Minha Autoridade

Texto extraído da terceira edição da Revista Ajajema.

É um pouco difícil para mim começar a escrever algumas palavras, posto que os teóricos da tendência se lançaram no abismo das reflexões. Tanto que muitas vezes sinto que logo ficaremos sem mais nada para dizer. Muitas coisas já foram ditas, cada uma igualmente interessante. Reflexões muito letradas, especialmente a dos manos dos EUA. Às vezes invejo a capacidade reflexiva e intelectual dos compas. Ler cada palavra dos irmãos e irmãs de tantos lugares é uma alegria e um tremendo impulso anímico para o espírito. Cada uma de suas contribuições para a guerra, cada texto encorajando a Máfia, cada escrito resgatando as vidas dos povos primitivos, as reflexões enaltecendo o Oculto e o Desconhecido, e suas bocas lançando maldições pagãs em detrimento da civilização e a humanidade. Tudo isso é uma lufada de ar fresco para os individualistas que lhes custa tirar dentro de si as palavras, como é o meu caso.

Sabendo disso, atrevo-me a escrever algumas palavras sobre a autoridade da Natureza Selvagem, de suas indiscriminadas manifestações, de seus massacres contra a humanidade, do chamado que fizeram alguns compas para alegrarmo-nos com cada tragédia caótica da Terra sobre a civilização.

Os irmãos do grupo editorial da Revista Ajajema fizera-me o convite para eu somar com alguma contribuição para a sua terceira edição, e com prazer me animo e escrevo estas palavras soltas. Reflexões caóticas a quem interesse. Aí vou eu…

Comecemos com uma pergunta bastante básica, o que é autoridade? Ou, pelo menos, o que eu entendo por ela. A autoridade vem sendo uma figura (mística ou real) a qual você deve respeito e/ou obediência. A autoridade hoje em dia é vista como algo bastante ruim, repressiva, abusadora, tanto que há radicais que visam eliminá-la e, de certa forma eu encontro uma afinidade aí. Sem dúvida a autoridade civilizada é uma verdadeira merda, mas, ao contrário destes radicais, não me esforço para erradicá-la. Acredito que tudo dentro da vida civilizada é repugnante, então por que tenho que parar e me concentrar em apenas um aspecto dela? É uma pergunta muito boa. Eu não rechaço a autoridade humana como instinto, aquela ancestral que sempre esteve presente. Os compas escreveram bastante a respeito do termo autoridade “inócua” e “iníqua”.

A primeira coisa que tenho que dizer é que não tenho problemas com a “autoridade humana”, não tenho problemas com alguém que me diga o que eu tenha que fazer. Não sou um “anti-autoritário”, porque ao contrário deles, eu acredito na autoridade, creio ser capaz de dar ou receber uma ordem, e aqui não vejo nenhuma relação de submissão. Obviamente, aqui me refiro claramente àquela autoridade inócua que pode exercer, por exemplo, um compa quando estamos em uma ação, quando ele é o encarregado a me dar a ordem para que eu possa me aproximar do alvo para atacar, ou quando este mesmo cúmplice tem que me chamar a atenção quando estou cometendo um erro que pode colocar em risco o plano, ou quando eu devo ser o encarregado de decidir quais serão as rotas de fuga e então guiar os outros, e mais um monte de exemplos do exercício da autoridade. Eu poderia dizer da mesma forma que, em alguns casos, a “autoridade biológica” (os irmãos, os pais, os avós, etc.) podem ser também um exemplo de autoridade inócua. E mesmo sabendo o quão desgraçados podem ser os familiares biológicos em algumas ocasiões, ninguém pode negar o quão vital e necessária é a autoridade, por exemplo, de uma mãe a seus filhos pequenos.

Nem preciso falar sobre isso, que “sinto certo rechaço” pela autoridade humana civilizada, e aqui me refiro a todos estes seres que em sua maioria estão por trás de um uniforme dentro das grandes cidades. E quando digo que “sinto certo rechaço”, quero dizer que realmente não tenho um sério conflito com ela. Entendo e sou consciente de que as cidades e a civilização enquanto existam estão e estarão controladas pela autoridade, não há dúvidas quanto a isso, então, estar em “guerra contra a autoridade” pelo menos eu não vejo como algo para concentrar minhas energias e minha vingança.

Bem, isso é o que posso dizer sobre o que penso da “autoridade real”. Acredito que seja necessário dizer algo da autoridade ancestral e onipotente que é a Natureza Selvagem, daquela “autoridade mística” representada por todo o desconhecido da Terra, aquela que se manifesta com a chuva e o raio, com os tsunamis e as erupções, nas luzes do céu escuro após um terremoto e no som dos rios, evitando os séculos de intelectualidade e raciocínio científico do porque que as coisas acontecem, e jogando fora todo o lixo da teoria humanoide que se atreve a explicar o inexplicável. Para todos estes eu digo: humanos modernos híper-civilizados, me deixem com minha essência primitiva, essa que tinham os antigos humanos que sim sabiam de algo.

Eu digo isso com o maior orgulho, a Natureza Selvagem é minha autoridade, e por quê? Porque ela está acima de Mim, acima de tudo e todos, ela é quem me rege, a ela devo obediência e respeito, ponto. Seus ciclos naturais são os que me ditam as normas que devo seguir. Assim como a porra do motorista de um carro segue as leis do trânsito, eu sigo as leis a Terra. As nuvens negras me indicam chuva, a chuva me indica refúgio, e logo me sugere para me preparar para o frio posterior. Os rios tem a força ancestral e eterna da Terra, eu me aproximo deles quando estou perdido, sei que me guiarão em meu caminho. Os demais animais são capazes de seguir as leis da Terra, sabem onde e quando dormir, onde e quando acordar, onde e quando se esconder, onde e quando se alimentar ou procriar.

A espécie humana perdeu todo o contato com a maravilha da Terra. Ela se tornou incapaz de combater um resfriado, agora curam-no abruptamente com químicos nocivos. Como alguns irmãos disseram, “quem não tem dinheiro fica gripado”, pura verdade!

Muito tem sido dito sobre os desastres naturais, eles inclusive são festejados por alguns compas que fizeram um chamado para se alegrar com a desgraça humana, chamado ao qual, sem dúvida, me somo. Eu li que algumas pessoas por aí são contra a comemoração de desgraças como estas, já que em alguns casos as vítimas são pessoas extremamente pobres, elas ficam indignadas por nos alegrarmos com os mortos, especialmente quando são crianças, nos chamam de monstros perversos por essa e outras coisas mais.

O que me ocorre com estas posturas classistas é um tremendo asco, isto é, se o furacão destrói um bairro burguês cheio de milionários e mata a todos, que bonito! Mas se a chuva inunda algum povoado de algum país asiático bastante pobre, que pena. Como se as manifestações da Terra se importassem quão rica ou pobre uma pessoa é. Ou celebramos o Caos sem nenhum problema e sem a mínima culpa ou calamos a nossa boca de merda. Esses aí que andam se alegrando quando morrem policiais ou os filhos dos ricos empresários e que entram em choque quando nós nos regozijamos com a morte humana indiscriminada são uns hipócritas moralistas.

Devo o respeito e a obediência a todas as belezas e a violência da Terra, a cada um de seus ciclos primordiais. À garoa de manhãzinha em pleno verão que encharca os campos e montanhas. Aos insetos que se escondem embaixo da terra no inverno, e que saem em massa para estocar alimento no verão. Às chuvas de inverno que inundam toda a cidade, a que torpemente amaldiçoa o humano híper-civilizado. Ao verão infernal que esquenta a terra e propaga incêndios ferozes. Ao canto dos grilos e o voo do pássaro. Ao grito da raposa. Ao por do sol que nos mostra a maravilha do céu. À lua cheia que aparece quando tudo está escuro e que brilha como o dia. À precaução e o sigilo dos coelhos que esperam que as montanhas cubram a lua antes de saírem para comer. Ao medo que senti quando dormi em meio ao selvagem e que me paralisava ao escutar o som de algum animal, às pisadas de algum ser entre as árvores que fazem com que meu ser se angustie, à este maravilhoso pavor que só algumas pessoas experimentaram. Às profundidades dos oceanos. Aos abismos infinitos das montanhas. À cordilheira que mantém o gelo para sempre. À erva e as flores que persistem em pleno deserto. Às mariposas, borboletas e vespas que aparecem em meu caminho.

Eu rezo a todo o oculto e desconhecido da Terra, me curvo e me entrego. Decidi confiar-me aos espíritos dos antigos sempre que deixo o meu refúgio, lhes agradeço por terem cuidado de mim em minhas andanças terroristas até meu retorno. Eu toquei as terras com meus pés e mãos em um ato de conexão suprema com a Terra e toda a beleza dela. Me olharam com desgosto por falar com as plantas e saudar os animais de rua. Porque sempre peço permissão à árvore quando vou arrancar alguma de suas folhas, peço permissão e agradeço. Tudo isso faz parte de meus processos individuais e únicos que não se encontram regidos por nenhuma ideologia, é uma conduta caótica e selvagem que adora e enaltece o Selvagem e o esquecido pelo ser humano moderno híper-civilizado.

Pela autoridade da Terra sobre Meu ser!

Amém…

Espírito Tanu