Lamento pelos índios da Terra do Fogo

Texto traduzido da parte final do livro El Fin de un Mundo: Los Selknam de Tierra del Fuego, escrito por Anne Chapman, etnologista franco-americana que registrou as narrações de Lola Kiepja, última xamã selk’nam, e outros descendentes.

“Para onde foram as mulheres que cantavam como os ‘canários’ ”? Havia muitas mulheres. Para onde elas foram?” – Lola Kiepja, 1966

Como falar em poucas palavras de povos poderosos?

Como falar dos Selk’nam, os Aush, os Yaganes, os Alakalufes?

Foram povos poderosos porque não apenas chegaram, mas permaneceram nas terras mais inóspitas do mundo.

Isso foi conseguido graças à sua coragem de arrancar sustento dos mares turbulentos, dos bosques nevados, dos pampas atingidos por ventos gelados.

Mulheres canoeiras, yaganes e alacalufes, desafiavam ondas que vinham da Antártica, remando suas canoas em direção a baleias, enquanto seus homens, de pé na proa, com apenas uma lança em mãos, lutavam para vará-las.

Homens caçadores, selk’nam e aush, apenas com arcos e flechas, perseguiam os guanacos sob a neve e a tempestade, enquanto suas mulheres, com pesadas cargas, corriam para montar um acampamento e fazer uma fogueira no local.

Atiraram suas vidas em guerrilhas e vinganças. Eram corajosos, inimigos difíceis e tenazes.

Mas também se amaram e amaram a suas ilhas, cordilheiras cujos cumes não se afundam nos mares glaciais.

Amaram seus bloques, onde pássaros coloridos faziam os seus ninhos.

Amaram o céu e seus deuses transformados em estrelas, em ventos e mares.

E cantaram. Cantaram esperando curar a seus doentes ou soluços de quando partiram.

Cantaram esperando ir Mais Adiante.

Cantaram à Lua em seu esplendor, ao Sor que nascia, às crianças adormecidas.

Cantaram em seus ritos, solenemente ou entre risos.

Foram. Não há mais do que alguns, cujos pais ou avós foram aqueles que “se foram”.

No final do século XIX da era cristã, homens estranhos desembarcaram em suas ilhas; armados com balas, venenos, desejo de riqueza.

Se apropriaram da terra que depois “limparam” para explorá-las sem amá-las.

Depois se gabaram pagando de pioneiros, civilizadores, servos sacrificados, arquitetos do futuro, de construtores de nações. Os índios se defenderam como puderam, apenas com arcos e flechas. Famílias inteiras fugiram de homens a cavalo, armados, pagos para matá-las, de cachorros treinados para despedaçá-las.

Os índios resistiram como puderam, com angústia, de maneira confusa, com vontade de sobreviver. Mas caíram crivados de balas. As orelhas, às vazes a cabeça, eram arrancadas. Foram desterrados. Pareciam perdidos. Agonizaram com as doenças trazidas e sofreram dores indescritíveis ao ver que seus filhos também sucumbiam.

Aqueles homens estranhos os caluniaram mais tarde.

Disseram, publicaram, que os índios atacaram primeiro, que os índios roubaram suas ovelhas, que os índios matavam gados (gados com o suor de suas armas legitimamente comprados).

Explicaram que os índios se matavam entre si porque eram assim, selvagens indomáveis, inadaptáveis à vida civilizada.

Esclareceram, claro, que os índios não era muitos; que os missionários cuidaram deles, que a história não pode ser parada.

Alguns tentaram salvá-los, mas falharam.

Abaixe a cortina. Em frente à cena são erguidos monumentos ao aborígene. Os nomes indígenas são dados a estâncias, bairros e ruas, a hotéis, clubes e praias.

Bandeiras e estátuas são feitas para vender ao turista uma lembrança do nativo fueguino.

E é comentado “que pena, nosso índio fueguino não nos deixou folclore”.

Mas sim, ele nos deixou o eco de seu canto, lamento por um povo que abatemos e contagiamos, choro por um povo que exterminamos.