por todos os lugares em nosso contexto, desde quando atravessamos a rua até o que podemos comer no café da manhã. Os eco-extremistas têm o objetivo muito simples e compreensível de se vingar e ver as coisas arderem e serem destruídas. A “destruição de toda autoridade” nem sequer parece significar algo em concreto, e muito menos possível.

“Somos soldados, não se pode escapar deste fato. Soldados no sentido tradicional e soldados em um sentido diferente. Somos guerreiros espirituais, temos uma causa ímpia para colocar um fim na humanidade. Não estamos lutando para preservar nações ou governos. Estamos lutando para retornar a nossos deuses, para nos tornarmos eles. Somos soldados em um sentido tradicional porque esse tipo de resultado não acontecerá sem combate. Tomar a ofensiva é a única coisa nobre que pode ser feita. Goebbels declarou ao povo alemão quando estavam sendo invadidos, “o ódio é nossa oração, a vingança é nosso grito de batalha”. O fedor de uma espécie inferior já não pode ser tolerada. A única solução para uma sociedade doente é a aniquilação.” –Tempel ov Blood, Liber 333

Misantropia

Direi que, pelo menos para mim, a misantropia não é um ato de aprovação do juízo moral. A não ser que alguém seja um completo e desmedido otimista, é evidente que existe um problema. O eco-extremismo em alguns lugares argumentou que o problema é físico, não moral. Como formulado no já extinto blog Wandering Cannibals:

“Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista. Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são humanos demais…”

Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria? Aqueles que se opõem à misantropia parecem pensar que o problema é qualitativo quando, na verdade, é quantitativo. Não é uma questão de inocência ou culpa, é apenas que existem muitos malditos, amorosos e éticos humanos que pensam que suas vidas e seu bem-estar são invioláveis. Que tocar em um fio de cabelo de suas cabeças é um sacrilégio ou, o horror dos horrores!.… autoridade.

Mas, na verdade, não adianta nada discutir o assunto. Isso se torna um exercício tragicômico uma vez que os anarquistas “niilistas” começam a acusar os eco-extremistas de moralismo por realizar as ações mais imorais imagináveis. Dizem algo como: se eles fossem realmente individualistas e “não dominados”, não atacariam a humanidade em absoluto, ou atacariam apenas aqueles que têm a responsabilidade “direta” pela dominação, seja lá o que isso signifique. Sinceramente, o/os anarquista/anarquistas autor/autores parece/parecem abertamente vago/vagos sobre a condenação do ataque indiscriminado, já que é um ponto que levantam. Falo mais de fanboys egoístas que começam um jogo bobo de quem pode se importar menos, que de alguma maneira é algo como o que se segue:

A: “Eu sou amoral, então ataco a sociedade e os humanos.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com a sociedade nem com os humanos, e você simplesmente estaria fazendo as suas coisas.”

A: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com quem estou atacando.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria se eu me importasse com quem você atacou…”

Etc., etc….. Sério, tem sido assim há dois anos. Sabe quantos executivos o/os autor/autores do texto poderia/poderiam ter aleijado até agora?

Ah, é. Me esqueci que ele/eles não tem a intenção de ser uma ameaça para ninguém, exceto talvez para os eco-extremistas, e nem sequer pode/podem prender um deles. Só pra constar, me lembra a polícia.

Então, para concluir, não me importa se os eco-extremistas citam o Monstro Voador de Espaguete para queimar, matar e mutilar. Para mim, é o mesmo: no fim de tudo, somos estúpidos humanos. Tampouco me importam os objetivos absurdos como “a destruição de toda autoridade”. Isso é muito abstrato para que entenda o meu pequeno cérebro, o que é uma boa maneira de dizer que é uma porcaria. Finalmente, eu não gosto muito dos humanos porque não parecem gostar muito de si mesmos. Eles estão defecando coletivamente sobre o único planeta que têm, e cada dia se tornam mais mecânicos e artificiais. Sobre este último ponto, não sei porque sou obrigado a me sensibilizar ou me preocupar com os seres humanos atacados no presente, já que qualquer pessoa aleatória em Paris, Jakarta ou Kinshasa é tão abstrata como Zeus ou como um membro de uma tribo indígena extinta. Para citar o grande reacionário De Maistre:

“A Constituição de 1795, assim como suas predecessoras, foi feita para o homem. Mas não existe no mundo nada que se possa chamar de homem. Ao longo de minha vida, tenho visto franceses, italianos, russos, etc.; sei também, graças a Montesquieu, que se pode ser persa. Mas, quanto ao homem, afirmo que, em toda minha vida, jamais o encontrei; se ele existe, desconheço-o completamente”

Tenho pouco tempo para aqueles que estão obcecados pelos ideais de uma sociedade que supostamente desejam destruir. Se estas pessoas finalmente começam a atacar o que odeiam, e se realmente atacam, não haverá ninguém mais satisfeito que eu. Mas se continuam emitindo anátemas de dentro do escritório da Mãe Superiora do Convento da Santa Anarquia, estarão confirmando minhas piores suspeitas de suas verdadeiras intenções.

Selvagens Politicamente Incorretos

Texto escrito por Chahta-Ima e extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Steve Sheldon me contou sobre uma mulher que deu à luz sozinha na praia. Algo deu errado. Um parto de nádegas. A mulher estava agonizando e dizia: “Ajuda-me, por favor! O bebê não vem”, gritava. Os Pirarrãs sentaram-se passivamente, alguns parecendo tensos, outros falando normalmente. “Estou morrendo! Isto dói. O bebê não vem.”, ela gritava. Ninguém respondeu. Já era tarde. Steve se dirigiu a ela. “Não, ela não quer a você. Quer a seus pais.”, foi-lhe dito, o que implicava claramente para que ele não se dirigisse a ela. Mas seus pais não estavam perto e ninguém mais iria em sua ajuda. A noite chegou e seus gritos eram notados regularmente, cada vez mais fracos. Finalmente, se detiveram. Pela manhã, Steve soube que ela e o bebê haviam morrido na praia, sem ajuda.

Steve registrou a história deste incidente, que é repetido aqui. O texto relata… [o] trágico incidente de uma ideia da cultura Pirarrã. Em particular, nos é dito que o Pirarrã deixa a uma jovem morrer sozinha e sem ajuda devido a sua crença de que as pessoas devem ser fortes e superar as dificuldades por conta própria. Daniel Everett, “Don’t Sleep, There are Snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle”, pg. 90-91

Um curioso efeito foi observado, o qual deu lugar a muitas queixas por parte da população masculina nativa. Como resultado da associação das mulheres com os homens brancos, desenvolveu-se um movimento feminista espontâneo. Primitivamente, a mulher não era apenas fisicamente, mas também economicamente e espiritualmente subordinada ao homem. A índia realizava a maior parte do duro trabalho manual associado à vida na aldeia, enquanto o seu marido e o pai passavam o tempo descansando. Ela se viu obrigada a obedecer a todas as ordens e caprichos de seu amo e senhor. Caso contrário, não evitaria o inevitável castigo. Com a chegada de milhares de homens brancos, não casados e à caça de fêmeas, a situação foi alterada. As mulheres poderiam fazer frente aos índios homens com a escolha de um melhor tratamento ou deixar o seu conjugue e trocá-lo por um pretendente branco. Por outro lado, a índia, sem dúvida, foi profundamente influenciada pela invejável posição que ocupou o seu sexo nas comunidades brancas recém-criadas. Embora nenhum sociólogo contemporâneo tenha dado suficiente atenção a isso, temos indícios de uma formidável revolta feminista. Um agente da Fresno Indian Farm, reportou:

“Embora os homens sejam, ou uma vez foram, donos absolutos das mulheres, muitas delas neste momento… encontraram refúgio entre os brancos e, portanto, são independentes dos homens.”

Uma declaração também apareceu próxima ao mesmo período no sentido de que, “os homens brancos tomaram as mulheres dos índios, desde suas casas de campo e ensinaram-nas a desprezar as criaturas preguiçosas, e utilizaram isso para fazê-las escravas.” Se este clima era característico de grande parte da opinião feminina, é fácil ver como, mesmo sem grande agitação social envolvida, a mudança poderia agir como um agente irritante e, assim, servir como um fator na interrupção da vida familiar aborígene. – “The American Invasion, 1848-1870” pgs. 81-82 em “Cook, Sherburne F. The Conflict Between the California Indian and White Civilization”. Berkeley: University of California Press, 1976.

Os Jarawas são cerca de 400, e um geneticista os descreve como “possivelmente as pessoas mais enigmáticas do nosso planeta”, e que se acredita que tenham migrado da África há cerca de 50 mil anos. São muito escuros, de baixa estatura e até 1998 viveram em completo isolamento cultural, atiraram com flechas de ponta de aço quando estrangeiros chegaram perto demais… Não é nenhum segredo que, no passado, a tribo tenha realizado assassinatos ritualísticos de crianças nascidas de viúvas ou -muito mais raro- engendrados por aborígenes. O Dr. Ratan Chandra Kar, um médico do governo que escreveu um livro de memórias sobre seu trabalho com os Jarawas, descreveu uma tradição em que os bebês recém-nascidos foram amamentados por cada uma das mulheres no período de lactação no grupo antes de serem estrangulados por um dos anciões da tribo, a fim de manter “a chamada pureza e santidade da sociedade.”. “Baby’s Killing Tests India’s Protection of an Aboriginal Culture,” New York Times, 13 de Março, 2016.

Certa noite Debe caminhava à direita do acampamento de Gau, e sem dizer uma só palavra disparou três flechas contra Gau, uma no ombro esquerdo, uma na testa, e a terceira no peito. O povo de Gau não fez nenhum movimento para protegê-lo. Depois que as três flechas foram disparadas, Gau seguia sentado diante de seu atacante. Debe levantou sua lança como se fosse apunhalá-lo, mas Gau disse, “Você já me flechou três vezes. Não é o suficiente para me matar e agora também quer me cravar uma lança?” Quando Gau tentou se esquivar da lança o povo de Gau apareceu para desarmar a Debe de sua lança. Após ser gravemente ferido, Gau morreu rapidamente. Richard Lee, The Dobe !Kung, citado em “Ultrasociety: How 10,000 Years of War Made Humans the Greatest Cooperators on Earth”, pg. 104

Para mim, todas estas citações anteriores me lembram a uma citação aparentemente insignificante que apareceu quase no final da polêmica Ya Se Habían Tardado: Reacción Salvaje En Respuesta a Destruye las Prisiones, que diz o seguinte:

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.”

Não posso falar por todo o eco-extremismo, apenas por mim, e vou aceitar outros pontos de vista da tendência se uma correção for necessária, mas a partir disso, posso afirmar que o anarquismo, o primitivismo, o esquerdismo, etc., estão mal orientados e são moralistas precisamente porque tentam se organizar-julgar-melhorar a sociedade, enquanto que os animais humanos possivelmente não podem fazer isso, não com nenhuma competência, pelo menos. Muitas dessas sociedades tem práticas bárbaras, violentas e “sombrias”, mas elas existem há centenas de anos, isso senão por milhares. Então, porque é que, em nosso tempo de vida em uma sociedade excepcionalmente jovem (se é que é vivaz), nos damos o direito de determinar como uma sociedade humana deve ser em TODAS as circunstâncias? Eu diria que não o faria. As sociedades que se desenvolveram dentro de seus ambientes desde tempos imemoriais demonstraram que podem manter suas formas de vida por milênios. Nossa própria sociedade (isto é, a que estamos presos, embora não voluntariamente) não pode dizer o mesmo, mas muito pelo contrário.

Pessoalmente, este ponto de vista é porque não posso tomar nem o anarquismo, o marxismo, o esquerdismo, o liberalismo, etc., seriamente como um meio de interpretar a realidade. Estas ideologias são obcecadas por coisas ocidentais, tais como a organização social, a igualdade entre os indivíduos, a divisão do trabalho, etc. Em nossa realidade animal, que é como escolher algo para comer baseado apenas em sua cor em vez de seu sabor e seu valor nutricional, a relação principal não é a dos seres humanos entre si, mas a dos seres humanos com a natureza, ou melhor, com seu ambiente natural, e com as outras entidades, conscientes ou não, que compartilham conosco. Todas estas ideologias errôneas e civilizadas, até mesmo os autoproclamados “primitivistas” são humanistas e antropocêntricos, enquanto que nós só queremos a relação com a Natureza Selvagem e as culturas que se formaram ao longo de milênios, como as gotas de água que podem polir uma pedra, de forma inconsciente, organicamente e não planejada.

Os seres humanos, sem dúvida, tem um papel a desempenhar nisso, e suas ações fazem dar forma a paisagem e a eles mesmos, assim como as ações dos castores, formigas, aves, etc., formam um bosque ou um rio. Mas isso está completamente determinado pela encarnação da Natureza Selvagem que eles encontram, é realizado por séculos, e de nenhuma maneira é “planificada” ou “controlada” pelo intelecto humano determinado. Isso simplesmente acontece. Apresentar-se a um “selvagem” com a ideia de que a queima seletiva de ervas daninhas ou de atividades semelhantes o torna mestre do ambiente, provavelmente estaria confundido pela afirmação.

Aqui, então, afirmo que os seres humanos no passado estavam sempre em equilíbrio entre seu próprio poder e sua mente, e o da própria Natureza Selvagem. A questão não é dizer que alguns viviam em completa harmonia com a natureza, sem hierarquia ou sem guerra ou qualquer coisa que ofenda a sensibilidade ocidental burguesa. O ponto é que o equilíbrio de poder entre o humano e a natureza selvagem se manteve. Em alguns casos, isso implicaria o patriarcado, em alguns lugares que não seria o caso (foram os Selk’nam da Terra do Fogo “mais domesticados” que outros caçadores-coletores porque eles eram regidos por um patriarcado? Considerando sua cultura, outro estado seria absurdo.) Foram os Choctaw, no que é agora o sudeste dos Estados Unidos, tão civilizados como os Astecas ou Maias simplesmente porque também cultivaram milho? Eram os Yuroks do norte da Califórnia, de alguma forma ruins, porque tinham uma hierarquia social rígida, mas sem agricultura? “Domesticação” e “civilização”, estas podem não ser categorias tão claras como algumas ideologias anti-civilização afirmam que são. Isso porque nosso conhecimento é animal e, portanto, defeituoso.

Aqui temos que olhar as coisas que não estão em preto e branco, mas em um espectro, e nesse espectro, nós não estamos julgando as sociedades humanas por sua forma “agradável” e o quão bem tratavam as mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Nós não nos preocupamos com estas coisas, e aqueles que são obcecados por isso são extremamente estúpidos e deixam que seus próprios preconceitos civilizados mostrem o melhor deles.

Preferimos confiar nas sociedades que viveram há milhares de anos em seus respectivos ambientes e em seus “valores”, que nos valores humanistas dos ocidentais que ocultam a violência da sociedade tecno-industrial moderna, por trás de platitudes como moralismo e decência. O mais importante sobre a domesticação e a civilização, então, é que surgem, mas surgem nos lugares mais frágeis. Ou seja, que nunca foram capazes de dominar completamente, nunca exaltaram as sociedades humanas individuais no domínio completo sobre a natureza, e quando o fazem, inevitavelmente, o colapso ocorre. O que temos agora é uma monstruosidade completa, um Leviatã que não pode entrar em colapso e que não há possibilidades de livrar a maioria dos seres vivos dele, pois busca a completa dominação. Ante este ser antinatural a única atitude que nós podemos ter é a de hostilidade total e absoluta.

Isso pode parecer completamente reflexões escolares, e talvez não. Pelo menos escrevo para apoiar a afirmação eco-extremista de que os valores ocidentais liberais não importam em nada, e, portanto, quando as pessoas tentam esfregá-los em nossa cara, deveríamos energeticamente rechaçá-los e insultar os que seguem comprando estes contos de fadas. Além disso, isso indica que o pessimismo eco-extremista está mais do que garantido: se tudo o que temos a nosso favor em termos de “esperança” são as observações incompletas dos “antropólogos” e nossas próprias faculdades intelectuais defeituosas, está claro que estamos completamente fodidos.

Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.

A relação primária no eco-extremismo é entre o animal humano e a Natureza Selvagem, que é concretizada em seu ambiente imediato, e não com uma abstração conhecida como humanidade. Portanto, é uma tendência anti-humanista e não humanista. Como todos os ursos não simpatizam com ursos menores, mas os dois dependem de todas as plantas, animais, as águas e as rochas circundantes para sobreviver, então todos os seres humanos não deveriam ter solidariedade com toda a humanidade, apenas com aqueles de outras disposições similares e com os seres que passaram a amar em seu entorno. Isso deveria ser óbvio, e muitos selvagens têm esta atitude.

Além disso, nos damos conta de que a civilização é uma “doença transitória”, que surge ocasionalmente e logo se vai, deixando cicatrizes algumas vezes, mas nunca terminal, como o todo nunca pode ser destruído por uma parte. Somos deficientes neste sentido, que nós não conhecemos nossos lugares, ou que eles foram roubados, indica a tragédia do nosso estado e nossa raiva na guerra indiscriminada contra o que pode nos destruir e escraviza o Selvagem. Mesmo se a única Natureza Selvagem que nos resta somos nós mesmos, ou talvez seja apenas a dor e a raiva de ter sido privado dela, isso é o suficiente para levar a cabo esta guerra contra a humanidade domesticada.

-Chahta-Ima

Nanih Waiya

Primavera de 2016

[PT – PDF] Ishi e a Guerra Contra a Civilização

Ishi e a Guerra Contra a Civilização é a versão em português de uma investigação antropológica desenvolvida por Chahta-Ima.

Ishi, o indígena foco principal da abordagem é “tido” como “o último nativo americano sobrevivente do extermínio branco”, sendo muitas vezes apresentado com o mito do “bom selvagem”, mas a história de sua tribo é atormentada de violência indiscriminada defensiva, e nos conta que muito difere das conhecidas narrativas contadas por pessoas que desconhecem o histórico desta tribo.

Os eco-extremistas vêem em Ishi e outros selvagens semelhanças no que chamam de “guerra contra a civilização”.

O material compartilhado foi extraído da web.

DESCARREGUE em PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

Ishi e a Guerra Contra a Civilização

A aparição do eco-extremismo e as táticas que utiliza, tem causado muitas controvérsias nos círculos radicais à nível internacional. As críticas de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) e outros grupos alinhados, tem recebido uma ampla gama de acusações de loucura ultra-radical. Um aspecto destacado desta polêmica gira em torno da ideia do ataque indiscriminado. A amarga retórica por parte dos eco-extremistas pode exacerbar a hostilidade para com estas táticas entre os incrédulos. Como muitos se referem, no entanto, parecia que ITS e outros grupos eco-extremistas estão envolvidos em detonações de explosivos em centros pré-escolares e lares de idosos, ou seja, objetivos aleatórios ao invés de objetivos de importância específica para o sistema tecno-industrial (laboratórios, ministérios governamentais, etc.). Deve-se admitir que muitos dos envolvidos em polêmicas contra o eco-extremismo tem a priori uma inclinação negativa contra qualquer argumento, não importando o quão bem esteja elaborado, afinal, como eles mesmos admitem, a manutenção da civilização e a domesticação é de seu próprio interesse. Não é o ponto discutir com eles. Por outro lado, o eco-extremismo ainda tem muito o que dizer, então aqueles que tem ouvidos para ouvir, que ouçam.

O mais amistoso seria perguntar por que ITS e seus aliados devem “retirar-se” da ideia do ataque indiscriminado. Por que fazer dano às pessoas que estão tratando de ajudar? Em outras palavras, a civilização e a destruição que se desata sobre o mundo são culpa de um pequeno setor da sociedade moderna, e há que se concentrar em convencer a grande maioria que não tem a culpa, com a finalidade de ter o equilíbrio das forças necessárias para superar os males que atualmente nos afligem. Fora isso, é apenas a má forma. É compreensível que “coisas ruins” ocorram até mesmo em ações bem planificadas. O mínimo que podem fazer aqueles que se submetem a elas é que peçam desculpas. Isso é apenas boas maneiras. Alguns anarquistas chilenos fizeram algo recentemente, explodiram bombas de ruído às quatro da manhã, quando ninguém estava por perto com a intenção e expressar sua “solidariedade” com quem solicitou o anarquismo internacional para orar por… quero dizer, expressar sua solidariedade nesta semana. Mas se você tem que fazer algo, o mínimo que pode fazer é minimizar os danos e expressar seu pesar se algo der errado (mas acima de tudo, então você deve fazer nada…).

Claro, o eco-extremismo rechaça esta objeções infantis e hipócritas. Estas pessoas estão expressando sua superioridade moral enquanto brincavam com fogos de artifício no meio da noite e logo se dedicam a outras coisas pelo mundo, sem nenhuma razão aparente? Querem um biscoito ou uma estrelinha por serem bons meninos? O eco-extremismo admitirá facilmente que esse anarquismo devoto é piedoso e santo. Os eco-extremistas não querem ajuda destes anarquistas piedosos. Se os anarquistas que se inclinam para a esquerda buscam ganhar popularidade no manicômio da civilização, é claro, o eco-extremismo se rende.… Parabéns de antecedência.

Houve críticas contra os eco-extremistas dizendo que não é assim que se trava uma guerra contra a civilização. Ok, vamos em frente e dar uma olhada mais de perto a uma guerra real contra a civilização. Os editores da Revista Regresión já escreveram uma extensa série de artigos sobre a Rebelião do Mixtón e a Guerra Chichimeca, que se estendeu por grande parte do território do México durante o século XVI, aqui recomendamos encarecidamente seu trabalho. Neste ensaio, vamos aumentar seus argumentos recorrendo a um exemplo muito amado de um “tenro” e trágico índio, Ishi, o último da tribo Yahi no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Neste exercício não pretendemos saber de tudo dos membros de uma tribo da Idade da Pedra que foram caçados até sua extinção pelos brancos. Na medida em que qualquer analogia histórica é falha, ipso facto, aqui vamos pelo menos tentar tirar lições de como o Yahi lutou, suas atitudes em relação à civilização sendo o último homem, e como a forma de sua cultura problematiza os valores anarquistas e os de esquerda advindos do iluminismo. Este ensaio pretende mostrar que a guerra do Yahi contra a civilização também foi indiscriminada, carente de valores ocidentais como a solidariedade e o humanismo, e foi um duelo de morte contra a vida europeia domesticada. Em outras palavras, é um modelo de como muitos eco-extremistas veem sua própria guerra travada a partir de sua individualidade. Ishi, longe de ser o modelo do “bom selvagem”, foi o último homem de pé em uma guerra travada contra os brancos, com a maior quantidade de brutalidade e “criminalidade” que o agora extinto Yahi pode suportar.

O Yahi

Em 29 de agosto de 1911, um homem de cor marrom, nu e com fome, com cerca de cinquenta anos de idade foi encontrado do lado de fora de um matadouro perto de Oroville, Califórnia. O homem foi rapidamente detido e encarcerado na prisão da cidade. No início, ninguém podia se comunicar com ele em qualquer idioma conhecido. Logo, os antropólogos chegaram de San Franciso e descobriram que o homem era Yahi, um bando situado mais ao sul da tribo Yana, conhecido localmente como “índios escavadores” ou “índios Mill Creek/Deer Creek”. Durante muito tempo se suspeitava que um pequeno grupo de “índios selvagens” ainda viviam na região montanhosa do norte inóspito da Califórnia. Os antropólogos fizeram os arranjos para que o último “índio selvagem” vivesse com eles em seu museu, e que os ensinasse sobre sua cultura em San Francisco. Depois de haver encontrado um (imperfeito) tradutor Yana, não puderam obter outro nome do índio que não fosse apenas “Ishi”, a palavra Yana para “homem”. Esse é o nome pela qual ficou conhecido no momento de sua captura até sua morte, quatro anos e meio mais tarde.

Os Yahi eram um ramo meridional de uma tribo maior chamada Yana, encontrada no norte da Califórnia, ao norte da cidade de Chico e do rio Sacramento. Antes da chegada dos europeus, havia talvez não mais de 3.000 Yana em suas terras tradicionais fazendo fronteira com os Maidu ao Sul, os Wintu ao Oeste, e a tribo Shastan ao Norte. Falavam a língua Hokan, as raízes das quais compartilharam com tribos em toda a América do Norte. Como tribo, os Yana, em particular, eram muito menores que seus vizinhos, mas ainda sim havia uma reputação de brutalidade contra eles. Também se especula que o Yana pode primeiro ter vivido nas terras baixas mais produtivas antes de ser levado para a região montanhosa menos produtiva por seus vizinhos muito maiores e mais ricos ao Sul, particularmente. Como Theodora Kroeber comenta em seu livro, “Ishi in Two Worlds”:

“Os Yana foram menores em número e mais pobres em confortos materiais se comparados aos seus vizinhos do vale, a quem eles consideravam combatentes suaves, relaxados e indiferentes. Assim como as tribos de montanhas em outras partes do mundo, os Yana, também, eram orgulhosos, valentes, engenhosos e rápidos, e foram temidos por povos maidu e wintu que viviam nas terras baixas.” (25)

M. Steven Shackley, em seu ensaio, “The Stone Tool Technology of Ishi and the Yana”, escreve sobre a relação dos Yahi com seus vizinhos imediatos:

“Pelo motivo de ter de viver em um ambiente tão marginal, os Yahi nunca tiveram boas relações com os grupos dos arredores em qualquer período de tempo. Evidência arqueológica regional sugere que, os falantes de línguas hokanas, provavelmente os que poderiam ser chamados de proto-Yana, viviam em um território muito maior que incluía a parte superior do vale do Rio Sacramento, assim como as colinas da Cascata do Sul até a “Intrusão Penutia” em algum momento há mais de 1000 anos. Estes grupos que falavam idiomas Penutian foram os antepassados dos Maidu e Wintu/Nomlaki, que viviam no vale do rio no momento do contato espanhol e Anglo. A violência considerável sugere neste momento, no registro arqueológico e do proto-Yana, evidentemente, que não se moveram a um habitat menor ou mais marginal de bom grado. A violência nas mãos de estrangeiros não era nova, com a chegada dos anglo-saxões a partir de 1850, os Yahi tinham mantido relações de inimizade em um longo período de tempo com grupos que falavam idiomas Penutian, que haviam tomado à força a terra inferior e seus arredores por algum tempo.” (Kroeber y Kroeber, 190)

Em geral, no entanto, os Yana viveram como a maioria das tribos, se agarraram ao ciclo das estações e tinham pouca estratificação social. A única diferença importante entre os Yana é que tinham dualidade sexual na linguagem, ou seja, uma forma diferente na língua Yana era utilizada por cada sexo. Como explica Theodora Kroeber:

“Os bebês de ambos sexos estavam sob cuidado da mãe, com uma irmã mais velha ou a avó ajudando. Sua primeira fala, foi a do dialeto da mulher, sempre se fala das mulheres e dos homens, e os meninos na presença de meninas e mulheres. Quando o menino crescia e era independente da atenção da mãe, era levado por seu pai ou irmão mais velho a onde quer que fossem, durante maiores períodos de tempo a cada dia. Na idade de nove ou dez anos, muito antes da puberdade, passava a maior parte de suas horas na companhia masculina e dormia em vigília na casa dos homens. Portanto, o menino aprendeu seu segundo idioma, o dialeto dos homens.” (29-30)

Kroeber explica que a fala feminina era muitas vezes um discurso “cortado” com as palavras masculinas que tem mais sílabas. Embora as mulheres usassem apenas um dialeto da língua, conheciam a variante masculina também. Theodora Kroeber especula que na língua Yana, longe de ser uma curiosidade linguística, a divisão estrita das palavras pode ter feito dos Yahi mais intransigentes à interferência do mundo exterior. Ela escreve:

“É um aspecto psicológico desta peculiaridade no idioma, que não está sujeito à prova, mas que não deve ser descartado. O Yahi sobrevivente parece que nunca perdeu sua moral em sua longa e desesperada luta pela sobrevivência. Poderia a linguagem haver desempenhado um papel nesta tensão contínua da força moral? Ela havia sido dotada a suas conversações com o hábito da cortesia, formalidade, e o uso carregado de um forte sentido na importância de falar e de se comportar desta ou daquela maneira e não de outra, de modo que não permitia o desleixo seja ele de palavra ou de comportamento.” (Ibid, 31)

Theodora Kroeber examina este aspecto da vida Yana mais tarde em seu livro, quando descreve a relação de Ishi com seu primeiro intérprete mestiço Yana, Sam Batwi:

“Ishi era um conservador cujos antepassados haviam sido homens e mulheres de retidão; cujo pai e avô e tios haviam levado com dignidade a restrição das responsabilidades de serem os principais de seu povo. As maneiras de Ishi eram boas; as de Batwi cheiravam a crueza da cidade fronteiriça, que era o que melhor conhecia e que, por costume da época, sabia de seus cidadãos menos esclarecidos… É muito possível que no primeiro encontro, Ishi e Batwi reconheceram que eram de diferentes estratos da sociedade Yana, Batwi era o menos considerado…” (153)

A maior parte da cultura Yahi era muito similar às culturas indígenas da Califórnia em geral. Os esforços dos homens centravam-se na caça e a pesca nos rios, em especial com o salmão como alimento disponível. Os esforços das mulheres eram centrados na coleta, armazenamento e preparação de bolotas e outras plantas como parte de sua dieta básica. O antropólogo Orin Starn, em seu livro “Ishi’s Brain: In Search of America’s Last “Wild” Indian”, afirma o seguinte em relação ao conservadorismo dos Yahi, em particular, (71):

“No entanto, os Yahi eram também uma comunidade encarnada a seus costumes. É possível que tenham casado com tribos vizinhas (ocasionalmente sequestravam mulheres em meados do século XIX), mas os estrangeiros eram absorvidos pelo caminho Yahi. Em outras partes da América nativa, antes de Colombo, houve instabilidade na mudança – doenças, guerra, migração, invenção cultural, e adaptação. No sudeste, por exemplo, os lendários Anasazi de repente desapareceram no século XII, por razões ainda não discutidas. Ao longo do tempo, no entanto, o Yahi mostrou mais continuidade e instabilidade que outros grupos. Relativamente poucas modificações ocorreram em suas pontas de lança, nos primeiros acampamentos, no fato de amassar bolotas, ou outras rotinas da existência yahi. Ao que parece, os antepassados de Ishi seguiram mais ou menos o mesmo modo de vida durante muitos séculos.”

Como eram muito do norte, a neve e a falta de alimentos foram fatores que surgiam frequentemente nos tempos de escassez no inverno. No entanto, os Yana sabiam como prosperar na terra que lhes foi dada, como Kroeber resume em seu retrato da vida Yana e sua relação com as estações do ano:

“O inverno era também o tempo de voltar a recontar a velha história da criação do mundo e como foram feitos os animais e os homens, o tempo para escutar outra vez as aventuras do Coiote e da Raposa e da Marta do Pinho, e a história do Urso e dos Cervos. Assim, sentado ou deitado perto do fogo na casa coberta de terra, e envolvido em mantos de pele de coelho, com a chuva que cai lá fora ou com o espetáculo da lua brilhante que caía com sua luz para baixo em Waganupa ou distante em Deer Creek, o ciclo Yana das mudanças de estações estava completado ao dar outra volta. A medida que as cestas de alimentos estavam vazias, uma por uma, o jogo se manteve oculto e escasso, os sonhos dos Yana se dirigiram a um tempo, não muito distante, quando a terra foi coberta novamente com o novo trevo. Sentiram o impulso de serem levantados e despertaram em um mundo, às vezes muito distante, em um grande oceano que nunca haviam visto, o salmão brilhante foi nadando em direção à boca do Rio Sacramento, seu próprio fluxo de origem dos Yana.” (39)

Starn também cita um canto entonado por Ishi aos antropólogos que resume o fatalismo Yahi (42):

Serpente de chocalho morde.
Urso cinzento morde.
E vão a matar as pessoas.
Deixe que assim seja.
O homem sairá ferido ao cair da rocha.
O homem cairá quando estiver colhendo pinhões.
Ele nadará na água, à deriva, morre.
Eles caem por um penhasco.
Serão atingidos por pontas de flecha.
Eles irão se perder.
Terão que remover as lascas de madeira de seu olho.
Serão envenenados pelos homens maus.
Vão ser cegos.

Os Yahi em Guerra

Como era de se esperar, a invasão dos europeus poderia ter até mudado algumas tribos pacíficas a hostis e selvagens. Como Sherburne F. Cook declarou em seu livro, “The Conflict Between the California Indian and White Civilization”:

“O efeito geral destes eventos provoca uma mudança em todo o horizonte social dos indígenas, particularmente nos Yokuts, Miwok, e Wappo. As forças disruptivas, previamente discutidas com a referência a sua influência na diminuição da população, tiveram também o efeito de gerar um tipo totalmente novo de sociedade. Para colocá-lo em essência: um grupo sedentário, tranquilo e muito localizado, se converteu em um grupo belicoso e seminômade. Obviamente, este processo não foi completado em 1848, nem afetava a todas as partes componentes das massas de nativos igualmente. Mas seus inícios haviam se tornado muito aparentes.” (228)

No entanto, nem todos os índios reagiram ferozmente à invasão do Anglo branco. Os Maidu, vizinhos do vale dos Yahi mais para o sul, parecia que não haviam posto muita resistência ao ataque dos brancos próximos a suas terras, como o escritor maidu, Marie Potts, indicou:

“A medida em que chegaram mais homens brancos, drenaram a terra. Os ranchos se desenvolveram tão rápido que, depois de havermos tido um país de montanhas e prados para nós mesmos, nos convertemos em obreiros ou desabrigados. Sendo pessoas pacíficas e inteligentes, nos adaptamos como melhor pudemos. Sessenta anos mais tarde, quando demos conta de nossa situação e apresentamos nosso caso ao United States Land Commission, nosso pedido se resolveu por setenta e cinco centavos o acre.

Não ouve levantamentos na zona maidu. Os colonos brancos que chegaram a nossa zona estavam contentes de ter mão de obra indígena, e os registros mostram, por vezes, um negócio justo”. (Potts, 10)

Como observado anteriormente, os Yahi eram hostis, até mesmo com tribos indígenas próximas a eles, e de maneira brutal. Ms. Potts se refere às relações dos Yahi com os maidu:

“Os Mill Creeks (Yahi) eram o que para nós “significa” gente perigosa. Haviam matado muitos de nós, até mesmo pequenos bebês. Eles vigiaram, e quando nossos homens estavam ausentes na caça ou em alguma atividade, atacaram as mulheres, as crianças e os mais velhos. Quando o homem voltou da caça encontrou sua esposa morta e seu bebê caído no solo, comido pelas formigas.

Depois os Mill Creeks haviam matado a numerosos brancos, se inteiraram de que os brancos estavam reunindo voluntários para invadi-los e puni-los. Com isso, estabeleceram um sistema de alarme para serem alertados, vivendo na mira de canhões, em uma zona improdutiva”. (Ibid, 41)

Quando os colonos brancos chegaram a encontrar ouro na Califórnia na década de 1840 e início da década de 1850, trouxeram com eles o modus operandi de “o único índio bom, é o índio morto”. Não havia amor entre eles e os Yahi, então os Yahi foram persuadidos a aprimorar suas formas rígidas e intransigentes em uma guerra de guerrilhas de terror contra os brancos. Stephen Powers que escreveu sobre em 1884, descreve o Yahi na seguinte passagem:

“Se os Nozi são um povo peculiar, eles [os Yahi] são extraordinários; se o Nozi parece estrangeiro da Califórnia, estes são duplamente estrangeiros. Parece provável que esteja presenciando agora um espetáculo sem paralelo na história humana – o de uma raça bárbara em resistência à civilização com armas em suas mãos, até o último homem e a última mulher, e o último pappoose… [Eles] infligiram crueldade e torturas terríveis em seus cativos, como as raças Algonkin. Seja como for, as abominações das raças indígenas podem ter perpetrado a morte, a tortura em vida era essencialmente estranha na Califórnia.” (Heizer y Kroeber, 74)

O antropólogo californiano Alfred Kroeber, especula sobre as tendências bélicas dos Yahi:

“Sua reputação bélica pode ser, em parte, devida a resistência oferecida contra os brancos por um ou dois de seus bandos. Mas se a causa disso era, em realidade, uma energia superior e a coragem ou um desespero incomum ajudado pelo entorno, ainda pouco povoado, e o habitat facilmente defensável, é mais duvidoso. Eram temidos por seus vizinhos, como os maidu, eles preferiram estar famintos na montanha ao invés de se enfrentar. O habitante da colina tem menos a perder lutando que o habitante rico. Também está menos exposto e, em caso de necessidade, tem melhor e mais numerosos refúgios disponíveis. Em toda a Califórnia, os povos das planícies se inclinaram mais para a paz, embora fossem fortes em quantidade numerosa: a diferença é a situação que se reflete na cultura, não em qualidade inata.” (ibid, 161)

Jeremías Curtin, um linguista que estudou as tribos indígenas da Califórnia no final do século XIX, descreve a natureza “renegada” da tribo de Ishi:

“Certos índios viviam, ou melhor, estavam de tocaia, os Miil Creek rondavam em lugares selvagens ao leste da Tehama e ao norte de Chico. Estes índios Mill Creek eram fugitivos; estavam fora da lei de outras tribos, entre outros, dos Yanas. Para ferir a estes últimos, foram a um povoado Yana aproximadamente em meados de agosto de 1864, e mataram a duas mulheres brancas, a senhora Allen e a senhora Jones. Quatro crianças também foram dadas como mortas, mas depois se recuperaram. Depois dos assassinatos perpetrados pelos Mill Creek, eles voltaram a casa inadvertidamente, e com eles, levando vários artigos saqueados.” (Ibid, 72)

Um cronista detalhou outra atrocidade yahi na seguinte passagem:

“A matança das jovens Hickok foi em junho de 1862. Filhos do povo Hickok, duas meninas e um menino foram colher amoras em Rock Creek, cerca de três quartos de uma milha de sua casa, quando foram rodeados por vários índios. Primeiro dispararam contra a menina mais velha, ela tinha dezessete anos, atiraram e deixaram-na completamente nua. Em seguida, dispararam contra a outra jovem, mas ela correu a Rock Creek e caiu de cara na água. Não levaram sua roupa, pois ela ainda tinha seu vestido. Neste momento, Tom Allen entrou em cena. Ele transportava madeira de construção para um homem chamado Keefer. De imediato atacaram a Allen. Foi encontrado com o coro cabeludo arrancado e com a garganta cortada. Dezessete flechas haviam sido disparadas contra ele, e sete o atravessaram.” (Ibid, 60)

Mrs. A. Thankful Carson, esteve cativa pelos Mill Creeks ou índios Yahi, também descreveu outros exemplos de brutalidade Yahi:

“Um menino de uns doze anos de idade morreu da forma mais bárbara: cortaram-lhe os dedos, a língua, e se supõe que pensavam em enterrá-lo com vida, mas quando foram vê-lo já estava morto. Em outra ocasião, um homem chamado Hayes estava cuidando de suas ovelhas. Em algum momento durante o dia, ele foi a sua cabana e se viu rodeado por quinze índios. Eles o viram chegar: ele virou-se e correu, os índios começaram a disparar flechas sobre ele, foi de árvore em árvore. Por último, atiraram com uma arma de fogo que atravessou seu braço. Ele conseguiu escapar da captura por um estreito buraco”. (Ibid, 26)

Outro cronista local, H.H Sauber, descreve o raciocínio de caça dos Yahi ao extermínio:

“Uma vez assassinaram a três crianças em idade escolar a menos de dez milhas de Oroville, e a mais de quarenta milhas de Mill Creek. Pouco depois, mataram a um carreteiro e dois vaqueiros durante a tarde, e foram vistos à distância em carroças carregadas com carne bovina roubada através das colinas, antes que ninguém soubesse que eram eles por trás do ato. Outras vítimas, demasiadamente numerosas para mencioná-las, haviam caído em suas implacáveis mãos. Em suma, eles nunca roubaram sem assassinar, embora o delito pudesse ajudá-los no início, o fato só poderia exacerbar mais os brancos a se voltarem contra eles”. (Ibid, 20)

Alfred Kroeber fez eco sobre esse sentimento em 1911 com um ensaio sobre os Yahi, onde afirmou:

“O Yana do sul, os Mill Creeks, se reuniram com um destino muito mais romântico que seus parentes. Quando o americano veio à cena, tomaram possessão de suas terras para a agricultura ou pecuária, e à base da ponta do rifle propuseram a eles que se retirassem e não interferissem, como ocorreu antes de que houvesse passado dez anos após a primeira corrida do ouro, os Mill Creeks, como muitos de seus irmãos, resistiram. Não se retiraram, no entanto, após o primeiro desastroso conflito aprenderam a esmagadora superioridade das armas de fogo do homem branco e sua organização e humildemente desistiram e aceitaram o inevitável. Em troca, apenas endureceram seu espírito imortal na tenacidade e o amor à independência, e começaram uma série de represálias energéticas. Durante quase dez anos mantiveram uma guerra incessante, destrutiva e principalmente contra si próprios, mas, no entanto, sem precedentes em sua teimosia com os colonos dos municípios de Tehama e Butte. Apenas recuperados de um só golpe, os sobreviventes atacavam em outra direção, e em tais casos não poupavam nem idade nem sexo. As atrocidades cometidas contra as mulheres brancas e contra as crianças despertaram o ressentimento dos colonos em maior grau, e cada um dos excessos dos índios foi mais que correspondido, e, no entanto, embora o bando tivesse diminuído, mantiveram a luta desigual.” (Ibid, 82)

Theodora Kroeber tenta moderar estas contas com as suas próprias reflexões sobre a brutalidade e “criminalidade” dos Yahi:

“Os índios tomavam sua parte, os cavalos, mulas, bois, vacas, ovelhas, quando e onde pudessem, sem esquecer de que estes animais eram alimento e roupa para eles. Fizeram cobertores e capas destas peles, secaram os coros, e fizeram “charqui” ou “jerki” da carne que não era comida fresca. Em outras palavras, trataram os animais introduzidos pelos europeus da mesma forma que faziam com os cervos, ursos, alces, ou coelhos. Eles parecem não ter percebido que os animais foram domesticados, e o cachorro era o único animal que eles sabiam que estava domesticado. Roubaram e mataram para viver, não para acumular rebanhos ou riquezas, os índios realmente não entendiam que o que eles levavam era a propriedade privada de uma pessoa. Muitos anos mais tarde, quando Ishi havia passado da meia idade, se enrubescia de uma dolorosa vergonha cada vez que recordava tudo isso aos padrões morais dos brancos. Ele e seus irmãos Yahi haviam sido culpados de roubo.” (61)

Theodora Kroeber em seu trabalho não parece abordar profundamente o estilo brutal dos Yahi na guerra, sublinhando que o que ocorreu era apenas para enfrentar a invasão massiva dos brancos sobre suas terras.

Ishi

Apesar de ter “a vantagem do campo” e um foco excepcionalmente energético para atacar a seus inimigos, os Yahi foram caçados gradualmente e destruídos até que restassem apenas alguns. Em 1867 e 1868, no massacre da caverna Kingsley foram mortos 33 Yahi homens, mulheres e crianças, sendo este o último grande golpe dos brancos aos últimos Yana selvagens.

Como Theodora Kroeber afirma:

“Ishi era uma criança de três ou quatro anos de idade na época do massacre de Tres Lomas, idade suficiente para recordar as experiências carregadas de terror. Ele tinha oito ou nove anos quando houve o massacre da caverna Kingsley e, possivelmente, fez parte da limpeza da caverna e da eliminação ritualística dos corpo das vítimas. Entrou na clandestinidade, na qual cresceria sem ter mais de dez anos de idade”. (Ibid, 91)

Com a derrota militar aberta dos Yahi, os selvagens começaram um tempo de clandestinidade, que A.L. Kroeber classificaria como; “a menor e mais livre nação do mundo, que por uma força sem precedentes e a teimosia do caráter, conseguiram resistir à maré da civilização, vinte e cinco anos mais até mesmo do que o famoso bando Geronimo, o Apache, e durante quase trinta e cinco anos depois de que os Sioux e seus aliados derrotaram Custer”. (Heizer y Kroeber, 87)

Os restantes Yahi ocultos e perseguidos, se reuniram e roubaram tudo o que puderam em circunstâncias difíceis. Acendiam suas fogueiras de modo que não era possível ver desde longas distâncias, tinham seus assentamentos não longe dos lugares que os brancos normalmente viajavam e frequentavam. Logo, sua presença se converteu em um rumor e, em seguida, uma mera lenda. Ou seja, apenas alguns anos antes de Ishi adentrar à civilização, seu acampamento foi encontrado próximo a Deer Creek em 1908. Ishi e alguns índios restantes escaparam, mas ao longo de três anos, Ishi estava sozinho, havia tomado a decisão de caminhar em direção ao inimigo, onde estava seguro de que, sem dúvida, iriam matá-lo, assim como fizeram com o resto do seu povo.

Em 1911, no entanto, através da benevolência problemática dos vencedores, Ishi passou de um inimigo declarado a uma celebridade menor, se mudando então para San Francisco e tendo um fluxo constante de visitantes que iam ao museu onde viveu. As pessoas estavam fascinadas por este homem que era a última pessoa real da Idade da Pedra na América do Norte, alguém que podia fabricar e esculpir suas próprias ferramentas ou armas de pedras e paus. Ishi “fez as pazes” com a civilização, e até mesmo amigos. Desenvolveu suas próprias preferências de alimentos e outros bens, e manteve meticulosamente sua propriedade assim como tinha feito quando viveu quarenta anos na clandestinidade. Porém, em menos de cinco anos de ter chegado à civilização, Ishi, o último Yahi, sucumbiu a talvez uma das doenças mais civilizadas de todas: a tuberculose.

No entanto, houve alguns detalhes bastante interessantes que são fonte indicativa da atitude de Ishi frente a vida na civilização. Ishi se negou a viver em uma reserva, e escolheu viver entre os brancos, na cidade, distante dos índios corruptos que há muito tempo haviam se entregado aos vícios da civilização.

Como T. T. Waterman declarou em uma referência indireta a Ishi em um artigo de uma revista, ele escreveu:

“Sempre acreditamos nos relatos de várias tribos formadas por estes renegados Mill Creek. A partir do que aprendemos recentemente, parece pouco provável que houvesse mais de uma tribo em questão. Em primeiro lugar, o único membro deste grupo hostil que nunca foi questionado, [diga-se, Ishi], expressa o desgosto mais animado com todas as demais tribos. Parece, e sempre pareceu, mais disposto a fazer amizades com os próprios brancos que com os grupos vizinhos de índios. Em segundo lugar, todas as outras tribos indígenas da região professam o horror mais apaixonado para os Yahi. Este temor se estende até mesmo ao país hoje em dia. Mesmo os Yahi e os Nozi, embora falassem vários dialetos de uma mesma língua (o chamado Yana), expressavam a mais implacável hostilidade entre si. Em outras palavras, os índios que se escondiam ao redor das colinas de Mill Creek durante várias décadas depois da colonização do vale, eram provavelmente a remanescência de um grupo relativamente puro, já que havia poucas possibilidades de mescla.” (Heizer y Kroeber, 125)

[Cabe apontar aqui que Orin Starn rechaça a ideia da pureza étnica dos Yahi no período histórico, mas não mostra nenhuma razão por trás disso (106). Esta questão será tratada mais adiante.]

Em seu cativeiro voluntário na civilização, Ishi se destacou por sua sobriedade e equanimidade para com aqueles ao seu redor, dedicado às tarefas que lhe foram atribuídas no museu em que vivia, e também para mostrar a fabricação de artefatos que utilizava para a sobrevivência. Theodora Kroeber descreve a atitude geral de Ishi em relação ao seu entorno civilizado:

“Ishi não foi dado ao voluntariado, ele criticava as formas do homem branco, porém era observador e analítico e, quando pressionado, podia fazer um julgamento ou ao menos algo assim. Estava de acordo com as “comodidades” e a variedade do mundo do homem branco. Ishi e muito menos qualquer outra pessoa que tenha vivido uma vida de penúrias e privações subestimam uma melhora dos níveis de prioridade, ou o alcance de algumas comodidades e até mesmo alguns luxos. Em sua opinião, o homem branco é sortudo, inventivo, e muito, muito inteligente; porém infantil e carente de uma reserva desejável, e de uma verdadeira compreensão da natureza e sua face mística; de seu terrível e benigno poder.”

Perguntado como hoje em dia caracterizaria a Ishi, [Alfred] Kroeber disse:

“Era o homem mais paciente que conheci. Me refiro a que dominou a filosofia da paciência, sem deixar traço algum de autopiedade ou de amargura para adormecer a pureza de sua alegria. Seus amigos, todos testemunham a alegria como uma característica básica no temperamento de Ishi. Uma alegria que passou, dada a oportunidade, a uma suave hilaridade. O seu era o caminho da alegria, o Caminho do Meio, que deve perseguir em silêncio, trabalhando um pouco, brincando e rodeado de amigos.” (239)

Desde o ponto de vista eco-extremista ou anti-civilização, estes últimos anos de Ishi pareceram problemáticos, mesmo contra a narrativa desejada. Até mesmo Theodora Kroeber utiliza a magnanimidade aparente de Ishi como foi, “aceitar gentilmente a derrota” e, “os caminhos do homem branco”, “até ser um apoio das ideias do humanismo e do progresso” (140). No entanto, esta é uma simples questão de interpretação. Não se pode julgar uma pessoa que viveu quarenta anos na clandestinidade, e viu a todos seus seres queridos morrerem violentamente, pela idade, ou por doenças, e fazer um julgamento sobre tudo quando ele estava à beira da inanição e da morte. Apesar de tudo, Ishi agarrou-se à dignidade e a sobriedade que é, ironicamente, a essência do selvagismo como Ishi o via. Acima de tudo, no entanto, Ishi deu testemunho deste selvagismo, se comunicava, e rechaçava aqueles que o haviam dado as costas e abraçado os piores vícios de seus conquistadores. Como os editores da Revista Regresión declararam em sua resposta em relação com os chichimecas que haviam se “rendido” aos brancos no século XVI. O artigo, da revista “Ritual Magazine“:

“San Luis de la Paz no estado de Guanajuato é a última localização chichimeca registrada, especificamente na zona de Misión de Chichimecas, onde é possível encontrar os últimos descendentes: os Chichimecas Jonáz, que guardam a história contada de geração em geração sobre o conflito que pôs em xeque o vice-reinado naqueles anos.”

Um membro do RS (Reacción Salvaje) conseguiu estabelecer conversações com algumas pessoas deste povoado, dos quais evitaram seus nomes para prevenir possíveis ligações com o grupo extremista.

Nas conversações os nativos engrandecem a selvageria dos chichimecas-guachichiles, enaltecem orgulhosamente seu passado em guerra, eles mencionaram que, após o extermínio dos últimos selvagens, caçadores-coletores e nômades, os demais povos chichimecas que haviam se salvado da morte e da prisão decidiram ceder terreno e ver os espanhóis que seguiam sua religião, que compartilhavam seus novos mandatos e que se adaptariam à vida sedentária, tudo isso a fim de manter viva sua língua, suas tradições e suas crenças. Inteligentemente os anciões daquelas tribos juntamente com os curandeiros (madai coho), que haviam descido os montes para viver em paz depois de anos de guerra, decidiram adaptar-se, desde que suas histórias e seus costumes não fossem também exterminados, de modo que fossem deixados como herança às gerações futuras.”

Se não fosse por Ishi ter adentrado à civilização no lugar de escolher morrer no deserto, nunca conheceríamos sua história, ou a história do último bando livre de índios selvagens na América do Norte. Portanto, mesmo na derrota, a “rendição” de Ishi é realmente uma vitória para a Natureza Selvagem, uma vitória que pode inspirar aqueles que vem atrás dele para participar em lutas semelhantes de acordo com a nossa própria individualidade e habilidades.

Cabe apontar por meio de um posfácio que muitos historiadores “revisionistas” veem a história de Ishi de uma maneira muito mais complicada que a história inicial contada pelos antropólogos que o encontraram. Alguns estudiosos pensam que devido a sua aparência e a forma com que polia suas ferramentas de pedra, Ishi pode ter sido racialmente maidu ou ter metade do sangue maidu-yahi. Isso não seria surpreendente, pois os Yahi muitas vezes invadiam tribos vizinhas para levarem mulheres (Kroeber y Kroeber, 192). Os linguistas descobriram que os Yahi tinham muitas palavras adotadas do espanhol, postulando que alguns do bando de Ishi haviam deixado as colinas em um passado não muito distante e trabalharam para os pecuaristas espanhóis no vale, regressando às colinas somente quando chegaram os anglo-saxões hostis. Embora os estudiosos pensem que estejam descobrindo as matizes da história Yahi, na verdade muitas de suas ideias estavam nos informes originais, sem destacar.

Além disso, o próprio Starn, aliás, bastante revisionista, admite a possibilidade de que Ishi e seu bando permaneceram escondidos nas colinas devido a um conservadorismo notável em sua forma de vida e visão de mundo:

“Esse Ishi estava aqui tão detalhado e entusiasta [em recontar os contos Yana], Luthin e Hinton insistem, evidenciaram “seu claro respeito e amor” para as formas tradicionais Yahi, no entanto, a vida foi difícil para os últimos sobreviventes nos confins das inacessíveis colinas. Além do temor de ser enforcado ou fuzilado, a decisão tomada por Ishi e seu pequeno bando de não se render também pode ter mensurado apego a sua própria forma de vida: uma fumegante tigela de bolota cozida em uma manhã fria, as preciosas noites estreadas, e o ritmo tranquilizador das estações.” (116)

Lições da guerra Yahi

Serpenteei desde o início deste ensaio, mas o fiz de propósito. A intenção foi deixar que Ishi e os Yahi, a última tribo selvagem da América do Norte, falassem por si mesmos, ao invés de envolver-me em polêmicas simples onde slogans desleixados desviam a atenção real e profunda do tema. O que está claro é que os Yahi não fizeram a guerra como cristãos ou humanistas liberais. Eles assassinaram a homens, mulheres e crianças. Roubaram, atacaram secretamente, e fugiram para as sombras depois de seus ataques. Não eram muito queridos até mesmo por seus companheiros índios, aqueles que deveriam ter sido tão hostis à civilização como eram antes. Mesmo a perspectiva de uma derrota certa não os impediu que dessem início a uma escalada de ataques até que restassem apenas alguns deles. Uma vez alcançado esse ponto, literalmente resistiram até o último homem. Com isso, o eco-extremismo compartilha ou ao menos aspira a muitas destas mesmas qualidades.

Os Yahi foram um exemplo perfeito do que o eco-extremista procura, como observado no editorial da Revista Regresión número 4:

“Austeridade: as necessidades materiais são um problema para os membros desta decadente sociedade, embora alguns não as vislumbrem e se sintam felizes cobrindo-as com a vida de escravos que levam. A maioria das pessoas está sempre tentando pertencer a certos círculos sociais acomodados, sonham com luxos, com comodidades, etc., e para nós isso é uma aberração. A simplicidade, manejá-la com o que tenha em mãos, e afastar-se dos vícios civilizados recusando o desnecessário são características muito notórias dentro do individualista do tipo eco-extremista.”

Os Yahi, assim como muitas das tribos chichimecas que estavam no que hoje é o México, viveram em uma “inóspita” região montanhosa ao contrário de seus vizinhos mais acomodados e numerosos nas terras baixas; isso foi o que ocorreu, mesmo antes da chegada dos europeus. Estes vizinhos, em particular os Maidu, não se defenderam contra a civilização, já que sua vida relativamente acomodada fez com que resultasse mais favorável a aceitar a forma de vida civilizada. Ao contrário dos reinos mesoamericanos, os Maidu não conheciam a agricultura, mas estavam, no entanto, já “domesticados” a certo nível.

Foi a cultura dura e espartana dos Yahi que fortaleceu sua oposição aos europeus, até mesmo quando mostraram um poder superior, inclusive quando estava claro que se tratava de uma guerra de extermínio que provavelmente perderiam. Redobraram seus esforços e lutaram sua própria guerra de extermínio na medida do possível, sem diferenciar nem mulheres nem crianças. Através da astúcia, o engano, e tendo um conhecimento superior da paisagem, empreenderam uma campanha de terror contra os brancos, uma campanha que confundiu a todos os que estudaram as tribos indígenas da região. Até mesmo outros índios os temiam (também outras pessoas que dizem se opor à civilização excomungando os eco-extremistas), já que não dividiam o mundo em dicotomias ordenadas de índios contra brancos. Para eles, aqueles que não estavam do seu lado eram inimigos e foram tratados como tal.

A guerra dos Yahi foi indiscriminada e “suicida”, assim como a luta eco-extremista pretende ser. “Indiscriminada” no sentido de que não é regida por considerações humanistas ou cristãs. Não tinham considerações por quem poderia ter sido “inocente” ou “culpado”: foram atacados a todos os não-Yahi, a todos os que haviam se rendido às formas genocidas do homem branco. Os Yahi não pretendiam fazer amizade com outras tribos, mesmo quando Ishi chegou à civilização, se negava a se associar com os índios de sua região que se renderam tão facilmente à civilização branca. Para preservar sua dignidade, preferiu permanecer com o vencedor em vez de estar com os vencidos. A guerra Yahi era “suicida”, uma vez que não teve considerações com seu futuro: seu objetivo era viver livre no aqui e agora, e atacar aqueles que estavam os atacando, sem medir as consequências. Isto se deve a sua forma de vida que foi forjada às margens dos terrenos hostis, e grande parte de sua dignidade focou-se no ataque aos que eles consideravam flexíveis e não autênticos. Não havia futuro para os Yahi na civilização porque não havia espaço para um compromisso com a civilização.

Aqui vou especular (puramente baseado em minha opinião) a respeito de porque que alguém poderia adotar pontos de vista eco-extremistas em nosso contexto. Claro, há muito furor, talvez até mesmo raiva envolvida. Penso que ali seria necessário realizar tais ações. No entanto, o que faz o amor eco-extremista? Os seres humanos modernos estão tão distantes da Natureza Selvagem, tão insensíveis, adotando um modo de vida a qual dependem da civilização para todas suas necessidades, se queixam caso alguém resulte ferido devido a explosão de um envelope, no entanto, minimizam a importância ou até mesmo apoiam a destruição de uma floresta, um lago ou um rio para o benefício da humanidade civilizada. São tão insensíveis à sua natureza que pensam que a própria natureza é um produto de sua própria inteligência, que as árvores apenas caem nas florestas para que possam ouvi-las, e que a condição sine qua non da vida na Terra é a contínua existência de oito bilhões de famintos e gananciosos. Se alguém está cego pelo ódio, é o humanista, os esquerdistas e sua apologia da “lei e a ordem”, que faz de sua própria existência uma condição não negociável para a continuidade da vida na Terra. Se lhes for dada a escolha de optar entre a destruição do planeta e de sua própria abstração amada chamada “humanidade”, prefeririam destruir o mundo ao ver a humanidade falhar.

O que é ainda mais triste é que a maioria dos seres humanos civilizados nem sequer estão agradecidos pelos nobres sentimentos dos anarquistas e esquerdistas. Para eles são apenas punks que lançam umas bombas e que deveriam dar uma relaxada, ir a uma partida de futebol, e deixar de incomodar aos demais com sua política ou solidariedade. A esquerda/anarquista tem Síndrome de Estocolmo com as massas que nunca vão escutá-los, e muito menos ganhar sua simpatia. Eles querem ser vistos com bons olhos pela sociedade, embora a sociedade nunca dará qualquer atenção, e muito menos a eles. Se negam a ver a sociedade como inimiga, e é por isso que estão juntos a ela, sem entender o porque do sonho iluminista ter falhado, por isso todos os homens nunca serão irmãos, por isso a única coisa a qual os seres humanos civilizados são iguais é em sua cumplicidade na destruição da Natureza Selvagem. O objetivo deles é ser os melhores alunos da civilização, mas serão sempre os criminosos, os forasteiros, os anarquistas sujos que precisam conseguir um trabalho.

O eco-extremismo crescerá porque as pessoas sabem que este é o fim do jogo. Na verdade, desde os muçulmanos aos cristãos a todo tipo de outras ideologias, o apocalipse está no ar, e nada pode detê-lo. Isso é porque a civilização é a morte, e sempre foi. Sabe que o homem não pode ser dominado, que a única maneira de fazer isso é submetê-lo para transformá-lo em uma máquina, para mecanizar seus desejos e necessidades, para eliminar a partir do profundo de seu caos, que é a Natureza Selvagem. Neste sentido, o espírito de Ishi e os Yahi permanecerão e sempre estarão reaparecendo quando você menos esperar, como uma tendência e não como uma doutrina, como um grito que combate hoje sem medo do amanhã. O eco-extremismo não terá fim, porque é o ataque selvagem, o “desastre natural”, o desejo de deixar que o incêndio arda, dançando em torno dele. O anarquista recua e o esquerdista se espanta, porque sabem que não podem derrotá-lo. Continuará, e consumirá tudo. Serão queimadas as utopias e os sonhos do futuro civilizado, restando apenas a natureza em seu lugar. Para o eco-extremista, este é um momento de alegria e não de terror.

– Chahta-Ima
Nanih Waiya, primavera de 2016
_________________

Bibliografia:

“The Physical and Demographic Reaction of the NonmissionIndians in Colonial and Provincial California” in Cook, Sherburne F. The Conflict Between the California Indian and White Civilization. Berkeley: University of California Press, 1976.
Heizer, Robert and Kroeber, Theodora (Editors). Ishithe Last Yahi: A Documentary History. Berkeley: University of California Press, 1979.
Kroeber, Karl and Kroeber, Clifton (Editors). Ishiin Three Centuries. Lincoln: University of Nebraska Press, 2003.
Kroeber, Theodora. Ishiin Two Worlds. Berkeley: University of California Press, 1976.
Potts, Marie. The Northern Maidu. Happy Camp, CA: NaturegraphPublishers Inc. 1977.
Starn, Orin. Ishi’sBrain: In Search of America’s Last “Wild” Indian. New York: W.W. Norton & Company, 2004.