Excursionismo

Tradução do texto Hiking, escrito por Abe Cabrera.

Cenas de uma vida dupla.

“Só queremos deixar claro que nenhum ser humano estará tranquilo na natureza, nós não acreditamos ser coiotes, lobos, ou qualquer coisa assim, mas nós somos aqueles que não hesitarão em disparar uma arma para que nenhum ser humano pise na pouca natureza semivirgem que ainda existe, então a partir daqui advertimos que nenhum eventinho desses como a “montanha fantasma” que organizam, as visitas à “floresta dos vagalumes”, passeios pelos bosques, eventos humanistas e estúpidos de “sobrevivência primitivista”, nenhuma pessoa é bem-vinda na natureza, será melhor que se abstenham de querer entrar e é melhor que fiquem em suas malditas cidades”.

– Vigésimo Nono Comunicado de ITS/GITS

“Quero viver nas florestas com predadores. Não quero ser o animal mais perigoso nas matas quando entro nelas. Eu gosto de saber que existe um predador maior por aí, um que pertence e se encaixa em um ecossistema saudável. Odeio a ideia da natureza como um espaço rural, livre de todas as ameaças. Essa é a visão do invasor, não a minha.”

– Rod Coronado, “A Resiliência do Selvagem: Lobos Falando e Espreitando com Rod Coronado.”

Black and Green Review Nº 1 (primavera de 2015), página 108.

Quando ando pela floresta, tento estar o mais atento possível. Mas no fundo da minha mente, eu sei que estou em um lugar seguro. De fato, até digo a minhas filhas que o lugar que fico mais nervoso é o estacionamento subterrâneo do shopping. Este é o lugar mais antinatural que um humano poderia conceber, razão pela qual é um dos mais provocadores de ansiedade que alguém possa imaginar. De qualquer forma, o problema real são os carros dando ré, que é uma das situações mais notáveis para acidentes de carros. As crianças, sendo pequenas, poderiam facilmente serem atropeladas por um condutor que não presta atenção ao que está atrás dele. Em comparação com a floresta aqui, o máximo que poderia ser encontrado seria uma serpente ou parar sobre um formigueiro. Com muita sorte se poderia encontrar um lagarto tomando sol, ao lado de um pântano ou uma lagoa. Mas os lagartos são muito tímidos, e fugiriam para a água se alguém os encontrasse.

Ironicamente, em locais selvagens no Oeste, mesmo em lugares que parecem muito mais desenvolvidos, caminhar na natureza poderia ser potencialmente uma proposta muito mais perigosa. Quando eu morava nas montanhas da Califórnia Central, sempre tive medo de me encontrar com um leão da montanha, especialmente quando alguém dizia que havia visto um em alguma montanha, fora do local onde eu estava me hospedando. Lembro-me de ter ficado em outro lugar, e tive que sair para caminhar muito cedo pela manhã, no escuro, e estava desesperadamente com medo de me encontrar com um leão da montanha ou um urso. Os porcos selvagens eram também uma preocupação. No deserto eram os cães errantes que eu mais temia, e levava inclusive uma vara. Uma serpente cascavel poderia ser facilmente evitada: ao contrário das pantanosas florestas de pinheiros, há pouca grama no deserto para que se escondam. O máximo que eu vi foi um pequeno lince ou um coiote meio emaciado. Ao me verem sequer mudaram seus cursos, seguiram vagando.

Também vi coisas menos ameaçantes. Os cervos são abundantes a oeste, já que a caça é estritamente proibida. Caminhando nas terras de Robinsón Jeffers, especificamente em Wolf Point, cheguei a dois metros de um cervo, e fiquei diante dele. Ele me olhou e não tinha medo. Durante semanas em um dos lugares em que eu estava hospedado, mencionado acima, uma família de cervos passava todas as tardes, perto das cinco horas em ponto: uma cerva e cerca de cinco filhotes. Certa manhã, acordei para encontrar com um lindo cervo de cifres predominantes que havia sido atropelado campina abaixo. Essa visão partiu meu coração.

Houve outros encontros, e haverá mais sem dúvidas. Mas estou começando a perceber que estas epifanias do Deus Selvagem do mundo, se manifestam dentro do cativeiro Babilônico, uma curta, mas trágica época em que um animal decidiu que dominará tudo, e que tudo que restar o servirá enquanto sua existência puder se beneficiar disso. Por exemplo, os lagartos nesta área quase foram extintos no início do século passado. Ursos, lobos, panteras e martas vagavam por estas florestas. Sem dúvida, o grande coro dos pássaros foi uma grande orquestra até não muito tempo atrás. A floresta abre de tempos em tempos mausoléus a céu aberto, e inconfundivelmente silenciosos em comparação a quando uma sinfonia total de animais acrescentava suas medidas musicais. E elas (as florestas atuais) *¹ foram feitas desta maneira por e para o homem. Eu já comentei como minha área nativa na Califórnia foi alterada além do reconhecível.

Declaro tudo isso porque recentemente me pediram para refletir sobre o selvagem *². Para mim, não existe tal coisa. A “natureza” existe completamente a critério do homem. Leia um livro como A Terra dos Cervos: A Caça na América Para o Equilíbrio Ecológico e a Essência da Vida Selvagem, e você percebe que mesmo os selvagens e impressionantes cervos são meramente um produto da civilização: uma população que é permitida vagar e que são extraídos de acordo com cotas muito estritas do governo. De fato, a forma pela qual algumas pessoas caçam cervos, usando milho para atraí-los e ficando a postos para disparar contra eles, já que o cervo não consegue levantar seu olhar, está mais para um massacre que para uma caçada. Existe até um procedimento que a pessoa deve seguir se ela atropela um cervo (que é um acidente muito comum em algumas partes dos Estados Unidos). Em algumas partes do sul, enquanto se está transbordando de árvores, elas são colhidas de acordo com uma determinada agenda. Há a temporada dos lagartos, dos patos, etc., etc. Considerando o número de armas nesta parte do mundo, e o entusiasmo de alguns em usá-las contra animais comparativamente indefesos, a única coisa que impede estas criaturas de serem extintas é o Estado. Muitos animais foram extintos apoiando esta hipótese, uma vez que o governo foi menos entusiasta para protegê-los.

Então enquanto as pessoas pensam que o Estado está contra a “Natureza”, eu estou um pouco relutante em concordar. Se o Estado e a sociedade tecnoindustrial entrassem em colapso amanhã, os primeiros a morrerem seriam todos os animais. Todos os cervos: mortos. Tartarugas: mortas. Lagoas e rios: saturados pela pesca. As pessoas até mesmo começariam a matar os guaxinins e gambás (que eu ouvi dizer que caem bem se vão acompanhados com batatas). Talvez comecem a comer tatus, que dizem que carregam lepra, e depois cães e gatos, e assim por diante. Muitos romances distópicos foram escritos sobre isso. Se a sociedade tecnoindustrial entrasse em colapso amanhã, o leve, mas entusiasta coro da floresta, cairia em silêncio total, enquanto milhões de humanos vagariam pelos espaços silvestres a procura de carne para se alimentar. A descrição de Paul Theroux do silencioso campo da Angola destruído pela guerra, em seu livro The Last Train to Zona Verde, vem à mente.

Claro, agora é muito mais perigoso andar pelos bairros mais distantes, Eu sei, tendo sido assaltado uma vez, tarde da noite, na Califórnia (não levaram nada, e descobri que eu poderia aguentar um soco). Os tiroteios geralmente ocorrem à noite, assim como todos os tipos de assassinatos, roubos de veículos, violações, assaltos, etc. Homo homini lupus*³, especialmente quando todos os lupis reais, foram massacrados pelas mãos do homo sapiens. Ou talvez não seja tão sábio ao tentar criar um mundo em que ele é o único predador a ser temido. É verdade, talvez, que a única Natureza Selvagem que resta está no coração do homem: em seu coração mortal, frio, onde apenas outros homens são presas. No final, este é o mundo que criamos. Um em que a única forma de replicar a sensação do homem primitivo, caminhando pelo bosque primaveril, é afrontando outro homem na floresta artificial de concreto, concebida fora de sua mente limitada. Lá pelo menos deve permanecer alerta e consciente de sua própria mortalidade. Na floresta real, a reserva que sobrou da civilização, é como um claustro monástico em comparação.

De qualquer forma, penso eu, que posso entrar na floresta, no pântano, e nas águas para expressar minha dor. Talvez algum dia, outro homem possa sentir a plenitude de viver entre as árvores, rochas e águas, onde ele é meramente outro animal, a potencial comida de algum animal, e somente outra voz na grande Roda Cósmica. Isso e nada mais. Talvez isso aconteça novamente no sonho do Mundo, talvez não, mas não voltarei a cometer o erro de acreditar que sou eu quem está sonhando.

1. * Esclarecimento do tradutor.
2. * Referindo neste caso a áreas selvagens, geograficamente.
3. * (O homem é o lobo do homem)

Aponte Mais Alto

Tradução do escrito Aim Higher, de Abe Cabrera.

Alfredo Bonanno abre sua famosa obra, “O Prazer Armado”, com esta passagem:

“Por que diabos estes benditos meninos atiraram contra Montanelli nas pernas? Não teria sido melhor ter disparado na boca? Claro que sim. Mas, além disso, teria sido mais grave. Mais vingativo e sombrio. Deixar fodida uma besta como esta pode ter um lado mais significativo, mais profundo, que vai além da vingança, do castigo pela responsabilidade de Montanelli, jornalista fascista e servo dos grandes senhores. Aleijá-lo significa forçá-lo a desistir, a lembrar-se. Por outro lado, é uma diversão mais agradável que atirar em sua boca, com pedaços de cérebros saindo de seus olhos.”

Claro, matar alguém é muito mais definitivo que deixá-lo coxo, sem dúvida. E talvez haja também consequências legais envolvidas (peso na consciência?). É como quando algumas pessoas dizem que a vida na prisão é pior que a pena de morte. Há um ponto aí, dependendo da perspectiva do observador. Pessoas inocentes podem ser libertadas, mas não podem ser ressuscitadas. Talvez um fascista coxo possa mudar seus costumes, ou talvez você apenas quer que ele sofra. Talvez você durma melhor à noite sabendo que “só o deixou coxo”. Ler a mente de alguém é um exercício fútil, então pararei por aqui.

Mas por que disparar na cara de um fascista seria mais “grave”, mais “vingativo e sombrio”? (“Ma sarebbe stato anche più pesante. Più vendicativo e più cupo.”) Bonnano passa a falar da piedade dos revolucionários, levando em consideração que a revolução está longe de ser piedosa. Para ele, estão apenas de fofoquinha, para se divertirem contra a máquina cinzenta que busca nos oprimir, e outro monte de blá blá blá insurrecional sobre ter esperança, mas sem realmente ter esperança, lutar, mas se divertir ao mesmo tempo, etc. Tudo se resume em ultrapassar estas dicotomias, e é por isso que a coisa menos grave é mais divertida enquanto que a coisa mais sensível (disparar na cara e eliminá-lo) é de alguma forma a coisa mais moral, o mais “sombrio”, e o menos subversivo.

Mas, de acordo com alguns grandes insurrecionalistas sem insurreição, ainda mais subversivo é não fazer completamente nada e fingir que o mundo “normal”, o mundo em que se vive de fato, o de milhões de pessoas, simplesmente não existe. Veja você, tudo se trata de fugas binárias, bem e mal, revolução e vida real, natureza e civilização, o Eu e Você, o Um e os Muitos, etc., apenas afirmando que não existem. (Isso me lembra a história talvez apócrifa da Rainha Vitória apagando a Bolívia do mapa após o Embaixador de Sua Majestade Real ter sido expulso do país e posto nas ruas montando um burro como forma de humilhação). Veja como tudo se trata da percepção; estar consciente em oposição e ser “inconsciente” (estar acordado* NdT 1, como as crianças dizem nos dias de hoje). E neste sentido, fazer qualquer coisa que se assemelhe remotamente ao terrorismo, violência revolucionária, ou mesmo a violência criminal, é cair nas mãos do Binarismo Opressor. Em sua bolha, se você denuncia o Binário desde o começo, você vencerá e terá transcendido. Sim, eu também sou um bastardo em minha imaginação. Meus amigos imaginários também pensam que sou especial (“Insurrecionalistas sem insurreição” me lembra a caracterização do comunista Bukharin dizendo que o anarquista é um liberal com uma bomba. Você pode fazer a aritmética sozinho). Foi aproximadamente na metade da minha vida, mas ainda posso me lembrar da Ideologia Alemã e processando o jovem Marx, seu ponto principal era que a refutação de algo no abstrato não destrói aquilo no mundo físico. Eu não vou entrar em toda a polêmica do “São Marx”, mas vou tentar citar Teses sobre Feuerbach encima de outra problemática hegeliana que o autor comunista aborda:

“O problema de saber se ao pensamento humano pode ser atribuído uma verdade objetiva não é um problema teórico, mas um problema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a mundanidade de seu pensamento. O litígio sobre a realidade ou irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico…

A vida social é, em essência, prática. Todos os mistérios que levam a teoria ao misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.”

Vamos salvar o leitor de toda a questão de “o ponto está em mudar isso”. Outro marxista (Trotsky?) resumiu o princípio mais sucintamente dizendo algo como (parafraseando): “Quando uma ideia busca o controle das massas, se converte em uma força material.” Não importa se uma ideia é “falsa”, se existe um deus ou não, etc. Deveria importar, mas realmente não é assim. Se as pessoas estão prontas para matar ou morrer por ela, é uma realidade física, pode até ser uma realidade física superior (um deus?). O progresso, por exemplo, pode ser um fantasma sem base na “realidade física”, mas essa ideia criou a Hidrelétrica das Três Gargantas na China: a crença firme na ordem, no futuro, na benevolência da dominação do homem sobre a natureza, νόμος sobre φύσις. Você se negar a lidar com isso e retrair sua própria imaginação e opinião significa simplesmente que você acaba protegido por sua fortaleza de opiniões intransponíveis. Isso parece uma vitória pírrica, se é que alguma vez existiu uma.

Mas vamos voltar ao tiro na perna: não poderíamos dizer que este “prazer” está infectado pela ideologia neo-cristã, como um malware criando um backdoor no software insurrecional? Por que não é divertido ver cérebros escorrendo pelo oco de um olho, mas ver um fascista se contorcendo de dor porque lhe espatifaram a patela é legal? Pode ser que haja medo que te considerem um psicopata por matar alguém, mas regojizar-se por deixar alguém coxo não deveria te catalogar no status de psicopata, é? (explique isso para uma pessoa comum para ver se compram a ideia). Não poderia ter nada a ver com todo o assunto de “Não Matarás”, certo? Ou o monopólio absoluto sobre a vida e a morte que o Rei, o Estado, etc., reivindicaram sobre as pessoas por milênios no contexto europeu? Talvez estas pessoas deveriam começar a ser honestas consigo mesmas, mas provavelmente não o farão. Elas não deveriam se surpreender, em todos os casos, quando algum de seus compas chegue a conclusão de que todo o derramamento de sangue é “fascista”, ou se alguns mais ainda confusos flertam com os “movimentos sociais” que promovem a intervenção do Estado para desarmar todo o mundo.

A moeda humana, mesmo para o mais fervoroso insurrecionalsita, para o traidor da espécie mais entusiasta, é preciosa demais. Não vamos invalidar esta moeda, eles exortam; ao fazê-lo, a pessoa cai no cálculo moral da sociedade. Ao ser imoral, reverencia-se a moralidade, em oposição a ter a atitude correta, a “consciência correta”. Uma percepção tão alta pode tornar a travessia de uma rua um ato revolucionário, pode criar abundância do nada, pode partir o mar. Mas em termos de desafiar o humanismo inerente, o cristianismo inerente a todas as ideologias “radicais”, não podemos fazer isso. Desculpe, não vamos prestar-lhes atenção, e seguiremos com a próxima moda da semana que prometa salvar uma sociedade que não quer ser salva, ou ao menos nosso confortável lugar nela.

Atirar no joelho é atirar nos ramos mais altos. O atacante está claramente perturbado por algo a ponto de usar a violência. Por que você quer ferir essa pessoa? Por que ela tem poder? Quem lhe deu esse poder? Ou quem consente que o tenha? Há mais de “nós” que “deles”, certo? Com quem você realmente está zangado? Você realmente acha que matará a árvore se você podar o suficiente? O que te impede de atirar na raiz? Quando você se vê de frente para o indivíduo e para o coletivo, o que te impede de apontar mais alto, acima dos joelhos, na direção de onde o problema realmente está? Além do bode expiatório para a Massa amorfa que o mantém em sua posição de poder?

Nota do Tradutor:

1. A palavra usada em inglês é “woke”, termo político de origem afro-americana que se refere a uma consciência perceptiva respeito à justiça social e a justiça racial. Nas acepções mais modernas do termo, é usado para falar de consciência social em termos gerais.

Notas Sobre a Extinção

Tradução do texto Notes on Extinction de Abe Cabrera escrito para o seu blog Wandering Cannibals.

A extinção é a gramática da civilização tecno-industrial. É desta forma que ela se tornou o que é hoje, e a extinção é o que a sustenta. É como se criasse a vida para simplesmente destruí-la. Isso vai desde os campos de agronegócios e fetos abortados a povos que foram inteiramente dizimados em nome do “progresso”. Se o niilista passivo pode lançar a acusação de que a natureza é indiferente às criaturas que ela mesma cria, o que é ainda mais certo é que a civilização europeia cristã (especialmente) tem levado a sério essa premissa e tem operado com ela em um ritmo acelerado e exagerado. O que leva milhões de anos para a natureza criar, formular e desenvolver, a civilização pode se livrar em uma tarde. Todo o nosso modo de vida é alimentado pelos cadáveres de animais mortos milhões de anos antes de que a primeira sombra de um ancestral humano honrasse a face da terra.

No eco-extremismo, a necessidade/propriedade/simetria da extinção humana é a base do ataque indiscriminado. É discutível se o ataque eco-extremista é realmente “indiscriminado” em um sentido absoluto, já que para ser verdadeiramente indiscriminado, o eco-terrorista nem sequer precisaria se levantar da cama e poderia disparar um projétil pela janela em uma rua adjacente. Todos os ataques que não sejam desta exata natureza exigem planejamento, reflexão, preparação, etc. Agora, onde se discute se o ataque eco-extremista é realmente indiscriminado é na escolha da vítima, porque muitas vezes pode ser que quem quer que esteja próximo da “linha de fogo” seja quem sairá ferido, quando isso não era intencional. Novamente, ainda não nos livramos do pântano ético, mesmo se tenhamos decidido quem é culpado ou inocente. De fato, sentenças exaustivas para as pessoas e até mesmo para suas propriedades são quase tão antigas quanto a própria civilização. Vamos para a nossa confiável Bíblia. No famoso relato da queda de Jericó está escrito:

“Quando soaram as trombetas, o povo gritou. Ao som das trombetas e do forte grito, o muro caiu. Cada um atacou do lugar onde estava, e tomaram a cidade. Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia.”

Este não é o único evento nas Sagradas Escrituras: O Povo escolhido por Deus deixou cidades devastadas como se fosse um exercício de rotina, e até mesmo foram castigados por Deus por serem condolentes com o gado.

Claro, as pessoas não serão particularmente persuadidas ao mencionar a história antiga, então vamos ao ponto. A questão da civilização não é um assunto de moralidade, mas de números. Não é um problema filosófico, mas sim um problema matemático e físico. Se você pode superar seu inimigo em número, uma hora você deve sucumbir. Muitas guerras foram guerras de esgotamento onde o lado taticamente superior foi derrotado por ondas após ondas de inimigos sendo lançados. Isso aconteceu na guerra civil estadunidense, nas guerras indígenas norte-americanas, na guerra de libertação nacional do Vietnã, etc., etc.. Muitas vezes não é uma questão de ser capaz de ganhar, mas de ser capaz de suportar derrota após derrota até que o inimigo não possa mais lutar. A culpa ou inocência neste paradigma é irrelevante: a própria presença de corpos (homens, mulheres, crianças ou até mesmo animais de carga) é uma incursão suficiente para garantir a sua destruição sem escrúpulos.

Isso é bom para os tempos incultos do passado, mas o presente aprendeu sua lição humanista, certo? Bem, não exatamente. Sem sequer precisar recorrer a Stalin ou Mao e os milhões que tiveram que morrer no processo antisepticamente criado de “acumulação primitiva do capital”, até mesmo o esquerdista mais anti-autoritário é anulado e é possível encontrar alguém que acha que está tudo bem se, por exemplo, um grupo insurgente faz voar pelos ares uma sorveteria cheia de crianças em nome da “libertação nacional”, sempre e quando o colonialista o tenha feito primeiro:

Então, no final, não importa se alguns milhões morrem, ou se crianças são feitas em pedaços, ou se algumas freiras são estupradas por revolucionários. Uma causa justa cobre uma multidão de pecados… Exceto para as vítimas da causa justa. O tema sobre lidar com vidas humanas é que não é um jogo de números, pelo menos para o híper-civilizado. Enquanto muitos poderiam dizer adeus às atrocidades do passado, ninguém está se voluntariando para as atrocidades do futuro, mais precisamente aquelas atrocidades que serão necessárias para um amanhã melhor. Todos querem ser rei, mas ninguém quer ser o camponês que paga impostos para sustentar o rei em seu excessivo estilo de vida. Todos querem jogar, mas ninguém quer investir no jogo.

Eles nem deveriam querer fazê-lo, porque o jogo está decidido. Isso não impede que os sonhadores, os revolucionários, os conservadores, etc., se ofereçam como “voluntários” para as próximas gerações e as pessoas que não conhecem a árdua tarefa de forjar um amanhã melhor, no qual saiam mais ou menos ilesos. Os devaneios de um futuro melhor são agradáveis desde que você possa confiar nos esforços de outras pessoas para espelharem a sua visão. É claro, esperar que as pessoas façam isso é tolice, mas isso não impede o sonhador revolucionário. Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista.

Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são demasiado humanos…

Então, apesar de que um indivíduo possa pensar sobre o que faz, o humano como uma categoria universal é um fenômeno frágil e passageiro. Mas, novamente, vamos voltar ao parágrafo acima: o problema real com os humanos não é que não são inteligentes o suficiente, mas sim que há muitos deles conectados de maneira desordenada pelas comunicações e transportes globais. O problema não é um diretor executivo ou mil políticos ou um milhão de policiais. O problema são sete bilhões de pessoas com sonhos e aspirações e grandes expectativas para seus filhos… que só podem acontecer às custas de outros seres do planeta. O problema são os valores da humanidade pelo bem da humanidade, humanidade como um sistema fechado, humanidade como o imperativo categórico. Sete bilhões de anarco-primitivistas traidores da espécie seriam inferiores a uma humanidade constituída apenas por dez executivos da Monsanto. Seus sentimentos, opiniões, crenças e ações não contam. Basicamente, o que conta é apenas a sua existência animal, porque é parasitária e injustificável. A menos que sua existência particular possa convencer sete bilhões de pessoas a cometerem suicídio coletivo, deixando, talvez, apenas um punhado de homo sapiens vivendo na Terra como um animal entre os outros, você não é diferente de qualquer outra pessoa.

É claro, você pode dizer que isso se aplica apenas à civilização europeia (pós-) cristã híper-civilizada, mas estamos realmente certos disso? Fora dos intermináveis debates sobre se o homem acabou com a megafauna nas Américas e Austrália, sabemos com certeza que o homem acabou com a Moa, uma grande ave não-voadora nativa da Nova Zelândia que foi extinta a menos de 150 anos antes que os humanos civilizados colonizassem essas ilhas (bem antes da chegada dos europeus). O problema com as coisas que acontecem é que sempre tiveram o potencial para acontecer, ceteris paribus. Mesmo que alguns humanos (a maioria?) nunca levaram sozinhos uma espécie à extinção, de qualquer modo o fizeram, e sempre têm o potencial para fazê-lo. Isso não é uma declaração de culpa, mas uma declaração de fatos. Assim como dizer que um cachorro é capaz de atacar a uma criança não é um julgamento moral do cão: é uma declaração da realidade da situação.

Talvez o verdadeiro problema ético por trás do ataque indiscriminado não seja sobre atribuições de culpa, mas de distinguir se a inocência sequer exista neste contexto. Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria?

A vida humana não é nem poderá ser heroica, ética, nobre, ou qualquer outra coisa do tipo. Você pode esperar pouco dela, e não é eterna. Aqueles que continuam defendendo o humanismo só querem fechar fileiras e defender o poder humano como seu próprio fim por qualquer meio necessário, mas estão defendendo os meios materiais pela qual a supremacia desta espécie é sustentada. O eco-extemista chegou à conclusão de que a única forma de atacar a supremacia humana é atacar os seres humanos em qualquer grau que sejam capazes. Não fazem isso por algum sentido invertido de moralidade, mas pelo entendimento de que a moralidade é impossível, ou melhor, não pode fazer o que diz que faz: separar o joio do trigo, as ovelhas das cabras e o inocente do culpável. Seu ataque é um rechaço à premissa de que o ideal humano pode governar a vida a um nível ético universal. É lançar-se em direção ao Inumano em Nome do Desconhecido, com poucas expectativas em relação às conquistas humanas.

Abe Cabrera

[AUDIO – EN] The Flower Growing Out Of The Underworld: An Introduction to Eco-extremism

Audiobook em inglês da Revista Atassa do texto O que é o Eco-extremismo? – A flor que cresce no submundo: Uma introdução ao eco-extremismo.

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[AUDIO – EN] The Brilliant Podcast On Atassa

Podcast número 41 do projeto The Brilliant sobre a Revista Atassa e as desafiantes postulações do eco-extremismo que põe em xeque as velhas teorias e alimenta a coragem da confrontação terrorista contra a civilização.


Episode 41: Atassa

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This episode of the Brilliant is an active discussion between Bellamy, Aragorn!, and Wil about the new LBC journal project Atassa. It is worth checking out as an introduction to the journal and an exercise about how to think about revolutionary (or not) practice in a world where terrorism no longer has any meaning. Eco-extremism isn’t a solution that would work in the US but it does raise challenging questions about violence, the planet, and the spirit that inspires all of our actions.

Tick Tock

Introductions to Wil and Bellamy
1:34 Atassa introduction
2:00 Wil: Attitude. ITS.
6:00 Market anarchism & Technophilia
7:30 Strong introduction. Defines terms. Bel: This is something you have to deal with (Why?)
9:45 Origin story of eco-extremism. Revolution. Kacynski. Ancestral Beliefs.
13:20 Shocking bits wrt Mafia style violence, appearance, adopt an accent, espouse a strong moral character. sXe. Necheav.
15:30 Return of the warrior. Clastres. What is the relationship between violence and the State? Monopoly of violence has unforseen consequence. Becoming.
29:00 More origin of EE. Solid piece from Jacobi. Notes on wildism vs EE vs AP.
34:30 Creek War. Market economy as invasion. Old ways. Brutal.
39:00 Indiscriminate anarchists. Today there is reaction by @ against indiscriminate attacks. There is a history here. This is another way to talk about social vs anti-social @.
41:40 Is this an anarchist journal? No! But @ should be engaged with it anyway.
45:30 Are you a pacifist? Kudos for your consistency. Otherwise you have to (internally) confront the questions of Atassa.

Animismo Apofático

Tradução do texto reflexivo de Abe Cabrera.

As pessoas modernas, claro, não podem deixar de cercar isso com os seus olhos, e tenho a mesma tentação. No meu caso, enquanto o bom anarquista ou o esquerdista pode condenar a “superstição” porque pensam que conhecem a história, eu conheço a história ainda melhor, então eu penso duas vezes antes de fazer isso. Hegel escreveu em algum lugar que enquanto os gregos antigos podiam se curvar aos ídolos o homem moderno já não pode. Isso porque ele se tornou um ídolo de si mesmo, de sua realização científica e da compreensão do mundo. Embora eu vá mais longe que muitos defensores “anti-civilização”, em minha apreciação da ciência e da tecnologia moderna (principalmente pelo que fazem, não pelo que representam), eu sei muito bem que eles são também produto de certa forma de pensamento religioso, de uma genealogia que remonta a Einstein e Newton e a magia renascentista, ao neoplatonismo, a escolástica, a Aristóteles, aos pré-socráticos, e assim por diante. Recusar a “mistificação” da Natureza baseado puramente na racionalidade do Iluminismo parece ir parar bem abaixo das origens históricas da “racionalidade” no Ocidente. Não vejo o pensamento secular como algo que não seja um desvio de todas estas tendências. Este poderia ser um bom ponto a partir do nível abstrato, mas em termos concretos as pessoas modernas estão radicalmente separadas da “espiritualidade” como algo diferente de uma escolha do consumidor. Um eco-extremista já apontou isso como no longo ensaio de Halputta Hadjo, “Os Calusa: Um Reino Selvagem?”:

“Antes de discutir a religião Calusa e a posição dos espanhóis em relação a ela sinto que é apropriado discutir brevemente o cisma na mente moderna entre a religião e o conhecimento. Para chegar imediatamente ao ponto, a religião na maior parte de sua existência tem sido uma coisa eminentemente prática. Isto é, como as pessoas acreditavam e como sabiam que o mundo era um só em si mesmo. Isso porque os seres humanos, em geral, não tem o luxo de fazer atos de fé, esperando contra toda a esperança. “Bem-aventurados os que ainda não viram, no entanto creem” teria sido uma premissa incompreensível para qualquer pessoa “primitiva”, e esse foi o caso mais provável com os Calusa. Seus espíritos e seu ambiente era um só, suas práticas religiosas e sua forma de vida eram uma só, não havia nenhuma razão para duvidar disso já que se baseavam nas coisas que constituíam sua realidade cotidiana. O Calusa acreditava em um mundo cheio de deuses, algo que não podemos nos conceber em nossa mentalidade tão ocidental e secularizada. Portanto, desafiar suas crenças era desafiar sua forma de vida. Fora a maioria dos povos de sua região foram os Calusa que conservaram suas crenças até o fim. Eles nunca foram conquistados, mas desapareceram gradualmente junto com o mundo espiritual que habitavam.”

No Ocidente moderno não vemos que são os nossos espíritos, ou melhor, a Terra, que nos alimentam. A civilização nos alimenta, a tecnologia nos veste, a moral nos protege, etc. Portanto, não é de surpreender que até mesmo os mais “radicais” ideólogos híper-civilizados voltem seus olhos para os sistemas do passado para se aproximarem destes mundos e encontrá-los dispostos. Não sentem qualquer conexão com eles, podem até respeitá-los, mas não será subjugada qualquer entidade numinosa nem fingirão ser seu mensageiro, etc.

Como então se concentra a ideia do “paganismo/animismo” (sim, há uma diferença, mas eu não me importo com esse ponto)? Como recuperar os “deuses”? É mesmo necessário, desejável, etc.? Sinto que Halputta Hadjo em seu ensaio já abordou esse ponto no final de seu trabalho, mas irei fornecer minha própria abordagem. O que segue é minha própria tentativa de ser um animista no século XXI, com todas as contradições no pensamento e nenhum destes rituais frescos. É minha atitude e acima de tudo minha compreensão de que provavelmente nunca terei o que preciso, porque sentir que é “preciso” é o problema em primeiro lugar.

Minha própria entrada na crítica contra a civilização vem da sensação de lugar. De fato, os livros influentes para mim nos últimos anos não tem sido sobre a teoria, mas sobre onde plantar meus pés agora e onde os plantei. Por exemplo, tive o grande prazer de traduzir o XVI comunicado de ITS da cidade de Torreón, Coahuila. Esta é a cidade de meus avós, minha mãe foi criada em um pequeno povoado nos arredores. Eu ia muitas vezes ali nas férias quando era criança, e a sensação que eu tinha é que era feio e muito pouco atraente. Um deserto sem muito o que ver, cheirava a animais de fazenda e havia construções de adobe em ruínas. Eu não esperava mais visitar aquele lugar. De fato, eu apaguei da minha memória a paisagem da minha cabeça. Então esta parte do comunicado soou verdadeira para mim:

“A Natureza Selvagem foi destruída, o futuro ideal é tão cinza e inerte. Desde esta realidade atacamos; somos individualistas travando uma guerra vingativa em nome da montanha derrubada para construir uma mega estrada, pela flora e fauna destruída em nome do progresso, em nosso ser levamos a essência do rio desaparecido por alguma grande represa.”

“Merecido tem Torreón e seus cidadãos, que com suas práticas colaboram para a perpetuação da civilização tecno-industrial. Você vê o horizonte e encontra uma colina negra artificial criada pela empresa “socialmente responsável” de nome Peñoles, água envenenada, o ar contaminado, fauna e flora aniquilada pela expansão sem freio que tem a urbe. Por tudo isso…., três mortos parece pouco para nós.”

Agora, não sou o maior admirador da prosa histriônica. Eu seguro o meu nariz e faço todo o possível para traduzir estas coisas. Mas o sentimento não está longe do que eu sinto. Embora eu seja o primeiro a admitir que a Natureza muda e muda com frequência, o que os humanos modernos fazem com o meio ambiente segue sendo repulsivo e enlouquecedor. Não é a mudança o problema, é a taxa de mudança juntamente com a arrogância atrás dela, a miopia, o fracasso em parar de danificar nosso ambiente que é apenas uma extensão de nossa ferida e da alienação entre pessoas. Cheguei à conclusão há alguns anos de que se você não pode amar a seu entorno, a água, as árvores, o ar que respira, etc., você não quer mais nada. E sim, para mim, neste mundo, ITS tem sentido. Chame-me de psicopata, o que quer que seja, eu não me importo.

Como os eco-extremistas de La Laguna eu olho para aquele lugar agora tão distante em minhas memórias de infância, mas também para o lugar onde eu cresci, para os rios e pântanos que secaram quando a água foi utilizada para irrigar os campos e ajudar o gado com sede. Olho os rios por aqui que os antigos *temporeiros dizem, eles costumavam ser claros quando estavam crescendo, você podia ver o seu fundo, mas agora são cinzentos e opacos. Olho os pinheiros e os ciprestes e aos poucos grandes ciprestes, grossos e sábios, atados pela idade e a ferocidade: o resto das velhas árvores que não foram cortadas para fazer a Grande Cidade que posso ver através de Ok’wata. O eco-modernista e o progressista me dirão para eu deixar a natureza selvagem ir, para não chorar, e para olhar para frente. Eu rejeito isso, eu nego com todo o meu ser. Enquanto outros híper-civilizados não veem mais que shoppings e parques, vejo uma cena de crime, de fato, a cena do único crime que vale a pena abordar. Minha existência e a existência dos que amo é baseada em uma mentira, uma ordem social que não tem o direito de estar aqui. Ou tem um “direito”, mas não merece meu respeito ou lealdade. Nem uma porção disso.

Admito que não posso ser animista como os povos primitivos foram. Sei que as estrelas são apenas bolas mortas de gás, que a lua é uma rocha fria em órbita ao redor da Terra, que a doença é resultado de micróbios e vírus e não de um poderoso Xamã a três aldeias de distância jogando feitiços, e assim sucessivamente. Eu sei destas coisas, mas porque eu as conheço é esse o problema. As conheço pelo sistema, para o qual sou um meio e não um fim. Eu sei disso por causa de um sistema que é racional quando se dirige a estas coisas, que pode manipular matéria inanimada, mas que não tem ideia de como organizar e controlar animais humanos reais em muitas circunstâncias. Eu as conheço por causa do sistema que põe em perigo a Terra por causa de milhões de dólares ou de ideologias estúpidas. Minha adesão a um “animismo” é minha preferência por não tê-lo conhecido. Claro, isso não é possível agora, não posso praticar lobotomia em mim mesmo para eliminar o conhecimento moderno. Mas eu posso estar bem consciente do preço e declarar que ainda não vale a pena.

Tenho uma excepcional formação teológica/espiritual, mesmo que seja em meu catolicismo ancestral e em outros caminhos espirituais que resolvi estudar aleatoriamente. Tenho que admitir que a adesão ao “animismo” me deixa frio porque sei muito sobre os rituais e os dogmas para ir inventando o meu próprio credo. Eu nunca serei capaz de evocar os deuses mesoamericanos ou amaldiçoar as pessoas com a cara fechada. Mas muito menos serei capaz de condenar as pessoas que fazem isso, muito pelo contrário. Pode ser que eu não seja capaz de crer que as árvores, as rochas, os cervos, os jacarés, as bagas, etc., tenham espírito, e todos estejam sofrendo devido a nossa aflição contra o planeta, por nossa negligência e ganância, mas eu reconheço que eu gostaria de alcançar isso. No entanto, tenho aqueles momentos de atenção, aqueles momentos de assombro e admiração que todos devemos ter diante da Natureza Selvagem, e isso é o suficiente para mim, suponho.

O apofático é da escola do pensamento teológico que afirma que só podemos nos aproximar do Divino ou o Transcendente através da negação. Ou seja, conhecemos o Divino não pelo que é, mas pelo que não é. Minha própria crença no animismo é que todas as ideologias humanas se desmoronam, todas são o resultado de se voltar para a própria cabeça, para as ideias e certezas de uma pessoa, em vez de partir. Os olhos estão destinados a ver as coisas, os ouvidos a escutá-las, as línguas para prová-las etc. As coisas são primárias, não as faculdades que as percebem e processam. Meu verdadeiro ser está fora de mim, e o sentido do homem está fora de sua própria história… Não posso concluir esta reflexão de melhor modo que citando o poema de Robinson Jeffers, “Credo”, em sua totalidade:

Meu amigo da Ásia tem poderes e magia, arranca uma folha azul de uma jovem borracha-azul

E olhando-a, coletando e acalmando

O Deus em sua mente cria um oceano mais real que o oceano, o sal, o real

Péssima presença, o poder das águas.

Ele crê que nada é real exceto quando o fazemos. Eu humildemente encontrei em meu sangue

Foi criado ao oeste do Cáucaso o misticismo mais duro.

A multidão está em minha mente, mas creio que o oceano na abóbada de osso está sozinho

O oceano na abóbada do osso: ali está o oceano;

A água é a água, o penhasco é a rocha, vem os choques e os flashes de realidade. A mente

Entre, feche os olhos, o espírito é uma paisagem; A desoladora beleza

A beleza das coisas nasceu ante os olhos e foi suficiente para si mesma; A dolorosa beleza

Permanecerá quando não haja mais coração para quebrar

* Povos antigos que sem auxílio tecnológico moderno faziam a previsão do tempo.

Notas Sobre o Anarco-primitivismo

Tradução da análise de Abe Cabrera escrita para o seu blog Wandering Cannibals.

Eu estaria mentindo se eu dissesse que não gosto de me envolver em discussões. Mas eu também estaria mentindo se não dissesse que creio que isso não é bom para mim na maioria das vezes. O reino das ideias “anti-civilização” é pequeno, o daqueles que se opõe totalmente à civilização é ainda menor, e o daqueles que tem certas ideias a respeito é ainda mais pequeno, etc. Creio que foi Henry Kissinger quem disse que as políticas dos campus universitários são asquerosas devido haver muito pouco envolvimento. Esse é igual o nosso caso. Nem sequer conheço a alguém na “vida real” que sustente algo que se pareça com estas ideias. Portanto, se meter com alguém através de um gole retórico é lamentável no melhor dos casos, e tolo na pior das hipóteses.

De muitas maneiras você está no mesmo barco, não importando quantas distinções faça. Se é “são” enterraria o machado e agradaria a todo mundo. É claro, o homem não vive apenas de sanidade. (Aqui vem o grande “porém….”). Uma vez que se tem certa “epifania” você percebe que não está na mesma página com aqueles que o observador externo diria que você tem afinidade. Eu venho do anarco-primitivismo, ao menos em teoria, embora nunca tenha me sentido cômodo com ele. O antropocentrismo, o otimismo, a ideia de que existe um estado primordial que encaixa como uma luva na psiquê humana… estas coisas nunca se encaixaram comigo. Como Marxista sempre vi a “natureza” como um ato do intelecto e da vontade humana, ou algo que atua por parte do intelecto e da vontade humana. Ou seja, a vida humana não é algo que simplesmente é “produzida” por nossa natureza manifestando-se em uma circunstância em particular. É algo ativo e vibrante, resultante do homem testando sua força contra o caos e a entropia. Creio que é evidente que nossa situação está desbalanceada, que todos os projetos humanos são insustentáveis no final, e muitas vezes, o modo de se formar uma sociedade humana é o produto de milhões de vontades diferentes disparando ao mesmo tempo para produzir uma harmonia e desordem, o alçamento e a derrubada dos artifícios e hierarquias, o retorno a uma base que pode tornar-se instável em um ciclo que chega até os distantes recessos do passado…

Por algum tempo pensei que este entendimento era aquele que estava envolvido em outras escolas do pensamento anti-civilização. Eu nunca aderi a seu aspecto “vendedor” (selling): você estaria mais feliz e saudável sem a civilização, tua comodidade seria mais estável, tua vida seria mais satisfatória, etc. Para mim a vida sempre se tratou de lutar, não de felicidade, mas de significado; não de liberdade, mas sobre o que fazer com ela. Talvez eu seja muito “pré-moderno” neste sentido do meu pensamento: a egolatria nunca foi uma preocupação, os indivíduos seguem sendo peões em um grande jogo cósmico, nosso único papel agora é o de derrubar sem esperanças a reconstrução. O de perceber que o homem é o compêndio e não o fim do cosmos, e se ele cai, como o mordomo personificado do mundo físico, o único honorável a fazer é retirar-se e deixar que o mundo volte a ser o que foi antes de nós. Isso não é algo que você pode vender ao jovem idealista que quer fazer do mundo “um lugar melhor”, mas é a única coisa em que estou interessado.

Estive lendo a mais nova edição da revista “Revisão Verde e Negra” (Back and Green Review), e enquanto não quero chutá-la ou criticá-la de uma forma sistemática (principalmente, por que quem se importa? E para que serviria?) Dei-me conta de que nós (os criadores dessa revista e eu) estamos nisso por razões completamente diferentes. Um dos ensaios é uma descrição exaustiva de como um dos autores chamado “Humano de Quatro Patas” tem treinado para retornar imediatamente a ser um caçador-coletor nômade. Embora isso seja problemático em muitos aspectos, é refrescante em sua honestidade. Por exemplo, representa um ponto de viragem no discurso anti-civ por empregar um “bait and switch” (conceito que faz referência a trocar um bem que é grátis por um mais sofisticado que tem um custo maior), afirmando que, embora historicamente possa ser que os caçadores-coletores tenham trabalhado umas poucas horas ao dia, aqueles que tem a vocação para converter-se em caçadores-coletores agora deverão trabalhar duro, e muito duro, por horas e horas ao dia, com a perspectiva do fracasso e a inanição sempre por perto. Aí se pode ver um ponto de venda, suponho. Após muitas gerações pode ser que as pessoas regressem a um estilo de vida nômade, de ócio geral. E novamente, tenho muito pouco controle sobre meus próprios filhos, não tenho tanta certeza de que posso determinar a mentalidade da descendência que jamais conhecerei.

Para apoiar um pouco, tudo isso é baseado no Plano Mestre do Anarco-Primitivismo, que vai da seguinte forma:

Plano A: A civilização irá se colapsar sozinha (mais ou menos);

Plano B: Não há plano B.

O que eventualmente nos leva ao paraíso nômade caçador-coletor, que não será fácil, mas de algum modo é para isso que estamos preparados inerentemente, assim dizem eles. Não é violar a Lei de Godwin, mas creio que não há melhor analogia aqui que o Partido Comunista Stalinista proclamando: “Depois de Hitler, nós”. O ponto do artigo do “Humano de Quatro Patas” citado acima é de realizar a corrida do “super-homem” (todos teremos potencialmente estes super-poderes), que vencerá a civilização pelo desgaste. É como wu wei ou algo assim.

A obsessão dos Anarco-primitivistas da escola dos Black and Green Review é, desse modo, a de preparar as pessoas para este futuro. Assim, as sociedades “primitivas” que os indivíduos decidem emular serão de entornos marginais tais como os Inuítes ou os Selk’nam (Ona) da Terra do Fogo. Ou seja, lugares em que a maioria dos seres humanos não querem viver como primeira opção. A partir desse foco de colonos sub-árticos virá a nova esperança da humanidade, e todos os demais podem simplesmente morrer, porque eles não tem esperança. Parem, por favor. (Como é que isso não é niilismo? Ou seja, abraçar um sistema na qual eu e minha gente sobreviveremos, mas o resto pode simplesmente morrer de fome lentamente ou se matar entre eles em guerras por recursos, eu não tenho ideia. Creio que é totalmente kosher o cometimento de pecados de omissão ou simplesmente deixar que 99,99% da população da terra morra, mas se você faz algo para mencionar isso traria impureza, ou é ao menos uma perda de tempo. Tenho certeza de que os humanistas ao redor do mundo apreciariam essa distinção na misantropia).

O que é mais triste em tudo isso é como os anarco-primitivistas pegam essencialmente, a um nível narrativo, as visões científicas/coloniais do mundo e colocam nas sociedades que tentam emular: pegando o que gostam e deixando de lado o que não gostam, como se pudessem selecionar como se fossem tomates, as formas de vida que muitas vezes estavam intimamente relacionadas com as formas nas quais alguém via na natureza. Portanto, chega-se a “essência” ou a “substância” do que significa ser um caçador-coletor nômade, enquanto que os detalhes “irrelevantes” e “falsos” tais como a cosmologia, a mitologia, os rituais, etc., são deixados de lado como se não importassem. Como se os Ona (Selk’nam) fossem simplesmente algumas pessoas que puderam ser o que foram drenando todo o endurecimento físico e perseverança, mas deixando de lado os grandes rituais como o Hain, e as deidades como o Hoowin, como se não tivessem nada haver com tudo isso. Você pode abstrair e sangrar uma sociedade primitiva para teus próprios fins e usar o que te agrade para salvar tua própria pele, enquanto provavelmente nenhum caçador-coletor prudente tenha pensado sobre o mundo e o que ele ou ela fazem diariamente nestes termos. (Veja, por exemplo, o artigo “Os Seris, os Eco-extremistas e o Nahualismo” nesta mesma edição da revista para uma visão alternativa de como abordar esse tipo de sociedades).

Assim como o esquerdismo vejo o anarco-primitivismo como algo inventado na mente do contador e do administrador de recursos, mas levado à era da Idade da Pedra. Para mim, parece que preocupações tais como “como posso sobreviver e como posso evitar ser oprimido” são muito modernas e domesticadas. Claro, todos nós queremos sobreviver, mas em quais circunstâncias? Fugindo sempre? Esperando a Godot na forma de catástrofe para que assassine a todos os nossos inimigos por nós? Desistir das melhores terras e ir para um lugar onde se sobrevivermos ou não, não seja melhor que uma brincadeira de merda? Ao menos o “Humano de Quatro Patas” admitiu no final de seu ensaio os Paleo-guerreiros da Super-Elite dentro de seu clube, aqueles que quiseram ir ao parque urbano após o trabalho para tecer cestos e esculpir pedras: boa maneira de dar esperanças a seus leitores. Quanto a mim, qualquer interesse no Anarco-Primitivismo e no que eles pensam e fazem diminui mais e mais a cada dia. Isso também me aconteceu com o Marxismo, embora eu não tenha me considerado um Marxista por anos estava ainda interessado remotamente nele. Especialmente com os anarco-primitivistas estou cansado de “a civilização é ruim para a saúde e está nos matando” misturado com o “reselvagear-se é quase impossível para a maioria das pessoas e há um grande risco delas se matarem”. Ok, podem trabalhar em seus projetos que eu trabalho nos meus.

Pensamentos Sobre a Moralidade

Tradução do texto Thoughts on Morality, de Abe Cabrera.

Ao investigar sobre a “Creek War” (Guerra dos Creek) algo curioso que encontrei foi a atitude dos índios em relação aos escravos negros. Para os Creek e os Seminoles, um escravo não era livre em virtude de que a escravidão era uma instituição imoral e, portanto, ilegítima. Um escravo deixava de ser escravo quando decidia não mais sê-lo e fugia. Uma das questões que os brancos tinham com estes índios era sobre como abrigavam os escravos fugitivos, e este foi um grande ponto de disputa na segunda guerra Seminol. Mas isso não foi por causa da atitude “iluminada” dos índios. Eles não estavam acima de tomar os escravos negros por conta própria, ou de mantê-los subjugados. O ponto era que a “liberdade” e a “dignidade” concedida a todos os seres humanos pelo Iluminismo não era um fato para a mente incivilizada. Tinha que ser “ganhada” ou “tomada” daqueles que a levaram embora.

Eu deixei para trás a ideia dos sentimentos nobres, aqueles sentimentos passageiros que apenas desejam coisas boas para me fazerem uma boa pessoa. Tenho visto muitos casos em que as pessoas acreditavam na piedade apenas para cometer atrocidades, ou cometiam atrocidades em nome da piedade. É melhor simplesmente se deixar esvaziar destes sentimentos: o que tiver de acontecer, acontecerá. A morte chega em breve, a fadiga traz o esquecimento, uma dormência de sofrimento prolongado.

A única vitória é trazida por seguir permanecendo aqui e de pé. As pessoas querem que a sua vida e a dignidade sejam reconhecidas meramente por existir. Não funciona assim. Este é o sonho esquerdista, mas nunca alcança nada, que todos temos um significado simplesmente porque somos/estamos: estamos unidos ao nobre selvagem e ao futuro transhumanista explorador das estrelas por causa de alguma continuidade… Continuidade! Que mentira fabulosa! Todos os selvagens são assassinados, e por dançar em suas tumbas… quer dizer, “honrá-los”, obtemos a sabedoria e o poder que eles ainda deveriam ter, mas que não tem. Acreditamos que somos todos iguais, mas não somos. De fato, é esse pensamento de que somos todos iguais, que somos a “humanidade” que nos leva a derrubar a floresta, contaminar os rios, levar a terra ao esgotamento, e pavimentar o resto. Porque somos a humanidade, porque este é o nosso “bem”. A humanidade é a inimiga da natureza porque é inimiga do lugar, do físico, do selvagem. Existem os seres humanos (animais humanos) e depois há a Gloriosa Humanidade. Se alguém olha a humanidade de frente e a declara a própria oposição, ou é um tolo ou um covarde.

A separação do ser humano/animal e a Humanidade não é tão simples. De fato, é praticamente impossível. É como pedir aos animais que fiquem longe do bebedouro durante o verão quente. Postular as ações indiscriminadas e seletivas é postular a superioridade do inumano sobre o humano, que os seres humanos não são um sistema fechado, eles “se abrem” a algo maior que eles mesmos (embora eles não entendam nem o obtenham). Para destruir estas coisas maiores (Natureza Selvagem), eles falham em sua vocação, ou seja, estão aberto ao universo, sendo apenas outra força dentro dele e agindo como tal.

Postular a “amoralidade” é buscar a destruição de todos os obstáculos pelo caminho. É postular o individual sobre a sociedade, o caos sobre a ordem. É postular que os pecados de omissão (não fazer nada) não são menos graves que os pecados cometidos (fazer algo). Que a paz civilizada está construída sobre um monte de ossos branqueados de selvagens extintos. Que você não pode vencer o universo com um bom comportamento. Que você se recusa a negociar a regra de ouro porque apenas a escravidão e o vício provém disso (e não do tipo recomendado). A “Amoralidade” reconhece que todos temos a “nossas mãos manchadas de sangue”, porque todos estamos banhados neste sangue. Nossa sociedade foi irrigada com ele. Então isso destrói o amor por completo? Não necessariamente, mas certamente se opõe à sua codificação: sua consagração dentro do reino dos direitos e da “dignidade inerente” da pessoa ipso facto. Posso esperar por piedade daqueles que amo, e desejar a destruição daqueles que não: o desejar não me faz nobre nem me deixa de fazê-lo. Não sou Deus: minha Palavra não está no começo e nada foi criado por ela, mas é perfeitamente razoável que eu odeie a um sistema que transforma meus desejos ou qualquer outro em um código universal de moralidade: hipocrisia? Isso Importa?

Apocalipsis Ohlone

Tradução do texto do investigador Abe Cabrera publicado em seu blog Wandering Cannibals.

Estive lutando um pouco para chegar a uma reflexão sobre o vigésimo nono comunicado de ITS, considerando que creio que é importante e digno de um comentário. Há algumas coisas que ainda não estou seguro sobre este texto, e algumas outras que creio que se articulam de uma maneira fascinante. Por exemplo, este é o primeiro texto eco-extremista que é expressamente extincionista, ao menos nos termos da espécia humana em seu estado atual em 2016. Não creio que isso tenha sido abordado antes de modo tão cru: no máximo, em alguns textos eco-extremistas foi falado de ataques indiscriminados como se as vidas dos híper-civilizados não importassem. Aqui, a diferença é que o texto abordado diz que o híper-civilizado deve ser extinto. Ponto final.

Eu observei que no passado as culturas mais civilizadas tinham um ponto de vista apocalíptico (“Apocalipse” em grego significa “Revelação”). A civilização sempre teve um desejo de morte. Os líderes de algumas das nações mais poderosas da Terra hoje professam religiões que creem que o mundo terminará com uma chuva de fogo, e que isso é uma coisa boa. Outros são guiados por ideologias que afirmam que o mundo físico é meramente uma ilusão. O estranho então não é que o eco-extremismo tenha uma visão pessimista da humanidade, é mais, é que os que criticam o eco-extremismo sobre este fato nem se dão conta de que isso não é nada excepcional no contexto da civilização, como se desenvolveu durante milhares de anos. De fato, a questão mais urgente, comparativamente falando, é porque o progressismo de esquerda consideraria a humanidade como algo distinto de um esforço finito: um projeto com uma data de vencimento. O livro “The Ohlone Way: Indian life in the San Francisco-Monterey Bay Area” de Malcolm Margolin, é um dos livros mais influentes que já li nos últimos anos. Cresci naquela parte do mundo, então sua descrição da terra antes da chegada dos europeus me tocou como uma tonelada de tijolos. Lembro-me desta região como um intercâmbio entre a terra agrícola e urbana, com um terreno montanhoso selvagem no meio. Antes dos europeus, a terra estava úmida e cheia de caça, era o lugar de animais como a lontra do rio e o urso pardo que já não podem mais ser vistos ali.

Um trecho interessante no livro indica que o “Ohlone” (agrupamento das tribos linguísticas dessa região que possivelmente seja arbitrária), tinha um sentido de natureza finita da existência humana como um todo. Como escreve Margolin:

“Mas no fundo [o Ohlone] sabia que seu mundo estava condenado, destinado à completa destruição. No princípio, no Tempo Sagrado, o poder era puro e impressionante, mas desde então esteve sempre deslizando, diminuindo em qualidade, quantidade e intensidade. As pessoas de hoje eram menos poderosas que seus avós antes deles. Um pessimismo e um fatalismo enraizados percorriam sua visão de mundo. As coisas estavam piorando em cada geração, e em algum momento no futuro deste magnífico mundo, como os mundos anteriores, estaria minado pelo poder. As pessoas deixariam de fazer suas danças e cerimônias, e o mundo Ohlone – seu formoso mundo vivo – entraria em colapso sobre si mesmo e se dissolveria no caos. Então talvez os espíritos se levantariam novamente, misteriosamente nascidos de uma inundação – espíritos como a Águia, o Coiote e o Colibri – para criar mais uma vez um mundo novo, claro, incrivelmente poderoso, um mundo talvez povoado por uma nova raça de pessoas, mas um Mundo que certamente não teria os Ohlones.”

Estou disposto a admitir que algumas das ideias de Margolin podem aqui ser uma profecia posterior aos acontecimentos de um povo conquistado. Mas existe uma interessante base existencial para os povos indígenas da costa central da Califórnia acreditarem nisso. Por um lado, relativamente falando, não havia muitos deles. Estes indígenas viviam em uma terra cheia de animais, e o homem nem sequer era o animal mais perigoso da Califórnia antes da chegada dos europeus. Havia uma boa chance de que os adultos fossem atacados por ursos pardos ou perseguidos por gatos selvagens, assim como nesta era moderna, sempre há uma boa possibilidade de morrer de um acidente de carro. Margolin escreve:

“Mas o conhecimento íntimo dos animais não levou à conquista, nem sua familiaridade desprezada. Os Ohlones viviam em um mundo em que as pessoas eram escassas e os animais eram muitos, onde o arco e a flecha eram o auge da tecnologia, onde um cervo que não se aproximasse de uma maneira adequada poderia escapar facilmente, e um urso poderia concebivelmente atacar. Vivia em um mundo onde o reino animal ainda não havia caído sob o domínio da raça humana e onde (como é difícil para nós compreender plenamente as implicações disso!) as pessoas ainda não se viam como os senhores indiscutíveis de toda a criação. Os Ohlones, como os caçadores de todo o mundo, adoravam os espíritos dos animais como deuses, imitavam movimentos de animais em suas danças, buscavam poderes animais em seus sonhos e até mesmo se viam como pertencentes a clãs com os animais, como os seus antepassados. A poderosa e graciosa vida animal da Área da Baía não só encheu seu mundo, mas encheu também suas mentes.”

O híper-civilizado, é claro, interpõe-se, a “Água debaixo da ponte!” aqui, mas na verdade não é. Meu próprio senso é que, o ódio à humanidade por si só é gerado por muita familiaridade. Os povos indígenas do centro da Califórnia (e de outros lugares) podiam olhar uma paisagem, pradarias, montanhas, rios, etc., e ver uma abundância de vida, uma panóplia de seres vivos. O homem moderno faz isso de modo que, quando olhe, enxergue apenas a si mesmo. Alguns podem dizer que isso é uma coisa boa, mas acima de tudo ele mesmo fica chateado com isso. O bem elimina a humanidade através de seus óculos de sol, fones de ouvido, telas de smartphones, etc. Ou consome a humanidade como mercadoria, auto-selecionada, criada para vender de acordo com a atratividade física, a inteligência percebida, o interesse comum, etc. Pensam que não há nada fora do ser humano, fora do ego e fora dos pensamentos sobre o mundo. E as pessoas se sentem particularmente inteligentes e eruditas ao pensar em tais absurdos, apesar de sangrarem e se decomporem aos demais… Minhas próprias investigações sobre a chegada da civilização europeia a partes do que hoje é “América”, concluem que a última ferramenta da conquista não era a tecnologia ou a doença (tomada em si mesma). Era um jogo de números: havia apenas mais homens brancos, especialmente no que agora são os Estados Unidos. Os guerreiros indígenas eram frequentemente mais valentes, melhores lutadores e com vantagem no campo, mas as ondas de conquistadores e imigrantes continuavam vindo e devastando a terra, transformando-a, matando os animais e despejando-a de suas características anteriores em muitos lugares. Não é que os povos indígenas tivessem necessariamente uma perspectiva mais “holística” da terra, ou que fossem mais “virtuosos”, que não eram muitos. A diferença quantitativa foi feita para as diferenças qualitativas em perspectiva. Em lugares cheios de energia, vibrantes e cheios de vida, é difícil conceber a superioridade humana como um conceito plausível. Pegue a destruição da terra, da vida silvestre, contaminando os rios e envenenando o ar, para chegar ao lugar onde se olha ao redor e se vê apenas o Homem. E então ele acaba odiando a si mesmo, tendo que olhar fixamente para si próprio e ter o poder absoluto percebido em se matar, levando junto o resto do planeta. Os povos indígenas da Califórnia, é claro, morreram, seu mundo foi silenciado junto com tantos outros. O que os substituiu é agora o mundialmente famoso Silicon Valley, junto com o que tem sido considerado o “Salad Bowl of the United States,” produzindo grande parte da alface e outros produtos consumidos nas mesas dos estadunidenses. O progressista não quer admitir isso, mas a troca entre o Homem e a Natureza neste ponto é uma preposição “ou bem/ou”, não “ambas/e” preposições. Você pode ter seres humanos, a grande maioria dos quais dependem ou apoiam a civilização e tudo o que ela representa ou pode ter coisas como água limpa e ar fresco que fazem com que a vida humana vala a pena viver. Você não pode ter ambos, não nesta etapa do jogo. É por isso que não choro pelos híper-civilizados, e não me queixo dos atos indiscriminados contra eles, e sigo escrevendo sobre estes atos. Uma vez que você se converte em um inimigo da civilização, se você é realmente um inimigo da própria humanidade, isso depende de como honestamente você tira suas premissas.

Como eu disse no início desta reflexão, as pessoas mais civilizadas admitem isso em segundo plano. Elas acreditam que Jesus, Alá ou Javé, virá e destruirá o mundo com fogo e estabelecerão uma Cidade Eterna que não pode desmoronar ou decair. São esses ateus e esquerdistas menos honestos que confundem a humanidade com um projeto transparente e permanente. Os primeiros acreditam que é preciso seguir a moralidade para que esta Cidade Eterna possa surgir, os últimos creem que é preciso seguir a moralidade para manter a Humanidade tal como está flutuando em sua missão de se tornar uma instituição eterna. Os primeiro se baseiam numa mentira, mas é muito realista em termos de meios para alcançar o resultado desejado. Os últimos são, sem dúvida, completamente enganados.

A falta de preocupação com os híper-civilizados, pelos domesticados que apenas amam a si mesmos, é base do pensamento eco-extremista, e é um aspecto desse pensamento que defendo totalmente. Não posso deixar de citar o poema de Robinson Jeffers na íntegra, este é o texto mais apropriado para pôr fim a esta reflexão. Descreve uma cena da terra de Esselen, ao sul do território “Ohlone”:

“Mãos Dentro de uma caverna em um estreito desfiladeiro próximo de Tassajara

A Abóboda de pedra é pintada com as mãos;

Uma multidão de mãos no crepúsculo, uma nuvem de palmas de homens, não mais,

Não há outra foto. Não há ninguém que diga

Se os tímidos e silenciosos marrons que estão mortos tentaram

Religião ou magia, ou fizeram seus traços

Na ociosidade da arte; Mas sobre a divisão dos anos estes cuidadosos

Sinais-manuais agora são como uma mensagem selada

Dizendo: “Olhe: nós também somos humanos, Tínhamos mãos, não patas.

Todos louvam

Vocês com as mãos mais inteligentes, nossos fornecedores

No formoso país; Desfrutar dela na temporada, de sua beleza, e baixa

E foi suplantado; Porque vocês também são humanos.”

Primitivismo Sem Catástrofe

Tradução do ensaio Primitivism Without Catastrophe, escrito por Abe Cabrera e publicado no espaço virtual da Ritual Magazine, uma revista de política e cultura e uma plataforma crítica para examinar a vida sob o capitalismo contemporâneo.

Este texto foi extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Toda boa ideia precisa de um bom ponto de venda. O ponto de venda da ideologia abrangente que pode ser chamada de vários nomes como “anarco-primitivismo” e “pensamento anticivilização”, é a ideia de que a civilização moderna tecnoindustrial está destruindo a espécie humana, e de que se nós quisermos parar essa destruição, temos que destruir a civilização. É uma questão de auto-preservação. Nós precisamos renunciar a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc. Como nós sabemos disso? Bom, a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc, nos dizem isso. Eu provavelmente não sou o primeiro a notar a inconsistência nessa perspectiva, mas talvez eu seja o primeiro a falar algo sobre isso.

O “Pensamento anticivilização” (por falta de um termo melhor) tem um “problema de conhecimento”. O problema é que ele tenta criticar a totalidade do ponto de vista da própria totalidade. Ele tenta desmantelar as ferramentas que construíram tudo que ele despreza usando essas mesmas ferramentas. Isso culmina na ideia de uma “Catástrofe”: O colapso catártico do seu inimigo e a chance da restauração de uma ordem justa. Para alguém que segura um martelo, tudo se parece com um prego, e para alguém com uma narrativa apocalíptica, tudo leva ao fim do mundo. De fato, alguns diriam que a catástrofe é para o primitivista o que a ressurreição de Jesus era para São Paulo: O sinequa non fora do qual a mensagem não pode existir. Se a humanidade não está condenada pela tecnologia, se toda a vida na terra não está ameaçada pela ascendência de um primata egoísta vindo da África, então o que estamos fazendo aqui? Poderíamos simplesmente voltar para nossas casas e desfrutar de nossas televisões de tela plana e ar condicionado.

É claro que as coisas não são tão simples. A primeira pergunta deveria ser: “Nós estamos condenados?”. Alguns livros que saíram recentemente tentam responder essa pergunta com uma negação, mesmo que levando muito a sério a ciência que analisa a mudança climática e a escassez de recursos naturais. O livro de Ronald Bailey “O Fim da Tragédia: Renovação Ecológica no Século XXI” é uma das maiores contribuições ao gênero eco-modernista. Apesar de não ter tempo para cobrir todo o conteúdo do livro, posso ao menos falar sobre o ponto mais forte do livro (pelo menos sob a minha perspectiva): a análise da ideia ecológica de que “não fazer nada” é melhor do que “fazer algo”.

Esse conceito é certamente comum no discurso ambientalista. A natureza tem feito o que ela faz por milhões de anos, e assim, como diz o discurso, ela sabe melhor o que fazer. Isso é o que Bailey chama de “princípio de precaução”, melhor formulado pela frase que dá o nome ao terceiro capítulo de seu livro, “Nunca Tente Nada Pela Primeira Vez”. Tudo que é novo é culpado até que se prove inocente, e o ônus da prova está na novidade, que tem que demonstrar que ela não irá criar mais problemas do que ela está tentando resolver. É evidente que aqueles que se prendem a esse princípio de precaução se tornam paralisados e impedidos de agir, pois não há como eles saberem com certeza quais são as implicações de um desenvolvimento tecnológico (pense por exemplo no debate em torno de alimentos geneticamente modificados). Aqueles que sofrem por causa dessa hesitação, diz Bailey, não tem o luxo da dúvida: eles precisam do remédio novo contra o câncer, de comida barata e de outros benefícios que o desenvolvimento tecnológico traz. Como diz Bailey:

Infelizmente, o princípio de precaução soa razoável para muitas pessoas, especialmente para aquelas que já estão cercadas de tecnologia. Essas pessoas tem as suas casas com aquecimento elétrico nas montanhas; elas já gozam da liberdade da necessidade, ignorância e doenças que a tecnologia pode providenciar. Mas existem bilhões de pessoas que desejam ver as suas vidas transformadas. Para essas pessoas, o princípio de precaução é uma garantia de pobreza contínua, não de segurança.” (93-94)

Temos aqui um problema de conhecimento virado e revirado. O pensador anticivilização e neo-ludita estudou o suficiente sobre a sociedade tecnoindustrial para saber que ela é uma causa perdida. Ele sabe disso através do uso das ferramentas que a sociedade tecnoindustrial lhe forneceu. Mesmo assim, um eco-modernista como Bailey vira o jogo e mostra que esse pessimismo é baseado em uma visão otimista do conhecimento humano apoiado por uma infraestrutura tecnológica que permite estudo e reflexão. Se nós não sabemos realmente, e sabemos que não sabemos, não temos a obrigação de tentar? Não seria essa ignorância uma oportunidade ao invés de um obstáculo? Não é disso que se trata o iluminismo e a revolução científica?

Ao longo do resto do livro, Bailey demonstra diversas vezes, em assuntos que variam do pico do petróleo ao suposto aumento do número de casos de câncer causado pelo uso de produtos industriais que os pessimistas têm estado errados, e muito errados até agora. Bailey conclui que o homo sapiens é um animal sagaz e adaptável, capaz de extrair a vitória das garras da derrota repetidas vezes. Bailey tem poucas dúvidas que nós continuaremos fazendo isso, mesmo admitindo que algumas coisas, como a mudança climática, são problemas reais que afetam toda a humanidade.

Ironicamente, aceitar as premissas de Bailey pode ser a posição mais “primitivista” de todas. Se no fim nós somos apenas animais incapazes de salvar a nós mesmos sem abrir mão dos instrumentos que nos conferem um poder que parece absoluto, como é possível que nós sejamos capazes de condenar nós mesmos a não-existência? Ou ainda, se somos burros demais para nos salvarmos, podemos também ser burros demais para matar a nós mesmos. É claro que há o princípio da entropia, além da intuição de que é mais fácil quebrar do que consertar algo. Mas a analogia não se sustenta aqui, já que estamos falando de bilhões de animais individuais pelo planeta que se mostraram resistentes o suficiente para infestar toda a terra.

Então qual é a resposta? Estamos salvos ou condenados? A catástrofe é uma realidade inevitável ou um desejo masoquista? No fim das contas a resposta é: nós não sabemos. Aqueles que fingem saber estão se agarrando a um suposto bastião de certeza da ruína ou do otimismo no qual os cisnes negros de Nassim Nicholas Taleb jamais ocorrem. O futuro não pode ser completamente desolado, e também não podemos ter certeza de que o desastre não ocorrerá simplesmente porque ele ainda não ocorreu até agora. Tudo que nós realmente temos é o presente.

Assim voltamos ao título: é possível haver um primitivismo sem catástrofe? E se essa sociedade conseguir resolver seus problemas e seguir em frente? Nós voltamos para casa então? Nós passamos a tolerar essa ordem capitalista tecnoindustrial e reconhecer que se nós não podemos viver na sociedade em que desejamos, devemos aprender a amar a sociedade na qual vivemos? Afinal de contas, somos todos humanos, e compartilhamos as mesmas almas, corpos, sentimentos e intelecto. Já que as coisas são assim, nós podemos também trabalhar para salvar todos, e quem se importa com como faremos isso? Sonhos de um retorno a existência idealizada de caçadores-coletores se tornam cada vez menos atraentes.

Confrontados com esse impasse, trazemos aqui pensamentos de uma entrevista recente com membros da tendência mexicana eco-extremista:

“A maior diferença entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecnoindustrial. Nós atacamos agora porque o futuro é incerto. Você não pode criar uma estratégia baseada em suposições, acreditando que tudo irá ocorrer de acordo com os seus planos com uma vitória garantida. Nós paramos de acreditar nisso quando entendemos a enormidade do próprio sistema, de seus componentes e de seu vasto alcance que se estende por todo o planeta e até para fora dele. Se a civilização cair amanhã ou nos próximos 30 ou 50 anos, nós saberemos que travamos uma guerra necessária contra ela a partir de nossa própria individualidade. Nós não sabemos se haverá um colapso global do sistema algum dia. Os especialistas dizem que haverá, mas não há como ter certeza. É possível que o sistema caia e a natureza ressurja de suas ruínas. Mas talvez o sistema consiga se manter sempre um passo à frente, tornando-se autossuficiente e com a capacidade de se reparar com facilidade. Como nós já dissemos, não sabemos o futuro. Gostaríamos de saber, mas essa não é a realidade.”

Com os eco-extremistas, então, nós podemos encontrar uma maneira de sair da posição errônea de “um futuro melhor através de um retorno ao passado”. Aqui, nós podemos dizer que o futuro é nosso inimigo. Toda saída proposta, seja através das teorias liberais de Bailey ou de esquemas tecno-progressistas da esquerda é algo que nós rejeitamos logo de cara. Nós não queremos cooperar, e nem salvar o mundo. Nós nos recusamos a oferecer as nossas vidas ou a vida de outros por um futuro melhor. Esse futuro é sempre prometido, mas nunca chega. E nesse ponto, o problema de conhecimento entra novamente em cena: esse futuro não chega porque ninguém é capaz de trazê-lo. As coisas estão “melhorando o tempo todo” apenas porque nós fomos domesticados a ponto de achar que a cenoura na ponta da vara é o objetivo, e que nós estamos nos aproximando dela, e que a vara não está realmente lá, mesmo quando ela bate bem nos nossos narizes. Assim é a essência da civilização: o passado nebuloso e mítico e o futuro que nunca chega.

A catástrofe é a catarse que acaba com o ciclo de sofrimento. Mas assim como a versão budista, ela também é elusiva e nunca acontece nessa vida. De fato, o problema real do “pensamento anticivilização”, especialmente em sua forma anarco-primitivista, é que ele não sabe o que quer, porque o que ele quer é moldado pelo que ele odeia. Ele nem sequer conhece realmente a natureza por se recusar a admitir que não há como conhecê-la com qualquer certeza, e assim faz da natureza um ídolo representando todos os seus desejos ambivalentes. A própria ideia de defender a natureza nos mostra que o nosso conhecimento sobre a natureza, especialmente o conceito peculiarmente norte-americano de “natureza pristina” é mal embasado. David George Haskell descreve a situação da vegetação florestal em face da ressurgência recente da população de veados em seu livro A Floresta Oculta: Um Ano de Observação na Natureza:

“Humanos eliminaram alguns predadores, mas também introduziram três criaturas que matam veados: cães domésticos, coiotes invadindo do oeste e automóveis. Os dois primeiros são matadores eficientes de veados jovens, enquanto o terceiro é o principal assassino suburbano de adultos. Nós nos deparamos com uma equação impossível. De um lado, nós temos a perda de dezenas de espécies de herbívoros; do outro, nós temos a substituição de um predador por outro. Que nível de pastagem é normal, aceitável e natural em nossas florestas? Essas são perguntas desafiadoras, mas é certo que a vegetação florestal exuberante que cresceu no século XX era menos pastada do que o comum.”

Uma floresta sem grandes herbívoros é que nem uma orquestra sem violinos. Nós estamos acostumados a sinfonias incompletas, e estranhamos quando os tons incessantes dos violinos retornam e colidem com os instrumentos mais familiares. Essa reação negativa ao retorno dos herbívoros não tem nenhuma boa fundação histórica. Nós temos que ter uma visão mais ampla, ouvir toda a sinfonia e celebrar a parceria entre animais e micróbios que tem afetado as plantas jovens por milhões de anos. Adeus arbustos; olá carrapatos. Seja bem-vindo de volta ao pleistoceno.

Nós devemos então encarar o fato de que talvez não haja nenhuma “catástrofe”, e se houver, ela não terá o efeito purificador que esperamos. A definição do capitalismo moderno é crise, e o bom homem de negócios faz da crise uma oportunidade. Isso significa que nós não devemos lutar? Que nós devemos abaixar as nossas armas e sermos derrotados pelo quietismo e agnosticismo? Não necessariamente, mas significa que nós precisamos definir melhor porque nós nos opomos a sociedade atual mesmo que ela tenha o potencial de durar milhões de anos, e mesmo que ela torne nossas vidas “melhores” em alguns sentidos. Ao menos temos que definir por que nós nos opomos a ela e não acreditamos que ela seja capaz de concretizar qualquer uma de suas promessas de tirar os animais humanos da miséria.

Primeiro, vamos começar com a natureza. Nós não podemos rejeitar a catástrofe como um conceito sem nenhuma nuance precisamente porque a natureza é uma catástrofe ao longo prazo. Isso ocorre porque a natureza é mudança, e é uma mudança que vai muito além da compreensão humana mesmo em seu sentido mais científico e abstrato. Humanos modernos tem o problema de acreditar que as suas ideias são consubstanciais com a realidade, mesmo que frequentemente não haja razão nenhuma para acreditar nisso. Eles dominam conceitos incompreensíveis como tempo, espaço, matéria, luz, etc. no abstrato e assim acham que não há mais nada para eles no sentido concreto, mesmo que eles nunca tenham saído do conforto de sua cadeira ou do espaço na frente da lousa. A natureza é catástrofe porque ela interrompe, desmantela, destrói tudo e cria novamente: das estrelas mais distantes até as células de nossos corpos. Aderentes do pensamento anticivilização tem dificuldade de aceitar isso de uma maneira concreta, apesar de estarem constantemente falando banalidades abstratas sobre isso. Para eles só se pode dizer “Doutor, cure a si mesmo!”.

O que é então a nossa relação com a natureza? Como nós superamos a ideia frequentemente repetida pelos críticos de que os primitivistas “reificam a natureza”. Aqui, eu ofereço um tropismo cripto-hegeliano. Muitos “primitivistas” (por falta de um termo melhor) veem a natureza como algo que nos é externo, e que oferece a nossa existência como uma dádiva passiva, e que o problema real é que nós nos esquecemos do aspecto gratuito dessa dádiva (pense aqui no conceito cristão de “graça”. Da mesma maneira que um homem não pode obter salvação através do Deus de Calvino, ele é também incapaz de criar os seus meios de vida sem o assentimento da natureza. Obviamente, essa é uma formulação absurda. A natureza, ou se você preferir usar o muito criticado termo de Lovelock, “Gaia”, é o produto de bilhões de coisas vivas trabalhando juntas e sustentando umas às outras ao longo das eras: ela é o ato de coisas vivas. Elas são formadas por ela e a formam também, que vai de pequenos microrganismos até ecossistemas complexos e a própria biosfera. Nós temos que manter isso em mente cada vez que olhamos para a “natureza pristina”. Como Haskell diz várias vezes ao longo de seu livro citado acima, a natureza não é uma sala de meditação, e nem um Éden onde se pega as frutas dos cachos sem esforço algum. Há também confronto e tragédias, da mesma maneira que há cooperação e piedade. O fato que ela persistiu por tanto tempo é uma evidência disso.

O pecado do homem moderno não é ter resistido a sua natureza humana passiva, como diriam muitos primitivistas. O problema é que ele acredita que ele é independente da própria natureza, que ele consegue se virar sozinho, que ele pode dominá-la por completo e não deixar nada sob a sombra do mistério. Esse é o homem moderno, alienado, implacável e autocentrado. Não é o que ele faz, e sim o que ele faz bem demais que é o problema, ou pelo menos assim ele pensa. Por causa disso que não há “solução”. Não há nenhuma abstração que consiga capturar o problema inteiro e torná-lo digerível. O mundo onde há soluções é um mundo que não deveria existir, ou melhor, é o mundo que cria problemas em primeiro lugar. A catástrofe da maneira que ela é entendida pelo homem moderno (purificante, final, devastadora) é o mito necessário pairando sobre a utopia como a espada de Damocles. Alguns de nós preferem espadas caindo do que um paraíso imaginário.

Sendo assim, a solução eco-extremista é brutal e pessimista. Não há futuro, e nem uma “nova comunidade”. Não há “esperança”. Nós não falamos isso com uma alegria gótica, e sim com alívio, como se tivéssemos tirado um fardo de nossos ombros. Seres humanos são feitos para errar o alvo, e nós tendemos a fracassar mais do que acertamos. Mesmo assim, nós fazemos parte de um todo, e deixamos outros para trás para vencer e perder, e para lutar outro dia. Nossa ambição não tem fim, porque ela nunca conquista a vitória. Nós olhamos para sociedades do passado que já foram extintas que aceitaram as suas limitações (ou assim pensamos, pois não há como saber de verdade) com admiração; uma admiração que sabe que se elas não eram “perfeitas”, é porque há algo de errado com as nossas expectativas domesticadas, e nada verdadeiramente errado nelas. Tudo que nós podemos fazer é lutar de volta até nos extinguirmos nessa existência onde uma parte acredita que pode engolir o todo.

E é assim que se parece de fato um primitivismo sem catástrofe, sem uma narrativa fechada, sem um “final feliz”: o contentamento do olho e de todos os outros sentidos em face do que nós conhecemos por natureza, mesmo que nós não a entendamos, mesmo que ela pareça mutilada e incompreensível aqui e agora. Não é algo que nós fazemos (apesar de nós termos uma participação) e nem algo que controlamos (apesar de fazermos o nosso melhor). Mas emaranhada nos corações ementes do homem, é algo verdadeiramente maravilhoso de se contemplar: esse todo, o vasto céu estrelado, o canto do pássaro, a lesma que rasteja, o dia novo, a decomposição, a morte, a vida… terminamos com a grande voz poética de Robinson Jeffers:

Saber que as grandes civilizações foram reduzidas a violência,

e seus tiranos vieram, muitas vezes antes.

Quando a violência aberta surge; evitá-la com honra ou

escolher a facção menos feia; esse mal é essencial.

Manter a própria integridade, piedoso e não corrompido,

sem desejar o mal; e sem ser enganado

Por sonhos de justiça universal ou felicidade. Esses sonhos

não se realizarão.

Saber disso, e saber que por mais feias que pareçam as partes

o todo permanece maravilhoso. Uma mão amputada

É algo feio, e o homem separado da terra e das estrelas

e da sua história… por contemplação ou de fato…

Parece por vezes terrivelmente feio. Integridade é inteireza,

a maior beleza é a

Totalidade orgânica, a totalidade da vida e das coisas, a beleza divina

Do universo. Ame isso, não o homem

Separado disso, senão você irá compartilhar as suas patéticas confusões,

ou se afogar em desespero quando os seus dias escurecem.

O que é o Eco-extremismo? – A flor que cresce no submundo: Uma introdução ao eco-extremismo

Tradução do escrito What is Eco-extremism?, de Abe Cabrera. Este texto foi extraído da primeira edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

“Una salus victis nullam sperare salutem.” (A única esperança dos conquistados é não esperar a salvação.) – Virgil, The Aeneid

“Se a morte vier, continuaremos destruindo as coisas no inferno; mundo repugnante, vou dar risadas enquanto assisto sua queda, neste eterno confronto…” – Décimo primeiro Comunicado de Individualistas Tendendo ao Selvagem, 2016

O eco-extremismo é uma das mais recentes escolas de pensamento do nosso tempo, mas mais do que uma escola de pensamento é também um plano de ação, uma atitude de hostilidade e uma rejeição de tudo o que aconteceu antes dele na sociedade tecno-industrial. Nascido de várias ideologias radicais como a libertação animal, o anarquismo insurrecional, o anarco-primitivismo e o neoluddismo de Theodore Kaczynski, germinou e brotou como algo completamente diferente: um poema de amor à violência e à criminalidade; uma visão ecológica radical onde a esperança e o humanismo são superados pelo cano de uma arma, pela explosão do dispositivo incendiário e pela faca que persegue presas humanas na escuridão. Todos os seus verdadeiros adeptos são atualmente desconhecidos. Não é uma ideologia que se formou na academia ou mesmo em espaços políticos “alternativos”. Seus escritos só podem ser encontrados (alguns diriam ironicamente) em sites anônimos na Internet. O eco-extremismo foi formado nas sombras, e permanecerá ali, uma ameaça clandestina até que todos os eco-extremistas sejam capturados ou mortos… ou seja, até que outros tomem seu lugar.

Pouco depois de eu ter escrito meu ensaio na Ritual Magazine1, Rumo à Selvageria: desenvolvimentos recentes do pensamento eco-extremista no México, o principal grupo descrito nesse ensaio, Reacción Salvaje, se desfez (em agosto de 2015), citando uma nova etapa de sua luta e desenvolvimento. Muitos dos sites que eu usei para a minha pesquisa também se silenciaram ou anunciaram seu fim. No entanto, rumores eco-extremistas podiam ser ouvidos no sul, ecoados através de notícias na Internet. Grupos como a Seita Pagã da Montanha cometeram ataques no Estado do México e em outras partes do país, usando a mesma retórica contra os “hiper-civilizados” e sem nenhuma preocupação com a moralidade e a sociedade tecnológica em massa. Uma das principais revistas do eco-extremismo, a Revista Regresión, continuou a ser publicada fora do México.

Em janeiro de 2016, novos sites eco-extremistas e até mesmo um extenso documentário em vídeo sobre eco-extremismo surgiram on-line. No final do mês, foi emitido o primeiro comunicado do reorganizado Individualistas Tendendo ao Selvagem (Individualistas Tendiendo a lo Salvaje, ITS) no principal site eco-extremista, Maldición Eco-extremista, bem como no anti- authoritarian news. Logo começou a se perceber que a continuação do ITS havia se espalhado para outros países, nomeadamente o Chile, a Argentina e, mais tarde, o Brasil, juntamente com os grupos aliados de Terroristas Niilistas na Itália. Os textos eco-extremistas foram traduzidos em idiomas que vão do espanhol e inglês ao turco, tcheco e romeno. As ações eco-extremistas no último ano civil variaram de incêndio, ameaças de bomba, bombardeamentos indiscriminados até o assassinato de um trabalhador científico na maior universidade do México. Pelo que sabemos, ninguém foi detido ou investigado por esses crimes.

A recente teoria eco-extremista enfatizou a ação acima do estudo histórico e da teoria. Grande parte da energia polêmica no início deste ano foi consumida por uma defesa do “ataque indiscriminado“: isto é, bombardeio, tiro, incêndio, etc. que não leva em conta “espectadores inocentes”, mas ataca um alvo, independentemente do “dano colateral ” que possa causar. Outras questões de contenção têm sido a relação entre niilismo e egoísmo (a ideia de que os ITS e outros eco-extremistas não acreditam em um futuro e lutam no aqui e agora por nenhum objetivo estratégico particular), primitivismo, animismo/paganismo e individualismo. No que se segue vou discutir termos essenciais e conceitos que esperamos que possam esclarecer a retórica e linguagem eco-extremista. Deve-se notar desde o início que o eco-extremismo não visa uma clareza absoluta para o observador imparcial, mas sim busca estimular a afinidade naqueles que estão em desacordo com a tecnologia, a artificialidade e a civilização.

Eco-extremismo é uma tendência que visa recuperar o selvagem. Exalta os instintos de guerreiro ancestral de cada um e declara guerra a tudo o que é civilizado. O eco-extremismo é corporificado por eco-extremistas individuais escondidos que emergem com ferocidade fria no momento oportuno. O eco-extremista é um individualista na medida em que ele desafia a proibição do coletivo ou comunidade, qualquer comunidade, à lutar, ferir, mutilar ou matar. Nenhum coletivo tem a autoridade de dizer-lhe o que fazer, pois todos eles perderam a sua autoridade (inexistente) em sua guerra contínua contra a Natureza Selvagem. Junto com a renúncia ao coletivo há uma renúncia à esperança ou qualquer “futuro primitivo”. Eco-extremistas acreditam que este mundo é lixo, eles entendem o progresso como a escravidão industrial, e eles lutam como animais selvagens encurralados, uma vez que sabem que não há escapatória. Eles olham a morte nos olhos, e gritam, “Hoka Hey!” (Hoje é um bom dia para morrer.)

O eco-extremismo é uma resistência violenta que imita a reação reflexiva da Natureza Selvagem contra aquilo que procura alienar e escravizar todas as coisas vivas e inanimadas. Contra a artificialidade da sociedade moderna, e tudo o que subjuga o instinto humano a um “fim superior”.

Comecemos, no entanto, a definir nossos termos:

Natureza Selvagem: Natureza Selvagem é o principal agente da guerra eco-extremista. Os filisteus se opõem à invocação da “Natureza Selvagem” taxando isso de atavismo ou “superstição”, mas o fazem apenas por causa da sua própria domesticação e idiotice. “Natureza Selvagem” é tudo o que cresce e se manifesta no planeta em objetos animados e inanimados, de pedras a oceanos, de microrganismos a toda a flora e fauna que se desenvolveram na Terra. Mais especificamente, “Natureza Selvagem” é o reconhecimento de que a humanidade não é a fonte e o fim da realidade física e espiritual, mas apenas uma parte dela, e talvez nem mesmo uma parte importante. O eco-extremismo, na medida em que pensa sobre a epistemologia, baseia-se na ideia de que a realidade é governada por nossos sentidos e instintos animais. Como Chahta-Ima afirmou em seu ensaio, O que queremos dizer quando dizemos, ‘natureza’?:

“A natureza existe porque a mente humana é fraca e limitada. Ela é mortal, é feita de carne e, por fim, este é o seu limite, mesmo que não possamos vê-lo. É como se ela jogasse um jogo contra o resto da existência, e ela vai perder. A existência da natureza é o limite do pensamento. É o fato de que todas as coisas não são para nós, nossos pensamentos não fazem as coisas: as coisas estão lá para a tomada, e estariam lá sem a nossa intervenção. Em outras palavras, nós não somos deuses, não somos espíritos, precisamente porque essas coisas não existem como nós as entendemos. Nosso pensamento não compreende e não pode compreender tudo, e é por isso que é tão miseravelmente pouco confiável.”

O eco-extremismo, portanto, adota uma posição pessimista no que diz respeito à empreendimentos humanos e conquistas, sejam elas físicas, espirituais ou morais. É por isso que se opõe à civilização, especialmente na sua manifestação tecno-industrial. A civilização moderna procura subjugar tudo a si mesma, e sua hubris é sua queda. Eco-extremistas procuram ser instrumentos dessa queda, embora eles não acreditem que possam fazê-lo por si sós. Mais importante ainda, a natureza selvagem é encontrada em nós, principalmente em nossos instintos, e ao sentir o gemido da terra em face da destruição causada pela vida civilizada. Esta tendência procura (embora imperfeitamente) recuperar crenças baseadas nas montanhas, desertos, costas, pântanos, florestas, animais, fases da lua, e assim por diante.

Muitos eco-extremistas ouvem o chamado de seus antepassados que resistiram à sua subjugação. Quando a Natureza Selvagem fala, ela o faz na linguagem de seus antepassados Teochichimecas, os Selk’nam, os Yahis, os Navajo, os Maoris, os bárbaros europeus, os Waranis, os Taromenanes, os Seris, os Tobas e qualquer outro grupo que lutou contra a extinção de seu antigo modo de vida. A natureza selvagem está assim dentro de nós, na individualidade que recusa a mentalidade e a moral da civilização e da domesticação.

Individualismo: Mais do que uma corrente filosófica, o individualismo é uma importante escolha tática dentro da sociedade de massas. É a decisão de se tornar um lobo no meio de todas as ovelhas. É a decisão de cuidar do próprio interesse e agir em conformidade com ele. Os individualistas aprendem com a solidão e buscam a auto-realização porque entenderam que não podem mais seguir as normas e costumes que a civilização lhes ditou. Os individualistas negam a moralidade aceita e rejeitam os valores que lhes foram ensinados desde o nascimento. Eles não esperam para tomar a iniciativa, mas sim unem-se com aqueles de disposição semelhante para melhorar sua teoria e prática. O individualismo é uma arma contra o coletivismo progressista imposto pelo sistema. Como um eco-extremista escreveu:

“’Eu e depois eu!’, Eu grito tentando acabar com minha domesticação, quebrando os laços de relacionamentos inúteis, lançando-me de cabeça em uma guerra contra a civilização e seus escravos. Contra seu coletivismo, seu altruísmo e humanismo. Morte às relações fundadas na hipocrisia! Longa vida às afinidades sinceras! Meus aliados que lutam esta guerra perdida junto comigo sabem: para mim será sempre eu antes deles, e vice-versa: para eles, o ‘eu’ deles vem antes do meu ‘eu’. Assim nós continuaremos já que somos indivíduos amorais e egoístas.”

Os eco-extremistas individualistas são cautelosos e espirituais, amam profundamente e quando odeiam, não perdoam. Eles agem de forma indiscriminada, são frios e calculistas. Eles rondam e camuflam-se nas paisagens urbanas e rurais com a astúcia de uma raposa. Eco-extremistas usam tudo o que tiver ao seu alcance para alcançar seus objetivos, mas tentam ligar-se ao passado sagrado sabendo que o tempo para a paz já não mais existe. Procuram oferecer as suas vítimas como um sacrifício aos seus antepassados e à própria Terra. Como em muitas das guerras passadas contra a civilização, a força motriz por trás dela não é a moralidade nem a justiça, mas sim a vingança.

Ataque indiscriminado: A mente progressista moderna se opõe à ataques indiscriminados, uma vez que ainda não foi capaz de livrar-se da moralidade ocidental. Para os eco-extremistas, agir indiscriminadamente é um dos principais métodos de ataque. Atacar indiscriminadamente é atacar um alvo sem considerar “espectadores inocentes” ou “danos colaterais”. Enquanto os individualistas eco-extremistas geralmente visam alvos que são significativos para a sociedade tecno-industrial (ministérios governamentais, universidades, veículos de transporte), os terroristas individualistas o fazem com a intenção de infligir o máximo de danos, incluindo as mortes humanas. Como o ITS expressou em seu Quinto Comunicado deste ano:

“Consideramos inimigos todos aqueles que contribuem para o processo sistemático de domesticação e alienação: os cientistas, os engenheiros, os investigadores, os físicos, os executivos, os humanistas e (por que não?), afirmando o princípio do ataque indiscriminado, a sociedade em si e tudo o que ela implica. Por que a sociedade? Porque ela tende ao progresso, tecnológico e industrial. Contribui para a consolidação e avanço da civilização. Podemos pensar em todos os que fazem parte da sociedade como sendo meras ovelhas que fazem o que lhes é dito e nada mais, mas para nós não é assim tão simples. As pessoas obedecem porque querem. Se tivessem uma escolha e, se dependessem deles, gostariam de viver como aqueles malditos milionários, mas apodrecem na sua pobreza como os servos eternamente fiéis ao sistema que nos escraviza como animais domésticos”.

O eco-extremismo realiza ataques indiscriminados como um eco da natureza selvagem e para mostrar que sua hostilidade para com a sociedade é real. Os tsunamis não param de repente quando chegam aos bairros pobres, os jacarés não distinguem entre inocentes e culpados em suas caças noturnas e os furacões não atacam as pessoas de acordo com a raça. O eco-extremismo é parte desse ciclo de ação e reação. O tempo da “ação revolucionária” já passou, e os eco-extremistas procuram levar a cabo uma guerra real, com verdadeiras baixas e ações que não são meramente simbólicas, mas que, de fato, derramam sangue.

Niilismo: O niilismo é principalmente uma recusa do futuro. Como eu descrevi no meu ensaio “Primitivismo Sem Catástrofe“, as sociedades humanas em todos os níveis, mas especialmente a sociedade tecno-industrial, são extremamente complexas, compostas de muitas partes complexas e de muitas pessoas. Assim, qualquer aspiração de pastorear as pessoas em um curso coletivo de ação, seja ele humanista, socialista, liberal ou mesmo anarquista, não funcionará e terá de enfrentar a oposição daqueles que buscam resistir à sua própria escravidão tecno-industrial.

Na “Mafia Eco-extremista” (como eles gostam de chamar a si mesmos) há os Terroristas Niilistas, particularmente na Itália. Estes niilistas aderem à posição de que o verdadeiro niilismo é o niilismo ativo, do contrário não seria um niilismo completo. Não adianta falar de “niilismo” ou “egoísmo” enquanto se paga impostos e obedece às leis de trânsito. Tal egoísmo ou niilismo puramente passivo talvez seja mais parecido com o budismo ou o niilismo filosófico do século XIX, que sustenta todas as coisas que condenam a pessoa a ser uma engrenagem na grande máquina social, mas oferece algum tipo de integridade ou pureza invisível (ou um “espaço emancipado” particular) semelhante à “libertação espiritual”. O Niilismo Ativo Terrorista, praticado pela Seita do Niilístico Memento Mori e outros, busca atacar o que obviamente escraviza o indivíduo à sociedade, e esse ataque deve ser sempre um ataque físico contra alvos reais como máquinas, edifícios, etc. e os autômatos humanoides que constroem e operam. Todas as outras manifestações de niilismo ou egoísmo não são melhores do que o ascetismo oriental ou o cristianismo.

“O puro golpe para a vida que flui na margem do “viver”. Sou o criminoso niilista que nega a humanidade obsoleta, transcendendo o humano moral-mortal, numa representação categórica e identificadora de valores iguais”. – Nechaevshchina, “Nihilist Funeral”

Paganismo/animismo: O eco-extremismo é fundado no animismo pagão e tenta resgatar divindades ancestrais que muitas vezes foram esquecidas pela sociedade cristã/secular. Por razões profundamente pessoais e estratégicas, o eco-extremista busca reviver a adoração dos espíritos da Terra e oferecer sacrifícios a eles. O componente estratégico é renunciar e opor-se à filosofia do cientificismo secular defendida por alguns anarquistas que clamam: “Sem deuses, nem mestres!” Os eco-extremistas reconhecem a necessidade de autoridades espirituais, mesmo que estas sejam mal compreendidas ou quase esquecidas, já que estas ainda determinam o curso da vida e da morte. Nenhum guerreiro pode fazer a guerra por conta própria: sempre há forças maiores em ação que nem mesmo a civilização tecno-industrial pode dominar. Na guerra eco-extremista, apesar do individualismo tático, um componente espiritual é necessário para realizar um ataque contra essa sociedade pútrida e se livrar dela. Isso também lembra o eco-extremista que, em última instância, se ele ou ela vive ou morre não é uma questão que está nas mãos dele, mas sim nas mãos de forças que sempre estiveram no controle, e ainda estarão mesmo depois de nós termos partido. Como Halputta Hadjo afirmou em seu monógrafo,Os Calusa: Um Reino Selvagem?:

“[O eco-extremista] pode atacar ou ele pode render-se, mas tudo o que ele faz está limitado pela cegueira e impotência de sua própria natureza carnal. Isso não é motivo para desistir, e não é motivo para o desespero. Pelo contrário, isso é razão para reverenciar as forças que criaram as coisas dessa maneira, e estes são os “espíritos”, ou os “deuses”, de um ambiente específico, seja qual for o nome que você queira chamá-los. A atitude dos eco-extremistas é a hostilidade eterna contra a civilização tecnológica em nome dos espíritos que são seu patrimônio perdido”.

Como o selvagem guerreiro do passado, o eco-extremista entende que, apesar de o couro cabeludo e sangue do inimigo poder ser seu no curto prazo, no longo prazo, seu destino é a decadência como toda a carne, com seu espírito voltando ao vento e à poeira. O eco-extremista não foge de seus “fantasmas”, de seu “lado negro”, ou de sua ignorância, mas abraça-os para que estes lhe deem coragem contra o inimigo. Estes são seus deuses, seus próprios espíritos guardiães que são emissários da Natureza Selvagem. Ele não necessita da racionalidade matemática do domesticado para agir, mas age por instinto com o conhecimento necessário para atacar seu inimigo. Seu único consolo é que ele também é Natureza Selvagem, que seu lamento é seu lamento, que sua vitória final será sua, mesmo que ele não viva para vê-lo com seus olhos físicos. No final, todos os sentimentos elevados e as ideias estão a uma mera batida do coração de serem extinguidos, o que dá ao eco-extremista um sentido de urgência na luta contra a domesticação e artificialidade.

Conclusão: Guerra com data de vencimento, guerra sem fim

O eco-extremismo é o sentido trágico da vida encarnado em nossa época. É um produto das contradições de nosso tempo, da turbulência da erudição antropológica, da renúncia à ação política e do impasse ideológico contemporâneo. Esta tendência sabe que este impasse não será resolvido por melhores filosofias ou códigos morais, mas apenas pela destruição de tudo o que existe, incluindo o “hiper-civilizado” (isto é, todos nós). A sociedade tecno-industrial é um problema que nunca deveria ter existido em primeiro lugar, e todos os “defeitos” e “contradições” do eco-extremismo como ideologia são o resultado de contradições da sociedade refletidas como um espelho distorcido. Não há solução. A única resposta adequada é fogo e balas.

Esta atitude coloca o eco-extremista em conflito não só com as autoridades da sociedade tecno-industrial, mas também com outros grupos chamados radicais. Não há nenhum “chamado às ruas” ou expressões de “solidariedade” por parte dos eco-extremistas. Não há nenhuma tentativa de se justificar moral ou filosoficamente. “Inocência” ou “culpa” nunca entram no cálculo eco-extremista. De fato, essa tendência absorve os “piores” aspectos da sociedade moderna, incluindo a criminalidade, sem qualquer esforço de justiça por meio da lógica da “justiça civilizada”. A recente introdução ao ensaio “Os Calusa: Um Reino Selvagem?” destaca os atores e grupos societários que o eco-extremismo procura imitar em nosso tempo:

“‘Os Calusa: Um Reino Selvagem?’ Ensina uma lição valiosa; nomeadamente, que muito pode ser aprendido tanto dos pequenos grupos nômades como das grandes civilizações pré-colombianas. Aqui não há perigo de cair em uma “contradição” teórica, pois os eco-extremistas podem fazer referência aos selk’nam e aos maias. Podem referir-se às experiências dos pequenos criminosos, bem como as das grandes máfias; as gangues guatemaltecas, bem como a rígida organização do Estado islâmico. Ou seja, os eco-extremistas se vêem livres para se referirem a tudo que os interessem, sem qualquer indício de moralidade, com a única condição de que isso sirva como uma lição particular útil no que diz respeito ao planejamento e execução de sua guerra”.

O ecletismo teórico só entra em choque no eco-extremista quando se vê frente à obstinação pelo ataque violento. O eco-extremista tem abandonado sua afinidade com o hiper-civilizado e vê praticamente todos como um inimigo. Estes individualistas têm vindo a valorizar o ataque mais do que suas próprias vidas, como inúmeros outros guerreiros e selvagens têm feito antes deles. Eles não pedem ajuda àqueles que hoje vêem como, na melhor das hipóteses, inúteis, e na pior das hipóteses, o adversário odiado digno de morte. Os eco-extremistas já estão no radar das autoridades dos países onde operam, e além. Eles não alimentam a ilusão de que serão capazes de evitá-los indefinidamente.

A Natureza Selvagem corrói a civilização pouco a pouco por meio da entropia assim como a água diminui aos poucos a massa de uma pedra. Juntamente com as mudanças climáticas, terremotos e outros desastres naturais, os novos individualistas que resistem à sua domesticação tomarão o lugar dos eco-extremistas, talvez conscientes daqueles que vieram antes deles. Estamos agora entrando numa era de extremos, uma era de incerteza, onde ilusões de esquerda e banalidades conservadoras não podem mais nos preparar para o nosso rumo futuro. O individualista continuará sendo uma ameaça invisível, imune à coerção moral do rebanho e trabalhando na total privacidade de seus próprios pensamentos e desejos. As massas podem se enfurecer e as autoridades lamentar, mas sempre haverá bolsões de recusa destrutiva emergindo como faíscas no escuro apenas para sair novamente, até que esta sociedade seja moída até o pó, e os espíritos de todos os guerreiros vão mais uma vez caçar na terra de seus antepassados. Axkan kema, tehuatl, nehuatl! [Até a sua morte, ou a minha!]

RUMO À SELVAGERIA: Desenvolvimentos Recentes no pensamento Eco-Extremista no México

Tradução do ensaio Toward Sevagery – recent developments in eco-extremist thought in México, escrito por Abe Cabrera e publicado no espaço virtual da Ritual Magazine, uma revista de política e cultura e uma plataforma crítica para examinar a vida sob o capitalismo contemporâneo.

Introdução

“Isso foi chamado de Guerra Chichimeca e começou perto do momento da morte de Hernan Cortes (1547), simbolicamente fechando a “primeira” conquista do México. A nova guerra, travada na vasta área selvagem que se estende para o norte das terras da vitória de Cortes, ensanguentou quatro décadas, 1550-1590, a mais longa guerra indígena na história norte-americana. Foi a primeira competição plena e constante entre civilização e selvageria do continente.”


Philip Wayne Powell, Soldiers, Indians, & Silver: North America’s First Frontier War, vii

Em 2011, um grupo que se autodenomina “Individualidades Tendendo ao Selvagem” (Individualidades Tendiendo A Lo Salvaje – ITS) iniciou uma série de ataques eco-terroristas no México. Estes ataques variavam de cartas-bombas enviadas para diversas instituições de pesquisa em todo o país até o assassinato de um pesquisador em biotecnologia em Cuernavaca, Morelos. Para cada tentativa de atentado à bomba ou ação, o ITS publicava comunicados explicando os motivos por trás dos ataques, e usavam os ataques como “propaganda pelo ato” para propagar suas idéias. Em 2014, após uma série de polêmicas e auto-críticas, suas forças supostamente se juntaram com outros grupos aliados no México e mudaram seu nome para “Reação Selvagem” (Reacción Salvaje – RS). Este último grupo caracteriza-se como um grupo de “sabotadores niilistas, nômades incendiários, delinquentes individualistas, anarco-terroristas e críticos política e moralmente incorretos” [1], entre outros. Desde sua re-nomeação, o RS assumiu a responsabilidade pelo bombardeio de um Teleton, bem como pela recente agitação durante manifestações contra o governo na Cidade do México.

Não há nenhuma maneira de saber o número ou o tamanho de ITS/RS, as suas origens para o observador externo parecem obscuras e suas influências parecem indefinidas. Em seus comunicados há muitas citações de Theodore Kaczynski (conhecido como “Unabomber” ou “Clube da Liberdade” [Freedom Club]), bem como referências passageiras a Max Stirner e vários pensadores anarco-primitivistas. Seu método de ação e preferência por comunicados também sugerem óbvia influência de Kaczynski. Ao longo de seus escritos, no entanto, os indivíduos do ITS/RS insistem que não representam ninguém além de si mesmos, ética e ideologicamente. Conforme expresso no primeiro comunicado do ITS:

“Se tivéssemos de dar nomes para a guerra contra a civilização como aqueles que defendem a “revolução”, os “revolucionários” ou “pseudo-revolucionários”, estaríamos caindo no mesmo erro que os marxistas quando excluem as pessoas enquanto “contra-revolucionárias”. Além disso, nós estaríamos caindo no mesmo dogmatismo religioso de regimes de esquerda; onde Deus é a natureza selvagem; o Messias é Ted Kaczynski; a Bíblia é o Manifesto Unabomber, os Apóstolos são Zerzan, Feral Faun, Jesus Sepulveda, entre outros; o Paraíso muito aguardado é o colapso da civilização; o iluminado ou pregadores são os “revolucionários”, mantidos pela fé cega de que um dia a “Revolução” virá. Os discípulos serão aqueles que são “potencialmente revolucionários”, as cruzadas ou as missões serão a de levar a palavra aos círculos envolvidos nas lutas ambientalistas ou anarquistas (onde eles podem encontrar “potenciais revolucionários”); e os ateus ou seitas seriam aqueles de nós que não acreditam em seus dogmas, nem aceitamos as suas ideias como coerentes com a realidade presente. [2]

O objetivo deste artigo é analisar a trajetória ideológica do ITS/RS e tentar vinculá-lo a correntes intelectuais e históricas mais amplas. Nesta análise, tenho a intenção de mapear o desenvolvimento deste grupo a nível ideológico, mostrando mudança e continuidade dentro de suas idéias como reflexo da ação militante. Acredito que a história do ITS/RS é mais uma fuga ideológica de tendências anarquistas de esquerda, que inclui retórica tomada do anarquismo insurrecionalista e de lutas pela libertação animal, até de uma crítica aprofundada à ideologia anti-tecnologia de Theodore Kaczynski. Esta fuga incluí uma polêmica intensa em oposição à idéia de Kaczynski de revolução contra o “sistema tecno-industrial”. Em vez disso, o ITS/RS tem favorecido uma crítica egoísta individualista à ação das massas fundamentada por uma visão de suas próprias investigações antropológicas acerca da vida de caçadores-coletores no contexto mexicano. Vou argumentar que eles chegaram a uma abordagem “pós-política” para suas ações terroristas extremas, buscando uma reversão para uma selvageria indígena encontrada na longa história da civilização e resistência do México. Finalmente, vou avaliar as atuais tendências ideológicas do RS contra o registro histórico e pesquisa antropológica. Na minha opinião, o desenvolvimento ideológico do ITS/RS possui uma abordagem inovadora para o pensamento anti-civilização, embora esteja anexado ao romantismo vestigial e retórica exagerada que muitas vezes ofusca sua mensagem.

Para fora do Esquerdismo, Para dentro do Selvagem

O sétimo comunicado do ITS, publicado em 22 de Fevereiro de 2012, estabelece o seguinte:

“Seguindo temas de caráter anarquista, publicamente aceitamos que cometemos o erro em comunicados anteriores (especificamente o primeiro, segundo e quarto) quando nos referimos a assuntos que não conheço pessoalmente à respeito, mas aos quais naquela época nos considerávamos potenciais aliados. Durante esse tempo, o ITS foi muito influenciado pelas correntes de libertação (dos animais e da terra) e por insurrecionalistas, que foram no início uma parte integrante do nosso desenvolvimento ideológico, mas agora nós deixamos isso para trás, e como se pode ler acima, temos nos transformado em algo diferente.”

Uma das organizações mexicanas que popularizou os materiais do ITS/RS é a Ediciones Aborigen. Esta organização tem publicado vários comunicados do ITS/RS, bem como materiais de pesquisa produzidos muitas vezes em colaboração com o ITS/RS.[3] Em uma edição da revista Ediciones Aborigen [4], Palabras Nocivas, Ediciones Aborigen descreve sua própria história; digno de nota é o fato de que esse esforço de publicação saiu da dissolução de uma revista anterior, Rabia y Acción. Esta é uma revista insurrecionalista extinta que já havia coberto lutas de animais e de Libertação da Terra durante todo México e em outros lugares. A décima edição da revista, publicada em 2012, anunciou a sua dissolução, afirmando que os autores agora se opõem a sua antiga orientação voltada a ações pelos direitos dos animais e da terra. Eles vieram a considerar estas ações como “reducionistas”, “uma fuga psicológica” e “sentimentalista”. [5] Os autores também expressaram apoio à contenda de Kaczynski que afirma que a luta contra o “sistema tecno-industrial” é a única que importa . Eles também republicaram um ensaio em meados de 2003, intitulado “Stirner, o Único, o Egoísta e o Selvagem”, onde o autor afirma o seguinte: “O homem de verdade, e não o civilizado, o selvagem, foi sacrificado para o engrandecimento da glória da dominação pela pira civilizatório, juntamente com o resto dos animais selvagens e do próprio planeta”.

Muitos dos temas abordados pelos autores do Rabia y Acción ecoam os do ITS/RS, incluindo a crítica ao esquerdismo, lutas coletivistas e domesticação no coração da civilização. Os primeiros comunicados do ITS também expressam um horizonte expandido de ação de ativismo pela libertação animal e da terra. Seus ataques a nanotecnologia e cientistas trabalhando em diversos empreendimentos tecnológicos foram uma tentativa de atingir um alvo mais amplo do que campanhas contra fazendas industriais e vivissecação de animais que tinham sido os projetos anteriores de grupos eco-anarquistas no México. Considerando que os ataques até então tinham se focado no sofrimento concreto e exploração de determinados animais e extensões de terra, o ITS se focou no “sistema tecno-industrial” como um todo, conforme definido por Kaczynski durante sua suposta campanha contra a infra-estrutura científica durante todo o intervalo entre 1980 e meados de 1990.

A trajetória ideológica do ITS/RS e, portanto, de seus aliados, parece ser uma de purificação sem fim, talvez até mesmo paranóica, da mensagem acerca do ataque à tecnologia e à civilização. Neste processo de auto-crítica, o ITS/RS se desfizeram das suas ligações com o esquerdismo, o anarquismo e o coletivismo objetivando chegar cada vez mais a uma mensagem “mais pura” da guerra absoluta contra a civilização técnico-industrial, bem como a auto-conversão à “selvageria” na medida em que eles são capazes. Como se afirma em seu primeiro comunicado:

Vamos ver a verdade. Vamos plantar nossos pés na terra e parar de voar iludidos dentro da mente esquerdista. A revolução nunca existiu e, portanto, nem há revolucionários. Aqueles que se visualizam como “potencialmente revolucionários”, e que procuram por “mudança radical anti-tecnológica” estão sendo verdadeiramente irracionais e idealistas, porque tudo isso não existe. Tudo o que existe neste mundo moribundo é a autonomia do indivíduo e é para isso que nos esforçamos. E mesmo que tudo isso seja inútil e permaneça estéril em seus resultados, nós preferimos nos levantar em uma guerra contra a dominação do que nos manter inertes, meros observadores, passivos, ou parte de tudo isso. [6]

A crítica do ITS acabaria por afastar qualquer aparência de discurso esquerdista, incluindo a sua identidade anterior de “ecologista radical”. Posteriormente, ele também renunciaram a categorias ideológicas tais como “humanismo”, “igualdade”, “pluralidade”, e assim por diante [7]. No processo, o ITS/RS desenvolveu uma crítica pungente à revolução, ao esquerdismo e até mesmo à própria sociedade, em favor do objetivo singular da desestabilização do sistema tecnológico moderno. A conclusão definitiva do ITS/RS foi posta logo no início: a verdadeira solidariedade e comunidade humana não pode ser alcançada sob a civilização tecno-industrial, e, portanto, todas as idéias e valores que vem atreladas à ela são obsoletas e perniciosas. A ação coletiva é, portanto, fora de questão; somente a resistência de indivíduos que confrontam este sistema é adequada para aqueles que estão voltando à selvageria. A este respeito, nenhum curso de ação ou tática está fora de questão.

O Filho Bastardo de Ted Kackzynski [8]

Em janeiro de 2012, o ITS publicou o seu sexto comunicado que foi uma auto-crítica de várias tendências apresentadas anteriormente em comunicados anteriores. O comunicado começa por criticar o anterior uso ortográfico de colocar um “x” em vez de um “o” ou “a” em certos substantivos pessoais para preservar a neutralidade de gênero. [9] O ITS também clarificou a sua posição em relação ao “esquerdismo”, indicando que deixaria de enviar mensagens de solidariedade à prisioneiros anarquistas como vinha fazendo em comunicados anteriores, e que não iria nem mesmo se referir aos seus atos como parte de um “movimento” ou “revolução” para derrubar ou alterar o “sistema Techno-industrial.” O ITS resumiu a sua crítica ao esquerdismo afirmando:

“Com relação à nossa posição, o que isso tem a ver com a nossa guerra contra o esquerdismo? Temos reavaliado o que dissemos no passado, e concluímos que o esquerdismo é um fator que não merece nada mais do que mera rejeição, crítica e ruptura por parte de todos aqueles que lutam contra o sistema industrial Tecnológico.” [9]

A crítica ao esquerdismo é tomado em grande parte de Theodore Kaczynski. No parágrafo 214 de seu famoso “Sociedade Industrial e o seu Futuro”, Kaczynski afirma:

“Para evitar isso, um movimento que exalta a natureza e se opõe à tecnologia deve assumir uma posição resolutamente anti-esquerdista e deve evitar toda a colaboração com os esquerdistas. O esquerdismo é a longo prazo incompatível com a natureza selvagem, com a liberdade humana e com a eliminação da tecnologia moderna. O esquerdismo é coletivista; que busca unir o mundo inteiro (tanto a natureza quanto a raça humana) em um todo unificado. Mas isto implica gestão da natureza e da vida humana por parte da sociedade organizada, e isso exige tecnologia avançada. Você não pode ter um mundo unido sem transporte veloz e comunicação, você não pode fazer todas as pessoas amarem umas as outras sem técnicas psicológicas sofisticadas, você não pode ter uma “sociedade planejada” sem a base tecnológica necessária. Acima de tudo, o esquerdismo é impulsionado pela necessidade de poder, e o esquerdista procura sua energia numa base coletiva, através da identificação com um movimento de massas ou uma organização. O esquerdismo provavelmente nunca desistirá da tecnologia, porque a tecnologia é uma fonte muito valiosa de poder coletivo.” [11]

No sétimo comunicado, o ITS desenvolve uma crítica à afinidade entre anarquismo e sociedades primitivas. Por exemplo, o ITS defende na discriminação deste comunicado, a autoridade e a hierarquia familiar no contexto da vida de caçadores-coletores. Este também parece ser um reflexo da própria crítica de Kaczynski em seu ensaio, “A verdade sobre a vida primitiva: uma crítica ao anarco-primitivismo”:

“O mito do progresso pode ainda não estar morto, mas ele está morrendo. Em seu lugar um outro mito está crescendo, um mito que tem sido promovido principalmente pelos anarco-primitivistas, embora seja difundido em outros grupos também. De acordo com este mito, antes do advento da civilização ninguém nunca teve de trabalhar, as pessoas simplesmente arrancavam a comida das árvores e colocavam na boca e passavam o resto de seu tempo brincando de joguinhos com as crianças. Homens e mulheres eram iguais, não havia nenhuma doença, nem concorrência, nem racismo, sexismo ou homofobia, as pessoas viviam em harmonia com os animais e tudo era amor, partilha e cooperação.

É certo que o precede é uma caricatura da visão dos anarco-primitivistas. A maioria deles – espero – não estão tão longe do contato com a realidade como fiz parecer. Eles, no entanto, estão bastante longe da realidade, e é tempo de alguém desmascarar seu mito.” [12]

Estas posições, assim como as citações freqüentes de escritos e ações de Kaczynski, indicam claramente uma influência do legado “Unabomber” sobre o grupo mexicano. No entanto, o que eles herdam de suas leituras de Max Stirner e outros teóricos radicais aponta em uma direção bem longe da “revolução” contra a sociedade tecno-industrial de que Kaczynski falou. Na verdade, esta posição foi prevalecente no ITS desde os primeiros comunicados, mesmo que fosse muitas vezes revestida de açúcar ou apenas vagamente reconhecida, como na seguinte passagem do segundo comunicado:

“Recordamos que Kaczynski está em uma prisão de segurança máxima, isolado do mundo que o rodeia, desde 1996; certamente, se ele deixasse a prisão agora, iria perceber que tudo está pior (muito pior) do que estava da última vez que pode o ver no século passado, ele iria perceber o quanto a ciência e a tecnologia têm avançado e quanto elas têm devastado e pervertido. Ele iria perceber que agora as pessoas estão mais alienadas com o uso da tecnologia e que elas têm até mesmo colocado-a em um altar como a sua divindade, seu sustento, a sua própria vida. Como tal, o conceito de “revolução” é completamente antiquado, estéril e fora de contexto com as idéias anti-civilização que se gostaria de expressar. Uma palavra que em si tem sido usado por diferentes grupos e indivíduos na história a fim de chegar ao poder, a fim de mais uma vez dominar e ser o centro do universo. Uma palavra que tem servido como o ansiado sonho de todos os esquerdistas que têm fé de que um dia ela virá para libertá-los de suas cadeias.” [13]

Depois que o ITS se tornou o RS em 2014, começou uma polêmica bastante acentuado contra o Ediciones Isumatag (EI), um site de língua espanhola pró-Kaczynski. Em um comunicado intitulado “Algumas respostas sobre o presente e não sobre o futuro” várias facções do RS deram sua resposta às críticas do EI contra o RS por sua falha em endossar um movimento anti-tecnológico que poderia levar a uma derrubada revolucionária do sistema industrial tecnológico . Na sua resposta, o RS afirma que uma tal revolução teria de ser sustentada por um longo período de tempo em âmbito internacional, um evento que nunca aconteceu anteriormente na história. Na verdade, de acordo com o RS, a única revolução que teve um efeito transformador global foi a Revolução Industrial. [14] Aguardar uma revolução em um futuro indefinido é uma esperança “sem nada de concreto, totalmente no ar”. A “revolução” é, em uma palavra, impossível, e talvez nem mesmo desejável. O RS escolhe assim viver e lutar no presente contra a sua domesticação e subjugação:

“Quando o ITS (em seu momento), ou as facções do RS, declaram que não esperam nada dos ataques que realizamos, estamos nos referindo ao que é estritamente associado com o “revolucionário” ou “o que é transcendental na luta”. Nós não esperamos por uma “revolução”, nem por uma “crise mundial”, nem pelas “condições ideais.” A única coisa que esperamos é que depois de um ataque, nós possamos sair intactos com a nossa vitória individualista, com as mãos cheias de experiências para os próximos passos que serão ainda mais constantes, destrutivos e ameaçadores.” [15]

Assim, o RS classifica a revolução anti-tecnológica de Kaczynski tanto como delirante quanto um impedimento à ação extremista no aqui e agora. O único caminho aceitável de ação para o ITS/RS é um em que apenas o presente importa, um que golpeia a máquina tecnológica com pouca preocupação com efeitos ou consequências de longo prazo. O ITS/RS abdicou assim a sua obrigação para com o futuro em nome de atos individualistas de violência que são uma feroz desconstrução de sua própria domesticação. É claramente observável que o ITS/RS nunca acreditou que qualquer outra coisa fosse possível ou construtiva. O que vou tentar mostrar no restante deste ensaio é como eles chegaram a essas conclusões, e como o seu próprio estudo do passado os levou a rejeitar o futuro em nome de um presente selvagem.

Axcan kema, tehuatl, nehuatl! (Até sua Morte, ou a minha!)

A transição do Individualidades Tendiendo a lo Salvaje à sua nova identidade de Reacción Salvaje em 2014 foi marcada por um enfoque decisivo na história no contexto mexicano. O pensamento anti-civilização no México aborda a longa história de resistência à civilização que já acontecia mesmo antes da chegada dos europeus. Em particular, tribos de caçadores-coletores do norte do México central eram uma ameaça constante para as prósperas civilizações que os europeus encontraram após a sua chegada. Embora esta região do mundo tenha domesticado algumas culturas como o milho, que serviu como a espinha dorsal da agricultura sedentária em todo o continente, a dominância da forma civilizada de vida não alcançava algumas das regiões vizinhas dos impérios da Mesoamérica pré-conquista. Mesmo após a conquista espanhola em 1521, estas tribos do norte, chamado de “Gran Chichimeca” (Grande Chichimeca), travaram uma guerra feroz com o crescente império espanhol. Esta guerra duraria quase quarenta anos. O RS retira substancial inspiração ideológica deste evento histórico, como declarou em uma polêmica recente:

“Ediciones Isumatag escreve em seu texto que o confronto direto constitui, mais cedo ou mais tarde, suicídio, e eles estão certos. Mas decidimos que, para nós mesmos, sabemos que talvez teremos que compartilhar o mesmo destino de prisão ou morte dos selvagens guerreiros Chichimecas Tanamaztli e Maxorro, o mesmo que aconteceu com indomável Chiricahua Mangas Coloradas e Cosiche. Isso nós sabemos bem, nós escolhemos nos engajar em uma luta até a morte com o sistema antes de conformar-nos e aceitar a condição de seres humanos hiper-domesticados que eles querem nos impor. Lembramo-nos de que cada indivíduo é diferente. Para alguns, é bastante reconfortante se enganarem pensando que um dia uma grande crise vai chegar e só então eles vão trabalhar ativamente para o colapso hipotético do sistema. Mas para nós, esse não é o caso. Nós não somos idealistas, vemos as coisas como elas são, e elas nos impelem à confrontação direta, assumindo sobre nós mesmos as últimas conseqüências.” [16]

Outro trabalho que o RS e seus aliados têm realizado é imprimir publicações como o Regresión e o Palabras Nocivas que publicam tanto propaganda do RS quanto matérias informativas sobre a história indígena de luta contra a civilização. Por exemplo, em outubro de 2014, um número do Regresión foi lançado com informações sobre a resistência Chichimeca à colonização espanhola e à Guerra de Mixtón do século 16. [17] A Guerra de Mixtón foi uma revolta, em 1541, dos povos recentemente conquistados contra a dominação espanhola no centro do México. Esses povos indígenas tinham sido agricultores sedentários que “reverteram” para um estilo de vida caçador-coletor nas colinas e montanhas da região central do México para combater os espanhóis. No decorrer do ano, as forças indígenas conquistaram vitórias bastante impressionantes, mas em 1542 eles foram decisivamente derrotados por uma coalizão de espanhóis e seus aliados indígenas. Como o autor do artigo Regresión escreve:

“Cinvestav alterou e modificado geneticamente um grande número de plantas antigas e exóticas. Uma dessas plantas é a chilague, uma de nossas raízes ancestrais. Muitos selvagens foram salvos da morte através do uso desta raiz, e assim eles foram capazes de continuar sua guerra contra a civilização. Pode-se afirmar com firmeza que a Guerra Mixtón (1540-1541), a Guerra Chichimeca (1550-1600) e a Rebelião de Guamares (1563-1568) foram todas autênticas guerras contra a civilização, tecnologia e progresso. Os Chichimecas selvagens não querem um novo ou melhor governo. Eles não desejavam nem defendiam as cidades ou centros das civilizações mesoamericanas derrotadas. Eles não buscavam a vitória. Eles só desejavam atacar aqueles que os atacaram e os ameaçaram. Eles buscavam confronto, e de lá vem a grito de guerra: “Axkan kema, tehualt, nehuatl”. (Até a sua morte, ou a minha)” [18]

O Chichimeca é o “selvagem” arquetípico no pensamento atual do RS, mais do que qualquer outro grupo de caçadores-coletores. Os nômades caçadores-coletores que se encontravam aonorte da civilização mesoamericana foram inimigos ferozes das cidades agrícolas sedentárias da região central do México antes da chegada dos espanhóis. A afinidade recém-descoberta do RS com a história do Gran Chichimeca é a melhor indicação de uma mudança ideológica dentro de suas fileiras. Não só é necessário rejeitar o esquerdismo e a “revolução” contra o sistema tecno-industrial, mas em sua mentalidade, é preciso voltar a “selvageria”, e adotar o ethos dos antigos “selvagens” que lutaram contra a civilização. O RS pretende, assim, ir da crítica ao abandono imediato da mentalidade civilizada, em direção a uma atitude que eles reconhecem como “selvagem” e mais em sintonia com a natureza, que é a única considerada boa.

A tendência intelectual do RS no sentido de uma nova barbárie parece ser um resultado de um envolvimento com fontes acadêmicas disponíveis. Enquanto estas fontes tendem a documentar o Gran Chichimeca como um lugar inóspito e violento, sem dúvida essas calúnias só inspiraram ainda mais o RS na adoção de uma identidade “feroz”. A dureza da vida de caçadores-coletores em uma região árida ainda equivale a liberdade em seus olhos. Um artigo de investigação independente citado no blog El Tlatol é intitulado, “Repensando o Norte: O Grande Chichimeca – Um Diálogo com Andres Fabregas.” [19] Uma passagem deste trabalho cita o imperador asteca pré-colombiano, Montezuma Ilhuicamina, que afirmou o seguinte, relativo à re-escrita da história asteca:

“Temos que reconstruir nossa história, porque ainda somos como os Chichimecas do Vale do México, e isso não pode acontecer. Assim, devemos apagar essa história Chichimeca de nosso passado e construir outra: a história de como nós somos o povo civilizador do México, e como nós somos os construtores da grande Tenochtitlan.”

Fabregas nesta entrevista também resume as atitudes dos astecas e outros índios civilizados como a seguir:

“E, efetivamente, os mexicas renunciaram ao passado, afastaram-se de seu passado, que era um passado Chichimeca, inventaram o termo: mais do que o termo, eles inventaram o conceito, o que torna as pessoas do norte, ao norte do centro do mundo – já que o México é o centro do mundo – povos incivilizados. E eles usaram um argumento que agora parece lunático para nós, mas naquele momento foi crucial. O argumento era: os Chichimecas não sabiam como fazer tamales, para não mencionar como comê-los. Nós achamos isto estranho, mas o fato é que fazer tamales exigia toda uma transformação da natureza. Um conhecimento impressionante da natureza. Era como um resumo da história cultural. Com isto queriam dizer que os Chichimecas não são capazes de criar cultura.” [20]

Outros mexicas prenunciaram preconceitos europeus contra a vida “primitiva” de caçadores-coletores, descrevendo a terra dos Chichimecas aos primeiros cronistas espanhóis sob uma luz muito negativa: “É uma terra de penúria, de dor, de sofrimento, fadiga, pobreza e tormento, é um lugar de aridez pedregosa, de fracasso, um lugar de lamentação; é um lugar de morte, de sede, um lugar de desnutrição. É um lugar de muita fome e muita morte”. [21]

A rejeição à moralidade recebeu das RS até parece, em certa medida, inspirada pelo que eles consideram ser as atitudes dos Chichimecas em relação à sociedade cristã ocidental. Por exemplo, em um comunicado assumindo a responsabilidade por um ataque recente sobre o Teleton Nacional em Novembro de 2014, o “Nocturnal Hunter Faction” do RS declarou: “Sem o recurso a mais explicações, não somos cristãos, e nobreza é algo que não pode ser atribuído a nós! Nós somos selvagens! Nós não desejamos defender ou caridade dos outros e para os outros!” [22] A aparente imoralidade e ardor de luta é uma característica comumente conhecida dos Chichimecas em sua guerra contra os espanhóis e seus aliados indígenas cristianizados. O estudioso norte-americano, Philip Wayne Powell, em seu livro seminal sobre a Guerra Chichimeca, “Soldados, Índios e Prata”, afirma o seguinte sobre o tratamento dos Chichimecas à seus inimigos capturados em batalha:

“A tortura e mutilação de inimigos capturados pelos Chichimecas tomou muitas formas. Às vezes, o peito da vítima era aberto e o coração era removido enquanto ainda estava pulsando, na forma do sacrifício asteca; esta prática era característica das tribos mais próximas dos povos sedentários do sul. O escalpelamento foi amplamente praticado no Gran Chichimeca e, com freqüência, enquanto a vítima ainda vivia… Os guerreiros também cortavam os órgãos genitais e enfiava-os na boca da vítima. Eles empalavam seus cativos, “como os turcos faziam.” Eles removiam várias partes do corpo, perna e braço, ossos e costelas, um por um, até que os prisioneiros morressem; os ossos eram, por vezes, levados como troféus. Algumas vítimas eles jogavam do alto de penhascos; alguns eles enforcavam. Eles também abriam as costas e arrancavam os tendões, que eles usavam para amarrar pontas de seta em flechas. As crianças pequenas, que ainda não caminhavam, eram agarradas pelos pés e as cabeças eram batidas contra rochas até que seus cérebros esguichassem para fora.” [23]

Apesar de sua barbárie, e talvez por causa dela, os Chichimecas foram praticamente invictos militarmente pelos espanhóis e seus aliados indígenas subjugados. Eles eram guerreiros ferozes com “vantagem de jogar em casa” em terreno hostil, e a guerra da Espanha contra eles se arrastou por décadas no final do século XVI. Para o Reacción Salvaje, eles são oponentes arquetípicos contra a civilização no contexto mexicano. Num comunicado recente, alguns membros admitem ter para a região onde estas batalhas ocorreram para interrogar os moradores locais para obter mais detalhes e confirmar o que leram nos livros de história “civilizados”. [24]

Os membros do RS, juntamente com o jornal Regresión e o Ediciones Aborigen, resumiu o que a Chichimeca significava para sua versão de ideologia eco-extremista em sua compilação antropológica, “O Lugar das Sete Cavernas”:

“Nós entendemos Chicomoztok [O Lugar das Sete Cavernas] como aquele lugar isolado da civilização, o local de convergência de várias tribos nômades selvagens, que representa a vida selvagem e plena que nossos ancestrais viviam antes de serem convencidos a adotar a vida sedentária. É uma visão do passado que tende para a regressão e uma lembrança daquilo que temos vindo a perder pouco a pouco. Ele simboliza para nós a clivagem ao nosso passado primitivo e, assim, a defesa extrema da natureza selvagem; o fogo inicial que incita conflito individual e em grupo contra o que representa artificialidade e progresso.” [25]

Os Chichimecas são o símbolo da intransigência do RS ao ponto de morte contra uma força que está destruindo a natureza através da tecnologia e vida civilizada. Note-se também que o símbolo do RS, com a sua representação de um indígena vestido em pele de coiote acendendo um fogo, é tomada a partir de um códice que representa um guerreiro Chichimeca em Chicomoztok. Mesmo a própria idéia de tempo é concebida como sendo “muito civilizada” para o RS e seus aliados e, portanto, o objetivo é concebido em termos os quais apenas um “selvagem” adequado poderia compreendê-los:

“Nós não acreditamos na possibilidade de “revoluções anti-industriais”, nem nos movimentos futuristas que podem trazer (de acordo com aqueles pensadores) a queda deste sistema artificial. Na natureza selvagem, não existe “possivelmente”, nem “talvez”. Não há pontos intermediários, nem neutros. Só existe o concreto: é ou não é. A sobrevivência sempre foi assim, e obedecemos essas leis naturais. O presente é tudo o que há, aqui e agora. Tentar ver o futuro, ou trabalhar para realizar algo no futuro, é um desperdício de tempo. Esse tem sido o verdadeiro erro dos revolucionários.” [26]

Conclusão: o Orgão do Capitão Vancouver, Ou: como o Norte venceu?

Tendo percorrido a trajetória ideológica do ITS/RS, neste momento eu sinto a necessidade de fazer uma avaliação da recente “selvageria” do RS. O aspecto que mais precisa ser interrogado é “anti-hagiografia” que o RS faz dos Chichimecas. Embora seja claro que a guerra terminou com a dominação espanhola, não fica claro, pela narrativa ideológica do RS, como ela terminou. Era realmente um “lutar até a morte”? Foram todos os Chichimecas abatidos? E se não, por que eles finalmente se renderam? Ou, isso poderia mesmo ser chamado de “rendição”?

O que o RS e seus aliados parecem não se importar de falar é que, pelo menos de acordo com o livro inovador de Philip Wayne Powell sobre o assunto, o fim da Guerra Chichimeca foi relativamente pacífica e anti-clímax. Enquanto alguns guerreiros, de fato, “lutaram até a morte”, a grande maioria não o fez. Eles eram militarmente parelhos ou mesmo superiores aos seus adversários espanhóis, mesmo com a ajuda de indígenas “sedentários” aliados. Enquanto muitos Chichimecas foram levados cativos durante a fase da guerra que Powell denomina, “la guerra a fuego y a sangre” (a guerra à fogo e sangue, ou menos figurativamente, a guerra total), o impasse que se seguiu obrigou os espanhóis a adotar outra abordagem para acabar com as hostilidades. Em vez de utilizar um método de pacificação que incentivava a escravização dos índios como forma de pagamento aos soldados mercenários, a Coroa decidiu pegar os fundos para a guerra e usá-los para pagar a lealdade de vários líderes Chichimecas. Em tantas palavras, os espanhóis compraram os Chichimecas:

“A diplomacia de paz tornou-se um pouco menos difícil durante a última década do século [XVI], como as tribos Chichimecas perceberam que poderiam obter vantagens a partir dos tratados de paz e que eles não seriam prejudicados pelos espanhóis. Vez após vez, os próprios índios iniciaram negociações de paz, mostrando vontade real de abandonar a sua vida nômade e se estabelecer nas terras de nível.” [27]

Avançando apenas mais de dois séculos pode-se ver este processo replicado mais ao norte, desta vez na Califórnia colonial tardia. Enquanto este último exemplo se deu com ainda maior tragédia e violência devido a uma mortandade em massa de doença e violência dos colonos, no geral, a subjugação dos índios da Califórnia frente o sistema de missão foi um caso quase voluntário. Como comenta Randall Milliken em seu livro, A Time of Little Choice: The Disintegration of Tribal Culture in the San Francisco Bay Area 1769-1810:

“Os moradores da área da baía foram tentados por produtos materiais e tiveram suas práticas tradicionais denegridas pelos agentes da complexidade tecnológica e organizacional ocidental. As taxas de mortalidade elevadas e a ameaça contínua de violência militar esmagadora contra qualquer grupo que tentasse barrar os proselitistas missioneiros aumentou a pressão. É de se admirar que os povos tribais tenham chegado a duvidar do valor de sua cultura nativa, e começado a aceitar uma definição de si mesmos como ignorantes, não qualificados, e merecedores de uma vida de subordinação na nova estrutura social baseada em castas?” [28 ]

Em alguns casos, não foi necessário muito contato para convencer as tribos indígenas para subjugarem-se ao jugo cristão espanhol. Nos anais da missão de San Juan Bautista, na Califórnia, é contada uma história de um órgão que pertenceu ao capitão britânico George Vancouver:

“Em uma ocasião, esse órgão foi designado para salvar a missão da destruição nas mãos dos bélicos índios Tulare, que atacaram San Juan Bautista, assassinando neófitos e fugindo conduzindo os cavalos. Índios cristãos recuperaram os cavalos, e os Tulares, gritando gritos de guerra, apareceram novamente. Padre de la Cuesta arrastou o órgão apressadamente para fora e começou a acionar a manivela furiosamente. O clangor da música primeiramente deixou os agressores intrigados, e depois os encantou, então pacificamente se renderam à missão que eles tinham a intenção de destruir.” [29]

Dessa forma, o RS cometeu um erro raro, mas ainda assim grave, de considerar certos povos como “selvagens ignóbeis” completamente imunes ao comportamento e consideração “civilizados”. Este, claramente, não foi o caso do registro histórico. Enquanto os Chichimecas empreenderam duras batalhas na fronteira para defender seu modo de vida, uma vez que se tornou claro que o espanhol iria lhes dar presentes e não escravizá-los, em sua maior parte, eles se estabeleceram de bom grado ao lado de seus antigos inimigos indígenas sedentários e fizeram as pazes com a ordem colonial. Em última análise, os chichimecas e outros índios na fronteira não travaram uma guerra de morte contra a civilização. Com efeito, não se pode projetar um discurso anti-civilização da parte deles, porque eles não sabiam o que isso significava. Os povos indígenas não foram nem homogêneos nem aliados uns dos outros de alguma forma coesa. Eles não estavam unidos como uma força contra algo que viríamos chamar de “civilização”. Quando foi dada uma forma de se comprometer, pelo menos na questão da guerra Chichimeca e na Califórnia colonial, os nativos aceitaram o fim de seu modo de vida sem muita resistência.

O ato do ITS/RS de olhar para a sua própria história local buscando fundamentar sua luta em guerras anteriores contra a civilização travadas em solo mexicano é altamente admirável e renovador no contexto de conceitos de esquerda muitas vezes abstratos. No entanto, a sua atitude a respeito da necessidade de um “retorno à selvageria”, uma espécie de purificação da poluição da modernidade e da esquerda, é um enquadramento intelectual mal concebido. A única razão pela qual nós sabemos que a civilização é o mal é porque temos passado por isso e temos vindo a temer o atual Prometeica vontade de poder sobre a natureza. “Purificação” é, portanto, muito mais difícil do que o ITS/RS as vezes deixa transparecer.

No entanto, ainda que os nossos antepassados tenham falhado na luta contra o Leviatã civilizado, eu e outros acreditamos que essa luta deve continuar. A retórica semi-suicida do ITS/RS à respeito do enfrentamento contra a civilização tecno-industrial pode parecer exagerada às vezes, mas, dada a cooptação de todas as lutas anteriores e o verdadeiro beco sem saída que é o esquerdismo, é difícil argumentar contra a adequação de tal militância. Um animal selvagem pode fugir, mas quando encurralado, ele não senta e obedece; ele ataca; mesmo que as probabilidades estejam contra ele, mesmo que a morte seja certa. Um animal selvagem só pode ser morto pela civilização porque não serve a nenhum uso para ela. Aqueles animais que obedecem e encontram uma maneira de se acomodar à seus mestres são a história de sucesso da domesticação. Os animais que se escondem na auto-preservação são o que a civilização precisa. Esquemas e revoluções para “um futuro melhor” podem muito bem ser a armadilha na qual sempre caímos. Esta é a armadilha que leva à domesticação e conformidade, que é uma morte em vida que conduz rapidamente à morte real maciça em uma escala global.

Assim, pode-se criticar as táticas das ITS/RS, a sua falta de empatia para com as vítimas que se tornam “danos colaterais” em seus ataques, sua prosa histriônica, seu romantismo sádico, e assim por diante. Mas quando tudo tiver sido dito e feito, a lápide da Terra dirá que ela morreu por culpa de um modo de vida que procurou trazer paz e prosperidade à custa da escravidão de todas as coisas para os seus fins. Esse tipo de violência generalizada e despretensiosa faz ações como as do ITS/RS parecerem insignificantes, por comparação. Talvez, nesse sentido, nós também devemos evocar a “selvageria”, aquela vida interior ainda não conquistada, que proclama uma firme não-servidão a um sistema que oferece paz ao preço de nossa morte lenta. Talvez seja por isso que está escrito: “E desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam pela força” (Mateus 11:12).

Notas:

[1] First communiqué of Wild Reaction, 113, found at: https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/11/la-naturaleza-es-el-bien-la-civilizacic3b3n-es-el-mal.pdf. The title of the book containing the communiqués is: La Naturaleza es El Bien, La Civilización es el Mal: Comunicados de Individualidades tendiendo a lo salvaje. Edicions Matar o Morir: Mexico, 2014. All translations are the author’s unless otherwise noted.

[2] Second ITS communiqué, 20.

[3] See for example this link: https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/12/el-lugar-de-las-siete-cuevas.pdf

[4] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/palabras-nocivas-5.pdf

[5] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/rabia-y-accion-10.pdf

[6] First ITS communiqué, 11.

[7] First communiqué of Wild Reaction, August 2014.

[8] The title is taken from this link: https://eltlatol.wordpress.com/2015/01/12/eco-extremismo/

[9] In Spanish, as in most Romance languages, plural personal nouns where a mixed group of people of both genders are present are made masculine by default, no matter what the makeup of the group. Some radical groups of feminist sensitivities try to get around this by placing a gender neutral “x” instead of an “a” or “o” at the end of plural personal nouns to avoid this grammatical rule, e.g. “compañeros” (comrades) becomes “compañerxs”.

[10] Sixth ITS communiqué, 74.

[11] Technological Slavery, 106.

[12] Technological Slavery, 129.

[13] Second communiqué, 18.

[14] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/24/algunas-respuestas-sobre-el-presente-y-no-del-futuro-2/

[15] Ibid.

[16] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/24/algunas-respuestas-sobre-el-presente-y-no-del-futuro-2/

[17] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/10/regresion2.pdf

[18] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/regresic3b3n-1.pdf

[19] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/10/la-gran-chichimeca.pdf

[20] Ibid.

[21] Braniff, 7.

[22] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/18/artefacto-explosivo-detonado-en-fundacion-teleton-mexico/

[23] Powell, 51.

[24] https://eltlatol.wordpress.com/2015/02/27/ya-se-habian-tardado-reaccion-salvaje-en-respuesta-a-destruye-las-prisiones/

[25] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/12/el-lugar-de-las-siete-cuevas.pdf

[26] https://eltlatol.wordpress.com/2014/09/22/algunos-comentarios-criticos-al-articulo-de-john-zerzan-en-vice/

[27] Powell, 207.

[28] Milliken, 226-27.

[29] http://www.sandiegohistory.org/journal/63january/organ.htm

Bibliografia

Braniff, Beatriz, ed. La Gran Chichimeca: El lugar de las rocas secas. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 2001.

Individualidades Tendiendo a lo Salvaje (ITS). La Naturaleza es El Bien, La Civilización es el Mal: Comunicados de Individualidades tendiendo a lo salvaje. México: Ediciones Matar o Morir, 2014.

Kaczynski, Theodore. Technological Slavery: The Collected Writings of Theodore J. Kaczynski, a.k.a. “The Unabomber.” Port Townsend, WA: Feral House, 2010.

Milliken, Randall, A Time of Little Choice. Menlo Park, CA: Ballena Press, 1995.

Powell, Philip Wayne. Soldiers, Indians, & Silver: North America’s First Frontier War. Tempe: Center for Latin American Studies, 1975.