Artigo Sobre Violência Descolonializadora e Eco-extremismo Para a Conferência da ASN em 2018

Interessante texto de autoria de Julian Langer, do blog Eco-revolt, que fala sobre moralidade e territorialização política moralizadora, especialmente pelos esquerdistas (incluindo os anarquistas).

Este texto de Langer foi publicado em seu blog e rapidamente apagado devido às reações que provocou, já que o que ele mesmo discute em seu ensaio graciosamente ocorreu com ele próprio, foi instantaneamente atacado pelas freiras da igreja da anarquia. A sua versão íntegra foi publicada pelo grupo eco-extremista brasileiro Sociedade Secreta Silvestre, que afirmou possuir a versão original do texto e o divulgou no comunicado 63 do grupo ITS. Tal comunicado tem haver com uma briga que se iniciou com o IGD (It’s Going Down), mencionado no texto de Langer, e se estendeu envolvendo outros personagens, como os “anarcaguetas” do 325 a quem o grupo brasileiro direcionou o comunicado. Talvez a maior resposta por parte dos eco-extremistas a todo este pleito foi o texto Against the World-Builders: Eco-extremists respond to critics. Também há outra resposta mais curta chamada Tendências Cristãs Pseudo-humanistas.

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Em 13 de setembro, apresentei este artigo na conferência da Rede de Estudos Anarquistas, na Universidade de Loughborough. Isso foi escrito para ser falado e não foi editado para que sua leitura fosse simplificada.

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O teórico político pessimista Jacques Camatte, cujos escritos após seus anos como teórico marxista influenciaram o discurso ana
rquista de sua época —em particular a ala anarco-primitivista— declarou em seu trabalho Contra a Domesticação que; “Há outros que acreditam que podem combater a violência propondo remédios contra a agressividade e coisas do tipo. Todas essas pessoas geralmente concordam com a preposição de que cada problema pressupõe sua própria solução científica específica. São, portanto, essencialmente passivos, pois consideram que o ser humano é um simples objeto a ser manipulado. Eles, por sua vez, são completamente desprovidos do que é necessário para se criar relações interpessoais (algo que eles têm em comum com os adversários da ciência); eles são incapazes de ver que uma solução científica é uma solução capitalista, porque elimina os humanos e coloca a perspectiva de uma sociedade totalmente controlada”.

Parece mais do que óbvio que vivemos entre grandes quantidades de violência e que a violência e a necessidade de acabar com ela é o assunto dominante dentro da narrativa em que nos encontramos. A violência da cultura do estupro; a violência da opressão racial e colonial; a violência do ISIS, os islamitas e as forças internacionais contra eles; a violência da Rússia, Coreia do Norte e Estados Unidos; a violência dos tiroteios nas escolas da América; a violência dos apunhalamentos em massa pelas gangues em Londres; de bombas, carros, armas, facas e pênis. Muitos atos de violência são pouco comentados; a violência das armadilhas para animais; a violência das motosserras; a violência da desocupação de uma área para reutilizá-la para construções ou plantações de monocultivos industriais para alimentar uma população em crescimento.

No discurso radical, particularmente no da tradição anarquista, geralmente temos um tipo de relacionamento distorcido com a violência. Meu desejo aqui é identificar um tópico em nossas discussões que muitas vezes é negligenciado —esse tópico tem a ver com a interiorização e exteriorização —, sob o olhar do grande Outro. Neste assunto, me concentrarei no discurso contemporâneo sobre as atividades descoloniais, anticoloniais e eco-extremistas. Isso também envolverá, na parte final deste artigo, uma declaração ontológica sobre o que a violência realmente é.

No ano passado, a organização anticolonial chilena Luta do Território Rebelde (Weichan Auka Mapu), em uma única ação, incendiou 29 veículos usados em atividades de extração de madeira. Entre janeiro e maio de 2016, o grupo cometeu 30 atos semelhantes de danos à propriedade, em defesa do território em que vivem, das florestas e a vida selvagem. Da mesma forma, o MEND, Movimento Para a Emancipação do Delta do Níger, uma organização combativa armada composta por células independentes envolvidas em uma guerra de guerrilhas contra as empresas de petróleo, explodiram oleodutos, atacaram campos de petróleo e sequestraram petroleiros como parte de suas atividades anticoloniais.

Como porta-vozes dos âmbitos de ambientalistas radicais e anticoloniais de fala inglesa, grupos como Earth First! e Deep Green Resistance lançaram seus apoios a esses grupos e a outros como eles, buscando legitimá-los, dentro do contexto do discurso radical. Isso envolve experimentar o processo que Deleuze e Guattari denominaram territorialização, no qual um processo de interiorização associa esses grupos à estrutura de um mecanismo particular. Isso leva esses grupos a um lugar de aceitação moral, dentro do marco moral com orientações de esquerda. A partir disso, essas ações, as atividades desses grupos, e outros similares, passam a fazer parte da narrativa da política radical de esquerda, referente ao processo de civilização e história. Eles se convertem em personagens nos capítulos que precedem a “revolução” e, semelhante ao descrito por Camatte na citação que mencionei anteriormente, são vistos como objetos passivos a serem cientificamente manipulados. Como personagens do meta-drama em que residem, eles recebem uma identidade que funciona plenamente como um significante simbólico para um Outro, que se posiciona como o superego paterno, legitimando suas lutas, como Deus ao determinar quem vai para o céu, ou melhor, quem não será jogado no gulag, mesmo o anarquista, depois da revolução —interiorizada— e quem será jogado no inferno, ou no gulag, novamente, até o gulag construído por anarquistas — exteriorizado.

Esse também é o caso em lutas descoloniais que não estão necessariamente ligadas a lutas eco-radicais, como a luta palestina contra as violências de Israel, na qual manifestantes desarmados são pintados como “inocentes” pelas organizações pacifistas de esquerda que usam a luta destes indivíduos como uma plataforma própria, com a implicação de que palestinos armados, como o Hamas, são alvos legítimos da violência colonial estatista.

Enquanto os líderes das organizações, que podem ser educados nas filosofias ocidentais do marxismo, anarquistas etc., podem abraçar essa trajetória ideológica, acho que, na verdade, fora dessa interiorização, aqueles indivíduos que estão ativamente engajados nas ações desses organizações e similares; eles não se importam com progresso, história, capitalismo ou nada disso. Eles se preocupam com as florestas, terras, vida selvagem, rios e mundo em que estão imersos e vivem como Extensões.

Essas funções de enquadramento mecânico, da maneira que Heidegger descreve em relação à tecnologia e enquadramento, onde, como objetos, símbolos e personagens de uma descrição tecnológica, se encaixam no modo da existência humana previamente descrita, aquela da narrativa ideológica de esquerda, desumanizada, inanimada e não animal.

E agora quero avançar para algo que poderia parecer de muitas maneiras como totalmente o oposto, mas argumento que se enraíza na mesma narrativa que descrevi aqui. De qualquer forma, para isso, vou me dedicar um pouco à história. Pode-se dizer que a campanha de ataques de Kaczynski, que durou 17 anos, foi a de maior sucesso do seu tipo. Como Unabomber, Kaczynski enviou 16 bombas a vários locais nos Estados Unidos. Foi somente após a publicação de seu manifesto, A Sociedade Industrial e Seu Futuro, que suas motivações foram esclarecidas e ele foi capturado. O trabalho é uma crítica brilhantemente articulada sobre a sociedade industrial, que inclui uma crítica ao esquerdismo, que não irei me aprofundar aqui, uma vez que não é tão necessário e isso ocuparia muito espaço. Menciono apenas por sua relevância e pelo que estou prestes a desenvolver.

A influência de Kaczynski, com relação ao espaço anticolonial, é particularmente notável em relação ao movimento pós-anarquista niilista-terrorista chamado Eco-extremismo. Surgido das profundezas das discussões niilistas-anarquistas e anticiv, e quase inteiramente situado na América do Sul e Centro, composto por indivíduos indígenas e anticivilização, com apenas algumas células na Europa, esse movimento tem buscado ativamente se exteriorizar da maquinaria e da narrativa esquerdista.

Em suas atividades anti-progressitas e anti-melioristas, o grupo que é o defensor mais conhecido do Eco-extremismo, Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), centrou suas atividades, assim como Kaczynski, em plantar bombas em instituições universitárias, como laboratários nano-tecnológicos; antes de avançar com seus famosos, devido ao rechaço à moralidade, assassinatos indiscriminados, em nome da Natureza Selvagem.

Caso você não esteja familiarizado com o grupo, gostaria de resgatar aqui algumas citações de seus primeiros comunicados:

1. “A civilização entrará em colapso e um novo mundo nascerá devido aos esforços dxs guerreirxs anticivilização? Ah, por favor! Sejamos realistas, plantemos os pés no chão e deixemos de voar dentro da mente delirante e esquerdista. A revolução nunca existiu e, portanto, tampouco xs revolucionárixs. Aquelxs que se vêem como “potencialmente revolucionárixs” e que buscam uma “mudança radical anti-tecnológica”, estão sendo verdadeiramente idealistas e irracionais, porque tudo isso não existe. Neste mundo moribundo existe apenas a Autonomia do Indivíduo, e é por ela que lutamos.”

2. “Um mundo sem domesticação, com um sistema derrotado através do trabalho dxs “revolucionárixs”, com a Natureza Selvagem nascendo das cinzas do antigo regime tecnológico e a espécie humana (o que restaria) de volta à natureza, é completamente ilusório e sonhador.”

3. “Its mostra a sua verdadeira face, vamos ao ponto central, a feroz defesa da Natureza Selvagem (inclusive humana) não se negocia, é executada com os materiais necessários, sem compaixão e assumindo a responsabilidade pelo ato. Nossos instintos nos marcam, porque (como dissemos anteriormente) somos a favor da violência natural e contra a destrutividade civilizada.”

A resposta que ITS recebeu foi de exteriorização ativa por parte dos esquerdistas e anarquistas-morais. A publicação anarquista de esquerda Its Going Down particularmente se pronunciou contra ITS, especialmente após o comunicado 29, no qual reivindicavam a responsabilidade pelo assassinato de uma mulher em uma floresta, e também demonizaram anarquistas e ocidentais que incluem o Eco-extremismo em suas discussões. Its Going Down os classificou como Eco-fascistas em uma de suas condenações contra o grupo, numa tentativa óbvia de demonizá-los moralmente, excluindo-os da comunidade de grupos e organizações consideradas aceitáveis dentro da moralidade anarquista. Isto é, assim como o MEND e a Luta Pelo Território Rebelde (Weichan Auka Mapu), realizado sob o olhar do Outro superego paternal, reprimindo aquilo que é moralmente inaceitável, desde uma posição de autoridade moral, como Deus. Este é um exemplo do que Camatte descreve, onde os esquerdistas condenando ITS e o Eco-extremismo tratam os Eco-extremistas, aqueles interessados no Eco-extremismo e seus próprios simpatizantes e partidários, como objetos para a manipulação científica, em um movimento capitalista por controlar, territorializar.

A revista Eco-extremista Regresión faz uma tentativa notável de se exteriorizar, tanto em seu nome quanto em seu conteúdo. Ela se descreve como o antônimo do progresso, como uma força regressiva antiética, marcando sua estratégia em um estilo marxista ativo da dupla dialética. A Revista proclama ativamente que não deseja ser lida por muitas pessoas e que não busca atrair leitores, mas está disponível na web para ler lida por quem quiser. Está dizendo ativamente que “não somos um de vocês” e “não formamos parte disso”, de maneira muito semelhante a como os esquerdistas buscam exteriorizar o Eco-extremismo. A partir desses exemplos que apresentei, tentei identificar que, tanto em enquadramentos morais positivos e negativos, através de interiorização ou exteriorização dentro da narrativa do progresso, revolução e história, a relação esquerdista com relação aos projetos extremistas e radicais anticoloniais e descoloniais é aquela cuja estrutura mecanicista é ideológica e funcionalmente colonialista e racista. A esquerda não aceita nem condena as ações de grupos indígenas e anticoloniais simplesmente sob seus próprios termos, mas os associa ao simbolismo de seu próprio desenho ideológico. Ao mesmo tempo, o movimento descolonial tornou-se tão incorporado à maquinaria esquerdista que, no caso dos Eco-extremistas, os povos indígenas estão se afastando da luta.

Aqui, sinto a necessidade de ir a outro ponto ligeiramente diferente daquele de onde estivemos durante a maior parte disso, mas sem nos afastarmos muito. Enquadro isso em um lugar geográfico, mais que em um tempo histórico, pois a onde quero chegar não é nem historicamente progressivo nem reacionário, ou regressivo, seja qual for o termo que você prefira, mas metafisicamente presentista, em um sentido imediatista egoísta e fenomenológico. Karl Popper declarou em seu trabalho A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, onde critica o historicismo teleológico de Hegel, Marxs e pensadores semelhantes por ser fundamentalmente totalitários, que a “História não tem significado” —uma preposição sem dúvida desagradável para qualquer pessoa que tenha uma postura política esquerdista, mas é neste sentimento a qual quero chegar. Esta é a questão da destruição, que mais tarde diferenciarei da violência. Agora, quando olho para fora de mim rumo ao que o discurso e ação pós-anarquista significam hoje em dia, no tempo presente, quando nos encontramos em uma crise sistemática, colapso ecológico e em meio a tanta violência, me parece que realmente podemos apenas falar sobre ontologia. Não estou querendo dizer que estamos falando e que só podemos falar sobre conceitos vagos e abstratos, mas que, na raiz de nossos discursos e, se formos honestos em nossas discussões, estamos falando de psico-ônticos, socio-ôticos, eco-ônticos, sobre Realidades e sobre o Real. Estou indagando aqui, ao incorporar o ôntico junto com a ontologia, dentro do mundo das Coisas (C maiúscula) e a reificação (usando o termo no sentido exposto pelo velho e confiável comunista Marx e no sentido da falácia do concretismo, também conhecido como hipostatização). Essas discussões ontológicas podem frequentemente ser enquadradas nos teatros simbólicos das ideologias, interiorizando e exteriorizando, em processos de territorialização. Mas abaixo destas vestimentas, na carne nua de nosso discurso, é ontológico. Somos, de muitas maneiras, todos anarquistas ontológicos de práxis.

Com base nisso, farei uma afirmação de que o projeto anarquista ontológico é de destruição ativa, no sentido Heideggeriano. Eu gostaria de pegar emprestado o termo da guerrilha ontológica de Robert Anton Wilson para isso. Como Heidegger observou, a destruição é uma tarefa presentista que não se enquadra nas categorias normais de positivo-negativo, sendo niilisticamente amoral e não posicionada no passado. Sem ser dualisticamente positiva nem negativa, a destruição aqui é uma força radical monística, no sentido que sugere o anarquista-coletivista Bakunin quando declarou que “a paixão pela destruição é também uma paixão criativa” imediata; ao contrário das tradições gnósticas da ideologia revolucionária de esquerda, nas quais tanto a teoria como a prática mantêm um dualismo esotérico, em relação a objetos que podem ser manipulados cientificamente.

Mais do que como uma prática antropológica, afirmo que a verdadeira destruição-criativa sem objetivos de Ser é o processo de transformação que está acontecendo constantemente. A civilização e a história, nesse sentido, são tentativas de interromper esse processo e criar, através da reificação simbólica, uma ontologia social de um estruturado-espaço absoluto —a construção de territórios, de objetos com interiores e exteriores, da natureza e do espaço que está fora da natureza (civilização), de grupos e categorias; um teatro de fantasmas, tecnologicamente inautênticos, no sentido em que Heidegger expõe, tentando reprimir a relacionabilidade do Ser, na forma de desenvolvimentos prolongados no tempo, ou melhor, como a passagem da vida vista como o espaço aberto da possibilidade. A civilização, a fim de manter o maquinário de seu funcionamento, deve restringir, através da colonização, a moralidade, etc., o espaço aberto da possibilidade, através da interiorização e a exteriorização voltadas para uma narrativa totalitária, com um caminho direcionado.

Agora, de certa forma, o que eu, como alguém do mundo anti-civ, estou dizendo com isso é que deveríamos nos livrar dos grupos, categorias, territórios, interiores, exteriores, inclusão, exclusão, objetos, símbolos e outros fantasmas tecnológicos, mas isso dificilmente chegará a algum lugar no tempo presente. Assim, junto com isso, desejo fazer outra afirmação para nós, como indivíduos, ou melhor, como singularidades, envolvidas em projetos descoloniais e anticoloniais de desterritorialização; que abracemos radicalmente a noção de monismo-como-pluralismo; não para interiorizar o mapeamento do espaço radical de uma nova maneira em relação àquela em que o fazemos atualmente. Se não, deixar a situação o mais desordenada possível e não julgar a desordem através da condenação moral, e não encaixar os eventos dentro das estruturas de ideologias de esquerda, mas deixar tudo no espaço da possibilidade. Talvez isso possa ser considerado o equivalente eco-anarquista da noção liberal de Bergson da sociedade aberta —embora também, talvez não. Se, no entanto, estamos lidando com processos ontológicos, sugiro que consideremos nossas percepções da realidade, como espaço e tempo, da maneira que o matemático Poincaré indica com sua filosofia da geometria; como se tivéssemos nascidos sem intuições, que se tornaram mais convenções normativas do que fatos.

Essa ideia que estou propondo é obviamente bastante incômoda, pois deixa quase tudo em aberto, mas se vamos descolonizar o espaço físico estruturalmente racista das políticas anticoloniais, então nos resta este lugar de incomodidade, no qual devemos reconhecer sem categorizar moralmente, em um sentido anti-político.

Finalmente, também desejo fazer uma declaração ontológica aqui, para os propósitos do discurso, de que muito do que é categorizado como violência por grupos eco-radicais e anticoloniais não é violência, sendo a violência um objeto reificado da civilização, significando violação. Em vez disso, o que geralmente é categorizado como violência, neste sentido, é realmente uma aceitação da destruição-criativa não-ôntica acósmica ontológica selvagem.

Violação, dessa maneira, parece ser o funcionamento mecanicista básico da civilização —invertendo a afirmação de ITS de que a natureza é violenta e a civilização é destrutiva. O propósito da civilização é o propósito da violência. Isso não é para legitimar estas ações que estou descrevendo como destrutivas ao invés de violentas, mas para diferenciá-las para os propósitos da práxis pós-anarquista.

Violar é interromper o fluxo de um espaço e criar uma obstrução, como uma represa em um rio, como um militar chegando para interromper o cotidiano da comunidade, como um pênis forçando sua entrada no corpo por estupro. A destruição é um aspecto criativo dos atuais processos temporais do espaço que é o Ser. Destruição é a abertura do espaço. Descolonizar é destruir a narrativa de produção que é essa cultura. Desterritorializar, sem reterritorializar, e sem julgar o que cresce no espaço aberto. Deixemos as coisas abertas e não tratemos o mundo como um objeto para nossa manipulação. Deixemos de tentar ser Deus e destruamos o totalitarismo. Vivamos livres de interiores e exteriores, de inclusão e exclusão. Tornemos real o sem fronteiras nem limites, e sejamos anarquistas abraçando a anarquia. Poincaré disse que “A Geometria não é verdadeira, é vantajosa”, mas isso não vai longe o suficiente. A geometria não é verdade, mas pode ser uma aventura!

Obviamente, isso vai além do espaço descolonial, pois inclui os espaços de teoria e práxis antipatriarcais, de ambientalismo radical e antiestatismo, uma vez que a estes também seria importante desconstruírem seus territórios e abraçar a noção ontológica do monismo = pluralismo —mas não há espaço neste ensaio para incluir estas lutas.

Gostaria de terminar com esta frase do filósofo marxista-autônomo Agamben; “O que teve de perdurar no inconsciente coletivo como um híbrido monstruoso de humano e animal, dividido entre o bosque e a cidade —o lobisomem— é, portanto, originalmente a figura do homem que foi expulso da cidade. Que esse homem seja definido como um lobisomem e não simplesmente como um lobo…é decisivo aqui. A vida do bandido, como a do homem sagrado, não é um pedaço de natureza humana sem relação alguma com a lei e a cidade. É, em vez disso, um umbral de indistinção e de passagem entre animal e homem, Physis e Nomos, exclusão e inclusão: a vida do bandido é a vida de Loup Garou, o lobisomem, que não é exatamente nem homem nem besta, e que habita paradoxalmente dentro de ambos sem pertencer a nenhum”.

Anarquismo Verde Murcho

Texto extraído de La Mauvaise Herbe vol.17 no.2.

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Ninguém mais se importa com eles por aqui, por que você simplesmente não os deixa murchar em impertinência?”, perguntou um bom amigo que se identifica como anarco-primitivista.

Curioso, talvez, mas não poderia deixar de lembrar de um evento de ecologia radical de muito sucesso que participei há pouco tempo. Era uma conferência bem preparada, por um anarquista que dominava o seu “nicho”. A conferência foi proferida em uma sala cheia de estudantes radicais entusiasmados, durante um seguimento dedicado ao anarco-primitivismo. Todo aquele discurso sobre igualdade, democracia direta e até as 15-horas-de-trabalho-semanal-que-é-como-se-fosse-um-jogo foi servido de forma conveniente. [1] Pelo menos ele não começou a falar sobre telepatia ou visão telescópica. Lembro que o evento gerou uma impressão tão boa que uma coordenadora da Universidade onde a conferência estava ocorrendo se aproximou de Mauvaise Herbe, que estava no local distribuindo publicações, para saber se eventualmente eles iriam também compartilhar suas mensagens positivas com as juventudes. Então deram algumas Mauvaise Herbe para que ela pudesse ler e creio que mudou de opinião.

Mas é verdade que não ouvimos muito sobre os Anarquistas Verdes por aqui. Ainda sim, em minhas conversas e no que frequentemente escuto do discurso “anti-civ”, tanto aqui como em qualquer lugar, são sempre as mesmas reflexões comumente conhecidas, as mesmas referências, as mesmas premissas e os mesmos fins. O discurso humanista-hedonista sobre a vida primitiva tornou-se mainstream. Aos poucos, as especulações de alguns tornaram-se fatos para outros. Os anarquistas em geral nunca se posicionaram muito longe do progressismo, se sentem em casa, em paz com ele. Aqueles que escolheram se distanciar através de suas palavras e ações sempre se levantaram contra as igrejas que guiam o caminho desta “luta”. Praticamente chegaram a um ponto em que se deve professorar a fé em cada declaração, em cada ação.

Para muitos agora, em momentos de choque, questionar a retórica da coesão social é revelar “fascismo”. Enquanto os anarco-policiais insurrecionalmente corretos pedem caça às bruxas, é contra toda a sua Inquisição que dedico estas provocações.

O Verde é o novo vermelho

“Esta visão ideológica do passado foi radicalmente revertida nas últimas décadas, através do trabalho de acadêmicos como Richard Lee e Marshall Sahlins. Surgiu uma reviravolta quase completa na ortodoxia antropológica, com importantes implicações. Agora podemos ver que a vida antes da domesticação/agricultura era, na verdade, uma vida de recreação, intimidade com a natureza, sabedoria sensorial, igualdade sexual e saúde. Esta era a nossa natureza humana, durante alguns milhões de anos, antes da escravidão por sacerdotes, reis e chefes”. – John Zerzan, Futuro Primitivo

Pertencemos a uma era desiludida com as promessas do progresso. Ele não trouxe a utopia prometida. Os progressistas já não são necessariamente aqueles que haviam prometido que “a máquina trabalharia para o homem”, aqueles que, há mais de um século, já haviam anunciado a mesma “recreação, intimidade com a natureza, sabedoria sensorial, igualdade sexual e saúde” graças ao desenvolvimento humano e tecnológico… agora os progressistas são aqueles que se preocupam com as crises que foram geradas, aqueles que acompanham constantemente o apocalipse que está se desenrolando – o desastre ecológico e a civilização planetária em total decadência. Mas alguns ainda não perderam a esperança na humanidade, e a possibilidade de prover uma nova consciência universal. Ela pode impulsionar uma cultura de resistência de caçadores-coletores nômades que levarão todo o humanismo herdado pelo anarquismo do século XX!

E é nesse sentido que um trabalho essencial do cânone anarco-primitivista como Futuro Primitivo é um exercício de sedução, com sua crítica à civilização e seus louvores à vida primitiva, a fim de satisfazer essas sensibilidades humanistas decepcionadas com as consequências da modernidade. Portanto, deriva mais abundantemente do trabalho antropológico de um certo período em que foram feitas tentativas de romper com o mito da vida primitiva brutal com declarações ousadas sobre lazer e aspectos igualitários, mais atraentes para o civilizado moderno – trabalhos de antropólogos que queriam que seu campo alimentasse debates sociais.

Em um ensaio abordando o legado do trabalho aclamado por Zerzan de Marshall Sahlins, “A Primeira Sociedade da Afluência”, o antropólogo Nurit Bird-David nos lembra que “Todo o interesse que atraiu sem dúvidas reflete nossas necessidades simbólicas e ideológicas em nossa (Ocidental) construção do passado pré-histórico. (…) Com a intenção de provocar tanto quanto documentar, o ensaio se eleva acima do discurso científico convencional, apelando diretamente às fantasias ocidentais sobre trabalho, felicidade e liberdade”. [2]

Para muitos daqueles que se identificam com o anarco-primitivismo ou com uma espécie de Anarquismo Verde, a vida dos caçadores-coletores nômades do paleolítico representam o anarquismo como foi vivido pelos humanos por séculos. Alguns até chamam de Anarquia Primitiva. Nesta utopia original, no Jardim do Éden anarquista, eles veem nossa “natureza humana”. Assim, em sua propaganda, para uma plateia inclinada ao anarquismo, com seus valores progressistas, eles louvam a vida primitiva de acordo com o quão anarquista ela possa parecer.

Esta leitura seletiva da antropologia tornou-se comum entre os anarco-primitivistas e influenciou muitos outros anarquistas (incluindo stirnerianos e niilistas). Reduz a vida primitiva a generalizações sobre atributos essenciais presumidos – atributos igualitários, coletivistas, anti-opressivos, hedonistas, ecologistas e anarquistas. A relevância da vida primitiva deriva da representação destes valores.

Comportamentos selvagens que não se encaixam são descartados como sem importância quando não são simplesmente ignorados ou são abordados com muita suspeita, assimilados aos efeitos e as consequências da civilização (sincretismo, usurpação ou má interpretação por parte dos civilizados, etc.), enquanto comportamentos que combinam bem com os valores progressistas nunca recebem o mesmo questionamento ou suspeita. O resultado é a interpretação do estilo de vida caçador-coletor como um modelo de sociedade progressista por excelência, com o imediatamente-regressado caçador-coletor como seu representante mais puro.

Na tradição socialista, as culturas indígenas não tem importância além da recuperação do folclore, pois são reduzidas a seus aspectos proletários: as aventuras socialistas na América Latina nos deixaram um claro testemunho sobre isso. Onde faltava a experiência proletária, era introduzida ao ritmo do progresso, em nome do humanismo, aniquilando culturas indígenas já dizimadas para integrá-las à grande irmandade do homem. Não é de alguma forma nessa tradição que hoje muitos anarquistas projetam sua ideologia sobre os costumes dos antigos, apresentando-os como anarquistas, como praticantes ou exemplos de anarquismo? Podemos escolher o que se encaixa com a narrativa e o rolo compressor anarquista pode esmagar o resto. Nada mais civilizado que isso.

O que podemos aprender através da antropologia e arqueologia sobre a vida de grupos nômades caçadores-coletores ao longo do tempo é que eles parecem estar longe de serem homogêneos. Se queremos encontrar condutas progressistas, como aquelas que eu nomeei, nós as encontraremos. Se alguém deseja procurar condutas de um espectro totalmente oposto, também as encontrará: as ideologias encontrarão o que buscam. Mas é precisamente essa variabilidade que me parece importante. O selvagem questiona toda a narrativa do progresso humano, toda nossa domesticação. Isso inclui mais que tudo nossas inclinações humanistas essenciais na hora de incitar o progresso social necessário para o desenvolvimento contínuo. Os humanos se relacionam com uma infinidade de fatores e tangentes, ao longo de milhares de anos – uma infinidade de situações vividas e, portanto, uma diversidade de reações, adaptações, formas de conceber e agir. Estas características dificultam a simples transposição dos costumes de um grupo sobre outro. Para que uma maneira de ser seja reproduzível de um grupo a outro, é melhor substituir as variáveis por um ambiente homogêneo e controlado, e é isso que faz o progresso.

Se na vida primitiva gostamos de ver o reflexo dos valores que nos são familiares, tais como a cooperação, coletivismo, igualdade, amor ao próximo, compartilhar e tolerar, valores que nos ensinaram desde a infância, não deveríamos nos perguntar para onde eles estão nos levando em nossa situação atual? O contexto muda tudo. A representação idílica da vida primitiva é especialmente enganosa já que o colapso de nossa civilização está longe de ser igual ao do paleolítico. A terra já não é aquela onde os nômades caçadores-coletores floresceram, e quem sabe em que estado desumano poderia se transformar durante um colapso da civilização e seus eventos sucessores.

Mesmo com a isca da utopia, até que ponto aqueles que desejam o bem da tal humanidade poderão desejar e agir sobre o colapso da civilização que possivelmente precipitará a humanidade ao abismo? “Vimos o mundo em que queremos viver, e vale a pena lutar por ele”. [3]

“O anarco-primitivismo é uma lealdade a uma adaptação humana específica à vida neste planeta, uma forma de vida a partir da qual todas as evidências conhecidas nos mostram que ela durou de forma sustentável e em estreita relação com a ecologia selvagem por eras mais que qualquer outra. Com esse conhecimento objetivo em mãos, os anarco-primitivistas manterão nossa agência humana e a usarão para tomar os tipos de ação que consideramos mais eficazes e para criar simultaneamente os tipos de sociedades que NÓS QUEREMOS criar. Esta é nossa prerrogativa”. – Choloa Tlacotin, Uma Carta a: Halputta Hadjo

Acima de todas as coisas, é a prerrogativa do híper-civiliziado. Na verdade, é profundamente civilizado aquele que, a partir do conforto da abstração, pode, num piscar de olhos, inspirar-se nos princípios de James Woodburn sobre os caçadores-coletores igualitários como regra de vida e, logo depois admirar os povos guerreiros que lutaram contra os civilizados na América do Norte; e finalmente, maravilhar-se com a resistência que os humanos foram capazes de desenvolver em condições difíceis, “como os Ona [Selk’nam]” na Terra do Fogo. [4] São agentes do progresso aqueles que pensam que podem isolar o que lhes convém no banco de dados para construir seu mundo ideal pelo qual vale a pena lutar. Não venha me apresentar isso como des-domesticação ou alguma merda do tipo.

O Homem dedicou todo o poder do progresso para tentar controlar seu destino, e ainda sim falhou. Os anarquistas, sendo os civilizados teimosos que são, acreditam que podem controlar o resultado de suas ações de acordo com a intenção com que as realizam. Embora muitos deles saibam bem que as coisas nem sempre saem conforme o planejado (greves sociais que resultam em eleições gerais, artefatos que explodem na hora errada, etc.) Ao longo da história, todos aqueles que tentaram criar a sociedade que queriam falharam, mas os super-anarquistas certamente terão êxito…

Mas, depois de todos os esforços, seria possível, por exemplo, que algumas gerações depois os descendentes dos anarco-primitivistas – crianças re-selvagizadas, caçadores-coletores enraizados nos duros cenários da prognosticada queda da civilização – também resultem tão resolutamente patriarcais como os Selk’nam, cuja cosmovisão estabelecia de maneira muito explícita uma divisão entre os sexos e a dominação espiritual e social das mulheres pelos homens? [5] (esse pequeno detalhe que os Anarquistas Verdes omitiram em suas publicações, de pessoas pelas quais expressaram admiração e cujas perdas lamentaram, provavelmente teria caído mal na Feira do Livro Anarquista).

De qualquer forma, quem tem filhos deve saber que não há garantias de que eles ouvirão nossas advertências. Em qualquer caso, tenho a impressão de que as hipotéticas crianças selvagens do futuro primitivo provavelmente não dariam a mínima para a retórica moralizante de um velho ideólogo civilizado que sabe absolutamente tudo sobre suas vidas cotidianas.

A esperança é melhor que nada?

A esperança se converteu em um conceito bastante popular entre os Anarquistas Verdes nos últimos anos. Zerzan até dedicou um de seus últimos livros, Por que Esperança? A Postura Contra a Civilização, e junto com seus discípulos e colaboradores, em sua publicação da Black and Green Review, dedicaram atenção constante à oposição de sua esperança contra o que consideram o niilismo endêmico que contamina os anarquistas.

Em seu editorial da Black and Green Review Nº 4, Kevin Tucker nos fala com seriedade de como a ausência de uma Revista publicada pelos Anarquistas Verdes “levou os anarquistas ao beco sem saída do terrorismo niilista e à busca espiritual egoísta. Nessa trajetória, o anarco-primitivismo é um para-raios, pois tem a audácia de se posicionar para algo: ter apostado nossa reivindicação em ver um mundo que vale a pena lutar e defender. Para querer construir comunidades de resistência, apoiar aqueles que estão e têm resistido aos avanços da civilização e recusam o processo de domesticação, pois ele procura nos afastar da natureza selvagem que atravessa toda a vida.”

Para eles, jovem Padawan, a desesperança que fomentam estes niilistas leva à postura conformista de olhar para o umbigo, ou para criticar e atacar a qualquer pessoa e qualquer coisa: suas palavras e ações não levam a nada… E a esperança é melhor do que nada! Certo?

Se funcionou bem para os cristãos, a Obama e aos rebeldes em Star Wars, por que não funcionaria também para os anarco-primitivistas de Oregon?

Ainda não está convencido de votar pela esperança? No final de uma entrevista ao The Telegraph, orgulhosamente publicada em seu site durante a promoção de Por que Esperança?, Zerzan compartilha conosco o que tanto o inspira:

“Estranhamente, são tempos bons para ser um anarco-primitivista”, disse Zerzan. “Nunca tivemos tanta tecnologia como agora, e estão sendo lançadas cada vez mais rápido. Mas é exatamente por isso que acho que as pessoas começarão a mostrar resistência. Estão começando a ver que a tecnologia não está cumprindo com suas promessas. Por isso tenho esperança. Tenho muita esperança”.

Para o qual o entrevistador concede:

“Em algumas ocasiões também não gosto da tecnologia. Como quando minha internet não carrega rápido o suficiente. E geralmente estou convencido de que seria mais feliz sem estar constantemente conectado, embora nunca faça muito a respeito”. [6]

Certamente é porque ele ainda não leu a última Black and Green Review.

Ao longo do livro Por que Esperança?, sempre há a mesma resposta: é no advento de um movimento de massa de re-selvagização, preparado para a iminente queda da civilização do qual participará, que é preciso ter esperança e se comprometer junto com outros.

“Não será fácil, mas se um número crescente de pessoas estiverem envolvidas nesse movimento os meios podem ser encontrados. Penso que cada vez mais pessoas podem estar sentido a necessidade de uma nova direção como essa. Decifraremos nosso caminho assim que nossas metas possam ser vistas e discutidas. À medida que nos encontrarmos, o debate público necessário começará e o esforço de avançar em conjunto pode dar bons resultados. Não há garantias, mas vale a pena a jornada libertadora!” – John Zerzan, Por que Esperança?

Essa é uma boa quantidade de merda. Alguém está disposto a derrubar toda a rede de dominação porque Zerzan teve uma espécie de “sensação boa”, e depois veremos o que acontece?

É isso mesmo? Um movimento carregado pelo senso comum e pela esperança de ser o futuro da humanidade libertada? Que original! Nada com o qual o Leviatã possa ser reinventado…

E se a civilização não cair? Digamos que uma transição para um estilo de vida primitivo nunca ocorra, nem voluntariamente nem pela força das circunstâncias, que a civilização sobreviva ao que nós consideramos insuperável e transcendente. Existem empresas, laboratórios, universidades e legiões de nerds ambiciosos ao redor do mundo trabalhando em descobertas experimentais para superar os desafios do progresso em nome da humanidade. Sim, o triunfo do progresso é hipotético, assim como o futuro primitivo também é… e a esperança nada mais é do que uma questão de fé.

“Mas se estamos dispostos a fazer essa mudança em nossa percepção, a aprender a abraçar a nova era de nomadismo, a enxergar além de nós mesmos e empoderarmo-nos fazendo parte de algo muito maior e mais magnífico que nossas próprias vidas, então temos o mundo a ganhar com isso”. – Kevin Tucker, Meios e Fins, Black and Green Review Nº 4

É a sobrevivência da humanidade ou de toda a vida na terra o que gera e motiva meu desejo de ver a civilização sendo aniquilada (mesmo que, entre cenários hipotéticos, seja possível que a civilização destrua toda a biosfera em sua queda)? Por acaso meu desagrado pela civilização depende de um futuro hipotético? É a vida cotidiana, a abrumadora e sufocante presença de um mundo humanizado, que me desagrada e pesa sobre mim, e não sinto nenhuma necessidade de justificar este sentimento com teorias catastróficas ou interesses superiores. Pode me chamar de niilista podre, se quiser!

O mundo não necessita de uma nova ideologia libertadora tanto quanto precisa se livrar do que torna possível transmitir uma ideologia em larga escala… a menos que seja uma que corrompa as mentes dos civilizados, levando-os a decair em tal perturbação, tal desordem antissocial, tal autodestrutividade, que a estabilidade global e, finalmente, o próprio funcionamento da sociedade seja seriamente comprometido.

Morte à civilização e a todo o progresso humano!

– Lyokha

Notas:

[1] Este número referenciado de horas de trabalho se originou de estudos especulativos nos primeiros trabalhos antropológicos de Richard Lee e Marshall Sahlins. Desde então, os dados desses estudos receberam muitas respostas em seu campo, e o próprio Richard Lee reconheceu amplamente algumas de suas falhas. O atual consenso sobre os caçadores-coletores é de uma média de 30 a 40 horas de trabalhos semanais, mas ainda há muito debate sobre o que deveria ser considerado como trabalho.

Ver: Elizabeth Cashdan, Hunters and Gatherers: Economic Behavior in Bands; Richard Lee, The Dobe !Kung; David Kaplan, The Darker Side of the “Original Affluent Society”.

[2] Nurit Bird-David, Beyond “The Original Affluent Society.” Current Anthropology 33:25-47

[3] Uma frase que os Anarquistas Verdes gostam de usar em seus escritos. Por mais que lutem pelo seu mundo contra a civilização, se alguém se machuca, não era a intenção deles, tá bom?

[4] Humano de Quatro Patas, A Mercantilização do Selvagem e suas Consequências, Black and Green Review n.1, Humanos de Quatro Patas, O Vento Ruge Ferozmente, Fundações Selvagens e a Necessidade de uma Resistência Selvagem, Black and Green Review n.4

Os Anarquistas Verdes denunciam sem hesitação aqueles que são inspirados em sociedades não-igualitárias em sua confrontação contra a civilização se não juraram lealdade à sua ideologia. Veja Choloa Tlacotin, Uma Carta a: “Halputta Hadjo”. Mas um Anarquista Verde, graças ao seu conhecimento superior e melhores intenções, pode escolher o que quiser do banco de dados antropológico.

[5] Anne Chapman, Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam – Anne Chapman, A Mulher-Lua na Sociedade Selk’nam

[6] À medida que a tecnologia escurece nossas vidas, os próximos Unabombers aguardam seu momento – Jamie Bartlett, The Telegraph, 13 de Maio, 2014

Aponte Mais Alto

Tradução do escrito Aim Higher, de Abe Cabrera.

Alfredo Bonanno abre sua famosa obra, “O Prazer Armado”, com esta passagem:

“Por que diabos estes benditos meninos atiraram contra Montanelli nas pernas? Não teria sido melhor ter disparado na boca? Claro que sim. Mas, além disso, teria sido mais grave. Mais vingativo e sombrio. Deixar fodida uma besta como esta pode ter um lado mais significativo, mais profundo, que vai além da vingança, do castigo pela responsabilidade de Montanelli, jornalista fascista e servo dos grandes senhores. Aleijá-lo significa forçá-lo a desistir, a lembrar-se. Por outro lado, é uma diversão mais agradável que atirar em sua boca, com pedaços de cérebros saindo de seus olhos.”

Claro, matar alguém é muito mais definitivo que deixá-lo coxo, sem dúvida. E talvez haja também consequências legais envolvidas (peso na consciência?). É como quando algumas pessoas dizem que a vida na prisão é pior que a pena de morte. Há um ponto aí, dependendo da perspectiva do observador. Pessoas inocentes podem ser libertadas, mas não podem ser ressuscitadas. Talvez um fascista coxo possa mudar seus costumes, ou talvez você apenas quer que ele sofra. Talvez você durma melhor à noite sabendo que “só o deixou coxo”. Ler a mente de alguém é um exercício fútil, então pararei por aqui.

Mas por que disparar na cara de um fascista seria mais “grave”, mais “vingativo e sombrio”? (“Ma sarebbe stato anche più pesante. Più vendicativo e più cupo.”) Bonnano passa a falar da piedade dos revolucionários, levando em consideração que a revolução está longe de ser piedosa. Para ele, estão apenas de fofoquinha, para se divertirem contra a máquina cinzenta que busca nos oprimir, e outro monte de blá blá blá insurrecional sobre ter esperança, mas sem realmente ter esperança, lutar, mas se divertir ao mesmo tempo, etc. Tudo se resume em ultrapassar estas dicotomias, e é por isso que a coisa menos grave é mais divertida enquanto que a coisa mais sensível (disparar na cara e eliminá-lo) é de alguma forma a coisa mais moral, o mais “sombrio”, e o menos subversivo.

Mas, de acordo com alguns grandes insurrecionalistas sem insurreição, ainda mais subversivo é não fazer completamente nada e fingir que o mundo “normal”, o mundo em que se vive de fato, o de milhões de pessoas, simplesmente não existe. Veja você, tudo se trata de fugas binárias, bem e mal, revolução e vida real, natureza e civilização, o Eu e Você, o Um e os Muitos, etc., apenas afirmando que não existem. (Isso me lembra a história talvez apócrifa da Rainha Vitória apagando a Bolívia do mapa após o Embaixador de Sua Majestade Real ter sido expulso do país e posto nas ruas montando um burro como forma de humilhação). Veja como tudo se trata da percepção; estar consciente em oposição e ser “inconsciente” (estar acordado* NdT 1, como as crianças dizem nos dias de hoje). E neste sentido, fazer qualquer coisa que se assemelhe remotamente ao terrorismo, violência revolucionária, ou mesmo a violência criminal, é cair nas mãos do Binarismo Opressor. Em sua bolha, se você denuncia o Binário desde o começo, você vencerá e terá transcendido. Sim, eu também sou um bastardo em minha imaginação. Meus amigos imaginários também pensam que sou especial (“Insurrecionalistas sem insurreição” me lembra a caracterização do comunista Bukharin dizendo que o anarquista é um liberal com uma bomba. Você pode fazer a aritmética sozinho). Foi aproximadamente na metade da minha vida, mas ainda posso me lembrar da Ideologia Alemã e processando o jovem Marx, seu ponto principal era que a refutação de algo no abstrato não destrói aquilo no mundo físico. Eu não vou entrar em toda a polêmica do “São Marx”, mas vou tentar citar Teses sobre Feuerbach encima de outra problemática hegeliana que o autor comunista aborda:

“O problema de saber se ao pensamento humano pode ser atribuído uma verdade objetiva não é um problema teórico, mas um problema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a mundanidade de seu pensamento. O litígio sobre a realidade ou irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico…

A vida social é, em essência, prática. Todos os mistérios que levam a teoria ao misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.”

Vamos salvar o leitor de toda a questão de “o ponto está em mudar isso”. Outro marxista (Trotsky?) resumiu o princípio mais sucintamente dizendo algo como (parafraseando): “Quando uma ideia busca o controle das massas, se converte em uma força material.” Não importa se uma ideia é “falsa”, se existe um deus ou não, etc. Deveria importar, mas realmente não é assim. Se as pessoas estão prontas para matar ou morrer por ela, é uma realidade física, pode até ser uma realidade física superior (um deus?). O progresso, por exemplo, pode ser um fantasma sem base na “realidade física”, mas essa ideia criou a Hidrelétrica das Três Gargantas na China: a crença firme na ordem, no futuro, na benevolência da dominação do homem sobre a natureza, νόμος sobre φύσις. Você se negar a lidar com isso e retrair sua própria imaginação e opinião significa simplesmente que você acaba protegido por sua fortaleza de opiniões intransponíveis. Isso parece uma vitória pírrica, se é que alguma vez existiu uma.

Mas vamos voltar ao tiro na perna: não poderíamos dizer que este “prazer” está infectado pela ideologia neo-cristã, como um malware criando um backdoor no software insurrecional? Por que não é divertido ver cérebros escorrendo pelo oco de um olho, mas ver um fascista se contorcendo de dor porque lhe espatifaram a patela é legal? Pode ser que haja medo que te considerem um psicopata por matar alguém, mas regojizar-se por deixar alguém coxo não deveria te catalogar no status de psicopata, é? (explique isso para uma pessoa comum para ver se compram a ideia). Não poderia ter nada a ver com todo o assunto de “Não Matarás”, certo? Ou o monopólio absoluto sobre a vida e a morte que o Rei, o Estado, etc., reivindicaram sobre as pessoas por milênios no contexto europeu? Talvez estas pessoas deveriam começar a ser honestas consigo mesmas, mas provavelmente não o farão. Elas não deveriam se surpreender, em todos os casos, quando algum de seus compas chegue a conclusão de que todo o derramamento de sangue é “fascista”, ou se alguns mais ainda confusos flertam com os “movimentos sociais” que promovem a intervenção do Estado para desarmar todo o mundo.

A moeda humana, mesmo para o mais fervoroso insurrecionalsita, para o traidor da espécie mais entusiasta, é preciosa demais. Não vamos invalidar esta moeda, eles exortam; ao fazê-lo, a pessoa cai no cálculo moral da sociedade. Ao ser imoral, reverencia-se a moralidade, em oposição a ter a atitude correta, a “consciência correta”. Uma percepção tão alta pode tornar a travessia de uma rua um ato revolucionário, pode criar abundância do nada, pode partir o mar. Mas em termos de desafiar o humanismo inerente, o cristianismo inerente a todas as ideologias “radicais”, não podemos fazer isso. Desculpe, não vamos prestar-lhes atenção, e seguiremos com a próxima moda da semana que prometa salvar uma sociedade que não quer ser salva, ou ao menos nosso confortável lugar nela.

Atirar no joelho é atirar nos ramos mais altos. O atacante está claramente perturbado por algo a ponto de usar a violência. Por que você quer ferir essa pessoa? Por que ela tem poder? Quem lhe deu esse poder? Ou quem consente que o tenha? Há mais de “nós” que “deles”, certo? Com quem você realmente está zangado? Você realmente acha que matará a árvore se você podar o suficiente? O que te impede de atirar na raiz? Quando você se vê de frente para o indivíduo e para o coletivo, o que te impede de apontar mais alto, acima dos joelhos, na direção de onde o problema realmente está? Além do bode expiatório para a Massa amorfa que o mantém em sua posição de poder?

Nota do Tradutor:

1. A palavra usada em inglês é “woke”, termo político de origem afro-americana que se refere a uma consciência perceptiva respeito à justiça social e a justiça racial. Nas acepções mais modernas do termo, é usado para falar de consciência social em termos gerais.

Uma Abordagem Extra-moral à Artificialidade

Tradução da reflexão Extramoral Approach Artificiality, extraída do blog Antisocial Evolution.

As leis sociais são um sistema de regras impostas à maioria das pessoas civilizadas desde o nascimento. Elas são um conjunto de regras que governam como você deve viver para fazer a sociedade funcionar: não roube, seja uma boa pessoa, trate os outros como você gostaria de ser tratado, somos todos iguais e se pudéssemos deixar de lado nossas diferenças e trabalhar juntos nós viveríamos em uma utopia de ouro. Estas leis são uma mistura da espuma borbulhante da doutrina judaico-cristã tradicional e o humanismo liberal moderno. É a maior fraude de todos os tempos, o engano mestre, um sistema de mentiras envolvidas em um lindo pacote e chamadas de civilização. É como ser fodido por um porco vestido de freira.

Logo está a lei natural, a lei real, a natureza primitiva do homem, a parte de nosso cérebro que se desenvolveu ao longo dos últimos milhares de anos, sobrevivendo às eras glaciais, secas, em florestas, desertos, à pragas e guerras. É o cérebro do lagarto, o cérebro animal, a parte de nós que impulsiona instintos e comportamentos nos níveis mais profundos.

Em nossa ignorância pensamos que somos removidos a um nível de distância das bestas da terra. Qualquer um que tenha animais de estimação ou que tenha estado no meio da natureza sabe que existe uma lei selvagem que reina acima de tudo: a sobrevivência do mais apto, afunda-se ou nada, aprende a voar ou morre tentando. “Vitória ou Valhala.”

Isso não quer dizer que o altruísmo em certo ponto não exista. Experimentos mostraram que os ratos arriscam suas vidas para libertar seus amigos do cativeiro. Os bonobos nas tribos compartilham a comida entre si. Um cachorro poderia adotar um gatinho órfão como se fosse seu e cuidar dele.

Não estou dizendo que a “bondade” não exista em nossa natureza primitiva. Mesmo assim, as leis da sociedade civilizada são uma farsa. As regras escritas em tábuas de pedra e assinadas por “deus” eram, obviamente, dirigidas a pessoas nos escalões mais baixos da sociedade – não para os ricos e poderosos.

Se você olha a demografia de hoje, são os pobres que são os mais religiosos e os ricos os menos. Os ricos mentirão, roubarão e serão opressivos contra qualquer um que cruze em seu caminho – isso se chama viver sob as leis naturais.

A lei natural é viciosa. Ela é a mãe que insiste e critica, que aponta suas maiores inseguranças com risadas em um sorriso maligno. Ela não é a pequena amorosa Terra, mãe das flores, doces e abraços. Ela é Kali em um embate, incendiando florestas no chão. É a furiosa e ciumenta Hera, atormentando e destruindo aqueles que se opõem a ela. Sua compaixão é grande para aqueles que a respeitam, mas sua ira é a morte experimentada milhares de vezes em um tsunami, por isso andamos em nossas vidas diárias, falando, atuando e respirando sob as leis sociais – quando no fundo de nosso subconsciente – estamos vivendo sob a lei natural. Por que o homem estabelecido com uma esposa e uma família arrisca tudo por uma noite de paixão com uma mulher jovem e bonita, mesmo quando ele sabe que as repercussões poderiam ser a solidão, o divórcio, e intermináveis pagamentos de pensão alimentícia? Por que os líderes de países levam seu próprio povo à ruína com dívidas intermináveis e guerras em busca de riqueza – mesmo quando estão em risco?

Os tolos e os idiotas quebram a cabeça e ficam com suas mandíbulas abertas, estáticos por aí, como se fossem uma horda de vaginas arregaçadas. Um ponto de interrogação que paira no ar como um fedor estagnado.

No início de nossas vidas, estamos posicionados em um tabuleiro de xadrez, mas nos dizem que é um tabuleiro de damas. Como peões obedientes, nos concentramos em avançar um quadrado de cada vez – apenas para nos vermos surpreendidos e espancados quando a torre captura nossas vidas com uma varredura limpa. Como ela pode fazer isso? É justo? Como ela pode simplesmente atravessar todo o tabuleiro? Claro que ela pode, quando você percebe o jogo que está jogando.

Assim que acorda, você está na selva, bebê. Como primatas, é onde começamos e nunca saímos realmente. É claro, talvez sejamos astutos o bastante para criar pequenas casas e estradas ou cercar subúrbios que podem dividir nossas falsas vidas acomodadas.

Mas a civilização, como a conhecemos, tem apenas 5.000 anos de idade. A moderna sociedade industrial tem apenas 200 anos de idade. As leis reais dos homens foram estabelecidas ao longo dos 40.000 anos de nossa existência como bestas, e até mesmo as leis de outros primatas antes disso sequer acontecer.

Poderia a psique humana mudar tão rápido para se adaptar às leis humanitárias, liberais e cristãs? Talvez quando se corte as genitais e lobotomize a mente. Por que você acha que os antidepressivos prevalecem tanto na sociedade de hoje? Por que você acha que as pessoas vão a caras terapias por causa de seus flácidos casamentos e vida sexual?

Então acorde da ilusão. Tudo o que foi dito a você é uma mentira. Perceba o jogo que você está jogando e jogue-o bem. Não há equivalentes. Apenas ganhadores e perdedores. Você é o lobo ou a presa?

Eco-terrorismo, Eco-fascismo, Eco-extremismo, Eco-anarquia e a Floresta Białowieża

Esta é a tradução de Eco-terrorism, Eco-fascism, Eco-extremism, Eco-anarchism and the Bialowieza Forest, respeitável opinião de Julian Langer, eco-radical radicado no Reino Unido responsável pelos blogs Eco-Revolt e Feral Culture. Na ocasião Langer se manifesta sobre as críticas de alguns anarquistas nos Estados Unidos em relação às ações dos eco-extremistas.

A última floresta primaveril da Europa é bela floresta Białowieża, lar de bisontes, raposas e uma infinidade de outras criaturas vivas, os últimos remanescentes de uma Europa selvagem agora lembrada apenas em mitos e lendas, que é situada na região da atual Polônia, e atualmente está sob ataque de madeireiros.

Como indicado no vídeo acima, o mais alto tribunal da União Europeia ordenou que o governo polonês parasse de entrar na área (1). O movimento nacionalista de extrema direita em ascensão na Polônia levou isso para sua pauta (2), (desta forma, a UE) chama os ambientalistas que buscam defender e apoiar a floresta de “terroristas verdes”.

Esta não é a primeira vez que os ecologistas e os anarquistas foram taxados de terroristas, houveram eventos como o de Langnau na Suíça em 2010 (3) que puseram o eco-anarquismo na imprensa britânica, sendo rotulados como terroristas. O FBI (4) lista grupos eco-anarquistas como Earth First!, ALF e ELF como grupos terroristas. Mas isso é completamente estranho por rotular grupos que na maioria dos casos causam danos à propriedade como grupos terroristas.

É terrorismo sabotar equipamentos madeireiros, escalar e sitiar árvores, e não danar pessoas, não infligir violência a ninguém e, em geral, fazer todo o possível para evitar ferir pessoas? É terrorismo cortar e destruir um dos ecossistemas vivos mais antigos do planeta, lar de mais vida silvestre do que se pode imaginar, uma fonte de cura para nossa atmosfera, um modo de vida em si, de uma maneira brutal? Um me parece terrorismo, e o outro não. No entanto, e quanto ao rótulo que os ecologistas muitas vezes chamam de “eco-fascismo”: tem algum peso nisso?

Em reação à ascensão do Trumpismo e aos crescentes movimentos de direita nos Estados Unidos e Europa, os antifas e o antifascismo tornaram-se mais visualmente ativos e cada vez mais fazem parte da política cotidiana. Os grupos anarco-comunistas, ligados aos antifas, realizaram recentemente entrevistas com a Fox News (5) sobre o tema do racismo e o autoritarismo na era política de Trump. Mas e os eco-anarquistas?

O Earth First! tem falado durante muito tempo contra o fascismo e a xenofobia, e apoiou ações que se opuseram diretamente a Trump antes de sua presidência. (6) O ambientalismo como movimento apoiou durante muito tempo as lutas anticolonialistas (7), e pode-se argumentar que o ambientalismo não pode ser separado do anticolonialismo, já que o fascismo italiano-imperialista têm laços inegáveis e relações amistosas com o colonialismo. (8)

O escritor ambientalista radical Derrick Jensen escreveu sobre, em oposição aos laços e a influência do fascismo nas indústrias e negócios hoje em dia. (9)

Muitos daqueles que querem vincular o ecologismo com o fascismo buscam inspiração na simpatia nazi pela natureza (10), extraindo o sangue e as narrativas do solo ligadas ao nazismo verde (11). Este é obviamente um argumento bastante pobre para o homem de palha, mas frequentemente é popularizado, e apela a argumentos baratos do tipo Reductio ad Hitlerum.

Então, qualquer tentativa de vincular os eco-radicais com o fascismo parece muito fraca, se é que isso pode ser feito, com eco-radicais e eco-anarquistas que têm vínculos mais estreitos com os antifascistas que com a extrema-direita. Mas quais são os sentimentos entre os grupos radicais?

O grupo anarquista-comunista It’s Going Down recentemente (12) criticou o grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) através de uma rodada de artigos sobre o eco-extremismo e sua relação com o anarquismo. Em geral, as críticas foram direcionadas às táticas mais violentas deste grupo no México, que abraça a categoria do terrorismo e pretende criar terror para os civilizados.

It’s Going Down acusou este grupo eco-extremista de ser “eco-fascista”, e tentou manchar nomes de projetos anarquistas que têm algum tipo de ligação ou que estão em discussão com o eco-extremismo.

O eco-extremismo é um movimento que se separou do anarco-primitivismo e de Kaczynski, seguindo um viés ecologista radical em favor de uma abordagem do tipo niilista-pagã para o discurso e a prática eco-radical. Pessoalmente, não estou convencido de tudo o que vi emergir das escrituras eco-extremistas nem encontro o amor de ITS à violência aleatória completamente vulgar e indesejável, mas simpatizo com uma grande parte da crítica do argumento eco-extremista, particularmente suas críticas aos anarquistas e ecologistas de esquerda.

E simpatizo também com esta crítica aos anarquistas por parte deste escritor eco-extremista (13), sobre a fraqueza dos argumentos anarquistas, onde os anarcos simplesmente chamam “fascista” tudo o que não gostam, algo que parece estar acontecendo. Algo que me encanta no discurso eco-extremista é sua oposição ao antropocentrismo e o abraço à natureza selvagem, que definem como:

Natureza Selvagem: “A Natureza Selvagem é o principal agente da guerra eco-extremista. Os filisteus se opõem à invocação da “Natureza Selvagem” taxando isso de atavismo ou “superstição”, mas o fazem apenas por causa da sua própria domesticação e idiotice. “Natureza Selvagem” é tudo o que cresce e se manifesta no planeta em objetos animados e inanimados, de pedras a oceanos, de microrganismos a toda a flora e fauna que se desenvolveram na Terra. Mais especificamente, “Natureza Selvagem” é o reconhecimento de que a humanidade não é a fonte e o fim da realidade física e espiritual, mas apenas uma parte dela, e talvez nem mesmo uma parte importante.”, extraído de Atassa: Reading in Eco-Extremism. (14)

Este abraço ao selvagem é algo que grande parte do ecologismo e a maioria dos anarquistas perderam, já que ambos se fundiram cada vez mais à civilização e a suas narrativas.

Voltando à floresta Białowieża, um dos últimos lugares que encarna completamente o selvagem, se você olhar para ela desde um olhar do tipo pagão eco-extremista ou desde um olhar eco-anarquista ou eco-radical, é um lugar de óbvia beleza e valor.

Não podemos dizer se a proteção da UE fará muito ou não, especialmente com a crescente onda de nacionalismo dentro da Polônia e a quantidade de extração ilegal de madeira que não é controlada em todo o mundo. O que podemos fazer é sermos aliados do selvagem, viver vidas selvagens e sermos iconoclastas em relação a esta cultura/civilização/Leviatã que está destruindo antropocentricamente a biosfera, cuja beleza selvagem nós amamos.

Não somos fascistas nem terroristas, mas utilizaremos os meios que temos disponíveis e lutaremos pelo que amamos. Este site recentemente reeditou este o artigo sobre o Chamado Internacional de Mobilização Para a Defesa da Floresta Hambacher (15), como parte da resposta para defender esta floresta na Europa.

Necessitamos retornar ao bosque e defendê-los por todos os meios à nossa disposição.

Para terminar, algumas citações:

“O caminho mais claro ao Universo é através de uma floresta selvagem.” – John Muir

 

“A cultura nos levou a trair nosso próprio espírito e integridade aborígene, rumo a um reino cada vez pior de alienação sintética, isolante e empobrecedora. O que não quer dizer que não haja mais prazeres cotidianos, sem os quais perderíamos nossa humanidade. Mas à medida que nossa situação se agrava, vislumbramos o quanto deve ser apagado para a nossa redenção.” – John Zerzan

 

“Precisamos da tônica da loucura … Ao mesmo tempo em que somos sinceros para explorar e aprender todas as coisas, exigimos que todas as coisas sejam misteriosas e inexploráveis, que a terra e o mar sejam indefinidamente selvagens, sem serem inspecionados e não sondados por nós porque são insondáveis. Nunca podemos ter o suficiente da natureza.” – Thoreau

 

“O Selvagem ainda permanece nele, e o lobo nele simplesmente dormia.” – Jack London

Notas:

1) https://www.theguardian.com/environment/2017/jul/28/eu-court-orders-poland-to-stop-logging-in-bialowieza-forest
2) https://www.ft.com/content/67618b9e-8893-11e5-90de-f44762bf9896
3) http://www.independent.co.uk/environment/eco-anarchists-a-new-breed-of-terrorist-1975559.html
4) https://archives.fbi.gov/archives/news/testimony/the-threat-of-eco-terrorism
5) http://video.foxnews.com/v/5509083595001/?#sp=show-clips
6) http://www.earthfirst.org.uk/actionreports/node/23958
7) https://www.opendemocracy.net/uk/anna-lau/climate-stories-environment-colonial-legacies-and-systemic-change
8) https://medium.com/@malorynye/the-brutal-friendship-between-colonialism-and-fascism-some-thoughts-from-aim%C3%A9-c%C3%A9saire-on-9224e90550b5
9) http://www.derrickjensen.org/culture-of-make-believe/lamont-and-mussolini/
10) http://theunion4ever.com/general/environmentalism-new-fascism/
11) http://www.spunk.org/texts/places/germany/sp001630/peter.html
12) https://itsgoingdown.org/nothing-anarchist-eco-fascism-condemnation/
13) https://youtu.be/708mjaHTwKc
14) https://ia801606.us.archive.org/32/items/AtassaReadingsInEcoExtremism/Atassa%20-%20Readings%20in%20Eco-Extremism.pdf
15) https://feralculture.blog/2017/07/23/international-mobilisation-call-for-the-defence-of-hambacher-forest-2/

Withered Green Anarchism

Withered Green Anarchism é um articulado texto crítico ao “anarquismo verde” escrito por Lyokha para a publicação francesa La Mauvaise Herbe vol.17 no.2.

“No one cares about them anymore around here, why don’t you just let them wither away in impertinence?” asked a good friend who identifies as an anarcho-primitivist.

Anecdotal perhaps, but I couldn’t help but remember a very successful event on radical ecology which I attended not so long ago. It was a well-prepared conference, by an anarchist who knew his shit. To a crowded room of young enthusiastic radical students, during a segment devoted to anarcho-primitivism, the whole discourse on equality, direct democracy, and even the 15-hour-workweek-which-feels-like-play-anyway was conveniently served. [1] At least he didn’t start talking about telepathy or telescopic vision. I remember it made such a good impression that a coordinator from the College where the event was taking place approached the Mauvaise Herbe, who were on place distributing publications, to see if they would eventually come share their positive message with the youths. They gave her a few Mauvaise Herbe to read and I think she changed her mind.

But it’s true that we don’t hear much about the Green Anarchists around here. Yet, in my conversations and in what I often hear from the “anti-civ” discourse, here as much as elsewhere, are the same reflexes I know all too well, the same references, the same premises, and the same ends. The humanistic-hedonistic discourse on primitive life has become mainstream in the milieu. In complacency, the speculations of some have become facts for others. Anarchists in general have never strayed too far from progressivism, they feel at home, at ease with it. Those who have chosen to deviate from it through their words and actions have always come up against the churches guiding the paths of “struggle”. It’s almost come to a point where one should profess their faith with each statement, each action.

For many now, in these moments of clashes, to put the rhetoric of social cohesion into question is to revel in “fascism”. While the anarcho-cybercops of the insurrectionally righteous make calls for witch hunts, it is to all their Inquisition that I dedicate these provocations.

Green is the new red

“This ideological view of our past has been radically overturned in recent decades, through the work of academics like Richard Lee and Marshall Sahlins. A nearly complete reversal in anthropological orthodoxy has come about, with important implications. Now we can see that life before domestication/agriculture was in fact largely one of leisure, intimacy with nature, sensual wisdom, sexual equality, and health. This was our human nature, for a couple of million years, prior to enslavement by priests, kings, and bosses.” -John Zerzan, A Future Primitive

We are of an era disillusioned with the promises of progress. It did not bring the promised utopia. Progressives are no longer necessarily those who had promised us that “the machine will work for man!”, those who more than a century ago had already announced the same “leisure, intimacy with nature, sensual wisdom, sexual equality and health” thanks to human and technical development… they are now rather those who are worried about the crises it generated, those who follow the newswire of the unfolding apocalypse – the ecological disaster and the planetary civilization in total decadence.

But some still won’t lose hope in humanity, and the possibility that provided a new universal consciousness, it can impel a culture of resistance of nomadic hunter-gatherers who will carry all the humanism that 20th century anarchism has inherited!

And, it is in this sense that an essential work of the anarcho-primitivist canon like A Future Primitive is an exercise in seduction, with its critique of civilization and praises of primitive life geared towards pleasing those humanistic sensitivities left disappointed by the consequences of modernity.

Therefore, it draws most abundantly from the anthropological works of a certain period when attempts were made to break the myth of a brutal primitive life with bold statements on leisure and egalitarian aspects, more attractive to the modern civilized – works from anthropologists who wanted their field to fuel social debates.

In an essay dealing with the legacy of Marshall Sahlins’ acclaimed work quoted by Zerzan, The Original Affluent Society, anthropologist Nurit Bird-David reminds us that “The general interest in it no doubt reflected our symbolic and ideological needs and our (Western) construction of the prehistoric past. […] Intended to provoke as well as to document, the essay soared beyond conventional scientific discourse, appealing directly to Western fantasies about work, happiness, and freedom.” [2]

For many of those who identify with anarcho-primitivism or with a certain Green Anarchism, the life of nomadic hunter-gatherers of the paleolithic represents anarchism as lived by humans for millennia. Some will even call it Primal Anarchy. In this original utopia, this anarchist Garden of Eden, they see our true “human nature”. Thus, in their propaganda, to an audience inclined towards anarchism, with its progressive-humanistic values, they praise primitive life according to how anarchistic it appears.

This selective reading of anthropology has become widespread among anarcho-primitivists and has influenced many other anarchists (including stirnerians and nihilists). It reduces primitive life to generalizations about presumed essential traits – egalitarian, collectivist, anti-oppressive, hedonistic, ecological and anarchistic traits. The relevance of primitive life becomes its representation of these values.

Wild behaviors who do not fit-in are either dismissed as unimportant when they are not simply ignored, or they are treated with much suspicion, assimilated to the effects and consequences of civilization (syncretism, encroachment, misinterpretation by the civilized, etc.), while behaviors that sit well with progressive values never receive the same questioning or suspicion, let alone those values ​​themselves. The result is an interpretation of the hunter-gatherer way of life as a model of progressive society par excellence, with the immediate-return hunter-gatherer as its purest representative.

In socialist tradition, indigenous cultures have no importance other than folkloric recuperation, since they are all reduced to their proletarian aspects: socialist adventures in Latin America have left us a clear testimony of this. Where the proletarian experience lacked, it was instated with great strides of progress, in the name of humanism, finishing off already decimated indigenous cultures to integrate them into the great brotherhood of men. Is it not somewhat in this tradition that today many anarchists of various tendencies project their ideology on the ways of the ancients by presenting them as anarchistic, as practitioners or examples of anarchism? We can pick and choose what suits the current narrative and the anarchist steamroller can run over the rest. How civilized.

What we can learn from anthropology and archeology about the life of groups of nomadic hunter-gatherers over time is that it seems far from homogeneous. If we want to find progressive behaviors, like the ones I named, we will find some. If one wants to look for behaviors of a completely opposite spectrum, one will also find them: ideologues will find what they’re looking for.

But it’s precisely this variability that seems relevant to me. The wild calls into question the entire narrative on human nature, all our domestication. This includes all the more our humanist inclinations essential in impelling the necessary social progress for the continuation of development.

Humans in relationship with an infinity of factors and tangents, over thousands of years – an infinity of lived situations, and therefore, a diversity of reactions, adaptations, ways of conceiving and acting. These characteristics make it difficult to simply transpose the ways of one group to another. For a way of being to be reproducible from one group to another, it is better to replace the variables by a homogeneous and controlled environment, and this is what progress does.

If in primitive life we like to see the reflection of values which are familiar to us, such as cooperation, collectivism, equality, love of neighbor, sharing, and tolerance, values we have been taught since childhood, should we not ask ourselves where they lead us in our current situation? Context changes everything.

This idyllic representation of primitive life is especially misleading since the collapse of civilization is far from being the same as the paleolithic period. Earth is already no longer the one where nomadic hunter-gatherers flourished, and who knows in what inhuman state it could become during a collapse of civilization and thereafter.

Even with the bait of utopia, to what extent would those who want the good of humanity be able to desire and act upon the collapse of civilization, possibly precipitating this humanity towards the abyss?

“We Have Seen the World We Want to Live In, and It Is Worth Fighting For” [3]

“Anarcho-primitivism is an allegiance to a specific human adaptation to life on this planet, a way of life which all known evidence shows us has endured sustainably and in intimate relationship with wild ecology for eons longer than any other. With this objective knowledge in hand, anarcho-primitivists will maintain our human agency and use it to take the types of actions we deem most effective and to simultaneously create the types of societies WE WANT to create. That is our prerogative.” -Choloa Tlacotin, A Letter to: “Halputta Hadjo”

Above all, it is the prerogative of the hypercivilized.

It is indeed the deeply civilized who, from the comfort of abstraction, can, in the blink of an eye, draw inspiration from James Woodburn’s principles of egalitarian hunter-gatherers as a rule of life; then, admire the warrior peoples who waged war against the civilized in North America; and finally, to marvel at the endurance that humans have been able to develop in difficult conditions, “like the Ona [Selk’nam]” in the Firelands. [4] They are agents of progress those who believe they can isolate what suits them in the database so to construct their ideal world worth fight for. Don’t come and present this to me as undomestication or whatever other bullshit.

Man has dedicated all the power of progress to try and control his destiny, and he still hasn’t succeeded. Anarchists, being the stubborn civilized they are, believe they can control the result of their actions by the will they put into them. Yet many of them know well that things do not always go according to plan (social strikes ending in general elections, things that explode at the wrong moment, etc.). Throughout history, all those who tried to create the society they wanted have failed, but the super anarchists will surely succeed…

But after all their efforts, would it be possible for example, that a few generations later the descendants of the anarcho-primitivists – rewilded children, hunter-gatherers rooted in the harsh landscapes of the predicted downfall of civilization – also become as resolutely patriarchal as the Selk’nam, whose cosmovision established very explicitly a division of the sexes and the spiritual and social domination of women by men? [5] (but this small detail that the Green Anarchists omitted in their publication, of a people for whom they expressed admiration and whose loss they lamented, it probably would’ve gone down badly with the Anarchist Book Fair.)

In any case, those with children should know there’s no guarantee they listen to our warnings. And anyway, I have the impression that the hypothetical wild children of the future primitive probably wouldn’t give a shit about the moralizing rhetoric of an old civilized ideologue who knows fuck all about their daily lives.

Hope, it’s better than nothing?

Hope has become quite a popular concept among Green Anarchists in recent years. Zerzan has dedicated one of his last books to it, Why Hope? The Stand Against Civilization, and with his disciples and collaborators, in their Black and Green Review publication, they have devoted constant attention to oppose their hope to what they consider an endemic nihilism contaminating anarchists.

In his editorial of Black and Green Review 4, Kevin Tucker tells us with a straight face how the absence of a journal published by the Green Anarchists “has led anarchists into the cul-de-sac of nihilistic terrorism and egoist soul searching. In that trajectory, anarcho-primitivism is a lightning rod for having the audacity to stand for something: to have staked our claim on seeing a world that is worth fighting for and defending. To want to build communities of resistance, support those that are and have been resisting civilization’s advances and to refuse the domestication process as it seeks to tear us from the wildness that runs through all life.”

For them, young Padawan, the despair these nihilists foment leads either to conformist navel-gazing, or to criticize or attack anyone and anything: their words and actions lead to nothing… And hope is better than nothing! …Is it not?

If it worked well for Christians, for Obama, and for the rebels in Star Wars, why not for the anarcho-primitivists of Oregon too?!

Not convinced to vote for hope? At the end of an interview with The Telegraph proudly posted on his website during the promotion of Why Hope?, Zerzan shares with us what so inspires him:

“Strangely, this is a good time to be an anarcho-primitivist,” says Zerzan. “We’ve never had more technology than now, and it’s coming out faster than ever. But that’s exactly why I think people will start pushing back. They are beginning to see that technology doesn’t deliver on its promises. So I’m hopeful. I’m very hopeful.”

To which the interviewer concedes:

“I too dislike technology sometimes. Like when my internet doesn’t load up quickly enough. And I’m generally convinced I’d be happier without being constantly connected, although I never seem to do much about it.” [6]

Surely, it’s because she hasn’t read the latest Black and Green Review yet.

And throughout Why Hope?, it is always that same answer: it is in the advent of a rewilding anti-civ mass movement, prepared for the imminent fall of civilization to which it will participate, that one must have hope for and invest themselves in with others.

“It won’t be easy but if a growing number becomes involved in such a move the ways and means can be found. I think that a growing number may be feeling the need for such a new direction.

We will figure out our paths when our goals can be seen and discussed. As we find each other, the necessary public conversation will begin and the effort to go forward together may ensue. No guarantees, but worth the liberating journey!” -John Zerzan, Why Hope?

That’s some solid shit right there. Anyone willing to bring down the whole power grid because Zerzan has some kinda good feeling, and we’ll see what happens?

But a movement carried by common sense and the hope of being the future of liberated humanity? How original! Nothing to reinvest Leviathan…

And if there was no fall of civilization? Let’s say there is never a transition to a primitive way of life, neither voluntarily nor by force of circumstances, that civilization overcomes what we believe to be insurmountable and transcends. There are firms, labs, universities and legions of ambitious nerds around the world working on exponential breakthroughs to meet the challenges of progress in the name of humanity. But yes, the triumph of progress is hypothetical, just as is a primitive future… and hope is nothing more than a question of faith.

“But if we are willing to make that perceptional change, to learn to embrace the coming age of nomadism, to see beyond ourselves and to empower ourselves through taking part in something much larger and more magnificent than our own lives, then we have the world to gain from it.” -Kevin Tucker, Means and Ends, Black and Green Review 4

Is the survival of humanity or of all life on Earth what generates and motivates my desire to see civilization annihilated (even if, among hypothetical scenarios, it is possible that civilization drags the entire biosphere with it in its fall)?

Does my disgust for civilization depend on a hypothetical future?

It is the everyday life, the overwhelming and suffocating presence of a humanized world, which disgusts me and weighs on me, and I do not feel any need to justify this feeling and this instinct by catastrophist theories or higher interests. Call me a rotten nihilist!

The world does not need a new liberatory ideology as much as it needs to get rid of what makes it possible to transmit an ideology on a large scale… unless it is one which corrupts the minds of the civilized causing them to spiral down into such disruption, such antisocial disorder, such self-destructiveness, that global stability and ultimately the very functioning of society is seriously jeopardized.

Death to civilization and to all human progress!

-Lyokha

Notes:

[1] This referenced number of working hours originated from speculative studies in the early anthropological works of Richard Lee and Marshall Sahlins. Since then, the data from these studies has been contested in the field, and Richard Lee himself has long recognized some of its flaws. The current general consensus towards hunter-gatherers is an average 30 to 40 hour workweek, but there`s still much debate about what should be considered work.

See: Elizabeth Cashdan, Hunters and Gatherers: Economic Behavior in Bands;Richard Lee, The Dobe !Kung; David Kaplan, The Darker Side of the “Original Affluent Society”.

[2] Nurit Bird-David, Beyond “The Original Affluent Society.” Current Anthropology 33:25-47

[3] A sentence which Green Anarchist like to use in their writings. Although, while they’re fighting for their world against civilization, if someone gets hurt it wasn’t their intention, ok?

[4] Four Legged Human, The Commodification of Wildness and its Consequences, Black and Green Review 1
Four Legged Human, The Wind Roars Ferociously, Feral Foundations and the Necessity of Wild Resistance, Black and Green Review 4

Green Anarchist denounce without hesitating those who draw inspiration from non-egalitarian societies in their confrontation with civilization if they haven’t pledged allegiance to their ideology. See Choloa Tlacotin, A Letter to: “Halputta Hadjo”. But a Green Anarchist, thanks to his superior knowledge and his greater intentions, can pick and choose whatever he pleases in the anthropological database.

[5] Anne Chapman, Economic and Social Structure of the Selk’nam Society
Anne Chapman, The Moon-Woman in Selk’nam Society

[6] As technology swamps our lives, the next Unabombers are waiting for their moment, Jamie Bartlett, The Telegraph, May 13th, 2014

Paper On Decolonial Violence and Eco-Extremism For 2018 ASN Conference

Paper On Decolonial Violence and Eco-Extremism For 2018 ASN Conference é um artigo escrito por Julian Langer do blog Eco-Revolt e Feral Culture que foi apresentado em 13 de Setembro de 2018 durante a Anarchist Studies Network Conference, na Universidade de Loughborough. Neste denso texto o autor aborda a posição moralizante da esquerda (incluindo os anarquistas) em torno da “violência” que é abordada amplamente e como o eco-extremismo ultrapassa esta barreira.

On September the 13th I presented this paper at the Anarchist Studies Network Conference, at Loughborough University. This was written to be spoken and I haven’t edited it to make it any more readable.
*
Pessimist political theorist Jacques Camatte, whose writings after his years of being a Marxist theoretician influenced anarchist discourse at the time – in particular the anarcho­primitivist wing – stated in his work Against Domestication that – “There are others who believe they can fight against violence by putting forward remedies against aggressiveness, and so on. These people all subscribe, in a general way, to the proposition that each problem presupposes its own particular scientific solution. They are therefore essentially passive, since they take the view that the human being is a simple object to be manipulated. They are also completely unequipped to create new interhuman relationships (which is something they have in common with the adversaries of science); they are unable to see that a scientific solution is a capitalist solution, because it eliminates humans and lays open the prospect of a totally controlled society.”

It seems abundantly obvious that we live amidst a great deal of violence and that violence and the need to end it is the dominant theme within the narrative we are located within. The violence of rape culture; the violence of racial and colonial oppression; the violence of ISIS, Islamists and the international forces against them; the violence of Russia, North Korea and the USA; the violence of school shootings in America; the violence of mass stabbings from gangs in London; of bombs, cars, guns, knives and penises. Many acts of violence are spoken of less; the violence of animal traps; the violence of chainsaws; the violence of dehabitation to develop an area, or to grow industrial monocultures of crops, to feed a growing population.

Within radical discourse, particularly that of the anarchist tradition, we generally have somewhat of a strained relationship with violence. My wish here is to identify a theme within our discussions which often gets over looked – this theme is one regarding interiorisation and exterioisation, under the gaze of an big-­Other. I will focus this within contemporary discourse around decolonial, anti-­colonial and eco­-extremist activities. This will also involve, in the later part of this paper, an ontological assertion, regarding what violence actually is.

Last year the Chilean indigenous anti­-colonial organisation Fight Of The Rebel Territory, in a single action, burned down 29 logging vehicles. Between January andMay 2016 the group committed 30 similar acts of property damage, in defence of the land they live upon, the forests and the wildlife. Similarly, MEND, the Movement for the Emancipation of the Niger Delta, an armed militant organisation of loose cells engaged in guerrilla warfare against oil companies, have blown up pipelines, attacked oil fields and kidnapped oil workers, as part of their anti­-colonial activities.

As voices for the English speaking radical environmentalist and anti­-colonial milieus, groups like Earth First! and Deep Green Resistance have spoken out in support for these groups, and others like them, seeking to legitimise them, within the context of radical discourse. This involves undergoing a process that Deleuze and Guattari called territorialisation, where a process of interiorisation brings these groups into the structure of particular machine. This brings these groups into the space of moral­ acceptablity, within a left­-wing oriented moral framework. From this, these actions, the activities of these groups, and similar others, become part of the narrative of left­ wing radical politics, regarding the progress of civilisation and history. They become characters within the chapters preceding the “revolution” and, in a similar way to that being described by Camatte in the quote I stated earlier, they are viewed as passive objects to be scientifically manipulated. As characters within the metadrama they reside within, they are allocated an identity that functions entirely as a symbolic signifier for an Other, who stands as the parental superego, granting their struggles as legitimate, like God determining who is going to heaven, or rather who will not be thrown into the gulag, even the anarchist one, after the revolution – interiorised – and who will be cast into hell, or the gulag, again, even the gulag
constructed by anarchists – exteriorised.

This is also the case in decolonial struggles that aren’t necessarily connected to eco-radical struggles, such as the Palestinian struggle against the violences of Israel, where unarmed protestors are painted as “innocent” by pacifist Leftist organisations that use their struggle as a platform for their own, with the implication being that armed Palestinians, such as Hamas, are legitimate targets for statist colonial violence.

While the organisations leaders, who might be educated in the western philosophies of Marxism, anarchist, etc., might embrace this ideological trajectory, I think that, in actuality, outside of this interiorisation, those individuals who are actively engaged in the actions of these organisations and similar ones; they do not care about progress, history, capitalism or any of that. They care about the forests, lands, wildlife, rivers and world that they are immersed in and live as Extensions of.

This machinic enframing functions, in the way Heidegger describes regarding technology and enframing, whereby, as objects, symbols and characters of a technological description, they fit within the mode of human existence stated before, that of the lef-t­wing ideological narrative, dehumanised, inanimate and un­-animal.

Now I want to turn to something that might seem in many ways entirely opposite, but I argue stems from the same narrative I have been describing here. To do this though, I’m going to do a short bit of history.

Ted Kaczynski’s 17 ­year bombing campaign is arguably the most successful campaign of its type. As the Unabomber, Kaczynski sent 16 bombs, to various locations within the USA. It was only after the publication of his manifesto, Industrial Society and its Future, that his motivations became clear and he captured. The work is a brilliantly articulated critique of technological society, which includes a critique of Leftism, which I will not go into here, as it is not necessary for this and would take up too much space. I only acknowledge it for its relevance for what I am about to go into.

Kaczynski’s influence, regarding the anti­-colonial space, is particularly noteworthy, regarding the post­-anarchist nihilist­-terrorist movement called Eco-­Extremism. Growing out of dark­net nihilist­-anarchist anti­-civ discussions, and almost entirely located within Southern and Central America, from indigenous anti­-civ individuals, with only a few cells within Europe, this movement is one that has actively sought to exteriorise themselves from the left­-wing narrative and machine.

In their anti­progressive anti­meliorist activities, the group which is the most vocal proponent of Eco-­Extremism, Individualists Tending Towards the Wild (translated from Spanish), ITS (as the S stands for savagery), focused their early activities on, like Kaczynski, bombing university institutions, such as nano-­technology laboratories; before moving onto their famed, through moral disgust, indiscriminate killings, in the name of Wild Nature.

In case you are unfamiliar with the group, I’d like to state here quotations from their earlier communiqués –

1. “Civilization is collapsing and a new world will be born, through the efforts of anti­civilization warriors? Please! Let us see the truth, plant our feet on the ground and let leftism and illusions fly from our minds. The revolution has never existed, nor have revolutionaries; those who view themselves as “potential revolutionaries”and seek a “radical anti­technology shift” are truly being idealistic and irrational because none of that exists, in this dying world only Individual Autonomy exists and it is for this that we fight.”

2. “A world without domestication, with a system stopped by the work of the “revolutionaries,” with Wild Nature born from the ashes of the old technological regime and the human species (what remains) returned to the wild, is completely illusory and dreamy.”

3. “ITS shows its true face, we go to the central point, the fierce defense of Wild Nature (including human); we do not negotiate, we carry out our task with the necessary materials, without compassion and accepting the responsibility of the act. Our instincts make us do it, since (as we have said before) we are in favor of natural violence against civilized destruction.”

The response ITS has received has been one of active exteriorisation on the part of leftists and moral-­anarchists. The left­-anarchist publication Its Going Down in particular spoke out against ITS, noticeably following their 29th communiqué, where they claimed responsibility for the murder of a woman in a forest, and have demonised anarchists and westerners who include Eco­-Extremism within discussions. Its Going Down struck ITS with the label of Eco­-Fascism in one of their condemnations of the group, in an obvious attempt to morally demonise them, excluding them from the community of groups and organisations deemed acceptable within anarchist morality. This is, like with MEND and Fight of the Rebel Territory, done under the gaze of a parental superego Other, repressing that which is deemed morally unacceptable, from a position of moral authority, as God. This is an example of what Camatte described, where the leftist condemners of ITS and Eco-­Extremism treat Eco­-Extremists, those interested in Eco-­Extremism and their own sympathisers and supporters, as objects for scientific manipulation, in a capitalistic move to control, to territorialise.

The Eco­Extremist journal Regresion Magazine makes a noticeable attempt to exteriorise itself, in both its name and its contents. It describes itself as the antonym to progress, as the antithetical regressive force, placing its strategy as one of active Marxist style dualistic dialectics. The magazine is one that claims to actively not want to be read or be trying to find readers, but makes itself available to read online by anyone. It is actively saying “we are not one of you” and “we are not a part of this”, in a very similar way to how Leftists seek to exteriorise Eco-­Extremism. From these examples I have presented, I have looked to identify that, in both positive and negative moral framings, through both interiorising and exteriorising within the narrative of progress, revolution and history, the leftist relationship towards anti­-colonial and decolonial radical and extremist projects is one whose machinic structure is functionally and ideologically colonialist and racist. The left does not accept or condemn the actions of indigenous and anti­-civ groups simply on their own terms, but layers it with the symbology of its own ideological design. As well as this, the decolonial movement has become so much a part of the Leftist machine, that, in the case of Eco­Extremists, indigenous peoples are moving away from the struggle.

At this point I feel to move to somewhere slightly different to where we have been for the bulk of this, though not straying too far away. I frame this in geographical place, rather than historical time, because what I am moving to is neither historically progressive nor reactionary, or regressive, whichever term you prefer, but metaphysically presentist, in an egoist and phenomenologically immediatist sense. Karl Popper stated in his work The Open Society and Its Enemies, where he critiques the teleological historicism of Hegel, Marx and similar thinkers as being fundamentally totalitarian, “History has no meaning”– a proposition undoubtedly disagreeable to anyone who embraces Leftist political positions, but this is the sentiment I wish to move forward from.

This is the matter of destruction, which I will later differentiate from violence. Now, when I look outwards from myself at what post-­anarchist discourse and action means now, in this present moment, as we find ourselves in systematic crisis, ecological collapse and amidst so much violence, it seems to me that we can really only being talking about ontology. I am not meaning that we are talking about and can only talk about vague and abstract concepts, but rather that at the root of our discourses and that if we are honest about our discussions we are talking about psycho­ontics, social­ontics, eco­-ontics, about Realities and about the Real – I am delving here, through bringing ontics in alongside ontology, into the world of Things (capital T) and reification (using the term equally in the sense meant by good old Commie Marx and the sense of the fallacy of concretism, also know as hypostatization).

These ontological discussions might often be framed within Symbolic theatres of ideologies, interiorising and exteriorising, in processes of territorialisation. But underneath this clothing, the bare­naked flesh of our discourse, lives and selves, isontological. We are, in many ways, all practicing ontological anarchists.

From this, I make this assertion, that the ontological anarchist project is one of active destruction, in the Heideggerian sense (with the k replacing the c) – I like to borrow Discordian philosopher Robert Anton Wilson’s term guerrilla ontology for this. As Heidegger found, destruction is a presentist task and doesn’t fit into normal categories of positive­negative, being nihilistically amoral and not positioned within the past. Being non­dualistically positive or negative, destruction here is a radically monist force, in the way collectivist­-anarchist Bakunin suggests when he stated “the passion for destruction is also a creative passion”– immediate; unlike the gnostic traditions of left­-wing revolutionary ideology, where both theory and practice retain an esoteric dualism, towards objects that can be manipulated scientifically.

Even more than as an anti­political practice, I assert that the actual objectless creative­destruction of Being is the process of becoming that is happening always. Civilisation and history, in this sense, are attempts to halt this process and create, through Symbolic reification, a social ontology of structured-­absolute space – the construction of territories, of objects with interiors and exteriors, of nature and the space that is outside of nature (civilisation), of sets and categories; a theatre of phantasms, technologically inauthentic, in the sense Heidegger argues, attempting to repress the relationality of Being, as temporally extended unfoldings, or rather the happening of life as the open space of possibility. Civilisation, in order to continue the machinery of its functioning, must restrict, through colonisation, morality, etc., the open space of possibility, through interiorisation and exteriorisation aimed towards a totalitarian narrative, with one directed pathway.

Now, in one sense what I, as someone from the anti­-civ world, am saying here is that we should do away with sets, categories, territories, interiors, exteriors, inclusion, exclusion, objects, symbols and other technological phantasms, but this seems unlikely at this present time to lead to much. So, alongside this, I wish to make another assertion for us as individuals, or rather as singularities, involved in the decolonial and anti­-colonial projects of deterritorialisation; that we radically embrace the notion of monism­as­pluralism; not to interiorise the cartography of radical space in a new way to the one we now do. Rather, to leave the situation as messy and to not judge the mess through moral condemnation, and not fit events within the structures of left­-wing ideology, but to leave it all in the open space of possibility. Perhaps this could be considered the eco­anarchist equivalent of Bergson’s liberal notion of the open society – though also, perhaps not. If, though, we are dealing with ontological processes, I suggest we consider our perceptions ofreality, as space and time, in the way the mathematician Poincare suggests in his philosophy of geometry; as having been born out of intuitions, which became tied to normative conventions rather than facts.

This is obviously a very uncomfortable idea I am asserting, as it leaves open basically everything, but if we are going to decolonised the structurally racist psychic­space of anti­colonial politics, then we are left with this space of discomfort, where we are having to acknowledge without morally categorising, in an anti­political sense.

Finally, I also wish to make an ontical assertion here, for the purposes of discourse, that much of what gets categorised as violence by anti­-colonial and eco­radical groups is not violence, with violence being a reified object of civilisation, signifying violation. Rather what is often in this way categorised as violence is actually an embrace of wild non­ontical acosmic ontological creative­destruction. Violation, in this way, seems to be the basic machinic functioning of civilisation – flipping ITS’s assertion of nature being violent and civilisation being destructive. The object of civilisation is the object of violence. This is not to seek to legitimise those actions I am describing as destructive rather than violent, but to differentiate for the purposes of post­-anarchist praxis.

To violate is to interrupt the flow of a space and to create a blockage, like a dam blocking a river, like a military coming to interrupt the everyday life of a community, like a penis forcing its way into somewhere through rape. Destruction is a creative aspect of the actualising­becoming­temporal processes of space that is Being. Destruction is the opening up of space.

To decolonise is to destroy the colonial production­narrative that is this culture. Lets deterritorialise, without reterritorialising, and not judge what grows out of the open space. Lets leave things open and not treat the world as an object for our manipulation. Lets not try to be God and lets destroy totalitarianism. Lets live free from interiors and exteriors, from inclusion and exclusion. Lets actually do no borders and no boundaries, and be anarchists embracing anarchy. Poincare said “Geometry is not true, it is advantageous”, but this does not go far enough – geometry isn’t true, but it can be adventurous!

This goes further than just the decolonial space obviously, as it includes the spaces of anti­patriarchy, radical environmentalism and anti­state theory and practice, as these also could do with deconstructing their territories and embrace the ontological notion of monism = pluralism – but there is not space in this essay to include thesestruggles.

I’d like to end this with this quote from autonomous-­Marxist philosopher Agamben – “What had to remain in the collective unconscious as a monstrous hybrid of human and animal, divided between the forest and the city – the werewolf – is, therefore, in its origin the figure of the man who has been banned from the city. That such a man is defined as a wolf­-man and not simply as a wolf … is decisive here. The life of the bandit, like that of the sacred man, is not a piece of animal nature without any relation to law and the city. It is, rather, a threshold of indistinction and of passage be­tween animal and man, physis and nomos, exclusion and inclusion: the life of the bandit is the life of the loup garou, the werewolf, who is precisely neither man nor beast, and who dwells paradoxically within both while belonging to neither.”

Um Falso Escape

Tradução do escrito de Huehuecoyotl que faz duras críticas a uma das práticas mais comuns na vida civilizada, o vício.

Diferindo das críticas tradicionais o autor não apenas critica o vício em substâncias psicotrópicas que dissociam a realidade e projetam o viciado a um cenário surreal, mas se refere também ao vício em ideologias transformadoras e utopistas que colocam de lado o aqui e o agora pessimista e criam um delirante mundo fantástico que é ansiado pelos seus adictos.

A mentira chamada civilização é uma hidra; cada uma de suas cabeças busca a hora certa para morder, para matar nossos instintos selvagens e nos transformar em robôs que caminham em condição de cúmplices. Desta condição ninguém está livre de se encontrar dentro desta sociedade. Para nós eco-extremistas tudo isso é uma constante guerra interna e contínua, onde há tentativas de viver longe das práticas e dos valores sociais. Várias destas práticas são, para muitos sujeitos -até mesmo os que chamam a si mesmos de “anti-sistema”- libertadoras, quando na verdade são práticas impostas pela civilização. Neste trabalho irei me referir a uma prática social na qual um grande número de hiper-civilizados e sujeitos com “posturas anti-sistêmicas” estão imersos: a vida dentro de um vício. Estas pessoas encontram muitas razões e justificativas para levar esta vida cíclica: a diversão, uma medida contra a tristeza, a decepção, “abrir a mente”, e a que para mim é a mais desprezível; a busca pela fuga da realidade.

A realidade nos golpeia constantemente, vivemos dentro de um mundo no qual o caminho em direção à morte vai se tornando mais e mais curto de maneira rápida. Esta é a cotidianidade chata e depressiva a que uma grande parte da cidadania está presa: estresse, trabalho, família, escola, rotina, transporte, tráfego, etc. Ante todas estas dores “escapes” são buscados, algo que dê um fôlego e faça esquecer estes maus momentos. Seria um erro pensar que ditas fugas que se tornam parte de uma vida cíclica são apenas substâncias ingeridas.

A grande dominação tecnológica é um forte pilar da vida cíclica, tornou-se “normal” ver jovens que na maior parte de sua vida vão com o celular em mãos -isso literalmente-, escravos e aprisionados, fundidos a um “mundinho” virtual com amigos igualmente virtuais e uma forte dependência das redes sociais, as quais não passam nem uns minutos sequer sem revisá-las. Estes são dependentes totais dos celulares e das redes sociais -dentro disso tudo a morbidez e a opulência ditam o dia a dia-, assim caminha grande parte da sociedade, em especial, a juventude, em direção a uma vida de progresso e tecnologia. Anseiam dentro de seus aparatos celulares a “vida ideal” que querem alcançar enquanto ao redor tudo o que é vivo segue desaparecendo. Sua vida ideal se resume no consumismo desenfreado, em relações banais, uma existência onde tudo é assumido como verdade e nada é submetido a críticas. A juventude segue já perdida, são tão dependentes tanto do celular como do álcool. Não vejo nenhuma esperança no futuro. Alguns ilusoriamente pensariam que as gerações futuras ao verem a grande destruição da Natureza Selvagem refletiriam e optariam por uma vida antagônica à estabelecida dentro da civilização tecno-industrial. Eu acho isso incrível. Os “jovens” que para os estúpidos esquerdistas são biologicamente revolucionários se encontram também na condição de hiper-civilizados, levando a cabo as mesmas ações dos adultos, envolvidos em seus estudos, deixando toda sua vitalidade para o “grande” progresso da humanidade, um progresso que está a poucos passos do precipício. Se os jovens são “nossos” próximos revolucionários, a onde iria sua revolução? Ainda que os modos de produção fossem alterados a produção continuaria a durar. E esta revolução… Que revolução poderia fazer um jovem que na maioria de sua existência se encontra ligado a um aparato tecnológico? Como teria vigência a ideia do “povo organizado” se este “povo” segue acorrentado à tecnologias, e segue perpetuando o estilo de vida dentro dos cânones da tecno-indústria? Que isso não seja uma confusão, como eco-extremista não tento estabelecer uma revolução que derrube a civilização tecno-industrial como uma “resposta” ou uma “melhor” revolução. Então, por que criticar a ideia de uma revolução? Ou por que criticar os jovens que se sentem revolucionários?

Penso que em alguns jovens existe um sentimento de culpabilidade ou indignação diante das situações que eles consideram como injustiça. Então, optam por se apropriar de ideologias que propõem uma mudança…, enchem suas cabeça com ideias revolucionárias, e vivem com base em utopias, meros anseios. Isto não deixa de ser um escape da realidade, ignorando a decadente realidade presente e esperando a revolução que chegará. Vivem em seu eterno sonho. Não vejo diferenças de uma pessoa presa a algum videogame com uma outra presa à ideia da revolução. Ambas ignoram o aqui e o agora. Porque o ato de pensar em seu mundo virtual bem como em seu mundo mais justo que algum dia chegará mantém a cabeça ocupada, e no segundo caso, os “revolucionários”, cura-os do profundo sentimento de culpabilidade. Para muitos esta afirmação que aqui faço será incômoda, alarmante e indignante. Responderão eufóricos que ao contrário daqueles que se mantém dentro da realidade virtual, eles como revolucionários realmente analisam a realidade e enfrentam-na. Será isso verdade? Quão real será seu enfrentamento contra a realidade se em suas redes sociais ante os olhos de todos difundem o que fazem sem medo de serem presos? Um enfrentamento “real” contra a realidade dá possibilidades de expressar seus posicionamentos aos quatro cantos? Alguns até mesmo se põem a encher a cara enquanto permanecem “de pé em luta”. Que engraçada é a forma de enfrentar a realidade destes “revolucionários”. Nós eco-extremistas sabemos que estamos diante de um risco constante, que nossas palavras e ações são incômodas para cidadãos e autoridades. Sabemos que as forças de segurança que operam nos distintos territórios onde atentam os selvagens eco-extremistas estão atrás de nós, é por isso que nós seguimos sempre despertos, por isso que rejeitamos tudo aquilo que distorça nossa realidade, porque a aceitamos e a enfrentamos por mais deprimente que seja, é por isso que vários individualistas se propuseram a difundir seus conhecimentos sobre como sobreviver dentro da civilização. Seguimos nos mantendo fora das grades, seguimos conspirando dentro de suas urbes.

Romper com a ilusão revolucionária não é fácil, mas enquanto se vive nela se ignora a realidade presente, tudo se torna tão utópico que se esquece do agora. A revolução que promulgam jamais chegará, o humano perdeu sua condição natural e se transformou em um robô que trabalha à serviço do progresso destruidor da Natureza. Quando será que esses jovens se darão conta da ilusão em que vivem? Eu não sei, talvez seguirão toda a vida perseguindo o fantasma da revolução, porque não é nada mais que isso: uma ideia morta.

Falei daqueles acorrentados tanto ao mundo virtual como dos que se encontram arrastando as correntes do anseio. Ambos desprezíveis para mim, ambos buscando falsas saídas para a realidade existente. Outros, os que há de monte em todas as cidades, tem caído na hipocrisia de falar de posturas antagônicas à realidade com uma garrafa na mão e seu corpo infestado de substâncias psicotrópicas. Abundam, há em todas as partes, suas razões? Muitas: para escapar das dores da vida, para agigantar a felicidade, felicidade que como já disseram em diversos comunicados eco-extremistas, é totalmente falsa. Em sua condição total de hiper-civilizados, não são capazes de levar a cabo convivência alguma a não ser por meio de uma substância que altere sua percepção da realidade, uma fuga nauseante e falsa onde apenas perpetuam os modos de “diversão” que impõe a civilização. Tristes são aqueles que tentam sanar suas dores sedando-se desenfreadamente. Parece que a hidra tecno-industrial fala e de sua boca sangrando sai as palavras que ordena a seu escravo: se está triste, drogue-se! Se deseja estar feliz, drogue-se! A toda dor ou a todo desejo insaciável de diversão a civilização oferece uma grande quantidade de substâncias psicotrópicas. O triunfo total: se você quer ser rebelde, igualmente drogue-se, e com isso o feroz guerreiro que poderia se lançar a uma guerra contra a realidade terminará transformado em um escravo dócil. A hidra rindo pronuncia sua sentença: a civilização triunfou, o guerreiro já está sedado! Não há “liberdade” alguma em uma vida cíclica. Muitos ignorantes catalogarão estas palavras de moralismo, mas cairiam em um erro pensar que como eco-extremista rejeito essas substâncias por considerar que é “mal” ingeri-las. Tentarão justificar de milhões de formas, justificando suas cadeias. Estas palavras não são uma questão de moral, já que me posiciono como um ser amoral. Estas palavras nascem de um desprezo, um desprezo à vida cíclica, às substâncias e às práticas que levam a essa vida. Se sentem tão vivos quando estão tão mortos, tão dependentes de uma substância ou de uma prática que sem isso o viver se tornaria algo impossível. Não é questão de moral nem muito menos que nos espantemos e cataloguemos essas práticas como “más”, é mero desprezo a suas atividades “libertadoras” que mais são um atalho à vida cíclica. No momento, até aqui chegarão estas palavras, haverá mais tempo para ir mais a fundo na crítica à vida cíclica e as distintas formas que ela se apresenta.

Adiante críticos terroristas!

Longa vida à guerra amoral eco-extremista!

Morte à vida cíclica dos hiper-civilizados!

Huehuecoyotl

Outono de 2016

A Ovelha Negra e o Lobo

Tradução de um texto extraído do trabalho editorial espanhol Contos do Lado Negro.

Na história várias questões são tratadas, incluindo predominantemente críticas às posturas de alguns anarquistas que acreditam ser rebeldes, mas que permanecem sendo parte do rebanho. Trata sobre individualismo, Natureza Selvagem, etc…

Libertária era uma jovem ovelha negra, mas, ao contrário das outras ovelhas do rebanho, ela havia nascido de cor negra. E a cor era apenas uma de suas peculiaridades. Seu caráter também se diferenciava do caráter das ovelhas brancas. Não era tão dócil como suas companheiras. Não abaixava a cabeça e se apertava contra as demais na hora do descanso. Ela preferia ir dar caminhadas nas proximidades em vez de ficar sonolenta. E na hora de se deslocar com o rebanho ela saía à frente, já outras vezes caminhava devagarzinho ou até mesmo saía fora da trilha, fazendo com que o pastor e os cachorros se irritassem e tivessem sempre que estar correndo atrás dela para devolvê-la ao grupo. E ao retornar para o rebanho quando anoitecia ela sempre era a última a chegar e se fazia a durona vindo com má vontade, de tal modo que o pastor costumava ter de ameaçá-la a gritos brandindo por um porrete e fazendo Libertária entrar à base de empurrões e pontapés. Às vezes, se contorcia contra o pastor ou os cachorros e os ameaçava de dar-lhes uma cabeçada. Ela inclusive já havia feito isso uma vez. Outras vezes quando o pastor ficava desatento Libertária cagava e mijava encima do seu cobertor e da sua mochila, pensava sobre as coisas, e tratava de explicar às outras ovelhas que era uma injustiça o pastor não tratá-las bem como os outros animais; não acariciá-las como fazia com os cachorros, não dar a elas outra coisa para comer além de ervas que encontravam no campo ao contrário do que fazia o pastor com o gado bovino que recebia feno e cevada, não levá-las para passear ao povoado como era feito com o burro… e ao ouvi-la as outras ovelhas deixavam de pastar por um momento, levantavam a cabeça, olhavam inexpressivamente para ela e logo após voltavam a pastar, assim como faziam quando durante uma tempestade o monótono som da chuva era interrompido por um trovão distante.

Devido a todas estas características tão atípicas em uma ovelha, Libertária via a si mesma como uma rebelde e se sentia afortunada porque pensava que ela havia se libertado dos preconceitos que as demais ovelhas não podiam ver. Pensava ela ser totalmente livre.

E assim foi até que um dia quando o rebanho estava nas pastagens de verão nas terras finais de julho, Libertária, que estava andando por aí como era de costume, deu de cara com um estranho animal que estava deitado na extremidade de um grande carvalho. No começo ela o identificou como um cachorro, pois seu aspecto era como tal, e tranquilamente logo trocaram saudações entre si.

– Olá!

– E aí!

– Você está vigiando algum rebanho aqui pelos arredores? – perguntou Libertária.

– No momento não. A propósito, ovelha, você não acha que está um pouco longe do seu rebanho? Poderia se perder.

– Não pense assim – disse a ovelha se gabando – eu não sou uma ovelha convencional, sou uma ovelha negra, ando por aí livremente.

Ao ouvir isso o desconhecido soltou uma gargalhada que deixou à mostra uma boca cheia de dentes afiados e dois pares de presas. Libertária ao vê-los se assustou e, de repente, se deu conta de que aquele animal parecido com um cachorro era o que as ovelhas mais velhas e os cães do pastor chamavam de “lobo”. Ela ia sair correndo quando o lobo lhe disse com um sorriso:

– Não fuja, eu não vou te machucar, acabo de comer uma igual a você agorinha do outro lado das montanhas. Não tenho fome pelo momento.

Gostei de ti e por isso vou te ensinar algumas coisas sobre você mesma que você não sabe.

Libertária ao ver que o lobo não se movia e que realmente parecia não ter a intenção de atacá-la, relaxou um pouco e expressou interesse.

– O que você pode me ensinar que eu não saiba? – lhe contestou.

– Sou um lobo velho, não se esqueça, e se tem algo que eu sei bastante é de ovelhas, porque matei e devorei muitas em toda a minha vida.

– Certo, mas eu não sou uma ovelha normal, sou uma ovelha negra.

– Negra ou branca, não importa, no fundo ainda segue sendo ovelha. Você se orgulha de ser independente, livre… mas não é capaz de ficar muito longe do rebanho, de abandoná-lo realmente, estou errado? Você já passou algum tempo do rebanho apenas com você? Você ao menos tentou? Por que não? Nem sequer passou pela sua cabeça – olhava a Libertária com seus olhos puxados de lobo e um olhar severo, e ela se calava e abaixava o olhar em um silêncio mais do que eloquente.

– Para você é suficiente passear na hora do descanso, mas claro, sem perder as demais ovelhas nem o pastor e seus cachorros de vista, acha suficiente sair da trilha quando o rebanho se movimenta, mas sem nunca deixar de acabar indo a onde vão todas as demais ovelhas. E, em geral, você só faz isso para gerar um pouco mais de confusão e para dar trabalho aos cães e a seu mestre. Com isso você se acha livre e rebelde, mas na realidade, segue sendo escrava, segue formando parte deste rebanho cujo não pode nem quer escapar, segue sendo ovelha, rara e negra, mas ovelha no fim das contas.

Você não é nem um muflão, nem um veado, nem um cervo, nem um javali, nem uma cabra da montanha, nem uma raposa, nem um urso, nem qualquer um dos outros animais selvagens que habitam estas montanhas e que são realmente livres. Nós desprezamos os cuidados e o afeto dos mestres e a comodidade de uma vida de escravos e prisioneiros, e o que realmente apreciamos é a vida livre e selvagem que temos aqui.

Já você, no entanto, não sabe nem pode saber o que é a liberdade, e se inveja da alimentação que o teu mestre dá a suas vacas e das carícias e o apreço que dá a seus cães, porque você é tão escrava quanto eles, e sempre será, porque não é mais que uma ovelha que não quer deixar de ser ovelha e crê que é o suficiente ser negra.

Você tem de saber que, se o pastor ainda não se desfez de ti e suporta tuas extravagâncias é porque você é útil para ele. Os rebanhos de ovelhas negras e brancas são mais resistentes a doenças do que os rebanhos compostos apenas por ovelhas brancas. Este último, com o tempo, tende a se degenerar e posteriormente se extinguir. Na verdade, no outro lado das montanhas, onde a pecuária está muito mais avançada do que aqui, os rebanhos estão compostos em sua maioria por ovelhas negras e cinza porque a mescla de ovelhas de distintas cores para escurecer a pelagem de seus descendentes garante a saúde futura, a resistência e a produção do rebanho, apesar de ser menos fácil de se manejar.

E agora, volte para teus semelhantes antes que eu tenha fome novamente e me arrependa de não haver te degolado.

E Libertária de cabeça baixa retornou ao rebanho. E seguiu sendo negra, é claro; e tampouco deixou de atuar de forma excêntrica de vez em quando (ao fim das contas era uma ovelha negra e não poderia deixar de ser um pouco peculiar), mas nunca se esqueceu da verdade das palavras do lobo: as ovelhas negras seguem sem ser mais que meras ovelhas, membros do rebanho.

E=mc2

Carta de Uma Anarquista Decepcionada

Esta é a tradução de uma carta enviada por uma anônima ao blog Maldición Eco-extremista. Nela há a reflexão sobre o sentimento de frustração que muitos anarquistas tem com seus costumes políticos, e como o eco-extremismo é a faca que hoje corta o humanismo destas ideologias do passado.

Olá, Individualista.

Várias pessoas se impressionam com as maneiras sofisticadas com as quais tu se comunica e transmite os teus pensamentos, sem uma gota de hipocrisia moral.

As letras que tu consegue por no papel –já há quase 5 anos– abriram a minha consciência para o conceito real de liberdade. É por isso que sou profundamente e sinceramente agradecida.

Minha mente, na distância e na proximidade, sabe saborear apenas uma só luta. Uma luta que busca derrotar a civilização, a enorme prisão do gênero humano com todos os seus aspectos já tão manuseados: educação, gênero, tecnologia, prisão e fábricas. Essa tem sido a minha luta por muitas luas. Se ela não for derrotada, o que nunca acontecerá, eu gostaria de daná-la profundamente.

Mas como se pode conceber laços capazes de unir o pensamento-ação anticivilização, com a prisão, a Máfia, os niilistas terroristas, com a realidade das diferenças de gênero? Existe realmente um espaço para que a ação furiosa dos espíritos femininos possam finalmente ser uma realidade?

Individualista, eu li uma vez e outra o que escreveste e, em tuas palavras não apenas percebo uma crítica à FAI, mas também –algo, talvez um pouco– gratidão. Eles se levantaram em seu momento com o ataque indiscriminado e amoral. Eu fui inspirada por estas sensações de cumplicidade, as mesmas que sinto agora com a Máfia.

No meio de toda esta merda, Individualista, sinto que temos algo em comum. Eu vejo que nós crescemos do mesmo substrato.

Quanto se perdeu em palavras inúteis, pensamentos indefinidos e nada concretos!

A querida e mudada FAI. Era algo tão diferente se olharmos o que ela se tornou. Por quê vemos uma ação real? Por que estamos todos tão cheios de vento? Críticas, ideais, moral, grandes palavras e intermináveis discursos. Onde está a exaltante violência que carrega dentro de si o gesto do assalto? Claudia López tantas vezes lembrada por morrer combatendo e tantas mais esquecida em slogans estéreis? Talvez perderam o gosto excitante de se lançar à garganta do inimigo?

O comunicado número 26 me fez pensar e pensar. Um prazer e culpa ao mesmo tempo, ler sobre o ataque à Teleton no México e ao escritório de direitos humanos.

Fiquei impactada ao ver o que fez RS em seus tempos.

Por aqui odiamos tanto a Teleton… Mas nós nunca faríamos algo assim, exceto com aqueles que –pessimamente– colocam advogados as manas e manos na prisão.

Mas nasce em mim a força que faz parir o seguinte: a guerra contra a civilização é total… E o ódio é total!

Sinto que nós, anarquistas decepcionados, estamos diante de um paradoxo… Uma contradição entre o que dizemos e fazemos, entre o que escrevemos e somos… Há pessoas que já começaram a perceber tal coisa e chegou a hora de acabar com tudo isso. É o fim dos tempos daqueles que sabem apenas reclamar e estar em desacordo. É o fim das ovelhas negras e sua mutação para uma matilha de lobos.

Toda vez que converso com ex-afins, eles não sabem, mas cada vez mais um mar de distância nos separa. Sinto que a anarquia morreu e eles sequer se deram conta disso. A anarquia é prisioneira de seus próprios prisioneiros. A triste e grande prisão da ideologia fracassada e moribunda das ovelhas negras do rebanho humanista e civilizado.

É uma exaustão constante ter de conter o ódio e a raiva. Mas ali eles devem permanecer, escondidos da vista de familiares e amigos, ocultos diante da podre sociedade. Já não posso mais com esse ódio… Apenas agir selvagemente e sem alma, sem moldes antropocêntricos e com a vingativa violência. Então assim te quero ver, Individualista, vivendo apenas com o instinto livre e incontrolável, imprevisível e funesto. Ser uma loba sedenta de sangue, mas inteligente e com estratégia. Se eu devo me passar como branca no rebanho, que assim seja porque a Terra saberá, compreenderá que é a melhor forma de vingá-la.

Delações em cadeia… Sim, claro, na Cidade do México!

Tradução da carta pública compartilhada na web pelo ex-anarquista Mario Lopez Tripa refletindo e fazendo duras críticas à “cena” anarquista mexicana.

Carta Pública de Mario Lopez Tripa

“O que se interponha em nosso caminho, derrotaremos”.

Antes de mais nada, uma enorme e cordial saudação.

Faz pouco mais de cinco anos e meio que acidentalmente me explodiu uma das bombas que eu portava. Felizmente era a bomba menos poderosa e que seria destinada aos escritórios do partido político PRD (a outra seria para uma das sedes do PRI. Naquele momento não me importava merda alguma qual partido político fosse, se tivesse existido o Morena igualmente eu teria atacado sua sede). Foi na noite de 26 de Junho do ano de 2012, apenas um dia depois do meu aniversário. Os policiais investigativos que me custodiavam no hospital diziam que o melhor presente que eu pude me dar foi o acidente.

A razão pela qual me explodiu a bomba, motivo que até agora havia sido um mistério e uma fofoca no interior do movimento anarquista e do espectro insurrecionalista que, segundo a vox populi, oscilava entre “ter feito uma bomba ruim ou sob pressão ou que a pessoa de nome Felicity Ryder e eu fazíamos competições sobre quem colocava mais bombas e por isso me explodiu (fofoca que até os dias de hoje circula nos círculos anarquistas do D.F., e que unicamente trouxe coisas prejudiciais a mim), que explodi a bomba intencionalmente, etc.”… não foi outro motivo a não ser o seguinte: que acionei a bomba em um lugar inadequado, ou seja, que a acionei próxima a um transformador elétrico, portanto, ao passar por debaixo deste o campo eletromagnético que emerge foi suficiente para esquentar o filamento da lâmpada de 1,5 volts e isso detonou a dinamite em pó. A segunda bomba não explodiu porque naquele momento eu ainda não havia conectado o interruptor-circuito. Mas este erro foi devido a uma distração que eu tive, uma distração que jamais perdoarei ou ignorarei.

Agora sim vocês podem dormir tranquilos, o dilema está resolvido, não há mais nada que dizer a respeito.

No entanto, esta carta não é apenas para esclarecer porque me explodiu a bomba, mas também para notificar a audiência de telespectadores anarquistas sobre uma situação que tem acontecido ao longo destes anos que tenho estado fora do alcance da justiça do Estado. Sem mais delongas, trata-se de uma delação, uma de muitas, usando o exemplo que irei expor para arrancar a reflexão ou a ação energética sobre aqueles que não precisam ser minimamente torturados para delatar a companheiros anarquistas ou fofocar sobre eles para assim colocá-los em um risco latente.

Há duas coisas que discutirei nesta carta, comunicado público, choro ou o que você quiser chamar. Desculpe se parecerei arrogante, duro ou agressivo, mas literalmente estou cagando para o que pensa a respeito; estes qualificadores serão atribuídos dependendo de seu estado de humor, de seus sentimentos de inferioridade, de sua baixa auto-estima, de seus preconceitos, de sua ideologia de merda ou de sua maneira de ver as coisas que irei expor, de sua perspectiva ou sua crítica concentrada. O que passará é que pouparei conversa fiada e irei direto ao assunto.

Delações em Cadeia

Bem, já faz mais de um ano que um indivíduo anarquista que durante os últimos anos da época dos anos 90’s até a metade do ano 2000 esteve preso por causa de um “crime comum”, em um par de assembleias abertas (pelo que eu sei, realizadas no interior da Biblioteca Social Reconstruid), afirmou que a Cruz Negra do Distrito Federal disse que “os compas que estavam em fuga (referindo-se a Chivo e a mim) estávamos apenas passeando de (disse o lugar) a (disse o outro lugar) com o dinheiro que nos era dado em apoio, para que com isso pagássemos nossas viagenzinhas do México a países da América Central, ida e volta.

Antes de mais nada quero deixar claro que NÃO me consta que a CNA emitiu tal afirmação delatora, mas SIM me consta que estas palavras saíram da boca deste indivíduo que é amigo e companheiro da CNA-DF e me consta não por uma, mas por várias versões de diversas pessoas que nem se conheciam entre si, mas que estavam presentes naquelas assembleias abertas. E eu sei disso porque o conheço e sei que tipo de pessoa ele é.

Antes disso, tenho algumas coisas a dizer, sempre assumindo o risco existente ao fazer este tipo de esclarecimento de maneira pública. Embora no fim das contas um companheiro preso ou em fuga tenha que dizer coisas que de alguma maneira possam prejudicar nem sempre é sua culpa como muitos querem ver, mas é uma responsabilidade coletiva que cabe ao movimento anarquista, já que graças a alguns bocudos, muitos compas se sentem e nos sentimos pressionados a emitir tais respostas -especialmente quando os que compõem o “movimento” anarquista e pior, o espectro insurrecionalista, não fazem nada em relação a este tipo de infâmias e este tipo de indivíduos. A maioria dos insurrecionalistas passam o tempo escrevendo slogans em seus comunicados pomposos e realizando ações para não perder seus postos na cena-espetáculo, mas quando se trata de usar armas para dar uma lição nos delatores e faladores ninguém faz nada, ninguém faz nada pelo simples fato de que todos são uns acomodados, de que lhes importa muito suas imagens, status, a imagem de seus grupos anarco-punks de música revolucionária e coisas do tipo. Então, onde fica a chamada Solidariedade Revolucionária da qual tanto falam os insurrecionalistas? A Solidariedade Revolucionária se reduz unicamente a comunicados, explosões de bombas e expropriações ou ações chamativas para tornar visível o micro-mundinho irreal anarquista?

Aqui está o que tenho que dizer:

Primeiro. Dinheiro de quem que andamos gastando? De seus amigos da CNA-DF que te protegem? Quando diabos você me deu algum dinheiro para que eu colocasse algum alimento em minha boca? Você sabe o que disse? Se tinha essa dúvida, porque você nunca me enviou uma carta pessoal, covarde de merda!!!!!??? Covarde de merda que nunca disse nada na minha cara e fica falando merda de mim quando sabe que não me é tão fácil te colocar no seu lugar? Por que quando soube que eu sabia ao invés de botar a cara você foi para Guadalajara fingindo estar em Tijuana e vice-versa e com certeza seus guarda-costas te ajudaram a ir aos EUA. Saiu correndo com medo de quê? Além do mais, por muito tempo eu (não sei o Chivo) não recebi nada do movimento anarquista a não ser pura merda, muito menos dinheiro.

Segundo. Este tipo de papinho só põem em perigo os compas em fuga ou na prisão, porque independente do que seja verdade ou não, as informações passadas sempre criam uma reação de delação em cadeia, já que uns falam e outros reproduzem, mas no final tudo se deforma e cai em informações que podem unicamente ajudar a polícia a localizar os companheiros em fuga ou engordar os registros e investigações contra companheiros na prisão.

Não satisfeito em dizer estas coisas sobre nós dois (sobre Chivo e eu) este cara fala sobre alguns indivíduos que no passado, isto é, na minha vida “legal”, foram meus companheiros de luta (entendendo isso como uma diversidade de maneiras de intervir) e vida. Este cara os acusa de “pegar dinheiro do grupo (xs compas) para nossas viagenzinhas”. Esquecendo que a fuga é sempre um movimento constante -mesmo que seja para ir às compras em Chiapas para depois vender algumas roupas usadas- Tais declarações obviamente colocam em risco aqueles indivíduos que desde que eu parti nunca mais voltei a vê-los e muito menos soube deles. Os põem em risco uma vez que essas falações e “indiretas” podem produzir uma investigação contra estas pessoas por obstrução de justiça, uma investigação que, embora parta de uma investigação própria do Estado, eles a poderiam assumir como uma consequência da luta, mas uma investigação assim não poderia ser assumida como tal quando esta tem como raiz a jactância de um indivíduo que quer se destacar entre os demais jovens e impressionar as garotas.

O que fazer com indivíduos como o deste caso? Como lidar com eles ou fazê-los refletir? Teremos que retornar aos velhos códigos revolucionários ou a reflexão é suficiente?

Felizmente, hoje, tenho ânimo apenas para descrever esta situação, no entanto, há muitas, mas muitas situações e muitos indivíduos e indivíduas que ao longo destes anos, desde que me explodiu a bomba e desde que eu fugi, não fizeram mais nada a não ser falar coisas que colocaram eu e a outras pessoas em risco, não fizeram nada além de inventar fofocas, falar merda…. mas não me desanimo muito porque a cada problema uma solução e pouco a pouco as coisas vão brotando.

Por último uma anedota, espero que lembrem-se

Poucos dias antes de eu partir de minha cidade encontrei a uma de minhas advogadas (neste momento eu ainda estava em uma situação “legal”, isto é, não estava em fuga da justiça do Estado, esclareço!!!). Ela me disse que dias antes foi ao Tribunal Federal (que ordenou minha segunda prisão no dia 20 de Janeiro de 2014) para solicitar uma prorrogação de mais alguns dias para que eu comparecesse para assinar. Durante essa visita, a juíza, além de cordialmente me convidar a comparecer por vontade própria disse-lhe que eu já estava bem fodido (ela utilizou esta palavra) já que após a minha detenção duas mulheres de nacionalidade espanhola tinham ido falar com ela e haviam dito tudo sobre mim, haviam falado tudo (eu realmente não sei o que é “tudo”) e tinha me “afundado”. Em um primeiro momento nós duvidamos já que esta “info” vinha de uma servidora do Estado. Posteriormente, na paranoia, pensamos que foram as compas Amellie e Fallon que no meio do que aconteceu, que foi muito forte, disseram coisas (que na verdade eu não sei o que poderiam realmente dizer), mas, finalmente, depois de dar muitas voltas sobre o assunto, buscar informações, analisar, recordar, comunicarmo-nos com estas compas e pedir-lhes honestidade, mas acima de tudo, ver as coisas com claridade após o que me sucedeu desde que fugi e a merda que por três anos certas pessoas fizeram da minha vida em fuga, fomos certeiros e hoje posso afirmar com toda certeza que não há mais a menor dúvida de quem foram essas caguetas, de quem se trataram, quem queria que eu me fodesse… quero dizer, no caso de que a senhora juíza não estivesse mentindo para minha advogada, bem… no fim das contas qual é a diferença na hora de tentar descobrir quem está mentindo, se é um juiz ou um anarquista?

Tomem esta anedota como um prelúdio para minha próxima carta na qual farei uma humilde reflexão individual sobre minha militância, mas acima de tudo, uma crítica da luta anarquista insurrecional na intensa época em que vivi.

“Quando a neve cai e os ventos brancos sopram o lobo solitário morre, mas a manada sobrevive”

Atenciosamente:

Mario Lopez “Tripa”.

Desde algum lugar neste mundo doente. Misantropia e natureza para sempre!

10 de Fevereiro do ano de 2018

Você não tem que gostar de nós, mas tem que lidar conosco (ou porque seus anarco-pedaços são uma merda)

Tradução do texto You don’t have to like us, but you do have to deal with us (or why your anarco-stinkpieces are shit), de Sokaksin.

NOTA: apenas alguns pensamentos enojados, nada de espetacular. Eu estava pensando outro dia sobre todos os trabalhos escritos contra o eco-extremismo e decidi lançar alguns pensamentos rápidos a respeito.

Tenho estado envolvido com tendência já há algum tempo e tenho dedicado muito tempo a isso, então acabei vendo uma boa dose da indignação moral que rodeia o eco-extremismo. Toda a merda orquestrada pelos anarco-coletivos são tão velhas quanto o próprio eco-extremismo. A libertação coletiva das transgressões de assuntos tão santificados como os ataques a “inocentes”, a depravação da violência, o rechaço à gloriosa revolução, a solidariedade com as classes eleitas de oprimidos, blá, fodidamente, blá. O editor da Atassa, geralmente reservado a seu trabalho como mestre de memes e teórico de assuntos mais dignos que o chiado dos anarquistas, chegou a publicar recentemente um artigo que aborda algumas das questões mais comuns e inertes que surgiram em torno das atividades de ITS e do eco-extremismo nos últimos tempos, é possível ler aqui. Maldición Eco-extremista também foi suficientemente amável para oferecer mais esclarecimentos aqui.

Mas de certa forma a refutação de Atassa bem como as inumeráveis outras que ITS e companhia tem tido a paciência de produzir foram postas de lado e é bem verdade que todo o chiado e a fúria dos anarquistas vomitando continuou através da interwebs de seus virtuosos ajustes de vitríolo nos últimos dois anos de atividade eco-extremista, e isso invariavelmente representa pilhas de merda moralista. É um chiado chato, cansativo e vazio que apesar de seu grande showzinho, não diz nada. Pessoalmente, quero dizer que isso seria um pouco mais interessante se houvesse ao menos um fragmento de engajamento crítico com o que o eco-extremismo realmente pede para que considerem. Mas não, pelo contrário, temos a velha tática esquerdista de se dobrar frente a oposição. O progressismo, o humanismo e sua turma são como uma criança estúpida com as mãos sobre os ouvidos gritando para manter o som distante, apenas para gritar mais alto contra cada contradição de seus delírios. E assim temos as mesmas repetições das mesmas desesperadas fantasias progressistas humanistas de esquerda que não foram cumpridas agora por mais de cem anos.

Mas eu poderia perguntar, sejam honestos com vocês mesmos por um momento. O projeto progressista vive ou morre nestas esperanças e sonhos. Vive desta rejeição sempre tão humana da beleza do mundo que já está diante dela. Em vez da grande beleza do todo, se vê apenas um mundo que de alguma maneira tem caído fundamental e irremediavelmente. E deste mundo decaído evocam histórias de uma salvação em um mundo de sonhos além do imanente. Um mundo de florescimento humano, igualdade, paz, amor, etc. E eu não posso permitir que estes sonhos desapareçam por medo de desmoronar completamente. Mas estes sonhos progressistas e seus contos (isso vale para os anarquistas, os comunistas, etc.) não podem sobreviver em um coração que se abriu para a vida além dos mundos oníricos dos homens e que viu o vazio e a vaidade do “progresso”. Ele abriu os seus olhos para mostrar que os contos desmoronaram e que um mundo melhor para além deste é apenas uma mentira. Vê que “o bem” já está diante de nós na terra, nesta realidade final e indomável, em toda a sua graça, mas também em toda a sua terrível ferocidade, porque a luz e as trevas são uma só com a vida do todo. Como disse Jeffers: “O Deus do mundo é um traidor e está cheio de injustiça, Um torturador, mas também/ A única fundação e a única fonte”.

E assim as tensões pessimistas, niilistas e inumanistas do eco-extremismo são os pesadelos que atormentam os sonhos que constituem as fundações de todo o ideal humanista e progressista. A criança se contorce diante dos monstros que vêm à noite, se rastejando nas sombras de seus sonhos para aterrorizá-la e derrubar as suas fantasias mais queridas. E ela chuta, grita e acorda de seu sonho, se tremendo, neste mundo escuro e impiedoso, suando frio.

Eu diria apenas que você não precisa gostar do eco-extremismo. Te entendo. É chato ter alguém que mergulhe uma hora de aço frio no coração de seus sonhos. Mas, deixando um pouco de lado os seus pequenos aborrecimentos com o eco-extremismo, lamento dizer, mas você de qualquer forma terá que lidar conosco. Não iremos nos retirar. Isso porque não somos um simples bando de criminosos violentos que destroem e matam em nome da terra ou simplesmente um coletivo de escritores nervosos na Internet. Para além de nossas próprias individualidades, o que representamos, o que se manifesta através desta tendência, é tão atemporal como o próprio mundo. Esta escuridão eterna, o inefável e distorcido caos que trabalha no coração do mundo. Os homens, quando não haviam se esquecido dos caminhos da terra, haviam falado de nós desde quando falaram pela primeira vez do mundo em suas histórias. Nos relatos dos deuses mais sombrios. Porque nós somos um junto aos deuses que trazem os fogos que devoram casas na Colúmbia Britânica, porque também somos um junto deuses que trazem um oceano que se arrasta para devorar as casas dos homens arrogantemente construídas sobre pântanos antigos, porque também somos um junto aos deuses que trazem ventos furiosos que descem do céu para rasgar as casas dos homens através de grandes tornados.

Como individualistas neste repugnante Leviatã somos os das velhas histórias que falam que fizeram pactos com os deuses das trevas. Vendo a profanação de tudo o que é belo para nós decidimos ficar do lado de tudo o que devora este atual mundo cinza, ao invés das vazias promessas do homem e de suas obras. E assim, o eco-extremismo é mais que uma espinha em seus estúpidos projetos políticos ou um grupo de psicopatas “problemáticos”. É uma mensagem da escuridão, manifestação daquelas energias sinistras e primordiais do mundo que são mais velhas que o próprio homem. E assim, o som da última bomba eco-extremista se quietará, e se as últimas palavras pronunciadas contra a tendência forem esquecidas, ainda sim terão que lidar conosco. Todas as mais nobres proclamações de seus coletivos anarquistas do mundo inteiro não os salvarão.

-Sokaksin

“Confrontando a Sua Domesticação” e “Reselvagizar-se”

Tradução de Confronting your Domestication” and “Rewilding, do autor Sokaksin.

“Posso perguntar como você confronta a sua própria domesticação?”

Esta pergunta me foi feita há algum tempo, quem me perguntou foi uma pessoa com quem cruzei caminhos e desde o começo tive a impressão de ser uma pergunta estranha. Parece ser todo o furor reunido entre os círculos anarco-primitivistas a repetitiva fala sobre o seu “selvagismo”. Estas mesmas pessoas embarcam em longas viagens de camping com alguns de seus companheirinhos para viver a vida dura na parte de trás de algum rancho levando barracas primitivas, caçando equipados com armas e ferramentas primitivas e geralmente iniciando fogueiras para emular o pequeno homenzinho “caçador-coletor” em seu coração. No momento não posso dizer que eu me oponha às pessoas que realizam longas viagens de camping aprendendo habilidades primitivas, tendo um contato mais aprofundado com a terra que habitam, ou o que quer que seja. Eu passo uma grande parte dos meus dias, todos os dias ultimamente, andando pela floresta próxima da minha casa, e ao fazer isso, cheguei a conhecer de forma íntima as várias centenas de acres que compõem o parque adjacente no tempo em que vivi aqui. Então eu não posso ser e nem sou a pessoa certa para fazer algum julgamento a respeito. O que tomo partido diz respeito às ilusões sobre o que “reselvagizar” significa. Reivindicar o mundo-vivo das pessoas primitivas e a tendência correlativa entre a multidão daqueles “reselvagizando”, para cair muito profundamente no “jogo de tiro com arco primitivo”, e ao fazer isso, esquecer o que se é e onde realmente se está.

Minha resposta a esta pergunta foi essencialmente “eu não a faço”. Eu não quis dizer isso em um sentido passivo de simplesmente não fazer nada, por isso mesmo a minha escrita é uma pequena maneira de lidar com quem sou e onde estou, com a minha própria domesticação, e o mundo da qual sinto em meu coração e que me oponho profundamente. Isso de “não fazer” eu disse mais no sentido de aceitar o que cada um é, onde e quando se existe nas rodas do tempo, ao invés de lutar contra a realidade das próprias circunstâncias ao cair em delírios de reviver ou recriar a vida e o mundo inimaginavelmente complexo dos primitivos. O homem não existe e não poderia existir em um vazio. Ele está sempre fora de si mesmo, sempre é parte e produto de um tempo e lugar. E a pessoa primitiva era parte e produto de seu mundo, assim como o homem moderno é parte e produto desta realidade. Quem foram os Niitsitapi, senão uma extensão das grandes planícies, a tempestade elétrica sobre as campinas ondulantes e o búfalo? Na recente tradução de Atassa do editorial da Revista Regresión Número 7, esse sentimento foi expresso nos lamentos de um chefe dos Sioux:

“Em breve se levantará um sol que já não nos verá aqui e nossa poeira e nossos ossos se misturarão a essas pradarias. Como em uma visão, vejo morrer a chama das fogueiras de nossos grandes conselhos e as cinzas se tornarem brancas e frias. Já não vejo mais as espirais de fumaça subindo acima de nossas tendas. Eu não ouço o cântico das mulheres enquanto preparam a comida. Os antílopes foram perdidos; as terras do búfalo estão vazias. Apenas o uivo do coiote é escutado agora. A medicina do homem branco é mais forte que a nossa; seu cavalo de ferro corre agora pelas trilhas do búfalo. Ele fala conosco através do “espírito sussurrante” (telefone). Somos como pássaros com as asas quebradas. Meu coração está gelado. Meus olhos se apagam.”

Os Sioux, assim como um número incontável de pessoas, testemunharam sua própria morte e a de seu mundo. Se alguém quer falar sobre “reselvagizar” no sentido anarco-primitivista, não se pode falar sobre isso com honestidade sem reconhecer que o ser humano se encontra sempre em um tempo e espaço, e está ligado intrinsecamente a esse tempo e espaço. Muitas vezes você pode até se aventurar mais, no abstrato, mas este é um mundo de sonhos, e todos os sonhos devem terminar. É preciso voltar ao presente, já que é a única realidade que há. O passado está sempre percorrido e trilhado e o futuro é o nada arejado da especulação. Apenas o aqui e o agora tem a realidade. E se isso for verdade, o “projeto anarco-primitivista de reselvagizar”, “reivindicar o selvagismo de alguém” ou “confrontar a própria domesticação” é como uma tentativa banal de criar uma espécie de teatro idealizado de mundos mortos, ilusões e sonhos lúcidos sem sentidos. O anarco-primitivista levantará os fantasmas do grande búfalo, reviverá os ossos do antílope e reviverá as cinzas das fogueiras sagradas dos Sioux. O reino do Paleolítico se levantando novamente. Mas tudo isso é, claro, um sonho. O búfalo retornou ao Grande Espírito há muito tempo, assim como os ossos do antílope. As cinzas das fogueiras sagradas foram carregadas pelo vento há muito tempo atrás, e até os próprios Sioux se tornaram pessoas da história.

Falar sobre “reselvagizar” e seu coronário no sentido anarco-primitivista é, portanto, falar de algo que não tem sentido. É não confrontar o mundo como ele é. É fugir para os mundos dos sonhos em que as grandes redes da terra não foram destruídas pela civilização. Se alguém observar com um olhar sincero, deve reconhecer e aceitar o que somos, o que também está ligado à compreensão de onde e quando estamos. Isso significa reconhecer e aceitar que quase todas as pessoas que existem hoje em dia são parte e produto da monstruosa civilização tecno-industrial que segue estendendo os seus asfixiantes tentáculos sobre a face da terra. A domesticação está inscrita em nossa carne e vivemos no aterro sanitário ecológico da modernidade. Significa reconhecer que os grandes mundos do passado estão mortos e não há maneiras de voltar a eles, não há qualquer perspectiva realista de que se levantem novamente dentro de meu tempo de vida ou de algum de meus leitores. Como Jeffers diz em As Estrelas Cobrem o Oceano Solitário “O mundo está em má forma, meu caro/ E destinado a piorar antes de se consertar”. O que temos, e tudo o que nós temos, é este presente decadente em toda a sua monstruosidade, a contínua e implacável marcha do Leviatã por cima de tudo o que é selvagem e belo. Significa aceitar este presente com honestidade e responder a esse presente em consequência, de uma maneira que se encaixe ao presente. Sem sonhos entretidos nem ilusões de um amanhã melhor onde a utopia primitiva se veja realizada.

É claro, isso não se trata do “reselvagizar” de John Zerzan, Kevin Tucker, e o resto dos subordinados anarco-primitivistas. Este é o espírito do eco-extremismo, seu niilismo de visão clara, seu ataque selvagem neste presente decadente. Fragmento do Sétimo Comunicado de ITS:

“O Selvagem não pode esperar mais, a civilização se expande indiscriminadamente às custas de todo o Natural. Da nossa parte não ficaremos de braços cruzados assistindo passivamente como o humano moderno despedaça a Terra em busca de seus minerais, como a sepulta com toneladas de concreto ou como atravessam montanhas inteiras para construir túneis. Estamos em guerra contra a civilização e o progresso, contra aqueles que a aperfeiçoam e aqueles que a endossam com a sua passividade, contra quem quer que seja!”

Pensamentos Sobre a Moralidade

Tradução do texto Thoughts on Morality, de Abe Cabrera.

Ao investigar sobre a “Creek War” (Guerra dos Creek) algo curioso que encontrei foi a atitude dos índios em relação aos escravos negros. Para os Creek e os Seminoles, um escravo não era livre em virtude de que a escravidão era uma instituição imoral e, portanto, ilegítima. Um escravo deixava de ser escravo quando decidia não mais sê-lo e fugia. Uma das questões que os brancos tinham com estes índios era sobre como abrigavam os escravos fugitivos, e este foi um grande ponto de disputa na segunda guerra Seminol. Mas isso não foi por causa da atitude “iluminada” dos índios. Eles não estavam acima de tomar os escravos negros por conta própria, ou de mantê-los subjugados. O ponto era que a “liberdade” e a “dignidade” concedida a todos os seres humanos pelo Iluminismo não era um fato para a mente incivilizada. Tinha que ser “ganhada” ou “tomada” daqueles que a levaram embora.

Eu deixei para trás a ideia dos sentimentos nobres, aqueles sentimentos passageiros que apenas desejam coisas boas para me fazerem uma boa pessoa. Tenho visto muitos casos em que as pessoas acreditavam na piedade apenas para cometer atrocidades, ou cometiam atrocidades em nome da piedade. É melhor simplesmente se deixar esvaziar destes sentimentos: o que tiver de acontecer, acontecerá. A morte chega em breve, a fadiga traz o esquecimento, uma dormência de sofrimento prolongado.

A única vitória é trazida por seguir permanecendo aqui e de pé. As pessoas querem que a sua vida e a dignidade sejam reconhecidas meramente por existir. Não funciona assim. Este é o sonho esquerdista, mas nunca alcança nada, que todos temos um significado simplesmente porque somos/estamos: estamos unidos ao nobre selvagem e ao futuro transhumanista explorador das estrelas por causa de alguma continuidade… Continuidade! Que mentira fabulosa! Todos os selvagens são assassinados, e por dançar em suas tumbas… quer dizer, “honrá-los”, obtemos a sabedoria e o poder que eles ainda deveriam ter, mas que não tem. Acreditamos que somos todos iguais, mas não somos. De fato, é esse pensamento de que somos todos iguais, que somos a “humanidade” que nos leva a derrubar a floresta, contaminar os rios, levar a terra ao esgotamento, e pavimentar o resto. Porque somos a humanidade, porque este é o nosso “bem”. A humanidade é a inimiga da natureza porque é inimiga do lugar, do físico, do selvagem. Existem os seres humanos (animais humanos) e depois há a Gloriosa Humanidade. Se alguém olha a humanidade de frente e a declara a própria oposição, ou é um tolo ou um covarde.

A separação do ser humano/animal e a Humanidade não é tão simples. De fato, é praticamente impossível. É como pedir aos animais que fiquem longe do bebedouro durante o verão quente. Postular as ações indiscriminadas e seletivas é postular a superioridade do inumano sobre o humano, que os seres humanos não são um sistema fechado, eles “se abrem” a algo maior que eles mesmos (embora eles não entendam nem o obtenham). Para destruir estas coisas maiores (Natureza Selvagem), eles falham em sua vocação, ou seja, estão aberto ao universo, sendo apenas outra força dentro dele e agindo como tal.

Postular a “amoralidade” é buscar a destruição de todos os obstáculos pelo caminho. É postular o individual sobre a sociedade, o caos sobre a ordem. É postular que os pecados de omissão (não fazer nada) não são menos graves que os pecados cometidos (fazer algo). Que a paz civilizada está construída sobre um monte de ossos branqueados de selvagens extintos. Que você não pode vencer o universo com um bom comportamento. Que você se recusa a negociar a regra de ouro porque apenas a escravidão e o vício provém disso (e não do tipo recomendado). A “Amoralidade” reconhece que todos temos a “nossas mãos manchadas de sangue”, porque todos estamos banhados neste sangue. Nossa sociedade foi irrigada com ele. Então isso destrói o amor por completo? Não necessariamente, mas certamente se opõe à sua codificação: sua consagração dentro do reino dos direitos e da “dignidade inerente” da pessoa ipso facto. Posso esperar por piedade daqueles que amo, e desejar a destruição daqueles que não: o desejar não me faz nobre nem me deixa de fazê-lo. Não sou Deus: minha Palavra não está no começo e nada foi criado por ela, mas é perfeitamente razoável que eu odeie a um sistema que transforma meus desejos ou qualquer outro em um código universal de moralidade: hipocrisia? Isso Importa?

Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3

Tradução da reflexão extraída de Cuadernos, publicação compartilhada publicamente na web. 

“Black and Green Review” é uma revista estadunidense, sendo o projeto mais recente de John Zerzan e Kevin Tucker. O Sr. Zerzan não requer introdução nos círculos do pensamento “anti-civilização” já que depois de Don Ted (Kaczynski), ele é o teórico mais conhecido no mundo destes assuntos. Kevin Tucker é menos conhecido, mas é o escritor que trabalhou com Zerzan em publicações como “Green Anarchy” na primeira década deste milênio. Tinha ele também o seu projeto chamado “Species Traitor” (Traidores da Espécie), que era uma revista no estilo da atual “Black and Green Review”, só que mais livro do que revista e era composta de vários artigos de diferentes autores. Como revista é fisicamente bem feita, com fotos e várias seções com artigos longos e curtos, e neste caso está composta por mais de duzentas páginas.

“Black and Green Review” sai duas vezes por ano nos Estados Unidos. Não iremos explicar como conseguimos uma cópia aqui, do outro lado da fronteira, mas nós a temos e lemos ela. Muito menos iremos resumir a revista (ou melhor, o livro) inteiro, resumiremos os artigos mais importantes e daremos o nosso ponto de vista dentro do eco-extremismo particularmente desde a Antiga Mesoamérica Setentrional. Embora tenhamos nossas críticas bastante agudas contra esta revista, agradecemos a oportunidade de discutir seu conteúdo.

Em primeiro lugar, nosso artigo favorito era um “dos menores” e falava sobre o mosquito. Traduzimos aqui uma parte para compartilhar com os leitores lusófonos o conteúdo bastante informativo:

“Uma das falhas que padece a humanidade é que não vemos nenhuma espécie como benéfica se não pudermos explorá-la. Isto é especialmente verdadeiro para uma das espécies que nos causa uma grande dor. A ecologista evolucionista Dina Fonseca da Universidade de Rutgers, aponta isso perfeitamente ao comparar a situação com os Maruim (mosquitos médios) da família Ceratopogonidae, também conhecida por muitos como Moscas de Areia. “As pessoas que são picadas por Moscas de Areia ou infectadas com vírus, protozoários e filarias adorariam ser picadas para que esses insetos desaparecessem depois de estudar as suas próprias picadas.” disse ela. Mas, como alguns ceratopogonídeos são polinizadores de cultivos tropicais de cacau, “isso se traduziria em um mundo sem chocolate”. Para finalizar isso, quero mencionar um ponto muito óbvio, nós criamos este monstro. O mosquito transmissor da doença é nossa criatura e nosso Frankenstein. A instabilidade climática causada pelo humano gera desequilíbrios em todo o mundo. As populações de insetos aumentam quando aumenta a temperatura. O desmatamento e a erradicação das espécies e dos preadores levam a mudanças ecológicas, juntamente com a liberação de vírus latentes. A imunidade coletiva sofre do “progresso” humano. Ficamos doentes com tudo. Os mosquitos são vetores da doença, não a causa. Os mosquitos são apenas um dos cinco principais modos de transmissões de doenças amplificadas pela globalização. Não reconhecemos a maneira imprudente em que nos tornamos, cegos pelo ego e atuando como deuses nos esquecemos que para cada causa há um efeito.”

A explicação sobre a relação simbiótica entre o mosquito e seu ambiente é um ponto importante, e mostra que, de tempos em tempos, o anarco-primitivismo gringo pode pensar além de seu antropocentrismo. Talvez um dia possamos traduzir este artigo inteiro e o reproduziremos em outro lugar. Também imaginamos que as entrevistas que são publicadas na revista mencionada, com a advogada de ativistas eco-radicais e outra com um ex-prisioneiro são muito úteis para os eco-radicais daquele lado da fronteira. O compa “Halputta Hadjo” já apresentou uma crítica eco-extremista da entrevista com os eco-radicais de Zerzan no Canadá em seu artigo sobre os Calusa, e não temos mais nada a acrescentar aqui.

Indo aos “principais artigos” da revista, há alguns que merecem um comentário mais extenso. Comecemos com o artigo de “Four-Legged Human” (Quadrúpede Humano), intitulado “The Wind Roars Ferociously: Feral Foundations and the Necessity of Wild Resistance.” (O Vento Ruge Ferozmente: as fundações ferais e a necessidade da resistência selvagem). A cena deste artigo são os territórios inóspitos do estado norte do Alaska nos Estados Unidos. O texto tenta desenvolver o tema da domesticação e a dependência que ela cria nos humanos civilizados, especialmente, envolvendo a domesticação no fracasso universal da esquerda no mundo moderno. Ele também tenta apresentar a resistência como um processo de desdomesticação e fuga da civilização para lugares isolados. Neste sentido, estes anarco-primitivistas desejam imitar aos “Povos da Flecha” que ainda existem nas terras amazônicas. Ele escreve:

“Estima-se que, atualmente, nos últimos vestígios primários da Amazônia brasileira existam até 43 tribos isoladas. Índios Bravos ou Povos da Flecha. Muitas vezes caracterizados como ‘não contatados’, a realidade mais provável é que estes bandos amazônicos, conscientemente optaram por viver em isolamento e evitar a interação, precisamente devido a um profundo conhecimento entre gerações sobre as consequências desastrosas associadas a seus ancestrais e seus irmãos indígenas vizinhos que se converteram em domésticos e civilizados:

‘Determinação deliberada, ou melhor, autodeterminação… parece ajudar todas as tribos isoladas que ainda vagueiam pelas selvas da Amazônia… Os grupos indígenas que vivem em isolamento são isolados porque escolhem. Não é por causa de uma completa falta de contato, mas precisamente porque as experiências anteriores de contato com o mundo exterior se revelaram negativas.’”

Não temos muito o que discutir com o Quadrúpede sobre o seu diagnóstico do problema da domesticação e do híper-civilizado. Na verdade, a civilização cria humanóides dependentes e fracos que não podem viver sem a sua dependência, o que significa sua escravização ao sistema tecno-industrial. No entanto, a solução apresentada é especificamente fugir para os lugares remotos do norte e tornar-se selvagem novamente. Isso foi algo que nos confundiu muito. Ele escreve:

“Hoje temos conhecimento histórico e antropológico que nos leva ao desespero criado por 10 mil anos de domesticação. Não é hora de “sentar”, é hora de se levantar e caminhar na floresta, deixando para trás toda a nossa bagagem domesticada. Devemos agora finalmente nos converter no povo da flecha. Um futuro selvagem representa o nosso único caminho a seguir. Eu postulo que os reselvageados ferais estarão de pé no final, após os levantes massivos que virão, sendo capaz disso apenas por causa dos avanços alcançados multigeracionalmente a nível indomesticável. Prevejo a formação de bandos selvagens (bandidos!) muito unidos, não acorrentados pelas circunstâncias, mas instalados rapidamente nos bosques, montanhas e sacudindo o impenetrável pelos domésticos – Habitantes do nosso próprio ‘labirinto marrom” em que os domesticados não se atrevem a entrar. Não apenas isso, mas também bandidos eficazes para golpear a infraestrutura da civilização, causando um dano irreparável, e desaparecendo facilmente nas sombras apenas para emergir golpeando de novo e de novo.”

Para dizer a verdade, este parágrafo nos causou muitas risadas. É sério? Esta é a revista de John Zerzan? O cara que pega seu rosário toda vez que escuta algo sobre os ataques eco-extremistas no sul? Esses caras querem ser “bandidos”, mas os eco-extremistas já são, e por acaso eles apoiam? Muito pelo contrário. Nós não vimos nenhuma evidência que prove que os anarco-primitivistas ianques não tenham alergia ao cheiro de sangue. Os eco-extremistas não tem essa alergia, isso é fato. Eu não sei, provavelmente o Quadrúpede não leu a Revista Regresión, mas ele tem que fazer uma comparação com alguns textos ali (sobre banditismo) que saíram muito antes deste ensaio. Por exemplo, na Regresión 3 (Primavera de 2015):

“Resistir e negar a vida imposta desde pequenos e formarmos uma vida simples e o mais longe possível daqueles alinhamentos e esquemas culturais modernos, é um dos propósitos a serem alcançados desde o presente. Mas para formarmos essa vida que queremos, distante das grandes cidades e nas profundezas da natureza, às vezes requer dinheiro, dinheiro que preferimos roubá-lo de qualquer lugar ou obtê-lo através das centenas de formas criminosas que existem, antes que nos escravizem à vida de subordinados que a maioria das pessoas carrega. Esta é a razão pela qual o grupo editorial desta revista sente simpatia pela reapropriação do dinheiro para propósitos específicos que levam a uma vida que vala a pena ser vivida, sem se importar com quem sofra o disparo quando o dinheiro não é entregue, porque quando um empregado não entrega o dinheiro do patrão, este não merece seguir vivendo, já que defende como um cão obediente as migalhas do mestre, por isso merece uma facada ou uma bala em seu corpo, da mesma forma, quando o empresário, dono ou executivo do negócio não cumpre as exigências do ladrão, também merece o mesmo ou algo pior.

Não há misericórdia nesses atos, é tudo ou nada, é do extremismo de que falamos abertamente, se esse dinheiro será necessário para algum propósito extremista individualista, este o deve consegui-lo a qualquer preço. Aqui devo mencionar que para nós o dinheiro não é tudo, isso dizemos de uma forma muito realista. Neste mundo dominado por grandes corporações econômicas, às vezes é preciso obter dinheiro para cobrir certos fins e/ou meios. Pra nós, obtê-lo trabalhando não é uma opção, obtê-lo por fraude, assaltos ou enganando, sim. Aqueles ancestrais que viram seus modos de vida afetados pela expansão das civilizações tanto mesoamericanas como ocidentais, tiveram que atuar desta forma em algum momento (predação, saqueio, engano, roubo e/ou assassinato), temos apenas cumprido nosso papel histórico como herdeiros daquela ferocidade selvagem.”

Também este texto, retirado do editorial da Regresión 5 (Abril de 2015):

“Sou um eco-extremista e estou em Guerra, eu confeccionei explosivos recheados de fragmentos que dirigi contra tecnólogos que trabalham para artificializar a Natureza Selvagem. Os fios positivo e negativo se encontraram, a energia da pilha conseguiu aquecer o ignitor dentro do niple galvanizado preenchido por dinamite, uma faísca é gerada, o explosivo funcionou, os ferimos, os estilhaços perfuraram seus corpos, os gases da dinamite ardente chegaram a seus pulmões queimando-os ao mesmo tempo, seus sangues derramados serviram para lhes recordar de que NÃO são deuses, embora brinquem disso; não me arrependo por nenhuma destas feridas, de seu espanto, das consequências, o que aconteceu com eles é apenas uma resposta da Natureza Indomável que falou através de MIM. Estive escondido em várias cidades preparando atentados, conspirando com afins, e ampliando minhas práticas no plano da atividade criminosa. Incendiei carros indiscriminadamente, luxuosos e não luxuosos, pequenos ou grandes, uma vez que todos são asquerosas máquinas que fazem com que a camada de fumaça siga se solidificando sobre minha cabeça, os vi arder como um incêndio nas densas florestas, eu soube da reação de seus donos, não me importo com nada, a Natureza me deu a forma para sair intacto dessas situações.”

Então, se os ianques quiserem aprender algo sobre ser “bandidos”, talvez os eco-extremistas possam dar-lhes alguns conselhos para que não sejam detidos pelos valores humanistas civilizados.

Sobre a questão da fuga para a floresta ou o que quer que seja, recordamos uma correspondência com um mano eco-extremista que nos faz lembrar que o contexto ao sul da fronteira é muito diferente daquele dos gringos:

“Aqui muitos poucos “primitivistas” fazem o que fazem lá, isso de comprar um terreno e aprender habilidades de sobrevivência. O que sempre pensamos sobre essas atitudes é que a pessoa que faz isso está sendo covarde ao abandonar a civilização sem ter lutado contra ela. A cultura mexicana herdou de seu passado nativo esta atitude, aqui se você não responder a uma agressão você é fraco e viadinho, o mesmo vale para os “primitivistas” que compram um terreno e em vez de guerrear decidem viver alternativamente. Embora tente de todas as formas fugir da civilização, esta chegará a você. Um exemplo é o que passou com o velho Ted, ele partiu, mas a civilização chegou até ele, e o mesmo acontece aqui.

Só que aqui é muito mais violento, muitas áreas selvagens estão sendo controladas por pistoleiros que utilizam as montanhas para plantar papoula ou usam as colinas para esconder laboratórios de drogas sintéticas. Estes terrenos belos e selvagens estão sob o controle deles e se você ousar pisar neles, os pistoleiros te prendem e te levam como escravo a essas plantações, junto com os imigrantes do sul, e assim por diante. A situação aqui é mais complicada.

Com respeito as comunidades zapatistas, são uma merda, e o mesmo ocorre, estão sob o controle do comitê clandestino indígena que de indígena não tem muita coisa já que são controladas pelos marxistas mais relutantes, muitos estrangeiros.”.

Nós pelo menos concordamos completamente com o mano. Fugir não é uma opção real nem é algo que queremos fazer. A civilização insultou a nossa mãe Natureza, e pagará por isso, aconteça o que acontecer. Naturalmente, apoiamos os indígenas (os poucos que restam) que fogem da civilização, mas não somos eles, e é uma estupidez pensar que podemos nos tornar como eles. Melhor ficarmos aqui e lutar como somos, na verdade, não temos nenhuma outra opção.

Completando a informação sobre a opção de comprar um terreno no México assim como fazem nos EUA, existe também uma aparente desvantagem econômica, enquanto muitos anarco-primitivistas de lá tem uma economia estável dado a sua cultura de primeiro mundo (embora rejeitem), aqui se um anarco-primitivista mexicano quisesse comprar um pedaço de terra lhe custaria cerca de 60 mil a 100 mil pesos ou mais dependendo do lugar. Para obter essa grande quantidade de dinheiro o anarco-primitivista mexicano teria que trabalhar (dado o seu rechaço ao salário de uma empresa) em uma cooperativa universitária autogestiva (por exemplo), onde os lucros líquidos não chegam nem a 200 pesos por dia, então ele teria que trabalhar por um tempo indeterminado para comprar as suas terras. Num outro caso, se o anarco-primitivista “urgisse” comprar um terreno na natureza e decidisse trabalhar em uma fábrica oito horas por dia ralando em turnos noturnos e matutinos, ganhando 1000 pesos por semana, então estamos falando que conseguiria o dinheiro em pouco mais de dois anos, e isso juntando todo o dinheiro, embora esta opção seja quase impossível, já que teria que repartir estes 1000 pesos ganho por semana em aluguel, pagamento de serviços, alimentação, transporte (talvez), etc., então aqueles mais de dois anos dobrariam ou talvez mais. Possivelmente o anarco-primitivista mexicano se canse após tantos anos de trabalho, jogue tudo para o alto, deixe de ser um anarco-primitivista e decida viver uma “vida louca”. Ou talvez o anarco-primitivista em questão herde de sua avó uma casa na floresta e decida ir viver por lá, ou talvez o anarco-primitivista possa ir trabalhar nos Estados Unidos e faça como os trabalhadores michoacanos que trazem dólares os quais aqui tem um grande valor no mercado estimado em 18 pesos cada um, e assim possa adquirir seu terreno, pode ser, são apenas ideias…

Mas de qualquer maneira, alguns anarco-primitivistas dos EUA acham que podem de uma hora para outra se tornarem os bandidos mais fodas de toda a história, ou dentro de algumas “gerações”, ou que podem sobreviver em um dos lugares mais inóspitos do planeta (Alaska), E TAMBÉM atacar a civilização de vez em quando e saírem ilesos. Não pensamos assim, mas boa sorte. Vale a pena mencionar que o Quatro Patas descreve os Selk’nam da Terra do Fogo como um povo selvagem que poderia sobreviver em um dos ambientes mais difíceis da Terra, mas não mencionou que a sociedade Selk’nam era baseada no patriarcado rígido, era a fundação de suas crenças. Talvez ele tivesse que comentar algo sobre isso a suas companheiras primitivistas, que pensam que o patriarcado é sempre um produto da domesticação. Bom, apenas sugerimos.…

O mais curioso vem quando você termina este artigo com aspirações de se tornar um criminoso e logo passa para outro texto que diz que os anarco-primitivistas devem ter aspirações para ser… MONGES. Isso é completamente verdade, eu não estou inventando. O nome do artigo é “The Sacred Sunrise”, de Ian Smith. Não vou tentar resumir os argumentos aqui, pois eles são muito estúpidos e mostram uma profunda ignorância da natureza do monarquismo cristão desde sua origem até a atualidade. Por exemplo, menciona a regra de São Bento, mas não a sua lei mais importante: “ora et labora”, em latim, “rezar e trabalhar”. Bem, é muito interessante que alguns anarco-primitivistas pensam que podem se salvar trabalhando no campo e recitando palavras da bíblia. Será que o autor não sabe que os grandes monastérios da Idade Média, e até mesmo aqui na Nova Espanha durante a colônia eram donos de grandes terrenos, e não apenas de terrenos, também dos campesinos que pertenciam a essas terras, e seus trabalhos permitiam uma vida de luxo aos monges para se comprometer com a “Opus Dei”, a vida de “contemplação”, a erudição, e o ofício divino? Ou sabe que a virtude mais importante do monastério foi a obediência? Talvez esse cara seja obediente a São João (Zerzan) como abade, e Kevin Tucker como mestre dos noviços? É vergonhoso que permitiram que tal estupidez fosse publicada em uma revista “séria”.

Passaremos então a discutir o ensaio do editor principal, Kevin Tucker, sobre a civilização e a dependência, “Hooked on a Feeling: The Loss of Community and the Rise of Addiction” (Viciado em Um Sentimento: A Perda da Comunidade e a Aparição da Dependência). Ao nosso ver, este é o ensaio mais longo, e muito difícil de se resumir em alguns parágrafos. O texto começa com a descrição de “kia” ou as energias curativas que emergem das danças comunitárias das tribos nômades caçadoras-coletoras em várias partes do sul da África. Segundo Tucker, o sedentarismo cria a necessidade de resolver conflitos que anteriormente poderiam ser resolvidos pela mobilidade nômade. Pouco a pouco surge o papel do Xamã, e a especialização sobre o uso de plantas e cerimônias para resolver os problemas de uma comunidade sedentária. A partir daí surgem o álcool, o peiote, e os demais tóxicos que tentam resolver a frustração da domesticação. A primeira objeção que encontrei é que os animais também se “drogam” e se “embebedam”. Em algumas tradições, são os próprios animais ou as plantas que “ensinam” sobre seus usos, até mesmo seus usos narcóticos e alucinógenos.

No entanto, é necessário contemplar o tema da “civilização como um vício”, como Tucker descreve no seguinte parágrafo sobre o papel do álcool:

“A civilização foi levada literalmente nos ombros e costas dos bêbados. Uma devoção religiosa à produção requer um grau de embriaguez para criar raízes. A agricultura, o combustível necessário da civilização, define a monotonia: monótono, dor de ressignificação, sem brilho, e o trabalho sem fim. A humanidade nunca havia levantado suas mãos para a produção excedente se não estivesse segurando um copo levantado”.

Segundo Tucker, então, a humanidade deve retornar à energia da dança dos nômades para a cura emocional e psicológica baseada na comunidade e na atitude igualitária. É uma questão de quebrar a “lógica” viciante da civilização e fugir para forjar novas comunidades de resistência com base na lógica dos caçadores-coletores nômades. A crítica que tenho neste sentido é inspirada nas palavras de outro mano eco-extremista em uma entrevista com um certo John Jacobi:

“(…) sempre que há uma chance vocês gringos, ou seja, as pessoas que compartilham a cultura estadunidense (reformistas), querem sempre criar ‘movimentos’, é como se trouxessem nas veias um sentimento muito característico que os empurra a querer sempre ‘arrumar’ as coisas, e a Natureza Selvagem não escapa desse sentimento.”

Diz-se em algumas partes do texto que o melhor é o inimigo do bem moral, e acreditamos que Tucker cai neste erro. Pelo menos aqui, não é uma questão de defender as culturas primitivas onde quer que apareçam, mas de buscar as culturas “mais puras” da terra e tentar imitar seus modos de vida (é preciso comentar aqui, referindo-se ao Quadrúpede, que os Selk’nam também tinham Xamãs). Sabemos muito bem o que Tucker está jogando: nestas culturas se manifestaram a hierarquia, a domesticação, a civilização, etc., em algumas culturas pelo sedentarismo e o armazenamento de comestíveis, e isso é certo. Mas o processo que criou a civilização e está destruindo a vida na Terra não é produto de um processo de domesticação retirado de um processo particular, ou seja, os processos que criaram a sociedade tecno-industrial. Cada domesticação não criou o Leviatã que está nos ameaçando, e que nos escravizou. O rei Calusa no século XVI ou um agricultor africano do Delta do Níger no século XVII não tem culpa de nossa civilização.

Esta civilização é produto de um processo muito particular, quase ocidental, e seria difícil em nossa opinião encontrar a causa específica desta sociedade asquerosa. Portanto, não há a necessidade de julgar todas as sociedades primitivas e selvagens por suas habilidades de “domesticação”, como ter Xamãs ou qualquer outra coisa. Cada sociedade foi um fenômeno que era produto de seu ambiente e a resposta das pessoas que viveram naquele ambiente. O que vemos agora não foi inevitável, em nossa opinião, poderia ter sido diferente, e muitos selvagens lutaram até a morte para que assim fosse. Mas estas são apenas questões acadêmicas, o que foi perdido foi perdido, mas ainda existem os instintos de atacar e defender que são os mais importantes.

Há também um ensaio de John Zerzan, mas parecia bobo e não o lemos.

De qualquer forma, em nossa opinião, as diferenças entre os anarco-primitivistas do norte e os eco-extremistas do sul vêm dos exemplos das tribos “primitivas” que desejam imitar. Os anarco-primitivistas estão sempre buscando seus exemplos nas tribos que viveram em ambientes inóspitos, onde a fuga ainda era uma opção. Isso inclui os Bosquímanos e Pigmeus do sul da África, os povos que viveram no Alaska, e os Selk’nam (Embora não se dão conta de que eram “sexistas” e tinham hierarquia na forma de Xamãs. Talvez também irão reconsiderar estes selvagens e excomungá-los da “comunhão dos saltos selvagens”). Isto é, eles são selvagens relativamente “pacíficos” onde a guerra contra a civilização não era possível ou necessária. Mas essa não é a nossa situação.

Os eco-extremistas, por outro lado, buscam seus exemplos históricos em situações que correspondem a nossa situação atual, especialmente nos Teochichimecas antes e após a conquista da Mesoamérica, os Yahi na Califórnia, Estados Unidos, os Seri dos desertos de Sonora no México, os Apaches, os Comanches, etc,. Em suma, todas as tribos que estavam em uma guerra até a morte contra a civilização, as que empregavam o ataque indiscriminado, o roubo, o terror, e outras táticas de guerra total. Os anarco-primitivistas querem atuar como se estivéssemos em um tempo mais ou menos pacífico, e dizem que primeiro devemos “convencer as massas” para fazer uma “mudança social”. Dizem que ainda nos resta “tempo” e “esperança”. Essa etapa para o eco-extremismo já passou há muito tempo, assumindo que já foi em algum momento uma opção verdadeira, o que é duvidoso.

Os anarcos dirão que essa opinião é “niilista”, e talvez estejam certos. Não temos problema algum com o rótulo de “niilista”. Mas se nós somos niilistas, também eram as mulheres e homens que se lançavam desde o alto da montanha para converter-se em projéteis humanos contra os espanhóis na Guerra do Mixtón em Zacatecas, e as tribos que preferiam se afogar em um rio do que serem levadas como escravas, ou os milhares de guerreiros que preferiram lutar até a morte contra o invasor. Se não ser “niilista” significa ter que esperar até que as massas te deem a sua “benção” para atacar, ou te impedem de atacar porque viola os “valores igualitários das tribos nômades caçadoras-coletoras” [que não existem], ou te obrigam a ceder antes de lutar porque não há probabilidade de “ganhar”, bem, repetimos, somos niilistas e ponto final. Não temos interesse em nos converter em hippiers vivendo em comunas no Alaska e, ao mesmo tempo, fingir “lutar contra a civilização”. Se esta é a “Primal War” como diz Kevin Tucker, (a guerra primal) é mentira e os anarco-primitivistas devem pelo menos admitir isso.

Campamocha

Por quê te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor

Tradução de uma reflexão do autor Huehuecoyotl.

“Quanto a mim, eu nunca compreendi como dois seres que se amam e acreditam encontrar neste amor a felicidade suprema, não preferem romper violentamente com todas as convenções sociais e sofrer todo o tipo de vergonha, ao invés de abandonar a vida, renunciando a uma aventura além da qual não se imagina que existam outras.” (a) Diria Schopenhauer talvez em uma noite aterrorizante, talvez em uma noite semelhante a esta na qual eu penso sobre o fato de amar, sobre o amor e como se relaciona com a sociedade moderna.

Em primeiro lugar, há tempos tenho escrito um texto sobre os discursos promovidos pelos mass media e como estes regem a vida cotidiana do humano moderno, o texto ainda não está finalizado, ainda falta um tempo para terminá-lo, poli-lo e trazê-lo à luz. No entanto, isso não me impede de escrever um pouco sobre o amor nesta noite de abril. Mas o que tem haver com isso o texto mencionado? Para mim, a relação está no que é o amor nesta época moderna ou o que se formou pelo entendimento de amor -como em outras épocas passadas- através de discursos, discursos destinados novamente a moldar e reger o atuar do humano.

Assim como o velho Schopenhauer não conseguia compreender a felicidade que encontravam dois seres ao se amar, eu em algumas várias dezenas de anos depois não posso compreender como o humano encontra a felicidade amando ao próximo quando este sujeito referido como próximo é ou pode ser alguém tão distante e desconhecido. Aqui encaixa perfeitamente a frase “amor ao povo” muito entonada por aqueles esquerdistas de coração nobre.

O “amor ao povo”, quem é o povo e por que deveria eu amá-lo?, me questiono. Nestes tempos modernos o amor ao próximo se tornou uma faca de dois gumes, e talvez dizer que tem apenas dois gumes ainda é pouco. A onde quero chegar com isso? Bem, que o humano moderno em sua vida cotidiana tem sido bombardeado por discursos que lhe sussurram sutilmente ou, noutros casos, lhe gritam de forma aterrorizante que ele deve amar a seu próximo, aquele filho de Deus que é igual a ele e que, portanto, merece o seu amor, tolerância, respeito e compreensão. Por quê é meu próximo? Por quê eu devo sentir alguma afinidade com este “próximo” se os nossos interesses são distintos? É aqui onde eu me pergunto, por quê o amar? Por quê amar o próximo se eu não tenho nenhum apego por ele?

Volto a recordar o assunto que preocupava a Schopenhauer e a mim, que era: como se alcança a felicidade através do amor a um ser? Reconheço que para mim a finalidade de amar não é totalmente semelhante à concepção de Schopenhauer, para mim o amor ao próximo, assim como é uma arma de multi-gumes, possui múltiplos interesses e finalidades. Quais são estas?

As respostas ao questionamento anterior são incontáveis e recaem no interesse do sujeito que está refletindo sobre o tema, para mim e meus interesses um motivo pelo qual o humano moderno ama o próximo e não só isso, garante também que os diversos contextos sociais em que este se desenvolve se inteirem deste amor ao próximo expressado e demonstrado por ele. Como efeito, o interesse por amar ao próximo e demonstrá-lo recai na busca pelo reconhecimento social tão característico do humano moderno. (b)

É assim como o amor ao próximo se transforma em um objetivo, uma vez que o humano moderno busca obter um reconhecimento social ao demonstrar o seu amor por este ente nomeado como o “próximo” por mais desconhecido que seja. Atos de altruísmo difundidos por diversos meios, principalmente os cibernéticos, fazem com que os humanos sintam empatia e apego com quem realiza o ato altruísta, até mesmo atos de “caridade” com os animais, e ainda mais recentemente, com o que eles entendem -ou se fizeram entender- por natureza.

Esse sentimentalismo aparentemente inocente, amoroso e compassivo para com as pessoas, animais e plantas, não é nada mais que uma falácia, uma mentira na qual os humanos modernos atuam em sua busca insaciável por reconhecimento social, desejo e busca que na maior parte das ocasiões é invisível para os híper-civilizados. O fato de que um sujeito de bom coração alimente com uma pizza um morador de rua, dê a um cachorrinho moribundo algo para beber ou regue a uma planta a ponto de secar não significa nada, nem mudará absolutamente nada, o mundo seguirá em seu caminho rumo ao abismo, caminho na qual é guiado e empurrado pelos humanos. Então, por que o humano moderno faz isso? Se desculpam dizendo que esta ação muda o mundo de quem recebe a ação, o que para mim é estúpido e falso.

Quem recebe a nobre ação, ou melhor dizendo, a “amorosa ação”, segue vivendo dentro de um contexto social, e assim é com o morador de rua que segue vivendo dentro da sociedade na qual carece de oportunidades de trabalho, o cachorrinho e a planta seguem dentro de um mundo envenenado onde cedo ou tarde a atividade humana os destruirá. O ato de amor desculpado na empatia e o altruísmo é o ato mais falso que alguém pode cometer.

Seu amoroso altruísmo está encharcado de interesse por obter o reconhecimento social, embora o neguem, já que, o desejo de consegui-lo é algo que se encontra escondido na consciência do humano. Como escrevi no começo, a vida do humano moderno é controlada. Aquele que se vê livre é apenas um cego! Os discursos expressos na publicidade desempenham um papel importantíssimo no controle do híper-civilizado que cada vez mais se ajoelha perante a isso, sempre de uma maneira imperceptível para ele.

Até aqui escreverei nesta ocasião, sei que o texto é apenas uma ligeira introdução a um tema com múltiplas arestas como é o amor, sempre tão controverso. Espero que estes diversos textos que escrevi se relacionem entre si e sejam de interesse e sirvam como contribuição para a tendência. Por enquanto, me parece que é um breve, mas claro esboço de um aspecto dos muitos que podem se desenvolver em termos de amor, isso a partir de minha perspectiva como eco-extremista.

-Huehuecoyotl-
Torreón, Abril de 2017.

Notas:

(a). Veja em: Arthur, S. (n.d.). El amor. En, El amor, las mujeres y la muerte.

(b). Para uma melhor referência sobre o conceito de “reconhecimento social”, veja o texto que escrevi junto com Ozomatli para a Revista Regresión: Huehuecoyotl, & Ozomatli. (4 de Abril de 2017). “Algunas reflexiones sobre el actuar del humano moderno desde una perspectiva eco-extremista.” Regresión. Cuadernos Contra el Progreso Tecnoindustrial, número 7.

Tendências Cristãs Pseudo-humanistas

Tradução de Humanist pseudo-christian tendencies, uma resposta publicada na web redigida por encarregados da Revista Atassa a alguns anarquistas.

Li o texto “Tendências Misantrópicas Selvagens” há alguns meses em seu espanhol original. Embora eu ache este ensaio muito mais justo que muitas das críticas feitas nos últimos dois anos, há questões expostas que creio que seria benéfico abordar. Limitarei a minha discussão aos temas Natureza Selvagem, autoridade e misantropia.

Natureza Selvagem

Sobre este assunto existe o ensaio “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?“, que é muito fácil de encontrar. Mas para a questão, citarei uma passagem de uma entrevista realizada por John Jacobi a um eco-extremista:

“… estou consciente de que não sou o salvador da Terra, que a única coisa que pode ser “salva” é a minha própria vida e a maneira como eu me relaciono com o meu grupo de afinidade. A Natureza Selvagem sou EU e meu grupo que se agarra ao ato de não deixar morrer os instintos animais que ainda possuímos. Nos despojaram de tudo, até mesmo de um lugar no qual poderíamos habitar livremente, nos distanciaram de nossos ambientes selvagens, de nossas terras ancestrais e sepultaram-nas com cimento, então a única Natureza Selvagem sou eu e meu grupo, reselvageá-la é o que costumo fazer.” (Trecho de “Diálogo entre um “Eco-extremista” e um “Selvagista”“)

Já sobre o assunto de espíritos/deuses, o seguinte texto de um eco-extremista na Argentina eloquentemente explica a sua defesa pessoal do animismo personalizado:

“Não me surpreende em nada vindo de um grupo de indivíduos tão apegados às lógicas civilizadas, que aderiram a um dos pilares do pensamento empírico e mecanicista, como é o ateísmo. O que dizer sobre este assunto que ainda já não tenha sido dito? Nós, os e as eco-extremistas, temos muito bem destacadas as nossas crenças e visões espirituais, criamos as nossas deidades com base em experiências pessoais na Natureza Selvagem, e veneramos de forma animista os espíritos que habitam nela, como fizeram os nossos antepassados séculos antes da invasão. Estas deidades agarradas à Terra, ao primitivo, nos acompanham e nos guiam a todo momento, nos empurram à confrontação com a mega-máquina civilizadora, nos provém de força e mantém ativo nosso indômito caráter guerreiro. Por todas estas razões e algumas outras, é que rimos dos ateus e seu cientificismo humanista, daqueles e daquelas que baseiam a sua percepção da realidade em uma visão completamente fria, matemática, mecânica, robótica, artificial, etc. Nós não nos importamos que ante as nossas crenças venham a tachar-nos de tolos, crédulos ou de românticos, isso já fizeram os colonizadores no passado, e o fazem a todo momento os híper-civilizados que simplesmente não entendem o idioma do vento, não percebem os sussurros dos vales, o grito dos vulcões ou a sabedoria das árvores. A tudo isso nos dirigimos ao invés de máquinas e robôs, nós preferimos adorar paganamente o espírito da serpente em vez da deusa da razão e seus fiéis discípulos, a ciência e a tecnologia.” (De “Uma Defesa Conceitual do Selvagem: Uma Resposta à Semente de Libertação)

E, em comparação, incluímos um texto de um eco-extremista/niilista do continente europeu:

“Aqui na Europa há também grupúsculos de terroristas niilistas, criminosos individualistas e extremistas e misantropos vivos caminhando, e lembramos mais uma vez que alguns destes grupúsculos foram até pouco tempo próximos a vocês e seus ambientes de podridão, que sabemos quem é quem e por onde anda cada um, que a violência e o atentado para nós não é algo novo, mas uma prática que se tornou uma extensão do próprio ser, então tem sido parte de nossa vida durante alguns anos já… nós não temos “deidades pagãs”, o que temos são armas, explosivos e informação, então, vigiem as suas palavras, suas valentias de internet podem custar caro na vida real.” (De “Algumas Notas Sobre as Recentes Difamações e Breves Esclarecimentos“, O Inimigo Interno)

Os anarquistas autores do texto, certamente, se sentirão mais confusos após ler esta citação, já que nela é expressada um desgosto com a postura contraditória de obedecer aos deuses pagãos e ao mesmo tempo aos próprios caprichos. Dos trechos que citei, o principal ponto de partida é que a ideia de “Natureza Selvagem” como uma entidade autônoma e transcendental não é um dogma obrigatório do eco-extremismo, nem mesmo está imposto especificadamente em nenhum sentido. Um indivíduo pode estar de acordo com ITS e grupos afins, embora não acredite nisso em absoluto, ou em alguns casos, estando em desacordo (ver, por exemplo, o comunicado emitido pelo “Grupúsculo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem”, de Março de 2017). Isso não é retroceder: aqueles que prestam atenção sabem disso há muito tempo. Em nosso atomizado mundo moderno, todas as crenças são individuais e pessoais, e não se traduzem bem quando são impostas ou mesmo comunicadas aos outros. A Máfia Eco-extremista é uma frente unida de individualistas que aderem a crenças pessoais que estão em confrontação com a humanidade moderna. Este pode não ser um alvo ideal para anotar pontos polêmicos fáceis, mas tem sido o caso durante um par de anos.

De qualquer forma, darei minha própria interpretação pessoal do que acredito, sendo o escritor prolífico que sou. Não creio que a imanência e a transcendência com respeito a entidades espirituais sejam inerentemente opostas. Em muitas tradições espirituais, inclusive os pagãos europeus e até certo ponto da teologia cristã mística, adorar deuses transcendentes é realmente um exercício para retornar ao que você realmente é. É um exercício de autoconhecimento. Embora isso possa ser facilmente corrompido em cultos cívicos e alienados, o verdadeiro mago na antiguidade utilizou o ritual e o simbolismo para ascender à divindade (ver, por exemplo, o Corpus Hermeticum). Na verdade, esta foi a base da filosofia moderna, como no Rosacrucianismo de Descartes e Hegel, e a obsessão com a alquimia até Isaac Newton (a alquimia é mais uma transformação pessoal que a mudança de metais básicos a precisos, cf. Carl Jung). Portanto, é obtuso citar Stirner (um discípulo de Hegel, mesmo que ele fosse um rebelde), mas não se dar conta das origens “sacras” de seu próprio discurso filosófico. Continuo afirmando que a “libertação” é um conceito intrinsecamente religioso, não importa o quanto tente fugir de seu passado cristão.

Portanto, é um pouco ridículo pensar que esses eco-extremistas que aderem a uma disciplina espiritual estejam fazendo igual os cruzados quando seguiam a voz do Papa e os jihadistas escutando os gritos militantes do ímã local. Ver a devastação da Natureza Selvagem, sua pavimentação, sua exploração e sua desaparição poderia ser uma experiência espiritual negativa o suficiente para desencadear um despertar em alguns indivíduos (ouvir um chamado, talvez). Eu senti isso. Talvez o/os autor/autores não o sentiram, e talvez acreditem que alguns estão tomando isso mais literalmente do que deveriam. Há muito tempo deixei de considerar a humanidade como o único agente convincente que poderia convocar a minha lealdade, e tampouco acredito muito em mim mesmo para crer que sou o fim absoluto e o fim de tudo (escrevo mais sobre isso abaixo). Não invejo aqueles que tomam as suas deidades literalmente, mesmo que eu não o faça. Em minha opinião, me adiro ao Desconhecido. Às vezes os chamo de “Deuses Escuros”, aqueles que restaram da devastação que é a modernidade, talvez agora sem rosto, sem voz, mas uma presença, no entanto. Não tenho ideia de como adorá-los, ou se eles deveriam ser adorados. Eles não “falam” comigo, mas sei que estão ali, esperando, quebrando os moldes da ilusão civilizada.

Meus deuses estão mortos. A única coisa que falta é matar os seus. Mesmo que esses deuses sejam abstrações como “Humanidade”, “Liberdade”, ou qualquer outra coisa.

Autoridade

Claro, voltamos ao assunto da dominação e da autoridade. Ele/os autor/autores anarquista(s) enfatizam os argumentos cansativos do caráter anti-natural da autoridade, e assim por diante. (“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros…”. Muito obrigado, Rousseau.) Agora vou citar um par de passagens que nos ajudarão a abordar este tema (de novo):

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.” (De “Já Haviam Se Atrasado: Reação Selvagem em Resposta a “Destrua as Prisões“)

– E também:

“Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.” (De “Selvagens Politicamente Incorretos“)

Em um “gol contra” um pouco humilhante, mas talvez involuntário, os autores anarquistas citam os Ona da Terra do Fogo sem se dar conta de que eles, sendo simples caçadores-coletores, tinham uma sociedade baseada no patriarcado:

“A posse patrilocal e patrilinear dos territórios concedeu aos homens o direito exclusivo sobre a terra, que era importante não tanto para os terrenos de caça do guanaco ou outra fauna e os recursos naturais. Mesmo quando um homem passou a residir na linhagem de sua mãe, seu pai e seus tios continuaram sendo as figuras dominantes. O fato de que a fabricação de bens, ferramentas e artigos domésticos possa ser ensinado a todas as crianças e adultos jovens, permitiu aos produtores dominar a economia e manter um nível igualitário de apropriação e produção, frustrando assim qualquer possibilidade de subordinação, exceto a sexual. Esta “exceção” equivale a uma ruptura na sociedade que torna impossível caracterizá-la como igualitária. Poderia ser chamada de “igualitária patriarcal”, mas este rótulo parece ser contraditório ou enganoso.” –Anne MacKaye Chapman, “Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam (“Selk’nam” é outro nome para os Ona)

O mesmo caso ocorre em uma antiga cultura “simples” como a dos povos aborígenes australianos. Embora exista uma grande controvérsia sobre se os europeus exageraram na misoginia dos povos colonizados “não contatados”, há evidências menos anedóticas de que a “dominação” e a autoridade eram uma realidade entre os caçadores coletores “materialmente simples”:

“O paleopatologista Stephen Webb publicou em 1995 sua análise de 4.500 ossos de indivíduos do continente australiano que remontam 50 mil anos. (As inestimáveis coleções de ossos da época foram entregues oficialmente às comunidades aborígenes para que promovessem um novo enterro, o que deteve os estudos de rastreamento). Webb descobriu taxas de lesões e fraturas muito desproporcionais nos crânios das mulheres, sugerindo ataques deliberados e muitas vezes ataques por trás, talvez em disputas internas. Nos trópicos, por exemplo, a frequência de mulheres com traumatismo cranioencefálico foi de aproximadamente 20-33%, frente a 6,5-26% para os homens.

Os resultados mais extremos foram na costa sul, de Swanport a Adelaide, com taxas de traumatismo cranioencefálico feminino de até 40-44%, sendo duas a quatro vezes a taxa de traumatismo masculino. Nas áreas desérticas e da costa sul, 5-6% dos crânios femininos tinham três lesões cranianas separadas, e 11-12% tinham duas lesões.” (de “A Longa História da Violência Aborígene – Parte II, recuperado do site The Quadrant“)

Claro, poderíamos citar todos os tipos de exemplos brutais de abusos misóginos, bem como o desenvolvimento de hierarquias entre os caçadores-coletores como no norte da Califórnia e nos construtores de montículos da Poverty Point no que é agora Luisiana…. Não importa. O ponto é indicar que não somos afetados pela torpe tentativa de nos explodir com o nosso próprio petardo. O eco-extremismo não desafia a “dominação” ou autoridade do passado, nem finge que pode aboli-las para sempre. É uma ideia muito tola de se apegar em qualquer caso.

Digamos o que é óbvio: os eco-extremistas e os niilistas misantropos não mostram adesão a qualquer autoridade humana tal como existe atualmente, e sei também que nem poderiam fazê-lo em um futuro previsível. A própria natureza do que significa ser um individualista eco-extremista/niilista exclui ipso facto qualquer tentativa de criar uma autoridade transpessoal no presente como é comumente entendido. Talvez ITS tenha uma hierarquia militar que se estenda para além das fronteiras e continentes, mas eu duvido muito. Tenho entendido que se trata de um grupo de individualistas comprometidos em uma guerra assimétrica. Qualquer conversa sobre “autoridade” no sentido comum do termo é meramente hipotética.

Quando os eco-extremistas falam de autoridade, eles o fazem de maneira puramente instrumental. A autoridade em seu uso (para além dos aspectos “espirituais” discutidos anteriormente) tem mais semelhança com a estrutura de uma gangue ou máfia e menos a ver com um governo ou um partido político. Não há outra maneira de apoiar outro tratamento do assunto até onde eu possa ver. Se na execução de um crime alguém está “no comando”, a vida dos delinquentes poderá depender de que todos façam o que diz esta pessoa. Se uma determinada pessoa alcança um conhecimento espiritual superior ou o conhecimento de ervas medicinais, essa é a única autoridade que o eco-extremismo parece estar falando. Ao contrário do/dos anarquista/anarquistas autor/autores, eles não tem a ilusão de “construir novas formas de relacionamento entre todos os seres que habitam este mundo e estes com a Terra”.

Você pode pensar que, porque algumas pessoas falam que estão livres da “dominação”, o sangue delas não é vermelho como o dos demais. É bastante lamentável que um animal fique doente e talvez viva quatro anos e meio para falar sobre estar livre de “toda a dominação”. Alguém poderia falar também sobre estar livre da gravidade ou da segunda lei da termodinâmica. Estamos limitados por todos os lugares em nosso contexto, desde quando atravessamos a rua até o que podemos comer no café da manhã. Os eco-extremistas têm o objetivo muito simples e compreensível de se vingar e ver as coisas arderem e serem destruídas. A “destruição de toda autoridade” nem sequer parece significar algo em concreto, e muito menos possível.

“Somos soldados, não se pode escapar deste fato. Soldados no sentido tradicional e soldados em um sentido diferente. Somos guerreiros espirituais, temos uma causa ímpia para colocar um fim na humanidade. Não estamos lutando para preservar nações ou governos. Estamos lutando para retornar a nossos deuses, para nos tornarmos eles. Somos soldados em um sentido tradicional porque esse tipo de resultado não acontecerá sem combate. Tomar a ofensiva é a única coisa nobre que pode ser feita. Goebbels declarou ao povo alemão quando estavam sendo invadidos, “o ódio é nossa oração, a vingança é nosso grito de batalha”. O fedor de uma espécie inferior já não pode ser tolerada. A única solução para uma sociedade doente é a aniquilação.” –Tempel ov Blood, Liber 333

Misantropia

Direi que, pelo menos para mim, a misantropia não é um ato de aprovação do juízo moral. A não ser que alguém seja um completo e desmedido otimista, é evidente que existe um problema. O eco-extremismo em alguns lugares argumentou que o problema é físico, não moral. Como formulado no já extinto blog Wandering Cannibals:

“Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista. Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são humanos demais…”

Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria? Aqueles que se opõem à misantropia parecem pensar que o problema é qualitativo quando, na verdade, é quantitativo. Não é uma questão de inocência ou culpa, é apenas que existem muitos malditos, amorosos e éticos humanos que pensam que suas vidas e seu bem-estar são invioláveis. Que tocar em um fio de cabelo de suas cabeças é um sacrilégio ou, o horror dos horrores!.… autoridade.

Mas, na verdade, não adianta nada discutir o assunto. Isso se torna um exercício tragicômico uma vez que os anarquistas “niilistas” começam a acusar os eco-extremistas de moralismo por realizar as ações mais imorais imagináveis. Dizem algo como: se eles fossem realmente individualistas e “não dominados”, não atacariam a humanidade em absoluto, ou atacariam apenas aqueles que têm a responsabilidade “direta” pela dominação, seja lá o que isso signifique. Sinceramente, o/os anarquista/anarquistas autor/autores parece/parecem abertamente vago/vagos sobre a condenação do ataque indiscriminado, já que é um ponto que levantam. Falo mais de fanboys egoístas que começam um jogo bobo de quem pode se importar menos, que de alguma maneira é algo como o que se segue:

A: “Eu sou amoral, então ataco a sociedade e os humanos.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com a sociedade nem com os humanos, e você simplesmente estaria fazendo as suas coisas.”

A: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com quem estou atacando.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria se eu me importasse com quem você atacou…”

Etc., etc….. Sério, tem sido assim há dois anos. Sabe quantos executivos o/os autor/autores do texto poderia/poderiam ter aleijado até agora?

Ah, é. Me esqueci que ele/eles não tem a intenção de ser uma ameaça para ninguém, exceto talvez para os eco-extremistas, e nem sequer pode/podem prender um deles. Só pra constar, me lembra a polícia.

Então, para concluir, não me importa se os eco-extremistas citam o Monstro Voador de Espaguete para queimar, matar e mutilar. Para mim, é o mesmo: no fim de tudo, somos estúpidos humanos. Tampouco me importam os objetivos absurdos como “a destruição de toda autoridade”. Isso é muito abstrato para que entenda o meu pequeno cérebro, o que é uma boa maneira de dizer que é uma porcaria. Finalmente, eu não gosto muito dos humanos porque não parecem gostar muito de si mesmos. Eles estão defecando coletivamente sobre o único planeta que têm, e cada dia se tornam mais mecânicos e artificiais. Sobre este último ponto, não sei porque sou obrigado a me sensibilizar ou me preocupar com os seres humanos atacados no presente, já que qualquer pessoa aleatória em Paris, Jakarta ou Kinshasa é tão abstrata como Zeus ou como um membro de uma tribo indígena extinta. Para citar o grande reacionário De Maistre:

“A Constituição de 1795, assim como suas predecessoras, foi feita para o homem. Mas não existe no mundo nada que se possa chamar de homem. Ao longo de minha vida, tenho visto franceses, italianos, russos, etc.; sei também, graças a Montesquieu, que se pode ser persa. Mas, quanto ao homem, afirmo que, em toda minha vida, jamais o encontrei; se ele existe, desconheço-o completamente”

Tenho pouco tempo para aqueles que estão obcecados pelos ideais de uma sociedade que supostamente desejam destruir. Se estas pessoas finalmente começam a atacar o que odeiam, e se realmente atacam, não haverá ninguém mais satisfeito que eu. Mas se continuam emitindo anátemas de dentro do escritório da Mãe Superiora do Convento da Santa Anarquia, estarão confirmando minhas piores suspeitas de suas verdadeiras intenções.

O Mito do Veganismo

Texto analítico e crítico do veganismo traduzido do blog Matar o Morir Ediciones.

O Mito do Veganismo (1)

“O veganismo é uma filosofia de vida que exclui todas as formas de exploração e crueldade para com o reino animal e inclui uma reverência pela vida. Na prática se aplica seguindo uma dieta vegetariana pura e incentiva o uso de alternativas para todas as matérias derivadas parcial ou completamente de animais”.

– Donold Watson, membro fundador da Vegan Society (Sociedade Vegana).

Este pequeno texto não questionará a irracionalidade das ideias e valores (2) da filosofia vegana. Nesta ocasião demonstraremos que o veganismo é um mito na Sociedade Tecno-industrial e como é um obstáculo para entender e atuar pela verdadeira Libertação Animal (3).

O veganismo é um mito. Nada nem ninguém é vegano dentro da moderna Sociedade Tecno-industrial. No entanto, são muitos os ingênuos que acreditam neste mito e que creem que seus alimentos, vestimenta, calçado, produtos de higiene e beleza, aparatos tecnológicos, livros, música, bikes… e todo o lixo industrial que consomem compulsivamente é, segundo eles, “vegano”.

Mas na realidade é bem diferente disso. Todo esse resíduo industrial denominado “vegano” não poderá conter materiais de animais não-humanos, ok, mas, na verdade, contém… ou melhor dizendo, de fato colaboram com a exploração animal, humana e não humana.

Então se retomarmos nossa definição anterior de veganismo, “… uma filosofia de vida que exclui toda forma de exploração e crueldade para com o reino animal…”, é evidente que não é coerente com a filosofia porque contribui com a exploração sistemática do reino animal, logo, o veganismo é um mito.

Os autodenominados “veganos” são muito ingênuos ao não analisar, questionar e entender o funcionamento da complexa realidade e do grande complexo sistema social em que vivemos.

Todo alimento ou produto que provenha da moderna Sociedade Tecno-industrial não está livre de colaborar com a exploração e domesticação sistemática do reino animal e ambiental.

As sementes, frutas e verduras que produz e distribui a moderna Sociedade Tecno-industrial não são veganas já que a moderna agricultura industrial necessita de:

a) desmatar grandes extensões de terra fértil para aproveitar a fertilidade deste solo e convertê-lo em um campo de cultivo. Desmatar significa; destruir o ecossistema que ocupava este solo. Deve-se cortar ou incendiar a vegetação deste ecossistema e em seguida é necessário assassinar, capturar, domesticar, deslocar ou até extinguir as diferentes espécies de animais deste ecossistema. Isso aniquila todas as complexas relações e interações que mantinha esse ecossistema consigo mesmo (ecossistema e habitantes) e a relação que esse ecossistema mantinha com outros ecossistemas e com o planeta em geral.

b) já que se tem o campo de cultivo pronto, se necessita de camponeses que trabalharão a terra, há a necessidade de suas ferramentas (máquinas ou animais não-humanos de trabalho), se necessitam as sementes (nativas ou transgênicas) que serão semeadas, se necessita o fertilizante (natural ou industrial), se necessitam inseticidas (naturais ou industriais), se necessita a água para irrigação, etc…

E uma vez obtida a colheita ela é vendida a intermediários, eles a transportarão, armazenarão e distribuirão, até que finalmente esta semente, fruta ou verdura chegará ao estabelecimento comercial onde os “veganos” farão suas compras.

Então para poder realizar todo este processo é necessário utilizar a grande e complexa divisão do trabalho da moderna Sociedade Tecnológica, e em todas estas grandes complexas relações existe exploração e domesticação sistemática do reino animal e ambiental.

Alguns “veganos” poderão argumentar em sua defesa que as sementes, frutas e verduras que consomem não são de origem industrial, mas de hortas orgânicas, ok, mas se esta horta utiliza tecnologia moderna para a produção, armazenamento e distribuição de seus alimentos e se para poder adquiri-los há circulação de dinheiro, inevitavelmente continua colaborando com as dinâmicas de exploração e domesticação sistemática, animal e ecológica.

Talvez, as sementes, frutas e verduras realmente veganas são as que colheriam cada indivíduo com técnicas como; a permacultura ou jardinagem orgânica, e com o uso de ferramentas ou tecnologia simples, já que apenas assim deixaria de depender do Sistema Tecno-industrial e haveria uma renúncia a seus mecanismo de poder, controle, domesticação e exploração sistemáticos, mas a maioria dos autodenominados “veganos” não plantam seu próprio alimento.

Os autodenominados “veganos” dependem da moderna Sociedade Tecno-industrial para poder levar a cabo sua dieta. Na Natureza Selvagem nenhum animal determina de que maneira se alimentará, isso em grande parte quem determina é o entorno natural no qual se desenvolve. A dieta onívora dos animais humanos não foi uma escolha, mas uma necessidade de sobrevivência, um requisito para poder sobreviver em distintos entornos, comer o que houver, o que se possar comer. O organismo humano não é especialista, é oportunista, e sua dieta onívora é uma prova disso.

O animal humano domesticado em sua jaula civilizada é quem é capaz de decidir como se alimentar (dieta vegetariana, vegana, frugívora ou carnívora), mas para que isso seja possível é necessário colaborar e manter sua condição de animal humano domesticado a serviço do progresso do Sistema Tecnológico.

Nenhum vegetariano, vegano ou frugívoro com este tipo de dieta sobreviveria como o animal humano realmente livre deveria ser no entorno onde deveria se desenvolver (Natureza Selvagem).

A maioria dos autodenominados “veganos”, talvez, não se considerem a si mesmos como o que realmente são: animais humanos.

E também é bem verdade que aqueles que lutam pela “Liberação Animal” não lutam por sua própria Liberdade Individual Selvagem e não questionam nada sobre sua própria condição de animais humanos domesticados.

Se as sementes, frutas e verduras que nos oferece a moderna Sociedade Tecno-industrial não são veganas, muito menos seus demais produtos nocivos de origem industrial são: vestimenta, calçado, produtos de higiene e beleza, livros, música, bikes…

Uma análise similar poderia ser aplicada aos produtos enganosamente chamados de “verdes” ou “ecológicos”.

Nenhum produto proveniente da moderna Sociedade Tecno-industrial é vegano, e muito menos ecológico.

Os autodenominados “veganos” poderão seguir enganando a outros e enganando a si mesmos, poderão seguir dependendo do sistema de domesticação e exploração sistemática.

Poderão seguir denunciando as condições de escravidão dos animais não-humanos; e tudo isso sem ver nem denunciar sua própria condição de animais humanos domesticados a serviço do Progresso Tecnológico.

Eles conseguem ver as jaulas dos demais animais, mas são cegos demais para ver a moderna jaula civilizada em que vivemos.

Poderão seguir lutando inutilmente pela “Libertação Animal” sem antes lutar primeiro por sua própria Liberdade Individual Selvagem. É muito engraçado como um animal domesticado pretende libertar a outros animais.

Poderão seguir defendendo e promovendo as ideias e valores do Sistema Tecnológico (esquerdismo), buscando apenas melhorá-lo com suas inúteis reformas, e não destruí-lo definitivamente.

Poderão seguir consumindo compulsivamente seus produtos ou alimentos nocivos industriais supostamente veganos.

Tudo isso apenas enganará e tranquilizará de alguma maneira sua consciência, mas na verdade não fará nada para tentar atacar a domesticação e exploração sistemática do reino animal nem muito menos fará algo contra a domesticação, devastação e artificialização sistemática da Natureza Selvagem.

Frente a irracional fraude que resulta a teoria e a prática vegana, decidimos:

Renunciar ao consumo desnecessário, reutilizar os materiais já produzidos e deixar de depender do Sistema Tecnológico, desenvolvendo nossa própria forma de vida autossuficiente, longe dos valores da jaula civilizada e o mais próximo de nossa Liberdade Individual e da Natureza Selvagem.

Pela verdadeira Libertação Animal!

Fogo nas jaulas, fogo na civilização!

Revolución Feral

Primavera de 2013

Notas:

(1) Estas ideias e valores a que nos referimos, são: animalismo, sentimentalismo, anti-especismo, biocentrismo, hedonismo, a religião, o esquerdismo, a suposta naturalidade do vegetarianismo nos animais humanos, ecologia social, misantropia, etc..

(2) Quando falamos do veganismo neste texto estamos nos referindo a todas suas “diferentes” vertentes, desde o “veganismo burguês” até o chamado “anarcoveganismo”. E desde o movimento pela “Libertação Animal” reformista até o movimento pela “Libertação Animal” abolicionista ou radical (ALF, Animal Liberation Front – FLA, Frente de Libertação Animal).

Os ativistas da ALF-FLA poderão argumentar que eles não são reformistas porque são de ação, mas a verdade é que eles são idênticos aos que compõem o movimento pela “Libertação Animal” reformista que tanto criticam. São reformistas por defender e promover os mesmos valores do Sistema Tecnológico (esquerdismo), eles não buscam destruir o Sistema Tecnológico, apenas procuram melhorá-lo, e o pior é que não são conscientes disso.

(3) Por Libertação Animal nós entendemos: animais humanos e não-humanos que desenvolvem sua vida em Liberdade, em seu habitat Natural e Selvagem.

Primitivismo Sem Catástrofe

Tradução do ensaio Primitivism Without Catastrophe, escrito por Abe Cabrera e publicado no espaço virtual da Ritual Magazine, uma revista de política e cultura e uma plataforma crítica para examinar a vida sob o capitalismo contemporâneo.

Este texto foi extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Toda boa ideia precisa de um bom ponto de venda. O ponto de venda da ideologia abrangente que pode ser chamada de vários nomes como “anarco-primitivismo” e “pensamento anticivilização”, é a ideia de que a civilização moderna tecnoindustrial está destruindo a espécie humana, e de que se nós quisermos parar essa destruição, temos que destruir a civilização. É uma questão de auto-preservação. Nós precisamos renunciar a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc. Como nós sabemos disso? Bom, a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc, nos dizem isso. Eu provavelmente não sou o primeiro a notar a inconsistência nessa perspectiva, mas talvez eu seja o primeiro a falar algo sobre isso.

O “Pensamento anticivilização” (por falta de um termo melhor) tem um “problema de conhecimento”. O problema é que ele tenta criticar a totalidade do ponto de vista da própria totalidade. Ele tenta desmantelar as ferramentas que construíram tudo que ele despreza usando essas mesmas ferramentas. Isso culmina na ideia de uma “Catástrofe”: O colapso catártico do seu inimigo e a chance da restauração de uma ordem justa. Para alguém que segura um martelo, tudo se parece com um prego, e para alguém com uma narrativa apocalíptica, tudo leva ao fim do mundo. De fato, alguns diriam que a catástrofe é para o primitivista o que a ressurreição de Jesus era para São Paulo: O sinequa non fora do qual a mensagem não pode existir. Se a humanidade não está condenada pela tecnologia, se toda a vida na terra não está ameaçada pela ascendência de um primata egoísta vindo da África, então o que estamos fazendo aqui? Poderíamos simplesmente voltar para nossas casas e desfrutar de nossas televisões de tela plana e ar condicionado.

É claro que as coisas não são tão simples. A primeira pergunta deveria ser: “Nós estamos condenados?”. Alguns livros que saíram recentemente tentam responder essa pergunta com uma negação, mesmo que levando muito a sério a ciência que analisa a mudança climática e a escassez de recursos naturais. O livro de Ronald Bailey “O Fim da Tragédia: Renovação Ecológica no Século XXI” é uma das maiores contribuições ao gênero eco-modernista. Apesar de não ter tempo para cobrir todo o conteúdo do livro, posso ao menos falar sobre o ponto mais forte do livro (pelo menos sob a minha perspectiva): a análise da ideia ecológica de que “não fazer nada” é melhor do que “fazer algo”.

Esse conceito é certamente comum no discurso ambientalista. A natureza tem feito o que ela faz por milhões de anos, e assim, como diz o discurso, ela sabe melhor o que fazer. Isso é o que Bailey chama de “princípio de precaução”, melhor formulado pela frase que dá o nome ao terceiro capítulo de seu livro, “Nunca Tente Nada Pela Primeira Vez”. Tudo que é novo é culpado até que se prove inocente, e o ônus da prova está na novidade, que tem que demonstrar que ela não irá criar mais problemas do que ela está tentando resolver. É evidente que aqueles que se prendem a esse princípio de precaução se tornam paralisados e impedidos de agir, pois não há como eles saberem com certeza quais são as implicações de um desenvolvimento tecnológico (pense por exemplo no debate em torno de alimentos geneticamente modificados). Aqueles que sofrem por causa dessa hesitação, diz Bailey, não tem o luxo da dúvida: eles precisam do remédio novo contra o câncer, de comida barata e de outros benefícios que o desenvolvimento tecnológico traz. Como diz Bailey:

Infelizmente, o princípio de precaução soa razoável para muitas pessoas, especialmente para aquelas que já estão cercadas de tecnologia. Essas pessoas tem as suas casas com aquecimento elétrico nas montanhas; elas já gozam da liberdade da necessidade, ignorância e doenças que a tecnologia pode providenciar. Mas existem bilhões de pessoas que desejam ver as suas vidas transformadas. Para essas pessoas, o princípio de precaução é uma garantia de pobreza contínua, não de segurança.” (93-94)

Temos aqui um problema de conhecimento virado e revirado. O pensador anticivilização e neo-ludita estudou o suficiente sobre a sociedade tecnoindustrial para saber que ela é uma causa perdida. Ele sabe disso através do uso das ferramentas que a sociedade tecnoindustrial lhe forneceu. Mesmo assim, um eco-modernista como Bailey vira o jogo e mostra que esse pessimismo é baseado em uma visão otimista do conhecimento humano apoiado por uma infraestrutura tecnológica que permite estudo e reflexão. Se nós não sabemos realmente, e sabemos que não sabemos, não temos a obrigação de tentar? Não seria essa ignorância uma oportunidade ao invés de um obstáculo? Não é disso que se trata o iluminismo e a revolução científica?

Ao longo do resto do livro, Bailey demonstra diversas vezes, em assuntos que variam do pico do petróleo ao suposto aumento do número de casos de câncer causado pelo uso de produtos industriais que os pessimistas têm estado errados, e muito errados até agora. Bailey conclui que o homo sapiens é um animal sagaz e adaptável, capaz de extrair a vitória das garras da derrota repetidas vezes. Bailey tem poucas dúvidas que nós continuaremos fazendo isso, mesmo admitindo que algumas coisas, como a mudança climática, são problemas reais que afetam toda a humanidade.

Ironicamente, aceitar as premissas de Bailey pode ser a posição mais “primitivista” de todas. Se no fim nós somos apenas animais incapazes de salvar a nós mesmos sem abrir mão dos instrumentos que nos conferem um poder que parece absoluto, como é possível que nós sejamos capazes de condenar nós mesmos a não-existência? Ou ainda, se somos burros demais para nos salvarmos, podemos também ser burros demais para matar a nós mesmos. É claro que há o princípio da entropia, além da intuição de que é mais fácil quebrar do que consertar algo. Mas a analogia não se sustenta aqui, já que estamos falando de bilhões de animais individuais pelo planeta que se mostraram resistentes o suficiente para infestar toda a terra.

Então qual é a resposta? Estamos salvos ou condenados? A catástrofe é uma realidade inevitável ou um desejo masoquista? No fim das contas a resposta é: nós não sabemos. Aqueles que fingem saber estão se agarrando a um suposto bastião de certeza da ruína ou do otimismo no qual os cisnes negros de Nassim Nicholas Taleb jamais ocorrem. O futuro não pode ser completamente desolado, e também não podemos ter certeza de que o desastre não ocorrerá simplesmente porque ele ainda não ocorreu até agora. Tudo que nós realmente temos é o presente.

Assim voltamos ao título: é possível haver um primitivismo sem catástrofe? E se essa sociedade conseguir resolver seus problemas e seguir em frente? Nós voltamos para casa então? Nós passamos a tolerar essa ordem capitalista tecnoindustrial e reconhecer que se nós não podemos viver na sociedade em que desejamos, devemos aprender a amar a sociedade na qual vivemos? Afinal de contas, somos todos humanos, e compartilhamos as mesmas almas, corpos, sentimentos e intelecto. Já que as coisas são assim, nós podemos também trabalhar para salvar todos, e quem se importa com como faremos isso? Sonhos de um retorno a existência idealizada de caçadores-coletores se tornam cada vez menos atraentes.

Confrontados com esse impasse, trazemos aqui pensamentos de uma entrevista recente com membros da tendência mexicana eco-extremista:

“A maior diferença entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecnoindustrial. Nós atacamos agora porque o futuro é incerto. Você não pode criar uma estratégia baseada em suposições, acreditando que tudo irá ocorrer de acordo com os seus planos com uma vitória garantida. Nós paramos de acreditar nisso quando entendemos a enormidade do próprio sistema, de seus componentes e de seu vasto alcance que se estende por todo o planeta e até para fora dele. Se a civilização cair amanhã ou nos próximos 30 ou 50 anos, nós saberemos que travamos uma guerra necessária contra ela a partir de nossa própria individualidade. Nós não sabemos se haverá um colapso global do sistema algum dia. Os especialistas dizem que haverá, mas não há como ter certeza. É possível que o sistema caia e a natureza ressurja de suas ruínas. Mas talvez o sistema consiga se manter sempre um passo à frente, tornando-se autossuficiente e com a capacidade de se reparar com facilidade. Como nós já dissemos, não sabemos o futuro. Gostaríamos de saber, mas essa não é a realidade.”

Com os eco-extremistas, então, nós podemos encontrar uma maneira de sair da posição errônea de “um futuro melhor através de um retorno ao passado”. Aqui, nós podemos dizer que o futuro é nosso inimigo. Toda saída proposta, seja através das teorias liberais de Bailey ou de esquemas tecno-progressistas da esquerda é algo que nós rejeitamos logo de cara. Nós não queremos cooperar, e nem salvar o mundo. Nós nos recusamos a oferecer as nossas vidas ou a vida de outros por um futuro melhor. Esse futuro é sempre prometido, mas nunca chega. E nesse ponto, o problema de conhecimento entra novamente em cena: esse futuro não chega porque ninguém é capaz de trazê-lo. As coisas estão “melhorando o tempo todo” apenas porque nós fomos domesticados a ponto de achar que a cenoura na ponta da vara é o objetivo, e que nós estamos nos aproximando dela, e que a vara não está realmente lá, mesmo quando ela bate bem nos nossos narizes. Assim é a essência da civilização: o passado nebuloso e mítico e o futuro que nunca chega.

A catástrofe é a catarse que acaba com o ciclo de sofrimento. Mas assim como a versão budista, ela também é elusiva e nunca acontece nessa vida. De fato, o problema real do “pensamento anticivilização”, especialmente em sua forma anarco-primitivista, é que ele não sabe o que quer, porque o que ele quer é moldado pelo que ele odeia. Ele nem sequer conhece realmente a natureza por se recusar a admitir que não há como conhecê-la com qualquer certeza, e assim faz da natureza um ídolo representando todos os seus desejos ambivalentes. A própria ideia de defender a natureza nos mostra que o nosso conhecimento sobre a natureza, especialmente o conceito peculiarmente norte-americano de “natureza pristina” é mal embasado. David George Haskell descreve a situação da vegetação florestal em face da ressurgência recente da população de veados em seu livro A Floresta Oculta: Um Ano de Observação na Natureza:

“Humanos eliminaram alguns predadores, mas também introduziram três criaturas que matam veados: cães domésticos, coiotes invadindo do oeste e automóveis. Os dois primeiros são matadores eficientes de veados jovens, enquanto o terceiro é o principal assassino suburbano de adultos. Nós nos deparamos com uma equação impossível. De um lado, nós temos a perda de dezenas de espécies de herbívoros; do outro, nós temos a substituição de um predador por outro. Que nível de pastagem é normal, aceitável e natural em nossas florestas? Essas são perguntas desafiadoras, mas é certo que a vegetação florestal exuberante que cresceu no século XX era menos pastada do que o comum.”

Uma floresta sem grandes herbívoros é que nem uma orquestra sem violinos. Nós estamos acostumados a sinfonias incompletas, e estranhamos quando os tons incessantes dos violinos retornam e colidem com os instrumentos mais familiares. Essa reação negativa ao retorno dos herbívoros não tem nenhuma boa fundação histórica. Nós temos que ter uma visão mais ampla, ouvir toda a sinfonia e celebrar a parceria entre animais e micróbios que tem afetado as plantas jovens por milhões de anos. Adeus arbustos; olá carrapatos. Seja bem-vindo de volta ao pleistoceno.

Nós devemos então encarar o fato de que talvez não haja nenhuma “catástrofe”, e se houver, ela não terá o efeito purificador que esperamos. A definição do capitalismo moderno é crise, e o bom homem de negócios faz da crise uma oportunidade. Isso significa que nós não devemos lutar? Que nós devemos abaixar as nossas armas e sermos derrotados pelo quietismo e agnosticismo? Não necessariamente, mas significa que nós precisamos definir melhor porque nós nos opomos a sociedade atual mesmo que ela tenha o potencial de durar milhões de anos, e mesmo que ela torne nossas vidas “melhores” em alguns sentidos. Ao menos temos que definir por que nós nos opomos a ela e não acreditamos que ela seja capaz de concretizar qualquer uma de suas promessas de tirar os animais humanos da miséria.

Primeiro, vamos começar com a natureza. Nós não podemos rejeitar a catástrofe como um conceito sem nenhuma nuance precisamente porque a natureza é uma catástrofe ao longo prazo. Isso ocorre porque a natureza é mudança, e é uma mudança que vai muito além da compreensão humana mesmo em seu sentido mais científico e abstrato. Humanos modernos tem o problema de acreditar que as suas ideias são consubstanciais com a realidade, mesmo que frequentemente não haja razão nenhuma para acreditar nisso. Eles dominam conceitos incompreensíveis como tempo, espaço, matéria, luz, etc. no abstrato e assim acham que não há mais nada para eles no sentido concreto, mesmo que eles nunca tenham saído do conforto de sua cadeira ou do espaço na frente da lousa. A natureza é catástrofe porque ela interrompe, desmantela, destrói tudo e cria novamente: das estrelas mais distantes até as células de nossos corpos. Aderentes do pensamento anticivilização tem dificuldade de aceitar isso de uma maneira concreta, apesar de estarem constantemente falando banalidades abstratas sobre isso. Para eles só se pode dizer “Doutor, cure a si mesmo!”.

O que é então a nossa relação com a natureza? Como nós superamos a ideia frequentemente repetida pelos críticos de que os primitivistas “reificam a natureza”. Aqui, eu ofereço um tropismo cripto-hegeliano. Muitos “primitivistas” (por falta de um termo melhor) veem a natureza como algo que nos é externo, e que oferece a nossa existência como uma dádiva passiva, e que o problema real é que nós nos esquecemos do aspecto gratuito dessa dádiva (pense aqui no conceito cristão de “graça”. Da mesma maneira que um homem não pode obter salvação através do Deus de Calvino, ele é também incapaz de criar os seus meios de vida sem o assentimento da natureza. Obviamente, essa é uma formulação absurda. A natureza, ou se você preferir usar o muito criticado termo de Lovelock, “Gaia”, é o produto de bilhões de coisas vivas trabalhando juntas e sustentando umas às outras ao longo das eras: ela é o ato de coisas vivas. Elas são formadas por ela e a formam também, que vai de pequenos microrganismos até ecossistemas complexos e a própria biosfera. Nós temos que manter isso em mente cada vez que olhamos para a “natureza pristina”. Como Haskell diz várias vezes ao longo de seu livro citado acima, a natureza não é uma sala de meditação, e nem um Éden onde se pega as frutas dos cachos sem esforço algum. Há também confronto e tragédias, da mesma maneira que há cooperação e piedade. O fato que ela persistiu por tanto tempo é uma evidência disso.

O pecado do homem moderno não é ter resistido a sua natureza humana passiva, como diriam muitos primitivistas. O problema é que ele acredita que ele é independente da própria natureza, que ele consegue se virar sozinho, que ele pode dominá-la por completo e não deixar nada sob a sombra do mistério. Esse é o homem moderno, alienado, implacável e autocentrado. Não é o que ele faz, e sim o que ele faz bem demais que é o problema, ou pelo menos assim ele pensa. Por causa disso que não há “solução”. Não há nenhuma abstração que consiga capturar o problema inteiro e torná-lo digerível. O mundo onde há soluções é um mundo que não deveria existir, ou melhor, é o mundo que cria problemas em primeiro lugar. A catástrofe da maneira que ela é entendida pelo homem moderno (purificante, final, devastadora) é o mito necessário pairando sobre a utopia como a espada de Damocles. Alguns de nós preferem espadas caindo do que um paraíso imaginário.

Sendo assim, a solução eco-extremista é brutal e pessimista. Não há futuro, e nem uma “nova comunidade”. Não há “esperança”. Nós não falamos isso com uma alegria gótica, e sim com alívio, como se tivéssemos tirado um fardo de nossos ombros. Seres humanos são feitos para errar o alvo, e nós tendemos a fracassar mais do que acertamos. Mesmo assim, nós fazemos parte de um todo, e deixamos outros para trás para vencer e perder, e para lutar outro dia. Nossa ambição não tem fim, porque ela nunca conquista a vitória. Nós olhamos para sociedades do passado que já foram extintas que aceitaram as suas limitações (ou assim pensamos, pois não há como saber de verdade) com admiração; uma admiração que sabe que se elas não eram “perfeitas”, é porque há algo de errado com as nossas expectativas domesticadas, e nada verdadeiramente errado nelas. Tudo que nós podemos fazer é lutar de volta até nos extinguirmos nessa existência onde uma parte acredita que pode engolir o todo.

E é assim que se parece de fato um primitivismo sem catástrofe, sem uma narrativa fechada, sem um “final feliz”: o contentamento do olho e de todos os outros sentidos em face do que nós conhecemos por natureza, mesmo que nós não a entendamos, mesmo que ela pareça mutilada e incompreensível aqui e agora. Não é algo que nós fazemos (apesar de nós termos uma participação) e nem algo que controlamos (apesar de fazermos o nosso melhor). Mas emaranhada nos corações ementes do homem, é algo verdadeiramente maravilhoso de se contemplar: esse todo, o vasto céu estrelado, o canto do pássaro, a lesma que rasteja, o dia novo, a decomposição, a morte, a vida… terminamos com a grande voz poética de Robinson Jeffers:

Saber que as grandes civilizações foram reduzidas a violência,

e seus tiranos vieram, muitas vezes antes.

Quando a violência aberta surge; evitá-la com honra ou

escolher a facção menos feia; esse mal é essencial.

Manter a própria integridade, piedoso e não corrompido,

sem desejar o mal; e sem ser enganado

Por sonhos de justiça universal ou felicidade. Esses sonhos

não se realizarão.

Saber disso, e saber que por mais feias que pareçam as partes

o todo permanece maravilhoso. Uma mão amputada

É algo feio, e o homem separado da terra e das estrelas

e da sua história… por contemplação ou de fato…

Parece por vezes terrivelmente feio. Integridade é inteireza,

a maior beleza é a

Totalidade orgânica, a totalidade da vida e das coisas, a beleza divina

Do universo. Ame isso, não o homem

Separado disso, senão você irá compartilhar as suas patéticas confusões,

ou se afogar em desespero quando os seus dias escurecem.

“Salvar o Mundo” como a maior forma de Domesticação

Tradução do texto “Saving the world” As The Highest Form of Domestication, escrito por Chahta-Ima. Este texto foi extraído da primeira edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

“Cada Apache decide por si mesmo se ele luta ou não. Somos um povo livre. Não forçamos os homens a lutar como fazem os mexicanos. O serviço militar forçado produz escravos, não guerreiros.”

– “Avô”, citado em In the Days of Victorio: Recollections of a Warm Springs Aparche, por Eve Ball e James Kaywaykla

O contexto desta citação é interessante por ter sido proferida em uma reunião de líderes apaches cujo tema era sobre se devem ou não continuar a resistência contra o homem branco invasor ou sucumbir à poderosa força invasora. Com uma visão retrospectiva, pode-se afirmar que tal postura é uma tolice: se os Apaches fossem uma “frente unida” em vez dos diversos bandos que sempre foram, eles poderiam ter tido uma chance de vitória, é o que nosso raciocínio nos faz pensar. Em vez disso, sua incapacidade de adaptar sua organização social a novas condições levou-os diretamente à sua queda. Diante de uma sociedade de cidadãos intercambiáveis que constituem um Leviatã maciço e unificado, os Apaches continuaram a ser o povo indomável e selvagem de antes. E eles pagaram o preço final por isso: derrota, humilhação, exílio e, em muitos casos, morte prematura.

Mas talvez, mesmo assim, os fins não justifiquem os meios. Ou melhor, os “fins” são realmente os “meios” projetados e amplificados em uma conclusão lógica e monstruosa. Mesmo que os chefes apaches tivessem recrutado todos os guerreiros e os tivessem obrigado a lutar, mesmo que alguns dos guerreiros não tivessem fugido e se tornado caçadores de seu próprio povo para o exército branco, mesmo que pudessem ter segurado o Exército dos EUA por alguns anos mais, eles não teriam feito isso como Apaches, ou como o povo que sempre foram. O caso aqui é parecido, “para salvar a cidade, teríamos que destruí-la”. Ou melhor, para evitar que a cidade fosse estabelecida na terra dos apaches, eles tinham que se tornar a cidade no raciocínio da civilização. E eles sabiam o que isso significava: a escravidão de uma forma ou de outra. Eles aceitaram as conseqüências de sua recusa, mesmo que tivessem dúvidas sobre isso.

Podemos aplicar essas lições à nossa própria situação. Muitos grupos “anarquistas verdes” ou “pós-esquerdistas verdes” como o Deep Green Resistance e outros semelhantes têm uma atitude “militarista” ou “militante” em relação ao “desmantelamento” ou “destruição” da civilização. Existem até mesmo grupos “pró-Unabomber” que sonham com uma “revolução” contra a “sociedade tecno-industrial”. Mas e se, como diz o avô acima, em seus esforços para combater a escravidão, eles estiverem apenas criando mais escravos? Não seria esta a essência do projeto esquerdista/revolucionário: uma última “escravidão”, um último “martírio” que acabará com todas as escravidões e martírios? Só mais um grande empurrão e vamos constituir o lugar onde não há tristeza, nem suspiros, nem mais dor. O Leviatã já teve esse sonho antes, uma miríade de vezes agora, e as pessoas se lançaram contra as rodas do Progresso para torná-lo realidade. Eles ainda estão mortos, e não estamos mais perto da liberdade.

Ainda assim, há outros, como John Zerzan, que pensam que “desistir” de defender o mundo que a civilização criou é algo semelhante ao niilismo e ao desespero. “Esperança”, de acordo com esse raciocínio, seria encontrar uma maneira de “deixar todo mundo terminar bem”, de evitar todas as conseqüências negativas do fim de um modo de vida que não tem produzido nada além de conseqüências negativas para aqueles que se opuseram a ela (como nossos Apaches aqui). O Réquiem cantado para um mundo construído no enorme cemitério de outros mundos mortos deve ser pastoral e pacífico, é o que nos dizem, para que não sucumbamos à vingança e ao ódio, para que não pecamos contra os valores da “Iluminação” que de algum modo escaparam de ser plenamente domesticados, mesmo quando tudo o mais foi (mirabile visu!).

Mas e se esse desejo de salvar o mundo, esse desejo de “derrubar a tirania”, não importando o custo, essa coceira para “lutar por um mundo melhor”, for apenas mais uma roda de hamster, outro jugo para ser colocado em nós, para resolver problemas que nós não criamos e para nos sacrificarmos por um mundo melhor que nunca veremos (engraçado como isso funciona)? E se a perspicácia da civilização domesticada se baseia em aproveitar nossa hostilidade para torná-la melhor, mercantilizando nosso radicalismo e perpetuando valores civilizados em inimigos auto-proclamados como um vírus em um hospedeiro inocente? Por que não apenas manter nossos princípios, como fizeram os Apaches derrotados, e deixar as fichas caírem onde elas irão cair? E se percebêssemos que, como animais, não sabemos o que o futuro vai trazer, que a única resistência que temos é a resistência no agora, e os cuidados de amanhã cuidarão de si mesmos? Na verdade, simplesmente não temos poder sobre o amanhã, assim como não temos poder para ressuscitar o passado. Se o fizéssemos, não seríamos animais, e o revolucionário/esquerdista/tecnocrata estaria certo.

Os eco-extremistas mexicanos estão incorporando essas idéias como na seguinte passagem, que eu traduzi de um trabalho recente deles:

“Percebemos plenamente que somos seres humanos civilizados. Encontramo-nos dentro deste sistema e usamos os meios que ele nos proporciona para expressar uma tendência oposta a ela, com todas as suas contradições, sabendo muito bem que há muito tempo estamos contaminados pela civilização. Mas mesmo como os animais domesticados que somos, ainda nos lembramos de nossos instintos. Vivemos mais tempo como uma espécie em cavernas do que em cidades. Não estamos totalmente alienados, e é por isso que atacamos. A característica distintiva do RS nessa conversa é que dizemos que não há melhor amanhã. Não há como mudar o mundo para um mundo mais justo. Isso nunca pode existir dentro dos limites do sistema tecnológico que engloba todo o planeta. Tudo o que podemos esperar é um amanhã decadente, cinza e turbulento. Tudo o que existe é o agora, o presente. É por isso que não estamos apostando na “revolução” tão esperada nos círculos esquerdistas. Mesmo que isso pareça exagerado, é assim que é. A resistência contra o sistema tecnológico deve ser extremista no aqui e agora, não esperando por mudanças em condições objetivas. Não deve ter “metas de longo prazo”. Deve ser realizado agora por indivíduos que assumem o papel de guerreiros sob sua própria direção, aceitando suas próprias inconsistências e contradições. Deve ser suicida. Não pretendemos derrubar o sistema. Nós não queremos seguidores. O que queremos é a guerra individualista travada por várias facções contra o sistema que nos domina e subjuga. Nosso grito para a Natureza Selvagem será sempre o mesmo até o nosso próprio extermínio violento: “E iraram-se as nações, e veio a tua ira… e o tempo em que tu deverias destruir os que destroem a terra” (Apocalipse 11:18).”

Talvez a única resposta verdadeiramente livre, a única que escapa ao ciclo da domesticação, seja aquela que afirma firmemente que este mundo não vale a pena ser salvo, que seus dias estão contados e quanto mais cedo o mal cair, melhor. Às vezes, a condenação na escatologia cristã não é meramente um castigo, mas é o que é melhor para a alma saturada de iniqüidade. O mundo deve cair, e provavelmente nada irá substituí-lo, nada que possamos prever de qualquer maneira. A única práxis real, portanto, é a da rejeição e não a da reconstrução: um dos animais heróicos que se defronta com o gigante civilizado da escravidão e do medo.

– Chahta-Ima (2016)