Fogo Contra Fogo: anarquistas contra eco-extremistas

Tradução de um curto, mas interessante artigo escrito por Eduardo Ortega e Fernanda Robles para o jornal chileno La Tercera, após o ataque de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) na avenida Vicuña Mackena em Santiago do Chile. No texto os autores acertam em um ponto bastante ignorado pela mídia e autoridades, a diferença entre a tendência eco-extremista e a filosofia política anarquista. Em muitas ocasiões ambos os movimentos são assimilados por leitores equivocados, mas cada um busca objetivos díspares e já chegaram a declarar guerra entre sí.

04 de JANEIRO de 2019/SANTIAGO, a Labocar realiza perícias na esquina Vicuña Mackena com Francisco Bilbao, após a detonação de um artefato explosivo em um ponto de ônibus da Transantiago. HANS SCOTT /AGENCIAUNO

Relacionados por suas ações diretas, muitas vezes nem sequer são distinguidos. Mas há diferenças, e nos últimos anos, entre eles mesmos se empenharam em deixá-las em evidência: apesar da origem comum, seus objetivos são díspares. Os anarquistas radicais, contra o sistema; os eco-extremistas, contra o progresso humano. Duas correntes que já declararam guerra entre si.

O primeiro aceno veio em uma noite de novembro de 2016, através de uma carta, diretamente do 25º módulo da prisão Santiago Um. Kevin Garrido, o mesmo que um ano antes explodiu uma bomba nas imediações da Escola de Gendarmería, em San Bernardo, oferecia uma crônica de seus dias atrás das grades: uma história de facas, repressão e assassinatos entre os presos. Mas isso parecia não lhe importar no relato. Pelo contrário, dizia que era um prisioneiro de guerra, que estava preparado, que não se arrependia de suas ações, que havia ganhado respeito, que a prisão não era para sempre. Além disso, talvez o mais importante para esta reportagem, que o tacharam falsamente de anarquista: no final, saudava calorosamente a distintas “células terroristas”, entre elas Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

Garrido, de 21 anos, morreu no último 2 de novembro: Lucas Bravo, outro preso, perfurou duas vezes seu tórax com uma faca artesanal que chegava a um metro de comprimento.

Como se tratava de um dos acontecimentos que tendem a ser comentados, cinco dias mais tarte, em 7 de novembro, em um blog que serve como um improvável veículo oficial –Maldición Eco-extremista– emitiu uma declaração dedicada à sua memória: “Para Kevin“, foi intitulada. Seria o primeiro de muitos posts, onde reivindicavam a figura de Garrido e o posicionavam como uma espécie de mártir. O consideram um guerreiro.

Mas a morte do jovem também acendeu os alarmes em outro extremo: grupos anarquistas. Rápidos, optaram por se distanciar da morte. Utilizando a mesma fórmula, os blogs, estavam determinados a demonstrar que Kevin não era um dos seus, que era um eco-extremista. Ou seja: um inimigo.

Um Melodrama Anarquista

Começaram como todos costumam começar: ansiosos, inexperientes, certamente animados, com a convicção de poder mudar a ordem estabelecida. Colheita dos anos 90, escutavam La Polla Records e Los Miserables e se politizaram ao som de Los Fiskales Ad-Hok. Nas mesmas marchas, todos de preto e com bandeiras negras, nos mesmos “okupas”. Alguns até tocaram nas mesmas bandas. Mas o tempo os separou: suas ideias os separaram. Alguns voltaram a suas casas, decepcionados. Outro punhado optou por seguir a luta através da via institucional.

Mas houve uma fração que optou por radicalizar o discurso. Se fizeram chamar, desde 2011, eco-extremistas.

Operando principalmente a partir da deep web, se comunicam através de blogs e se autodefinem Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). Sua luta: a tentativa de uma guerrilha urbana que -do anonimato- busca reivindicar e lutar contra tudo o que atente e domestique a natureza selvagem. Uma luta que se opõe ao progresso humano e tecnológico. Não fazem distinções: para eles, “qualquer humano civilizado merece estar morto”.

—Originalmente, pertenciam a uma linha anarquista insurrecionista. Mas hoje é mais uma corrente niilista que não tem uma lógica política e que concentra seus interesses em um ecologismo radical—explica um investigador especialista no assunto, que prefere ocultar sua identidade diante de possíveis represálias.

O conceito de grupo, esclarece, tampouco serve para definir aqueles que se identificam como ITS: têm o caráter de uma célula que poderia estar constituída por uma só pessoa. Talvez dois ou três indivíduos e, certamente, cada grupo nem sequer se conhece fisicamente.

—Quando a gente pensa em anarquismo, a primeira imagem que vem na cabeça é a dos “okupas” ou ataques com explosivos—reconhece um ex-membro de uma organização anarquista—. Com eles parece ser a mesma coisa, mas há pontos de inflexão que marcam diferenças entre ambas correntes.

Sergio Grez, historiador e autor do livro Los Anarquistas y el Movimiento Obrero (LOM, 2007), explica, neste sentido, que “o anarquismo têm princípios doutrinários claramente definidos: uma sociedade igualitária, sem classes sociais, sem divisão social do trabalho e, acima de tudo, sem Estado. Identificá-los com qualquer forma de violência política é um erro conceitual”.

Os atos de vandalismo, no entanto, parece ser o ponto comum que une as duas correntes. Embora seus objetivos sejam distintos: enquanto os anarquistas insurrecionais apontam para objetos simbólicos, como bancos ou imóveis, gerando danos materiais -considerando também os danos colaterais que podem implicar-, os eco-extremistas planejam ataques indiscriminados contra a “sociedade-rebanho” e o “humano-praga”, como definem.

Os próprios Individualistas Tendendo ao Selvagem do Chile, em seu primeiro comunicado, de fevereiro de 2016, evidenciam o distanciamento: “Já faz um tempo que jogamos no lixo a bíblia do anarquismo e sua igreja, especificamente o slogan de “sem Deus, nem mestres” ou “contra todo Deus”.

A resposta anarquista veio principalmente do exterior. Nos Estados Unidos, conseguiram o que muitos serviços de Inteligência não lograram: detectar alguns dos indivíduos por trás dos eco-extremistas, ou “eco-facistas”, como eles mesmos os apelidam, e difundiram seus dados na internet.

—No Chile, as críticas são duríssimas: os anarquistas os consideram uns imbecis — afirma o investigador.

Ameaças Invisíveis

Foi em 13 de janeiro de 2017, mas dois anos depois o pacote que explodiu nas mãos de Óscar Landerretche segue sendo o maior “orgulho” da curta história de ITS-Chile. Apesar das reivindicações por dezenas de atentados de diversas proporções entre outubro de 2015 e março de 2016, perpetrados pela Célula Karr-Kai, o ataque ao ex-presidente da diretoria da Codelco os colocou em uma discussão.

Regresión, revista que estreou em 2014, se encarregou de compilar e difundir os atentados dos eco-extremistas à nível mundial: na seção “Cronologia Maldita” detalham os ataques, com imagens dos artefatos e de suas consequências. Ali reúnem vários atentados no Chile, como o incêndio ocorrido em 24 de maio de 2016, na praça de alimentação do Mall Vivo, em Santiago.

Sua ação mais recente foi em 4 de janeiro de 2019, quando depositaram um artefato explosivo em um ponto de ônibus da Transantiago, na esquina Francisco Bilbao com Vicuña Mackenna: quatro pessoas ficaram feridas, sem risco de vida: “Nosso envelope-bomba estava composto por um niple de aço artesanal. Lembram deste niple? Foi o mesmo com o qual arrebentamos os dedos do mineiro em 2017. Desta vez, estava cheio com 100 gramas de pólvora negra cuja a ativação era gerada após puxar o explosivo encaixado e uma base.”, explicaram, posteriormente, em um comunicado acompanhado com a imagem de seu “presente”.

Também, através de seu blog, Maldición Eco-extremista, advertem sobre novos ataques: “Nós já estamos longe, ocultos e nos preparando para o próximo ataque, temos mais recipientes e mais vontade. Nossos pequenos artefatos causaram um enorme terror e tiveram uma grande repercussão mediática”. Asseguram, orgulhosos, que com pouco se pode fazer muito: você só precisa do desejo do desastre.

Seus próximos objetivos, aparentemente, estão ligados a Universidades, replicando o modelo mexicano que reivindicou numerosos atentados contra acadêmicos da UNAM desde 2011: “Nosso niple de aço contra a Universidade Católica Silva Henriquez em abril do ano passado e nossa garrafa térmica com lâminas abandonada em um ponto de ônibus em frente a Faculdade de Agronomia em setembro foram o preâmbulo do desastre”, lê-se no comunicado. Na quinta-feira 10 de janeiro, o GOPE desativou uma bomba de características similares a da última do atentado eco-extremista nas imediações da Universidade do Pacífico de Melipilla. O grupo ainda não se pronunciou.

Os anarquistas, entretanto, são acusados de serem os resposáveis pelo Caso Bombas I, que começou a tomar forma com uma série de ataques com artefatos incendiários em 2009. Mauricio Morales, em maio daquele ano, morreu após a explosão de um artefato que pretendia instalar na Escola de Gendarmería. Em 2011, Luciano Pitronello, outro anarquista, esteve próximo de ter o mesmo destino: sobreviveu, mas sofreu ferimentos graves. Em 2014, no chamado Caso Bombas II, foi condenado Juan Flores a 23 anos de prisão, pela detonação de uma bomba na Estação de Metrô da Escola Militar.

Estes ataques parecem ter se tornando uma verdadeira ameaça para o Ministério Público e a polícia: o Caso Bombas I foi considerado um fracasso e as condenações, nos últimos anos, foram apenas cinco: Luciano Pitronello (2012), Hans Niemeyer (2013), Carla Verdugo e Iván Silva (2013), Juan Flores (2018), Joaquín García e Kevin Garrido (2018).

Da Promotoria advertem que os eco-extremista podem chegar a ser ainda mais perigosos. São reconhecidos como grupos pequenos, de não mais que três pessoas, com motivações distintas a dos anarquistas, que estudam minunciosamente os lugares onde instalarão seus explosivos artesanais. As dificuldades para encontrá-los apontam principalmente a sua estrutura difusa: como não reivindicam uma ideologia política tradicional, é mais difícil rastreá-los. Também acrescenta o fato de que dispensam a comunicação formal: não utilizam telefones e se destacam pelo grande conhecimento de segurança informática. Após uma semana desde o último ataque ainda não há suspeitos. A investigação, segundo a Procuradoria, ainda se encontra na etapa de coleta de dados, esperando por informações, revisando câmeras.

Um ex-membro de um movimento que se define como anarco-sindicalista, no entanto, prefere não lhes dar tal importância:

—São uns cuzões que levantam suas cabeças uma vez por ano para dizer que existem. Não são a Al Qaeda ou a Frente Patriótica.