Uma Abordagem Extra-moral à Artificialidade

Tradução da reflexão Extramoral Approach Artificiality, extraída do blog Antisocial Evolution.

As leis sociais são um sistema de regras impostas à maioria das pessoas civilizadas desde o nascimento. Elas são um conjunto de regras que governam como você deve viver para fazer a sociedade funcionar: não roube, seja uma boa pessoa, trate os outros como você gostaria de ser tratado, somos todos iguais e se pudéssemos deixar de lado nossas diferenças e trabalhar juntos nós viveríamos em uma utopia de ouro. Estas leis são uma mistura da espuma borbulhante da doutrina judaico-cristã tradicional e o humanismo liberal moderno. É a maior fraude de todos os tempos, o engano mestre, um sistema de mentiras envolvidas em um lindo pacote e chamadas de civilização. É como ser fodido por um porco vestido de freira.

Logo está a lei natural, a lei real, a natureza primitiva do homem, a parte de nosso cérebro que se desenvolveu ao longo dos últimos milhares de anos, sobrevivendo às eras glaciais, secas, em florestas, desertos, à pragas e guerras. É o cérebro do lagarto, o cérebro animal, a parte de nós que impulsiona instintos e comportamentos nos níveis mais profundos.

Em nossa ignorância pensamos que somos removidos a um nível de distância das bestas da terra. Qualquer um que tenha animais de estimação ou que tenha estado no meio da natureza sabe que existe uma lei selvagem que reina acima de tudo: a sobrevivência do mais apto, afunda-se ou nada, aprende a voar ou morre tentando. “Vitória ou Valhala.”

Isso não quer dizer que o altruísmo em certo ponto não exista. Experimentos mostraram que os ratos arriscam suas vidas para libertar seus amigos do cativeiro. Os bonobos nas tribos compartilham a comida entre si. Um cachorro poderia adotar um gatinho órfão como se fosse seu e cuidar dele.

Não estou dizendo que a “bondade” não exista em nossa natureza primitiva. Mesmo assim, as leis da sociedade civilizada são uma farsa. As regras escritas em tábuas de pedra e assinadas por “deus” eram, obviamente, dirigidas a pessoas nos escalões mais baixos da sociedade – não para os ricos e poderosos.

Se você olha a demografia de hoje, são os pobres que são os mais religiosos e os ricos os menos. Os ricos mentirão, roubarão e serão opressivos contra qualquer um que cruze em seu caminho – isso se chama viver sob as leis naturais.

A lei natural é viciosa. Ela é a mãe que insiste e critica, que aponta suas maiores inseguranças com risadas em um sorriso maligno. Ela não é a pequena amorosa Terra, mãe das flores, doces e abraços. Ela é Kali em um embate, incendiando florestas no chão. É a furiosa e ciumenta Hera, atormentando e destruindo aqueles que se opõem a ela. Sua compaixão é grande para aqueles que a respeitam, mas sua ira é a morte experimentada milhares de vezes em um tsunami, por isso andamos em nossas vidas diárias, falando, atuando e respirando sob as leis sociais – quando no fundo de nosso subconsciente – estamos vivendo sob a lei natural. Por que o homem estabelecido com uma esposa e uma família arrisca tudo por uma noite de paixão com uma mulher jovem e bonita, mesmo quando ele sabe que as repercussões poderiam ser a solidão, o divórcio, e intermináveis pagamentos de pensão alimentícia? Por que os líderes de países levam seu próprio povo à ruína com dívidas intermináveis e guerras em busca de riqueza – mesmo quando estão em risco?

Os tolos e os idiotas quebram a cabeça e ficam com suas mandíbulas abertas, estáticos por aí, como se fossem uma horda de vaginas arregaçadas. Um ponto de interrogação que paira no ar como um fedor estagnado.

No início de nossas vidas, estamos posicionados em um tabuleiro de xadrez, mas nos dizem que é um tabuleiro de damas. Como peões obedientes, nos concentramos em avançar um quadrado de cada vez – apenas para nos vermos surpreendidos e espancados quando a torre captura nossas vidas com uma varredura limpa. Como ela pode fazer isso? É justo? Como ela pode simplesmente atravessar todo o tabuleiro? Claro que ela pode, quando você percebe o jogo que está jogando.

Assim que acorda, você está na selva, bebê. Como primatas, é onde começamos e nunca saímos realmente. É claro, talvez sejamos astutos o bastante para criar pequenas casas e estradas ou cercar subúrbios que podem dividir nossas falsas vidas acomodadas.

Mas a civilização, como a conhecemos, tem apenas 5.000 anos de idade. A moderna sociedade industrial tem apenas 200 anos de idade. As leis reais dos homens foram estabelecidas ao longo dos 40.000 anos de nossa existência como bestas, e até mesmo as leis de outros primatas antes disso sequer acontecer.

Poderia a psique humana mudar tão rápido para se adaptar às leis humanitárias, liberais e cristãs? Talvez quando se corte as genitais e lobotomize a mente. Por que você acha que os antidepressivos prevalecem tanto na sociedade de hoje? Por que você acha que as pessoas vão a caras terapias por causa de seus flácidos casamentos e vida sexual?

Então acorde da ilusão. Tudo o que foi dito a você é uma mentira. Perceba o jogo que você está jogando e jogue-o bem. Não há equivalentes. Apenas ganhadores e perdedores. Você é o lobo ou a presa?

Moralidade

Tradução do texto Morality, extraído do blog Antisocial Evolution.

A moral é a teoria de que todo ato humano deve ser bom ou ruim. O propósito de todos os sistemas morais é fixar o comportamento humano mediante a imposição de normas absolutas desenhadas de tal maneira que permaneçam além do exame e da crítica. Todos os sistemas morais são apresentados como a norma superior, a lei absoluta, a ordem peremptória que impõe a todos, em todos os momentos, o que devem fazer e o que não devem, sendo aplicável a todos os seres humanos sem exceção.

Para entender plenamente como funciona a moralidade como mecanismo de controle é útil examinar as funções pedagógicas subjacentes aos códigos morais e as justificativas utilizadas para exigir a obediência universal. Até recentemente, uma das mais comuns dessas justificativas era um dito Deus e, de fato, isso não acabou por completo. Este deus diz a nós o que é certo e o que é errado, ou o “assim diz a crença”. Este conceito metafísico do sonho emite regras para que nós obedeçamos, e se nos recusarmos a fazê-lo, esse deus nos castigará horrivelmente. No entanto, ao ameaçar a outras pessoas dessa maneira, o moralista mudou uma postura por outra postura moral, rumo à outra postura de conveniência pessoal, para evitar os resultados dolorosos de não se submeter a alguém ou a algo mais poderoso que nós mesmos. Claro, existem aqueles que não acreditam em um deus e que, no entanto, são crentes na moralidade. Estes moralistas humanistas buscam uma sanção para seus códigos morais em alguma outra ideia fixa: o Bem Comum, uma concepção teleológica da evolução humana, das necessidades da humanidade ou da sociedade, direitos naturais, e assim por diante. Uma análise crítica deste tipo de justificativa moral demonstra que não há mais nada atrás do que está atrás da “vontade de Deus”. Conceitos como o “bem comum” ou “bem-estar social” são meras peças retóricas de grande ressonância utilizadas para disfarçar os interesses particulares daqueles que as utilizam. É precisamente este disfarce de interesses particulares como leis morais que se escondem por trás da máscara ideológica da moralidade. Os sistemas morais funcionam como um ocultamento do propósito real e do motivo e quase sempre são uma “vontade de poder” disfarçada. Mergulhe os planos luminosos dos Salvadores Morais da Humanidade no ácido da análise brutal e veja o padrão escondido no rolo: o desejo de forçar uma certa linha de ação sobre todos, o desejo de governar e reprimir. Somente quando, em certos momentos e lugares, por meio da força física ou astúcia superior, alguns conseguem impor a sua interpretação moral particular aos outros de uma única moral que triunfa, entendida e seguida por todos da mesma maneira -como na Idade Média, quando a Igreja Católica dissolveu toda a variedade na unidade, ou como vemos hoje em certas partes do mundo islâmico.

Um dos usos mais populares do mito moral é adicionar um enfeite ao já desagradável prato da política. Ao converter até as mais insignificantes das atividades políticas em uma cruzada moral, se pode assegurar o apoio dos crédulos, os vingativos e os ciumentos, além de dar uma pseudo-força aos fracos e vacilantes. Enquanto se espera que aqueles que desejam governar os outros invoquem repreensões morais em uma tentativa de converter (ou purgar) o iconoclasta desviador ou crítico, é profundamente desanimador observar os autoproclamados anarquistas atuando na mesma farsa, na forma dos códigos do discurso politicamente correto, as restrições dietéticas, as escolhas dos consumidores, a ética social dogmática e as moralidades escravagistas como o pacifismo. É difícil imaginar algo mais desfiado, mais irremediavelmente plausível para fundar uma rebelião antiautoritária que a moral, mas os anarquistas o fazem o tempo todo, em detrimento de sua própria luta e credibilidade.

O egoísmo consciente do egoísmo –não é nem moral nem imoral– está além do “bem” e do “mal”. É amoral. Um egoísta pode ser verdadeiro ou mentiroso, considerado ou desconsiderado, generoso ou cruel, de acordo com a sua natureza, gostos ou circunstâncias, e a seu próprio risco, mas não é obrigado a ser nada disso. É possível que uma pessoa se comporte de modo que a moral tache de “bom” ou de “mal”, mas fazem isso apenas porque seus interesses julgam e mentem em uma direção ou outra, não porque esta pessoa está possuída pelo aspecto do moralismo ou do imoralismo.

Enquanto o moralista tende a ver os conflitos entre indivíduos (e grupos e instituições) em termos de “certo” e “errado”, o egoísta nunca considera um adversário correto ou incorreto em nenhum sentido moral. Cada um está simplesmente perseguindo o cumprimento de sua própria agenda, e se o conflito não pode ser resolvido de outra maneira, deve ser resolvido pela força. Bem, não se enganem, ao repudir a ideia de moralidade os egoístas não fazem exceção à “violência”. Tampouco fazem qualquer distinção piedosa entre o nível da força ou a força de retaliação. Qualquer uma das formas é usada se for uma maneira conveniente de perseguir um dado fim, e para o egoísta não há lei moral que proíba a violência à qual eles devam subordinar sua vontade à soberania pessoal.

Para o egoísta consciente a inexistência da moralidade é tão verdadeira como dois e dois são quatro e, neste sentido, o egoísmo supera os limites das mais ousadas especulações do anarquismo sobre a soberania individual, atuando como um poderoso solvente para uma imaginação obstruída por teorias de “certo ou errado”. Só depois de escrutinar todo o horizonte da amoralidade -o nada que resta na ausência do bem e do mal ou de qualquer outra autoridade metafísica- o indivíduo se encontra cara a cara com a liberdade emocionante e terrível em que nada é verdadeiro e tudo é permitido.