Greta Thunberg: a favorita dos bilionários

Tradução do texto Greta Thunberg: the billionaires’ favourite, publicado em Winter Oak Press.

“Uau, isso é incrível!”, tuitou Greta Thunberg em resposta à notícia de que havia sido nomeada Pessoa do Ano pela revista Time em 2019.

Só que não era bem isso, já que o dono da Time é um dos empresários ricos que ajudaram e incitaram sua ascensão meteórica à fama.

O que é realmente incrível é que ainda exista gente por aí que não entendeu que a marca Greta (ao invés da própria pessoa) foi cuidadosamente fabricada e explorada para promover um grupo particular de interesses financeiros pré-fabricados. Alguns crentes obstinados nem sequer se deixaram levar pela recente revelação de que seus primeiros protestos foram filmados por uma equipe de documentários que, de alguma forma, percebeu antecipadamente que essa adolescente em particular chegaria à fama mundial em breve.

Mas voltemos à revista Time por um momento. Previsível, o artigo que anunciava o prêmio de Greta se dizia maravilhado com a “pequena voz” e a “indignação penetrante” do “ícone de uma nova geração” que se tornara “a voz de milhões, um símbolo de uma crescente rebelião global”.

Outro dia, outra sessão de fotos.

A revista acrescentou: “Ela conseguiu criar uma mudança global de atitude, transformando milhões de ansiosos vagos no meio da noite em um movimento que exige mudanças urgentes”.

Mas, que tipo de mudança exatamente?

Uma pista apareceu no início de 2019, quando Greta se presentava, junto a Jane Goodall (acima), diante de um estande que promovia a “Quarta Revolução Industrial”.

O termo “Quarta Revolução Industrial” foi utilizado pela primeira vez por Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial, e ex-membro do comitê de direção do Grupo Bilderberg.

Schwab escreveu em um artigo chave em 2015: “Estamos à beira de uma revolução tecnológica que alterará fundamentalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos interagimos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de tudo o que a humanidade já experimentou antes”.

A Quarta Revolução Industrial, explicou, estaria “caracterizada por uma fusão de tecnologias que está apagando as linhas entre as esferas físicas, digital e biológica”.

Schwab continuou: “As possibilidades de bilhões de pessoas conectadas por dispositivos móveis, com poder de processamento, capacidade de armazenamento e acesso ao conhecimento sem precedentes, são limitadas. E essas possibilidades serão multiplicadas pelos avanços tecnológicos emergentes em áreas como inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos materiais, armazenamento de energia e computação quântica”.

Não é exatamente uma visão do futuro amigável com a natureza!

Outro grande admirador da Quarta Revolução Industrial é Marc Benioff (acima), bilionário americano do Vale do Silício, cujo papel no capitalismo climático foi exposto pelo jornalista investigativo Cory Morningstar.

Benioff faz parte do Conselho de Administração do Fórum Econômico Mundial (sob comando de Schwab) e preside o Centro WEF para a Quarta Revolução Industrial em São Francisco.

Ele ficou empolgado em 2018: “Todos devem se unir para a quarta revolução industrial no capitalismo inclusivo. Os negócios são agora uma plataforma para mudanças”.

A empresa Salesforce de Benioff, gigante da computação em nuvem é, no mínimo, controversa.

Em março de 2019, ele foi processado por 50 mulheres que alegaram ter facilitado o tráfico sexual, das quais eram vítimas. Também foi fortemente criticado e boicotado por ativistas por “ganhar milhões de dólares com o sofrimento de imigrantes detidos na fronteira sul dos Estados Unidos”.

Mas, apesar de Benioff estar contente com o fato de suas tecnologias da “Quarta Revolução Industrial” serem usadas para construir um tenebroso estado policial racista-capitalista, ele gosta de pagar de “filantropo”, um cara bom, um homem que se importa.

Uma das coisas com as quais ele diz que se importa é o meio ambiente. Em uma conversa com Schwab no Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro de 2019, Benioff disse que a Quarta Revolução Industrial havia “introduzido tecnologias que podem ajudar a salvar o planeta”.

Benioff é, como muitos bilionários, um grande admirador de Greta Thunberg e deve ter ficado encantado ao vê-la posar diante do logotipo de sua empresa e do slogam da “Quarta Revolução Industrial”.

E claro, ele também é dono da revista Time.

“Uau, incrível”, como diria Greta.

Marc Benioff (esquerda) com Greta Thunberg na cúpula do Fórum Econômico Mundial em Davos em Janeiro de 2019. À direita está a sinistra Christiana Figueres.