Sobre enfeites e amuletos

Respeitável texto de Anin Urasse.

Tudo na ancestralidade africana tem uma função. Nada é meramente um enfeite. Vou dar exemplos bem simples.

Um anel te protege do que você pega, por exemplo. E ajuda a regular seu ritmo cardíaco e, consequentemente, corporal (faz um exercício de jogar no google “veias da mão” e observe as ramificações das veias basílica e cefálica nos dedos. Tente refletir sobre como um metal circundando essa rede vascular cria um campo magnético ali).

Brincos filtram o que seus ouvidos ouvem e permitem que você ouça o que ninguém ouviu. Colares. Pulseiras. Umbigueiras. Enfeites de cabeça. Tornozeleiras. Até aquela “maquiagem” ao redor dos olhos no antigo Kemet tem uma função. (Aliás, só um adendo, as sacerdotisas de Osogbo são conhecidas por usar tornozeleiras e pintar os calcanhares de vermelho. Repito: não é só enfeite. Tudo tem um porquê.)

Não é a toa que cada objeto desse é, geralmente, CIRCULAR. Seus materiais são/eram detalhadamente escolhidos também. Cada pedra, cada metal, cada cor. Tudo isso confeccionado a partir de um processo iniciático regido por uma sacerdotisa. E é sempre uma mais velha a lhe conceder, ninguém se auto-abençoa. (Nosso aprendizado sempre foi iniciático, lembre-se.) Enfim, num contexto tradicional, todas essas coisas eram/são sacralizadas pra uso.

Atualmente, não funciona mais assim pra maioria das pessoas. Como o Ocidente é a sociedade do enfeite, todas essas coisas são compradas em lojas. Não há muito rigor na sua elaboração, e uma pessoa pode estar completamente arrasada espiritualmente confeccionando algo que você, depois, vai colocar no seu pescoço. O que se há de fazer? A babilônia é isso aí.

Mas eu tô escrevendo esse texto por um motivo. Algumas de nós, sentindo falta/necessidade de um uso tradicional desses “enfeites” (a ancestralidade chama, preta, não tem jeito) têm trocado alho por bugalho. Gente, sendo bem honesta, se você quiser um enfeite, compre. Mas se você quiser um amuleto (afinal é disso que estamos falando, né?) procure uma sacerdotisa. Não é qualquer pessoa que pode confeccionar. Nem tudo todo mundo pode usar. Não é a qualquer tempo, (nem em África, quem dirá aqui) e o uso de qualquer coisa também tem suas consequências.

Repito, aqui na babilônia enfeites são enfeites. E eles servem pra… enfeitar. Por mais que eu tenha a maior crença e boa fé de que aquilo vai funcionar, nossa ancestralidade se faz com ciência. Ademais, o que lhe garante que não será prejudicial? Procure uma sacerdotisa. Gente velha. Sério mesmo. (Sim, num contexto tradicional, teríamos um sacerdócio muito menos institucionalizado, mais acessível e espraiado. Mas o contexto atual não é esse e precisamos lidar com ele.)

Veja, eu não tô falando de nenhuma “religião” especificamente. Eu tô dizendo que quem não tem equilíbrio em sua própria vida não pode querer equilibrar os outros. Preste atenção. Formação sacerdotal demanda TEMPO. Não é um final de semana. Não é um curso. Uma vivência. E ninguém se forma sozinho. Ninguém se auto-abençoa. Demora! (Em Kemet eram 42 anos!) Dá trabalho. E é referendada em comunidade. Tomem cuidado a quem vocês estão entregando suas cabeças, corpo e ventre.

Enfeites são enfeites. Amuletos são outra coisa. Cuidado pra não confundir.