Artigo Sobre Violência Descolonializadora e Eco-extremismo Para a Conferência da ASN em 2018

Interessante texto de autoria de Julian Langer, do blog Eco-revolt, que fala sobre moralidade e territorialização política moralizadora, especialmente pelos esquerdistas (incluindo os anarquistas).

Este texto de Langer foi publicado em seu blog e rapidamente apagado devido às reações que provocou, já que o que ele mesmo discute em seu ensaio graciosamente ocorreu com ele próprio, foi instantaneamente atacado pelas freiras da igreja da anarquia. A sua versão íntegra foi publicada pelo grupo eco-extremista brasileiro Sociedade Secreta Silvestre, que afirmou possuir a versão original do texto e o divulgou no comunicado 63 do grupo ITS. Tal comunicado tem haver com uma briga que se iniciou com o IGD (It’s Going Down), mencionado no texto de Langer, e se estendeu envolvendo outros personagens, como os “anarcaguetas” do 325 a quem o grupo brasileiro direcionou o comunicado. Talvez a maior resposta por parte dos eco-extremistas a todo este pleito foi o texto Against the World-Builders: Eco-extremists respond to critics. Também há outra resposta mais curta chamada Tendências Cristãs Pseudo-humanistas.

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Em 13 de setembro, apresentei este artigo na conferência da Rede de Estudos Anarquistas, na Universidade de Loughborough. Isso foi escrito para ser falado e não foi editado para que sua leitura fosse simplificada.

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O teórico político pessimista Jacques Camatte, cujos escritos após seus anos como teórico marxista influenciaram o discurso ana
rquista de sua época —em particular a ala anarco-primitivista— declarou em seu trabalho Contra a Domesticação que; “Há outros que acreditam que podem combater a violência propondo remédios contra a agressividade e coisas do tipo. Todas essas pessoas geralmente concordam com a preposição de que cada problema pressupõe sua própria solução científica específica. São, portanto, essencialmente passivos, pois consideram que o ser humano é um simples objeto a ser manipulado. Eles, por sua vez, são completamente desprovidos do que é necessário para se criar relações interpessoais (algo que eles têm em comum com os adversários da ciência); eles são incapazes de ver que uma solução científica é uma solução capitalista, porque elimina os humanos e coloca a perspectiva de uma sociedade totalmente controlada”.

Parece mais do que óbvio que vivemos entre grandes quantidades de violência e que a violência e a necessidade de acabar com ela é o assunto dominante dentro da narrativa em que nos encontramos. A violência da cultura do estupro; a violência da opressão racial e colonial; a violência do ISIS, os islamitas e as forças internacionais contra eles; a violência da Rússia, Coreia do Norte e Estados Unidos; a violência dos tiroteios nas escolas da América; a violência dos apunhalamentos em massa pelas gangues em Londres; de bombas, carros, armas, facas e pênis. Muitos atos de violência são pouco comentados; a violência das armadilhas para animais; a violência das motosserras; a violência da desocupação de uma área para reutilizá-la para construções ou plantações de monocultivos industriais para alimentar uma população em crescimento.

No discurso radical, particularmente no da tradição anarquista, geralmente temos um tipo de relacionamento distorcido com a violência. Meu desejo aqui é identificar um tópico em nossas discussões que muitas vezes é negligenciado —esse tópico tem a ver com a interiorização e exteriorização —, sob o olhar do grande Outro. Neste assunto, me concentrarei no discurso contemporâneo sobre as atividades descoloniais, anticoloniais e eco-extremistas. Isso também envolverá, na parte final deste artigo, uma declaração ontológica sobre o que a violência realmente é.

No ano passado, a organização anticolonial chilena Luta do Território Rebelde (Weichan Auka Mapu), em uma única ação, incendiou 29 veículos usados em atividades de extração de madeira. Entre janeiro e maio de 2016, o grupo cometeu 30 atos semelhantes de danos à propriedade, em defesa do território em que vivem, das florestas e a vida selvagem. Da mesma forma, o MEND, Movimento Para a Emancipação do Delta do Níger, uma organização combativa armada composta por células independentes envolvidas em uma guerra de guerrilhas contra as empresas de petróleo, explodiram oleodutos, atacaram campos de petróleo e sequestraram petroleiros como parte de suas atividades anticoloniais.

Como porta-vozes dos âmbitos de ambientalistas radicais e anticoloniais de fala inglesa, grupos como Earth First! e Deep Green Resistance lançaram seus apoios a esses grupos e a outros como eles, buscando legitimá-los, dentro do contexto do discurso radical. Isso envolve experimentar o processo que Deleuze e Guattari denominaram territorialização, no qual um processo de interiorização associa esses grupos à estrutura de um mecanismo particular. Isso leva esses grupos a um lugar de aceitação moral, dentro do marco moral com orientações de esquerda. A partir disso, essas ações, as atividades desses grupos, e outros similares, passam a fazer parte da narrativa da política radical de esquerda, referente ao processo de civilização e história. Eles se convertem em personagens nos capítulos que precedem a “revolução” e, semelhante ao descrito por Camatte na citação que mencionei anteriormente, são vistos como objetos passivos a serem cientificamente manipulados. Como personagens do meta-drama em que residem, eles recebem uma identidade que funciona plenamente como um significante simbólico para um Outro, que se posiciona como o superego paterno, legitimando suas lutas, como Deus ao determinar quem vai para o céu, ou melhor, quem não será jogado no gulag, mesmo o anarquista, depois da revolução —interiorizada— e quem será jogado no inferno, ou no gulag, novamente, até o gulag construído por anarquistas — exteriorizado.

Esse também é o caso em lutas descoloniais que não estão necessariamente ligadas a lutas eco-radicais, como a luta palestina contra as violências de Israel, na qual manifestantes desarmados são pintados como “inocentes” pelas organizações pacifistas de esquerda que usam a luta destes indivíduos como uma plataforma própria, com a implicação de que palestinos armados, como o Hamas, são alvos legítimos da violência colonial estatista.

Enquanto os líderes das organizações, que podem ser educados nas filosofias ocidentais do marxismo, anarquistas etc., podem abraçar essa trajetória ideológica, acho que, na verdade, fora dessa interiorização, aqueles indivíduos que estão ativamente engajados nas ações desses organizações e similares; eles não se importam com progresso, história, capitalismo ou nada disso. Eles se preocupam com as florestas, terras, vida selvagem, rios e mundo em que estão imersos e vivem como Extensões.

Essas funções de enquadramento mecânico, da maneira que Heidegger descreve em relação à tecnologia e enquadramento, onde, como objetos, símbolos e personagens de uma descrição tecnológica, se encaixam no modo da existência humana previamente descrita, aquela da narrativa ideológica de esquerda, desumanizada, inanimada e não animal.

E agora quero avançar para algo que poderia parecer de muitas maneiras como totalmente o oposto, mas argumento que se enraíza na mesma narrativa que descrevi aqui. De qualquer forma, para isso, vou me dedicar um pouco à história. Pode-se dizer que a campanha de ataques de Kaczynski, que durou 17 anos, foi a de maior sucesso do seu tipo. Como Unabomber, Kaczynski enviou 16 bombas a vários locais nos Estados Unidos. Foi somente após a publicação de seu manifesto, A Sociedade Industrial e Seu Futuro, que suas motivações foram esclarecidas e ele foi capturado. O trabalho é uma crítica brilhantemente articulada sobre a sociedade industrial, que inclui uma crítica ao esquerdismo, que não irei me aprofundar aqui, uma vez que não é tão necessário e isso ocuparia muito espaço. Menciono apenas por sua relevância e pelo que estou prestes a desenvolver.

A influência de Kaczynski, com relação ao espaço anticolonial, é particularmente notável em relação ao movimento pós-anarquista niilista-terrorista chamado Eco-extremismo. Surgido das profundezas das discussões niilistas-anarquistas e anticiv, e quase inteiramente situado na América do Sul e Centro, composto por indivíduos indígenas e anticivilização, com apenas algumas células na Europa, esse movimento tem buscado ativamente se exteriorizar da maquinaria e da narrativa esquerdista.

Em suas atividades anti-progressitas e anti-melioristas, o grupo que é o defensor mais conhecido do Eco-extremismo, Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), centrou suas atividades, assim como Kaczynski, em plantar bombas em instituições universitárias, como laboratários nano-tecnológicos; antes de avançar com seus famosos, devido ao rechaço à moralidade, assassinatos indiscriminados, em nome da Natureza Selvagem.

Caso você não esteja familiarizado com o grupo, gostaria de resgatar aqui algumas citações de seus primeiros comunicados:

1. “A civilização entrará em colapso e um novo mundo nascerá devido aos esforços dxs guerreirxs anticivilização? Ah, por favor! Sejamos realistas, plantemos os pés no chão e deixemos de voar dentro da mente delirante e esquerdista. A revolução nunca existiu e, portanto, tampouco xs revolucionárixs. Aquelxs que se vêem como “potencialmente revolucionárixs” e que buscam uma “mudança radical anti-tecnológica”, estão sendo verdadeiramente idealistas e irracionais, porque tudo isso não existe. Neste mundo moribundo existe apenas a Autonomia do Indivíduo, e é por ela que lutamos.”

2. “Um mundo sem domesticação, com um sistema derrotado através do trabalho dxs “revolucionárixs”, com a Natureza Selvagem nascendo das cinzas do antigo regime tecnológico e a espécie humana (o que restaria) de volta à natureza, é completamente ilusório e sonhador.”

3. “Its mostra a sua verdadeira face, vamos ao ponto central, a feroz defesa da Natureza Selvagem (inclusive humana) não se negocia, é executada com os materiais necessários, sem compaixão e assumindo a responsabilidade pelo ato. Nossos instintos nos marcam, porque (como dissemos anteriormente) somos a favor da violência natural e contra a destrutividade civilizada.”

A resposta que ITS recebeu foi de exteriorização ativa por parte dos esquerdistas e anarquistas-morais. A publicação anarquista de esquerda Its Going Down particularmente se pronunciou contra ITS, especialmente após o comunicado 29, no qual reivindicavam a responsabilidade pelo assassinato de uma mulher em uma floresta, e também demonizaram anarquistas e ocidentais que incluem o Eco-extremismo em suas discussões. Its Going Down os classificou como Eco-fascistas em uma de suas condenações contra o grupo, numa tentativa óbvia de demonizá-los moralmente, excluindo-os da comunidade de grupos e organizações consideradas aceitáveis dentro da moralidade anarquista. Isto é, assim como o MEND e a Luta Pelo Território Rebelde (Weichan Auka Mapu), realizado sob o olhar do Outro superego paternal, reprimindo aquilo que é moralmente inaceitável, desde uma posição de autoridade moral, como Deus. Este é um exemplo do que Camatte descreve, onde os esquerdistas condenando ITS e o Eco-extremismo tratam os Eco-extremistas, aqueles interessados no Eco-extremismo e seus próprios simpatizantes e partidários, como objetos para a manipulação científica, em um movimento capitalista por controlar, territorializar.

A revista Eco-extremista Regresión faz uma tentativa notável de se exteriorizar, tanto em seu nome quanto em seu conteúdo. Ela se descreve como o antônimo do progresso, como uma força regressiva antiética, marcando sua estratégia em um estilo marxista ativo da dupla dialética. A Revista proclama ativamente que não deseja ser lida por muitas pessoas e que não busca atrair leitores, mas está disponível na web para ler lida por quem quiser. Está dizendo ativamente que “não somos um de vocês” e “não formamos parte disso”, de maneira muito semelhante a como os esquerdistas buscam exteriorizar o Eco-extremismo. A partir desses exemplos que apresentei, tentei identificar que, tanto em enquadramentos morais positivos e negativos, através de interiorização ou exteriorização dentro da narrativa do progresso, revolução e história, a relação esquerdista com relação aos projetos extremistas e radicais anticoloniais e descoloniais é aquela cuja estrutura mecanicista é ideológica e funcionalmente colonialista e racista. A esquerda não aceita nem condena as ações de grupos indígenas e anticoloniais simplesmente sob seus próprios termos, mas os associa ao simbolismo de seu próprio desenho ideológico. Ao mesmo tempo, o movimento descolonial tornou-se tão incorporado à maquinaria esquerdista que, no caso dos Eco-extremistas, os povos indígenas estão se afastando da luta.

Aqui, sinto a necessidade de ir a outro ponto ligeiramente diferente daquele de onde estivemos durante a maior parte disso, mas sem nos afastarmos muito. Enquadro isso em um lugar geográfico, mais que em um tempo histórico, pois a onde quero chegar não é nem historicamente progressivo nem reacionário, ou regressivo, seja qual for o termo que você prefira, mas metafisicamente presentista, em um sentido imediatista egoísta e fenomenológico. Karl Popper declarou em seu trabalho A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, onde critica o historicismo teleológico de Hegel, Marxs e pensadores semelhantes por ser fundamentalmente totalitários, que a “História não tem significado” —uma preposição sem dúvida desagradável para qualquer pessoa que tenha uma postura política esquerdista, mas é neste sentimento a qual quero chegar. Esta é a questão da destruição, que mais tarde diferenciarei da violência. Agora, quando olho para fora de mim rumo ao que o discurso e ação pós-anarquista significam hoje em dia, no tempo presente, quando nos encontramos em uma crise sistemática, colapso ecológico e em meio a tanta violência, me parece que realmente podemos apenas falar sobre ontologia. Não estou querendo dizer que estamos falando e que só podemos falar sobre conceitos vagos e abstratos, mas que, na raiz de nossos discursos e, se formos honestos em nossas discussões, estamos falando de psico-ônticos, socio-ôticos, eco-ônticos, sobre Realidades e sobre o Real. Estou indagando aqui, ao incorporar o ôntico junto com a ontologia, dentro do mundo das Coisas (C maiúscula) e a reificação (usando o termo no sentido exposto pelo velho e confiável comunista Marx e no sentido da falácia do concretismo, também conhecido como hipostatização). Essas discussões ontológicas podem frequentemente ser enquadradas nos teatros simbólicos das ideologias, interiorizando e exteriorizando, em processos de territorialização. Mas abaixo destas vestimentas, na carne nua de nosso discurso, é ontológico. Somos, de muitas maneiras, todos anarquistas ontológicos de práxis.

Com base nisso, farei uma afirmação de que o projeto anarquista ontológico é de destruição ativa, no sentido Heideggeriano. Eu gostaria de pegar emprestado o termo da guerrilha ontológica de Robert Anton Wilson para isso. Como Heidegger observou, a destruição é uma tarefa presentista que não se enquadra nas categorias normais de positivo-negativo, sendo niilisticamente amoral e não posicionada no passado. Sem ser dualisticamente positiva nem negativa, a destruição aqui é uma força radical monística, no sentido que sugere o anarquista-coletivista Bakunin quando declarou que “a paixão pela destruição é também uma paixão criativa” imediata; ao contrário das tradições gnósticas da ideologia revolucionária de esquerda, nas quais tanto a teoria como a prática mantêm um dualismo esotérico, em relação a objetos que podem ser manipulados cientificamente.

Mais do que como uma prática antropológica, afirmo que a verdadeira destruição-criativa sem objetivos de Ser é o processo de transformação que está acontecendo constantemente. A civilização e a história, nesse sentido, são tentativas de interromper esse processo e criar, através da reificação simbólica, uma ontologia social de um estruturado-espaço absoluto —a construção de territórios, de objetos com interiores e exteriores, da natureza e do espaço que está fora da natureza (civilização), de grupos e categorias; um teatro de fantasmas, tecnologicamente inautênticos, no sentido em que Heidegger expõe, tentando reprimir a relacionabilidade do Ser, na forma de desenvolvimentos prolongados no tempo, ou melhor, como a passagem da vida vista como o espaço aberto da possibilidade. A civilização, a fim de manter o maquinário de seu funcionamento, deve restringir, através da colonização, a moralidade, etc., o espaço aberto da possibilidade, através da interiorização e a exteriorização voltadas para uma narrativa totalitária, com um caminho direcionado.

Agora, de certa forma, o que eu, como alguém do mundo anti-civ, estou dizendo com isso é que deveríamos nos livrar dos grupos, categorias, territórios, interiores, exteriores, inclusão, exclusão, objetos, símbolos e outros fantasmas tecnológicos, mas isso dificilmente chegará a algum lugar no tempo presente. Assim, junto com isso, desejo fazer outra afirmação para nós, como indivíduos, ou melhor, como singularidades, envolvidas em projetos descoloniais e anticoloniais de desterritorialização; que abracemos radicalmente a noção de monismo-como-pluralismo; não para interiorizar o mapeamento do espaço radical de uma nova maneira em relação àquela em que o fazemos atualmente. Se não, deixar a situação o mais desordenada possível e não julgar a desordem através da condenação moral, e não encaixar os eventos dentro das estruturas de ideologias de esquerda, mas deixar tudo no espaço da possibilidade. Talvez isso possa ser considerado o equivalente eco-anarquista da noção liberal de Bergson da sociedade aberta —embora também, talvez não. Se, no entanto, estamos lidando com processos ontológicos, sugiro que consideremos nossas percepções da realidade, como espaço e tempo, da maneira que o matemático Poincaré indica com sua filosofia da geometria; como se tivéssemos nascidos sem intuições, que se tornaram mais convenções normativas do que fatos.

Essa ideia que estou propondo é obviamente bastante incômoda, pois deixa quase tudo em aberto, mas se vamos descolonizar o espaço físico estruturalmente racista das políticas anticoloniais, então nos resta este lugar de incomodidade, no qual devemos reconhecer sem categorizar moralmente, em um sentido anti-político.

Finalmente, também desejo fazer uma declaração ontológica aqui, para os propósitos do discurso, de que muito do que é categorizado como violência por grupos eco-radicais e anticoloniais não é violência, sendo a violência um objeto reificado da civilização, significando violação. Em vez disso, o que geralmente é categorizado como violência, neste sentido, é realmente uma aceitação da destruição-criativa não-ôntica acósmica ontológica selvagem.

Violação, dessa maneira, parece ser o funcionamento mecanicista básico da civilização —invertendo a afirmação de ITS de que a natureza é violenta e a civilização é destrutiva. O propósito da civilização é o propósito da violência. Isso não é para legitimar estas ações que estou descrevendo como destrutivas ao invés de violentas, mas para diferenciá-las para os propósitos da práxis pós-anarquista.

Violar é interromper o fluxo de um espaço e criar uma obstrução, como uma represa em um rio, como um militar chegando para interromper o cotidiano da comunidade, como um pênis forçando sua entrada no corpo por estupro. A destruição é um aspecto criativo dos atuais processos temporais do espaço que é o Ser. Destruição é a abertura do espaço. Descolonizar é destruir a narrativa de produção que é essa cultura. Desterritorializar, sem reterritorializar, e sem julgar o que cresce no espaço aberto. Deixemos as coisas abertas e não tratemos o mundo como um objeto para nossa manipulação. Deixemos de tentar ser Deus e destruamos o totalitarismo. Vivamos livres de interiores e exteriores, de inclusão e exclusão. Tornemos real o sem fronteiras nem limites, e sejamos anarquistas abraçando a anarquia. Poincaré disse que “A Geometria não é verdadeira, é vantajosa”, mas isso não vai longe o suficiente. A geometria não é verdade, mas pode ser uma aventura!

Obviamente, isso vai além do espaço descolonial, pois inclui os espaços de teoria e práxis antipatriarcais, de ambientalismo radical e antiestatismo, uma vez que a estes também seria importante desconstruírem seus territórios e abraçar a noção ontológica do monismo = pluralismo —mas não há espaço neste ensaio para incluir estas lutas.

Gostaria de terminar com esta frase do filósofo marxista-autônomo Agamben; “O que teve de perdurar no inconsciente coletivo como um híbrido monstruoso de humano e animal, dividido entre o bosque e a cidade —o lobisomem— é, portanto, originalmente a figura do homem que foi expulso da cidade. Que esse homem seja definido como um lobisomem e não simplesmente como um lobo…é decisivo aqui. A vida do bandido, como a do homem sagrado, não é um pedaço de natureza humana sem relação alguma com a lei e a cidade. É, em vez disso, um umbral de indistinção e de passagem entre animal e homem, Physis e Nomos, exclusão e inclusão: a vida do bandido é a vida de Loup Garou, o lobisomem, que não é exatamente nem homem nem besta, e que habita paradoxalmente dentro de ambos sem pertencer a nenhum”.

Anarquismo Verde Murcho

Texto extraído de La Mauvaise Herbe vol.17 no.2.

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Ninguém mais se importa com eles por aqui, por que você simplesmente não os deixa murchar em impertinência?”, perguntou um bom amigo que se identifica como anarco-primitivista.

Curioso, talvez, mas não poderia deixar de lembrar de um evento de ecologia radical de muito sucesso que participei há pouco tempo. Era uma conferência bem preparada, por um anarquista que dominava o seu “nicho”. A conferência foi proferida em uma sala cheia de estudantes radicais entusiasmados, durante um seguimento dedicado ao anarco-primitivismo. Todo aquele discurso sobre igualdade, democracia direta e até as 15-horas-de-trabalho-semanal-que-é-como-se-fosse-um-jogo foi servido de forma conveniente. [1] Pelo menos ele não começou a falar sobre telepatia ou visão telescópica. Lembro que o evento gerou uma impressão tão boa que uma coordenadora da Universidade onde a conferência estava ocorrendo se aproximou de Mauvaise Herbe, que estava no local distribuindo publicações, para saber se eventualmente eles iriam também compartilhar suas mensagens positivas com as juventudes. Então deram algumas Mauvaise Herbe para que ela pudesse ler e creio que mudou de opinião.

Mas é verdade que não ouvimos muito sobre os Anarquistas Verdes por aqui. Ainda sim, em minhas conversas e no que frequentemente escuto do discurso “anti-civ”, tanto aqui como em qualquer lugar, são sempre as mesmas reflexões comumente conhecidas, as mesmas referências, as mesmas premissas e os mesmos fins. O discurso humanista-hedonista sobre a vida primitiva tornou-se mainstream. Aos poucos, as especulações de alguns tornaram-se fatos para outros. Os anarquistas em geral nunca se posicionaram muito longe do progressismo, se sentem em casa, em paz com ele. Aqueles que escolheram se distanciar através de suas palavras e ações sempre se levantaram contra as igrejas que guiam o caminho desta “luta”. Praticamente chegaram a um ponto em que se deve professorar a fé em cada declaração, em cada ação.

Para muitos agora, em momentos de choque, questionar a retórica da coesão social é revelar “fascismo”. Enquanto os anarco-policiais insurrecionalmente corretos pedem caça às bruxas, é contra toda a sua Inquisição que dedico estas provocações.

O Verde é o novo vermelho

“Esta visão ideológica do passado foi radicalmente revertida nas últimas décadas, através do trabalho de acadêmicos como Richard Lee e Marshall Sahlins. Surgiu uma reviravolta quase completa na ortodoxia antropológica, com importantes implicações. Agora podemos ver que a vida antes da domesticação/agricultura era, na verdade, uma vida de recreação, intimidade com a natureza, sabedoria sensorial, igualdade sexual e saúde. Esta era a nossa natureza humana, durante alguns milhões de anos, antes da escravidão por sacerdotes, reis e chefes”. – John Zerzan, Futuro Primitivo

Pertencemos a uma era desiludida com as promessas do progresso. Ele não trouxe a utopia prometida. Os progressistas já não são necessariamente aqueles que haviam prometido que “a máquina trabalharia para o homem”, aqueles que, há mais de um século, já haviam anunciado a mesma “recreação, intimidade com a natureza, sabedoria sensorial, igualdade sexual e saúde” graças ao desenvolvimento humano e tecnológico… agora os progressistas são aqueles que se preocupam com as crises que foram geradas, aqueles que acompanham constantemente o apocalipse que está se desenrolando – o desastre ecológico e a civilização planetária em total decadência. Mas alguns ainda não perderam a esperança na humanidade, e a possibilidade de prover uma nova consciência universal. Ela pode impulsionar uma cultura de resistência de caçadores-coletores nômades que levarão todo o humanismo herdado pelo anarquismo do século XX!

E é nesse sentido que um trabalho essencial do cânone anarco-primitivista como Futuro Primitivo é um exercício de sedução, com sua crítica à civilização e seus louvores à vida primitiva, a fim de satisfazer essas sensibilidades humanistas decepcionadas com as consequências da modernidade. Portanto, deriva mais abundantemente do trabalho antropológico de um certo período em que foram feitas tentativas de romper com o mito da vida primitiva brutal com declarações ousadas sobre lazer e aspectos igualitários, mais atraentes para o civilizado moderno – trabalhos de antropólogos que queriam que seu campo alimentasse debates sociais.

Em um ensaio abordando o legado do trabalho aclamado por Zerzan de Marshall Sahlins, “A Primeira Sociedade da Afluência”, o antropólogo Nurit Bird-David nos lembra que “Todo o interesse que atraiu sem dúvidas reflete nossas necessidades simbólicas e ideológicas em nossa (Ocidental) construção do passado pré-histórico. (…) Com a intenção de provocar tanto quanto documentar, o ensaio se eleva acima do discurso científico convencional, apelando diretamente às fantasias ocidentais sobre trabalho, felicidade e liberdade”. [2]

Para muitos daqueles que se identificam com o anarco-primitivismo ou com uma espécie de Anarquismo Verde, a vida dos caçadores-coletores nômades do paleolítico representam o anarquismo como foi vivido pelos humanos por séculos. Alguns até chamam de Anarquia Primitiva. Nesta utopia original, no Jardim do Éden anarquista, eles veem nossa “natureza humana”. Assim, em sua propaganda, para uma plateia inclinada ao anarquismo, com seus valores progressistas, eles louvam a vida primitiva de acordo com o quão anarquista ela possa parecer.

Esta leitura seletiva da antropologia tornou-se comum entre os anarco-primitivistas e influenciou muitos outros anarquistas (incluindo stirnerianos e niilistas). Reduz a vida primitiva a generalizações sobre atributos essenciais presumidos – atributos igualitários, coletivistas, anti-opressivos, hedonistas, ecologistas e anarquistas. A relevância da vida primitiva deriva da representação destes valores.

Comportamentos selvagens que não se encaixam são descartados como sem importância quando não são simplesmente ignorados ou são abordados com muita suspeita, assimilados aos efeitos e as consequências da civilização (sincretismo, usurpação ou má interpretação por parte dos civilizados, etc.), enquanto comportamentos que combinam bem com os valores progressistas nunca recebem o mesmo questionamento ou suspeita. O resultado é a interpretação do estilo de vida caçador-coletor como um modelo de sociedade progressista por excelência, com o imediatamente-regressado caçador-coletor como seu representante mais puro.

Na tradição socialista, as culturas indígenas não tem importância além da recuperação do folclore, pois são reduzidas a seus aspectos proletários: as aventuras socialistas na América Latina nos deixaram um claro testemunho sobre isso. Onde faltava a experiência proletária, era introduzida ao ritmo do progresso, em nome do humanismo, aniquilando culturas indígenas já dizimadas para integrá-las à grande irmandade do homem. Não é de alguma forma nessa tradição que hoje muitos anarquistas projetam sua ideologia sobre os costumes dos antigos, apresentando-os como anarquistas, como praticantes ou exemplos de anarquismo? Podemos escolher o que se encaixa com a narrativa e o rolo compressor anarquista pode esmagar o resto. Nada mais civilizado que isso.

O que podemos aprender através da antropologia e arqueologia sobre a vida de grupos nômades caçadores-coletores ao longo do tempo é que eles parecem estar longe de serem homogêneos. Se queremos encontrar condutas progressistas, como aquelas que eu nomeei, nós as encontraremos. Se alguém deseja procurar condutas de um espectro totalmente oposto, também as encontrará: as ideologias encontrarão o que buscam. Mas é precisamente essa variabilidade que me parece importante. O selvagem questiona toda a narrativa do progresso humano, toda nossa domesticação. Isso inclui mais que tudo nossas inclinações humanistas essenciais na hora de incitar o progresso social necessário para o desenvolvimento contínuo. Os humanos se relacionam com uma infinidade de fatores e tangentes, ao longo de milhares de anos – uma infinidade de situações vividas e, portanto, uma diversidade de reações, adaptações, formas de conceber e agir. Estas características dificultam a simples transposição dos costumes de um grupo sobre outro. Para que uma maneira de ser seja reproduzível de um grupo a outro, é melhor substituir as variáveis por um ambiente homogêneo e controlado, e é isso que faz o progresso.

Se na vida primitiva gostamos de ver o reflexo dos valores que nos são familiares, tais como a cooperação, coletivismo, igualdade, amor ao próximo, compartilhar e tolerar, valores que nos ensinaram desde a infância, não deveríamos nos perguntar para onde eles estão nos levando em nossa situação atual? O contexto muda tudo. A representação idílica da vida primitiva é especialmente enganosa já que o colapso de nossa civilização está longe de ser igual ao do paleolítico. A terra já não é aquela onde os nômades caçadores-coletores floresceram, e quem sabe em que estado desumano poderia se transformar durante um colapso da civilização e seus eventos sucessores.

Mesmo com a isca da utopia, até que ponto aqueles que desejam o bem da tal humanidade poderão desejar e agir sobre o colapso da civilização que possivelmente precipitará a humanidade ao abismo? “Vimos o mundo em que queremos viver, e vale a pena lutar por ele”. [3]

“O anarco-primitivismo é uma lealdade a uma adaptação humana específica à vida neste planeta, uma forma de vida a partir da qual todas as evidências conhecidas nos mostram que ela durou de forma sustentável e em estreita relação com a ecologia selvagem por eras mais que qualquer outra. Com esse conhecimento objetivo em mãos, os anarco-primitivistas manterão nossa agência humana e a usarão para tomar os tipos de ação que consideramos mais eficazes e para criar simultaneamente os tipos de sociedades que NÓS QUEREMOS criar. Esta é nossa prerrogativa”. – Choloa Tlacotin, Uma Carta a: Halputta Hadjo

Acima de todas as coisas, é a prerrogativa do híper-civiliziado. Na verdade, é profundamente civilizado aquele que, a partir do conforto da abstração, pode, num piscar de olhos, inspirar-se nos princípios de James Woodburn sobre os caçadores-coletores igualitários como regra de vida e, logo depois admirar os povos guerreiros que lutaram contra os civilizados na América do Norte; e finalmente, maravilhar-se com a resistência que os humanos foram capazes de desenvolver em condições difíceis, “como os Ona [Selk’nam]” na Terra do Fogo. [4] São agentes do progresso aqueles que pensam que podem isolar o que lhes convém no banco de dados para construir seu mundo ideal pelo qual vale a pena lutar. Não venha me apresentar isso como des-domesticação ou alguma merda do tipo.

O Homem dedicou todo o poder do progresso para tentar controlar seu destino, e ainda sim falhou. Os anarquistas, sendo os civilizados teimosos que são, acreditam que podem controlar o resultado de suas ações de acordo com a intenção com que as realizam. Embora muitos deles saibam bem que as coisas nem sempre saem conforme o planejado (greves sociais que resultam em eleições gerais, artefatos que explodem na hora errada, etc.) Ao longo da história, todos aqueles que tentaram criar a sociedade que queriam falharam, mas os super-anarquistas certamente terão êxito…

Mas, depois de todos os esforços, seria possível, por exemplo, que algumas gerações depois os descendentes dos anarco-primitivistas – crianças re-selvagizadas, caçadores-coletores enraizados nos duros cenários da prognosticada queda da civilização – também resultem tão resolutamente patriarcais como os Selk’nam, cuja cosmovisão estabelecia de maneira muito explícita uma divisão entre os sexos e a dominação espiritual e social das mulheres pelos homens? [5] (esse pequeno detalhe que os Anarquistas Verdes omitiram em suas publicações, de pessoas pelas quais expressaram admiração e cujas perdas lamentaram, provavelmente teria caído mal na Feira do Livro Anarquista).

De qualquer forma, quem tem filhos deve saber que não há garantias de que eles ouvirão nossas advertências. Em qualquer caso, tenho a impressão de que as hipotéticas crianças selvagens do futuro primitivo provavelmente não dariam a mínima para a retórica moralizante de um velho ideólogo civilizado que sabe absolutamente tudo sobre suas vidas cotidianas.

A esperança é melhor que nada?

A esperança se converteu em um conceito bastante popular entre os Anarquistas Verdes nos últimos anos. Zerzan até dedicou um de seus últimos livros, Por que Esperança? A Postura Contra a Civilização, e junto com seus discípulos e colaboradores, em sua publicação da Black and Green Review, dedicaram atenção constante à oposição de sua esperança contra o que consideram o niilismo endêmico que contamina os anarquistas.

Em seu editorial da Black and Green Review Nº 4, Kevin Tucker nos fala com seriedade de como a ausência de uma Revista publicada pelos Anarquistas Verdes “levou os anarquistas ao beco sem saída do terrorismo niilista e à busca espiritual egoísta. Nessa trajetória, o anarco-primitivismo é um para-raios, pois tem a audácia de se posicionar para algo: ter apostado nossa reivindicação em ver um mundo que vale a pena lutar e defender. Para querer construir comunidades de resistência, apoiar aqueles que estão e têm resistido aos avanços da civilização e recusam o processo de domesticação, pois ele procura nos afastar da natureza selvagem que atravessa toda a vida.”

Para eles, jovem Padawan, a desesperança que fomentam estes niilistas leva à postura conformista de olhar para o umbigo, ou para criticar e atacar a qualquer pessoa e qualquer coisa: suas palavras e ações não levam a nada… E a esperança é melhor do que nada! Certo?

Se funcionou bem para os cristãos, a Obama e aos rebeldes em Star Wars, por que não funcionaria também para os anarco-primitivistas de Oregon?

Ainda não está convencido de votar pela esperança? No final de uma entrevista ao The Telegraph, orgulhosamente publicada em seu site durante a promoção de Por que Esperança?, Zerzan compartilha conosco o que tanto o inspira:

“Estranhamente, são tempos bons para ser um anarco-primitivista”, disse Zerzan. “Nunca tivemos tanta tecnologia como agora, e estão sendo lançadas cada vez mais rápido. Mas é exatamente por isso que acho que as pessoas começarão a mostrar resistência. Estão começando a ver que a tecnologia não está cumprindo com suas promessas. Por isso tenho esperança. Tenho muita esperança”.

Para o qual o entrevistador concede:

“Em algumas ocasiões também não gosto da tecnologia. Como quando minha internet não carrega rápido o suficiente. E geralmente estou convencido de que seria mais feliz sem estar constantemente conectado, embora nunca faça muito a respeito”. [6]

Certamente é porque ele ainda não leu a última Black and Green Review.

Ao longo do livro Por que Esperança?, sempre há a mesma resposta: é no advento de um movimento de massa de re-selvagização, preparado para a iminente queda da civilização do qual participará, que é preciso ter esperança e se comprometer junto com outros.

“Não será fácil, mas se um número crescente de pessoas estiverem envolvidas nesse movimento os meios podem ser encontrados. Penso que cada vez mais pessoas podem estar sentido a necessidade de uma nova direção como essa. Decifraremos nosso caminho assim que nossas metas possam ser vistas e discutidas. À medida que nos encontrarmos, o debate público necessário começará e o esforço de avançar em conjunto pode dar bons resultados. Não há garantias, mas vale a pena a jornada libertadora!” – John Zerzan, Por que Esperança?

Essa é uma boa quantidade de merda. Alguém está disposto a derrubar toda a rede de dominação porque Zerzan teve uma espécie de “sensação boa”, e depois veremos o que acontece?

É isso mesmo? Um movimento carregado pelo senso comum e pela esperança de ser o futuro da humanidade libertada? Que original! Nada com o qual o Leviatã possa ser reinventado…

E se a civilização não cair? Digamos que uma transição para um estilo de vida primitivo nunca ocorra, nem voluntariamente nem pela força das circunstâncias, que a civilização sobreviva ao que nós consideramos insuperável e transcendente. Existem empresas, laboratórios, universidades e legiões de nerds ambiciosos ao redor do mundo trabalhando em descobertas experimentais para superar os desafios do progresso em nome da humanidade. Sim, o triunfo do progresso é hipotético, assim como o futuro primitivo também é… e a esperança nada mais é do que uma questão de fé.

“Mas se estamos dispostos a fazer essa mudança em nossa percepção, a aprender a abraçar a nova era de nomadismo, a enxergar além de nós mesmos e empoderarmo-nos fazendo parte de algo muito maior e mais magnífico que nossas próprias vidas, então temos o mundo a ganhar com isso”. – Kevin Tucker, Meios e Fins, Black and Green Review Nº 4

É a sobrevivência da humanidade ou de toda a vida na terra o que gera e motiva meu desejo de ver a civilização sendo aniquilada (mesmo que, entre cenários hipotéticos, seja possível que a civilização destrua toda a biosfera em sua queda)? Por acaso meu desagrado pela civilização depende de um futuro hipotético? É a vida cotidiana, a abrumadora e sufocante presença de um mundo humanizado, que me desagrada e pesa sobre mim, e não sinto nenhuma necessidade de justificar este sentimento com teorias catastróficas ou interesses superiores. Pode me chamar de niilista podre, se quiser!

O mundo não necessita de uma nova ideologia libertadora tanto quanto precisa se livrar do que torna possível transmitir uma ideologia em larga escala… a menos que seja uma que corrompa as mentes dos civilizados, levando-os a decair em tal perturbação, tal desordem antissocial, tal autodestrutividade, que a estabilidade global e, finalmente, o próprio funcionamento da sociedade seja seriamente comprometido.

Morte à civilização e a todo o progresso humano!

– Lyokha

Notas:

[1] Este número referenciado de horas de trabalho se originou de estudos especulativos nos primeiros trabalhos antropológicos de Richard Lee e Marshall Sahlins. Desde então, os dados desses estudos receberam muitas respostas em seu campo, e o próprio Richard Lee reconheceu amplamente algumas de suas falhas. O atual consenso sobre os caçadores-coletores é de uma média de 30 a 40 horas de trabalhos semanais, mas ainda há muito debate sobre o que deveria ser considerado como trabalho.

Ver: Elizabeth Cashdan, Hunters and Gatherers: Economic Behavior in Bands; Richard Lee, The Dobe !Kung; David Kaplan, The Darker Side of the “Original Affluent Society”.

[2] Nurit Bird-David, Beyond “The Original Affluent Society.” Current Anthropology 33:25-47

[3] Uma frase que os Anarquistas Verdes gostam de usar em seus escritos. Por mais que lutem pelo seu mundo contra a civilização, se alguém se machuca, não era a intenção deles, tá bom?

[4] Humano de Quatro Patas, A Mercantilização do Selvagem e suas Consequências, Black and Green Review n.1, Humanos de Quatro Patas, O Vento Ruge Ferozmente, Fundações Selvagens e a Necessidade de uma Resistência Selvagem, Black and Green Review n.4

Os Anarquistas Verdes denunciam sem hesitação aqueles que são inspirados em sociedades não-igualitárias em sua confrontação contra a civilização se não juraram lealdade à sua ideologia. Veja Choloa Tlacotin, Uma Carta a: “Halputta Hadjo”. Mas um Anarquista Verde, graças ao seu conhecimento superior e melhores intenções, pode escolher o que quiser do banco de dados antropológico.

[5] Anne Chapman, Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam – Anne Chapman, A Mulher-Lua na Sociedade Selk’nam

[6] À medida que a tecnologia escurece nossas vidas, os próximos Unabombers aguardam seu momento – Jamie Bartlett, The Telegraph, 13 de Maio, 2014

Entrevista sobre Antropoceno e Crise Climática com Guy McPherson

Entrevista de Erva Daninha a Guy R. McPherson. Guy é um cientista americano, professor emérito de Ecologia e Recursos Naturais e Biologia Evolutiva da Universidade do Arizona. Agradecemos a Guy por esta entrevista conosco. Seu site é Nature Bats Last.

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Erva Daninha: Antes de mais nada, queremos agradecer pelo senhor ter aceitado participar desta entrevista, Dr. Guy McPherson. As suas investigações científicas sobre o caos climático na civilização industrial são de enorme importância ao apontar a gravidade da crise ambiental no mundo provocada pela atividade humana.

Vamos lá. Você é conhecido por defender a ideia de Extinção Humana a Curto Prazo (NTHE). Você pode nos explicar o que é a NTHE e quais são os principais indicadores ecológicos que sustentam essa teoria?

Guy McPherson: Obrigado pela oportunidade de iniciar esta conversação com você e seu público.

A Extinção Humana a Curto Prazo (NTHE) *NdT1 como resultado das mudanças climáticas abruptas refere-se ao desaparecimento precoce da nossa espécie, o Homo Sapiens. Eu estive prognosticando a NTHE por vários anos, e outros começaram a compartilhar este prognóstico de forma recente.

Os humanos são animais e, como outros animais, nossa espécie requer um habitat para sobreviver. Especificamente, os seres humanos são mamíferos vertebrados. No entanto, o ritmo projetado das mudanças climáticas, usando o índice gradual de mudança prevista pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) *NdT2, supera a capacidade dos vertebrados de se adaptar por um fator de 10.000. (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ele.12144). Os mamíferos levarão milhões de anos para se recuperar do evento de Extinção em Massa atualmente em processo (https://www.pnas.org/content/115/44/11262). Duvido seriamente que nossa espécie possa evitar a extinção, sobretudo quando os vertebrados não-humanos e os mamíferos não-humanos desapareçam.

Pelo menos sete espécies do gênero Homo já foram extintas, apesar de que nenhuma destas espécies se encontrava na Terra durante um evento de Extinção em Massa. Nós estamos no meio de um evento de extinção massiva. De acordo com o biólogo da conservação Gerardo Ceballos, principal autor de um artigo publicado em 19 de junho de 2015 na revista Advanced Science, indicando que a Terra está experimentando um evento de Extinção em Massa (https://advances.sciencemag.org/content/1/5/e1400253), “a vida levará muitos milhões de anos para se recuperar, e nossa própria espécie poderia desaparecer antes que isso aconteça”. (https://phys.org/news/2015-06-sixth-mass-extinction-declares.html). Um artigo com o mesmo autor publicado em 25 de Julho de 2017 na Proceedings of the National Academy of Sciences indica que a Terra está em um processo de Extinção em Massa bastante avançado (https://www.pnas.org/content/114/30/E6089.short).

Um artigo na publicação de Novembro de 2018 da revista Scientific Reports indica que uma elevação média de 5-6 graus na temperatura global levaria à extinção toda a vida na terra (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Esse aumento da temperatura média global é esperado logo após os oceanos do Ártico ficarem sem gelo, um evento incorretamente projetado para o ano 2016 + 3 na publicação de 2012 da Annual Reviews sobre A Terra e as Ciências Planetárias (https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev-earth-042711-105345). Apesar desta projeção incorreta, um Ártico sem gelo aparece no horizonte próximo.

As viagens comerciais aéreas representam uma ameaça existencial para toda a vida na Terra. De acordo com um artigo publicado na revista Atmospheric Chemistry and Physics de 27 de Junho de 2019, apenas os rastros dos aviões poderiam eliminar o habitat da maioria, senão de todas as formas de vida sobre a terra, ao interromper os padrões da circulação atmosférica (https://www.atmos-chem-phys.net/19/8163/2019/). Esta conclusão é apoiada por um estudo publicado on-line em 12 de Dezembro de 2019 na Earth and Space Science Open Archive (https://www.essoar.org/doi/10.1002/essoar.10501296.1).

A resposta padrão à atual crise climática é recomendar a redução das emissões de gases do efeito estufa. No entanto, a atividade industrial reduzida se traduz em uma redução abrupta dos aerossóis atmosféricos. Estes aerossóis refletem a radiação solar recebida, mantendo a Terra mais fria do que seria sem esses gases. Investigações sobre o efeito de resfriamento destes aerossóis apareceram na literatura científica sob revisão por pares desde 1929 (Angstor, 1929, “Sobre a transmissão atmosférica da radiação solar e sobre a poeira no ar”, Geografiska Annaler, 11, 156–166). A redução de apenas 20% da atividade industrial levaria a um aumento de 1 grau na temperatura global média em questão de semanas (Rosenfeld et al 2019, https://science.sciencemag.org/content/363/6427/eaav0566, e https://www.sustainability-times.com/environmental-protection/research-cooling-from-atmospheric-particles-may-mask-greater-warming/).

Erva Daninha: A conhecida ativista e escritora Naomi Klein, ao contrário de muitos negacionistas climáticos, argumenta que a atividade humana está intimamente relacionada à crise climática; no entanto, ela concentra a maior parte de seus esforços na pintura do capitalismo como o grande vilão do meio ambiente. Ocasionalmente, Naomi também critica o “socialismo industrial” de algumas nações, mas na maioria das vezes ela defende a mesma tese repetida pela grande maioria dos esquerdistas e ecologistas de todo o mundo: “se eliminarmos o capitalismo, tudo ficará bem”. Dr. Guy, acreditamos que suas críticas são mais amplas, elas visam o complexo industrial global e não apenas um tipo específico de ordem social. Por que você acha que a sociedade tecnológico-industrial global é o problema real e não apenas o capitalismo?

Guy McPherson: Como Tim Garrett apontou com base em extensas pesquisas, a civilização é uma máquina de calor (https://faculty.utah.edu/u0294462-TIM_GARRETT/research/index.hml). Em outras palavras, esse agrupamento de estruturas e seres vivos produz calor. Pouco importa como a civilização industrial opera. Os painéis solares e turbinas eólicas aquecem o planeta de igual maneira como a queima de combustíveis fósseis. A civilização está nos levando a um clima ao estilo do Plioceno que poderia chegar em 2030 (de acordo com um artigo da Proceedings of the National Academy of Sciences publicado em 26 de Dezembro de 2018, que se apoia no fortemente conservador Representative Concentration Pathways do IPCC, https://www.pnas.org/content/115/52/13288.short). Não consigo imaginar que humanos e outros mamíferos vertebrados sejam capazes de sobreviver a uma taxa tão alta de mudanças. Ainda sim, como apontei acima, desacelerar ou deter a civilização aqueceria o planeta ainda mais rápido do que se a mantivéssemos em pé.

Erva Daninha: Entre muitos outros cenários, temos destacadas as visões utópicas e esperançosas defendidas por Naomi Klein em relação ao ecossocialismo como uma alternativa para “salvar o mundo” de uma catástrofe ecológica e temos também a delirante “revolução primitivista” contra a civilização industrial apoiada por anarquistas como Kevin Tucker e John Zerzan. Em sua opinião, quão eficientes esses sistemas seriam quando o censo global prevê quase 10 bilhões de pessoas no planeta para 2050? Vivemos em um planeta finito com recursos limitados e a maioria desses recursos já desapareceram; mesmo uma mudança radical em direção a um sistema supostamente sustentável exigiria outras fontes massivas de energia, especialmente vinculadas a atividades de transporte ou para a produção de alimentos e, mesmo em casos mais extremos, como os da “utopia primitiva” defendida por alguns anarquistas, atividades em massa como alimentação e moradia, ou o que quer que seja, teriam um enorme impacto ambiental.

A natureza tende a exercer um controle auto-regulador sobre as espécies da Terra para impor uma coexistência orgânica, algo que alguns chamam de cascata trófica, mas a nossa espécie escapou disso e usou a tecnologia moderna a seu favor para superar o controle populacional imposto pela natureza manipulando o meio ambiente e expandindo-se para além de seus limites, enquanto consome a natureza indiscriminadamente e destrói grande parte dos recursos limitados da Terra, unicamente a benefício próprio. Você não acredita que exista uma superpopulação no mundo e que nossa cultura moderna seja alienada e decadente e que, dada a quantidade de bilhões de pessoas no mundo, qualquer proposta para criar uma sociedade global sustentável seria falha?

Guy McPherson: Como indiquei acima, duvido seriamente que sobreviveremos até 2030, muito menos até 2050. Uma população excessiva de humanos está consumindo excessivamente materiais finitos por um tempo excessivo. Superamos severamente o número sustentável de população humana sobre a terra.

Erva Daninha: Você afirmou em várias ocasiões que o IPCC é bastante conservador em suas estimativas. O senhor acredita que exista algum tipo pacto de conduta nessas entidades ou na própria comunidade científica que estabeleça um padrão de comportamento para evitar alarmes com impacto na economia ou na própria sociedade? Por exemplo, aqui no Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou dados alarmantes corroborados pela NASA sobre o aumento drástico do desmatamento na floresta amazônica no ano de 2019, e esta ação resultou na demissão de Ricardo Galvão, diretor da agência, a pedido do presidente Jair Bolsonaro. Acreditamos que, embora alertem sobre a crise climática, estas entidades e a maioria dos cientistas operam dentro da mesma lógica que a da cultura da civilização industrial-tecnológica e defendem a manutenção dessa lógica que, em teoria, seria a essência do caos climático, então, talvez por ordem dos governos (como foi o caso no Brasil), ou por iniciativa própria, as instituições manejam seus dados com precaução para não expor a inviabilidade dessa ordem social ecocida. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: O IPCC usa uma abordagem muito conservadora para desenvolver as suas avaliações. Os cientistas dentro dos grupos de trabalho geralmente recorrem à relutância ao tirar suas conclusões. Depois que uma avaliação é preparada por cientistas conservadores, exigidos pelo IPCC para obter consenso, essa avaliação é enviada aos governos para uma revisão. Como você pode imaginar, os governos do mundo estão interessados principalmente em sustentar o crescimento econômico. “Salvar o mundo” não está na sua agenda.

Erva Daninha: Recentemente, um cientista brasileiro revelou que a Antártica atingiu uma temperatura surpreendente de 20º C, algo que “nunca foi visto antes”. Tais temperaturas são drásticos exemplos do aquecimento global. As consequências do aumento da temperatura nesses ambientes congelados já são bem conhecidas, o aumento do nível do mar é amplamente discutido na comunidade científica, mas os efeitos do derretimento não se restringem a apenas isso. A revista Nature já publicou um estudo no qual afirma que a Antártica está possivelmente retendo quantidades colossais de gás metano produzido ao longo de milhares de anos dentro de sua camada de gelo e que, se esse gás fosse liberado, teria um impacto agressivo no efeito estufa. O mesmo vale para o Ártico com permafrost, onde a situação é talvez ainda mais grave, pois o solo do Ártico não está mais congelado. Estudos indicam que o permafrost contém o dobro da quantidade total de carbono atualmente na atmosfera da Terra, e que um vazamento massivo desse material seria catastrófico para a vida na Terra, podendo até causar uma extinção em massa como a do período Permiano-Triássico. Você acredita que o efeito da “arma de clatratos” poderia realmente colocar em risco a maior parte da vida na Terra até 2040?

Guy McPherson: Não só eu concordo, como também o renomado cientista climático James Hansen que discutiu esta possibilidade. Um artigo de 2017 revisado entre pares por Hansen e seus colegas, indicava que a Terra se encontrava em suas temperaturas mais altas desde a existência da nossa espécie (https://arxiv.org/abs/1609.05878). De fato, as emissões de metano provenientes do fundo do gelo e também as emissões de metano que saem do derretimento do permafrost representam dois dos sete meios pelos quais o planeta poderia aquecer muito rapidamente, destruindo o habitat para os seres humanos (https://weeklyhubris.com/seven-distinct-paths-to-loss-of-habitat-for-humans/).

Erva Daninha: Em 2014, em uma entrevista à Russia Today, citando um estudo do cientista climático Tim Garrett, você disse que apenas o colapso total da civilização industrial poderia impedir mudanças climáticas descontroladas. Por razões lógicas, uma solução baseada nessa premissa nunca virá de nenhum governo ou instituição como a ONU. Pelo contrário, o fraco Acordo de Paris já foi abandonado pelos Estados Unidos, o maior emissor de gases de efeito estufa de toda a história, e o Estado brasileiro também mostrou sinais de sua intenção de abandonar o acordo. Estudos como o da Universal Ecological Fundation já apontaram que o acordo não será suficiente para limitar o aumento da temperatura entre 1,5º C e 2º C em relação aos níveis da era pré-industrial. Avaliações como a sua indicam a possibilidade de um aumento superior a 3,5º C em um curto período de tempo. A interrupção das atividades industriais é impensável no mundo moderno, pois isso significaria negar a própria lógica na qual a maioria dos países estão inseridos. No entanto, isso não significa que cenários como esse sejam impossíveis de serem alcançados, apenas não através da ação de governos, claro.

No final do ano passado, os rebeldes houthis atacaram a maior refinaria de petróleo do mundo na Arábia Saudita com drones, interrompendo metade da produção do reino, que fornece 10% de todo o petróleo consumido no mundo. Embora extremo, este é um exemplo real da interrupção abrupta de uma atividade que é prejudicial ao meio ambiente. Grupos como os Vingadores do Delta do Níger também causaram danos catastróficos à produção de petróleo em países como a Nigéria. Estudos publicados pela revista Science Advances também concluíram que a guerra no Oriente Médio fez com que a poluição diminuísse em algumas áreas da região, porque os níveis de atividade industrial diminuíram e as atividades da vida urbana, como dirigir, foram afetadas. Deixando de lado todo o julgamento que poderia implicar esse tipo de ação e considerando o fato de que são necessárias ações urgentes para interromper a atividade industrial e os governos nunca as oferecerão, você considera que há eficiência prática nesse tipo de ação para interromper as emissões de poluentes ou destruição do meio ambiente no mundo? Repito, pergunto de uma perspectiva puramente prática, deixando de lado o julgamento sobre se é legal ou ilegal.

Guy McPherson: Consulte as informações anteriores sobre o efeito do Escurecimento Global.

Erva Daninha: Dr. Guy, o mundo está atualmente enfrentando uma pandemia do COVID-19, uma das mais catastróficas dos últimos tempos. A atenção está praticamente toda focada nos danos econômicos causados por essa situação, fala-se muito de uma nova recessão econômica no mundo e de uma crise financeira global semelhante à de 2008, mas pouco se fala sobre os benefícios dessa pandemia para o meio ambiente. Você mesmo disse que a interrupção total das atividades industriais são os eventos mais benéficos que podem contribuir para o não aumento da temperatura global e é exatamente isso que esta doença está causando.

Na China, houve uma grande paralisia das atividades econômicas e a redução de gases poluentes foi enorme e abrupta. Em fevereiro deste ano, a concentração desses gases foi 25% menor em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Center for Research on Energy and Clean Air. Na Itália, com o turismo reduzido a zero, as águas do Grande Canal de Veneza pareciam melhores e a qualidade do ar melhorava na área, segundo a prefeitura. Dados do satélite Sentinel-5P do programa Copernican da Comissão Europeia em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA) mostraram que, em termos gerais, a poluição teve uma forte queda na Itália, especialmente na região norte do país, que foi a mais afetada pelo vírus. Certamente, o mesmo se repete em várias regiões do planeta, e não apenas porque as atividades industriais foram paralisadas ou reduzidas, mas também porque o turismo, o transporte e muitas outras atividades diárias da civilização tecnológico-industrial cessaram.

Com base nisso, como você vê esses grandes desastres e seus benefícios ambientais? Acreditamos que eles contribuem para conter a crise climática global e indicam que, para o planeta, nosso estilo de vida civilizado é tão ruim quanto uma pandemia é para nós. Também pensamos que os desastres podem funcionar como uma catarse auto-reguladora da terra, tentando desmantelar o estilo de vida moderno e prejudicial e a grande civilização tecno-industrial.

Guy McPherson: Na verdade, revi minha avaliação sobre os horrores da civilização industrial, conforme observado acima. A civilização industrial intoxica o ar, suja as águas e enche os mares de óleo. A civilização industrial é uma praga para o planeta vivo. No entanto, partindo da perspectiva das mudanças climáticas, manter a civilização ajuda a sustentar o habitat dos seres humanos na Terra. Na nossa ausência, as plantas nucleares do mundo entrariam em colapso catastroficamente, deixando assim o planeta banhado em radiação ionizante. Suspeito que um evento destas características destruiria o habitat para todas as formas de vida na Terra em poucas gerações depois que as mutações letais começassem.

Erva Daninha: Atualmente vemos o surgimento de um “Green New Deal” global através de novos movimentos como o Extinction Rebellion e o Movimento Sunrise e também por ativistas climáticos como Greta Thunberg. Para os pouco informados, parece algo novo, mas o mesmo aconteceu em tempos passados com várias ONGs, com ênfase no Greenpeace, que ao longo dos anos reduziu suas atividades a performances pacíficas a serem registradas e disseminadas nas mídias sociais, campanhas para assinar petições para o governo e uma intensa atividade de greenwashing para promover o consumo supostamente sustentável.

Hoje as grandes eco-organizações do passado estão promovendo um discurso de mudança individual para mudar o mundo, o famoso ativismo “faça a sua parte”, uma vez que foram aceitas e incorporadas na própria lógica do sistema que criticaram, como é o caso o caso do Greenpeace, que fez pactos com empresas de exploração petroleira e da área madeireira e pesqueira, além de algumas outras. O Extinction Rebellion tem uma aparência muito jovem e atraente, o movimento atrai muitas pessoas para gritar contra líderes globais e exigir mudanças nas políticas ambientais em todo o mundo, respeitando os limites que a ordem lhes impõe e, indiretamente, usando a mesma lógica à qual se opõem e esperando dos líderes globais as tão esperadas mudanças nas políticas ambientais, os mesmos líderes que demonstram que são incapazes de cumprir acordos básicos como o de Paris. Você não acha que há ingenuidade nesses movimentos e que, em vez de abordar a raiz do problema, eles indiretamente defendem reformas e perpetuam a civilização industrial destrutiva? Se eles não estão lutando pelo fim da sociedade industrial, mas pela existência de uma “sociedade industrial melhor”, essa luta não seria um grande problema e um mero greenwashing?

Guy McPherson: Estes movimentos são excepcionalmente ingênuos. Como indiquei acima, a civilização industrial é uma máquina de calor, mas diminuir ou parar a civilização industrial aqueceria o planeta muito rapidamente. Isso representa um clássico Ardil 22 *NdT3.

Erva Daninha: Um relatório da ONU divulgado no ano passado, provavelmente conservador em termos numéricos, disse que um milhão de espécies de animais e plantas estão em risco de extinção. A principal causa indicada pelo relatório é a agricultura industrial, a poluição e o aquecimento dos oceanos. Muitos cientistas apontam para o mesmo. Você também acredita que estamos atualmente enfrentando a sexta extinção em massa? Esta seria a primeira extinção em massa causada pela espécie humana, certo? Antropoceno seria um termo adequado?

Guy McPherson: A terra se encontra no meio da Sétima Extinção em Massa. Passamos muito tempo acreditando que estávamos na Sexta Extinção em Massa, mas um artigo publicado na revista Historical Biology em 5 de Setembro de 2019 indica um evento de Extinção em Massa anteriormente desconhecido (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08912963.2019.1658096). Deixando esse pequeno ponto de lado, a atual evento de Extinção em Massa é comumente denominado Extinção em Massa do Antropoceno, porque é resultado das atividades humanas (principalmente, da civilização industrial).

Erva Daninha: O estudo de Mark Boyce publicado no Journal of Mammalogy sobre a experiência de reintroduzir lobos no Parque Nacional de Yellowstone reforçou o que muitos já sabiam, a natureza é interconectada e interdependente com as espécies que vivem nela, sejam animais, plantas, fungos, o que quer que seja. Se um único animal desaparece para sempre, toda a cascata trófica é desestabilizada e as consequências podem ser incomensuráveis.

Atualmente, todos os biomas terrestres estão ameaçados pelo avanço da civilização e a velocidade com que as espécies são extintas é mil vezes superior ao normal, segundo um estudo da University College London. Essa extinção massiva põe em perigo a vida não apenas das espécies, mas também dos próprios biomas. O bioma marinho, talvez o mais importante para a vida na Terra, está desaparecendo rapidamente. Os insetos vitais para os ciclos terrestres, como os polinizadores, também morrem em quantidades catastróficas. Você acha que essa enorme onda de extinção pode atingir a própria espécie humana em algum momento?

Guy McPherson: Várias outras espécies do gênero Homo foram extintas. De fato, todos os indivíduos morrem e todas as espécies se extinguem. O artigo revisado por pares de 13 de Novembro de 2018 na Scientific Reports indica que toda a vida na Terra se extinguirá com os aumentos de temperatura prognosticados para o futuro próximo, principalmente como resultado de co-extinções (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Em outras palavras, espécies como a nossa, que dependem de outras espécies para sua própria existência, enfrentam um risco existencial especificamente porque dependem de outras espécies. O atual apocalipse de insetos, o ritmo acelerado das mudanças climáticas, etc. A união interdependente de tantas formas de vida na Terra garante a nossa extinção a curto prazo.

Erva Daninha: Às vezes você é apontado na comunidade científica e em círculos ecologistas como alguém tremendamente pessimista e sem esperança. Nós pensamos em você como alguém que é apenas realista e bem informado. Na verdade é a própria realidade pessimista e cheia de más notícias para o futuro da humanidade. No ano passado, um texto chamado A esperança é um erro e uma mentira foi publicado em seu site, no qual você destrói o comportamento esperançoso sobre o futuro de nossa espécie. Dr. Guy, você não acha que há uma dificuldade amarga na comunidade científica, e entre militantes e ativistas, normalmente anarquistas e esquerdistas, de aceitar a realidade sobre o nosso futuro e entender o fato de que dias melhores nunca virão?

Nós em particular, somos bastante realistas (e também pessimistas) sobre o futuro de nossa espécie e acreditamos que, como seres humanos, traçamos nosso próprio fim e que colheremos as consequências da estrutura ecocida que os homo sapiens ergueram. Isso nos permite lidar com a realidade da maneira mais dura, fria e necessária. Ativistas ingênuos gritam para seus líderes políticos adotarem novas políticas ambientais, anarquistas e esquerdistas já parecem saber que não há saídas, mas eles preferem negar isso com todas suas forças e se apegam a sonhos utópicos confortáveis que não podem ser alcançados. A esperança é como uma droga e este perfil de pessoas é viciado, não podem aceitar os dias sombrios que estão por vir, então correm em círculos, porque renunciar à esperança seria renunciar à própria humanidade e a tudo o que ela criou até hoje. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: A sociedade adotou a ideia de que a esperança é universalmente boa. Eu acreditei nisso por um longo tempo, então busquei a definição no dicionário. Como você indicou, prefiro a realidade dura a submergir-me em delírios que dificilmente serão alcançados, e a esperança é uma versão destes pensamentos inalcançáveis.

Erva Daninha: Dr. Guy, o que você acha da perspectiva antropocêntrica de se enxergar as coisas? Esse tipo de pensamento que coloca o ser humano no centro de tudo e lhe dá mais importância do que as outras espécies está presente mesmo nas escolas contemporâneas de pensamento que apresentam uma crítica ecológica radical, como é o caso do eco-anarquismo.

Acreditamos que o ser humano é apenas mais uma espécie dentre as milhares que existem, e que talvez nem seja tão importante. O ciclo vida-morte está omnipresente na natureza e faz parte da trajetória de qualquer ser vivo; os seres nascem e morrem o tempo todo. O ser humano moderno nega a morte e sempre busca prolongar a sua existência. Não é errado dizer que a evolução da medicina, especialmente a medicina moderna, que proporcionou aos humanos tanta longevidade, fez com que burlassem a seleção natural e se expandissem em um ritmo muito acelerado. Hoje, as técnicas de biotecnologia e nanotecnologia flertam com a imortalidade. Acreditamos que esse tipo de pensamento também influenciou a capacidade da humanidade de alcançar um maior grau de ecocídio na Terra e é a base dos valores que apoiam as civilizações. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: Estou completamente de acordo. O Homo Sapiens representa uma espécie entre milhões que ocupam a Terra. Criamos as condições ambientais contrárias à continuação da vida neste maravilhoso planeta. Nós nos esforçamos para alcançar a imortalidade a nível individual e a nível de espécie. Pelo contrário, a aceitação da própria morte é um presente cheio de paz. O mesmo sentimento mantém sua veracidade ao nível da espécie.

Erva Daninha: Dr. Guy, existe a possibilidade de que o aquecimento global possa revelar ao mundo algo tão sério quanto a atual pandemia de coronavírus? Notícias recentes mostraram que o derretimento no Ártico e em outras regiões congeladas estava resultando no reaparecimento de bactérias e vírus considerados extintos e também tinha a possibilidade de liberar bactérias e vírus pré-históricos de capacidade patogênica desconhecida. A revista Scientific Reports já publicou que o derretimento do gelo no Ártico liberou um vírus normalmente encontrado no Atlântico que contaminou lontras marinhas no Alasca. Acreditamos que os super-microrganismos patogênicos poderiam, através do derretimento nos polos extremos da terra, alcançar as costas de vários países e iniciar infecções por pandemia, como ocorreu com o coronavírus na China, que poderia ter começado em um mercado de frutos do mar. Com base na sua experiência como pesquisador, você acredita que essa possibilidade é real?

Guy McPherson: Há poucas dúvidas sobre as interações entre as mudanças climáticas e o COVID-19. As mais importantes são (1) a potencial redução do efeito do Escurecimento Global à medida que as indústrias desaceleram, e (2) o reaparecimento de muitos vírus como resultado do derretimento do gelo (acelerado pelas mudanças climáticas). 28 novos grupos virais foram encontrados recentemente em uma geleira que estava derretendo (https://www.popularmechanics.com/science/health/a30643717/viruses-found-melting-glacier/). O novo coronavírus atualmente nos noticiários é a primeira de muitas dessas dificuldades que vamos enfrentar.

Erva Daninha: Uma pesquisa da revista Science Advances in Atmospheric Sciences revelou que 2018 foi o ano mais quente já registrado para as temperaturas dos oceanos desde o início do monitoramento. Muitas pessoas afirmam erroneamente que as florestas são os “pulmões da terra”. Embora importantes para a produção de oxigênio, absorção de carbono e regulação do clima, as florestas não produzem a maior parte do oxigênio do mundo, os oceanos produzem. O que acontece é que, com o aquecimento global, as temperaturas nos oceanos estão aumentando, uma vez que mais ou menos 93% de todo o calor das mudanças climáticas é absorvido pelos oceanos.

Os biomas e a fauna marinha são extremamente sensíveis às mudanças climáticas, e não são apenas as mudanças climáticas que atacam os mares, mas também a poluição (incluindo a poluição sonora de barcos e submarinos), a pesca industrial, o turismo etc. Os oceanos do mundo estão em uma situação muito delicada e, ao contrário de uma reserva ecológica terrestre, onde a destruição humana pode ser facilmente controlada e com grande esforço, revertida, o que acontece nos mares é que as ações de mitigação estão fora de controle. Embora possível, não é fácil “plantar” corais marinhos, plantar grama não é o mesmo que “plantar algas”, embora existam experiências bizarras de geoengenharia que proponham isso (o que poderia ser mais desastroso do que eficiente). Que diagnóstico você faria da situação dos oceanos globais e o que pode acontecer se eles continuarem a perder a vida marinha?

Guy McPherson: Nós somos produtos do oceano. Todas as formas de vida dependem do oceano. Paul Watson, autor e fundador da Sea Shepherd Conservation Society, afirma da melhor forma: “Não podemos viver neste planeta com os oceanos mortos. Se os oceanos morrem, nós morreremos”. Estamos no meio de um evento global de “branqueamento de corais”, o terceiro na história. Também é o terceiro desde 1998. A desoxigenação é um problema urgente para os sistemas marinhos atualmente. Eu apresentei evidências abundantes na literatura revisada por pares: https://guymcpherson.com/2018/12/ocean-deoxygenation-as-an-indicator-of-abrupt-climate-change/

Erva Daninha: No ano passado, um estudo pouco confiável da revista Science afirmou que para limitar o aumento da temperatura global a 1,5º C (meta do Acordo de Paris) seriam necessários 1,2 trilhão de novas árvores em todo o mundo, e o estudo defendeu o plantio indiscriminado de árvores para absorver e reduzir o excesso de dióxido de carbono na atmosfera da Terra. Achamos que o estudo não é confiável, pois apresenta apenas a quantidade como solução, sem pensar na complexidade do processo e em seus efeitos colaterais. O plantio indiscriminado de árvores, de acordo com o que lemos na literatura científica, como a análise do brasileiro Gerhard Overbeck, que confrontou uma proposta como essa do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique publicada no artigo The global tree restoration potential (O potencial global de restauração de árvores); pode ter consequências ambientais. Do nosso ponto de vista, plantar árvores indiscriminadamente parece irresponsável e inconsequente. A natureza é complexa, auto-reguladora e interconectada, a natureza não é apenas quantidade, mas complexidade. Os biomas não podem ser gerados abruptamente e, a longo prazo, o plantio massivo de árvores também pode trazer consequências ambientais, como o esgotamento das reservas de água subterrâneas, migrações ou extinções de espécies de animais e plantas, etc. O que você acha dessa proposta de cultivo massivo e plantio indiscriminado de árvores para reduzir a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera da Terra?

Guy McPherson: Esta ideia é terrível. Escrevi a respeito aqui: https://guymcpherson.com/2020/02/can-trees-sequester-enough-carbon/

Erva Daninha: Theodore Kaczynski, mais conhecido como Unabomber, escreveu uma vez um texto chamado “O Navio dos Tolos”. O texto é metafórico e muito inteligente, coloca o “navio” como nossa civilização e a tripulação como figuras sociais que mais se destacam em reclamações públicas. Na história, o capitão do navio, que representa líderes políticos no mundo real, é uma pessoa muito vaidosa e confiante, assim como a tripulação, então eles decidem loucamente viajar em águas turvas, em direção a perigosos icebergs. No texto, o capitão, apoiado por sua tripulação, lidera o navio, que simboliza a civilização, em direção a águas cada vez mais perigosas, algo que poderia facilmente resultar no naufrágio do barco se ele colidisse com icebergs. As águas perigosas no texto simbolizam claramente o rumo errado que nossa espécie está tomando, e os icebergs seriam o fim, a extinção. No conto, enquanto o capitão dirige o barco em direção aos icebergs, a tripulação começa a reclamar de vários problemas no navio. Há o membro da tripulação pobre que reclama de ganhar pouco, há a membra da tripulação feminina que reclama da desigualdade entre homens e mulheres no barco, há o membro da tripulação imigrante que reclama da desigualdade no tratamento de estrangeiros, há o membro da tripulação que é um índio que reclama que os brancos roubaram suas terras e é por isso que ele acabou naquele navio e nem deveria estar ali, há o membro da tripulação gay que reclama que ele é discriminado por suas preferências sexuais, há o membro da tripulação que é vegano e queixa-se de que os animais no barco estão sendo maltratados, há o membro da tripulação que é professor universitário e um tipo de intelectual que defende e apoia todas as queixas anteriores, e há também outro tripulante, um indivíduo que é ignorado por todos os anteriores e que diz que, embora todos se queixem do que os incomoda, o navio está indo em direção a icebergs e isso poderia matar a todos eles muito em breve. À medida que a história continua, as queixas continuam e o capitão atende a cada uma delas pouco a pouco, concedendo mais direitos para interromper os protestos e acalmar os ânimos. O mesmo cenário é repetido algumas vezes e o capitão sempre consegue acalmar a sua tripulação, concedendo-lhes um pouco mais de direitos, mas sem nunca mudar o rumo do barco. No final da história, todos estão mais ou menos satisfeitos com suas realizações, que não são grandes, mas são importantes de qualquer maneira, e de repente o barco colide com um imenso iceberg e todos morrem.

Dr. Guy, acreditamos que não é preciso muito esforço para entender que essa história reflete perfeitamente a situação crítica do mundo, com a grave crise ecológica em andamento, líderes políticos demagogos, movimentos sociais e suas queixas, e aquele 1% que percebe a delicada situação em que estamos e tenta alertar sobre o ecocídio ou agir à sua maneira contra a catástrofe climática. Você acredita que esse conto reflete lucidamente a realidade do mundo e os movimentos sociais existentes?

Guy McPherson: Sim, sem sombra de dúvidas. Kaczynski esteve a frente de seu tempo.

Erva Daninha: O respeitável cientista brasileiro Antonio Donato Nobre publicou em 2014 um relatório chamado O Futuro Climático da Amazônia, que destaca que, devido ao desmatamento e degradação, a floresta amazônica pode estar próxima do que ele chama de “ponto sem retorno”, quando não é mais capaz de se regenerar por conta própria e começa a se mover em direção à desertificação total. Desde então, seis anos se passaram e o desmatamento se intensificou consideravelmente, principalmente após a eleição de Jair Bolsonaro e a gestão de Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente. Em outras florestas tropicais da Ásia e da África, o desdobramento é o mesmo, há intenso desmatamento, de acordo com alguns relatórios científicos. As florestas tropicais são extremamente importantes no mundo, pois ajudam a regular o clima e o ciclo das chuvas; portanto, se essas florestas desaparecerem, as chuvas também poderão desaparecer e uma infinidade de ecossistemas seriam afetados e, talvez até extintos. Dr. Guy, você acha que existe a possibilidade de que, a curto prazo, possamos ver um processo severo de desertificação no planeta? Esse fenômeno já está ocorrendo no mundo, inclusive aqui no Brasil, especialmente nas regiões nordeste e norte do país, mas você acha que as florestas tropicais do mundo podem atingir o “ponto de não retorno” e colapsar e tornarem-se desertos, como defende o Dr. Antonio Donato Nobre?

Guy McPherson: A atual exploração da Amazônia é um emblema de nossa corrida à ganância. Existem muitos exemplos de florestas transformadas em desertos pelos humanos “civilizados”. O exemplo da Amazônia é uma continuação de outros exemplos anteriores no Crescente Fértil, grande parte do Oriente Médio e o Norte da África, e assim por diante. Em vista destes exemplos, podemos esperar um resultado terrível para a Amazônia.

Erva Daninha: Dr. Guy, um estudo da Rights and Resources Initiative (RRI), Woods Hole Research Center (WHRC) e World Resources Institute (WRI) indicou que as reservas indígenas detêm 24% do carbono armazenado na superfície terrestre. Os povos nativos têm perspectivas de existência distintas da nossa e uma relação diferente com a terra, por isso a preservam, a preservam porque a consideram sagrada e porque é dela que obtêm sua comida diretamente, da caça, coleta e baixa agricultura. A preservação é apenas uma consequência, uma consequência bonita e inteligente.

Acreditamos que há uma crise cultural dentro da civilização, especialmente com a chegada da modernidade ultratecnológica e cibernética. Nossa dieta, padrões de sono, cacofonia, rotina repetitiva, tipos de trabalho, pressão da família, trabalho ou sociedade, super e subproteção familiar, sedentarismo, obesidade, câncer, epidemias e pandemias, “infocalipse”, isolamento social nas redes sociais, confinamento, artificialização de tudo, poluição visual, o acinzentado das cidades, velocidade com o que tudo passa (dias, informações, pessoas, etc.), mudanças climáticas que influenciam em nossa disposição, controle social, vigilância, pornografia, publicidade, tendências, traumas, abusos, drogas, ideologias, abstração, perda de identidade, perda de raízes, liquidez de relacionamentos sociais, familiares e amorosos, violência, polícia, prisões, guerras, doenças psicológicas, distúrbios, ansiedade, depressão, suicídio, medo. Acreditamos que boa parte de todos esses problemas advém da vida civilizada e de seus valores, crenças, rotinas e comportamentos, principalmente da vida moderna, e que esses problemas só pioram com o passar dos anos e, possivelmente, alguns deles podem reincidir mesmo no cenário de alguma sociedade socialista, vegana, anarquista ou permacultural. Não sabemos se você já reparou nisso, mas quando caminhamos por uma floresta e sentimos a sua serenidade, o cheiro de terra molhada, o barulho dos animais, tudo parece estar bem, como se fosse terapêutico. Talvez seja a informação antiga contida em nosso DNA que traz de volta as memórias da vida ancestral na floresta. Alguns de nós somos descendentes diretos de tribos nativas e quilombolas ou temos fortes laços com o que resta dessas culturas ancestrais e sentimos que a solução para o ecocídio global e a crise cultural na civilização não é pensar no futuro, mas olhar para trás, ao nosso passado, ao modo de vida ancestral, em suas respeitosas relações com a terra, razão pela qual os povos indígenas preservam suas reservas e, consequentemente, elas podem absorver o carbono. Não somos ingênuos, não romantizamos povos tribais e muito menos cremos em um “futuro primitivo” como aquele pregado por anarquistas como John Zerzan e Kevin Tucker, nem achamos que seria saudável para qualquer ecossistema que uma grande parte da população mundial mudasse seu estilo de vida para um modelo primitivo para “salvar o mundo”. Com o número de humanos que existem hoje na Terra, acreditamos que nenhum modelo seria sustentável a longo prazo. O que acreditamos é que, em outra realidade (atualmente existente) longe da civilização e da sociedade de massas, a sabedoria e o modo de vida dos povos ancestrais realmente demonstram a possibilidade de coexistência a longo prazo com a natureza, onde há um futuro não apenas para o ser humano, mas para todas as outras espécies. Certamente, não é isso que o atualmente o futuro reserva para a espécie humana. Mas, independentemente do fim que está se aproximando, o que você acha dessa ideia de olhar para trás, para os tempos ancestrais e não para o futuro?

Guy McPherson: Coincido absolutamente. Muitas sociedades pré-civilizadas aprenderam e praticaram a sustentabilidade muito mais que os humanos contemporâneos, como observou Turnbull (The Forest People [1961], The Mountain People [1972]) e Quinn (Ishmael [1992], Beyond Civilization [1999]). Um exemplo clássico e muito citado é o da Confederação dos Iroqueses tomando decisões depois de considerar o impacto que teriam em sete gerações no futuro. Padgett nos fornece uma análise baseada na educação em 2018 (“Sustainability of Education: An Ecopedagogical Approach,” Journal of Sustainability Studies 1(1), Article 5, https://ir.una.edu/sustainabilityjournal/vol1/iss1/5). Claramente, o aprendizado era uma parte importante na vida cotidiana da Confederação dos Iroqueses e de outras sociedades pré-civilizadas. Pelo contrário, as evidências apresentadas aqui indicam que os humanos contemporâneos não aprenderam a praticar ações sustentáveis.

Erva Daninha: Guy, você diz que frear a civilização industrial abruptamente levaria à morte imediata de toda a vida humana na Terra, e talvez de toda forma de vida. Mas deixá-la continuar terá as mesmas consequências, vinte ou trinta anos mais tarde. Então… o que deveríamos fazer? O que você propõe? Qual é a sua postura pessoal a respeito?

Guy McPherson: A certeza da morte, junto com o absurdo da vida, me ajuda a viver com urgência e autenticidade.

Quase todos os dias as pessoas me pedem conselhos sobre como viver. Eu recomendo morar onde você se sinta mais vivo. Recomendo viver plenamente. Recomendo viver com intenção. Recomendo viver com urgência, com a morte em mente. Recomendo a busca da excelência. Recomendo a busca do amor. Não é de surpreender que eu seja frequentemente ridicularizado, alvo de piadas, rechaço e seja isolado por meus próprios contemporâneos na comunidade científica.

Persiga a ação correta. Não se apegue aos resultados. Considerando o pouco de tempo restante em sua vida e na minha, recomendo tudo isso acima, mais do que nunca. Mais intensamente do que você possa imaginar. Para os limites desta cultura restritiva e além. Por você. Por mim. Por nós. Por aqui. Pelo agora. Viva grande. Seja você mesmo, e mais ousado do que nunca. Viva como se estivesse prestes a morrer. O dia se aproxima.

Erva Daninha: Certo! Dr. Guy, agradecemos a oportunidade de entrevistá-lo. Foi um prazer. Se você quiser deixar uma mensagem, sinta-se à vontade para fazê-lo.

Guy McPherson: Agradeço a você. Aprecio a oportunidade de informar as pessoas sobre o mundo que ocupamos.

Notas do Tradutor:

1. NTHE, por suas siglas em inglês (Near-term human extinction).

2. IPCC, por suas siglas em inglês (Intergovernment Panel on Climate Change).

3. Ardil 22 é uma novela satírica antibelicista de ficção histórica escrita por Joseph Heller e publicada em 1961.

Interview with Guy McPherson about Anthropocene and Climate Crisis

Erva Daninha interview with Guy R. McPherson. Guy is an American scientist, professor emeritus of natural resources and ecology and evolutionary biology at the University of Arizona. We thank Guy for this interview with us. His website is Nature Bats Last.

DESCARREGUE em PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

Erva Daninha: First of all, we want to thank you for accepting this interview, Dr. Guy McPherson. Your scientific investigations into the climatic chaos within industrial civilization are of tremendous importance in pointing out the seriousness of the environmental crisis in the world caused by human activity.

So let’s begin, you are known for defending the idea of Near-Term Human Extinction (NTHE). Can you explain to us what NTHE is and what are the main ecological indicators that support this theory?

Guy R. McPherson: Thank you for the opportunity to engage with you and your audience.

Near-term human extinction (NTHE) as a result of abrupt climate change refers to the rapid demise of our species, Homo sapiens. I have predicted NTHE for many years, and I have recently been joined by others in my prediction.

Humans are animals. As with other animals, our species requires hábitat to survive. Specifically, humans are vertebrate mammals. Yet the projected rate of environmental change, using the gradual rate of change projected by the Intergovernment Panel on Climate Change (IPCC), outstrips the ability of vertebrates to adapt by a factor of 10,000 times (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ele.12144). Mammals will take millions of years to recover from the ongoing Mass Extinction Event (https://www.pnas.org/content/115/44/11262). I seriously doubt our species can avoid extinction even as non-human vertebrates and non-human mammals disappear.

At least seven species in the genus Homo have already gone extinct, even though none of those species were on Earth during a Mass Extinction Event. We are in the midst of a Mass Extinction Event. According to conservation biologist Gerardo Cellabos, lead author of a paper published 19 June 2015 in Science Advances indicating Earth is experiencing a Mass Extinction Event (https://advances.sciencemag.org/content/1/5/e1400253), “life would take many millions of years to recover, and our species itself would likely disappear early on.” (https://phys.org/news/2015-06-sixth-mass-extinction-declares.html). A paper with the same lead author published 25 July 2017 in the Proceedings of the National Academy of Sciences indicates Earth is well into the ongoing Mass Extinction Event (https://www.pnas.org/content/114/30/E6089.short).

A paper in the November 2018 issue of Scientific Reports indicates a 5-6 C global-average rise in temperature will cause the extinction of all life on Earth (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Such an increase in global-average temperature is expected shortly after the Arctic Ocean become free of ice, an event incorrectly projected to occur in 2016 + 3 years in the 2012 issue of Annual Review of Earth and Planetary Sciences (https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev-earth-042711-105345). Despite this incorrect projection, an ice-free Arctic looms on the near horizon.

Commercial air travel poses an existential threat to all life on Earth. According to a paper in the 27 June 2019 issue of Atmospheric Chemistry and Physics, contrails alone could eliminate habitat for most, if not all, life on Earth by disrupting atmospheric circulation patterns (https://www.atmos-chem-phys.net/19/8163/2019/). This conclusion is supported by a study published online 12 December 2019 in Earth and Space Science Open Archive (https://www.essoar.org/doi/10.1002/essoar.10501296.1).

The standard response to the ongoing climate crisis is to recommend a reduction in emissions of greenhouse gases. However, reduced industrial activity tranlates to an abrupt reduction in atmospheric aerosols. These aerosols reflect incoming solar radiation, thereby keeping Earth cooler than it would be without these aerosols. Research on the cooling effect of these aerosols has appeared in the peer-reviewed literature since 1929 (Angstrom, 1929, “On the atmospheric transmission of sun radiation and on dust in the air,” Geografiska Annaler, 11, 156–166). As little as a 20% reduction in industrial activity leads to a 1 C global-average temperature spike with a few weeks (Rosenfeld et al 2019, https://science.sciencemag.org/content/363/6427/eaav0566, and https://www.sustainability-times.com/environmental-protection/research-cooling-from-atmospheric-particles-may-mask-greater-warming/).

Erva Daninha: The well-known activist and writer Naomi Klein, unlike many climate deniers, argues that human activity is closely related to the climate crisis, however, she concentrates most of her efforts on painting capitalism as the great villain against the environment. Occasionally Naomi also criticizes the “industrial socialism” of some nations, but for the most part she defends the same thesis repeated by the great majority of leftists and ecologists around the world, “if we eliminate capitalism everything will be fine”. Dr. Guy, we believe that your criticisms are broader, they target the global industrial complex and not just a specific type of social order. Why do you think that the global technological-industrial society is the real problem and not just capitalism?

Guy R. McPherson: As pointed out with abundant research by Tim Garrett, civilization is a heat engine (https://faculty.utah.edu/u0294462-TIM_GARRETT/research/index.hml). In other words, this set of living arrangements produces heat. It matters little or not at all how industrial civilization operates. Solar panels and wind turbines heat the planet, just as burning fossil fuels. Civilization takes us to a Pliocene-style climate as early as 2030 (according to a paper in the Proceedings of the National Academy of Sciences published 26 December 2018 that relies upon the IPCC’s stunningly conservative Representative Concentration Pathways, https://www.pnas.org/content/115/52/13288.short). I cannot imagine humans or other vertebrate mammals could survive such a rapid rate of change. Yet, as I pointed out above, slowing or stopping civilization heats the planet even faster than keeping civilization running.

Erva Daninha: Among many others scenarios, we have the utopian and hopeful views defended by Naomi Klein regarding eco-socialism as an alternative to “save the world” of an ecological catastrophe, or a delusional “primitivist revolution” against industrial civilization defended by anarchists like Kevin Tucker and John Zerzan. How efficient do you think these systems would be when the global census predicts almost 10 billion people on the planet for 2050? We live on a finite planet with limited resources and most of these resources have already disappeared, even a radical change towards a supposedly sustainable system would require other massive sources of energy, transportation or mass activities for food production, and even in more extreme cases like the “primitive utopia” defended by some anarchists, massive activity like feeding and housing, or whatever it may be, would have an enormous environmental impact on a large scale.

Nature tends to exercise a self-regulatory control over species on earth to enforce an organic coexistence, something that some call the trophic cascade, but our species has escaped this and has used the modern technology to its advantage to surpass the population control enforced by nature, manipulating its surroundings and expanding beyond its limit, whilst consuming nature indiscriminately and destroying great part of the limited resources on earth, all for it’s own benefit. Don’t you believe that there is overpopulation in the world and that our modern culture is alienated and decadent and that given the amount of billions of people in the world, any proposal to create a global sustainable society would be flawed?

Guy R. McPherson: As indicated above, I seriously doubt we survive until 2030, much less 2050. Too many humans have been consuming too many finite materials for far too long. We have severely overshot a sustainable population of humans on Earth.

Erva Daninha: You have stated on a number of occasions that the IPCC is quite conservative in its estimates. Do you believe that there is some kind of internal law within these entities or in the scientific community itself that establishes a pattern of behavior in order to avoid alarms that would have an impact on the economy or in society itself? For example, here in Brazil the National Institute for Space Research (INPE) released alarming data corroborated by NASA about the drastic increase of deforestation in the Amazon Rain forest in the year 2019, which resulted in the dismissal of Ricardo Galvão, director of the agency, at the behest of president Jair Bolsonaro. We believe that although they do warn about the climate crisis, these entities and most scientists operate within the same logic as that of the culture of industrial-technological civilization and defend the maintenance of this logic that in theory would be the essence of climatic chaos, then perhaps at the behest of governments (such was the case in Brazil), or by their own initiative, institutions handle their data carefully so as not to expose the infeasibility of this ecocidial social order. What do you think about this?

Guy R. McPherson: The IPCC uses a very conservative approach in creating their assessments. Scientists within working groups typically employ reticence in reaching their conclusions. After an assessment is drafted by conservative scientists who are required by the IPCC to rely upon consensus, the assessment is sent to governments for review. As you can probably imagine, the governments of the world are primarily interested in sustaining economic growth. “Saving the world” is not on the agenda.

Erva Daninha: Recently a Brazilian scientist revealed that Antarctica reached a surprising temperature of 20º C, something that was “never seen before”. Such temperatures are harsh examples of global warming. The consequences of the temperature rise in these frozen environments are already well known, the rise of the sea levels is widely discussed in the scientific community, but the effects of the melting are not restricted to it. Nature magazine has already published a study in which it states that Antarctica is possibly retaining colossal amounts of methane gas produced over thousands of years within its ice sheet and that if this gas were to be released, it would have an aggressive impact on the greenhouse effect. The same is true for the Arctic with permafrost, where the situation is perhaps even more serious, as the Arctic soil is no longer frozen. Studies indicate that the permafrost contains twice the total amount of carbon currently in the Earth’s atmosphere, and that a massive leak of this material would be catastrophic for life on Earth, even being able to cause a mass extinction like that of the Permian-Triassic period. Do you believe that the “clathrate gun” effect could really endanger most life on earth up until the year 2040?

Guy R. McPherson: Not only do I agree, but renowned climate scientist James Hansen has discussed this possibility. A peer-reviewed paper by Hansen and colleagues indicated Earth was at its highest temperature with our species present in 2017 (https://arxiv.org/abs/1609.05878). Indeed, methane emissions from beneath ice and also methane emissions from the melting permafrost represent two of seven means by which the planet could heat very quickly, thereby destroying hábitat for humans (https://weeklyhubris.com/seven-distinct-paths-to-loss-of-habitat-for-humans/).

Erva Daninha: In 2014 at an interview with Russia Today quoting a study by the climate scientist Tim Garrett you said that only the total collapse of industrial civilization could prevent uncontrolled climate change. For logical reasons, a solution based on this premise will never come from any government or institutions like the UN. On the contrary, the weak Paris Agreement has already been abandoned by the United States, the bigest emitter of greenhouse gases of all history, and the Brazilian State has also shown signs of its intents to abandon the agreement. Studies like the one of the Universal Ecological Fundation have already pointed out that the agreement won’t be enough to limit the temperature increase to between 1.5º C to 2º C in relation to the levels of the pre-industrial era. Assessments such as yours indicate the possibility of an increase of more than 3.5º C in a short period of time. Stopping industrial activities is unthinkable in the modern world, as this would mean to deny the very logic in which most countries are inserted in, however this does not mean that scenarios like this one are impossible to achieve, only not through the action of governments, of course.

At the end of last year, Houthis rebels attacked the world’s largest oil refinery in Saudi Arabia with drones, interrupting half of the kingdom’s production, which supplies 10% of all oil consumed in the world. Although extreme, this is a real example of the abrupt interruption of an activity that is harmful to the environment. Groups like the Niger Delta Avengers have also caused catastrophic damage to oil production in countries like Nigeria. Studies published by the magazine Science Advances also concluded that the war in the Middle East caused pollution to decrease in some areas of that region, because the levels of industrial activity decreased and activities of urban life such as driving were affected. Leaving aside all judgment that could be made regarding this type of action and considering the fact that urgent actions to interrupt industrial activity are needed and governments will never offer them, do you consider that there is practical efficiency in this type of action to interrupt pollutant emissions or destruction of the environment in the world? I say it again, I ask from a purely practical perspective, leaving aside the judgment as to whether it is legal or illegal.

Guy R. McPherson: Please see preceding information about the aerosol masking effect.


Erva Daninha:
Dr. Guy, the world is currently facing a COVID-19 pandemic, one of the most catastrophic in recent times. The attention is practically all focused on the economic damage caused by this situation, there is a lot of talk about a new economic recession in the world and a global financial crisis similar to that of 2008, but little is said about the benefits of this pandemic to the environment. You yourself said that total interruption of industrial activities are the most beneficial events that can contribute to the non-rise in global temperature and that is exactly what this disease is causing.

In China, there was a major paralysis of the economic activities and the reduction of polluting gases was huge and abrupt, in February this year the concentration of these gases was 25% lower compared to the same period last year, according to the Center for Research on Energy and Clean Air. In Italy, with tourism reduced to zero, the waters of the Grand Canal in Venice looked better and the air quality improved in the area, according to the city hall. Data from the Sentinela-5P satellite of the Copernican program at the European Commission and the European Space Agency (ESA) showed that in general terms pollution had a strong decrease in Italy, especially in the northern region of the country, the ones that were most affected by the virus. Certainly the same is repeating in various regions around the planet, and not only because industrial activities have been paralyzed or reduced, but also because tourism, transportation and many other daily activities within the technological-industrial civilization have ceased.

Based on this, how do you see these major disasters and their environmental benefits? We believe that they contribute in curbing the global climate crisis and indicate that, for the planet, our civilized lifestyle is just as bad as a pandemic to us. We also think that disasters can function as a self-regulating catharsis from the earth trying to dismantle the harmful modern lifestyle and the great techno-industrial civilization.

Guy R. McPherson: Actually, I have revised my assessment regarding the horrors of industrial civilization, as I have indicated above. Industrial civilization fouls the air, dirties the wáter, and washes soil into the ocean. Industrial civilization is a plague on the living planet. Yet, from the perspective of abrupt climate change, maintaining civilization helps to retain hábitat for humans on Earth. In our absence, the world’s nuclear power plants will melt down catastrophically, thereby leaving the planet bathing in ionizing radiation. I suspect such as event will destroy hábitat for all life on Earth within a few generations after the lethal mutations begin.

Erva Daninha: today we see the rise of a global “Green New Deal” through new movements like Extinction Rebellion and Sunrise Movement and also by climate activists such as Greta Thunberg. For the uninformed it looks like something new, but the same thing happened in past times with several NGOs, with emphasis on Greenpeace, which over the years reduced its activities to peaceful performances to be registered and disseminated on social media, campaigns to sign petitions to the government and an intense greenwashing activity to promote supposedly sustainable consumption.

The great eco-organizations of the past are promoting a discourse of “individual change to change the world”, the famous “do your part” activism, since they were accepted and incorporated within the very logic of the system that they criticized, such is the case for Greenpeace, which made pacts with oil, timber and fishing companies, in addition to many others. Extinction Rebellion has a very youthful and attractive appearance, the movement attracts enough people to shout against global leaders and demand changes in environmental policies around the world, respecting the limits that the order imposes on them, indirectly using the same logic that they oppose to and expecting from global leaders the longed-for changes in environmental policies, the same leaders who demonstrate that they are unable to comply with basic agreements like the one in Paris. Don’t you think that there is naivety in these movements and that instead of addressing the root of the problem they indirectly advocate for reforms and perpetuate the destructive industrial civilization? If they are not fighting for the end of industrial society, but for the existence of a “better industrial society”, wouldn’t this struggle be a big problem and a mere greenwashing?

Guy R. McPherson: These movements are exceptionally naive. As I indicated above, industrial civilization is a heat engine, but slowing or stopping industrial civilization heats the planet very quickly. This represents a classic Catch-22.

Erva Daninha: A UN report released last year, probably conservative in terms of numbers, said that one million species of animals and plants are at risk of extinction. The main cause indicated by the report is industrial agriculture, pollution and the warming of the oceans. Many scientists point towards the same, do you also believe that we are currently experiencing the sixth mass extinction? This would be the first human-made mass extinction, right? Would Anthropocene be a suitable term?

Guy R. McPherson: Earth is in the midst of the Seventh Mass Extinction. We have long believed we were in the Sixth Mass Extinction, but a paper published in the peer-reviewed Journal of Historical Biology on 5 September 2019 indicates an additional, previously unknown Mass Extinction Event (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08912963.2019.1658096). That minor point aside, the ongoing Mass Extinction Event is generally termed the Anthropocene Mass Extinction because it results from human activities (notably, industrial civilization).

Erva Daninha: Mark Boyce’s study published in the Journal of Mammalogy on the experience of reintroducing wolves in the Yellowstone National Park reinforced what many already knew, nature is interconnected and interdependent with the species that live in it, be it animals, plants, fungi, whatever it is. If a single animal disappears forever, the entire trophic cascade is destabilized and the consequences can be immeasurable.

Currently, all terrestrial biomes are threatened by the advance of civilization and the speed with which species are going extinct is a thousand times above normal, according to a study by University College London. This massive extinction endangers the life not only of the species, but of the biomes themselves. The marine biome, perhaps the most important one for life on earth, is rapidly disappearing. Insects vital to earth cycles, such as pollinators, also die in catastrophic quantities. Do you think that this massive extinction wave can reach the human species itself at some moment?

Guy R. McPherson: Several other species in the genus Homo have gone extinct. Indeed, all individuals die and all species go extinct. The 13 November 2018 peer-reviewed paper in Scientific Reports indicates all life on Earth will go extinct with the kind of temperature rise forecast in the near future, largely as a result of co-extinctions (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). In other words, species such as ours that rely upon other species for our own existence, face an existential risk specifically because we depend upon other species. The ongoing insect apocalypse, the rapid rate of environmental change, and our membership as life forms on Earth guarantee our near-term demise.

Erva Daninha: You are sometimes singled out within the scientific community and within the world of ecological discourse as someone who is tremendously pessimistic and hopeless. We think of you as someone who is just realistic and well informed. It’s reality itself that’s pessimistic and full of bad news for humanity’s future. Last year a text called “Hope is a Mistake and a Lie” was published on your website, in which you destroy the hopeful behavior about the future of our species. Dr. Guy, don’t you think that there is a bitter difficulty within the scientific community, and among militants and activists, normally anarchists and leftists, to accept the reality about our future and understand the fact that better days will never come?

Us in particular are very realistic (and also pessimistic) about the future of our species and we believe that as humans we draw our own end and that we will reap the consequences of the ecocidal structure that homo-sapiens has erected. This allows us to deal with reality in the hardest, coldest and most necessary way. Naive activists shout for their political leaders to adopt new environmental policies, anarchists and leftists already seem to know that there is no way out, but they prefer to deny it with all their strength and cling to comfortable utopian dreams that can not be achieved. Hope is like a drug and these types of people are addicted, they cannot accept the dark days to come, so they run in circles, because to renounce hope would be to renounce humanity itself and everything it has created until today. What do you think about this?

Guy R. McPherson: The society has promulgated the idea that hope is universally good. I believed it for a long time. Then I looked up the definition of the word in the dictionary. As you indicated, I prefer reality to wishful thinking. And hope is one versión of wishful thinking.

Erva Daninha: Dr. Guy, what do you think about the anthropocentric perspective of the world? This type of thinking that places the human being at the center of everything and gives it more importance than other species is present even in the contemporary schools of thought that present a radical ecological critique, such is the case with eco-anarchism. We believe that the human being is just one more species among the thousands that exist, and perhaps is not even that important. The life-death cycle is constantly present in nature and it’s a part of the life of any living being, beings are being born and dying all the time. The modern human being denies death and always seeks to extend its existence. It is not wrong to say that the evolution of medicine, especially modern medicine, which has provided humans with such longevity, has caused them to mock natural selection and to expand at a very accelerated pace. Today the techniques of biotechnology and nanotechnology flirt with immortality. We believe that this type of thinking has also influenced humanity’s capability to reach a higher degree of ecocide on earth and it’s the basis for the values that support civilizations. What do you think about this?


Guy R. McPherson: I could not agree more. Homo sapiens represents one species among millions to occupy Earth. We have created environmental conditions contrary to the continuation of life on this beautiful planet. We strive for immortality at the level of individuals and at the level of our species. To the contrary, acceptance of one’s own death is a gift filled with peace. The same sentiment holds true at the level of our species.

Erva Daninha: Dr. Guy, is there a possibility that global warming could reveal to the world something as serious as the current coronavirus pandemic? Recent news showed that the melting in the Arctic and other frozen regions was resulting in the reappearance of bacteria and viruses considered to be extinct and also had the possibility of bringing back prehistoric bacteria and viruses of unknown pathogenic capacity. The magazine Scientific Reports has already published that the melting of the ice in the Arctic has released a virus normally found in the Atlantic that has contaminated sea otters in Alaska. We think that pathogenic super-microorganisms could, through the melting at the extreme poles of the earth, reach the coasts of several countries and start pandemic infections as occurred with the coronavirus on China, which could have started on a seafood market. Based on your experience as a researcher, do you believe that this possibility is real?


Guy R. McPherson: There is little question about the interaction between climate change and COVID-19. Most notable are (1) the potential for a reduction of the aerosol masking effect as industries slow, and (2) reappearance of many viruses as a result of melting ice (accelerated by climate change). Twenty-eight new virus groups were found recently in a melting glacier (https://www.popularmechanics.com/science/health/a30643717/viruses-found-melting-glacier/). The novel coronavirus currently in the news is the first of many such difficulties we face.

Erva Daninha: A survey by the science magazine called Advances in Atmospheric Sciences revealed that 2018 was the warmest year on record for ocean temperatures since monitoring began. Many people erroneously claim that forests are the “lungs of the earth”. Although important for oxygen production, carbon absorption and climate regulation, forests do not produce most of the world’s oxygen, the oceans do. What happens is that with global warming the temperatures in the oceans are increasing since more or less 93% of all the heat from climate change is absorbed by the oceans.

Biomes and marine fauna are extremely sensitive to climate change, and it is not only climate change that attacks the seas, but also pollution (including noise pollution from boats and submarines), industrial fishing, tourism, etc. The world’s oceans are in a very delicate situation, and unlike a terrestrial ecological reserve, where human destruction can be easily controlled and with great effort, reversed, what happens in the seas is that mitigation actions are out of control. Although possible, it is not easy to “plant” marine corals, planting grass is not the same as “planting algae”, although there are bizarre geoengineering experiments that propose this (which could be more disastrous than efficient). What diagnosis would you make out of the situation of the global oceans and what can happen if they continue to lose marine life?

Guy R. McPherson: We are products of the ocean. All life is dependent upon the ocean. Paul Watson, author and founder of the Sea Shepherd Conservation Society, says it best: “We cannot live on this planet with dead oceans. If our oceans die, we die.” We are in midst of the a global coral bleaching event, the third one in history. It is also the third one since 1998. Deoxygenation is a pressing problem in marine systems right now. I present abundant evidence from the peer-reviewed literature: https://guymcpherson.com/2018/12/ocean-deoxygenation-as-an-indicator-of-abrupt-climate-change/

Erva Daninha: Last year, an unreliable study by the Science magazine revealed that to limit the increase in global temperature to 1.5º C (Paris Agreement target) 1.2 trillion new trees would be needed worldwide, and the study advocated the indiscriminate planting of trees to absorb and reduce excess carbon dioxide in the earth’s atmosphere. We think that the study is unreliable because it presents only the quantity as a solution, without thinking about the complexity of the process and its side effects. The indiscriminate planting of trees, according to what we have read in the scientific literature and also to the opinions of scientists, such as that of the Brazilian Gerhard Overbeck, who refuted a proposal like this one from the Federal Institute of Technology in Zurich published in the article The global Tree Restoration Potential; can have environmental consequences. From our point of view, planting trees indiscriminately seems irresponsible and inconsequential. Nature is complex, self-regulating and interconnected, nature is not just quantity, but complexity. Biomes cannot be generated abruptly and in the long run the massive planting of trees could also bring environmental consequences such as depletion of underground water reserves, migrations or extinctions of species of animals and plants, etc. What do you think about this proposal of massive and indiscriminate planting of trees to reduce the amount of carbon dioxide in the Earth’s atmosphere?


Guy R. McPherson: This is a terrible idea. I wrote about it here: https://guymcpherson.com/2020/02/can-trees-sequester-enough-carbon/

Erva Daninha: Theodore Kaczynski, best known as the Unabomber, once wrote a text called “The Ship of Fools”. The text is metaphorical and very intelligent, it places the “ship” as our civilization, and the crew as the social figures that stand out the most in public complaints. In the story, the captain of the ship, who represents political leaders in the real world, is a very vain and confident person, as well as the crew, so they madly decide to travel in murky waters, towards dangerous icebergs. In the text, the captain, supported by his crew, leads the ship, which symbolizes civilization, towards increasingly dangerous waters, something that could easily result in the sinking of the boat if it crashed into icebergs. The dangerous waters in the text clearly symbolize the wrong course that our species is taking, and icebergs would be the end, the extinction. In the tale, while the captain steers the boat towards the icebergs, the crew begins to complain about various problems on the ship. There is the poor crew member who complains about earning little, there is the female crew member who complains about the inequality between women and men on the boat, there is the immigrant crew member who complains about the inequality in the treatment of foreigners, there is the crew member who is an Indian native who complains that the white stole their land and that is why he ended up on that ship and shouldn’t even be there, there is the gay crew member who complains that he is discriminated for his sexual preferences, there is the crew member who is vegan and who complains that the animals on the boat are being abused, there is the crew member who is a university professor and kind of an intellectual who defends and supports all previous complaints, and there is also another crew member, an individual who is being ignored by all the previous ones, and who says that while everybody complains about what bothers them, the ship is heading towards icebergs and that could kill all of them very soon. As the tale goes on, the complaints continue and the captain attends to each complaint little by little, granting more rights to stop the protests and calm the spirits. The same scenario is repeated a few times and the captain always manages to calm his crew down by granting them a little more rights, but without ever turning the boat’s course. At the end of the story everyone is more or less satisfied with their achievements, which are not big, but are significant anyways, and suddenly the boat crashes into a huge iceberg and everyone dies.


Dr. Guy, we believe that it does not take much effort to understand that this story perfectly reflects the critical situation in the world, with the serious ecological crisis underway, demagogue political leaders, social movements and their complaints, and that one percent who realizes about the delicate situation we are in and tries to alert about the ecocide or to act on their own way against the climate catastrophe. Do you believe that this tale lucidly reflects the reality of the world and the existing social movements?

Guy R. McPherson: Yes, without question. Kaczynski was well ahead of his time.

Erva Daninha: The respectable Brazilian scientist Antonio Donato Nobre published in 2014 a report called “The Climate Future of the Amazon” that points out that due to deforestation and degradation, the Amazon forest could be close to what he calls the “point of no return”, when it’s no longer able to regenerate on its own and begins to move towards total desertification. Since then, six years have passed and deforestation has intensified considerably, especially after the election of Jair Bolsonaro and the management of Ricardo Salles, Minister of the Environment. In other tropical forests of Asia and Africa the unfolding is the same, there is intense deforestation, according to some scientific reports. Tropical forests are extremely important in the world, they help to do things like regulating the climate and the rain cycle, so if these forests disappear the rains could also disappear and a myriad of ecosystems would be affected, perhaps extinguished. Dr. Guy, do you think there is a possibility that in the short term we will see a severe process of desertification in the world? This process is already happening in the world, including here in Brazil, especially in the northeast and northern regions of the country, but do you think that the world’s tropical forests can reach the “point of no return” and collapse at the point of becoming desertic, as Dr. Antonio Donato Nobre defends?

Guy R. McPherson: The ongoing exploitation of the Amazon is emblematic of our rush to greed. There are many examples of forests turned into deserts by “civilized” humans. The Amazonian example follows other previous examples in the Fertile Crescent, much of the Middle East and northern Africa, and so on. Given these examples, we can expect a similarly dire outcome in the Amazon.

Erva Daninha: Dr. Guy, a study by the Rights and Resources Initiative (RRI), Woods Hole Research Center (WHRC) and World Resources Institute (WRI) indicated that indigenous reserves hold 24% of the carbon stored on the terrestrial surface. The native peoples have different perspectives of existence and a different relation with the land, that is why they preserve it, they preserve it because they consider it to be sacred and because it is from it that they directly get their food, from hunting and gathering. Preservation is just a consequence, a beautiful and intelligent consequence.


We believe that there is a cultural crisis within civilization, especially with the arrival of the ultratechnological and cyber-connected modernity. Our diet, sleep patterns, cacophony, repetitive routine, types of work, the pressure from the family, work or society itself, over and under protection of the family, physical inactivity, obesity, cancer, epidemics and pandemics, “infocalypse”, social isolation on social networks, confinement, the artificialization of everything, vision pollution, the grayness of the cities, the speed at which everything goes (days, information, people, etc.), the climate changes that influence our disposition, social control, surveillance, pornography, advertisements, trends, traumas, abuses, drugs, ideologies, abstraction, loss of identity, loss of roots, liquidity of social, familiar and loving relationships, violence, police, prisons, wars, psychological illnesses, disorders, anxiety, depression, suicide, fear. We believe that a great part of all these problems comes from civilized life and its values, beliefs, routines and behaviors, especially modern life, and that these problems will only get worse over the years, and possibly even in the scenario of some socialistic, vegan, anarchistic or permacultural society. We don’t know if you have ever experienced this, but when we walk through a forest and feel its serenity, the smell of wet earth, the noise of the animals, everything seems to be fine, as if it were therapeutic. Perhaps it is ancient information contained in our DNA that brings back the memories of ancestral life in the forest. Some of us are direct descendants of native tribes and Quilombolas or have strong ties to what is left of these ancestral cultures and we feel that the solution to the global ecocide and the cultural crisis in civilization is not to think ahead, but to look back, to our past, to the ancestral way of life, at their respectful relations with the land, which is the reason why the indigenous people preserve their reserves and consequently they can absorb carbon. We are not naive, we do not romanticize tribal people and much less believe in a “primitive future” as the one preached by anarchists like John Zerzan and Kevin Tucker, nor do we think that it would be healthy for any ecosystem that a large part of the world’s population would change their lifestyle to a primitive model to “save the world”. With the number of humans that exist today on earth, we believe that no model would be sustainable in the long run. What we believe is that in another reality (currently existing) far from civilization and mass society, the wisdom and way of life of ancestral peoples really demonstrates the possibility of long-term coexistence with nature, where there is a future not only for the human species, but for all others. Of course, that is not what the future currently holds for the human species. But regardless of the end that is getting closer, what do you think about this idea of looking back, to ancestral times, and not further away to the future?


Guy R. McPherson: Absolutely. Many pre-civilized societies learned and practiced sustainability to a far greater extent than contemporary humans, as pointed out by Turnbull (The Forest People [1961], The Mountain People [1972]) and Quinn (Ishmael [1992], Beyond Civilization [1999]). A classic and often-cited example is the Iroquois Confederacy making decisions only after considering the impacts seven generations in the future. Padgett provided an education-based overview in 2018 (“Sustainability of Education: An Ecopedagogical Approach,” Journal of Sustainability Studies 1(1), Article 5, https://ir.una.edu/sustainabilityjournal/vol1/iss1/5). Clearly, learning was an important part of everyday living for the Iroquois Confederacy and other pre-civilized societies. In contrast, the evidence presented herein indicates that contemporary humans have not learned to practice sustainable actions.

Erva Daninha: You say stopping industrial civilization abruptly will bring the immediate demise for human life on earth, and maybe all life. But letting it go on, will have the same consequences, maybe twenty or thirty years into the future. So… What should we do? What do you propose? What’s your personal stance on this?

Guy R. McPherson: The certainty of death, coupled with the absurdity of life, helps me live with urgency and authenticity.

I am asked nearly every day for advice about living. I recommend living where you feel most alive. I recommend living fully. I recommend living with intention. I recommend living urgently, with death in mind. I recommend the pursuit of excellence. I recommend the pursuit of love. It’s small wonder I am often derided, mocked, rejected, and isolated by my contemporaries in the scientific community.

Pursue right action. Do not be attached to the outcome.

In light of the short time remaining in your life, and my own, I recommend all of the above, louder than before. More fully than you can imagine. To the limits of this restrictive culture, and beyond.

For you. For me. For us. For here. For now.

Live large. Be you, and bolder than you’ve ever been. Live as if you’re dying. The day draws near.

Erva Daninha: Dr. Guy, we appreciate the opportunity to interview you. It was a pleasure. If you want to leave a message feel free to do so.

Guy R. McPherson: Thank you. I appreciate the opportunity to inform people about the world we occupy.

[PT – VÍDEO] Catarse – Dias Melhores Nunca Virão II

E sai a segunda edição do projeto Catarse, elaborado por Erva Daninha. A primeira parte pode ser conferida neste link. Esta nova edição aparece em um momento drástico para o cenário mundial, marcado pelo agravamento da crise ecológica, surgimento de convulsões sociais, derrocadas econômicas e uma pandemia que castiga a vários países. Esta compilação confirma de maneira amarga os prognósticos para os próximos anos, dias melhores não virão.

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Este projeto é sobre o agora, o mesmo agora de há cinco anos quando ele foi iniciado. Esta edição é sobre os gritos de dor de um planeta que morre pelas mãos de um animal chamado humano e indiferente com a natureza selvagem ao redor do mundo. Nesta segunda edição há compilações das piores notícias sobre o agravamento da crise mundial, com ênfase na crise climática, onde houve alguns dos piores incêndios da era moderna em importantes florestas ao redor do mundo, como na Amazônia, África Central e Austrália. Também abarca notícias sobre o severo derretimento de gelo nos polos extremos da terra, onde o aquecimento provocou colossais 20º graus na Antártida, a maior temperatura já registrada no século. Relata o culmine do simbólico Relógio do Apocalipse, um projeto elaborado por cientistas de diversas áreas que “prevê” o fim do mundo analisando as diversas crises que o mundo atravessa, o relógio nunca esteve tão perto da meia-noite, que simbolizaria a nossa extinção. Abarca as bárbaras convulsões sociais ao redor do mundo, como as de caráter niilista que houve no Chile e que causaram destruições bilionárias sem precedentes e danaram a infraestrutura chilena em muitas escalas, bem como repressões que custaram milhares de prisões e sangrentas mortes. Há quase dois centenares de recortes de notícias nesta segunda edição do projeto, incluindo a discussão do momento, a pandemia da COVID-19 que mata a milhares de pessoas e colapsa o mundo em diferentes frentes, com ênfase no cenário econômico.

Juntei todas as minhas forças para reunir o que encontrei de mais grave e pessimista sobre a situação da grande civilização mundial, recortes que apenas afirmam que já acabou para o humano e a civilização, não há mais volta e ele será punido com uma catástrofe extintiva que o varrerá deste planeta. As águas, os solos, as florestas, os outros animais, todas estas coisas sagradas significam nada para o humano civilizado adorador da modernidade. Coisa alguma poderá mudar o curso que a nossa espécie traçou para si mesma. Não há esperanças nem revoluções, tampouco messias que poderá deter a catarse da natureza selvagem. Merecemos o nosso próprio extermínio porque miseravelmente brincamos de deuses sem possuir grandeza para isto. Os dias por virem são pessimistas porque nós fizemos do agora o fim. Não haverão dias melhores.

Erva Daninha.

Um obituário antes da morte de nossos parentes de baleias

Tradução do texto A pre-death obituary for our whale kin, do blog The Cult of Infinity .

“O mundo dos sons das baleias reverbera nas profundezas dos mares, de centenas de metros a centenas de quilômetros. Ele é completamente alheio à paisagem sonora da humanidade, gritando e cantando no ar, onde canções e discursos não sonham em chegar tão longe. Padrões profundos e estrondosos são encontrados abaixo da superfície, e talvez a música possa nos ajudar a encontrar sentido quando as palavras e a lógica falham.” – David Rothenberg

Talvez a razão pela qual as baleias pareçam tão tristes e melancólicas seja porque elas previram o destino de sua espécie. É preciso se perguntar se elas sabiam como seria. A prática generalizada da caça às baleias e sua crueldade visceral pode tê-las levado a crer que esta seria a causa de seu desaparecimento do ecossistema, mas e se elas pudessem ter visto o seu destino, e se de alguma maneira tivessem previsto que não seria a caça, mas sim a morte lenta e dolorosa ao serem preenchidas com detritos humanos? Ou que sua linguagem e senso de direção, fundamentais para sua sobrevivência, seriam profundamente afetados pelo sonar naval? E as provas bem documentadas de armas nucleares?

A Marinha dos Estados Unidos conhecia as canções das baleias jubartes antes do público em geral. Por décadas, eles publicaram guias e treinaram cadetes sobre como reconhecer e diferenciar estes sons de outros sinais subaquáticos, como por exemplo, o ruído do radar inimigo. Claro, a observação das canções das baleias precede qualquer gravação. Elas podem ter sido a inspiração para as sereias encontradas na jornada épica de Odisseu… e é muito bonito pensar que os homens ficaram tão hipnotizados pelos gemidos e lamentos que colidiam contra penhascos e desapareciam.

Em 1585, um viajante holandês chamando Adriaen Coenen escreveu que o som das baleias beluga, também conhecidas como ‘canários marinhos’, ou baleias brancas pelos russos, era como “o canto dos humanos… se uma tempestade é iminente, elas brincam na superfície da água e é dito que elas lamentam quando são pegas… elas gostam de escutar canções tocadas por alaúde, arpa, flauta e instrumentos similares”. Como David Rothenberg observou em seu livro Thousand Mile Song, “por um longo tempo as pessoas sentiram que estes animais estão bastante intrigados com a vida humana para gostar de ouvir nossas canções.”

Elas já não ouvem mais músicas agradáveis, mas um grito tortuoso que sem dúvidas leva muitas ao suicídio. Não é um ruído do qual possam escapar, sim algo imposto, assim como a música e o som que são usados em guerras psicológicas e durante torturas. Para os cadetes da marinha, as canções eram simplesmente “evidências biológicas” que precisavam ser diferenciadas das “não biológicas”.

Embora a Marinha possa ser responsável pela interrupção das migrações devido o sonar, todo tipo de poluição acústica ameaça as baleias, e o oceano não foi menos afetado do que as criaturas terrestres pela incessante perturbação criada pelos seres humanos. As baleias, por exemplo, gravitam naturalmente em direção aos motores dos navios, o que resulta em horríveis e profundas lacerações que geralmente são fatais. Há também o som estridente da exploração sísmica de petróleo e gás.

As baleias são observadas encalhadas há séculos, no entanto não há explicações concretas sobre o porque de centenas encalharem ao mesmo tempo. Alguns especulam que a proliferação de algas vermelhas, que em 2018 devastaram a costa da Flórida, possa desempenhar um papel. Essas “marés vermelhas”, como são chamadas, foram registradas desde os anos 1500 pelos exploradores espanhóis, e são conhecidas por ocorreram após tempestades particularmente fortes. À medida que o oceano se aquece e as tempestades se tornam cada vez mais intensas, estas plantas se tornam cada vez mais tóxicas.

As baleias são frequentemente descritas como “extraterrestres”, o que é adequado. O mar profundo foi a última fronteira para a humanidade aqui na terra. A pressão das profundezas impedia que os humanos descobrissem seus segredos bem guardados. O homo sapiens é uma criatura muito curiosa, e que exige tudo do mundo não-humano. Querem saber o que estes sons significam, ou para onde vão quando desaparecem, para depois se divertir e se acasalar sem serem interrompidos por estas criaturas estranhas que os seguem e observam. As linhas entre os zoológicos e a natureza nunca foram tão porosas, e é sabido que as criaturas do zoológico exibem características ansiosas, se movem de um lado para o outro ou muitas vezes sequer se movem.

Quando as primeiras gravações de canções de baleias foram escutadas por multidões de ambientalistas na época em que o movimento internacional de conservação estava começando com o maciço “Dia da Terra”, elas tiveram um efeito hipnótico. A multidão permaneceu em silêncio enquanto ouvia a triste música que provocou o mesmo efeito de quando as primeiras imagens da própria terra foram mostradas ao mundo, isto é, uma percepção momentânea do quanto podemos perder. Mas esses sentimentos logo desapareceram, já que as pessoas saíram das ruas e começaram a promover a responsabilidade individual como a reciclagem e medidas contra a produção de lixo. O Greenpeace foi encorajado quando as canções das baleias atraíam cada vez mais pessoas a ineficazes organizações sem fins lucrativos que agora nos honram com constantes pedidos de doações ou com assinaturas em uma petição inútil. E enquanto as pessoas se enfurecem com o lixo jogado no quintal, não se importam para onde todo o lixo está indo, desde que esteja fora de vista.

Somente na Tailândia, cerca de 300 mamíferos marinhos morrem por ingestão de plástico a cada ano. Não é preciso ser um cientista para entender o que acontece com estas criaturas que recebem uma dieta constante de lixo. Seus estômagos são bloqueados com tudo o que não pode ser digerido, causando uma morte lenta, certamente agonizante devido à fome. Simplesmente não podem colocar comida de verdade em seus estômagos.

Claro, o plástico não é a única coisa que ameaça a vida dos oceanos; das baleias ao krill, do qual elas dependem, todos vivem em mares cheios de derramamentos venenosos provenientes de fábricas. A única coisa que chama a atenção para esta paródia é o sushi, cada vez mais caro, mas tóxico. A demanda por mariscos, bem como a toxicidade da carne das criaturas, nunca foi tão grande, e isso na medida em que os recursos se escasseiam. Até agora, as pessoas mais afetadas não são as que mais aparecem nos noticiários; sim os indígenas e os pobres que dependem da pesca em pequena escala para manter suas famílias, e ocasionalmente da baleia para alimentar a um povoado inteiro durante bastante tempo. No que diz respeito às práticas indígenas, o respeito dado a seu sustento permitiu uma abordagem sustentável, mas tudo foi arrastado pelas marés do progresso. Assim como nos parques nacionais com a proibição da caça, muitos povos nativos não podem continuar com suas antigas formas de se alimentar, o que por sua vez interrompe outros aspectos da cultura, uma vez que a caça e as festas comunais permitiam a coesão social.

As baleias nos deram de tudo, desde o óleo até o entretenimento, e sustentam uma massiva indústria do turismo, projetada para dar às pessoas uma ideia de sua magnificência. Suas imagens foram usadas para vender produtos e movimentos ecológicos às massas. Orcas, jubartes e golfinhos tem sido particularmente eficazes para abrir carteiras. E como retribuímos a eles? Para início de conversa, todo esse dinheiro movimentado só beneficiou os humanos, responsáveis pela destruição das baleias.

Apesar do otimismo implacável que nos empurram goela abaixo, é cada vez mais óbvio que o tempo está acabando. Não há mais tempo para elas, e não há mais para nós. No mais otimista dos cenários, as reformas podem atrasar um pouco as coisas, enquanto o homo sapiens tenta freneticamente encontrar um novo planeta para destruir. Talvez haja outro planeta com oceanos e mais baleias para se conquistar.

Este é um comprimido amargo de se engolir, mas que a humanidade deve e eventualmente engolirá.

Lamento pelos índios da Terra do Fogo

Texto traduzido da parte final do livro El Fin de un Mundo: Los Selknam de Tierra del Fuego, escrito por Anne Chapman, etnologista franco-americana que registrou as narrações de Lola Kiepja, última xamã selk’nam, e outros descendentes.

“Para onde foram as mulheres que cantavam como os ‘canários’ ”? Havia muitas mulheres. Para onde elas foram?” – Lola Kiepja, 1966

Como falar em poucas palavras de povos poderosos?

Como falar dos Selk’nam, os Aush, os Yaganes, os Alakalufes?

Foram povos poderosos porque não apenas chegaram, mas permaneceram nas terras mais inóspitas do mundo.

Isso foi conseguido graças à sua coragem de arrancar sustento dos mares turbulentos, dos bosques nevados, dos pampas atingidos por ventos gelados.

Mulheres canoeiras, yaganes e alacalufes, desafiavam ondas que vinham da Antártica, remando suas canoas em direção a baleias, enquanto seus homens, de pé na proa, com apenas uma lança em mãos, lutavam para vará-las.

Homens caçadores, selk’nam e aush, apenas com arcos e flechas, perseguiam os guanacos sob a neve e a tempestade, enquanto suas mulheres, com pesadas cargas, corriam para montar um acampamento e fazer uma fogueira no local.

Atiraram suas vidas em guerrilhas e vinganças. Eram corajosos, inimigos difíceis e tenazes.

Mas também se amaram e amaram a suas ilhas, cordilheiras cujos cumes não se afundam nos mares glaciais.

Amaram seus bloques, onde pássaros coloridos faziam os seus ninhos.

Amaram o céu e seus deuses transformados em estrelas, em ventos e mares.

E cantaram. Cantaram esperando curar a seus doentes ou soluços de quando partiram.

Cantaram esperando ir Mais Adiante.

Cantaram à Lua em seu esplendor, ao Sor que nascia, às crianças adormecidas.

Cantaram em seus ritos, solenemente ou entre risos.

Foram. Não há mais do que alguns, cujos pais ou avós foram aqueles que “se foram”.

No final do século XIX da era cristã, homens estranhos desembarcaram em suas ilhas; armados com balas, venenos, desejo de riqueza.

Se apropriaram da terra que depois “limparam” para explorá-las sem amá-las.

Depois se gabaram pagando de pioneiros, civilizadores, servos sacrificados, arquitetos do futuro, de construtores de nações. Os índios se defenderam como puderam, apenas com arcos e flechas. Famílias inteiras fugiram de homens a cavalo, armados, pagos para matá-las, de cachorros treinados para despedaçá-las.

Os índios resistiram como puderam, com angústia, de maneira confusa, com vontade de sobreviver. Mas caíram crivados de balas. As orelhas, às vazes a cabeça, eram arrancadas. Foram desterrados. Pareciam perdidos. Agonizaram com as doenças trazidas e sofreram dores indescritíveis ao ver que seus filhos também sucumbiam.

Aqueles homens estranhos os caluniaram mais tarde.

Disseram, publicaram, que os índios atacaram primeiro, que os índios roubaram suas ovelhas, que os índios matavam gados (gados com o suor de suas armas legitimamente comprados).

Explicaram que os índios se matavam entre si porque eram assim, selvagens indomáveis, inadaptáveis à vida civilizada.

Esclareceram, claro, que os índios não era muitos; que os missionários cuidaram deles, que a história não pode ser parada.

Alguns tentaram salvá-los, mas falharam.

Abaixe a cortina. Em frente à cena são erguidos monumentos ao aborígene. Os nomes indígenas são dados a estâncias, bairros e ruas, a hotéis, clubes e praias.

Bandeiras e estátuas são feitas para vender ao turista uma lembrança do nativo fueguino.

E é comentado “que pena, nosso índio fueguino não nos deixou folclore”.

Mas sim, ele nos deixou o eco de seu canto, lamento por um povo que abatemos e contagiamos, choro por um povo que exterminamos.

Uma Era de Monstros

Tradução do poema An Age of Monsters, de Shaughnessy.

Creio que a guerra da humanidade contra a terra só conseguiu matar os deuses mais gentis
Os deuses que eram amigos dos humanos nas velhas histórias
Mas a arrogância do homem é grande, e seu poder contra a fúria do mundo é limitado
E trará, devido à sua arrogância, uma era de monstros
Os poderes sombrios e ctônicos* NdT1 que emergem das entranhas do mundo
Os monstros que sempre atormentaram o mundo dos homens
Os furiosos deuses das velhas histórias, violentos e cruéis, devoradores de mundos
Inimigos da raça humana, estes serão os deuses do futuro
E quem ame o divino deverá aprender a amar os deuses mais sombrios

Nota do Tradutor:

1: Ctônico se refere às deidades e poderes do submundo.

Greta Thunberg: a favorita dos bilionários

Tradução do texto Greta Thunberg: the billionaires’ favourite, publicado em Winter Oak Press.

“Uau, isso é incrível!”, tuitou Greta Thunberg em resposta à notícia de que havia sido nomeada Pessoa do Ano pela revista Time em 2019.

Só que não era bem isso, já que o dono da Time é um dos empresários ricos que ajudaram e incitaram sua ascensão meteórica à fama.

O que é realmente incrível é que ainda exista gente por aí que não entendeu que a marca Greta (ao invés da própria pessoa) foi cuidadosamente fabricada e explorada para promover um grupo particular de interesses financeiros pré-fabricados. Alguns crentes obstinados nem sequer se deixaram levar pela recente revelação de que seus primeiros protestos foram filmados por uma equipe de documentários que, de alguma forma, percebeu antecipadamente que essa adolescente em particular chegaria à fama mundial em breve.

Mas voltemos à revista Time por um momento. Previsível, o artigo que anunciava o prêmio de Greta se dizia maravilhado com a “pequena voz” e a “indignação penetrante” do “ícone de uma nova geração” que se tornara “a voz de milhões, um símbolo de uma crescente rebelião global”.

Outro dia, outra sessão de fotos.

A revista acrescentou: “Ela conseguiu criar uma mudança global de atitude, transformando milhões de ansiosos vagos no meio da noite em um movimento que exige mudanças urgentes”.

Mas, que tipo de mudança exatamente?

Uma pista apareceu no início de 2019, quando Greta se presentava, junto a Jane Goodall (acima), diante de um estande que promovia a “Quarta Revolução Industrial”.

O termo “Quarta Revolução Industrial” foi utilizado pela primeira vez por Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial, e ex-membro do comitê de direção do Grupo Bilderberg.

Schwab escreveu em um artigo chave em 2015: “Estamos à beira de uma revolução tecnológica que alterará fundamentalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos interagimos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de tudo o que a humanidade já experimentou antes”.

A Quarta Revolução Industrial, explicou, estaria “caracterizada por uma fusão de tecnologias que está apagando as linhas entre as esferas físicas, digital e biológica”.

Schwab continuou: “As possibilidades de bilhões de pessoas conectadas por dispositivos móveis, com poder de processamento, capacidade de armazenamento e acesso ao conhecimento sem precedentes, são limitadas. E essas possibilidades serão multiplicadas pelos avanços tecnológicos emergentes em áreas como inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos materiais, armazenamento de energia e computação quântica”.

Não é exatamente uma visão do futuro amigável com a natureza!

Outro grande admirador da Quarta Revolução Industrial é Marc Benioff (acima), bilionário americano do Vale do Silício, cujo papel no capitalismo climático foi exposto pelo jornalista investigativo Cory Morningstar.

Benioff faz parte do Conselho de Administração do Fórum Econômico Mundial (sob comando de Schwab) e preside o Centro WEF para a Quarta Revolução Industrial em São Francisco.

Ele ficou empolgado em 2018: “Todos devem se unir para a quarta revolução industrial no capitalismo inclusivo. Os negócios são agora uma plataforma para mudanças”.

A empresa Salesforce de Benioff, gigante da computação em nuvem é, no mínimo, controversa.

Em março de 2019, ele foi processado por 50 mulheres que alegaram ter facilitado o tráfico sexual, das quais eram vítimas. Também foi fortemente criticado e boicotado por ativistas por “ganhar milhões de dólares com o sofrimento de imigrantes detidos na fronteira sul dos Estados Unidos”.

Mas, apesar de Benioff estar contente com o fato de suas tecnologias da “Quarta Revolução Industrial” serem usadas para construir um tenebroso estado policial racista-capitalista, ele gosta de pagar de “filantropo”, um cara bom, um homem que se importa.

Uma das coisas com as quais ele diz que se importa é o meio ambiente. Em uma conversa com Schwab no Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro de 2019, Benioff disse que a Quarta Revolução Industrial havia “introduzido tecnologias que podem ajudar a salvar o planeta”.

Benioff é, como muitos bilionários, um grande admirador de Greta Thunberg e deve ter ficado encantado ao vê-la posar diante do logotipo de sua empresa e do slogam da “Quarta Revolução Industrial”.

E claro, ele também é dono da revista Time.

“Uau, incrível”, como diria Greta.

Marc Benioff (esquerda) com Greta Thunberg na cúpula do Fórum Econômico Mundial em Davos em Janeiro de 2019. À direita está a sinistra Christiana Figueres.

“Somos xs Jovens Guerreirxs que se preparam para iluminar a noite com relâmpagos”

Tradução do texto da Conspiração do Trovão.

“A única forma possível de começar uma declaração deste tipo é dizendo que detesto escrever. O processo por si só resume o conceito de “pensamento legítimo”. O que está escrito tem uma importância que nega a oralidade… É um dos caminhos do mundo branco para a destruição das culturas dos povos não-europeus, a imposição de uma abstração sobre a prática oral de um povo… Na verdade, não me importo se minhas palavras chegam aos brancos ou não, eles já demonstraram, através de sua história que não podem ouvir, nem ver, que sabem apenas ler (claro, há exceções, mas as exceções apenas confirmam a regra). É preciso um grande esforço de cada um dos índios do continente americano para não ser europeizado. A força deste esforço pode vir apenas da tradição, de suas formas e caminhos, dos valores tradicionais que nossos anciãos retém. Deve vir do aro, das quatro direções do vento, das relações: não pode vir das páginas de um livro ou de mil livros… Mas há outro caminho. Há o caminho tradicional dos Lakota e os caminhos dos outros povos indígenas deste continente. É o caminho que sabe que os humanos não têm o direito de degradar a Mãe Terra, que existem forças além de tudo o que as mentes europeias conceberam, que os seres humanos devem estar em harmonia com todas as relações ou tais coisas eliminarão a desarmonia…

A arrogância europeia de atuar como se estivesse acima da natureza de todas as coisas pode apenas resultar em total desarmonia e em um reajuste que corta o tamanho da arrogância do ser humano, que lhe dê um gostinho da realidade que está além do seu alcance ou controle e restaure a harmonia. Não há necessidade de nenhuma teoria revolucionária para isso, está além do controle humano. Os povos naturais deste planeta sabem e não precisam teorizar sobre isso. A teoria é abstrata, nosso conhecimento é real. A racionalidade é uma maldição, pois pode fazer com que os humanos esqueçam a ordem das coisas de maneira que outras criaturas não podem fazer. Um lobo nunca esquece seu lugar na ordem natural.

A Mãe Terra foi abusada, os poderes foram abusados, e isso não pode seguir para sempre. Nenhuma teoria pode alterar essa simples verdade. A Mãe Terra retaliará, todo o ambiente retaliará e os agressores serão eliminados, as coisas completam o círculo de volta ao ponto de partida. Essa é a revolução, e esta é uma profecia do meu povo, do povo Hopi e de outros povos corretos.” – Wanbli Othinka, Para que a América viva a Europa deve morrer.

A questão agora é o que fazer com estas palavras. Apenas guardá-las (como vocês acadêmicxs frequentemente fazem) nos cofres do conhecimento inútil, para depois trazê-las à tona em alguma conversa, escrito ou debate através do qual alimentarão seu ego miserável? Ou realmente levarão a sério pela primeira vez algo que não visa a um benefício egoísta?

Porque, sejamos sincerxs, muitxs de vocês sabem que tanto a antropologia quanto a própria academia são besteiras, mas sabem que através dela podem obter certos benefícios civilizados: conforto, reconhecimento, poder dentro de sua sociedade. Então apenas se desculpam e até mentem para si mesmxs dizendo que daquele lugar darão sua contribuição para melhorar as coisas, mas nós sabemos que não é assim, sabemos que a grande maioria só quer ganhar dinheiro e obter confortavelmente suas possibilidades. Esta sociedade hipocritamente quer o bem para todxs, mas o bom é inimigo do melhor, e o que é bom para vocês, é mau para a terra, para xs indivíduxs que não desejam se submeter a esta ordem mundial doentia. Para nós, o único caminho digno e honrado é a guerra contra esta sociedade civilizada, a essa ordem tecnoindustrial e, sobretudo, à escuridão que prolifera dentro do coração humano e que se materializa diante de nossos olhos nessa grande catástrofe apocalíptica que testemunhamos horrorizadxs, mas que nos alimentamos dia a dia.

Hoje, muitos espíritos de sábixs ancestrais se vendem por qualquer miséria, alienadxs, buscam escapar de seu sofrimento, e tentando fugir dele, ele aumenta cada vez mais, alçando o círculo de autodestruição. Isso que acontece a nível aparentemente pessoal, acontece a nível macro, como espécie completa. Por este motivo, nós deixamos de ignorar a voz dos espíritos, NOSSA PRÓPRIA VOZ, e enfrentar uma guerra espiritual, que é travada em nosso interior, e que ao mesmo tempo se manifesta em nossa vida, atacando também materialmente esta sociedade e cada um de seus bastiões.

12 de Outubro:

Segundo a “história oficial”, há quinhentos e vinte e sete anos uma frota europeia chegou a estas terras em busca das Índias. Foi assim que começou a devastação de nosso mundo sagrado, o mundo de nossos avós.

Com os europeus, uma nova e decadente forma de se compreender a realidade e se relacionar com ela foi trazida aqui (isto é, de se relacionar com o Grande Espírito, o TODO).

O respeito à vida e seus ciclos, a medicina sagrada, a sexualidade e eté a alimentação, a nossa magia e nossas Deidades foram alteradas por uma cosmovisão inferior e medíocre chamada catolicismo, uma religião criada vários séculos antes por outros europeus ambiciosos (romanos) com a intenção de criar súditxs a partir da psiquê, formar escravxs em massa (em todo o império), tentando garantir a perpetuidade de sua tirania.

Isso só poderia ser alcançado cobrindo os olhos e ouvidos espirituais de todos os povos subjugados (poderíamos dizer que a conquista aconteceu primeiro na Europa). A perda das almas ao separar (cada vez mais) x indivídux de seus ciclos, de seus arredores, de seu pai céu, de sua mãe terra e das estrelas irmãs, de sua medicina, das energias e seres vivos, de todo o conhecimento guardado com amor pelos antepassados.

Vocês, antropólogxs, ouviram a voz de nossos povos e deturparam suas palavras por conveniência, acreditam que tudo pode ser traduzido para sua pobre língua ocidental, seu raciocínio medíocre. A antropologia é outra expressão da arrogância ocidental e dos rasteiros e traidores que são xs brancxs. (Lembre-se que a brancura é uma aculturação, um modo de pensar, de ser, se relacionar e assumir um lugar no mundo, e não apenas uma cor de pele específica). Eles se envolvem com uma determinada comunidade, retiram toda a informação que podem, deformam-na com sua interpretação corrupta para compartilhá-la com seu mundo (e claro, exaltar seu próprio nome) e utilizam o conhecimento obtido para seus propósitos egoístas, muitas vezes em detrimento da própria comunidade que lhes abriu as portas. Vocês ocidentais trancadxs em suas academias não fazem nada além de masturbar seus egos e contar mentiras.

O conhecimento que eles obtém quase sempre é usado para manter a ordem macabra (que eles costumam dizer que odeiam), fortalecendo o progresso de sua sociedade degenerada (sociedade da qual somos inimigxs).

São ridículos seus discursos humanistas sobre paz, respeito pela alteridade ou inclusão. Quem disse que queremos ser incluídxs no inferno deles? Não queremos ser escravxs do mundo ocidental, queremos atacá-lo para iluminar sua escuridão.

Há quinhentos e poucos anos seus progresso chegou à nossa mãe, tentando destruir tudo em nome de sua ambição. Vocês foram e são os verdadeiros demônios!

A modernidade e tudo o que agora atormenta a vida no planeta não seriam possíveis sem o cristianismo, sem a razão instrumental, sem o desejo de possuir tudo.

Eles levaram seu germe imundo a cada canto do planeta e se enriqueceram com nosso sofrimento. Mas não é mais tempo para lamentos, são tempos de guerra e fé! É por isso que atacamos este símbolo da arrogância, brancxs “ensinando” sobre nossxs ancestrais, que ofensa asquerosa nos cospem na cara!

Saibam que cada causa tem um efeito, e que cada ação é uma reação. Nós não somos amigxs, vocês não são bem-vindxs nesta Terra. Seu estilo de vida não será mais tolerado por nós. Europeus, gringxs, colizadorxs que traem seu sangue, saibam que o punhal os aguarda ao dobrarem cada esquina. Somos xs Jovens Guerreirxs que se preparam para iluminar a noite com relâmpagos. Sorrimos à morte porque amamos a vida.

Somos filhos do sol e da lua!
Somos Tlahuele Iknoyotl!
Somos a Conspiração do Trovão!

Sobre enfeites e amuletos

Respeitável texto de Anin Urasse.

Tudo na ancestralidade africana tem uma função. Nada é meramente um enfeite. Vou dar exemplos bem simples.

Um anel te protege do que você pega, por exemplo. E ajuda a regular seu ritmo cardíaco e, consequentemente, corporal (faz um exercício de jogar no google “veias da mão” e observe as ramificações das veias basílica e cefálica nos dedos. Tente refletir sobre como um metal circundando essa rede vascular cria um campo magnético ali).

Brincos filtram o que seus ouvidos ouvem e permitem que você ouça o que ninguém ouviu. Colares. Pulseiras. Umbigueiras. Enfeites de cabeça. Tornozeleiras. Até aquela “maquiagem” ao redor dos olhos no antigo Kemet tem uma função. (Aliás, só um adendo, as sacerdotisas de Osogbo são conhecidas por usar tornozeleiras e pintar os calcanhares de vermelho. Repito: não é só enfeite. Tudo tem um porquê.)

Não é a toa que cada objeto desse é, geralmente, CIRCULAR. Seus materiais são/eram detalhadamente escolhidos também. Cada pedra, cada metal, cada cor. Tudo isso confeccionado a partir de um processo iniciático regido por uma sacerdotisa. E é sempre uma mais velha a lhe conceder, ninguém se auto-abençoa. (Nosso aprendizado sempre foi iniciático, lembre-se.) Enfim, num contexto tradicional, todas essas coisas eram/são sacralizadas pra uso.

Atualmente, não funciona mais assim pra maioria das pessoas. Como o Ocidente é a sociedade do enfeite, todas essas coisas são compradas em lojas. Não há muito rigor na sua elaboração, e uma pessoa pode estar completamente arrasada espiritualmente confeccionando algo que você, depois, vai colocar no seu pescoço. O que se há de fazer? A babilônia é isso aí.

Mas eu tô escrevendo esse texto por um motivo. Algumas de nós, sentindo falta/necessidade de um uso tradicional desses “enfeites” (a ancestralidade chama, preta, não tem jeito) têm trocado alho por bugalho. Gente, sendo bem honesta, se você quiser um enfeite, compre. Mas se você quiser um amuleto (afinal é disso que estamos falando, né?) procure uma sacerdotisa. Não é qualquer pessoa que pode confeccionar. Nem tudo todo mundo pode usar. Não é a qualquer tempo, (nem em África, quem dirá aqui) e o uso de qualquer coisa também tem suas consequências.

Repito, aqui na babilônia enfeites são enfeites. E eles servem pra… enfeitar. Por mais que eu tenha a maior crença e boa fé de que aquilo vai funcionar, nossa ancestralidade se faz com ciência. Ademais, o que lhe garante que não será prejudicial? Procure uma sacerdotisa. Gente velha. Sério mesmo. (Sim, num contexto tradicional, teríamos um sacerdócio muito menos institucionalizado, mais acessível e espraiado. Mas o contexto atual não é esse e precisamos lidar com ele.)

Veja, eu não tô falando de nenhuma “religião” especificamente. Eu tô dizendo que quem não tem equilíbrio em sua própria vida não pode querer equilibrar os outros. Preste atenção. Formação sacerdotal demanda TEMPO. Não é um final de semana. Não é um curso. Uma vivência. E ninguém se forma sozinho. Ninguém se auto-abençoa. Demora! (Em Kemet eram 42 anos!) Dá trabalho. E é referendada em comunidade. Tomem cuidado a quem vocês estão entregando suas cabeças, corpo e ventre.

Enfeites são enfeites. Amuletos são outra coisa. Cuidado pra não confundir.

[PT – DOCUMENTÁRIO] A Evolução do Eco-extremismo no México

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Disponibilizamos legendado em português o documentário A Evolução do Eco-extremismo no México, uma produção publicada na web que mostra as origens, etapas e ações de grupos eco-radicais e de libertação animal que levaram ao surgimento espontâneo da tendência do eco-extremismo, e em seguida de grupos como Reação Selvagem (RS) e pouco depois Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), o mais expressivo que abdica pela tendência do eco-extremismo. O registro não trata de sua internacionalização que ocorreu em meados de 2016, já que a cobertura vai até o final de 2015.

O texto abaixo foi resgatado do já encerrado blog Tierra Maldita. O documentário e o texto ajudam a entender suas origens e alguns aspectos da tendência.

A tradução ao português é um esforço da Revista Anhangá em conjunto com a Revista Regresión.

Para maior entendimento do que é o eco-extremismo nos dias de hoje recomendamos o texto O que é o Eco-extremismo? – A flor que cresce no submundo: Uma introdução ao eco-extremismo.

Apresentação:

“A Evolução do Eco-extremismo no México” é um esforço audiovisual realizado por “Espírito Tanu da Terra Maldita” e a “Revista Regresión”. Nele se reflete o desenvolvimento tanto teórico como prático que tiveram certos grupos que colocaram em sua mira o progresso da civilização, a ciência e a tecnologia.

Desde o ano de 2007 até agora (2016), foi desencadeada uma série de ataques que foram se aperfeiçoando ao passar dos anos.

A princípio estes ataques visaram atacar a indústria da exploração animal, depois passaram a atacar a indústria da destruição dos ecossistemas, então foram se refinando, implementando atentados contra pessoas específicas relacionadas com as ciências avançadas. Depois desta fase, os grupos que participaram nestas etapas se uniram em um grupo denominado “Reação Selvagem”, de modo que após sua dissolução, estes grupos já refinados em suas críticas e melhorados na prática, seguiram a guerra separadamente, como até agora tem sido mantida.

Os individualistas que fazem parte da tendência do Eco-extremismo se unem em várias qualidades que serão mencionadas neste texto. Com isso não estamos dizendo que as pessoas que realizam atos extremos contra o sistema tecnológico TEM QUE ser assim, mas é necessário tê-los em conta.

O Eco-extremismo foi formado por seus próprios propulsores, se consolidou sob a espontaneidade, na solidificação do ataque e na variabilidade dos objetivos, abrangendo vários fatores, tais como:

– Defesa extrema da Natureza Selvagem e uma guerra até a morte contra a civilização:

“(…) observando a realidade vislumbramos que a maioria das críticas que fazem à tecnologia tem um fundo reformista, dizem “a tecnologia está nos levando à falta de interação pessoal, é melhor que a eliminemos”, “a vida em sedentarismo nesta civilização causa problemas de saúde, é melhor nos exercitarmos frequentemente”, “o artificial nos consome, não suporto a vida na cidade, vamos um dia ao campo”, “o lixo inunda os mares, há que comprar produtos amigáveis com o meio ambiente”, “a tecnologia não é o problema, o problema é o uso que lhe é dado”, etc. Estas supostas críticas são as que são negociáveis, e podem até serem propostas para que o sistema continue a crescer, se reformando e sendo fortalecido.

Mas, que tal se dissermos; “a tecnologia é o problema, incendiemos esta ou aquela empresa de inovação tecnológica com todos dentro”, “a civilização se expande perigosamente acabando com a natureza que resta, assassinemos o engenheiro de tal mega projeto”, “a sociedade estúpida só segue as regras fazendo com que a máquina siga avançando, são parte do problema, detonemos um explosivo em um local público com um papel simbólico importante”, etc. Este tipo de crítica extremista são as que não são negociáveis e as que defendemos (…)” – Entrevista a Reação Selvagem.

– Apego e respeito à Natureza Selvagem:

Existe uma relação muito íntima de caráter simbiótico entre a natureza e a nossa espécie. Perdemos bastante desta relação após a passagem das gerações, mas é possível nos reconectarmos outra vez, voltar a recuperar a nossa natureza selvagem (embora não em sua totalidade, é claro).

Apreciamos grandiosamente a natureza, dela viemos e a ela regressaremos. Defendê-la e defender nossas raízes mais profundas, as que nos unem a ela, é apenas uma consequência de ainda sermos humanos e não humanoides. As habilidades de sobrevivência, o reconhecimento da flora e fauna silvestre, a caça, a coleta, a imaginação que dá lugar a uma vida o mais longe da civilização, são ferramentas que complementam o individualista e a seus grupos de afinidades.

“Para muitos de nós é bastante viável ter uma horta orgânica de onde possamos tirar a comida em tempos de escassez ou a medicina em tempos de enfermidade. Não caímos em contradições, o importante é desenvolver estilos de vida que se distanciem o máximo que se possa da dependência artificial do sistema.

Embora alguns membros do RS estejam mais atraídos pela vida de caçadores-coletores, não descartam a opção das hortas.” – Entrevista a Reação Selvagem.

– Rejeição total ao cristianismo, e enaltecimento de crenças individuais pagãs ligadas à natureza, tanto no cotidiano como nos atos extremistas.

“Continuamos ao lado da natureza selvagem, seguimos venerando o sol, a lua, o vento, os rios, o coiote e ao veado, continuamos rejeitando o cristianismo com ritualismos na escuridão dos espessos bosques, continuamos sendo os guardiões do fogo, continuamos dançando ao redor da fogueira. Embora seres civilizados, ainda temos o instinto característico do ataque.” – Artigo “A Guerra Chichimeca” (segunda parte). Revista Regresión N° 4

“(…) pulamos os arames farpados que protegiam o canal de esgoto e atrás de uma grande árvore de Pirúl que ainda está de pé, realizamos vários disparos de arma de fogo contra as máquinas, estruturas e paredes de tal construção. Os disparos diretos danificaram e aterrorizaram aqueles que estavam no local. Com o trovão das balas detonando iam os sons dos animais mortos para a construção da obra, ia o violento zumbido do vento que move as folhas das árvores derrubadas e o imperceptível cantar da água do rio enegrecido pelo artificial. Também iam os gritos de guerra de nossos antepassados: ¡Axcan Kema Tehuatl Nehuatl!” – Ação armada contra o Túnel Emissor Oriente (TEO). Grupúsculo do Oculto/Reação Selvagem.

– Terrorismo:

“Porque no ataque terrorista não há considerações por ninguém, nem sequer por nós mesmos. Nos atiramos ao nada porque a única certeza é a incerteza.”

Independentemente de ferir civis, atacamos, assim, com este ato, o coração da “moral do ataque”, porque na Guerra contra a Civilização e seu Progresso não existem ataques nem “bons” nem “maus”, porque esta Guerra se não é extremista e indiscriminada, não é uma guerra.” – Morte à “moral do ataque” (Explosivo na Sanborns). Ouroboros Niilista.

– Determinação: a coragem é uma das coisas que caracteriza os grupúsculos. Atuar friamente e sem contemplação alguma com estranhos durante um atentado, sabotagem ou assalto, é necessário.

Se há dúvidas ou não está completamente seguro em defender-se (em matar ou morrer), daquela pessoa que tenta detê-lo (seja um civil ou um policial), melhor que nem tente. Em outras palavras, seja indiscriminado.

“(…) nossa intenção era que explodisse causando a maior destruição possível sem importar que nesta ação morressem ou fossem mutiladas algumas pessoas. Queremos deixar claro também que, em nossas ações contra a civilização não consideraremos a vida das ovelhas que cegamente aceitam o desenvolvimento e o progresso para levar uma vida mais confortável, por isso que decidimos atacar este meio de transporte. Embora não tenha causado a magnitude que esperávamos, criou-se uma grande tensão entre usuários e autoridades.” – Ataque explosivo frustrado no Metrô. Grupúsculo Indiscriminado.

– Austeridade: as necessidades artificiais são um problema para os membros desta decadente sociedade, embora alguns não as vislumbrem e se sintam felizes celebrando a vida de escravo que levam. A maioria das pessoas está sempre tentando pertencer a certos círculos sociais acomodados, sonham com luxos, com confortos, etc., e para nós isso é uma aberração. A simplicidade, manejá-la com o que se tenha em mãos, e afastar-se dos vícios civilizados, recusando o desnecessário, são características muito notórias em individualistas do tipo Eco-extremista.

– Apego e prática de atividades delinquenciais:

“Na Regresión enfatizamos como parte de nossa essência, o extremismo individualista, que o crime é a consequente postura diante da civilização moderna difusora de valores humanistas que tendem ao progresso, e que estão nos levando ao desfiladeiro tecnológico.

As dinâmicas sociais as quais estamos submetidos dentro deste complexo sistema muitas vezes nos absorvem como indivíduos, nos fazem participantes da massa, do devastador consumismo e da rotineira vida de escravos nas urbes, mas decidimos resistir a esses ataques, resistir a partir da clandestinidade e aceitar no cotidiano as nossas contradições das quais nos retroalimentamos e nos formamos como verdadeiros indivíduos, sujeitos únicos.

Resistir e negar a vida que nos é imposta desde pequenos, para que busquemos uma vida simples e, tanto quanto possível, distante dos alinhamentos e esquemas culturais modernos, é um dos propósitos a serem concretados no presente. Mas para formar esta vida que queremos, longe das grandes cidades e na natureza, às vezes requer dinheiro, dinheiro que preferimos roubar de qualquer lugar ou obtê-lo através das centenas de formas criminais que existem. Preferimos isso do que levar uma vida subordinada de escravos que a maioria das pessoas levam. Claro, é por isso que o grupo editorial desta revista sente simpatia pela reapropriação do dinheiro para fins específicos que levam a uma vida digna de ser vivida, não se importando com quem seja baleado se o dinheiro não é entregue, porque quando um funcionário não entrega o dinheiro do empregador ele não merece seguir vivendo, já que defende como um cão obediente as migalhas do seu amo; portanto, merece punhaladas ou uma bala em seu corpo. O mesmo para quando um empresário, proprietário ou executivo de uma empresa não cumpre as exigências do ladrão, também merece o mesmo ou algo pior.

Nestes atos não há misericórdia, é tudo ou nada, é do extremismo que falamos sem escrúpulos. Se este dinheiro será necessário para algum propósito do extremista individualista ele deve ser alcançado aconteça o que acontecer. Aqui cabe ser mencionado que para nós o dinheiro não é tudo, dizemos isso de maneira realista. Neste mundo governado por grandes corporações econômicas, às vezes é necessário obter dinheiro para cobrir certos fins e/ou meios, e para nós obtê-lo trabalhando não é uma opção, obtê-lo por fraude, assaltos ou golpes, sim.

Aqueles antepassados que viram seus modos de vida afetados pela expansão das civilizações tanto mesoamericana como ocidental, tiveram que agir dessa maneira (predação, ataques, roubo, engano, assassinato, etc.). Nós apenas cumprimos nosso papel histórico como herdeiros desta ferocidade selvagem.

Pela proliferação da delinquência e o terrorismo que satisfaça os instintos dos individualistas!” – Texto editorial. Regresión N° 3

– Sobriedade: Ficar sóbrio e rejeitar todas as drogas legais e ilegais é muito importante dentro desta tendência, é preciso sempre estar alerta para qualquer eventualidade. Cair bêbado, fumar cigarro ou maconha, injetar drogas, inalar solventes, tentar se “curar” com medicina alopática, ou seja, violar o corpo com estas substâncias nocivas apenas os tolos fazem, aqueles que não respeitam a si mesmos, os carentes de controle, os fracos e os inconsequentes. Então, nós rejeitamos totalmente as drogas.

“Os integrantes de RS não se deixariam morrer por essa ou aquela “doença” que seu próprio corpo não possa resistir e, para dizer a verdade, acreditamos que ninguém em sã consciência. É claro que poderíamos ignorar os antibióticos farmacêuticos. Todos os membros de RS se curam com os remédios da terra e rejeitam totalmente os medicamentos alopáticos. Para aqueles que adotaram a cultura da medicina moderna e nociva, é quase impossível viver sem aspirinas, ranitidinas, paracetamol, etc., mas antibióticos com aditivos químicos realmente não são necessários. Existem antibióticos naturais muito efetivos, como o própolis. Para quem conhece a cura por ervas é fácil aliviar-se ou se curar das doenças das cidades com infusões, cataplasmas, vaporizações, extratos, etc.” Comunicado: Já era hora… Resposta de RS a “Destrua as Prisões”.

– Paciência: Esta é uma das virtudes mais respeitáveis, já que o desespero é uma doença da civilização. Nela vemos que tudo corre a uma velocidade frenética, todos andam de um lado para o outro sem nenhum controle e deixando que suas rotinas os envolvam nisso, no desespero. Ter paciência e ser cuidadoso, tanto em atos contra o sistema quanto na própria vida, te distancia de problemas que muitos já sofreram (prisão, acidentes, morte, etc.) Repetimos, te afasta, mas não te isenta.

– Rejeição total (tanto em ideias como em atos) ao progressismo:

“Decidimos atentar contra esta instituição porque ela simboliza o humanismo e o progressismo. Repudiamos todos aqueles que, gritando, acabam neste tipo de comissão, exigindo garantias por seus “direitos humanos”, “respeito” a suas decisões grupais e o “cesse” da repressão. É absurdo que esta multidão espere que este tipo de organização precária resolva a seus problemas, os ampare e defenda, um exemplo claro de como o ser humano moderno deixou sua própria segurança na mão de estranhos, em vez de tomar a justiça em suas próprias mãos e defender-se como faziam os antepassados. Estes tipos de instituições são uma banalidade, não passam de uma fachada simples para ocultar a incapacidade que tem o sistema de lidar com os problemas internos de uma sociedade decadente, por isso a atacamos.” Pacotes-Incendiários contra a Comissão de Direitos Humanos, subestação elétrica CFE e Universidade Lucerna. Grupúsculo Trovão de Mixtón e Grupúsculo Senhor do Fogo Verde de Reação Selvagem.

– Constância: Dar seguimento a um projeto como este não tem sido fácil, sempre há problemas que não se espera que ocorra e, embora você não os espere, é preciso estar sempre preparado.

Se empenhar duramente e dar continuidade à finalidade imediata criam motivações reais que levam um individualista eco-extremista a ser constante. Isso pode nos levar a alcançar metas mais diretas. A meta que nós de Regresión temos ao publicar esta revista é acompanhar esta tendência. Se muda algo em alguém e esta pessoa decida empreender desde sua individualidade a guerra herdada por nossos ancestrais, adiante, embora esse não seja o nosso propósito (mudar as pessoas). Se isso acontece, é apenas obra do acaso.

– Rechaço às lutas seletivas: é necessário focar na guerra TOTAL contra o sistema tecnológico e contra a civilização, as demais lutas são reducionistas e são apenas uma pequena parte do problema real, lutas como “direitos humanos” (deficientes, negros, mulheres agredidas, imigrantes, homossexuais, etc.), “direitos dos animais”, “direitos trabalhistas”, “anti-racismo”, “anti-fascismo”, “anti-militarismo”, “feminismo”, “veganismo”, “abolicionismo carcerário”, “anarquismo social”, “comunismo”, “patriotismo”, etc.

“(…) Se colocamos em uma sala um homem comum, um negro, uma mulher, uma pessoa com deficiência, um gay e um defensor dos direitos dos animais, poderá ver que todos são diferentes em termos de caráter, pensamentos, regras morais, habilidades, etc., mais algo os une, todos e cada um deles tem um papel a desempenhar na sociedade, e esse papel é que estabilidade do sistema siga de pé. Para nós há diferença, mas ao mesmo tempo não, porque vemos um padrão, ou seja, o HUMANO (como tal) contribui expressamente para a destruição da natureza selvagem, sua civilização destrói tudo em seu caminho, sua tecnologia torna tudo mais mecânico e sua ciência subjuga o natural e o transforma em artificial. Não focamos nos problemas das pessoas ou problemas de um setor específico.

Penso que as pessoas que veem, se preocupam e “lutam” pelas causas menores, como a obtenção de “direitos”, novas leis, reformas, apoio a grupos vulneráveis, etc., estão se especializando nestas problemáticas e nós nos centramos no sistema tecnológico e na civilização, porque são as raízes de todos os males que nos afligem como espécie, o resto é apenas um efeito do problema real.” Entrevista a RS.

– Repúdio total (tanto em ideias como em atos) ao progressismo:

“Certamente muitos se perguntarão: E o que há de errado que exista este tipo de caridade com pessoas vulneráveis? Talvez, os especuladores não se deram conta de que o sistema sempre se veste de “monge bem-intencionado” para continuar se perpetuando. A alta tecnologia sempre terá o mesmo fim em qualquer uma de suas formas, seja terapêutica ou armamentista, educacional ou de destruição massiva, medicinal ou venenosa. E esse fim é continuar existindo sobre a natureza selvagem, por isso atacamos. Sem mais explicações: Não somos cristãos, não somos nobres, nós somos selvagens e não buscamos nem defendemos a caridade de nada com ninguém!”. Ataque explosivo à sede da Fundação Teletón México. Grupúsculo Caçador Noturno de RS.

– Assumir a responsabilidade: tomar em suas mãos as consequências de seus atos, reconhecer que causaram o impacto que causaram, muitas vezes enfrentando contradições, sendo a mais comum quando os tolos questionam: Se você luta contra o sistema tecnológico, por que usa computadores? Abaixo resgatamos uma nota esclarecedora e sarcástica de um grupo eco-extremista sobre a questão.

“Vivemos nas cavernas, sem eletricidade, sem celulares, sem INTERNET, e sem comunicação além dos sinais de fumaça, sendo testemunhos passivamente de como a artificialidade corrói qualquer rastro de natureza selvagem, a manipula, modifica, e com um tom suculento e brilhante, a apresenta ante uma disposição total, aguardando com calma a aceitação da população humana, sem nenhuma confusão ou contratempo. Gentis ante qualquer mudança biológica espúria, entregando o curso de nossas vidas a estranhos infortúnios.

Isso seria menos incoerente, né? Menos que publicar reivindicações, atentados e ameaças por internet, que preocupam tanto e são tão criticados por espectadores, internautas, leitores, etc… Porque, claro, as críticas contra o progresso científico-tecnológico moderno impedem que utilizemos certas tecnologias, porque aí seria armadilha ou trapaça! Raciocínio estúpido.

Não nos importa suas críticas a nossa suposta “incoerência”, não só não importa a nós, mas nos provoca risos a medíocre obediência e cumplicidade ao defender e proteger o boom científico-tecnológico, gastando apenas suas vidas… deixando apenas um rastro do que algum dia foi a natureza selvagem.” Atentados contra a Aliança Pró-Transgênicos. Círculo Eco-extremista de Terrorismo e Sabotagem.

“A luta contra o Sistema Tecnoindustrial não é um jogo do qual devemos vencer ou perder, vencer ou ser vencidos, é o que muitos ainda não entenderam e parece que muitos ainda estão esperando ser “recompensados” no futuro por pagarem de “revolucionários” no agora. É preciso aceitar que muitas coisas na vida não são recompensadas, que muitas tarefas e/ou finalidades nem mesmo são alcançadas (incluindo a autonomia), e a destruição do tecnosistema por obra dos “revolucionários” é uma delas. Agora não é hora de esperar pelo “colapso iminente”, para aqueles que querem ter tempo, como se o progresso tecnológico não crescesse aos trancos e barrancos e devorasse a nossa esfera de liberdade individual aos poucos.

Somos a geração que viu crescer ante seus olhos o progresso tecnológico, a especialização da nanobiotecnologia em vários campos da não-vida civilizada, criação e comercialização do grafeno, desastres nucleares como Fukushima, deterioração ambiental acelerada, o crescimento da biomimética, a expansão qualitativa e quantitativa da inteligência artificial, bioinformática, neuroeconomia, etc. É por isso que ITS vê o que é tangível, palpável e imediato, e esse imediato é o ataque com todos os recursos, tempo e inteligência necessários contra este sistema. Somos individualidades em processo de alcançar a nossa liberdade e autonomia dentro de um ambiente ideal, e junto com ele obedecendo a nossos instintos humanos selvagens atacamos o sistema que claramente nos quer em jaulas. Com isso nos esforçamos como indivíduos afins para tentar ficar o mais longe possível de conceitos, práticas e ideologizações civilizadas.” Sexto comunicado de Individualidades Tendendo ao Selvagem.

O Eco-extremismo é uma tendência, não é uma teoria nem regra, todos aqueles que se sentem realmente comprometidos com a natureza selvagem o entendem, e os que não, já sabem.

Fogo, explosivos e balas contra o sistema tecnológico e a civilização!
Em defesa extrema da natureza selvagem!
Axkan Kema, Tehuatl, Nehuatl!
Adiante com a Guerra!
– Espírito Tanu da Terra Maldita
-Revista Regresión


Terra Maldita e, especialmente o “Espírito Tanu”, ficam muito satisfeitos por terem participado na edição desde trabalho audiovisual em conjunto com a “Revista Regresión”. Deste intercâmbio de cumplicidades e materiais audiovisuais saímos com aprendizagens tanto técnicas como práticas. Esperamos que este trabalho contribua e seja um pequeno gesto para o avanço da guerra contra o sistema tecnoindustrial, chegando a olhos e mentes radicais.

Sudamos a cada um dos integrantes da Revista Regresión por confiar em nós. A Xale por sua paciência e esforço, a Espírito Tanu pelas horas de edição, possibilitando a publicação deste trabalho. CUSTOU, MAS SAIU!

Vida longa aos indivíduos eco-extremistas!
Em guerra selvagem contra a civilização!

Would Human Extinction Be a Tragedy?

Pertinente artigo de Todd May, um professor de filosofia da Clemson University. Publicado no The New York Times o texto de May planteia a possibilidade da extinção da espécie humana como um fenômeno benéfico ao planeta em face a inimaginável destruição que a humanidade tem causado a terra.

An overgrown lot along Highway 13 near the town of Haleyville, Ala.Credit…William Widmer for The New York Times

There are stirrings of discussion these days in philosophical circles about the prospect of human extinction. This should not be surprising, given the increasingly threatening predations of climate change. In reflecting on this question, I want to suggest an answer to a single question, one that hardly covers the whole philosophical territory but is an important aspect of it. Would human extinction be a tragedy?

To get a bead on this question, let me distinguish it from a couple of other related questions. I’m not asking whether the experience of humans coming to an end would be a bad thing. (In these pages, Samuel Scheffler has given us an important reason to think that it would be.) I am also not asking whether human beings as a species deserve to die out. That is an important question, but would involve different considerations. Those questions, and others like them, need to be addressed if we are to come to a full moral assessment of the prospect of our demise. Yet what I am asking here is simply whether it would be a tragedy if the planet no longer contained human beings. And the answer I am going to give might seem puzzling at first. I want to suggest, at least tentatively, both that it would be a tragedy and that it might just be a good thing.

To make that claim less puzzling, let me say a word about tragedy. In theater, the tragic character is often someone who commits a wrong, usually a significant one, but with whom we feel sympathy in their descent. Here Sophocles’s Oedipus, Shakespeare’s Lear, and Arthur Miller’s Willy Loman might stand as examples. In this case, the tragic character is humanity. It is humanity that is committing a wrong, a wrong whose elimination would likely require the elimination of the species, but with whom we might be sympathetic nonetheless for reasons I discuss in a moment.

To make that case, let me start with a claim that I think will be at once depressing and, upon reflection, uncontroversial. Human beings are destroying large parts of the inhabitable earth and causing unimaginable suffering to many of the animals that inhabit it. This is happening through at least three means. First, human contribution to climate change is devastating ecosystems, as the recent article on Yellowstone Park in The Times exemplifies. Second, increasing human population is encroaching on ecosystems that would otherwise be intact. Third, factory farming fosters the creation of millions upon millions of animals for whom it offers nothing but suffering and misery before slaughtering them in often barbaric ways. There is no reason to think that those practices are going to diminish any time soon. Quite the opposite. Humanity, then, is the source of devastation of the lives of conscious animals on a scale that is difficult to comprehend.

To be sure, nature itself is hardly a Valhalla of peace and harmony. Animals kill other animals regularly, often in ways that we (although not they) would consider cruel. But there is no other creature in nature whose predatory behavior is remotely as deep or as widespread as the behavior we display toward what the philosopher Christine Korsgaard aptly calls “our fellow creatures” in a sensitive book of the same name.

If this were all to the story there would be no tragedy. The elimination of the human species would be a good thing, full stop. But there is more to the story. Human beings bring things to the planet that other animals cannot. For example, we bring an advanced level of reason that can experience wonder at the world in a way that is foreign to most if not all other animals. We create art of various kinds: literature, music and painting among them. We engage in sciences that seek to understand the universe and our place in it. Were our species to go extinct, all of that would be lost.

Now there might be those on the more jaded side who would argue that if we went extinct there would be no loss, because there would be no one for whom it would be a loss not to have access to those things. I think this objection misunderstands our relation to these practices. We appreciate and often participate in such practices because we believe they are good to be involved in, because we find them to be worthwhile. It is the goodness of the practices and the experiences that draw us. Therefore, it would be a loss to the world if those practices and experiences ceased to exist.

One could press the objection here by saying that it would only be a loss from a human viewpoint, and that that viewpoint would no longer exist if we went extinct. This is true. But this entire set of reflections is taking place from a human viewpoint. We cannot ask the questions we are asking here without situating them within the human practice of philosophy. Even to ask the question of whether it would be a tragedy if humans were to disappear from the face of the planet requires a normative framework that is restricted to human beings.

Let’s turn, then, and take the question from the other side, the side of those who think that human extinction would be both a tragedy and overall a bad thing. Doesn’t the existence of those practices outweigh the harm we bring to the environment and the animals within it? Don’t they justify the continued existence of our species, even granting the suffering we bring to so many nonhuman lives?

To address that question, let us ask another one. How many human lives would it be worth sacrificing to preserve the existence of Shakespeare’s works? If we were required to engage in human sacrifice in order to save his works from eradication, how many humans would be too many? For my own part, I think the answer is one. One human life would be too many (or, to prevent quibbling, one innocent human life), at least to my mind. Whatever the number, though, it is going to be quite low.

Or suppose a terrorist planted a bomb in the Louvre and the first responders had to choose between saving several people in the museum and saving the art. How many of us would seriously consider saving the art?

So, then, how much suffering and death of nonhuman life would we be willing to countenance to save Shakespeare, our sciences and so forth? Unless we believe there is such a profound moral gap between the status of human and nonhuman animals, whatever reasonable answer we come up with will be well surpassed by the harm and suffering we inflict upon animals. There is just too much torment wreaked upon too many animals and too certain a prospect that this is going to continue and probably increase; it would overwhelm anything we might place on the other side of the ledger. Moreover, those among us who believe that there is such a gap should perhaps become more familiar with the richness of lives of many of our conscious fellow creatures. Our own science is revealing that richness to us, ironically giving us a reason to eliminate it along with our own continued existence.

One might ask here whether, given this view, it would also be a good thing for those of us who are currently here to end our lives in order to prevent further animal suffering. Although I do not have a final answer to this question, we should recognize that the case of future humans is very different from the case of currently existing humans. To demand of currently existing humans that they should end their lives would introduce significant suffering among those who have much to lose by dying. In contrast, preventing future humans from existing does not introduce such suffering, since those human beings will not exist and therefore not have lives to sacrifice. The two situations, then, are not analogous.

It may well be, then, that the extinction of humanity would make the world better off and yet would be a tragedy. I don’t want to say this for sure, since the issue is quite complex. But it certainly seems a live possibility, and that by itself disturbs me.

There is one more tragic aspect to all of this. In many dramatic tragedies, the suffering of the protagonist is brought about through his or her own actions. It is Oedipus’s killing of his father that starts the train of events that leads to his tragic realization; and it is Lear’s highhandedness toward his daughter Cordelia that leads to his demise. It may also turn out that it is through our own actions that we human beings bring about our extinction, or at least something near it, contributing through our practices to our own tragic end.

Todd May is a professor of philosophy at Clemson University and the author of, most recently, “A Fragile Life: Accepting Our Vulnerability.” He is a philosophical adviser for the television show, “The Good Place.” (https://twitter.com/nbcthegoodplace)

Now in print: “Modern Ethics in 77 Arguments,” and “The Stone Reader: Modern Philosophy in 133 Arguments,” with essays from the series, edited by Peter Catapano and Simon Critchley, published by Liveright Books.

¿Por qué incendian iglesias en Chile?: una guerra irregular contra Occidente

Fragmentos do escrito de Vanessa Vallejo, colunista do PanAm Post. Compartilhamos aqui os trechos que se encaixam dentro da narrativa deste espaço, nos distanciando dos lamentos presentes no texto, postura recriminadora e visões exageradas ou conspiratórias que enxergam a catarse chilena exclusivamente como uma “tática esquerdista” promovida por “interferência externa” para se alçar um “regime socialista”. O que se passa em Chile é plural e perpetrado por diversos grupos multi-intencionados, e o escrito da autora é bem assertivo ao observar o fenômeno do caos niilista naquela região como uma guerra ao ocidente, a seu modelo social e valores. A luta contra a civilização e o progresso em maior ou menor grau é uma das faces do que se passa em Chile, e este aspecto da rebelião foi inteligentemente observado pela autora e merece ser compartilhado.

Lo que ocurre en Chile va más allá de la común lucha socialista por llegar al poder. Lo que en el fondo quieren es destruir la cultura occidental (EFE)

Creo, sinceramente, que ni el presidente Sebastián Piñera, ni la mayoría de los chilenos de bien, han dimensionado el ataque del que son víctimas.

Lo que ocurre en Chile no es simplemente la arremetida de un grupo de socialistas que quiere llegar al Congreso y a la presidencia y replicar el modelo cubano o venezolano. Lo que tiene lugar en el país austral es, además, una guerra irregular contra Occidente. Específicamente, lo que enfrentan los chilenos es un ataque práctico y teórico contra las instituciones que refuerzan y mantienen los valores occidentales. La idea, al final, es destruir el sistema. Destruir lo que conocemos como sociedad Occidental.

Reflexione el lector en por qué, en menos de un mes de protestas, van decenas de iglesias profanadas e incendiadas. No solo católicas, sino también evangélicas. Las iglesias protestantes no son fáciles de reconocer; a simple vista parecen bodegas o locales. Sin embargo, los «manifestantes» chilenos han ubicado estas iglesias y les han prendido fuego.

En diferentes calles de Chile, y dentro de las iglesias atacadas, los terroristas han pintado en las paredes la frase: «iglesia bastarda».

Si -como dicen los voceros de lo que ahora llaman «primavera chilena»- las movilizaciones son en contra de supuestas injusticias sociales y «mala situación económica», ¿por qué se ensañan con tal violencia contra las iglesias? ¿Qué culpa tienen los creyentes de las decisiones políticas del Gobierno de turno?

Y, en general, ¿por qué desatar tal nivel de caos? Hay ya más de 20 muertos, la mayoría perdieron la vida al quedar atrapados en medio de los incendios provocados los supuestos manifestantes. La Cruz Roja estima que 2.500 personas han resultado heridas. Unas 6.800 empresas pequeñas han sido destruidas, las estimaciones de los daños en infraestructura ascienden a 4.500 millones de dólares. 70 de las 136 estaciones de metro que tiene Santiago han sido totalmente destruidas. Y se han perdido aproximadamente 100 mil puestos de trabajo.

Lo que ocurre en Chile es terrorismo urbano. La gente normal no se enoja y sale a incendiar iglesias o edificios con gente adentro. Estamos hablando de grupos terroristas que quieren cambiar el sistema -como abiertamente lo dicen y lo pintan en las paredes- a través del caos.

Pero no hablan solo de un cambio de sistema económico, digo que lo que ocurre en Chile no es solo el típico socialismo que quiere estatizar la economía y quedarse con el poder político, los chilenos enfrentan una amenaza que va mucho más allá. El fondo, el objetivo final, es un cambio cultural que ni siquiera los mismos cabecillas de estos grupos tienen claro a dónde nos conduciría, pero lo que sí tienen claro es que necesitan deconstruir la cultura occidental. Lo que conocemos como natural. Por eso atacan las iglesias, por eso atemorizan a los creyentes de esa forma.

Aunque estas ideas puedan sonar extrañas y confusas para muchos lectores que no ven en las protestas chilenas más que una intento común del socialismo para llegar al poder, todo esto del cambio cultural la izquierda ya lo ha propuesto y trabajado desde hace años.

Lo que ocurre hoy en Chile parece la puesta en marcha de lo que alguna vez teorizaron Georg Lukács y los «intelectuales» de la Escuela de Frankfurt.

Lukács, por ejemplo, planteaba la necesidad de sumir a las personas en el pesimismo y hacerlas creer que vivían en un “mundo olvidado por Dios”, para de este modo tener las condiciones necesarias de desesperación social que permitirían la adhesión de nuevos militantes a la causa marxista. La iglesia, católica o protestante, es una barrera de contención contra el socialismo.

Pero yendo al fondo del asunto, tanto Lukács como los teóricos de la Escuela de Frankfurt, dejaron de lado el asunto económico y convirtieron la cultura en su centro de estudio, teniendo claro que lo que querían era provocar «cambios sociales masivos».

La escuela de Frankfurt plantea que bajo la Cultura Occidental, todos viven en un constante estado de represión psicológica, que la libertad y la felicidad solo se conseguirá eliminando lo que conocemos como valores occidentales. Por eso hay que atacar las instituciones como la familia y la iglesia, que son las que refuerzan e inculcan las virtudes sobre las que sustenta Occidente.

¿Cuál es la nueva sociedad que quieren construir? Ni ellos lo saben, estos teóricos de la nueva izquierda creían que estaban tan «alienados» por la cultura occidental que hasta que no la destruyeran no podrían ser realmente libres para saber qué es lo verdaderamente deseable.

Eso sí, tienen claro, y escriben ampliamente al respecto -en libros como “Eros y Civilización”- que la destrucción de la cultura occidental pasa por la eliminación de cualquier restricción a la conducta sexual y la normalización del desenfreno, consiguiendo que cualquier cosa que antes pudiera ser tildada de aberrante ahora deba ser aceptada. La familia, como la conocemos, debe desaparecer, la monogamia es para ellos una atadura y los hijos no deben ser de los padres sino del Estado, de la «comunidad». Y por supuesto la religión es un impedimento para la consecución de todo esto.

Estos mismos grupos que atacan iglesias en Chile -tal vez el más conocido es «Individualistas tendiendo a lo salvaje»-, según dicen sus páginas, tienen entre sus objetivos la «lucha contra la civilización y el progreso científico y tecnológico». Dice la «teoría crítica» de la Escuela de Frankfurt que el progreso técnico es «un mecanismo ideológico de alienación». En Chile, siguen al pie de la letra las teorías de los padres de la izquierda moderna.

Ellos entienden perfecto lo que muchos capitalistas y liberales no comprenden aún, sin valores judeocristianos, sin cultura occidental, no hay capitalismo, de modo que tienen claro que una vez destruida la cultura el capitalismo será imposible.

No hablamos de una guerrilla uniformada a la que se puede atacar frontalmente -como ocurre en Colombia-, hablamos de terroristas vestidos de civiles que incendian iglesias y causan caos.

[VÍDEO] Entrevista do sociólogo Rodrigo Larraín sobre Individualistas Tendendo ao Selvagem

Interessante entrevista de um sociólogo a um jornal chileno sobre ITS. Em seguida um texto analisando o que foi dito.

Entrevista da televisão chilena. O sociólogo entrevistado apresenta um interessante ponto de vista sobre o que representa o grupo Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

A fim de esclarecer algumas coisas ditas no programa e de uma maneira puramente pessoal, darei meu ponto de vista, tentando responder algumas questões. Embora eu deva dizer que, devido à profunda estupidez, insensatez e imbecilidade máxima do entrevistador, nenhum de meus esclarecimentos poderá fazê-lo entender qual é o real pensamento de ITS.

A entrevista é do dia 07 de Janeiro de 2019, e foi transmitida no jornal matinal Chilevision Noticias.

Sobre o Sociólogo

O acadêmico, de uma maneira bem-sucedida, consegue acertar algumas coisas e, em geral, creio que graças a seu conhecimento, ele consegue nos dar uma boa interpretação do significado das siglas. Mas, aparentemente, não tem conhecimento de um ponto crucial da guerra de ITS-Chile, dizendo que ITS concentrou seus atentados nos “setores populares”. Não é esse o caso, e para isso basta apenas lembrar das cicatrizes deixadas no corpo do endinheirado e elitista Oscar Landerretche, essas marcas provam que ITS também executou atentados contra os ricos e burgueses. É de conhecimento público que ITS não crê na guerra de classes nem em nenhuma destas supérfluas bobagens, o grupo não está contra a classe trabalhadora nem contra a dos poderosos, mas contra a humanidade moderna, portanto estas analogias não vêm ao caso.

Ele diz que os grupos de ITS-Chile não têm muitos recursos, e talvez esteja certo, este é um ponto que eu desconheço. Eu me questiono humildemente neste caso, se com os poucos recursos que têm os terroristas do sul conseguiram causar desastres contundentes, nem quero imaginar o que fariam quando consigam seus AK-47 e TNT.

Esclarecido isso, é extremamente interessante a visão do acadêmico de que o ITS funciona como uma seita que recebe ordens “a mando do sobrenatural”. Algo que chamou minha atenção foi como o professor, em seu entendimento, faz uma espécie de “defesa” das ideias do grupo contra a absoluta tolice do jornalista que não capta a essência do discurso dos terroristas.

Sobre o Jornalista

Este profissional meia boca em sua estreita mente e com base em seu humanismo enraizado se contorce de incompreensão ao ouvir as contradições dos terroristas de ITS. A preocupação deste espécime é que ele não consegue entender um grupo que critique a tecnologia e ao mesmo tempo a utilize. É importante dizer que ele não é o único com esta visão.

Eu aceito minha falta de lógica ou minha incoerência, ou como queiram chamar, não tenho nenhum problema moral em me contradizer. Diante deste questionamento eu não tenho a resposta iluminada que me dá a razão, é mais duvidoso que exista uma resposta. Mas vamos supor que eu consiga responder a sua pergunta; “porque usam a tecnologia se a criticam?”. A resposta poderia ser, “bem, porque é a única maneira de encarar sua civilização de maneira equitativa”. Essa é uma resposta possível, mas eu não busco a coerência em meu discurso, porque a verdade é que não quero encontrar uma resposta coerente. Os grupos de ITS entenderam que a única forma de avançar e conseguir travar sua guerra extremista é aceitando esta contradição, torná-la parte de seu caminho de terror e ponto. Deixando de lado laços morais que apenas atrapalham a sua guerra.

Este sujeito fica muito zangado e dá ênfases ao dizer “eles são completamente contra a tecnologia, mas suas mensagens eles mandam pelas redes sociais”. O cara acusa os terroristas de pouco sérios e de ilógicos. O engraçado aqui é que ele acha que a maior contradição é usar a internet, ignorando que a contradição não está apenas em usar a internet, assim como diz as partes mais importantes da entrevista, mas em muitas outras coisas.

Seguindo a lógica da coerência e a lógica que este sujeito aconselha, os terroristas não poderiam usar pólvora, nem tubos de aço, cabos, ou qualquer outra coisa para fazer seus artefatos. Deveriam ir morar no topo de uma colina, e sequer deveriam usar roupas e então andar nus pela rua, o que é algo impossível e estúpido. O cara pensa que ITS deveria utilizar flechas para atacar as máquinas do progresso e esculpir seus comunicados em pedra.

Então, por falta desta coerência, os terroristas não deveriam realizar atentados? Deveriam primeiro encontrar uma ideologia coerente e com isso ficaria justificado o método do terrorismo? Deveriam se render, abandonar sua guerra e deixar tudo como está? Deveriam eles fugirem para a natureza selvagem e se esquecer das vexações da humanidade contra a terra? Estúpido.

Como eu disse, “o ilógico” por utilizar a internet é minúsculo ao lado de outras contradições, como a adoção da misantropia. O mesmo acontece aqui. “Se odeiam a raça humana, porque não se matam primeiro?”. Aparentemente, esta “incoerência” que é mais profunda passa batido pelo sujeito. Talvez alguns terroristas realmente desejem se matar. Mas e se antes de se suicidarem preferissem seguir atentando contra a civilização? E se os terroristas desejem levar a cabo sua misantropia, se matando como os kamikazes e levar com eles a vida de vários humanos? Isso só eles sabem.

Mas isso das contradições não é um problema exclusivo de ITS, os grupos terroristas ao longo da história evidenciaram sua incoerência em alguns pontos. Não sei, penso nos terroristas islâmicos que odeiam tudo o que é ocidental, mas não tem escrúpulos na hora de utilizar a internet ou uma infinidade de produtos de seus inimigos. Os grupos anarquistas antiautoritarios que matam exercendo com isso a autoridade sobre a pessoa morta, ou o terrorista primitivista Unabomber que vivia sem eletricidade no bosque, mas usava materiais tecnológicos da civilização para seus atentados. Bem tudo se repete novamente, as mesmas críticas. Isso parece ser um problema histórico da qual ITS não se isenta.

Como podem ver, se os extremistas de ITS buscassem a coerência, a única coisa que lhes restaria seria dar um tiro na própria cabeça ou se atirar de um prédio. Mas não, desgraçadamente para a ordem social os terroristas não são simplesmente suicidas. A complexidade da mente dos eco-extremistas escapa ao raciocínio humanista. Somos loucos? Pode ser que sim, se a sanidade é a humanidade moderna e seu progresso implacável, então estamos loucos, fodidamente loucos.

Nascemos nesta era, a era da híper-tecnologia, não utilizá-la a nosso favor seria algo idiota, infantil e orgulhoso da nossa parte. Os povos selvagens ancestrais ao longo da história enfrentaram os invasores que buscavam conquistá-los, inicialmente utilizando ferramentas primitivas, mas logo entenderam que não era viável essa confrontação. O que fizeram? Se renderam? Deixaram que os invadissem sem mais nem menos? Claro que não. Em vez disso, se apoderaram das armas modernas de seus inimigos (armas de fogo, cavalos e táticas de guerra) e com isso travaram uma guerra sangrenta. O mesmo faz os terroristas modernos ao utilizar as tecnologias modernas, seja a internet, eletricidade, pólvora, vestimentas, comidas, etc.

Sem dúvida, poucos serão capazes de entender isso, já que é necessário um nível superior de inteligência para chegar à compreensão. Portanto, toda essa ninhada de jornalistas de quinta categoria, reportuchos de jornais ou simples cidadãos nunca entenderão. Em seus pequenos cérebros humanistas, onde tudo tem que ser razoável e coerente nossos postulados arrancam a sua lógica.

É por isso que pessoas intelectualmente superiores, como o acadêmico entrevistado, conseguem entender melhor a situação do terrorismo moderno.

-Malviviente

Excursionismo

Tradução do texto Hiking, escrito por Abe Cabrera.

Cenas de uma vida dupla.

“Só queremos deixar claro que nenhum ser humano estará tranquilo na natureza, nós não acreditamos ser coiotes, lobos, ou qualquer coisa assim, mas nós somos aqueles que não hesitarão em disparar uma arma para que nenhum ser humano pise na pouca natureza semivirgem que ainda existe, então a partir daqui advertimos que nenhum eventinho desses como a “montanha fantasma” que organizam, as visitas à “floresta dos vagalumes”, passeios pelos bosques, eventos humanistas e estúpidos de “sobrevivência primitivista”, nenhuma pessoa é bem-vinda na natureza, será melhor que se abstenham de querer entrar e é melhor que fiquem em suas malditas cidades”.

– Vigésimo Nono Comunicado de ITS/GITS

“Quero viver nas florestas com predadores. Não quero ser o animal mais perigoso nas matas quando entro nelas. Eu gosto de saber que existe um predador maior por aí, um que pertence e se encaixa em um ecossistema saudável. Odeio a ideia da natureza como um espaço rural, livre de todas as ameaças. Essa é a visão do invasor, não a minha.”

– Rod Coronado, “A Resiliência do Selvagem: Lobos Falando e Espreitando com Rod Coronado.”

Black and Green Review Nº 1 (primavera de 2015), página 108.

Quando ando pela floresta, tento estar o mais atento possível. Mas no fundo da minha mente, eu sei que estou em um lugar seguro. De fato, até digo a minhas filhas que o lugar que fico mais nervoso é o estacionamento subterrâneo do shopping. Este é o lugar mais antinatural que um humano poderia conceber, razão pela qual é um dos mais provocadores de ansiedade que alguém possa imaginar. De qualquer forma, o problema real são os carros dando ré, que é uma das situações mais notáveis para acidentes de carros. As crianças, sendo pequenas, poderiam facilmente serem atropeladas por um condutor que não presta atenção ao que está atrás dele. Em comparação com a floresta aqui, o máximo que poderia ser encontrado seria uma serpente ou parar sobre um formigueiro. Com muita sorte se poderia encontrar um lagarto tomando sol, ao lado de um pântano ou uma lagoa. Mas os lagartos são muito tímidos, e fugiriam para a água se alguém os encontrasse.

Ironicamente, em locais selvagens no Oeste, mesmo em lugares que parecem muito mais desenvolvidos, caminhar na natureza poderia ser potencialmente uma proposta muito mais perigosa. Quando eu morava nas montanhas da Califórnia Central, sempre tive medo de me encontrar com um leão da montanha, especialmente quando alguém dizia que havia visto um em alguma montanha, fora do local onde eu estava me hospedando. Lembro-me de ter ficado em outro lugar, e tive que sair para caminhar muito cedo pela manhã, no escuro, e estava desesperadamente com medo de me encontrar com um leão da montanha ou um urso. Os porcos selvagens eram também uma preocupação. No deserto eram os cães errantes que eu mais temia, e levava inclusive uma vara. Uma serpente cascavel poderia ser facilmente evitada: ao contrário das pantanosas florestas de pinheiros, há pouca grama no deserto para que se escondam. O máximo que eu vi foi um pequeno lince ou um coiote meio emaciado. Ao me verem sequer mudaram seus cursos, seguiram vagando.

Também vi coisas menos ameaçantes. Os cervos são abundantes a oeste, já que a caça é estritamente proibida. Caminhando nas terras de Robinsón Jeffers, especificamente em Wolf Point, cheguei a dois metros de um cervo, e fiquei diante dele. Ele me olhou e não tinha medo. Durante semanas em um dos lugares em que eu estava hospedado, mencionado acima, uma família de cervos passava todas as tardes, perto das cinco horas em ponto: uma cerva e cerca de cinco filhotes. Certa manhã, acordei para encontrar com um lindo cervo de cifres predominantes que havia sido atropelado campina abaixo. Essa visão partiu meu coração.

Houve outros encontros, e haverá mais sem dúvidas. Mas estou começando a perceber que estas epifanias do Deus Selvagem do mundo, se manifestam dentro do cativeiro Babilônico, uma curta, mas trágica época em que um animal decidiu que dominará tudo, e que tudo que restar o servirá enquanto sua existência puder se beneficiar disso. Por exemplo, os lagartos nesta área quase foram extintos no início do século passado. Ursos, lobos, panteras e martas vagavam por estas florestas. Sem dúvida, o grande coro dos pássaros foi uma grande orquestra até não muito tempo atrás. A floresta abre de tempos em tempos mausoléus a céu aberto, e inconfundivelmente silenciosos em comparação a quando uma sinfonia total de animais acrescentava suas medidas musicais. E elas (as florestas atuais) *¹ foram feitas desta maneira por e para o homem. Eu já comentei como minha área nativa na Califórnia foi alterada além do reconhecível.

Declaro tudo isso porque recentemente me pediram para refletir sobre o selvagem *². Para mim, não existe tal coisa. A “natureza” existe completamente a critério do homem. Leia um livro como A Terra dos Cervos: A Caça na América Para o Equilíbrio Ecológico e a Essência da Vida Selvagem, e você percebe que mesmo os selvagens e impressionantes cervos são meramente um produto da civilização: uma população que é permitida vagar e que são extraídos de acordo com cotas muito estritas do governo. De fato, a forma pela qual algumas pessoas caçam cervos, usando milho para atraí-los e ficando a postos para disparar contra eles, já que o cervo não consegue levantar seu olhar, está mais para um massacre que para uma caçada. Existe até um procedimento que a pessoa deve seguir se ela atropela um cervo (que é um acidente muito comum em algumas partes dos Estados Unidos). Em algumas partes do sul, enquanto se está transbordando de árvores, elas são colhidas de acordo com uma determinada agenda. Há a temporada dos lagartos, dos patos, etc., etc. Considerando o número de armas nesta parte do mundo, e o entusiasmo de alguns em usá-las contra animais comparativamente indefesos, a única coisa que impede estas criaturas de serem extintas é o Estado. Muitos animais foram extintos apoiando esta hipótese, uma vez que o governo foi menos entusiasta para protegê-los.

Então enquanto as pessoas pensam que o Estado está contra a “Natureza”, eu estou um pouco relutante em concordar. Se o Estado e a sociedade tecnoindustrial entrassem em colapso amanhã, os primeiros a morrerem seriam todos os animais. Todos os cervos: mortos. Tartarugas: mortas. Lagoas e rios: saturados pela pesca. As pessoas até mesmo começariam a matar os guaxinins e gambás (que eu ouvi dizer que caem bem se vão acompanhados com batatas). Talvez comecem a comer tatus, que dizem que carregam lepra, e depois cães e gatos, e assim por diante. Muitos romances distópicos foram escritos sobre isso. Se a sociedade tecnoindustrial entrasse em colapso amanhã, o leve, mas entusiasta coro da floresta, cairia em silêncio total, enquanto milhões de humanos vagariam pelos espaços silvestres a procura de carne para se alimentar. A descrição de Paul Theroux do silencioso campo da Angola destruído pela guerra, em seu livro The Last Train to Zona Verde, vem à mente.

Claro, agora é muito mais perigoso andar pelos bairros mais distantes, Eu sei, tendo sido assaltado uma vez, tarde da noite, na Califórnia (não levaram nada, e descobri que eu poderia aguentar um soco). Os tiroteios geralmente ocorrem à noite, assim como todos os tipos de assassinatos, roubos de veículos, violações, assaltos, etc. Homo homini lupus*³, especialmente quando todos os lupis reais, foram massacrados pelas mãos do homo sapiens. Ou talvez não seja tão sábio ao tentar criar um mundo em que ele é o único predador a ser temido. É verdade, talvez, que a única Natureza Selvagem que resta está no coração do homem: em seu coração mortal, frio, onde apenas outros homens são presas. No final, este é o mundo que criamos. Um em que a única forma de replicar a sensação do homem primitivo, caminhando pelo bosque primaveril, é afrontando outro homem na floresta artificial de concreto, concebida fora de sua mente limitada. Lá pelo menos deve permanecer alerta e consciente de sua própria mortalidade. Na floresta real, a reserva que sobrou da civilização, é como um claustro monástico em comparação.

De qualquer forma, penso eu, que posso entrar na floresta, no pântano, e nas águas para expressar minha dor. Talvez algum dia, outro homem possa sentir a plenitude de viver entre as árvores, rochas e águas, onde ele é meramente outro animal, a potencial comida de algum animal, e somente outra voz na grande Roda Cósmica. Isso e nada mais. Talvez isso aconteça novamente no sonho do Mundo, talvez não, mas não voltarei a cometer o erro de acreditar que sou eu quem está sonhando.

1. * Esclarecimento do tradutor.
2. * Referindo neste caso a áreas selvagens, geograficamente.
3. * (O homem é o lobo do homem)

Minha Autoridade

Texto extraído da terceira edição da Revista Ajajema.

É um pouco difícil para mim começar a escrever algumas palavras, posto que os teóricos da tendência se lançaram no abismo das reflexões. Tanto que muitas vezes sinto que logo ficaremos sem mais nada para dizer. Muitas coisas já foram ditas, cada uma igualmente interessante. Reflexões muito letradas, especialmente a dos manos dos EUA. Às vezes invejo a capacidade reflexiva e intelectual dos compas. Ler cada palavra dos irmãos e irmãs de tantos lugares é uma alegria e um tremendo impulso anímico para o espírito. Cada uma de suas contribuições para a guerra, cada texto encorajando a Máfia, cada escrito resgatando as vidas dos povos primitivos, as reflexões enaltecendo o Oculto e o Desconhecido, e suas bocas lançando maldições pagãs em detrimento da civilização e a humanidade. Tudo isso é uma lufada de ar fresco para os individualistas que lhes custa tirar dentro de si as palavras, como é o meu caso.

Sabendo disso, atrevo-me a escrever algumas palavras sobre a autoridade da Natureza Selvagem, de suas indiscriminadas manifestações, de seus massacres contra a humanidade, do chamado que fizeram alguns compas para alegrarmo-nos com cada tragédia caótica da Terra sobre a civilização.

Os irmãos do grupo editorial da Revista Ajajema fizera-me o convite para eu somar com alguma contribuição para a sua terceira edição, e com prazer me animo e escrevo estas palavras soltas. Reflexões caóticas a quem interesse. Aí vou eu…

Comecemos com uma pergunta bastante básica, o que é autoridade? Ou, pelo menos, o que eu entendo por ela. A autoridade vem sendo uma figura (mística ou real) a qual você deve respeito e/ou obediência. A autoridade hoje em dia é vista como algo bastante ruim, repressiva, abusadora, tanto que há radicais que visam eliminá-la e, de certa forma eu encontro uma afinidade aí. Sem dúvida a autoridade civilizada é uma verdadeira merda, mas, ao contrário destes radicais, não me esforço para erradicá-la. Acredito que tudo dentro da vida civilizada é repugnante, então por que tenho que parar e me concentrar em apenas um aspecto dela? É uma pergunta muito boa. Eu não rechaço a autoridade humana como instinto, aquela ancestral que sempre esteve presente. Os compas escreveram bastante a respeito do termo autoridade “inócua” e “iníqua”.

A primeira coisa que tenho que dizer é que não tenho problemas com a “autoridade humana”, não tenho problemas com alguém que me diga o que eu tenha que fazer. Não sou um “anti-autoritário”, porque ao contrário deles, eu acredito na autoridade, creio ser capaz de dar ou receber uma ordem, e aqui não vejo nenhuma relação de submissão. Obviamente, aqui me refiro claramente àquela autoridade inócua que pode exercer, por exemplo, um compa quando estamos em uma ação, quando ele é o encarregado a me dar a ordem para que eu possa me aproximar do alvo para atacar, ou quando este mesmo cúmplice tem que me chamar a atenção quando estou cometendo um erro que pode colocar em risco o plano, ou quando eu devo ser o encarregado de decidir quais serão as rotas de fuga e então guiar os outros, e mais um monte de exemplos do exercício da autoridade. Eu poderia dizer da mesma forma que, em alguns casos, a “autoridade biológica” (os irmãos, os pais, os avós, etc.) podem ser também um exemplo de autoridade inócua. E mesmo sabendo o quão desgraçados podem ser os familiares biológicos em algumas ocasiões, ninguém pode negar o quão vital e necessária é a autoridade, por exemplo, de uma mãe a seus filhos pequenos.

Nem preciso falar sobre isso, que “sinto certo rechaço” pela autoridade humana civilizada, e aqui me refiro a todos estes seres que em sua maioria estão por trás de um uniforme dentro das grandes cidades. E quando digo que “sinto certo rechaço”, quero dizer que realmente não tenho um sério conflito com ela. Entendo e sou consciente de que as cidades e a civilização enquanto existam estão e estarão controladas pela autoridade, não há dúvidas quanto a isso, então, estar em “guerra contra a autoridade” pelo menos eu não vejo como algo para concentrar minhas energias e minha vingança.

Bem, isso é o que posso dizer sobre o que penso da “autoridade real”. Acredito que seja necessário dizer algo da autoridade ancestral e onipotente que é a Natureza Selvagem, daquela “autoridade mística” representada por todo o desconhecido da Terra, aquela que se manifesta com a chuva e o raio, com os tsunamis e as erupções, nas luzes do céu escuro após um terremoto e no som dos rios, evitando os séculos de intelectualidade e raciocínio científico do porque que as coisas acontecem, e jogando fora todo o lixo da teoria humanoide que se atreve a explicar o inexplicável. Para todos estes eu digo: humanos modernos híper-civilizados, me deixem com minha essência primitiva, essa que tinham os antigos humanos que sim sabiam de algo.

Eu digo isso com o maior orgulho, a Natureza Selvagem é minha autoridade, e por quê? Porque ela está acima de Mim, acima de tudo e todos, ela é quem me rege, a ela devo obediência e respeito, ponto. Seus ciclos naturais são os que me ditam as normas que devo seguir. Assim como a porra do motorista de um carro segue as leis do trânsito, eu sigo as leis a Terra. As nuvens negras me indicam chuva, a chuva me indica refúgio, e logo me sugere para me preparar para o frio posterior. Os rios tem a força ancestral e eterna da Terra, eu me aproximo deles quando estou perdido, sei que me guiarão em meu caminho. Os demais animais são capazes de seguir as leis da Terra, sabem onde e quando dormir, onde e quando acordar, onde e quando se esconder, onde e quando se alimentar ou procriar.

A espécie humana perdeu todo o contato com a maravilha da Terra. Ela se tornou incapaz de combater um resfriado, agora curam-no abruptamente com químicos nocivos. Como alguns irmãos disseram, “quem não tem dinheiro fica gripado”, pura verdade!

Muito tem sido dito sobre os desastres naturais, eles inclusive são festejados por alguns compas que fizeram um chamado para se alegrar com a desgraça humana, chamado ao qual, sem dúvida, me somo. Eu li que algumas pessoas por aí são contra a comemoração de desgraças como estas, já que em alguns casos as vítimas são pessoas extremamente pobres, elas ficam indignadas por nos alegrarmos com os mortos, especialmente quando são crianças, nos chamam de monstros perversos por essa e outras coisas mais.

O que me ocorre com estas posturas classistas é um tremendo asco, isto é, se o furacão destrói um bairro burguês cheio de milionários e mata a todos, que bonito! Mas se a chuva inunda algum povoado de algum país asiático bastante pobre, que pena. Como se as manifestações da Terra se importassem quão rica ou pobre uma pessoa é. Ou celebramos o Caos sem nenhum problema e sem a mínima culpa ou calamos a nossa boca de merda. Esses aí que andam se alegrando quando morrem policiais ou os filhos dos ricos empresários e que entram em choque quando nós nos regozijamos com a morte humana indiscriminada são uns hipócritas moralistas.

Devo o respeito e a obediência a todas as belezas e a violência da Terra, a cada um de seus ciclos primordiais. À garoa de manhãzinha em pleno verão que encharca os campos e montanhas. Aos insetos que se escondem embaixo da terra no inverno, e que saem em massa para estocar alimento no verão. Às chuvas de inverno que inundam toda a cidade, a que torpemente amaldiçoa o humano híper-civilizado. Ao verão infernal que esquenta a terra e propaga incêndios ferozes. Ao canto dos grilos e o voo do pássaro. Ao grito da raposa. Ao por do sol que nos mostra a maravilha do céu. À lua cheia que aparece quando tudo está escuro e que brilha como o dia. À precaução e o sigilo dos coelhos que esperam que as montanhas cubram a lua antes de saírem para comer. Ao medo que senti quando dormi em meio ao selvagem e que me paralisava ao escutar o som de algum animal, às pisadas de algum ser entre as árvores que fazem com que meu ser se angustie, à este maravilhoso pavor que só algumas pessoas experimentaram. Às profundidades dos oceanos. Aos abismos infinitos das montanhas. À cordilheira que mantém o gelo para sempre. À erva e as flores que persistem em pleno deserto. Às mariposas, borboletas e vespas que aparecem em meu caminho.

Eu rezo a todo o oculto e desconhecido da Terra, me curvo e me entrego. Decidi confiar-me aos espíritos dos antigos sempre que deixo o meu refúgio, lhes agradeço por terem cuidado de mim em minhas andanças terroristas até meu retorno. Eu toquei as terras com meus pés e mãos em um ato de conexão suprema com a Terra e toda a beleza dela. Me olharam com desgosto por falar com as plantas e saudar os animais de rua. Porque sempre peço permissão à árvore quando vou arrancar alguma de suas folhas, peço permissão e agradeço. Tudo isso faz parte de meus processos individuais e únicos que não se encontram regidos por nenhuma ideologia, é uma conduta caótica e selvagem que adora e enaltece o Selvagem e o esquecido pelo ser humano moderno híper-civilizado.

Pela autoridade da Terra sobre Meu ser!

Amém…

Espírito Tanu

A Águia e o Falcão

Conta uma velha lenda Sioux que uma vez chegou à tenda do feiticeiro mais velho da tribo um casal apaixonado de mãos dadas: Touro Bravo, o mais valente e honrado dos jovens guerreiros, e Nuvem Alta, a filha do cacique e uma das mais bonitas mulheres da tribo.

“Nos amamos”, começou o jovem.

“E vamos nos casar”, disse ela.

– “E nos amamos tanto que temos medo”.

– “Queremos um feitiço, uma conjuração, um talismã”.

– “Algo que assegure que estaremos lado a lado até encontrar Manitu no dia da morte”.

– “Por favor”, repetiram. “Há algo que possamos fazer?”.

O velho olhou para eles e ficou emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados…

– “Há algo…”, disse o velho depois de uma longa pausa. “Mas não sei… é uma tarefa muito difícil e sacrificial”.

– “Não importa”, disseram os dois.

– “Pode ser qualquer coisa”, ratificou Toro Bravo.

– “Bem”, disse o feiticeiro. “Nuvem Alta, você vê a montanha ao norte de nossa aldeia? Deverá escalá-la sem nada a mais além de uma rede em suas mãos, e deverá caçar o mais belo e vigoroso falcão da montanha. Então você deverá trazê-lo aqui com vida no terceiro dia após a lua cheia”.

– “E você, Touro Bravo”, continuou o feiticeiro. “Deverá escalar a Montanha do Trovão e, quando chegar ao topo, encontrar a mais valente de todas as águias e, somente com suas mãos e uma rede, pegá-la sem feri-la e trazê-la a mim, viva, no mesmo dia em que virá Nuvem Alta. Compreenderam?”

O casal assentiu e o velho xamã fez um gesto indicando que não tinha mais nada a dizer. Os jovens se entreolharam com ternura e depois de um fugaz sorriso partiram para cumprir a missão que lhes foi confiada, ela ao norte, ele ao sul. No dia estabelecido, diante da tenda do feiticeiro, os dois jovens esperavam com sacos de pano contendo as aves solicitadas.

O velho pediu-lhes que, como muito cuidado, as tirassem dos sacos. Os dois jovens retiraram-nas e expuseram, ante a aprovação do velho, os pássaros caçados. Eram verdadeiramente formosos, sem dúvida os melhores de suas linhagens.

– “Voavam alto?”, perguntou o feiticeiro.

– “Claro, como você pediu… e agora?”, perguntou o jovem.

“Esperamos um sacrifício? Devemos matá-los? O que temos que fazer?”

– “Não”, disse o velho sábio. “Faça o que eu disser: pegue as aves e amarre-as pelas patas com estas tiras de couro. Quando estiverem amarradas, solte-as e as deixe voar livres”.

O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi pedido e soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram levantar vôo, mas conseguiram apenas chafurdar no chão. Poucos minutos depois, frustradas, se arremeteram uma contra a outra à bicadas, até se lastimarem.

– “Este é o feitiço. Jamais se esqueçam o que viram. Vocês são como uma águia e um falcão: se são atados entre si, mesmo que por amor, não só viverão se rastejando, mas também, cedo ou tarde, começarão a machucar um ao outro. Se vocês querem que o amor de vocês perdure, voem juntos, mas jamais atados”.

Conto Siux.

Aponte Mais Alto

Tradução do escrito Aim Higher, de Abe Cabrera.

Alfredo Bonanno abre sua famosa obra, “O Prazer Armado”, com esta passagem:

“Por que diabos estes benditos meninos atiraram contra Montanelli nas pernas? Não teria sido melhor ter disparado na boca? Claro que sim. Mas, além disso, teria sido mais grave. Mais vingativo e sombrio. Deixar fodida uma besta como esta pode ter um lado mais significativo, mais profundo, que vai além da vingança, do castigo pela responsabilidade de Montanelli, jornalista fascista e servo dos grandes senhores. Aleijá-lo significa forçá-lo a desistir, a lembrar-se. Por outro lado, é uma diversão mais agradável que atirar em sua boca, com pedaços de cérebros saindo de seus olhos.”

Claro, matar alguém é muito mais definitivo que deixá-lo coxo, sem dúvida. E talvez haja também consequências legais envolvidas (peso na consciência?). É como quando algumas pessoas dizem que a vida na prisão é pior que a pena de morte. Há um ponto aí, dependendo da perspectiva do observador. Pessoas inocentes podem ser libertadas, mas não podem ser ressuscitadas. Talvez um fascista coxo possa mudar seus costumes, ou talvez você apenas quer que ele sofra. Talvez você durma melhor à noite sabendo que “só o deixou coxo”. Ler a mente de alguém é um exercício fútil, então pararei por aqui.

Mas por que disparar na cara de um fascista seria mais “grave”, mais “vingativo e sombrio”? (“Ma sarebbe stato anche più pesante. Più vendicativo e più cupo.”) Bonnano passa a falar da piedade dos revolucionários, levando em consideração que a revolução está longe de ser piedosa. Para ele, estão apenas de fofoquinha, para se divertirem contra a máquina cinzenta que busca nos oprimir, e outro monte de blá blá blá insurrecional sobre ter esperança, mas sem realmente ter esperança, lutar, mas se divertir ao mesmo tempo, etc. Tudo se resume em ultrapassar estas dicotomias, e é por isso que a coisa menos grave é mais divertida enquanto que a coisa mais sensível (disparar na cara e eliminá-lo) é de alguma forma a coisa mais moral, o mais “sombrio”, e o menos subversivo.

Mas, de acordo com alguns grandes insurrecionalistas sem insurreição, ainda mais subversivo é não fazer completamente nada e fingir que o mundo “normal”, o mundo em que se vive de fato, o de milhões de pessoas, simplesmente não existe. Veja você, tudo se trata de fugas binárias, bem e mal, revolução e vida real, natureza e civilização, o Eu e Você, o Um e os Muitos, etc., apenas afirmando que não existem. (Isso me lembra a história talvez apócrifa da Rainha Vitória apagando a Bolívia do mapa após o Embaixador de Sua Majestade Real ter sido expulso do país e posto nas ruas montando um burro como forma de humilhação). Veja como tudo se trata da percepção; estar consciente em oposição e ser “inconsciente” (estar acordado* NdT 1, como as crianças dizem nos dias de hoje). E neste sentido, fazer qualquer coisa que se assemelhe remotamente ao terrorismo, violência revolucionária, ou mesmo a violência criminal, é cair nas mãos do Binarismo Opressor. Em sua bolha, se você denuncia o Binário desde o começo, você vencerá e terá transcendido. Sim, eu também sou um bastardo em minha imaginação. Meus amigos imaginários também pensam que sou especial (“Insurrecionalistas sem insurreição” me lembra a caracterização do comunista Bukharin dizendo que o anarquista é um liberal com uma bomba. Você pode fazer a aritmética sozinho). Foi aproximadamente na metade da minha vida, mas ainda posso me lembrar da Ideologia Alemã e processando o jovem Marx, seu ponto principal era que a refutação de algo no abstrato não destrói aquilo no mundo físico. Eu não vou entrar em toda a polêmica do “São Marx”, mas vou tentar citar Teses sobre Feuerbach encima de outra problemática hegeliana que o autor comunista aborda:

“O problema de saber se ao pensamento humano pode ser atribuído uma verdade objetiva não é um problema teórico, mas um problema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a mundanidade de seu pensamento. O litígio sobre a realidade ou irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico…

A vida social é, em essência, prática. Todos os mistérios que levam a teoria ao misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.”

Vamos salvar o leitor de toda a questão de “o ponto está em mudar isso”. Outro marxista (Trotsky?) resumiu o princípio mais sucintamente dizendo algo como (parafraseando): “Quando uma ideia busca o controle das massas, se converte em uma força material.” Não importa se uma ideia é “falsa”, se existe um deus ou não, etc. Deveria importar, mas realmente não é assim. Se as pessoas estão prontas para matar ou morrer por ela, é uma realidade física, pode até ser uma realidade física superior (um deus?). O progresso, por exemplo, pode ser um fantasma sem base na “realidade física”, mas essa ideia criou a Hidrelétrica das Três Gargantas na China: a crença firme na ordem, no futuro, na benevolência da dominação do homem sobre a natureza, νόμος sobre φύσις. Você se negar a lidar com isso e retrair sua própria imaginação e opinião significa simplesmente que você acaba protegido por sua fortaleza de opiniões intransponíveis. Isso parece uma vitória pírrica, se é que alguma vez existiu uma.

Mas vamos voltar ao tiro na perna: não poderíamos dizer que este “prazer” está infectado pela ideologia neo-cristã, como um malware criando um backdoor no software insurrecional? Por que não é divertido ver cérebros escorrendo pelo oco de um olho, mas ver um fascista se contorcendo de dor porque lhe espatifaram a patela é legal? Pode ser que haja medo que te considerem um psicopata por matar alguém, mas regojizar-se por deixar alguém coxo não deveria te catalogar no status de psicopata, é? (explique isso para uma pessoa comum para ver se compram a ideia). Não poderia ter nada a ver com todo o assunto de “Não Matarás”, certo? Ou o monopólio absoluto sobre a vida e a morte que o Rei, o Estado, etc., reivindicaram sobre as pessoas por milênios no contexto europeu? Talvez estas pessoas deveriam começar a ser honestas consigo mesmas, mas provavelmente não o farão. Elas não deveriam se surpreender, em todos os casos, quando algum de seus compas chegue a conclusão de que todo o derramamento de sangue é “fascista”, ou se alguns mais ainda confusos flertam com os “movimentos sociais” que promovem a intervenção do Estado para desarmar todo o mundo.

A moeda humana, mesmo para o mais fervoroso insurrecionalsita, para o traidor da espécie mais entusiasta, é preciosa demais. Não vamos invalidar esta moeda, eles exortam; ao fazê-lo, a pessoa cai no cálculo moral da sociedade. Ao ser imoral, reverencia-se a moralidade, em oposição a ter a atitude correta, a “consciência correta”. Uma percepção tão alta pode tornar a travessia de uma rua um ato revolucionário, pode criar abundância do nada, pode partir o mar. Mas em termos de desafiar o humanismo inerente, o cristianismo inerente a todas as ideologias “radicais”, não podemos fazer isso. Desculpe, não vamos prestar-lhes atenção, e seguiremos com a próxima moda da semana que prometa salvar uma sociedade que não quer ser salva, ou ao menos nosso confortável lugar nela.

Atirar no joelho é atirar nos ramos mais altos. O atacante está claramente perturbado por algo a ponto de usar a violência. Por que você quer ferir essa pessoa? Por que ela tem poder? Quem lhe deu esse poder? Ou quem consente que o tenha? Há mais de “nós” que “deles”, certo? Com quem você realmente está zangado? Você realmente acha que matará a árvore se você podar o suficiente? O que te impede de atirar na raiz? Quando você se vê de frente para o indivíduo e para o coletivo, o que te impede de apontar mais alto, acima dos joelhos, na direção de onde o problema realmente está? Além do bode expiatório para a Massa amorfa que o mantém em sua posição de poder?

Nota do Tradutor:

1. A palavra usada em inglês é “woke”, termo político de origem afro-americana que se refere a uma consciência perceptiva respeito à justiça social e a justiça racial. Nas acepções mais modernas do termo, é usado para falar de consciência social em termos gerais.

Secret Forest Society Plans to Kill Bolsonaro

Extraído do site da organização ecológica Deep Green Resistance.

Jair Bolsonaro, Brazil’s openly fascist President, is loathed by groups who care about preventing climate collapse and protecting the Earth’s last healthy ecosystems. According to the Guardian, Bolsonaro’s policies are now resulting in 3 football fields per minute of rainforest destruction, and scientists fear that the Amazon is reaching a critical tipping point, beyond which it will be impossible to save. If that “point of no return” is breached it will result in massive forest fires, which will release an immense amount of sequested CO2 into the atmosphere, accelerating climate collapse and annihilating one of the Earth’s sources of oxygen. Violence is also increasing and loggers have begun killing indigenous leaders and resistors from the over 400 tribes who call the forest home. Bolsonaro has overseen major funding cuts and firings at the Brazilian indigenous affair agency, which has gutted the few remaining governmental protections for these people.

Presumably this is why the Secret Forest Society (Sociedade Secreta Silvestre) have now targeted Bolsonaro for assassination. Two weeks ago, Veja Magazine interviewed one of the leaders of the Secret Forest Society (SSS), a branch of an international organization called the Individualists Tending Toward the Wild (ITS). The leader, identified as Anhangá, claimed that Bolsonaro was supposed to be executed on the day of his inauguration, but they were temporarily foiled by an unexpected security presence. Since then Bolsonaro has cancelled several key events, including an open car parade. Anhangá stated “We could easily blend in and carry out this attack, but the risk was enormous (…), so it would be suicidal. We didn’t want that.”

It is unclear how or when the Secret Forest Society plans to assassinate Jair Bolsonaro, but their affiliates in the ITS have been linked to letter bombs, University explosions, and the successful assassination of a biotechnology researcher. Their organization claims to stand up against people and systems that lead to environmental destruction, and they advocate for using extreme measures against nature’s enemies.

A Amazônia Queima, e Queima Também a Consciência dos Híper-civilizados

Texto traduzido do blog Maldición Eco-extremista.

A Amazônia arde, já é notícia mundial. O fogo avança e queima tudo, e os híper-civilizados temem… Os alarmes estão ligados e nas redes sociais todos gritam aos céus: por que ninguém faz nada? Nosso planeta está morrendo!

Parece que a consciência mundial sobre o estado catastrófico em que submergimos o mundo está despertando, EM 2019! Lamentamos informar que já é tarde demais para isso, e “nosso planeta” está desgraçadamente condenado, ou melhor, “nosso mundo”, porque o planeta seguirá adiante sem nós.

Mas nós os parabenizamos, já que conseguiram fazer com que a Amazônia se tornasse trending topic no Twitter, certamente os animais mortos estarão agradecidos, e não há dúvidas de que a partir de amanhã começaremos a ver como as árvores se regeneram com base em likes e compartilhamentos. Que piada de merda…

Há algo que não resta dúvidas, a fúria é uma resposta adequada à devastação, mas não a que se indigna, sim a fúria que queima, que detona e que castiga.

Todos os dedos apontam a Bolsonaro como o maior culpado, e embora seja o caminho mais fácil, não se pode negar que o bastardo está particularmente ligado à acelerada destruição ambiental, no entanto, quantos vão além das palavras? Até onde sabemos, apenas um grupo esteve planejando a execução do bastardo. Se perguntam qual é?

Já faz muito tempo que nós vimos a crueza deste mundo, e se alguém precisa que toda a Amazônia seja queimada para se dar conta disso, que assim seja, desde que a resposta seja proporcional. O tempo das lamentações acabou, como os guerreiros da ALF já disseram: se não é você, então quem será? Se não for agora, será quando?

Ataca, queima, assassina!
Que a raiva se traduza em ódio misantrópico!
Morte à humanidade moderna!

Alguns vídeos para entender os últimos acontecimentos na região amazônica.

Sobre o Eco-extremismo

Texto extraído da sexta edição da Revista Ajajema.

Minha relação com o eco-extremismo passou por muitas etapas ao longo dos anos, e recentemente senti uma espécie de necessidade de fazer uma reflexão pessoal sobre a tendência e minha relação com ela. Como uma nota destacada, o eco-extremismo não é um tema monolítico. Foi entendido de diferentes maneiras, até mesmo por aqueles dentro da própria tendência. Consequentemente, não pretendo oferecer nenhum comentário definitivo, apenas reflexões sobre minhas próprias abordagens (teóricas) com o eco-extremismo como uma tendência de ação e pensamento anti-civilização.

Antes de minha mais recente virada rumo à uma perspectiva mais “anti-civ” (um termo que chegou a me desagradar porque é muito amplo e inclui uma bagagem desagradável), minhas raízes se alojavam firmemente nos campos ideológicos do esquerdismo contemporâneo. Eu provavelmente teria me declarado como uma espécie de Marxista Libertário se tivessem me perguntando. Sustentei a doutrina do progresso, acreditava na delicada luta por um amanhã melhor, o futuro utópico. E fui, embora com relutância, um humanista, acreditava em uma espécie de bondade subjacente ao ser humano que poderia ser descoberta ou atualizada se apenas os meios de produção fossem liberados de suas contradições, derrubados, ou alguma outra merda como essa.

Eu encontrei alguns laços com o que agora sei que eram versões do anarco-primitivismo inspiradas por Zerzan, mas geralmente achava ridículo por várias razões. Mas minha primeira introdução ao eco-extremismo veio de uma série de trabalhos teóricos de um escritor eco-extremista sob o nome de Chahta-Ima. Muitos desses textos exploravam as nuances e as bases filosóficas da tendência. Eu encontrei nos escritos de Chahta-Ima e em grande parte do resto do material ligado à tendência (Revista Regresión, os comunicados de ITS e Reacción Salvaje, Atassa, etc.) algo que ressoava profundamente tanto em meus crescentes desacordos com toda a visão do mundo progressista e humanista e com a monstruosidade histórica que ele gerou, como com minha crescente reverência pelo inumano.

Em um nível teórico (e nível prático, no que diz respeito a isso) o eco-extremismo foi e ainda é um punhal frio no coração das estruturas filosóficas e materiais que sustentam o mundo progressista e humanista. Desde as desconstruções da filosofia humanista e progressista até a explosão de cada artefato incendiário, a tendência é uma manifestação visceral do rechaço violento da ordem existente.

Além de sua marca particular de “anti-modernismo violento” (por falta de um termo mais apropriado) os escritos expressam uma bela forma de reverência às raízes do inumano em grande parte por uma tentativa de reivindicar as crenças animistas/pagãs e seus correspondentes laços ancestrais com a terra, bem como um antigo legado de resistência violenta contra o avanço do progresso. Estas questões são amplamente desenvolvidas nas etapas de atividades eco-extremistas definidas pelo desenvolvimento de Reacción Salvaje e o trabalho articulado em vários números da Revista Regresión, e se mantiveram realizadas no ressurgimento de ITS, que ainda se sentia de várias formas em dívida devido suas ligações anteriores com Kaczynski, apesar de seu distanciamento teórico e prático com ele (para uma revisão muito detalhada deste período leiam “Rumo à Selvageria“, de Abe Cabrera).

Em suma, a tendência representou e segue representando uma manifestação ideal e material do ataque implacável contra a ordem da civilização moderna e todas as suas instâncias. Como disse um escritor eco-extremista, e assim os esforços pessimistas, niilistas, inumanistas do eco-extremismo são os pesadelos que atormentam os sonhos que constituem as fundações de todo o ideal humanista e progressista. A criança se contorce diante dos monstros que vêm à noite, subindo nas penumbras de seus sonhos para aterrorizá-la e destroçar suas mais preciosas fantasias. E ela chuta e grita e acorda suando frio de seu sonho, tremendo, por temor aquele mundo sombrio e impiedoso.

Tem sido principalmente estes elementos mencionados anteriormente que me acompanharam por mais tempo ao longo de minha aproximação da tendência, a veemente rejeição dos pilares da sociedade moderna e uma profunda reverência ao inumano. O realismo endurecido do rechaço eco-extremista pelos sonhos vazios do progresso (seu severo rechaço pelo futuro) e pela idolatria em direção ao humanismo (seu abraço à beleza profunda do inumano e seu rechaço aos delírios modernos sobre a superioridade humana) reflete e segue refletindo minha crescente convicção de que uma grande parte do projeto progressista/humanista era baseado em nada mais que escassas abstrações da mente humana. Uma espécie de obsessão com os sonhos nascidos nos sombrios confins da mente humana que jamais poderiam ser alcançados, quer sob a forma de nosso solipsismo moderno que nos cega para a beleza profunda do inumano com mentiras sobre a nossa própria significância ou a luta interminável por aquilo que está sempre no horizonte, o glorioso futuro que nunca haverá porque não existe em nenhum outro lugar a não ser na mente humana.

Certamente, estes pontos não são únicos do eco-extremismo, e eu fui exposto a eles em outro trabalho, mais significativamente no contato com as obras do poeta americano Robinson Jeffers e suas explicações sobre a filosofia do “inumanismo”. Eu também encontrei estes sentimentos incrivelmente poderosos nos escritos de Jeffers e provavelmente devo muito da mudança em minhas visões à perspectiva que me foi aberta por sua poesia. E assim, encontrar os mesmos sentimentos articulados nos escritos eco-extremistas (embora com uma dose mais saudável violência) foi igualmente comovente para mim e certamente me levou a uma ressonância mais profunda com as bases espirituais e filosóficas com eco-extremismo.

Curiosamente (ou talvez pouco surpreendente) é também neste aspecto, a maneira na qual o eco-extremismo se posiciona como uma crítica adequadamente sutil e poderosa às bases do progressismo e do humanismo, que é consistentemente pouco abordado na maioria, senão todas as críticas contra a tendência. A maior “disputa” contra o pensamento eco-extremista no mundo da língua inglesa foi, sem dúvida, devido a publicação da revista Atassa: Readings on Eco-extremism, nos volumes 1 e 2. Enquanto as publicações tem sido experiências diferentes para as distintas partes envolvidas em sua produção, algo que elas experimentaram da mesma forma além daquelas variadas intenções é um encontro violento para a paisagem ideológica contemporânea das políticas “radicais”, volumes que trouxeram à conversa o que o eco-extremismo vem dizendo (e respaldando com a ação) ao sul da fronteira. Bem, um encontro e também uma tempestade de fervorosa merda entre as filas da esquerda, a maior parte sendo só barulho e raiva, significando nada.

Para ser honesto, a estas alturas perdi o rastro de todos os furiosos escritos sórdidos com observações moralistas vazias para denunciar o “mal” que é o eco-extremismo, e ao mesmo tempo redobrando suas apostas contra as mesmas estruturas que o eco-extremismo tenta sangrar. Tudo isso parece ser entendido pelos anarquistas e sua classe como uma “competição” contra a tendência, “lidando com as perguntas difíceis”, ou algo assim. Ou é a verdadeira estupidez ou a conscienciosa ignorância para não ter que enfrentar algo que é verdadeiramente desafiador, em vez de um reforço superficial das fantasias reconfortantes que orientam e dão sentido ao ethos do mundo moderno. Dois volumes de barulho, e em todo caso, ainda não vi realmente nenhuma contestação verdadeiramente crítica aos questionamentos da filosofia humanista e progressista. E não é que o trabalho não esteja lá, há uma cuidadosa articulação realizada por um número de teóricos eco-extremistas para ampliar a plataforma filosófica do eco-extremismo. Mas suponho que não deveria ficar terrivelmente surpreso com a resposta do eco-extremismo. Não é e nunca quis ser uma marca de atração massiva. Não é uma reunião confortável. Encara sem piedade o coração do mundo moderno com uma navalha fria e um sacrifício de sangue para queles deuses sombrios além do reino do ser humano. Com o tempo, aprendi a deixar que essa reação seja o que é, os solavancos e gritos da espécie quando a arrancam de seus confortáveis sonhos e a colocam cara a cara com os poderes sombrios do mundo.

Rememorando o tempo que passei lidando com o eco-extremismo, descobri que é uma tendência para a qual não posso evitar sentir afinidade. Certamente há elementos que não aceito de todo o coração, e como indiquei na introdução, não é e nunca foi um assunto monolítico. À medida que a tendência cresceu ao longo dos anos, desenvolveu numerosas tensões dentro de si mesma. Esta é uma parte inevitável do crescimento, suponho. Versões de um niilismo misantropo mais retumbante, desprovido de uma reverência estilo animista/pagão tem se desenvolvido de uma aceitação mais profunda do niilismo e o egoísmo, uma aceitação do extincionismo e ideias semelhantes foram desenvolvidas na medida em que a tendência foi se expandindo. Eu pessoalmente não acho essas permutações muito interessantes, e eu expressei meus próprios problemas com o niilismo misantrópico, por exemplo, pelo menos no que me diz respeito. Também tenho dúvidas do que considero que são problemas não abordados nas bases filosóficas do extincionismo que provavelmente levariam a uma análise mais longa no futuro. Mas, no entanto, além da minha dúvida pessoal em relação a certos elementos, sempre encontrei nas minhas abordagens das bases filosóficas e espirituais da tendência algo que, além de todos seus elementos “problemáticos”, simboliza algo profundamente belo. No violento rechaço a nosso predicamento moderno e a reviravolta na direção da vasta e incompreensível glória do inumano, algo profundamente comovente é encontrado. Eu não sou um eco-terrorista. Passo meu tempo caminhando pelo bosque, escrevendo e tirando fotografias em vez de fazer bombas. Mas em sentimentos como este, não posso deixar de sentir uma profunda afinidade:

[O Homem Moderno] nunca se ajoelhará diante da imensidão e força da Natureza Selvagem e toda sua beleza, esplendor, sabedoria e riqueza. Sempre buscará manipular e dominar o Desconhecido, nomear o Inominável e desafiar sua fúria. Ele ousará colocar suas mãos sujas em tudo aquilo que é belo e vivente para arrancar as entranhas da Terra e impor seu mundo cinza, barulhento e cheio de fumaça. Nunca será capaz de compreender a beleza das constelações, o sabor das águas naturais, a serenidade dos bosques, o silêncio da noite, o mistério que é o desconhecido, a canção do animal no fundo do bosque, o movimento do vento, os cursos dos rios, a fúria das tempestades, o infinito dos céus, nunca. Enquanto caminhe pela Terra ele sempre trará vergonha para os Espíritos da Terra, pavimentando tudo o que é vital até que não haja nada mais além de suas metrópoles sujas e secas.

Vagabundo

Texto extraído de uma das edições da Revista Ajajema.

Como um egoísta com uma personalidade veementemente antissocial e niilista, deveria ser bastante aparente que meus interesses, paixões e desejos se movem de forma completamente contrária aos interesses, padrões, leis e moralidade de qualquer sociedade ou estado. Sem estar disposto a ceder, retroceder ou comprometer-me por alguém, minha vida de criminalidade e excomunhão se iniciou em minha juventude, quando decidi que não desperdiçaria um segundo sequer de minha vida tentando ganhar aceitação ou aprovação daqueles que me rodeavam.

Por que eu deveria me importar em ser valorizado por outras pessoas que, francamente, me enojam por completo, e que odeio sua asquerosa existência humana tanto quanto a minha? Rechaço essa prática humilhante que constitui a fábrica social em sua totalidade, um tecido vil de fraqueza, imbecilidade, timidez e estupidez. Esta rejeição, em todo caso, não é passiva, é algo que eu sempre abordei com desprezo absoluto, hostilidade e frequentemente com atos de violência contra aqueles que tentaram se impor a mim ou a quaisquer correntes que flutuavam sobre minha florescente individualidade.

Na medida em que eu aprendi a viver por minha própria força de vontade, os muros carcerários da escola já não puderam me conter e nem a imundice pode me alcançar, então passei todo o meu tempo matando aula e inicialmente aproveitei este tempo livre recém-adquirido vagando por florestas e edifícios abandonados, escutando música, desenhando e escrevendo. Quando isso não era particularmente satisfatório, mergulhava mais fundo em artes mais sombrias e secretas. Dia após dia, a prática de furtos, invasão de propriedade privada, roubo e vandalismo se tornou minha vida diária. Uma reação a ser criada nesta desprezível sociedade que eu nunca poderia pertencer, uma sociedade que nunca respeitei ou tolerei nem o mínimo.

Então, quando eu era apenas um adolescente, senti o desejo de “fazer uma declaração” sobre todos estes pensamentos e sentimentos fervendo dentro de mim, então eu fugi de casa uma noite e me dirigi a uma igreja local. Coberto pelas árvores, escalei a cerca ao redor do edifício e ergui uma pesada pedra do chão. Eu a levantei com os dois braços e lancei com toda a minha força, destruindo a cabeça e os braços das estátuas nos jardins da igreja, aquelas mesmas estátuas que eu via ao passar caminhando quase todos os dias, e as mesmas que eu cuspia vis maldições de ódio e nojo. Depois de alguns minutos de uma excitante iconoclastia, percebi que estava fazendo muito barulho, então decidi fugir antes que um potencial herói pudesse intervir. Mais tarde, reconheci que aquela atividade noturna foi meu primeiro ataque direto motivado por razões puramente egoístas contra um símbolo e pilar institucional da civilização.

Soube naquele momento que era apenas o começo. Pouco tempo depois, por várias razões acumuladas em relação à minha hostilidade e à minha personalidade inflexível, abandonei a escola. Rejeitei a ideia de combater a servidão a partir de dentro e, por quase dois anos, mantive um teto sobre minha cabeça graças ao envolvimento em vários golpes pequenos e atos de fraude. Eu enchia meu estômago, juntando uma quantia relativa de dinheiro de tempos em tempos através do meu engenho, habilidades, enganos e com a ajuda de amigos. Mas comecei a ficar cada vez mais insatisfeito com esta miserável existência, jogando videogames, fumando maconha e indo a festas me embebedar. Naquela época também comecei a me identificar como “anarquista” em vez daquele outro rótulo que eu tinha “portado”, de misantropo. (Também acho engraçado ver como como isso fechou o círculo e mais uma vez abraço minhas tendências misantropas e rejeito o altruísmo alardeado pelos numerosos sacerdotes dentro dos tempos ideológicos do “Anarquismo”.)

Continuei buscando a emoção do crime e a aventura da rebelião. Então peguei minha confiável mochila e dei um passo mais adiante. Eu fui para uma floresta onde vivi entre outros “anarquistas” por alguns anos, e lá passei incontáveis horas com zines e literatura eco-anarquista, descobrindo várias habilidades através do autoaprendizado. A fim de reduzir minhas chances de ser pego e acusado mais do que o habitual pela polícia da região, rejeitei por um tempo as artes obscuras do roubo e comecei a me sustentar praticando freeganismo. Também aprendi a fazer fogueiras, construir abrigos e viver com o que a natureza tivesse para me oferecer. Aprendi a identificar e a preparar plantas comestíveis, e também a me mover rapidamente entre as árvores, sem ser visto ou escutado. Havia aprendido muito, e ainda sim queria seguir aprendendo e crescendo.

Então veio a inevitável colisão entre aqueles indivíduos e eu. Numa manhã brilhante e ensolarada, mal consegui conter minha alegria e emoção, me aproximei dos meus “compas” com uma cópia impressa do comunicado recém publicado do Núcleo Olga da Federação Anarquista Informal, reivindicando a responsabilidade pelo disparo no joelho de Roberto Adionfli, um pedaço de merda a serviço da empresa nuclear italiana Ansaldo Nucleare. Apesar de ter sentido que compartilhávamos um desprezo mútuo pela indústria nucelar e pela sociedade em geral, eles ficaram revoltados com aquele corajoso ato de terrorismo e com a sua ousada afirmação, e soube aí que já não podia mais ter a verdadeira afinidade entre aqueles indivíduos e eu, então eu parti e os deixei com seu ativismo idealista e sua covardia anarco-social.

Depois de um particular encontro com os robôs da “lei e da ordem” da qual não darei mais detalhes, tive que fugir e retomar as artes negras mais uma vez, abraçando a vida de vagabundo “ilegalista”. Vivendo em permanente movimento. Já não tinha que me preocupar com a possibilidade dos policiais me reconhecerem, já que viajava de cidade em cidade, de costa a costa, de picos de montanhas até as margens de algum rio. Através do autoaprendizado adquiri mais habilidades vindas de gerações de canalhas e sem vergonhas, como por exemplo, usar disfarces que permitam uma pessoa atravessar cidades sem ser notado, deslocando-me sem deixar nenhuma impressão digital pelo caminho, sempre pedindo carona e utilizando bicicletas do mercado negro ou roubadas. Também comecei a praticar a arte de abrir fechaduras, extrair dinheiro de carteiras e o furto com a utilização de mais ferramentas e meios para alcançar minhas próprias metas e sem jamais submeter-me à ditadura moral-ética alheia e o sufocamento do trabalho.

Sou um marginal arrogante, inóspito e intolerante. Se me faço chamar “ilegalista” não é porque aderi a qualquer doutrina pré-estabelecida de “criminalidade”, não utilizo este termo como uma placa, pois creio que todas as identidades são mantos da civilização que reproduzem intermináveis papéis e ideais que só limitam a autodeterminação de minha individualidade no presente. Se me faço chamar “ilegalista” é porque sinto que viver contra as leis e a moralidade estabelecida por esta repugnante sociedade é a única forma que poderia viver sem sofrer a derrota da humilhação diária e o tédio, que são endêmicos da vida dentro da prisão que são estes sistemas que odeio, e se me faço chamar “ilegalista” é porque sinto muito fortemente que neste termo existe uma expressão muito compreensiva de meu implacável e desavergonhado ego.

“Fazia uma busca existencial eterna que parte desde mim, e nada mais. Devo domar a existência e não deixar que a existência me dome. Sou uma semente da civilização e seu veneno ao mesmo tempo…”

[MATÉRIA]: Líder de grupo terrorista revela plano para matar Bolsonaro

A edição edição nº 2644 da revista VEJA trouxe uma interessante matéria sobre ITS-Brasil. Na ocasião foi entrevistado Anhangá, membro proeminente da Sociedade Secreta Silvestre, a “ala” brasileira do grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). Abaixo a reportagem na íntegra que esteve a cargo dos jornalistas Thiago Bronzatto e Laryssa Borges.

Em entrevista a VEJA, representante do SSS ameaça presidente, seus familiares e dois ministros.

Imagem enviada a VEJA por um dos membros da SSS: os terroristas já praticaram três atentados a bomba em Brasília (./.)

Em 1º setembro do ano passado, ninguém deu atenção a uma mensagem no Facebook que trazia uma ameaça ao então deputado Jair Bolsonaro. O autor escreveu que testaria “a valentia” do então candidato do PSL à Presidência da República quando os dois se encontrassem e que ele “merecia” levar um tiro na cabeça. Ninguém deu atenção à postagem porque ameaças assim quase sempre não passam de bravatas. Ninguém deu atenção porque o autor, um garçom desempregado, também costumava publicar em sua página na rede social textos desconexos e teorias conspiratórias absolutamente sem sentido. Parecia coisa de maluco. Cinco dias depois, no entanto, Adélio Bispo de Oliveira, o autor da mensagem, esfaqueou Bolsonaro em uma passeata em Juiz de Fora (MG). O agressor de fato era um desequilibrado mental, mas o atentado ensinou que ameaças não devem ser subestimadas, por mais improváveis que pareçam.

ALERTA -Jair Bolsonaro: alvo da SSS, organização que se diz ecoextremista (Ueslei Marcelino/Reuters)

Há seis meses a Polícia Federal caça, ainda sem sucesso, os integrantes de um grupo terrorista que já praticou pelo menos três atentados a bomba em Brasília e anuncia como seu objetivo mais audacioso matar o presidente da República. Nas duas últimas semanas, VEJA entrevistou um dos líderes da Sociedade Secreta Silvestre (SSS), que se apresenta como braço brasileiro do Individualistas que Tendem ao Selvagem (ITS), uma organização internacional que se diz ecoextremista e é investigada por promover ataques a políticos e empresários em vários países. O terrorista identifica-se como “Anhangá”. Por orientação do grupo, o contato foi feito pela deep web, uma espécie de área clandestina da internet que, irrastreável, é utilizada como meio de comunicação por criminosos de várias modalidades.

Anhangá garante que o plano para matar Bolsonaro é real e começou a ser elaborado desde o instante em que o presidente foi eleito. Era para ter sido executado no dia da posse, mas o forte esquema de segurança montado pela polícia e pelo Exército acabou fazendo com que o grupo adiasse a ação. “Vistoriamos a área antes. Mas ainda estava imprevisível. Não tínhamos certeza de como funcionaria”, afirma o terrorista. Dias antes da posse, a SSS colocou uma bomba em frente a uma igreja católica distante 50 quilômetros do Palácio do Planalto. O artefato não explodiu por uma falha do detonador. No mesmo dia, a SSS postou um vídeo na internet reivindicando o ataque e revelando detalhes da bomba que só quem a construiu poderia conhecer. Nessa postagem, o grupo também anunciou que o próximo alvo seria o presidente eleito, o que levou as autoridades a sugerir o cancelamento do desfile em carro aberto. “Facilmente poderíamos nos misturar e executar este ataque, mas o risco era enorme (…) então seria suicida. Não queríamos isso.” Na ação seriam usados explosivos e armas. “A finalidade máxima seriam disparos contra Bolsonaro ou sua família, seus filhos, sua esposa.”

EM VÍDEO – Incêndio de carros do Ibama em Brasília: o grupo gravou as cenas (CBMDF/Divulgação)

Depois disso, em abril, dois carros do Ibama foram incendiados em um posto do órgão em Brasília. Em meio aos escombros, encontraram-se palitos de fósforo, restos de fita adesiva e vestígios de um líquido inflamável. No local, havia pichações com ameaças de morte ao ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente. De novo, num vídeo postado na internet clandestina, o grupo assumiu a responsabilidade pelo atentado e exibiu o material utilizado durante o ataque, oferecendo provas de que era mesmo o autor do crime. De acordo com Anhangá, foi mais um aviso, dessa vez endereçado diretamente a Ricardo Salles. “Salles é um cínico, e não descansará em paz, quando menos esperar, mesmo que saia do ministério que ocupa, a vez dele chegará. (…) É um lobo cuidando de um galinheiro”, diz o extremista, que alerta para a existência de um terceiro alvo no governo: Damares Alves, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. “(Ela) se tornou a cristã branca evangelizadora que prega o progresso e condena toda a ancestralidade. O eco-extremismo é extremamente incompatível com o que prega o seu ministério”, diz.

Espécie de holding internacional dos chamados ecorradicais, o ITS foi fundado em 2011 no México e afirma ter representantes também na Argentina, Chile, Espanha e Grécia. A organização se diz contra tudo o que leva à devastação do meio ambiente e defende o uso de medidas extremas e atos violentos contra os inimigos da natureza (evidentemente tal discurso não tem coerência alguma). Em maio passado, os ecoterroristas do Chile assumiram a autoria de uma carta-­bomba enviada a um empresário. Dois anos antes, em 2017, um artefato similar foi endereçado ao presidente de uma mineradora, que ficou ferido. No México, o ITS reivindicou a autoria de várias explosões em universidades. Uma delas resultou, em 2016, na morte de um pesquisador. No fim do ano passado, o grupo também se responsabilizou por uma bomba deixada próximo a uma igreja ortodoxa em Atenas.

RECADO – Bomba em frente a uma igreja de Brasília: o primeiro recado da SSS (./Reprodução)

Os terroristas brasileiros vêm sendo monitorados pelas autoridades há algum tempo. Um relatório elaborado pela diretoria de inteligência da PF intitulado “Informações sobre Sociedade Secreta Silvestre” descreve que, em 2017, uma bomba foi deixada na rodoviária de Brasília. O documento, obtido por VEJA, ressalta que a imprensa não noticiou o atentado, mas, mesmo assim, os detalhes foram divulgados num site do grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre, traduzidos para diversos idiomas e assinados por uma pessoa identificada como “Anhangá”. Em dezembro, depois da ameaça ao presidente Bolsonaro, a Polícia Federal decidiu pôr no caso os melhores agentes da seção antiterrorismo. Os policiais já seguiram várias pistas. Três suspeitos chegaram a ser presos. Mas os integrantes do grupo ainda não foram identificados. Anhangá provoca: “(Eles) são incompetentes (…). Não somos meros amadores, dominamos técnicas de segurança, de engenharia, de comportamento social. (…) Discutimos internamente com membros de outros países”.

Assim como para outros grupos, a internet exerce um papel importante na organização e divulgação de ideias. Os comunicados e vídeos do grupo terrorista ITS são postados num site chamado Maldición Eco-­extremista, traduzido para diversos idiomas. Foi por meio desse canal que VEJA solicitou uma entrevista com um integrante do ITS-Brasil. Um e-mail criptografado, de um servidor localizado na Suíça, indicou um endereço eletrônico para o qual deveriam ser enviadas as perguntas. Pouco tempo depois, Anhangá apareceu e disse que estava à disposição para esclarecer as dúvidas da reportagem. A partir daí, foi mandado um link de um chat privado, em que as mensagens eram destruídas após 24 horas. Nesse canal, foram feitas três entrevistas, reproduzidas ao longo destas páginas. Em fevereiro de 2019, a rede de televisão francesa TV5Monde utilizou o mesmo caminho para entrevistar o fundador do ITS, que se apresentou como “Xale”. A reportagem informava que o grupo tinha ramificação no Brasil.

EMBOSCADA – Aeroporto de Congonhas: o grupo planejou metralhar um ministro do STF na área de desembarque (Alf Ribeiro/Folhapress)

O máximo que Anhangá (que quer dizer espírito que protege os animais, em tupi-guarani) revela sobre si é que é do sexo masculino, tem entre 20 e 30 anos, está em Brasília e é um radical defensor da natureza. Com as vidas humanas, já não demonstra a mesma preocupação. Segundo ele, o presidente é um “estúpido populista” que “falha com sua segurança” e anda “sem uma proteção adequada”, o que facilita o atentado. Quando isso pode acontecer? “Um ataque a Jair Bolsonaro será sempre uma possibilidade latente.” Por quê? “Bolsonaro e sua administração tem declarado guerra ao meio ambiente.” Já há alguma preparação? “Tentamos sempre adquirir explosivos e armas mais potentes.” Onde? “Estudamos semanalmente nossos alvos.” Pode ser tudo bravata? Até pode, mas as evidências que se tem até agora apontam para o sentido contrário. Num inquérito sigiloso obtido por VEJA, a própria PF destaca que o grupo continua praticando atos criminosos com “extrema gravidade” e mostrando “profusão de ideias violentas e extremistas, além de divulgar ameaças contra a vida do Bolsonaro”. Isso, por si só, já se enquadra em crime de terror (leia mais nesta reportagem).

As ameaças contra autoridades de Brasília não envolvem apenas o Executivo. Em março, por determinação do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), foi instaurado um inquérito para apurar a origem de ataques a magistrados nas redes sociais. Numa primeira fase, os investigadores identificaram pessoas que usavam a internet para difundir notícias falsas e pregar agressões contra os ministros. Foi o caso de um advogado alagoano que publicou uma mensagem em que falava da necessidade de “matar aquele débil mental do irmão mongol do ministro Toffoli”. O irmão do ministro é portador de síndrome de Down. Identificado, o advogado prestou depoimento e disse que tudo não passava de bravata.

DO VIRTUAL PARA O REAL – Suzano: o massacre começou em fórum da internet (./Reprodução)

Mas não foi apenas isso. VEJA apurou que o inquérito do STF também reuniu evidências de um plano real de ataque contra um ministro da Corte. Os investigadores descobriram que um grupo havia monitorado durante algum tempo a rotina de um dos magistrados, cujo nome é mantido em sigilo, e de sua família, que mora em São Paulo. O objetivo era definir o melhor lugar para uma emboscada, e o local escolhido foi o Aeroporto de Congonhas. Por questões de segurança, autoridades e políticos têm acesso a salas vip em aeroportos. A ideia dos criminosos era cercar o carro do ministro na saída do terminal e metralhá-lo. “Eles diziam que ‘iam abrir fogo’”, revela um magistrado que teve acesso à investigação, conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes.

Curiosamente, o plano foi discutido em um chat da deep web também frequentado pelos estudantes Guilherme Monteiro e Luiz Henrique de Castro. Para quem não lembra, em março esses dois rapazes invadiram uma escola em Suzano, no interior de São Paulo, executaram cinco alunos e duas funcionárias e depois se mataram. No chat, o grupo que planejava o ataque ao ministro do STF trocava informações com os assassinos da escola. Por orientação da Polícia Federal, os juízes mudaram sua rotina e ampliaram o esquema de segurança. “Esse caso é diferente dos que já encontramos. Não se trata de alguém fazendo um desagravo ou uma bravata pela internet. Eram dois grupos distintos tramando dois ataques. O primeiro aconteceu. Não era brincadeira”, diz o mesmo magistrado. Infelizmente, o terrorismo, que durante tanto tempo não figurou entre as preocupações brasileiras, agora precisa ser levado a sério. Que os responsáveis sejam presos e punidos — antes que cometam as tais atrocidades que prometem.

INVESTIGAÇÃO - Alexandre de Moraes: ameaças não eram bravatas (Marcelo Chello/CJPress/.)

POSSIBILIDADE LATENTE

A conversa com o representante da SSS foi realizada através de um chat* na deep web. “Anhangá” confirma que o objetivo do grupo é matar o presidente

VEJA: O presidente da República, Jair Bolsonaro, é um dos alvos? Por quê?

Anhangá: Bem, ser um alvo ele é, só é bastante difícil às vezes de elaborar algo para alcançá-lo. Como ele é um estúpido populista às vezes falha com sua segurança e sai aqui em Brasília aleatoriamente sem uma proteção adequada. Ou em outros lugares como no Rio de Janeiro. As motivações carecem de justificativas porque são óbvias. Bolsonaro e sua administração tem declarado guerra ao meio ambiente, a Amazônia especialmente, tem feito de órgãos que teoricamente deveriam proteger a natureza catapultas para negócios danosos, facilitadores de exploração mineira, madeireira, caças, agropecuária, etc.

E isso de maneira intensa e explícita.

Proposital.

É um negacionista da catástrofe climática.

VEJA: Mas vocês ainda avaliam fazer um ataque ao presidente da República?

Anhangá: Um ataque a Jair Bolsonaro será sempre uma possibilidade latente. ITS-México feriu uma senadora mexicana com um livro-bomba, se não estou equivocado. ITS-Chile por pouco não mata o presidente de uma das maiores estatais do país com um pacote-bomba há dois meses, mais ou menos. Estas pessoas do alto escalão não são intocáveis, só é preciso saber das vulnerabilidades. As pessoas pensam que estamos parados, mas estudamos semanalmente nossos alvos, e tentamos sempre adquirir explosivos e armas mais potentes. Se a oportunidade bate em nossa porta Bolsonaro acabará como Luis Donaldo Colosio (político mexicano, morto em atentado em 1994).

*Foi mantida a grafia normal

NA CERIMÔNIA DE POSSE

“Conseguiríamos se tivéssemos tentado”

RECUO – Posse de Bolsonaro: um forte esquema de segurança impediu o ataque (Andre Penner/AP)

VEJA: Em relação à posse presidencial, qual era o plano de atentado?

Anhangá: Dificilmente conseguiríamos acessar a área restrita, havia barreiras e detectores de metal. Não era certo uma vista de longe para disparos, e mesmo que fosse, a área estava bastante vigiada por câmeras e atiradores, seriam deixadas sacolas com explosivos, na verdade iria atingir público, essa é a verdade.

Isso era viável.

Foi um público considerável, e facilmente poderíamos nos misturar e executar este ataque, mas o risco era enorme, e era previsível um ataque, então seria suicida.

Não queríamos isso.

E pensamos bem, outros membros de fora aconselharam também.

VEJA: Vocês desistiram, então, por causa da estrutura de segurança do evento?

Anhangá: De certo modo sim.

O risco era grande.

Mas conseguiríamos se tivéssemos tentado.

Só não é certo se sairíamos vivos.

VEJA: O que estava preparado?

Anhangá: Como mencionei, explosivos de extintores de incêndio e uma arma.

VEJA: Qual seria a finalidade da arma?

Anhangá: A finalidade máxima seriam disparos contra Bolsonaro ou sua família que desfilaria, seus filhos, sua esposa, o núcleo, mas sabemos que isso dificilmente aconteceria, mas essa era a finalidade. Não sabíamos se teríamos campo de visão para isso.

O MINISTRO DO MEIO AMBIENTE É ALVO

“Um lobo cuidando de um galinheiro”

INIMIGO – Salles e a “destruição” (Ueslei Marcelino/Reuters)

VEJA: Vocês também ameaçaram de morte o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Qual a razão disso?

Anhangá: Salles é um cínico, e não descansará em paz, quando menos esperar, mesmo que saia do ministério que ocupa, a vez dele chegará. Aquele sujeito já chegou a adulterar documentos para beneficiar mineradoras. Tudo o que faz e declara é antagônico ao cargo que ocupa. É um lobo cuidando de um galinheiro.

Ele foi condenado por isso.

É um aliado de empresas, mineradoras e ruralistas.

E não por acaso foi escolhido por Bolsonaro.

A MINISTRA NA MIRA

“A cristã branca que prega o progresso”

INIMIGA – Damares e o “progresso” Alves (Jorge William/Agência O Globo)

VEJA: Por que, além de Bolsonaro, vocês ameaçaram a ministra Damares Alves?

Anhangá Pelo símbolo que ela se tornou, a cristã branca evangelizadora que prega o progresso e condena toda a ancestralidade. Outro motivo é que o eco-extremismo é extremamente incompatível com o que prega o seu ministério, é um choque filosófico.

AS INVESTIGAÇÕES DA PF

“Não somos meros amadores”

(./.)

PREVENÇÃO – A Polícia Federal prendeu, em 2016, dez suspeitos de terrorismo. O documento acima mostra que a PF agora está no encalço da SSS (Ed Ferreira/Brazil Photo Press/)

VEJA: Por que até hoje a Polícia Federal não descobriu a identidade de vocês?

Anhangá: Porque são incompetentes e porque não somos meros amadores. Aqueles idiotas da Operação Hashtag foram presos enquanto preparávamos quase 10 quilos de explosivo. Não somos meros amadores, dominamos técnicas de segurança, de engenharia, de comportamento social. Pra falar a verdade discutimos internamente com membros de outros países e chegamos a conclusão que das polícias de cada país onde opera ITS a do Brasil é a mais avançada, mas ainda sim não foi capaz.

*de que

Como costumamos dizer, caminhamos com uma lebre, silenciosamente.

Uma Abordagem Extra-moral à Artificialidade

Tradução da reflexão Extramoral Approach Artificiality, extraída do blog Antisocial Evolution.

As leis sociais são um sistema de regras impostas à maioria das pessoas civilizadas desde o nascimento. Elas são um conjunto de regras que governam como você deve viver para fazer a sociedade funcionar: não roube, seja uma boa pessoa, trate os outros como você gostaria de ser tratado, somos todos iguais e se pudéssemos deixar de lado nossas diferenças e trabalhar juntos nós viveríamos em uma utopia de ouro. Estas leis são uma mistura da espuma borbulhante da doutrina judaico-cristã tradicional e o humanismo liberal moderno. É a maior fraude de todos os tempos, o engano mestre, um sistema de mentiras envolvidas em um lindo pacote e chamadas de civilização. É como ser fodido por um porco vestido de freira.

Logo está a lei natural, a lei real, a natureza primitiva do homem, a parte de nosso cérebro que se desenvolveu ao longo dos últimos milhares de anos, sobrevivendo às eras glaciais, secas, em florestas, desertos, à pragas e guerras. É o cérebro do lagarto, o cérebro animal, a parte de nós que impulsiona instintos e comportamentos nos níveis mais profundos.

Em nossa ignorância pensamos que somos removidos a um nível de distância das bestas da terra. Qualquer um que tenha animais de estimação ou que tenha estado no meio da natureza sabe que existe uma lei selvagem que reina acima de tudo: a sobrevivência do mais apto, afunda-se ou nada, aprende a voar ou morre tentando. “Vitória ou Valhala.”

Isso não quer dizer que o altruísmo em certo ponto não exista. Experimentos mostraram que os ratos arriscam suas vidas para libertar seus amigos do cativeiro. Os bonobos nas tribos compartilham a comida entre si. Um cachorro poderia adotar um gatinho órfão como se fosse seu e cuidar dele.

Não estou dizendo que a “bondade” não exista em nossa natureza primitiva. Mesmo assim, as leis da sociedade civilizada são uma farsa. As regras escritas em tábuas de pedra e assinadas por “deus” eram, obviamente, dirigidas a pessoas nos escalões mais baixos da sociedade – não para os ricos e poderosos.

Se você olha a demografia de hoje, são os pobres que são os mais religiosos e os ricos os menos. Os ricos mentirão, roubarão e serão opressivos contra qualquer um que cruze em seu caminho – isso se chama viver sob as leis naturais.

A lei natural é viciosa. Ela é a mãe que insiste e critica, que aponta suas maiores inseguranças com risadas em um sorriso maligno. Ela não é a pequena amorosa Terra, mãe das flores, doces e abraços. Ela é Kali em um embate, incendiando florestas no chão. É a furiosa e ciumenta Hera, atormentando e destruindo aqueles que se opõem a ela. Sua compaixão é grande para aqueles que a respeitam, mas sua ira é a morte experimentada milhares de vezes em um tsunami, por isso andamos em nossas vidas diárias, falando, atuando e respirando sob as leis sociais – quando no fundo de nosso subconsciente – estamos vivendo sob a lei natural. Por que o homem estabelecido com uma esposa e uma família arrisca tudo por uma noite de paixão com uma mulher jovem e bonita, mesmo quando ele sabe que as repercussões poderiam ser a solidão, o divórcio, e intermináveis pagamentos de pensão alimentícia? Por que os líderes de países levam seu próprio povo à ruína com dívidas intermináveis e guerras em busca de riqueza – mesmo quando estão em risco?

Os tolos e os idiotas quebram a cabeça e ficam com suas mandíbulas abertas, estáticos por aí, como se fossem uma horda de vaginas arregaçadas. Um ponto de interrogação que paira no ar como um fedor estagnado.

No início de nossas vidas, estamos posicionados em um tabuleiro de xadrez, mas nos dizem que é um tabuleiro de damas. Como peões obedientes, nos concentramos em avançar um quadrado de cada vez – apenas para nos vermos surpreendidos e espancados quando a torre captura nossas vidas com uma varredura limpa. Como ela pode fazer isso? É justo? Como ela pode simplesmente atravessar todo o tabuleiro? Claro que ela pode, quando você percebe o jogo que está jogando.

Assim que acorda, você está na selva, bebê. Como primatas, é onde começamos e nunca saímos realmente. É claro, talvez sejamos astutos o bastante para criar pequenas casas e estradas ou cercar subúrbios que podem dividir nossas falsas vidas acomodadas.

Mas a civilização, como a conhecemos, tem apenas 5.000 anos de idade. A moderna sociedade industrial tem apenas 200 anos de idade. As leis reais dos homens foram estabelecidas ao longo dos 40.000 anos de nossa existência como bestas, e até mesmo as leis de outros primatas antes disso sequer acontecer.

Poderia a psique humana mudar tão rápido para se adaptar às leis humanitárias, liberais e cristãs? Talvez quando se corte as genitais e lobotomize a mente. Por que você acha que os antidepressivos prevalecem tanto na sociedade de hoje? Por que você acha que as pessoas vão a caras terapias por causa de seus flácidos casamentos e vida sexual?

Então acorde da ilusão. Tudo o que foi dito a você é uma mentira. Perceba o jogo que você está jogando e jogue-o bem. Não há equivalentes. Apenas ganhadores e perdedores. Você é o lobo ou a presa?

Fortes, livres e suicidas: Sebastião Salgado fotografa os Suruwaha na Amazônia

Expedição do fotógrafo brasileiro documenta os índios suruwahas, que vivem sem cacique ou qualquer outra hierarquia em uma pequena comunidade isolada no sul do Amazonas, onde produzem toda sua comida, cultivam o vigor físico e preservam tradições –como a de usar poções venenosas para caçar, pescar e morrer jovem.

Kwakway leva cesto cheio de massa de mandioca ao igarapé Pretão, ajudado por Baxihywy e Warubi

De Amazônia.org:

Eles são 154 pessoas e sua população segue crescendo (eram cem nos anos 1980). Com a saúde exuberante, produzem todos os alimentos que consomem e têm grande orgulho de suas técnicas de agricultura, particularmente apuradas. Para caçar, usam armas tradicionais, o arco e a zarabatana, com que atiram setas de ponta envenenada. São mestres no uso de poções. Não têm caciques, mas os grandes caçadores, sempre reconhecidos pelo número de antas que mataram, são prestigiados, considerados “madi iri karuji”, ou “pessoas de valor”.

“Os suruwahas representam para mim aquilo de mais próximo ao que Pedro Cabral deve ter visto ao chegar ao Brasil.” Assim Sebastião Salgado define sua impressão após a expedição fotográfica de 25 dias que realizou à terra indígena.

A comunidade está localizada no sul do estado do Amazonas, entre igarapés da bacia do rio Purus. A área fica a cinco dias de barco da cidade de Lábrea (850 quilômetros a sudoeste de Manaus).

“Eles escolheram viver em estado de quase total isolamento e mantêm suas práticas e a expressão visual de sua tradição cultural muito preservadas. É muito impactante. Vê-los, ao chegar, me causou uma emoção muito grande”, acrescenta o fotógrafo, que ao longo das últimas décadas visitou alguns dos lugares e povos mais isolados da face da Terra.

Após contatos trágicos com outros índios e brancos na segunda metade do século 19, os suruwahas (pronuncia-se “suru-uarrás”) se retiraram para o fundo da floresta e lá ficaram isolados até o início dos anos 1980. Na época, pescadores, caçadores e seringueiros ameaçavam a área onde havia sinais da presença de índios.

Indigenistas do Cimi (Conselho Indigenista Missionário, ligado à Igreja Católica) fizeram contato com os suruwahas e, então, iniciou-se o processo oficial de reconhecimento da terra indígena, que foi homologada pela União em 1991.

Depois de um breve período de convivência com duas instituições religiosas -o Cimi e a evangélica Jocum (Jovens com uma Missão)-, desde o início dos anos 2000 os índios passaram a se beneficiar da chamada política do não contato.

A Coordenadoria de Índios Isolados ou de Recente Contato da Funai (Fundação Nacional do Índio) mantém apenas um posto que fica a mais de sete horas de viagem, por barco, da aldeia. Quando autorizado pela Funai, um visitante precisa, antes de ir até lá, fazer uma quarentena de 12 dias no posto da entidade para comprovar que não possui doença que possa contaminar os índios.

Apesar da distância, esse grupo frequenta o noticiário e é alvo de estudos acadêmicos por uma característica cultural geralmente chocante para um não suruwaha: a ocorrência frequente de suicídios, provocados com o uso do timbó, veneno usado por outros povos apenas para pesca. Essa tem sido a principal causa de mortes entre eles. A fama dessa ocorrência os levou a serem chamados de “os índios do veneno”.

A jovem Hatiri se banha no rio. Foto: Sebastião Salgado

Antropólogos, indigenistas e missionários se debruçaram sobre o tema sem uma conclusão sobre as causas desse comportamento e sem conseguir eliminar os casos – que, no entanto, têm diminuído.

A maior parte dos suicídios ocorre entre pessoas na faixa de 14 a 28 anos, em pleno vigor físico.

Contribui para isso sua mitologia. Os suruwahas acreditam na existência de três céus ou planos para os quais a pessoa ruma após a morte.

“Desses céus, aquele onde a vida é mais favorável é o que reúne os que morrem fortes e saudáveis, em vez dos dois outros: o que reúne os picados por cobra e aquele para onde vão os que morrem depois de velhos”, conta Salgado.

Os suruwahas são também uma sociedade anárquica. Não têm líderes, não têm chefia. ”Kwakway é o mais respeitado, dono da maior maloca, parte de uma família numerosa. Mas isso não dá a ele um papel de ‘chefe’”, explica.

O igualitarismo radical faz com que não haja entre os índios autoridade com mandato para cercear ou censurar alguém. As decisões de interesse comum são tomadas à noite, depois da comida, em conversas abertas. Atitudes pessoais são responsabilidade dos indivíduos: o grupo pode criticar alguma ação isolando seu autor, deixando de falar com ele. Mas não há punições.

Índios suruwahas participam de pescaria coletiva no igarapé Pretão, durante verão amazônico, quando as águas dos rios baixam. Foto: Sebastião Salgado

Comunidade atual é resultado da mistura de grupos sobreviventes

A imagem de isolamento que tanto impactou o fotógrafo Sebastião Salgado ao encontrar os suruwahas é consequência da história intensa e trágica que esse grupo viveu a partir da segunda metade do século 19.

Após meio século de epidemias e de um massacre, que quase os exterminou completamente, os suruwahas fugiram para o fundo da floresta, no início do século 20, onde vivem isolados nas terras altas até hoje.

A jovem Juwawi, com pintura de onça no rosto, carrega seu bebê em uma tipoia sobre a cabeça. Foto: Sebastião Salgado

A partir de relatos de memórias que foram passados de geração a geração ao longo dos últimos 150 anos, é possível saber que, por volta de 1880, eles mantiveram intercâmbio de produtos com outros índios ou com brancos, de quem adquiriam utensílios industrializados.

As ferramentas de metal, como machados e facões, tinham se tornado habituais entre os índios. Esses instrumentos causaram verdadeira revolução em suas técnicas.

A antropóloga Adriana Huber Azevedo, que trabalhou com os suruwahas entre 2006 e 2011, explica que os instrumentos transformaram a agricultura deles, como na abertura de roças, e que os índios passaram a depender dessas ferramentas.

Naquele fim de século 19, o modo de vida era bastante diferente. Divididos em vários grupos de língua semelhante (chamados ”dawas”), os indígenas viviam espalhados em um vasto território, do qual a terra atual é só uma pequena fração.

Eram ao menos 11 grupos originais, que habitavam em torno dos rios Cuniuá, Tapauá e Purus. Cada um era identificado pelo lugar em que morava: jokihidawas (que já viviam onde todos estão hoje), tabosorodawas, adamidawas, nakydanidawas, sarakoadawas, yjanamymadys, korobidawas, masanidawas, ydahidawas, zamadawas e um grupo chamado suruwaha.

Esses antigos suruwahas e os masanidawas se relacionavam com seringueiros.

Na proa da canoa, Bahahai pesca, à frente dos irmãos, Tiau (também com um peixe) e Hugi, da mãe, Xiriaki, e do pai, Ikiji. Foto: Sebastião Salgado

Segundo contam, esse tempo de contato com outros povos trouxe grandes epidemias de gripe. Os diversos grupos se afastaram das margens dos grandes rios, como o Purus, subindo por seus afluentes para tentar evitar as doenças. “É provável que eles participassem de festas e de encontros com outros povos, quando buscavam obter ferramentas de metal. Mas pegavam gripe e morriam. Podemos relacionar isso ao início do ciclo da borracha, na segunda metade do século 19”, afirma a antropóloga Adriana.

A população de muitos grupos indígenas foi drasticamente reduzida nesse período. Os suruwahas originais desapareceram. As epidemias, porém, não abateram tanto a população dos jokihidawas, que viviam às margens do igarapé Pretão.

Os sobreviventes de outros grupos indígenas buscaram como refúgio aquela região do igarapé Pretão, chamado de Jokihi (o nome jokihidawa quer dizer “povo do Jokihi”) e que integra a bacia do rio Purus.

No auge desse processo de epidemias, ocorreu um grande massacre, por volta de 1920, quando mais um grupo de índios foi dizimado.

Em suas narrativas, os suruwahas atribuem essa violência a um povo que eles chamam de jakimiadi e descrevem como canibais que usavam roupas e atacavam com armas.

“É muito difícil saber quem os massacrou. Mas não eram pessoas de sua etnia, porque tinham nomes estrangeiros”, diz a antropóloga.

Quando isso aconteceu, os suruwahas, destruídos pelas epidemias, somavam poucos indivíduos. Os sobreviventes foram encontrados por remanescentes dos outros grupos, que já viviam juntos como forma de sobreviver à dramática redução populacional. Assim, no começo dos anos 1930, os índios dos vários grupos de língua arawá da região se refugiaram no território dos jokihis, onde estão até hoje.

No kunaha, acampamento de pesca, Bambuhwa segura folha de caranaí e moqueia peixes, ao lado de Xamuwa. Foto: Sebastião Salgado

Ali, numa área de floresta densa, distante de todos os grandes rios da região, conseguiram viver em isolamento quase completo por cerca de 60 anos, às margens de igarapés como Riozinho e Pretão. Perderam o acesso a instrumentos de metal, mas deixaram de contrair doenças.

Recuperaram a saúde, constituíram um modo de vida ao mesmo tempo tradicional e novo e formaram uma só comunidade a partir da mistura de várias etnias, uma federação dos antigos dawas.

Eles passaram a viver juntos, mas não adotaram um nome comum, cada um se identificava como membro de seu grupo original.

No início dos anos 1980, surgiram novas ameaças de presença de não índios, que poderiam levar doenças à comunidade. Indigenistas do Cimi fizeram então o contato. Quando os primeiros integrantes do conselho chegaram, dois jovens disseram: “Somos suruwahas”, referindo-se ao dawa já dizimado. Embora fosse brincadeira, o nome colou.

Segundo o antropólogo Miguel Aparício Suárez, em sua dissertação de mestrado “Presas do Timbó” (2014), o fato de o nome ser de um grupo inexistente facilitou a sua adoção como denominação comum.

Alguns indivíduos ainda se identificam pelo nome de origem. Mas indigenistas, Funai e outros índios passaram a chamá-los de suruwahas.

A referência precisa a datas é uma característica peculiar dos suruwahas. Nem todos os povos indígenas lidam do mesmo jeito com a história. É graças a essa memória prodigiosa que sua trajetória pôde ser remontada a partir do século 19. “Os ianomâmis não usam os nomes dos mortos, o que torna mais difícil entender o passado e reconstituir a ordem dos fatos”, compara Adriana.

Os índios Uhwi, Niaxixibu, Bibi, Giani e Hymanai, do grupo suruwaha, na beira do igarapé Pretão, que banha sua terra, localizada no sul do Amazonas. Foto: Sebastião Salgado

“No caso dos suruwahas, sua memória é bastante precisa até 1880”, diz ela, que é autora da tese de doutorado “Pessoas Falantes, Espíritos Cantores, Almas-Trovões”, sobre os suruwahas. Daquele momento para trás, as narrativas parecem se misturar com um tempo mítico.

O relacionamento dos suruwahas com a sociedade é marcado por ambiguidade, ao mesmo tempo há atração e repugnância, como fica claro no depoimento de Adriana Huber Azevedo: “Se a palavra tradição é sinônimo de autonomia econômica, eles são muito tradicionais, porque nunca foram monetarizados”.

Até hoje, eles produzem toda a sua alimentação e grande parte dos utensílios que usam. “Não passa pela cabeça dos suruwahas viver como nós, mas querem ter coisas nossas. E o sentido que veem em se relacionar com a nossa sociedade está em que podemos lhes fornecer facas, machados, lanternas, roupas para caçar em meio aos piuns e linha para fazer tangas”, diz a especialista.

Quase todos os membros do grupo já passaram meses em cidades como Lábrea ou Manaus, no estado do Amazonas, para fazer tratamento de saúde, segundo Adriana. “Todos dizem que odeiam cidades e jamais viveriam nelas.”

Eles tomam seu veneno no rio e correm para morrer em casa

Uma das marcas culturais mais impactantes dos índios suruwahas é o suicídio. Pessoas saudáveis e fortes provocam a própria morte ingerindo timbó, o veneno que outros povos só usam para capturar grandes quantidades de peixe. Ocorrem dois a três casos por ano, em média, tanto de homens como de mulheres, a maioria entre jovens de 14 a 28 anos. A prática reduz a taxa de crescimento do grupo a 1,9% ao ano, apesar da alta taxa de natalidade (4% ao ano). O autoenvenenamento é a causa de 60% dos óbitos.

Quando os índios percebem que um indivíduo tomou a poção, tentam fazê-lo vomitar, mas, frequentemente, a salvação já não é possível. O líquido tóxico é ingerido na floresta, longe dos olhos da comunidade. O índio se envenena e espera antes de voltar para casa – correndo, já que tem que morrer na maloca.

“Se a pessoa toma veneno, vai para casa e morre no caminho, ela não vai para a casa dos valentes no outro mundo, o céu que eles querem atingir. Então, tem que ter um cálculo preciso de quando tomar o timbó e quando ir para casa, para não morrer antes nem chegar quando ainda dá para evitar a morte pelo vômito”, comenta Sebastião Salgado.

O menino Huwaxi entre dois fardos de casca de árvore usada para fazer redes, cordas e tipoias nas quais as índias carregam os filhos. Foto: Sebastião Salgado

Embora frequente, a perda de um membro da comunidade é sofrida, provoca nos outros a sensação de ter falhado no salvamento. Ainda mais quando se trata de pessoa influente, um caçador de sucesso.

“Não aconteceu nenhum caso enquanto eu estava lá. Eu deveria ter ido no ano anterior, mas houve o suicídio de alguém muito querido. Como eles ficam muito chateados nessas situações, não seria boa época para irmos”, conta o fotógrafo.

O suicídio pode ocorrer porque a pessoa está deprimida, por uma morte em família, porque algo deu errado. A pessoa, triste ou envergonhada em consequência de um desentendimento, se mata. “Mas pode acontecer também porque está muito feliz, como se quisesse congelar esse sentimento”, conta Salgado.

O suicídio está imbricado na cultura dos suruwahas desde antes da fase mais recente de contato, nos anos 1980. Os próprios indígenas descrevem o momento em que eles passaram a adotar a prática do autoenvenenamento, segundo a antropóloga Adriana Huber Azevedo.

“Eles contam que a primeira pessoa que tomou o timbó foi um homem chamado Dawari, bisavô de uma mulher da comunidade atual. Isso aconteceu em torno de 1930, quando já estavam todos vivendo na área de isolamento.”

Segundo a estudiosa, a técnica de ingestão do timbó já era conhecida pelos suruwahas desde o século 19, quando eles tinham contato intenso com outro grupo da região, os katukinas. Mas eles só começaram a praticar o ato quando remanescentes dos diferentes grupos (”dawa”) passaram a viver juntos, no século 20.

Com o corpo pintado de urucum, Gianzubuni segura as armas de caça dos suruwaha: na mão e no ombro direitos, uma zarabatana e a aljava com os dardos de ponta envenenados; na mão esquerda, um arco. Foto: Sebastião Salgado

Antes da fusão, os conflitos eram resolvidos no universo simbólico, pela intervenção de xamãs. Eles atribuíam os problemas de uma pessoa a feitiços feitos por alguém de outro grupo. Uma pessoa que se achava vítima de feitiçaria apelaria a seu pajé para devolver o ataque. Vivendo juntos em uma mesma maloca, esses atritos passaram a ser represados, o xamanismo perdeu a função de mediação, as relações interpessoais se tornaram diretas.

A partir desse momento, acredita a antropóloga, as pessoas passaram a manifestar a reação a conflitos pela ingestão de timbó. Sua interpretação é que o objetivo não é a morte, mas a resolução do conflito: “Cerca de 80% dos casos são resolvidos pela intervenção da comunidade, evitando a morte”, explica.

Os suruwahas são conhecidos pela habilidade de manipular poções. São apelidados “índios do veneno”, o que desperta temor em outros grupos e mesmo entre indigenistas. As principais poções que usam na pesca e na caça são o timbó e o curare.

O timbó é usado por diversas etnias para a pesca na época da seca, quando os rios baixam e ficam empoçados. Os suruwahas o extraem da raiz de uma planta (Lonchocarpus nicou) que produz um líquido leitoso. Jogado na água, ele atordoa os peixes deixando-os paralisados, na superfície. O efeito desaparece em minutos e não afeta o alimento.

O curare, conhecido como “veneno de flecha”, é usado para caça, na ponta de setas grandes, disparadas com arco, ou pequenas, sopradas com zarabatana. É produzido a partir de cipós que precisam ser cozidos. O efeito dessa poção também é paralisante e o animal atingido perde a capacidade de fugir.

Os suruwahas caçam macacos e aves com zarabatana e outros animais, maiores, com arco.

No princípio, Aji Marihi (deus ou herói criador) criou um povo de homens poderosos, chamados saramadys. São os ancestrais dos suruwahas, segundo sua mitologia. Eles aprenderam todas as habilidades necessárias para a vida: caçar, pescar, construir casas, produzir venenos, fazer a roça, plantar. As mulheres aprenderam como fazer a cerâmica, as roupas e tudo. Nessa época, todos os seres vivos eram humanos. Ao longo do tempo, alguns homens foram se transformando em outros bichos ou plantas, e assim se formaram todas as coisas.

Todo mundo tem uma alma, que habita o coração. Dali, ela comanda a memória e as emoções. O homem pode mentir, mas sua alma é sincera. Quando um suruwaha morre, conta a mitologia, a alma abandona seu corpo e vai para o igarapé Pretão, onde eles moram. Ali, no fundo escuro das águas, espera a época das chuvas para seguir viagem rumo aos grandes rios, até um momento em que consegue pular para o céu.

Ao saltar para o céu, cada alma se projeta para um dos três céus em que se divide o mundo segundo a cosmogonia dos suruwahas: as casas do Sol e da Lua, que se localizam em um plano superior; e o arco-íris, em um espaço intermediário entre os dois. Em cada um desses planos os mortos se concentram conforme seu destino específico. Embora não explique os suicídios, é possível relacionar a prática a essa crença.

A jovem Hahani e seu pai, Ania, que segura um arco e flechas. Foto: Sebastião Salgado

No caminho da cobra, que coincide com o traçado do arco-íris, ficam os mortos por picadas de serpentes. O arco-íris, que outros povos cultuam como linda expressão da natureza, é sinal de má sorte para os suruwahas: quando aparece, alguém vai ser mordido por uma cobra.

No caminho do Sol vão aqueles que morrem na velhice, por acidentes ou doenças, todas as pessoas que não foram picadas por cobra e nem provocaram a própria morte. O destino desses índios que morrem velhos é penoso, as almas vagam sem sossego até achar uma comida celeste que as faça renascer e conquistar a juventude eterna.

Por fim, para o “caminho do timbó”, que corresponde à trajetória da Lua, vão os que se autoenvenenam.

O melhor céu, portanto, é dos que morrem jovens e fortes. Eles vivem a verdadeira existência pregada nos cantos e mitos: um mundo embaixo das águas, onde as almas se tornam peixes (como aqueles que os suruwahas costumam pescar, atordoados pelo timbó). Esse é seu destino final. De certa forma, o lugar que concentra os suicidas é o mais parecido com o paraíso após a morte da cosmogonia cristã.

O mito suruwaha conta que o herói Aji Marihi era ao mesmo tempo homem e onça, tinha poderes de um grande xamã, capaz de transformar todas as coisas. Para criar a humanidade, esfregava entre as mãos as sementes de diversas plantas e as jogava no chão. Todas se transformavam em gente, índios e não índios.

Os primeiros homens a sair das mãos do criador foram os jaras, os civilizados ou não índios, feitos com a semente da sorveira (uma árvore alta, comum na região). Depois, com sementes de breu, foram feitos os samaradys, ancestrais dos suruwahas; e com envira, seus inimigos míticos, os jomas. E assim, um a um, foram sendo criados os povos.

Musy molda na argila um jawari (pote de água). Foto: Sebastião Salgado

GRUPO GANHOU FAMA AO VIRAR ALVO DE CAMPANHA CONTRA INFANTICÍDIO

Apesar do isolamento, os suruwahas ganharam exposição pública nos últimos anos devido a outro tabu: o infanticídio em grupos indígenas.

Usando principalmente a internet, a entidade evangélica Jocum (Jovens com uma Missão) incluiu o grupo entre os alvos de uma campanha contra morte de recém-nascidos.

Por considerar que a Jocum fazia proselitismo que prejudicava os índios, o Ministério Público Federal exigiu que a Funai descredenciasse a entidade, proibindo que ela trabalhasse com os suruwahas, a partir de 2004.

Com apoio da bancada evangélica, o deputado Henrique Afonso (PT-AC) apresentou, em 2007, um projeto de lei que obriga o poder público (Funai ou Sesai) a intervir em caso de risco, para evitar o infanticídio em famílias indígenas.

Aprovado na Câmara em 2015, o texto está parado na Comissão de Direitos Humanos do Senado, onde enfrenta reação contrária de entidades de direitos humanos e do presidente da comissão, Paulo Paim (RS), do mesmo PT.

“O infanticídio tem adquirido proporções insignificantes entre os suruwaha. Eles têm sido vítimas de uma campanha de criminalização e ‘animalização’”, diz o antropólogo Miguel Aparicio Sua´rez, autor da dissertação de mestrado “Presas do Timbó” (Ufam, 2014).

O índio Kwakway trabalha na construção de sua maloca, que será usada por toda a comunidade; as casas coletivas têm cerca de 20 metros de altura e trazem prestígio ao dono. Foto: Sebastião Salgado

Malocas de até 20 metros de altura podem abrigar toda a tribo

Os suruwahas vivem em grandes malocas, construídas em forma cônica, com até 20 metros de altura -equivalentes a um prédio de seis ou sete andares. Há cerca de dez malocas espalhadas pela terra indígena, aptas a receber toda a população, se necessário. Mas, em geral, apenas três ou quatro estão ocupadas a cada momento, porque os índios mudam em função de conveniências, como a disponibilidade de água (quando o igarapé junto a uma casa fica mais seco, por exemplo) ou a colheita de roças com mais alimentos.

Em razão de festas, caçadas ou pescarias coletivas, todos podem se juntar em uma mesma casa por um certo período.

Até recentemente, os suruwahas estavam distribuídos em cinco malocas, duas mais próximas entre si e as outras três mais distantes das primeiras. Para chegar a elas, o fotógrafo Sebastião Salgado teve que marchar por cerca de quatro horas. Já no domingo passado (26/8), toda a população estava concentrada em uma só moradia.

Há sempre uma casa em reforma ou em construção na aldeia, para que o grupo possa ficar mais próximo de uma roça recém-aberta.

Construir uma casa é uma decisão individual. No início, o trabalho é coletivo: muitos homens auxiliam na instalação das colunas principais, grandes troncos de madeira.

A cobertura será feita praticamente por uma só pessoa, o “dono” da casa, e esse é um dos elementos que o caracterizam como um homem generoso, provedor, que dá abrigo aos outros. Essa segunda parte leva mais de um ano.

Kwakway trabalha na construção de sua maloca; a obra das casas coletivas pode levar até um ano e costuma ser feita apenas pelo seu dono. Foto: Sebastião Salgado

A estrutura interna da maloca é composta por troncos longos, grossos e pesados e por outros mais finos, alternados. O dono escolhe as árvores na floresta, que serão cortadas e limpas. Para o transporte da madeira, ele conta com a ajuda de oito a dez índios.

Também é o dono quem determina as dimensões e a posição da construção – é ele quem abre os buracos no chão que receberão os troncos.

O processo de levantamento das colunas é quase uma festa. Vários homens iniciam a tarefa. Depois largam o tronco estrondosamente no chão, retomam o esforço e sobem um pouco mais, até que, para colocá-lo na posição final, usam forquilhas de outras madeiras. Isso é repetido várias vezes.

Por último, eles amarram aros feitos de madeira mais maleável às colunas, com diâmetros que vão ficando menores em direção ao topo, o que dá a forma cônica do edifício.

Os homens convocados ajudam ainda a montar os andaimes internos em que o construtor vai se equilibrar na longa jornada de instalação da cobertura de palha.

Nesse período, o dono da casa vai colher sozinho (ou apenas com um parente próximo) as folhas de uma palmeira baixa chamada caranaí; vai secá-las e desfiar suas fibras com faca, para produzir as peças que serão assentadas sobre a estrutura de madeira do telhado, como se fossem telhas de tecido vegetal. Na hora da chuva, a palha desfiada vai cumprir o papel de vedar a entrada da água.

A maloca dá a seu dono certa proeminência, porque os outros serão sempre recebidos como hóspedes, mesmo que por longos períodos ou toda a vida em comum. Embarcar na construção de uma casa é sinal de coragem já que depois, ele trabalhará muito para alimentar os visitantes.

O construtor então vira um líder, um ”madi iri karuji”, “pessoa inspiradora”. Essa influência não se traduz em um poder executivo, de decidir pelos demais ou mandar nos outros. O que diz respeito ao direito pessoal é decidido pelo indivíduo. “Por isso, às vezes uma pessoa combina uma coisa com outra e depois, quando isso envolve uma terceira, que pensa diferente, tudo é cancelado”, conta Salgado.

Dentro das malocas, as famílias se organizam em núcleos com cerca de quatro metros quadrados cada um, entre as colunas de sustentação e a parede de palha, formando um círculo em torno da praça central, reservada às atividades coletivas.

Os suruwahas preparam na maloca o agassi, o grande cesto feito de cipó e casca de árvore, usado para transportar de 600 a 800 quilos de mandioca ralada até o rio. Foto: Sebastião Salgado

Festa da mandioca é olimpíada de levantamento de peso

Um dos principais pratos da culinária dos suruwahas é o grolado, espécie de bolinho assado feito de massa de mandioca fermentada, ou puba. Depois da colheita, uma grande quantidade de mandioca brava é reservada para ser deixada a fermentar dentro da água do igarapé mais próximo. É assim o preparo da puba, que tem sabor mais acentuado do que a feita com a mandioca fresca.

Na água, ela será preservada como se estivesse em uma geladeira, para ser usada quando necessário, na falta da raiz fresca ou em viagens, para acampamentos de caça ou pesca. Como uma espécie de subproduto ritual, o preparo da puba resulta em uma verdadeira olimpíada de carregamento de peso, quando os homens levam para o igarapé os grandes cestos (chamados ”agassi”) onde acumulam a mandioca ralada.

O agassi é feito com cipó e casca de uma árvore. Tem cerca de dois metros de altura e 80 centímetros de diâmetro. É forrado com folhas largas, de forma a impedir que seu conteúdo seja levado pela água do rio.

Kwakway se prepara para carregar o cesto de cerca de dois metros de altura, cheio de mandioca ralada a ser fermentada no rio. Foto: Sebastião Salgado

Depois de ralada, a mandioca brava é espremida, para soltar parte do caldo venenoso, e colocada no cesto. Cheio, o agassi pesa cerca de 400 quilos. Depois de imerso no igarapé, com o acúmulo de água, pode pesar 700 ou 800 quilos.

O rito de levar o cesto para o rio é uma festa. “Eles juntam os homens mais fortes para levantar aquele enorme balaio. É uma prova de força que exige grande sofrimento e contenção. Vão trocando de lugar, quando as forças de uma pessoa se esgotam”, conta Salgado, que fotografou detalhadamente todo o processo.

“Senti que eles fizeram aquele ritual coincidir com a nossa visita, porque começaram a fazer o balaio quando nós chegamos e nos chamaram para ver o ritual”.

Mas também, como é típico da imprevisibilidade da alma suruwaha, após um longo período sendo retratados, os índios mudaram de ideia. “Depois de um bom tempo, disseram que eu precisava ir embora. Eles são muito interessantes, bem peculiares”, diverte-se o fotógrafo.

O esforço para carregar o peso imenso leva todos ao limite de suas forças. Os músculos são amarrados com fibras para não se rasgarem.

Baxihywy ajuda a carregar o agassi, cesto usado para transportar a mandioca ralada até o rio. Foto: Sebastião Salgado

Os homens trocam de posição, em um rodízio em que um deles, a todo momento, recebe a maior parte do peso em suas costas. “Evidentemente ele se destaca como o mais valente, um guerreiro mais forte.”

A mandioca é levada para o igarapé, que está a cerca de 500 metros, e será consumida aos poucos, ao longo de meses. Ou tudo de uma vez, se houver uma grande festa.

A puba também tem papel importante na caça, o melhor atalho para conquistar prestígio na comunidade.

O grupo faz grandes caçadas coletivas no “inverno” (a época da chuva, que corresponde ao verão do Sudeste), que sempre são organizadas e comandadas por um dos homens de prestígio.

A credencial para organizar uma caçada é ter um estoque de puba armazenado no igarapé, que irá servir de alimento a todos que vão participar do evento.

Os suruwahas dividem os animais em três tipos, em uma classificação que nada tem a ver com a taxonomia proposta pela ciência moderna: ”zamatemyro” são todas as caças que andam no chão, abatidas preferencialmente com flecha; ”igiaty” são animais que vivem nas árvores, como macacos e aves; e ”igiatykyry” são os bichos pequenos, como os ratos e os passarinhos, caçados com zarabatana.

Liderados por Kwakway, os índios mais fortes da aldeia carregam cesto de mandioca ralada, num misto de festa e prova de força. Foto: Sebastião Salgado

Se o inverno é da caça, o verão é o tempo das grandes pescarias coletivas, quando os suruwahas usam o timbó, forma tradicional de pesca. O convívio com outros povos deu a eles novas técnicas -linha e anzol, zagaia e arpão–, o que permite a pesca em rios maiores.

Os peixes são parte fundamental da dieta suruwaha, e estão tão imbricados na sua cultura que os homens imaginam que, após a morte, viram peixes, “presas do timbó”.

RITUAL DA PUBERDADE É MARCADO POR CABEÇA RASPADA E SURRA DE VARA

Quando ficam menstruadas pela primeira vez, as meninas suruwahas entram em um rito de iniciação, para se tornarem moças.

A garota deve ficar recolhida, sem se banhar, com o rosto coberto e os olhos vendados. Ela fica de cama e só se levanta para fazer suas necessidades, quando é conduzida por outra mulher.

Ao final do ciclo menstrual, vai ser banhada, ganha uma tanga nova e é surrada com vara pela mãe ou pela avó (trata-se de uma surra ritualizada). Seu cabelo é todo raspado.

Depois de se tornar mulher, há uma série de tabus relacionados ao ciclo menstrual que envolvem normas de comportamento (como a que proíbe que homens usem sua rede nesse período) e alimentares (não podem comer certos alimentos, como caça abatida com veneno, o que traria azar ao caçador).

Jovem toca o instrumento huriatini, uma trombeta feita de casca de envira, que serve para dar avisos. Foto: Sebastião Salgado

Os meninos se tornam homens em torno dos 15 anos. O rito de passagem envolve uma caçada ou pescaria coletiva. Ao voltar para casa, o jovem deverá ajudar a carregar os grandes cestos de alimentos, para mostrar que já é forte, e também o agassi, que é a maior oportunidade de exposição de força individual. À noite, haverá uma grande festa.

Ao amanhecer do dia seguinte, um homem entre seus parentes vai colocar o suspensório no pênis do jovem. Chamado de ”sokoady”, ele fecha o prepúcio sobre a glande e é sustentado por uma espécie de cinto.

O suspensório caracteriza o decoro masculino em diversas culturas indígenas. Para eles, a nudez (ou a “vergonha”) ocorre apenas quando o acessório está aberto. Entre os suruwahas, um homem confecciona o ”sokoady” e outro o coloca no jovem iniciado. Depois que ele é atado, os outros homens surram o jovem.

Quando volta para casa, ele vai armar sua rede bem no meio da maloca, deixando o espaço destinado a seus pais, como se “saísse de casa”.

O índio Miniari, filho de Giani e Buti, deitado em canoa durante pescaria no igarapé Pretão. Foto: Sebastião Salgado

Os suruwahas se casam preferencialmente com primos cruzados (os meninos se casam com filhas das irmãs do pai; as meninas, com filhos dos irmãos da mãe). Com a redução populacional, essa prática é difícil.

Hoje em dia, os jovens adotam a monogamia, mas a poligamia é admitida, ocorrendo tradicionalmente com homens casando com suas primas cruzadas.

A cerimônia é realizada por ação de um outro homem qualquer da casa coletiva, que leva a rede onde a moça dorme para perto da rede do possível noivo. Todos agem como se fosse uma surpresa. O rapaz, no primeiro momento, nega o desejo, mas depois cede. Pode acontecer de o jovem recusar a noiva.

Após o casamento, há uma espécie de lua de mel. No período de um ano ou um pouco mais, os jovens vivem com comida dada por suas famílias. Só depois, frequentemente quando têm o primeiro filho, eles vão começar a produzir seus próprios alimentos e se tornam realmente independentes.

Uma das duas índias suruwahas operadas de catarata pela ONG Expedicionários da Saúde, Wixikiwa segura macaquinho de estimação ao lado da neta. Foto: Sebastião Salgado

Cirurgia de catarata devolve o mundo a anciãs

Há cerca de 20 anos, a escuridão da floresta alta se tornou ainda mais escura para Xamã e Wixikiwa: as duas mulheres perderam a visão, com catarata. Seu mundo se fechou.

A vida cotidiana na selva exige o uso intenso dos olhos: nas grandes caminhadas para mudanças de maloca, para abrir novas roças ou para os acampamentos de caça e pesca ou mesmo o cuidado com as cobras em volta de casa. Tudo pede uma vista aguçada.

Seu sofrimento calado é narrado por histórias que os outros contam, como quando Xamã parou numa trilha para um acampamento de pesca, não conhecia o caminho de cor e não via os vultos de outros para seguir.

As duas mulheres suruwahas já estavam desacorçoadas com a longa cegueira quando, em maio deste ano, foram operadas.

Foi como um milagre. A uma antropóloga que trabalha com a comunidade, as índias disseram que “voltaram a viver” e “ganharam vida nova”.

As operações foram realizadas pelo médico Mauro Campos, chefe do departamento de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina (da Unifesp), como parte do atendimento dado aos índios durante a passagem da ONG Expedicionários da Saúde (patrocinada por empresas) pela região do médio rio Purus, onde moram os suruwahas e outros grupos. Na aldeia, os cirurgiões da entidade trataram três pessoas com catarata e quatro com hérnia.

Segundo o censo feito durante a viagem, o grupo indígena tem poucos casos de doença. “Eu examinei todos eles e vi poucas pessoas com problemas de saúde. Eles são muito saudáveis e fortes”, diz Campos.

O médico conta que, além das duas mulheres idosas, operou um jovem, de 27 anos, que desenvolveu um tipo menos comum da doença, a catarata traumática, causada por contusões no olho (batidas, perfurações) que não cegam, mas ferem o cristalino e ele fica opaco.

Ao descrever suas impressões sobre os índios, ele repete a sensação de Sebastião Salgado: “Os suruwahas foram uma novidade para nós. Fiquei emocionado, eles não têm celular, não têm roupas, não têm escolas. A presença do Estado se dá apenas pela casinha da Sesai”, diz, referindo-se ao pequeno polo de saúde.

“Os índios com mais contato normalmente mudam algumas coisas, culturalmente, mas eles não. Eles parecem ser muito tradicionais. Me senti realmente cuidando de índios isolados”, diz o professor da Unifesp.

“Ao longo do período em que estivemos lá, pudemos vê-los caçando com zarabatana. É impressionante a habilidade deles. Pegaram um tucano. Acertam as aves voando.” Outra cena ficou em sua memória: “Eles comem de tudo, inclusive urubus”.

O médico conta que chegou a ouvir de trabalhadores da região que os vizinhos temem o contato com os suruwahas porque eles conhecem muitos venenos. Mas Campos diz que não teve problemas em obter ajuda de agentes para tratá-los.

Também marcaram a lembrança do médico a arquitetura das casas, com mais de 20 metros de altura, a abundância de serpentes na aldeia e o fascínio dos índios por fotos. “Eles ficam o tempo todo olhando as fotografias que fazemos, sempre muito impressionados”, conta Campos.

Acidente com cipó na aldeia dos suruwahas machuca olho de fotógrafo

A ponta de um cipó espetou o canto interno do olho de Sebastião Salgado quando ele andava por uma trilha: “Uns poucos milímetros ao lado e eu estaria cego. Só para ir a um hospital levaria de três a quatro dias”.

Na selva, Salgado seguia um índio que abria caminho com facão. “Eu olhava para baixo, para ver onde pisar. Nisso, a ponta de um cipó que ele havia cortado, pontiaguda, entrou por baixo de meu chapéu e espetou o cantinho do olho.” Sangrou um pouco. Seu assistente, Jacques Barthélemy, fez a foto. “Tive muita sorte.”

A expedição aos suruwahas é parte do projeto “Amazônia”, que documenta o habitat e comunidades indígenas da maior floresta do planeta. Conhecido por reportagens de documentação como “Trabalhadores”, ”Êxodos” e “Gênesis”, Salgado prevê lançar livro e exposições sobre “Amazônia” a partir de 2021.

A Folha já publicou seus trabalhos sobre os índios korubos (5.dez.2017) e ashaninkas (20.mai.2018). Radicado na França desde a ditadura, Salgado começou a carreira de fotógrafo nos anos 1970. Trabalhou em agências internacionais, como a Magnum, fundada por Robert Capa e Cartier-Bresson em 1947. Desde os anos 1990, mantém sua própria agência, a Amazonas Images, com sede em Paris.

Edição: Heloísa Helvécia / Textos: Leão Serva / Fotos: Sebastião Salgado / Edição de fotos: Thea Severino / Coordenação de Arte: Thea Severino / Infografia: Marcelo Pliger / Design e desenvolvimento: Thiago Almeida, Pilker, Rubens Alencar e Angelo Dias

Eco-terrorismo, Eco-fascismo, Eco-extremismo, Eco-anarquia e a Floresta Białowieża

Esta é a tradução de Eco-terrorism, Eco-fascism, Eco-extremism, Eco-anarchism and the Bialowieza Forest, respeitável opinião de Julian Langer, eco-radical radicado no Reino Unido responsável pelos blogs Eco-Revolt e Feral Culture. Na ocasião Langer se manifesta sobre as críticas de alguns anarquistas nos Estados Unidos em relação às ações dos eco-extremistas.

A última floresta primaveril da Europa é bela floresta Białowieża, lar de bisontes, raposas e uma infinidade de outras criaturas vivas, os últimos remanescentes de uma Europa selvagem agora lembrada apenas em mitos e lendas, que é situada na região da atual Polônia, e atualmente está sob ataque de madeireiros.

Como indicado no vídeo acima, o mais alto tribunal da União Europeia ordenou que o governo polonês parasse de entrar na área (1). O movimento nacionalista de extrema direita em ascensão na Polônia levou isso para sua pauta (2), (desta forma, a UE) chama os ambientalistas que buscam defender e apoiar a floresta de “terroristas verdes”.

Esta não é a primeira vez que os ecologistas e os anarquistas foram taxados de terroristas, houveram eventos como o de Langnau na Suíça em 2010 (3) que puseram o eco-anarquismo na imprensa britânica, sendo rotulados como terroristas. O FBI (4) lista grupos eco-anarquistas como Earth First!, ALF e ELF como grupos terroristas. Mas isso é completamente estranho por rotular grupos que na maioria dos casos causam danos à propriedade como grupos terroristas.

É terrorismo sabotar equipamentos madeireiros, escalar e sitiar árvores, e não danar pessoas, não infligir violência a ninguém e, em geral, fazer todo o possível para evitar ferir pessoas? É terrorismo cortar e destruir um dos ecossistemas vivos mais antigos do planeta, lar de mais vida silvestre do que se pode imaginar, uma fonte de cura para nossa atmosfera, um modo de vida em si, de uma maneira brutal? Um me parece terrorismo, e o outro não. No entanto, e quanto ao rótulo que os ecologistas muitas vezes chamam de “eco-fascismo”: tem algum peso nisso?

Em reação à ascensão do Trumpismo e aos crescentes movimentos de direita nos Estados Unidos e Europa, os antifas e o antifascismo tornaram-se mais visualmente ativos e cada vez mais fazem parte da política cotidiana. Os grupos anarco-comunistas, ligados aos antifas, realizaram recentemente entrevistas com a Fox News (5) sobre o tema do racismo e o autoritarismo na era política de Trump. Mas e os eco-anarquistas?

O Earth First! tem falado durante muito tempo contra o fascismo e a xenofobia, e apoiou ações que se opuseram diretamente a Trump antes de sua presidência. (6) O ambientalismo como movimento apoiou durante muito tempo as lutas anticolonialistas (7), e pode-se argumentar que o ambientalismo não pode ser separado do anticolonialismo, já que o fascismo italiano-imperialista têm laços inegáveis e relações amistosas com o colonialismo. (8)

O escritor ambientalista radical Derrick Jensen escreveu sobre, em oposição aos laços e a influência do fascismo nas indústrias e negócios hoje em dia. (9)

Muitos daqueles que querem vincular o ecologismo com o fascismo buscam inspiração na simpatia nazi pela natureza (10), extraindo o sangue e as narrativas do solo ligadas ao nazismo verde (11). Este é obviamente um argumento bastante pobre para o homem de palha, mas frequentemente é popularizado, e apela a argumentos baratos do tipo Reductio ad Hitlerum.

Então, qualquer tentativa de vincular os eco-radicais com o fascismo parece muito fraca, se é que isso pode ser feito, com eco-radicais e eco-anarquistas que têm vínculos mais estreitos com os antifascistas que com a extrema-direita. Mas quais são os sentimentos entre os grupos radicais?

O grupo anarquista-comunista It’s Going Down recentemente (12) criticou o grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) através de uma rodada de artigos sobre o eco-extremismo e sua relação com o anarquismo. Em geral, as críticas foram direcionadas às táticas mais violentas deste grupo no México, que abraça a categoria do terrorismo e pretende criar terror para os civilizados.

It’s Going Down acusou este grupo eco-extremista de ser “eco-fascista”, e tentou manchar nomes de projetos anarquistas que têm algum tipo de ligação ou que estão em discussão com o eco-extremismo.

O eco-extremismo é um movimento que se separou do anarco-primitivismo e de Kaczynski, seguindo um viés ecologista radical em favor de uma abordagem do tipo niilista-pagã para o discurso e a prática eco-radical. Pessoalmente, não estou convencido de tudo o que vi emergir das escrituras eco-extremistas nem encontro o amor de ITS à violência aleatória completamente vulgar e indesejável, mas simpatizo com uma grande parte da crítica do argumento eco-extremista, particularmente suas críticas aos anarquistas e ecologistas de esquerda.

E simpatizo também com esta crítica aos anarquistas por parte deste escritor eco-extremista (13), sobre a fraqueza dos argumentos anarquistas, onde os anarcos simplesmente chamam “fascista” tudo o que não gostam, algo que parece estar acontecendo. Algo que me encanta no discurso eco-extremista é sua oposição ao antropocentrismo e o abraço à natureza selvagem, que definem como:

Natureza Selvagem: “A Natureza Selvagem é o principal agente da guerra eco-extremista. Os filisteus se opõem à invocação da “Natureza Selvagem” taxando isso de atavismo ou “superstição”, mas o fazem apenas por causa da sua própria domesticação e idiotice. “Natureza Selvagem” é tudo o que cresce e se manifesta no planeta em objetos animados e inanimados, de pedras a oceanos, de microrganismos a toda a flora e fauna que se desenvolveram na Terra. Mais especificamente, “Natureza Selvagem” é o reconhecimento de que a humanidade não é a fonte e o fim da realidade física e espiritual, mas apenas uma parte dela, e talvez nem mesmo uma parte importante.”, extraído de Atassa: Reading in Eco-Extremism. (14)

Este abraço ao selvagem é algo que grande parte do ecologismo e a maioria dos anarquistas perderam, já que ambos se fundiram cada vez mais à civilização e a suas narrativas.

Voltando à floresta Białowieża, um dos últimos lugares que encarna completamente o selvagem, se você olhar para ela desde um olhar do tipo pagão eco-extremista ou desde um olhar eco-anarquista ou eco-radical, é um lugar de óbvia beleza e valor.

Não podemos dizer se a proteção da UE fará muito ou não, especialmente com a crescente onda de nacionalismo dentro da Polônia e a quantidade de extração ilegal de madeira que não é controlada em todo o mundo. O que podemos fazer é sermos aliados do selvagem, viver vidas selvagens e sermos iconoclastas em relação a esta cultura/civilização/Leviatã que está destruindo antropocentricamente a biosfera, cuja beleza selvagem nós amamos.

Não somos fascistas nem terroristas, mas utilizaremos os meios que temos disponíveis e lutaremos pelo que amamos. Este site recentemente reeditou este o artigo sobre o Chamado Internacional de Mobilização Para a Defesa da Floresta Hambacher (15), como parte da resposta para defender esta floresta na Europa.

Necessitamos retornar ao bosque e defendê-los por todos os meios à nossa disposição.

Para terminar, algumas citações:

“O caminho mais claro ao Universo é através de uma floresta selvagem.” – John Muir

 

“A cultura nos levou a trair nosso próprio espírito e integridade aborígene, rumo a um reino cada vez pior de alienação sintética, isolante e empobrecedora. O que não quer dizer que não haja mais prazeres cotidianos, sem os quais perderíamos nossa humanidade. Mas à medida que nossa situação se agrava, vislumbramos o quanto deve ser apagado para a nossa redenção.” – John Zerzan

 

“Precisamos da tônica da loucura … Ao mesmo tempo em que somos sinceros para explorar e aprender todas as coisas, exigimos que todas as coisas sejam misteriosas e inexploráveis, que a terra e o mar sejam indefinidamente selvagens, sem serem inspecionados e não sondados por nós porque são insondáveis. Nunca podemos ter o suficiente da natureza.” – Thoreau

 

“O Selvagem ainda permanece nele, e o lobo nele simplesmente dormia.” – Jack London

Notas:

1) https://www.theguardian.com/environment/2017/jul/28/eu-court-orders-poland-to-stop-logging-in-bialowieza-forest
2) https://www.ft.com/content/67618b9e-8893-11e5-90de-f44762bf9896
3) http://www.independent.co.uk/environment/eco-anarchists-a-new-breed-of-terrorist-1975559.html
4) https://archives.fbi.gov/archives/news/testimony/the-threat-of-eco-terrorism
5) http://video.foxnews.com/v/5509083595001/?#sp=show-clips
6) http://www.earthfirst.org.uk/actionreports/node/23958
7) https://www.opendemocracy.net/uk/anna-lau/climate-stories-environment-colonial-legacies-and-systemic-change
8) https://medium.com/@malorynye/the-brutal-friendship-between-colonialism-and-fascism-some-thoughts-from-aim%C3%A9-c%C3%A9saire-on-9224e90550b5
9) http://www.derrickjensen.org/culture-of-make-believe/lamont-and-mussolini/
10) http://theunion4ever.com/general/environmentalism-new-fascism/
11) http://www.spunk.org/texts/places/germany/sp001630/peter.html
12) https://itsgoingdown.org/nothing-anarchist-eco-fascism-condemnation/
13) https://youtu.be/708mjaHTwKc
14) https://ia801606.us.archive.org/32/items/AtassaReadingsInEcoExtremism/Atassa%20-%20Readings%20in%20Eco-Extremism.pdf
15) https://feralculture.blog/2017/07/23/international-mobilisation-call-for-the-defence-of-hambacher-forest-2/

O que é o ITS, grupo eco-extremista que o governo do Chile acusa de atos terroristas

Publicação extraída da BBC.

Símbolo do grupo ITS no Chile.

Era meia-noite de terça-feira, 7 de maio, quando o presidente da Metro do Chile, Louis de Grange, recebeu um pacote em sua casa, no bairro de Las Condes, em Santiago.

O que parecia ser uma encomenda despertou suspeita, e ele decidiu chamar a polícia.

Quando o grupo especializado da OS9 dos Carabineros chegou à sua casa, o temor de De Grange foi confirmado: o pacote continha um dispositivo explosivo dentro.

O ataque frustrado ao presidente da Metro não foi um caso isolado. Em janeiro de 2017, um pacote semelhante foi enviado para o endereço do então presidente da Corporação Estadual do Cobre (Codelco), Óscar Landerretche, que não alertou a polícia.

A bomba explodiu e o gerente acabou com ferimentos no braço, antebraço e abdômen.

Em janeiro a detonação de um artefato deixou vários feridos.

Outro ataque aconteceu no dia 4 de janeiro em um ponto de ônibus da rede de transporte Transantiago, no centro da capital chilena, quando explodiu um artefato que deixou cinco feridos.

Quem reivindica a autoria desta série de ataques é o auto-intitulado grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

O ministro do Interior chileno, Andrés Chadwick, chamou o ataque a De Grange de “ato terrorista”.

Mas de onde vem este grupo e no que acreditam?

Como afirmado em seu site, a organização é contra a “civilização moderna e o progresso humano, científico e tecnológico”.

O Presidente do Chile, Sebastián Piñera, com o presidente da Metro, Louis de Grange (à direita), para quem o explosivo foi enviado.

Para eles, estes são os “maiores responsáveis ​​pela devastação dos ecossistemas”, por isso são necessárias “respostas decisivas e extremas contra os responsáveis, isto é, contra a própria humanidade”.

Por meio de uma declaração pública, o grupo indicou que tinha escolhido De Grange para receber o explosivo por ele estar “no controle de corporações que destroem a Terra”.

Onde nasceu o grupo

O ITS nasceu no México em 2011, mas afirma ter presença não apenas no Chile, mas também na Argentina, no Brasil e em alguns lugares da Europa, como Espanha, Escócia e Grécia.

Em um comunicado publicado após o ataque frustrado contra o presidente da Metro, a organização afirmou que tinha laços com facções anarquistas argentinas e seria naquele país que vivia o “arquiteto da bomba”.

No México, foram atribuídos ao grupo ataques contra professores universitários que ensinam nanotecnologia e outras ciências relacionadas com o avanço tecnológico.

Os extremistas acrescentam, no comunicado, que não se limitaram a atacar apenas os responsáveis ​​pelo progresso tecnológico, mas também “meios de transporte público, profissionais, empresários, seguidores do catolicismo, veículos, máquinas, prédios, bancos, shopping centers, torres de telecomunicação, igrejas e grupos ambientais” que não compartilham de suas posições.

O Metrô de Santiago está entre os alvos de ITS.

“Esses grupos que não são sistêmicos e que são pequenos são muito difíceis de neutralizar porque a infiltração é quase impossível, então, é difícil saber o que eles pensam, qual é a sua ideologia e o que querem”, diz Hugo Frühling, diretor do Instituto de Relações Públicas da Universidade do Chile.

O grupo, além disso, teria relação com outros grupos anarquistas chilenos.

Preocupação

Há uma preocupação crescente entre as autoridades chilenas, já que o ITS fez um chamado para que sejam instalados explosivos em diferentes partes de Santiago durante o mês de maio.

Neste mês, completam-se dez anos da morte de Mauricio Andrés Morales Duarte, conhecido como “Punky Mauri”, um jovem anarquista que morreu depois que um explosivo detonou em sua mochila.

Até agora não há detidos pelo atentado a Landerretche, nem pela bomba colocada no ponto de ônibus da Transantiago e nem pelo frustrado ataque a De Grange.

Segundo Frühling, é muito difícil encontrar o perfil e saber como os membros desses grupos anarquistas operam.

ITS é um grupo radical que procura proteger o meio ambiente.

O acadêmico acredita que, sendo um grupo que opera além do Chile, a realização de uma colaboração policial internacional poderia ser “frutífera”.

Frühling diz que não está claro se esses grupos extremistas aumentaram no Chile.

“Ao ITS são atribuídas três ações em dois anos e meio, então, você não pode dizer que há um crescimento exponencial, embora o grupo possa estar participando de outras ações menos diretas ou visíveis, como ameaças ou estímulo a outras ações.”

“Então, sim, estamos enfrentando um perigo porque eles tentam causar danos por meio de atos que são claramente terroristas e isso é extremamente preocupante”, diz ele.

Alarme

No Chile, há preocupação especialmente sobre duas cúpulas importantes a serem realizadas no país no final do ano: a reunião mundial sobre mudança climática (COP25), que reunirá cerca de 22 mil pessoas, e o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, que reunirá mais 15 mil.

Frühling diz que, embora ele não acredite que haja perigo para as autoridades que comparecerão a essas reuniões, é preciso ter cautela.

“As autoridades têm seus próprios serviços de segurança e filtrarão a entrega de pacotes ou elementos desse tipo, mas o que poderia acontecer, talvez, seria que outros participantes pudessem estar sujeitos a ações desse tipo”, diz ele.

O ministro do interior do Chile, Andrés Chadwick, condenou o ato e chamou-o de ‘terrorista’ .

Para dar mais ferramentas às equipes de investigação desse tipo de evento, o ministro do Interior anunciou que nesta semana o governo promoverá no Parlamento chileno uma emenda à lei antiterrorista que já existe.

“Condenamos veementemente esses atos, e os chamamos diretamente pelo nome: atos terroristas, que são atribuídos a grupos de natureza anárquica”, disse Chadwick após o ataque fracassado contra De Grange.

Desmembrados e comidos: aborígenes do México sacrificaram a aliados dos conquistadores espanhóis

Em 1520, cerca de 350 pessoas foram capturadas e, nos meses seguintes, homens, mulheres grávidas e crianças foram submetidos a distintos rituais.

Esqueletos de espanhóis sacrificados no museu de Zultépec-Tecoaque, no México, em 8 de outubro de 2015.

De RT:

Investigadores do Instituto Nacional de Antropologia e História do México revelaram as práticas que os Acolhuas, uma das comunidades originárias daquele país, submeteram a uma caravana de aliados do conquistador espanhol Hernán Cortés, cujo integrantes, tanto homens como mulheres grávidas e crianças, foram sacrificados, desmembrados e comidos em diferentes rituais.

Quatro anos após restos ósseos terem sido descobertos em Zultépec-Tocoaque, onde havia cerca de 36 mil peças arqueológicas, os especialistas obtiveram provas de que foi o que ocorreu com as cerca de 350 pessoas capturadas em junho de 1520. Nos seis meses seguintes, os Acolhuas fizeram cuidadosas seleções para o sacrifício e chegaram a comer alguns dos prisioneiros. Por essa razão, explicaram a partir do Instituto, Zultépec seria conhecido mais tarde como Tecoaque, nome que significa “onde foram comidos”.

“Os habitantes de Zultépec vão recriando os mitos de criação”, explicou o arqueólogo Enrique Martínez Vargas no colóquio “500 anos do desembarque de Hernán Cortés”, que foi celebrado nesta semana no México. Lá, ele acrescentou que um “exemplo” dessa prática aparece em “um enterro que representa o mito de Cihuateteo”.

INAH.

“Na oferenda temos um guerreiro, uma mulher cujo corpo foi cortado em dois, uma criança de três ou quatro anos desmembrada; e aos pés do guerreiro estavam localizados “troféus ósseos” pertencentes a quatro pessoas: fêmures, tíbias, fíbulas. Os restos ósseos da mulher, da criança e os “troféus ósseos” tiveram um tratamento cultural”, detalhou.

Um grupo multiétnico

A caravana capturada pelos Acolhuas tinha um caráter multiétnico, já que havia homens e mulheres europeus, indígenas de distintas regiões, mestiços, mulatos e zambos. Também levavam animais, como cavalos, vacas (ambos foram comidos), burros, cachorros e cabras. Os porcos foram sacrificados e oferecidos em um algibe.

Quanto aos cativos mortos, os arqueólogos revelaram que tanto as espanholas como uma mulata estavam grávidas. Para os Acolhuas, as mulheres que morriam no parto eram consideradas guerreiras, então acompanhavam o Sol em sua viagem através do submundo.

Por último, detalharam que a posição em que um guerreiro foi enterrado parecia recriar o mito do Quinto Sol, já que a ele foi ofertado um espanhol, que foi queimado e desmembrado.

Mauricio Morales é Caos e Misantropia

Reflexões do misantropo anarquista antissocial Mauricio Morales. Neste maio completou 10 anos de sua morte. O texto foi retirado do livro em seu nome.

A cidade é uma asquerosa sucessão de edifícios, bancos, quartéis, gente sem sangue nas veias, e para dizer a verdade, tudo isso me esgota bastante, já não quero manter minha vida no ritmo condensado desta estúpida ordem alheia a minha vontade, portanto estou planejando sair desta cidade em um futuro não muito distante. No entanto ainda me restam muitas pequenas e grandes “coisas” para terminar… o desejo de estar entre árvores centenárias me agrada muito, honestamente eu preferiria estar rodeado por uma floresta densa do que por tanto seres humanos fedidos e imundos, com exceção de alguns poucos irmãos. Para mim a raça humana deveria ser aniquilada, e pra dizer a verdade, até nós mesmos, já que considero que o ser humano é o maior inimigo da natureza, como agente destrutivo é o mais nocivo para o planeta e, portanto, merecemos o nosso próprio extermínio.

Aqui fora a coisa não é muito distinta, a maioria das pessoas se movem porque recebem ordens, não possuem vontades próprias, todos são robôs de carne, então a coisa não mudou muito, a prisões mentais são cada vez mais fortes e são poucos os que geralmente ultrapassam seus muros, o resto vive, cochila e morre, no entanto ainda há quem sonhe e ria.

– Mauricio Morales.

O Eco-terrorismo e o Paradoxo da Loucura Total

Tradução de El Ecoterrorismo y la Paradoja de la Locura Total, escrito por Jorge Andrés Cash, advogado e magistrado em direito ambiental pela Universidade do Chile. Alguns tópicos planteados por Jorge já foram discutidos em outros textos como o “Salvar o Mundo” como a maior forma de Domesticação, de Chahta-Ima. Notas Sobre a Extinção de Abe Cabrera também levanta uma questão de destaque no texto. A primeira entrevista de ITS e o vigésimo nono comunicado também contribuem. O autor menciona sobre a necessidade de um diálogo e discussão do problema. ITS faz isso a seu modo bastante particular, suas entrevistas, textos e propagandas demonstram isso, e em um passado distante foi mais aberto ao diálogo, mas isso só provou o quão tola é a outra via. Não se pode esperar que o grupo se dobre a propostas otimistas e reformistas vindas dos civilizados, já que tem bem claro consigo de que não há alternativas nem saídas a não ser a oposição extremista a todo o progresso humano, e ele não carece de dados, toda a sua literatura mostra isso, chegando a rejeitar até as mais radicais propostas como mostra a análise “Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica.

Não é possível recorrer a qualquer definição que permita explicar e, portanto, entender, o que é “eco-terrorismo” ou o que ele representa. É antes um neologismo tão amplo que pode incluir um tipo de terrorismo cujo propósito em relação ao meio ambiente pode ser tanto a proteção do “todo” e ao mesmo tempo do “nada”.

Este conceito que não tem uma definição oficial e só foi confusamente descrito pelo FBI como “o uso ou ameaça de uso da violência de natureza criminal contra vítimas inocentes de uma propriedade por grupos subnacionais com orientações ecologistas a favor do meio ambiente ou por razões políticas, ou destinada a um público além do alvo, frequentemente de caráter simbólico”, não fornece suficiência conceitual para compreendê-lo desde sua denominação.

Consequentemente, uma estrutura lógica de pensamento nos obriga a ponderar adequadamente a necessidade de levar a sério o conceito de “eco-terrorismo”, primeiro para entender do que estamos falando, e depois para decidir a relevância que é dada à conclusão que se obtenha. Assim, dada a ausência de uma fonte normativa para o “eco-terrorismo” e a confusa definição do FBI, é preciso subtrair as ideias que poderiam estar subjacentes ao conceito, de modo que emerjam para uma análise mais aprofundada, de maneira individual ou ideológica, a mais pura possível.

Sem o dito anteriormente, todas as agências de inteligência, por mais profundo que cavem, não poderão encontrar nenhuma pista, simplesmente porque não saberão o que estão buscando.

Para ilustrar o contexto geral da análise, é necessário remontar os anos de 1976 e 1992. Estas datas correspondem ao nascimento dos grupos mundialmente conhecidos como “eco-terroristas”. A Frente de Libertação Animal (F.L.A.) e a Frente de Libertação da Terra (F.L.T.), respectivamente, ambos originários do Reino Unido. A F.L.A. foi descrita como uma ameaça terrorista interna na Grã-Bretanha e foi declarada pelo FBI como uma das 10 principais organizações terroristas do país.

Por sua parte, a F.L.T. foi classificada como a maior ameaça terrorista nos Estados Unidos pelo FBI em março de 2001, e realizou ataques em mais de uma dúzia de países. Ambas as organizações estão categorizadas como “eco-terroristas”. No entanto, a atividade terrorista que estas organizações desenvolveram, e que exorbitam intensamente fins protetores com relação ao meio ambiente, são insuficientes para se chegar a uma ideia ou conjunto de ideias que permita cristalizar um conceito complexo e altamente desafiador para as agências de inteligência moderna.

Da mesma forma, não só a falta de uma “fonte oficial” para o “eco-terrorismo” complica a tarefa de entender o conceito e abordá-lo , mas também, e talvez o mais complexo, a relativização que foi feita de sua existência, em que muitos atribuem os ataques realizados em seu nome a conspirações próprias de ficção científica.

Uma destas teorias diz que o “eco-terrorismo” surgiu no âmbito da elaboração do Relatório Brundtland em 1987, que deu origem ao conceito de “Desenvolvimento Sustentável”. Este conceito que tem permitido ancorar universalmente a necessidade de equilibrar o crescimento econômico, a igualdade social e a proteção ambiental, teria tido como base uma deliberada pesquisa sobre a pobreza, através da diminuição do consumo de recursos e do controle dos níveis de mortalidade.

Esta ideia conspirativa teria começado a tomar forma nos anos 70, a partir do “Relatório Kissinger”, que advertia sobre o perigo do crescimento da população mundial e como afetaria negativamente os EUA o consumo dos recursos do planeta que o país estima como “suas” reservas. Portanto, em nosso país devemos ser claros, como o primeiro elemento de análise, que os atentados perpetrados pelo grupo “eco-terrorista” denominado “Individualistas Tendendo ao Selvagem” (I.T.S.), cuja origem remonta a 2011 e possui presença no Chile, México, Argentina, Brasil, Grécia, Reino Unido, Espanha, entre outros países, tiveram como objetivo matar pessoas, circunstância que acelera imperativamente a necessidade de se compreender do que falamos quando nos referimos a “eco-terrorismo”.

Neste sentido, a organização mencionada, de acordo com seus próprios manifestos, afirma que a destruição da espécie humana, irremediavelmente alienada, constitui a única possibilidade para salvar o planeta. Isso, porque quando exterminada a espécie, um novo ser humano nascerá e o planeta terá sobrevivido. Expressam esta ideia, entre outras formas, da seguinte maneira: “… quando não restar mais água potável e estiver ela toda contaminada, quando todas as florestas morrerem, e os mares e rios secarem, saberão que a loucura não estava em se opor a esta forma de vida, mas em perpetuá-la”.

Ante o fundamentalismo irredutível do qual se planteiam, o que toca então, consiste em entender que o “eco-terrorismo” não responde a uma concepção niilista nem anárquica, mas sim, o contrário, a um método extremo de salvação do habitat de nossa espécie, cuja arquitetura ideológica, parece obedecer a perda total da esperança, da fé e do amor, no entanto, paradoxalmente, ancorada em uma valorização purista do natural, que deixou o desenvolvimento material e espiritual do individuo como fins circunstanciais à sua existência.

Desta forma, diante dos insondáveis fins que podem ser encontrados na exegese do “eco-terrorismo” como uma necessidade de política pública, e ante a improvável circunstância de se chegar a um conceito suficiente, é necessário concordar que, ao menos no Chile, a ameaça é clara: se trata de um grupo terrorista, altamente ideológico, intelectualmente superior, de alta capacidade e conhecimento informático e em uma guerra declarada contra uma espécie humana, cuja alienação mental impossibilita o diálogo.

Diante do exposto, se cai no absurdo trágico, que a “organização sistemática” e “o civilizado” os qualifique como personagens anárquicos e alienados, cuja batalha carece de total sentido. E, inversamente, este grupo terrorista perdeu a esperança no “organizado” e estima que o razoável é exterminá-lo. Se o paradoxo é tão absurdo, devemos concluir que a única forma de encontrar a “verdade” na salvação de nosso habitat e do natural, exige uma nitidez total das contradições, propósito que só é possível através do diálogo.

A renúncia ao diálogo, por ambas os lados, não só deixaria em evidência uma alienação total dos intelectuais do “organizado” e das células intelectuais “eco-terroristas”, mas também uma extinção parcial de nossa espécie: dos líderes. Das pessoas que, apesar do extremo, dos dogmas, da negação total do possível e da posição social que tenham, são capazes de persuadir com a entidade moral e ética de suas ideias, para aqueles que teoricamente se encontram em rota de colisão com o “correto”.

A carga moral do que dizem defender os obriga a elevar o diálogo ao mais alto nível de importância. Caso contrário, permanecerão na história como terroristas comuns que, diante da negação do diálogo, desacreditarão e contaminarão os esforços daqueles que realmente se importam pelo cuidado do meio ambiente e que combatem a brutal predação da natureza.

Portanto, diante do absurdo paradoxo da alienação total compartilhada entre o “organizado” e os “eco-terroristas”, isso só pode unicamente ligar o “eco-terrorismo” a um conceito taticamente ambíguo, para abrigar fins obscuros e estranhos à causa ambiental.

Terroristas, Ecologistas: Quem está por trás do grupo ITS, os Individualistas Tendendo ao Selvagem?

Esta é a tradução de Terroristes, écologistes: qui se cache derrière le groupe ITS?, uma reportagem do veículo francês TV5MONDE. Peca nas declarações do “investigador” frustado academicamente que faz afirmações tolas em torno de ITS. Suas declarações contrariam as de outros investigadores que definem Individualistas Tendendo ao Selvagem como um grupo lúcido, sensato, cabal e intelectualmente superior, com bastante formação intelectual e pensamento complexo. Para citar alguns exemplos temos a investigação da Bio-Bio Chile, o texto do El Mostrador El ecoterrorismo y la paradoja de la locura total, escrito pelo magistrado em direito ambiental Jorge Andrés Cash, e a entrevista do sociólogo e acadêmico da Universidade Central do Chile Rodrigo Larraín ao canal chileno Chilevisión Noticias. Talvez este “investigador” frustrado seja algum policial mal pago disfarçado para desacreditar ITS. Abaixo a reportagem.

Os eco-terroristas de ITS (Individualistas Tendendo ao Selvagem) são extremistas ecológicos para quem “todos os seres civilizados merecem morrer”. Desde dezembro de 2018 pelo menos cinco ataques foram reivindicamos em quatro países, incluindo a Grécia. Seu credo? Niilismo. Sua luta? O retorno à natureza, convencidos da inescapável destruição do mundo. Apresentamos uma entrevista exclusiva com um membro desta célula terrorista, presente na América Latina e na Europa.

Quando se fala em terrorismo se imagina os jihadistas da Al-Qaeda ou do ISIS, mas não se pensa em pessoas que podem colocar bombas em nome da ecologia. Esta é uma prática de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), um grupo eco-terrorista criado em 2011 no México, e que propagou novamente o terror no Chile em 4 de janeiro de 2019, depois de detonar uma bomba em uma parada de ônibus, no centro da capital, deixando cinco feridos. Seus membros parecem ter saído de um romance de ficção científica. Eles se movem clandestinamente na internet, e no vídeo enviado a TV5MONDE aparecem encapuzados e vestidos de preto. O membro da organização que fala neste vídeo se descreve como o “chefe de ITS no México”.

A TV5MONDE conseguiu entrar em contato com este grupo através de um blog conduzido por outro grupo eco-extremista de língua espanhola, “Maldición Eco-extremista“. Este blog está alojado no servidor italiano Altervista, que funciona como a “mídia oficial” de ITS. Todos os comunicados do grupo (75 até agora, sendo o último publicado em 22 de fevereiro de 2019), são publicados ali. O conteúdo do blog está em sete idiomas – Turco, inglês, italiano, português, grego, tcheco e romeno. “Nenhum membro de ITS fala francês”, indica um membro do “Maldición Eco-extremista” durante nossa investigação.

Para uma entrevista com um membro de ITS, trocamos emails com o “Maldición Eco-extremista” que nos pediu para criar uma conta em um serviço seguro de mensagens, com sede na Suíça. A entrevista resultante é a sexta desde a criação de ITS, e a primeira dada a um meio de comunicação em língua francesa. Três entrevistas de ITS foram dadas à mídia mexicana, depois à imprensa argentina, e por último a chilena.

TV5MONDE enviou a ITS perguntas por email. Xale, pseudônimo por trás do qual se esconde um dos membros fundadores de ITS e a cabeça da organização no México, respondeu algumas de nossas perguntas em um vídeo de sete minutos, posto a disposição através de um servidor baseado na Nova Zelândia.

Nada Nem Ninguém

“ITS foi criado espontaneamente”, diz Xale no vídeo que recebemos. “Em abril de 2011”, continua ele, “cometemos nosso primeiro ataque a bomba, que feriu gravemente um funcionário universitário no México. Queríamos parar por ali, mas vendo que poderíamos usar esse modus operandi, começamos a fazer dezenas de ataques com pacotes-bomba”.

Para ITS, um slogam resume tudo: “todos os seres humanos civilizados merecem morrer.” Em janeiro de 2019, enquanto ITS colocava um artefato explosivo em frente a uma universidade de Santiago, a capital do país, o grupo disse “se arrepender” de que o engenho não tenha explodido e matado alguém. “Qualquer um”, disseram no comunicado.

Ataques, mas com qual propósito? Nenhum. O grupo afirmou em 2016 a um jornal mexicano:não pedimos nada, não temos nenhuma demanda (…) não queremos resolver nada, não propomos nada a ninguém. Um niilismo em seu aspecto mais puro, é com esta nuance que Xale traz no vídeo: “Queremos participar da desestabilização da ordem estabelecida e, na paranoia coletiva, para aterrorizar os bons hábitos de uma sociedade corrompida por sua hipocrisia”.

“Todos os seres humanos civilizados merecem morrer.”
Trecho de um comunicado de ITS.

Além da desestabilização da ordem estabelecida, os niilistas do ITS desejam ferozmente um retorno à natureza. Uma visão como a de Rousseau, com frequentes referências aos povos indígenas da América Latina, tanto em revistas digitais, quanto no cenário do vídeo, com uma jarra utilizada pelo povo chichimeca (cabaça). A cena é adornada com um crânio de ovelha e raízes de uma planta mexicana: a mesquite, toda iluminada com “a cera de uma vela natural”, nos conta Xale.

Misticismo e Eco-terrorismo

Os nomes dos diferentes ramos de ITS também fazem referência a sua proximidade com a natureza: a “Horda Mística do Bosque” no Chile, as “Constelações Selvagens” na Argentina ou a “Seita Pagã da Montanha” no México. Seus membros não creem e nada, só em si mesmos, em sua “natureza selvagem” e suas “raízes primitivas”. “A esperança está morta aqui. Não existe. Não haverá mudanças nem revolução que transforme merda em ouro. Estamos perdidos e aceitamos nosso declínio enquanto olhamos o problema real: o progresso humano e a civilização moderna.”, disse Xale, membro fundador de ITS.

“Não pedimos nada, não temos nenhuma demanda (…) não queremos resolver nada, não propomos nada a ninguém”.
Trecho de uma entrevista de ITS dada a um jornal mexicano em 2016.

No entanto, ITS quer se livrar das fronteiras de qualquer ideologia e indicou, em 2016, na revista digitalRegresión – Cuadernos contra el progreso: “não somos revolucionários nem anarquistas, não representamos a esquerda radical. NÃO somos primitivistas. O romântico e ingênuo Zerzan (nota do editor da redação: filósofo primitivista) NÃO NOS REPRESENTA, tampouco o ingênuo radical Kaczynski (nota do editor da redação: eco-terrorista estadunidense) nem nenhum outro teórico grego, espanhol, italiano, brasileiro, nem ninguém”.

De acordo com um pesquisador latino-americano que prefere permanecer em anonimato por razões de segurança, ITS é um “grupo de pessoas jovens, mal preparadas, tanto intelectualmente quanto materialmente. O grupo se baseia em argumentos fracos”. Continua o investigador, “o que os faz ainda mais perigosos é que seu discurso evolui com o tempo”. Para o investigador, os membros de ITS tem mais “problemas mentais que crenças políticas”, o que é um “duplo perigo”.

Indivíduos tendentes ao selvagem, anticivilização

ITS está presente em sete países: três na Europa (Espanha, Grécia e Reino Unido (Escócia)) e quatro na América Latina: Argentina, Brasil, Chile e México.

Em 27 de junho de 2016 o grupo reivindicou o assassinato de Jaime Barrera Moreno, empregado da Faculdade de Química da Universidade do México, UNAM.

No blog Maldición Eco-extremista, haviam reivindicado outros assassinatos desde 2011, também relacionados com centros de investigação científica. Para ITS, “a humanidade está perdida”. Não é hostil à classe trabalhadora em particular, nem aos poderosos, o grupo se declara contra a “humanidade moderna”. Guerra de classes? “É uma estupidez desnecessária”.

“Por que atacar os oprimidos?”, se pergunta em uma declaração em janeiro de 2019. “Porque não nos importa o status social. Rico, pobre, carente. Qualquer ser humano merece morrer”, disse o grupo com um cinismo que não oculta depois de um ataque cometido na capital chilena.

Bombas em Nome da Ecologia

Em 4 de janeiro de 2019, uma bomba explode em uma parada de ônibus no centro de Santiago. O saldo: 5 feridos. Os santiaguinos ficaram com medo ao ver qualquer bolsa ou pacote esquecido na cidade nos dias após o ataque, a mídia ficou perplexa.

“Chile não está acostumado a este tipo de ações, e ainda menos quando não há uma ideologia forte por trás dele”, disse o investigador latino-americano contatado por TV5MONDE. Mas, acrescentou, “como em qualquer sociedade ocidental com um ritmo de vida agitado, este último ataque é quase esquecido por todos”.

Uma bomba em uma parada de ônibus e uma tentativa de incendiar um ônibus foi o que aconteceu no Chile em dezembro de 2018. Deixaram também explosivos na frente de igrejas no México e na Grécia na véspera de Natal do ano passado, ferindo a algumas pessoas. Bombas também foram abandonadas em frente a uma igreja no Brasil de Jair Bolsonaro, presidente de extrema direita recentemente eleito.

Os ataques de ITS, grupo oposto ao catolicismo, se dão em lugares “pequenos, isolados e fáceis de atacar”, analisa o investigador latino-americano. “Longe de um ataque em um shopping center, cercado por câmeras de segurança, onde aumentaria a pressão social para encontrar os perpetradores”, observa o investigador.

Por falta de evidências, as absolvições de ITS estão erigidas em vitórias. Após o ataque no Chile em 4 de janeiro de 2019, ninguém foi preso até agora.

Segundo uma fonte próxima à investigação a polícia chilena tem “poucas pistas”, e nenhuma delas “é clara”. Deve-se dizer que os serviços de inteligência chilenos foram desmantelados após a ditadura de Pinochet (1973 – 1990) e “não são efetivos”, disse o investigador latino-americano contatado por TV5MONDE. Isto explica sua “falta de jeito”, acrescenta, e explica em parte “os principais problemas no Chile para enfrentar e antecipar os casos de terrorismo”.

Em uma entrevista ao jornal andino La Tercera em janeiro de 2019, Raúl Guzmán, promotor encarregado da investigação do ataque de 4 de janeiro de 2019 em Santiago, segue na mesma direção: “Eu gostaria que a Agência Nacional de Inteligência do Chile (ANI) desempenhasse um papel mais operacional na descoberta de informações.” Em outras palavras, o promotor pede uma maior eficiência desta agência. Este promotor chileno agrega que estas ações terroristas “não obedecem a nenhuma ideologia política”. O niilismo, portanto, ligado ao desejo de liberdade dos animais.

Guerrilheiros da Causa Animal

ITS se opõe à domesticação de animais. Com os escândalos de carne polaca estragada, ou lasanha com carne de cavalo (*), podia-se crer que estes eco-terroristas são parte da linha anti-especista como a associação L214, mas não é bem assim.

Em um texto intitulado “O Mito do Veganismo“, criticam a “irracionalidade das ideias e valores da filosofia vegana”, denominada por eles “regime civilizado moderno que alimenta os sonhos progressistas dos humanistas de merda”. O eco-terrorismo não tem fé no homem, nem em seu futuro.

“A longo prazo, tudo o que queremos é sobreviver, continuar travando a nossa guerra, nos expandir a outras nações e ter êxito em todos os nossos ataques”, disse Xale no vídeo enviado a TV5MONDE.

Com respeito ao risco de ataques na França, de acordo com nossas fontes, ITS “não se constitui como uma ameaça imediata e prioritária no território nacional e não se considera suficientemente capaz para atacar os interesses fundamentais da Nação.”

*Se refere a escândalos relacionados com a indústria agroalimentar na França, como a carne polaca encontrada em mal estado e a venda fraudulenta de lasanha de cavalo.

Naghol: o salto ritualístio ao vazio

Naghol, que quando traduzido significa “salto ao vazio”, este é o nome de um ritual anual de iniciação praticado por jovens rapazes da Ilha de Pentecostes, em Vanuatu. O rito é um verdadeiro “mergulho na terra”. Preparados desde a adolescência para o ritual, os melanésios se jogam do alto de uma torre de madeira de 30 metros, semelhante a um andaime, amarrados pelos tornozelos a um tipo especial de cipó – talvez por influência da umidade maior nessa época do ano, a planta se torna elástica. Ao pular, seus cabelos devem “varrer” o chão (que é revolvido para suavizar o impacto) para garantir a fertilidade do solo.

Origem

A origem do Naghol é descrita em uma lenda de uma mulher que estava insatisfeita com seu marido, chamado Tamalie, que era muito vigoroso em seu ato sexual, e por isso ela fugiu para a floresta. O marido seguiu-a, então ela subiu em uma figueira. Tamalie subiu a árvore atras dela, e para fugir, ela amarrou cipós nos seus tornozelos e pulou. Seu marido saltou atrás dela, mas por não ter amarrado cipós em seus pés, seu salto foi mortal.

Assim, desde então os homens desta ilha realizam o mergulho anualmente como um ritual para não serem enganados novamente. Embora não seja obrigado a mergulhar, aqueles que fazem o salto são reverenciados na comunidade e vistos como verdadeiros guerreiros. Afinal, mergulhar significa sacrificar sua vida para a tribo. Meninos em torno de sete e oito saltam, passam a ser considerados homens depois que sobrevivem à queda.

Além disso, acredita-se que um salto bem feito garante que a safra do ano de inhame será bem sucedida: quanto maior o mergulho, melhor será a colheita. Um bom mergulho não só demonstra a masculinidade e a coragem do mergulhador, mas também garante uma colheita de inhame abundante para o ano, e remove as doenças associadas com a estação chuvosa.

Com informações de Magnus Mundi e Wikipédia.

Breves palavras a respeito da violência do Céu

Tradução do texto Brief words on the violence of heaven, de Sokaksin.

A violência no núcleo do mundo é parte integrante da beleza e da vida do tudo. Assim são as coisas. O mundo não pode se sustentar sem a escuridão, e não poderia ficar sem luz, ou o jogo sem fim de sua interpretação e determinação mútua. Esta é a verdade do mundo. Em tal mundo a graça inefável que traz as bagas da primavera ao urso também escreve o drama eterno do alce e dos lobos. Uma vida de morte, uma morte de vida. Na teia de uma incontável quantidade de seres, em seu sofrimento e sua fortuna, na forma da terra e a integridade do todo. É simples ver o surgimento mútuo do todo na floração da primavera e a atividade das abelhas, mas mesmo o corpo falador da lebre no ajustado aperto das mandíbulas do coiote reflete a beleza do todo. Como Jeffers observava em seu poema Fogo nas Colinas, “a beleza nem sempre é amorosa…”. O sangue nas rochas, os ossos dos cervos branqueados pelo sol, as poderosas mandíbulas do grande leão da montanha, perfeitas para matar, o uivo do coiote e o grito da morte do alce. A ferocidade e a violência indiscriminada do eco-extremismo é a representação deste fundamento, a violência divina que trabalha e sempre trabalhou no coração do mundo.

O eco-extremismo é continuamente assediado pelas fileiras dos fracos híper-civilizados, por sua aparente “psicopatia”, porque se atreve a materializar esta violência primordial contra a ordem artificial do Leviatã. No altar da lei e da ordem, o eco-extremismo oferece a profanação e um sacrifício de sangue para a terra selvagem. Ao se negar ter um contato mínimo com a linha do humanismo e do progressismo, ele se situa em oposição a tudo o que a civilização tecno-industrial (e isso também se refere ao próprio Homem em si) representa. Está oposto em sua essência a toda a infraestrutura podre, desde a “rede” a qualquer cidadão híper-civilizado que igualmente é a manifestação da civilização, tal como a represa da hidroelétrica que afeta a vida do rio. Ele se recusa a por a vazia abstração do “Homem” no topo do ser e ataca com selvageria tudo aquilo que canibaliza a beleza do todo pelo desolado aterro da modernidade. O eco-extremismo é o ataque do lobo feroz, olhando contra o gado domesticado. É a fúria do urso pardo contra aquele que vagueia de forma insolente dentro de seus domínios. É a força do búfalo e as janelas quebradas ao lado do metal dobrado contra os híper-civilizados que esqueceram a força e a fúria desta escuridão primitiva e seu lugar nas grandes redes do mundo, redes dentro dais quais elas permanecem impotentes apesar do engrandecimento de suas próprias abstrações.

A ordem da terra foi forjada sobre aeons através desta violência divina. Este é o caminho. Daí surgiu a beleza implacável daquele mundo trans-humano que o homem e sua sociedade tecno-industrial busca profanar para si mesmo. Cada explosão de uma bomba, cada jorro de sangue derramado é um golpe a partir daquele núcleo primitivo de selvageria, que permanece contra as ilusões e pretensões do homem moderno, sua civilização e tudo o que ele representa.

-Sokaksin

Canção de Vento

Tradução de Wind Song, escrito de Shaugnessy.

Eu ouvi a tempestade cantar canções elogiando a violência do mundo
Na grande voz cacofônica do vento e da chuva
Os escuros céus ferventes que empretecem o Céu (NdT)
A jovem bétula se inclina diante do poder dos ventos
Dez mil folhas douradas reluzentes caindo ante as correntes de ar
As margens do grande rio engolem as chuvas que caem
Não mais para conter a fúria
Eu ouvi a tempestade cantar canções elogiando a violência do mundo
Um tipo de beleza que te faz humilde
Uma severa recordação do lugar final da humanidade frente a glória da terra.

Nota do Tradutor:

Na oração a primeira ocasião em que se usa a palavra “céu” é para se referir ao local físico, e na segunda se refere ao céu de forma figurativa.

Conspirar

Tradução de um texto escrito por “K.”, um ex-anarconiilista (agora um Individualista Egoísta) de Atenas, Grécia.

“No alto da colina, a cidade aparece em uma extensão branca…”

Nós havíamos conspirado.

Nós tínhamos testemunhado o momento, para agir, mas logo tudo estava perdido.

Lembra, tudo se perdeu por causa de um infame.

Naquele dia ele havia descido de seu lugar existencial, e eu sabia o que ele queria nos dizer: fugir, mas era tarde demais. Ele, um infame, já havia fugido, seguira o seu próprio caminho, e como não coincidia com o nosso, então ele teve que nos sabotar por isso.

Lembra quando nos chamaram “nechayevistas”? Somente em um lugar como Atenas pode haver uma definição similar para aqueles como nós, aqueles que tinham o niilismo anarquista em seu sangue.

Apenas alguns meses antes das “Forças Revolucionárias Populares Combativas” matarem a dois membros da Golden Dawn, seus músculos que pouco antes estavam ligados a seus corpos estavam agora roxeando…

Na época desfrutei da ação contra as duas escórias fascistas, agora posso dizer que são apenas dois humanos a menos na face da terra.

Lembra de Kirillova que estávamos falando?

Aqui está o fim de um infame, morrer sem o uso da Justiça no meio, a prática da vingança, ela deve ser servida como um prato frio.

Eu o estava buscando depois que ele vacilou conosco. Onde estava escondido como um rato? Me perguntei onde poderia estar em meio a dezenas de ruas de Atenas.

Ele sentiu que eu estava procurando por ele, passei pela Praça Amerikis e lá só vi dois caras trocando dolinhas de heroína, que apertaram as mãos e saíram andando pelas ruas intricadas daquela área. Mas nada dele, ele não estava naquele lugar. Nos dias seguintes cruzei o grande parque Pedion Areos perto de Exárchia e investiguei minuciosamente a área, olhando em cada canto, e depois de caminhar à Zografou cheguei até a universidade e avistei o dormitório. Eu sabia que ele poderia descansar ali… dissolvido como o vento.

Em Atenas o crime é forte e possui um código que diz que os infames devem ser assassinados… mas eu nunca pilhei de fazer perguntas sobre porque eram coisas completamente opostas, mas ainda sim tive que encontrá-lo.

Agora, em comparação com o dito anteriormente, creio que podemos usar uma forma de amoralidade individual, que não aceita tudo, mas que não julga tudo de uma maneira eticamente compreensível. Pessoalmente me oponho a usar a polícia, ou outros através de personagens que gravitam no mundo do submundo, que são os chamados espiões, para mim deve ser assim…

Você lembra de Kirillova quando planejamos o assassinato deste rato? Lembra quando adquirimos uma arma nas cavernas escuras de Omonoia?

Devemos ler esta metáfora com cuidado: “As chamas que extinguiram nossos pensamentos levantaram barricadas no vento, as chamas que corroeram nossas intenções se desvaneceram pouco a pouco, as chamas que queimavam em nossa consciência agora pertencem ao reino dos mortos…”

Não há nada que possa conter a força que deseja cravar um punhal no corpo de um infame, e não há nada que possa deter uma bala dirigida à cabeça de um traidor. Não há justiça para sustentar, não há honra que não possa levar a uma vergonha pessoal. Esta é a vida, estas são as regras do mundo do crime na cidade de Atenas…

K.

Notas Sobre a Espiritualidade Africana

Pese a discordância com o que chamam de “pan-africanismo” o texto Notas Sobre a Espiritualidade Africana da autora Anin Urasse é uma interessante leitura, sua visão sobre espiritualidade, ancestralidade e natureza se acerca bastante do que defendem os eco-extremistas. Alguns textos como “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?” de Chahta-Ima, “Animismo Apofático“, de Abe Cabrera, “Busca o Teu EU Espiritual“, de XL, “É o Momento de Beijar a Terra Novamente” (publicado em Reflexiones Eco-extremistas N°3), “Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo“, de Hast Hax, e (por que não?) “Apocalipsis Ohlone“, também de Abe Cabrera, são alguns dos escritos que corroboram com isso.

Muitos irmãos e irmãs me escrevem com dúvidas acerca da espiritualidade africana. Pessoalmente eu não acredito na possibilidade de nos emancipar sem resgatá-la. Mas os yurugus colocaram várias pulgas atrás de nossa orelha né? Principalmente na universidade e zzzzz… Então escrevo essa reflexão aqui pra sintetizar um pouco das respostas que tenho dado, compartilhar um pouco do que aprendi sobre o assunto. (Veja: eu não tô falando de nenhum culto específico. Eu tô falando de cosmologia do berço civilizatório africano que, pra início de conversa, não conhece a ideia de “religião”.)

Você precisa de fé pra saber que você teve tataravó? Existe a possibilidade de você existir sem bisavô?

Você precisa de fé pra constatar a existência do mar, da terra, dos rios, dos raios, das plantas… das forças da natureza em geral? É preciso fé pra saber que os minerais existem?

Espiritualidade africana é culto de ancestral e de forças da natureza. Portanto, não estamos falando de fé, mas de fatos: você tem bisavó e no encontro do rio com o mar existe o mangue. Ponto.

Todas as pessoas têm ancestrais, sem os quais não seríamos possíveis: “você tem os olhos de sua avó!”, “você tem o mesmo gênio de seu pai!”. Nossos ancestrais influenciam em nossa vida. A isso os yurugus chamam de genética e/ou epigenética. Nesse texto, continuarei chamando de ancestralidade. A gente dança, canta e cozinha pros nossos ancestrais pra agradecê-los. Pra pedir. Pra se alegrar. De sul a norte, de oeste a leste da África é assim. (E se você acha isso bobo, estranho, ridículo ou “do diabo”, se pergunte porque sempre fazem a gente minimizar a cultura de nosso povo.)

Nós somos a reencarnação de nossos ancestrais. Nossos filhos são os ancestrais que trazemos de volta ao mundo e quando “morrermos”, nos tornaremos ancestrais. Aliás, não há morte. Há um ciclo. Nosso povo é formado dos que estão aqui, dos que virão e do que já foram. Nos influenciamos mutuamente. Portanto se não cuidamos dos nossos ancestrais enfraquecemos enquanto pessoa e enquanto povo. E só a título de curiosidade, nossos ancestrais moram no chão, não no céu.

Com as forças da natureza a mesma coisa. Nossos ancestrais são os criadores da tecnologia, lembre-se disso. E eles descobriram o segredo de manipular energia. Só que como não somos um povo de destruição, ao invés de inventarmos bombas nucleares pra destruir cidades inteiras, a gente descobriu, através de manipulação dos elementos da natureza, como sermos pessoas melhores. Cultuamos a natureza não por ela, mas por nós. Cada elemento da natureza nos da uma lição de como viver. Lembre-se ainda de outro fato: 96% da massa do universo é ESCURA. A natureza vibra em nós como em ninguém mais. Tem muito segredo nessa melanina que a gente carrega.

Nossos “deuses” não estão distantes, no céu, sentados numa nuvem mandando raios de castigo. Eles dançam conosco. Ou melhor, dançamos com eles. Trocando em miúdos: a gente sabe que não vive sem a natureza então além de cuidar dela, nós a cultuamos.

É simplesmente isso. É simples e absurdamente complexo. “Ubuntu” nunca foi sobre você e eu, ou sobre nosso grupinho. Mas sobre você, eu, nosso grupinho, nossos ancestrais, os que virão, os animais, as plantas, os rios, os mares, os minerais, os vulcões, o ar..

Pense bem antes de negar esse cosmo-sentido de mundo. Não é possível que um continente inteiro esteja errado só porque um europeu disse. Se não, o que? Você acha que nossos ancestrais mentem?

Notas Sobre a Extinção

Tradução do texto Notes on Extinction de Abe Cabrera escrito para o seu blog Wandering Cannibals.

A extinção é a gramática da civilização tecno-industrial. É desta forma que ela se tornou o que é hoje, e a extinção é o que a sustenta. É como se criasse a vida para simplesmente destruí-la. Isso vai desde os campos de agronegócios e fetos abortados a povos que foram inteiramente dizimados em nome do “progresso”. Se o niilista passivo pode lançar a acusação de que a natureza é indiferente às criaturas que ela mesma cria, o que é ainda mais certo é que a civilização europeia cristã (especialmente) tem levado a sério essa premissa e tem operado com ela em um ritmo acelerado e exagerado. O que leva milhões de anos para a natureza criar, formular e desenvolver, a civilização pode se livrar em uma tarde. Todo o nosso modo de vida é alimentado pelos cadáveres de animais mortos milhões de anos antes de que a primeira sombra de um ancestral humano honrasse a face da terra.

No eco-extremismo, a necessidade/propriedade/simetria da extinção humana é a base do ataque indiscriminado. É discutível se o ataque eco-extremista é realmente “indiscriminado” em um sentido absoluto, já que para ser verdadeiramente indiscriminado, o eco-terrorista nem sequer precisaria se levantar da cama e poderia disparar um projétil pela janela em uma rua adjacente. Todos os ataques que não sejam desta exata natureza exigem planejamento, reflexão, preparação, etc. Agora, onde se discute se o ataque eco-extremista é realmente indiscriminado é na escolha da vítima, porque muitas vezes pode ser que quem quer que esteja próximo da “linha de fogo” seja quem sairá ferido, quando isso não era intencional. Novamente, ainda não nos livramos do pântano ético, mesmo se tenhamos decidido quem é culpado ou inocente. De fato, sentenças exaustivas para as pessoas e até mesmo para suas propriedades são quase tão antigas quanto a própria civilização. Vamos para a nossa confiável Bíblia. No famoso relato da queda de Jericó está escrito:

“Quando soaram as trombetas, o povo gritou. Ao som das trombetas e do forte grito, o muro caiu. Cada um atacou do lugar onde estava, e tomaram a cidade. Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia.”

Este não é o único evento nas Sagradas Escrituras: O Povo escolhido por Deus deixou cidades devastadas como se fosse um exercício de rotina, e até mesmo foram castigados por Deus por serem condolentes com o gado.

Claro, as pessoas não serão particularmente persuadidas ao mencionar a história antiga, então vamos ao ponto. A questão da civilização não é um assunto de moralidade, mas de números. Não é um problema filosófico, mas sim um problema matemático e físico. Se você pode superar seu inimigo em número, uma hora você deve sucumbir. Muitas guerras foram guerras de esgotamento onde o lado taticamente superior foi derrotado por ondas após ondas de inimigos sendo lançados. Isso aconteceu na guerra civil estadunidense, nas guerras indígenas norte-americanas, na guerra de libertação nacional do Vietnã, etc., etc.. Muitas vezes não é uma questão de ser capaz de ganhar, mas de ser capaz de suportar derrota após derrota até que o inimigo não possa mais lutar. A culpa ou inocência neste paradigma é irrelevante: a própria presença de corpos (homens, mulheres, crianças ou até mesmo animais de carga) é uma incursão suficiente para garantir a sua destruição sem escrúpulos.

Isso é bom para os tempos incultos do passado, mas o presente aprendeu sua lição humanista, certo? Bem, não exatamente. Sem sequer precisar recorrer a Stalin ou Mao e os milhões que tiveram que morrer no processo antisepticamente criado de “acumulação primitiva do capital”, até mesmo o esquerdista mais anti-autoritário é anulado e é possível encontrar alguém que acha que está tudo bem se, por exemplo, um grupo insurgente faz voar pelos ares uma sorveteria cheia de crianças em nome da “libertação nacional”, sempre e quando o colonialista o tenha feito primeiro:

Então, no final, não importa se alguns milhões morrem, ou se crianças são feitas em pedaços, ou se algumas freiras são estupradas por revolucionários. Uma causa justa cobre uma multidão de pecados… Exceto para as vítimas da causa justa. O tema sobre lidar com vidas humanas é que não é um jogo de números, pelo menos para o híper-civilizado. Enquanto muitos poderiam dizer adeus às atrocidades do passado, ninguém está se voluntariando para as atrocidades do futuro, mais precisamente aquelas atrocidades que serão necessárias para um amanhã melhor. Todos querem ser rei, mas ninguém quer ser o camponês que paga impostos para sustentar o rei em seu excessivo estilo de vida. Todos querem jogar, mas ninguém quer investir no jogo.

Eles nem deveriam querer fazê-lo, porque o jogo está decidido. Isso não impede que os sonhadores, os revolucionários, os conservadores, etc., se ofereçam como “voluntários” para as próximas gerações e as pessoas que não conhecem a árdua tarefa de forjar um amanhã melhor, no qual saiam mais ou menos ilesos. Os devaneios de um futuro melhor são agradáveis desde que você possa confiar nos esforços de outras pessoas para espelharem a sua visão. É claro, esperar que as pessoas façam isso é tolice, mas isso não impede o sonhador revolucionário. Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista.

Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são demasiado humanos…

Então, apesar de que um indivíduo possa pensar sobre o que faz, o humano como uma categoria universal é um fenômeno frágil e passageiro. Mas, novamente, vamos voltar ao parágrafo acima: o problema real com os humanos não é que não são inteligentes o suficiente, mas sim que há muitos deles conectados de maneira desordenada pelas comunicações e transportes globais. O problema não é um diretor executivo ou mil políticos ou um milhão de policiais. O problema são sete bilhões de pessoas com sonhos e aspirações e grandes expectativas para seus filhos… que só podem acontecer às custas de outros seres do planeta. O problema são os valores da humanidade pelo bem da humanidade, humanidade como um sistema fechado, humanidade como o imperativo categórico. Sete bilhões de anarco-primitivistas traidores da espécie seriam inferiores a uma humanidade constituída apenas por dez executivos da Monsanto. Seus sentimentos, opiniões, crenças e ações não contam. Basicamente, o que conta é apenas a sua existência animal, porque é parasitária e injustificável. A menos que sua existência particular possa convencer sete bilhões de pessoas a cometerem suicídio coletivo, deixando, talvez, apenas um punhado de homo sapiens vivendo na Terra como um animal entre os outros, você não é diferente de qualquer outra pessoa.

É claro, você pode dizer que isso se aplica apenas à civilização europeia (pós-) cristã híper-civilizada, mas estamos realmente certos disso? Fora dos intermináveis debates sobre se o homem acabou com a megafauna nas Américas e Austrália, sabemos com certeza que o homem acabou com a Moa, uma grande ave não-voadora nativa da Nova Zelândia que foi extinta a menos de 150 anos antes que os humanos civilizados colonizassem essas ilhas (bem antes da chegada dos europeus). O problema com as coisas que acontecem é que sempre tiveram o potencial para acontecer, ceteris paribus. Mesmo que alguns humanos (a maioria?) nunca levaram sozinhos uma espécie à extinção, de qualquer modo o fizeram, e sempre têm o potencial para fazê-lo. Isso não é uma declaração de culpa, mas uma declaração de fatos. Assim como dizer que um cachorro é capaz de atacar a uma criança não é um julgamento moral do cão: é uma declaração da realidade da situação.

Talvez o verdadeiro problema ético por trás do ataque indiscriminado não seja sobre atribuições de culpa, mas de distinguir se a inocência sequer exista neste contexto. Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria?

A vida humana não é nem poderá ser heroica, ética, nobre, ou qualquer outra coisa do tipo. Você pode esperar pouco dela, e não é eterna. Aqueles que continuam defendendo o humanismo só querem fechar fileiras e defender o poder humano como seu próprio fim por qualquer meio necessário, mas estão defendendo os meios materiais pela qual a supremacia desta espécie é sustentada. O eco-extemista chegou à conclusão de que a única forma de atacar a supremacia humana é atacar os seres humanos em qualquer grau que sejam capazes. Não fazem isso por algum sentido invertido de moralidade, mas pelo entendimento de que a moralidade é impossível, ou melhor, não pode fazer o que diz que faz: separar o joio do trigo, as ovelhas das cabras e o inocente do culpável. Seu ataque é um rechaço à premissa de que o ideal humano pode governar a vida a um nível ético universal. É lançar-se em direção ao Inumano em Nome do Desconhecido, com poucas expectativas em relação às conquistas humanas.

Abe Cabrera

Casas subterrâneas dos Kaingang, os povos da Tradição Taquara

Interessante artigo do site Xapuri sobre as construções dos Kaingang.

Os Kaingang, uma das 305 atuais etnias do Brasil, já habitavam o Planalto Meridional Brasileiro três mil anos antes da chegada dos europeus. Esses povos eram conhecidos como Proto-Kaingang, povos da Tradição Taquara ou Povo das Casas Subterrâneas.

A arqueologia do sul do Brasil tem dado atenção, desde a década de 60, a um tipo muito especial de antiga ocupação humana encontrada em muitos pontos de planalto nos estados de São Paulo, Paraná e, principalmente, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de alguns achados semelhantes próximos ao litoral, no sul de Santa Catarina.

Para se proteger do inverno rigoroso que castiga as elevadas regiões do Sul do Brasil, chamados Campos de Cima da Serra, construíam suas casas de forma enterrada, mantendo-as, assim, protegidas dos ventos fortes e gelados que cortam o planalto. Por vezes, as paredes eram compactadas com argila mais fina, resultando em uma camada de revestimento.

O teto era apoiado sobre estacas: uma estaca principal no centro, que descia até o chão da casa, e estacas laterais, que irradiavam do mastro central e se apoiavam na superfície do solo, na parte externa. Este teto ficava pouco acima do nível do terreno, garantindo ventilação, iluminação e trânsito.

Trata-se de verdadeiras casas circulares, escavadas na terra: em alguns casos, em rocha basáltica, em outros, em basalto composto ou rocha mole de arenito. Suas dimensões são variáveis; os registros mais importantes revelam estruturas com tamanhos médios entre 2 e 13 metros de diâmetro com profundidade média de 2,5 a 5 metros de altura, havendo casos registrados de 4 e até 6 metros de profundidade.

Segundo a descrição de vários pesquisadores, com base nas casas melhor conservadas, sobre a cova circular que delimitava a casa, erguia-se uma cobertura de folhas sustentada em uma armação de madeira, em parte fixada na base da casa, e em parte fixada nas bordas laterais da cova, inclusive com o auxílio de pedras.

Em algumas casas os arqueólogos mencionam ter encontrado um revestimento de piso e, em outras, revestimento em pedra nas paredes ou parte delas.

Ainda que, em um número significativo de sítios arqueológicos se encontrem casas subterrâneas isoladas, é comum encontrar-se conjuntos dessas casas, seja formando pares, seja formando verdadeiras aldeias de mais de 5 casas, sendo vários os agrupamentos entre 8 e 10 delas, e havendo, mesmo, casos de mais de 20 casas em um mesmo lugar. O espaçamento entre essas casas varia de 1 a 10 metros, em média.

Ainda que alguns arqueólogos tenham sugerido que as casas subterrâneas não teriam sido, de fato, casas de habitação, mas apenas centros cerimoniais, a posição mais comum e sustentável indica que realmente essas estruturas eram a residências dos grupos humanos que as construíram.

O arqueólogo André Prous também descarta a hipótese de que as casas maiores fossem apenas centros cerimoniais, enquanto as menores seriam de moradia, uma vez que, com freqüência, as casas maiores ocorrem isoladas ou estão presentes justamente nos menores conjuntos de casas subterrâneas.

É importante, porém, observar-se a época em que as casas subterrâneas foram construídas e habitadas, para pensarmos na relação delas com outras formas de habitação antigas dos Kaingang. A arqueologia brasileira tem relacionado as casas subterrâneas com o que convencionou chamar de “tradição Taquara-Itararé”. Segundo Prous, para essa tradição “até há pouco, as datações mais antigas eram exclusivamente do Rio Grande do Sul, entre o primeiro e o sexto século de nossa era.

Várias outras obtidas para o mesmo estado, Argentina e Paraná eram do século XIV, e duas do início do período histórico. Recentemente, datações de 475 AD (fase Candoi) e 500 AD na Argentina vieram mostrar que a cultura das casas subterrâneas desenvolveu-se em diversas regiões, grosso modo, na mesma época, e não se pode descartar a possibilidade de aparecerem, com as novas pesquisas, datações tão antigas quanto a, isolada por enquanto, de 140 AD para a fase Guatambu, cujo término foi datado de 1790 AD”.


O grupo terrorista ITS põe em xeque o Estado do México

El grupo terrorista ITS pone en jaque al Estado de México é uma reportagem do meio de comunicação mexicano Excelsior sobre ITS e as últimas ações recentes dos grupos eco-extremistas daquele país, incluindo do novo grupo A Conspiração do Trovão; alinhado, mas ainda não pertencente a ITS, de acordo com declarações públicas da organização eco-terrorista. A reportagem reconhece Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) como um grupo terrorista que opera à nível mundial. Se equivoca apenas ao atribuir a ITS o ataque ao Mall no Chile, já que de acordo com informações publicadas no portal do grupo a acometida foi realizada por outro grupo simpático ao eco-extremismo.

Individualistas Tendendo ao Selvagem têm presença global e se atribuiu dos ataques a municípios mexicanos, de acordo com os acontecimentos recentes.

Os artefatos que explodiram em diversos lugares no Estado do México nas últimas semanas são parte dos atos do grupo terrorista denominado Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), que já é investigado pela Procuradoria Geral da República (PRG) por meio de áreas como a Polícia Federal Cibernética.

ITS têm presença global e perpetrou atos de terrorismo em países do continente americano, como o Chile. Em sua página htpp://maldicionecoextremista.altervista.org reivindicou em 28 de dezembro o ataque nas proximidades de uma praça comercial em Coacalco, ocorrido dois dias antes.

Seus membros declararam: “Por meio deste breve comunicado nos responsabilizamos pelo explosivo detonado nas imediações do centro comercial Power Center em Coacalco, Estado do México, em 26 de dezembro deste ano.”

“Abandonamos a bomba na passagem para pedestres às 20:00 horas. A detonação foi ouvida a vários metros ao redor e causou danos em uma das estruturas de concreto da passagem, sem que fossem registrados feridos, uma pena.”

“Nosso ódio misantrópico se traduz em feridas e terror para os humanos que se espalham por todos os lados com uma asquerosa ânsia de consumo desenfreado. Que se fodam TODOS!”

“Embora as autoridades ocultem nossas atividades, nós adiantamos que as bombas continuarão explodindo em lugares públicos durante estas datas, assim como demonstraram os cúmplices da Seita Pagã da Montanha e nós reiteramos.”

“Força para os irmãos de ITS-Brasil, que neste momento estão na mira do Estado brasileiro e suas agências de segurança! Que o Desconhecido os cubra com seu manto de impunidade! Porque nada humano detém o Selvagem!”.

Em Ecatepec

E, de fato, a série de atentados à bomba continuou: em 13 de fevereiro um artefato explodiu na capela do Santíssimo da Catetral de Ecatepec; horas antes o exército mexicano evacuou usuários e funcionários do palácio municipal de Jaltenco ante uma alegada ameaça de bomba.

No dia seguinte, foi interceptado outro explosivo com temporizador colocado em uma banca no Power Center de Coalcalco e no dia 15 foi localizada outra bomba no banheiro masculino no terceiro andar do Plaza Mundo “E”, em Naucalpan. Nos tribunais deste município a polícia evacuou 600 pessoas por um falso alarme ao encontrar uma granada de brinquedo nas imediações das instalações.

Em 22 de fevereiro foram queimadas duas unidades articuladas do Mexibús poucas horas depois de um falso alarme de bomba no centro comercial Las Américas, em Ecatepec. Este fato provocou o pânico na vizinhança porque perto do local está localizado um posto de gasolina. Investigações apontaram que o incêndio das unidades possivelmente foram causadas por bombas molotov. Em todos estes casos, não houveram detidos.

De acordo com versões reunidas de fontes da Procuradoria Geral da República (FGR) em sua delegação no Estado do México, foram iniciadas diversas investigações, que já estão sobre a mesa do chefe da unidade, Alejandro Gertz Manero.

Apesar da frequência destes eventos e das reivindicações por parte de ITS, as autoridades mantiveram certo sigilo sobre o que aponta para uma série de atentados terroristas que certamente não são novos no México.

Resposta Oficial

A secretária de Segurança do Estado do México, Maribel Cervantes, indicou que, por enquanto, há três linhas de investigação na PGR, e poderia se tratar de um grupo delinquente, grupos anarquistas ou grupos ligados a uma organização internacional (ITS) da qual as autoridades tanto locais como federais preferiram ocultar sua presença.

Em outubro de 2016 a comissária do Instituto Nacional de Transparência, Acesso à Informação e Proteção de Dados Pessoais (INAI), María Patricia Kurczyn Villalobos, exortou a Procuradoria Geral da República (PGR) a buscar e divulgar o nome dos grupos terroristas baseados no país, as organizações nacionais ou transnacionais a que pertencem, bem como crimes ou atentados provocados no/ou a partir do México.

Ao levantar a questão perante o INAI, destacou que implicava numa importância especial para a segurança do país e do mundo. O terrorismo, advertiu, é um fenômeno caracterizado pela tragédia e o sofrimento gerado individualmente, coletivamente ou socialmente.

E formou sua opinião com dados duros: “Segundo o Índice Global de Terrorismo de 2015, elaborado pelo Instituto Para a Economia e Paz, nesta área, o México ocupa o lugar 44º numa lista de 162 países, principalmente pelo impacto de nosso país na relação com o Estados Unidos e a América Latina”, disse Kurczyn Villalobos.

Através da Plataforma Nacional de Transparência (PNT) foram solicitadas informações à PGR. Através do Gabinete Especializado em Investigação do Crime Organizado (SEIDO), a Unidade Especializada em Investigação do Terrorismo, Recolha e Tráfico de Armas; da Agência de Investigação Criminal; o Centro Nacional de Planejamento, Análise e Informação Para o Combate ao Crime e da Direção Geral de Comunicação Social, a agência se desculpou com o solicitante ao responder-lhe que, após uma busca em seus arquivos, base de dados físicas e eletrônicas, “não localizou informações que atendam às características requeridas”.

Ataques Anteriores

É provável que os funcionários da PGR buscaram não criar pânico entre a população e decidiram ocultar suas informações sobre o assunto, já que de 2014 a 2016 tinha registrado em seus arquivos sobre atos de grupos anarquistas e terroristas um total de 31 atentados em diversos estados do país. Em 2017, o número subiu para 38 casos.

Alguns dos grupos detectados nas pesquisas da PGR foram: O Comado Feminista Informal de Ação Antiautoritária; o Grupo de Individualidades Anárquicas Informais e FAI/FRI; as Células Insurrectas Poucos, Mas Loucos e FAI/FRI; a Célula Incendiária Caninos Negros e Federação Anarquista Informal (FAI) – Frente Revolucionária Internacional (FRI); as Células de Ação Informal Punky Maury – FAI/FRI; a Frente de Libertação da Terra; o grupo BAIBF; as Células Incendiárias Lobos Negros – FAI/FRI e Mario Buda – FAI/FRI; a Brigada de Ação Informal Bruno Filippi; o Grupo Selvagem de Ação Pela Terra, entre outros.

Dependências

Os alvos de seus ataques foram os mesmos órgãos do governo, como instalações bancárias e escritórios de empresas privadas como Telmex, e ocorreram principalmente em locais como Oaxaca, Cidade do México, Jalisco, Estado do México e Quintana Roo. Na lista não aparecia o agora ativo ITS.

Em outubro de 2016, o Centro de Investigação e Segurança Nacional (CISEN) relevou que nos últimos dez anos, grupos anarquistas, extremistas e eco-terroristas haviam realizado 306 atentados, especialmente na Cidade do México. Somente em 2016 foram registrados 36 ataques, conforme estabelecido em uma solicitação de informações por meio da PNT.

De fato, a agência de inteligência estabeleceu o ano passado como uma das prioridades na Agenda Nacional de Riscos para o perigo representado pelo terrorismo internacional. Até os últimos seis anos o CISEN estava encarregado de preparar esta agenda que fazia com o feedback e acordo mútuo com os titulares de outros órgãos que integravam o Conselho de Segurança Nacional, como o Presidente da República; os secretários da Defesa Nacional, Marinha, Relações Exteriores, Função Pública, Comunicações e Transporte, Finança e Crédito Público; bem como o Comissário de Segurança Nacional, o Procurador Geral da República e o próprio diretor geral do CISEN. Agora será importante perguntar ao novo governo como esta agenda será integrada.

Em outros de seus comunicados reivindicando outro atentado, mas no Chile, os membros de ITS delineiam parte de sua doutrina:

Ataque no Mall Florida Center no Chile

“Acreditamos que o Anarquismo, pelo menos aqui e agora, deve ser antissocial, renunciar a “alcançar o povo”, dado que a própria sociedade com sua visão antropocêntrica e sua moral são inimigos nossos. Os cidadãos estão do outro lado da barricada, com seu conforto e consumo, defendendo o artificial. Saibam que não lamentados se nossos feitiços firam alguém, se os terremotos e tsunamis afetam a mais pessoas. Não pretendemos solucionar problemas, mas criá-los. Somos parte das forças do caos pandimensional. Rumo a todas as direções”, disse ITS.

Withered Green Anarchism

Withered Green Anarchism é um articulado texto crítico ao “anarquismo verde” escrito por Lyokha para a publicação francesa La Mauvaise Herbe vol.17 no.2.

“No one cares about them anymore around here, why don’t you just let them wither away in impertinence?” asked a good friend who identifies as an anarcho-primitivist.

Anecdotal perhaps, but I couldn’t help but remember a very successful event on radical ecology which I attended not so long ago. It was a well-prepared conference, by an anarchist who knew his shit. To a crowded room of young enthusiastic radical students, during a segment devoted to anarcho-primitivism, the whole discourse on equality, direct democracy, and even the 15-hour-workweek-which-feels-like-play-anyway was conveniently served. [1] At least he didn’t start talking about telepathy or telescopic vision. I remember it made such a good impression that a coordinator from the College where the event was taking place approached the Mauvaise Herbe, who were on place distributing publications, to see if they would eventually come share their positive message with the youths. They gave her a few Mauvaise Herbe to read and I think she changed her mind.

But it’s true that we don’t hear much about the Green Anarchists around here. Yet, in my conversations and in what I often hear from the “anti-civ” discourse, here as much as elsewhere, are the same reflexes I know all too well, the same references, the same premises, and the same ends. The humanistic-hedonistic discourse on primitive life has become mainstream in the milieu. In complacency, the speculations of some have become facts for others. Anarchists in general have never strayed too far from progressivism, they feel at home, at ease with it. Those who have chosen to deviate from it through their words and actions have always come up against the churches guiding the paths of “struggle”. It’s almost come to a point where one should profess their faith with each statement, each action.

For many now, in these moments of clashes, to put the rhetoric of social cohesion into question is to revel in “fascism”. While the anarcho-cybercops of the insurrectionally righteous make calls for witch hunts, it is to all their Inquisition that I dedicate these provocations.

Green is the new red

“This ideological view of our past has been radically overturned in recent decades, through the work of academics like Richard Lee and Marshall Sahlins. A nearly complete reversal in anthropological orthodoxy has come about, with important implications. Now we can see that life before domestication/agriculture was in fact largely one of leisure, intimacy with nature, sensual wisdom, sexual equality, and health. This was our human nature, for a couple of million years, prior to enslavement by priests, kings, and bosses.” -John Zerzan, A Future Primitive

We are of an era disillusioned with the promises of progress. It did not bring the promised utopia. Progressives are no longer necessarily those who had promised us that “the machine will work for man!”, those who more than a century ago had already announced the same “leisure, intimacy with nature, sensual wisdom, sexual equality and health” thanks to human and technical development… they are now rather those who are worried about the crises it generated, those who follow the newswire of the unfolding apocalypse – the ecological disaster and the planetary civilization in total decadence.

But some still won’t lose hope in humanity, and the possibility that provided a new universal consciousness, it can impel a culture of resistance of nomadic hunter-gatherers who will carry all the humanism that 20th century anarchism has inherited!

And, it is in this sense that an essential work of the anarcho-primitivist canon like A Future Primitive is an exercise in seduction, with its critique of civilization and praises of primitive life geared towards pleasing those humanistic sensitivities left disappointed by the consequences of modernity.

Therefore, it draws most abundantly from the anthropological works of a certain period when attempts were made to break the myth of a brutal primitive life with bold statements on leisure and egalitarian aspects, more attractive to the modern civilized – works from anthropologists who wanted their field to fuel social debates.

In an essay dealing with the legacy of Marshall Sahlins’ acclaimed work quoted by Zerzan, The Original Affluent Society, anthropologist Nurit Bird-David reminds us that “The general interest in it no doubt reflected our symbolic and ideological needs and our (Western) construction of the prehistoric past. […] Intended to provoke as well as to document, the essay soared beyond conventional scientific discourse, appealing directly to Western fantasies about work, happiness, and freedom.” [2]

For many of those who identify with anarcho-primitivism or with a certain Green Anarchism, the life of nomadic hunter-gatherers of the paleolithic represents anarchism as lived by humans for millennia. Some will even call it Primal Anarchy. In this original utopia, this anarchist Garden of Eden, they see our true “human nature”. Thus, in their propaganda, to an audience inclined towards anarchism, with its progressive-humanistic values, they praise primitive life according to how anarchistic it appears.

This selective reading of anthropology has become widespread among anarcho-primitivists and has influenced many other anarchists (including stirnerians and nihilists). It reduces primitive life to generalizations about presumed essential traits – egalitarian, collectivist, anti-oppressive, hedonistic, ecological and anarchistic traits. The relevance of primitive life becomes its representation of these values.

Wild behaviors who do not fit-in are either dismissed as unimportant when they are not simply ignored, or they are treated with much suspicion, assimilated to the effects and consequences of civilization (syncretism, encroachment, misinterpretation by the civilized, etc.), while behaviors that sit well with progressive values never receive the same questioning or suspicion, let alone those values ​​themselves. The result is an interpretation of the hunter-gatherer way of life as a model of progressive society par excellence, with the immediate-return hunter-gatherer as its purest representative.

In socialist tradition, indigenous cultures have no importance other than folkloric recuperation, since they are all reduced to their proletarian aspects: socialist adventures in Latin America have left us a clear testimony of this. Where the proletarian experience lacked, it was instated with great strides of progress, in the name of humanism, finishing off already decimated indigenous cultures to integrate them into the great brotherhood of men. Is it not somewhat in this tradition that today many anarchists of various tendencies project their ideology on the ways of the ancients by presenting them as anarchistic, as practitioners or examples of anarchism? We can pick and choose what suits the current narrative and the anarchist steamroller can run over the rest. How civilized.

What we can learn from anthropology and archeology about the life of groups of nomadic hunter-gatherers over time is that it seems far from homogeneous. If we want to find progressive behaviors, like the ones I named, we will find some. If one wants to look for behaviors of a completely opposite spectrum, one will also find them: ideologues will find what they’re looking for.

But it’s precisely this variability that seems relevant to me. The wild calls into question the entire narrative on human nature, all our domestication. This includes all the more our humanist inclinations essential in impelling the necessary social progress for the continuation of development.

Humans in relationship with an infinity of factors and tangents, over thousands of years – an infinity of lived situations, and therefore, a diversity of reactions, adaptations, ways of conceiving and acting. These characteristics make it difficult to simply transpose the ways of one group to another. For a way of being to be reproducible from one group to another, it is better to replace the variables by a homogeneous and controlled environment, and this is what progress does.

If in primitive life we like to see the reflection of values which are familiar to us, such as cooperation, collectivism, equality, love of neighbor, sharing, and tolerance, values we have been taught since childhood, should we not ask ourselves where they lead us in our current situation? Context changes everything.

This idyllic representation of primitive life is especially misleading since the collapse of civilization is far from being the same as the paleolithic period. Earth is already no longer the one where nomadic hunter-gatherers flourished, and who knows in what inhuman state it could become during a collapse of civilization and thereafter.

Even with the bait of utopia, to what extent would those who want the good of humanity be able to desire and act upon the collapse of civilization, possibly precipitating this humanity towards the abyss?

“We Have Seen the World We Want to Live In, and It Is Worth Fighting For” [3]

“Anarcho-primitivism is an allegiance to a specific human adaptation to life on this planet, a way of life which all known evidence shows us has endured sustainably and in intimate relationship with wild ecology for eons longer than any other. With this objective knowledge in hand, anarcho-primitivists will maintain our human agency and use it to take the types of actions we deem most effective and to simultaneously create the types of societies WE WANT to create. That is our prerogative.” -Choloa Tlacotin, A Letter to: “Halputta Hadjo”

Above all, it is the prerogative of the hypercivilized.

It is indeed the deeply civilized who, from the comfort of abstraction, can, in the blink of an eye, draw inspiration from James Woodburn’s principles of egalitarian hunter-gatherers as a rule of life; then, admire the warrior peoples who waged war against the civilized in North America; and finally, to marvel at the endurance that humans have been able to develop in difficult conditions, “like the Ona [Selk’nam]” in the Firelands. [4] They are agents of progress those who believe they can isolate what suits them in the database so to construct their ideal world worth fight for. Don’t come and present this to me as undomestication or whatever other bullshit.

Man has dedicated all the power of progress to try and control his destiny, and he still hasn’t succeeded. Anarchists, being the stubborn civilized they are, believe they can control the result of their actions by the will they put into them. Yet many of them know well that things do not always go according to plan (social strikes ending in general elections, things that explode at the wrong moment, etc.). Throughout history, all those who tried to create the society they wanted have failed, but the super anarchists will surely succeed…

But after all their efforts, would it be possible for example, that a few generations later the descendants of the anarcho-primitivists – rewilded children, hunter-gatherers rooted in the harsh landscapes of the predicted downfall of civilization – also become as resolutely patriarchal as the Selk’nam, whose cosmovision established very explicitly a division of the sexes and the spiritual and social domination of women by men? [5] (but this small detail that the Green Anarchists omitted in their publication, of a people for whom they expressed admiration and whose loss they lamented, it probably would’ve gone down badly with the Anarchist Book Fair.)

In any case, those with children should know there’s no guarantee they listen to our warnings. And anyway, I have the impression that the hypothetical wild children of the future primitive probably wouldn’t give a shit about the moralizing rhetoric of an old civilized ideologue who knows fuck all about their daily lives.

Hope, it’s better than nothing?

Hope has become quite a popular concept among Green Anarchists in recent years. Zerzan has dedicated one of his last books to it, Why Hope? The Stand Against Civilization, and with his disciples and collaborators, in their Black and Green Review publication, they have devoted constant attention to oppose their hope to what they consider an endemic nihilism contaminating anarchists.

In his editorial of Black and Green Review 4, Kevin Tucker tells us with a straight face how the absence of a journal published by the Green Anarchists “has led anarchists into the cul-de-sac of nihilistic terrorism and egoist soul searching. In that trajectory, anarcho-primitivism is a lightning rod for having the audacity to stand for something: to have staked our claim on seeing a world that is worth fighting for and defending. To want to build communities of resistance, support those that are and have been resisting civilization’s advances and to refuse the domestication process as it seeks to tear us from the wildness that runs through all life.”

For them, young Padawan, the despair these nihilists foment leads either to conformist navel-gazing, or to criticize or attack anyone and anything: their words and actions lead to nothing… And hope is better than nothing! …Is it not?

If it worked well for Christians, for Obama, and for the rebels in Star Wars, why not for the anarcho-primitivists of Oregon too?!

Not convinced to vote for hope? At the end of an interview with The Telegraph proudly posted on his website during the promotion of Why Hope?, Zerzan shares with us what so inspires him:

“Strangely, this is a good time to be an anarcho-primitivist,” says Zerzan. “We’ve never had more technology than now, and it’s coming out faster than ever. But that’s exactly why I think people will start pushing back. They are beginning to see that technology doesn’t deliver on its promises. So I’m hopeful. I’m very hopeful.”

To which the interviewer concedes:

“I too dislike technology sometimes. Like when my internet doesn’t load up quickly enough. And I’m generally convinced I’d be happier without being constantly connected, although I never seem to do much about it.” [6]

Surely, it’s because she hasn’t read the latest Black and Green Review yet.

And throughout Why Hope?, it is always that same answer: it is in the advent of a rewilding anti-civ mass movement, prepared for the imminent fall of civilization to which it will participate, that one must have hope for and invest themselves in with others.

“It won’t be easy but if a growing number becomes involved in such a move the ways and means can be found. I think that a growing number may be feeling the need for such a new direction.

We will figure out our paths when our goals can be seen and discussed. As we find each other, the necessary public conversation will begin and the effort to go forward together may ensue. No guarantees, but worth the liberating journey!” -John Zerzan, Why Hope?

That’s some solid shit right there. Anyone willing to bring down the whole power grid because Zerzan has some kinda good feeling, and we’ll see what happens?

But a movement carried by common sense and the hope of being the future of liberated humanity? How original! Nothing to reinvest Leviathan…

And if there was no fall of civilization? Let’s say there is never a transition to a primitive way of life, neither voluntarily nor by force of circumstances, that civilization overcomes what we believe to be insurmountable and transcends. There are firms, labs, universities and legions of ambitious nerds around the world working on exponential breakthroughs to meet the challenges of progress in the name of humanity. But yes, the triumph of progress is hypothetical, just as is a primitive future… and hope is nothing more than a question of faith.

“But if we are willing to make that perceptional change, to learn to embrace the coming age of nomadism, to see beyond ourselves and to empower ourselves through taking part in something much larger and more magnificent than our own lives, then we have the world to gain from it.” -Kevin Tucker, Means and Ends, Black and Green Review 4

Is the survival of humanity or of all life on Earth what generates and motivates my desire to see civilization annihilated (even if, among hypothetical scenarios, it is possible that civilization drags the entire biosphere with it in its fall)?

Does my disgust for civilization depend on a hypothetical future?

It is the everyday life, the overwhelming and suffocating presence of a humanized world, which disgusts me and weighs on me, and I do not feel any need to justify this feeling and this instinct by catastrophist theories or higher interests. Call me a rotten nihilist!

The world does not need a new liberatory ideology as much as it needs to get rid of what makes it possible to transmit an ideology on a large scale… unless it is one which corrupts the minds of the civilized causing them to spiral down into such disruption, such antisocial disorder, such self-destructiveness, that global stability and ultimately the very functioning of society is seriously jeopardized.

Death to civilization and to all human progress!

-Lyokha

Notes:

[1] This referenced number of working hours originated from speculative studies in the early anthropological works of Richard Lee and Marshall Sahlins. Since then, the data from these studies has been contested in the field, and Richard Lee himself has long recognized some of its flaws. The current general consensus towards hunter-gatherers is an average 30 to 40 hour workweek, but there`s still much debate about what should be considered work.

See: Elizabeth Cashdan, Hunters and Gatherers: Economic Behavior in Bands;Richard Lee, The Dobe !Kung; David Kaplan, The Darker Side of the “Original Affluent Society”.

[2] Nurit Bird-David, Beyond “The Original Affluent Society.” Current Anthropology 33:25-47

[3] A sentence which Green Anarchist like to use in their writings. Although, while they’re fighting for their world against civilization, if someone gets hurt it wasn’t their intention, ok?

[4] Four Legged Human, The Commodification of Wildness and its Consequences, Black and Green Review 1
Four Legged Human, The Wind Roars Ferociously, Feral Foundations and the Necessity of Wild Resistance, Black and Green Review 4

Green Anarchist denounce without hesitating those who draw inspiration from non-egalitarian societies in their confrontation with civilization if they haven’t pledged allegiance to their ideology. See Choloa Tlacotin, A Letter to: “Halputta Hadjo”. But a Green Anarchist, thanks to his superior knowledge and his greater intentions, can pick and choose whatever he pleases in the anthropological database.

[5] Anne Chapman, Economic and Social Structure of the Selk’nam Society
Anne Chapman, The Moon-Woman in Selk’nam Society

[6] As technology swamps our lives, the next Unabombers are waiting for their moment, Jamie Bartlett, The Telegraph, May 13th, 2014

Paper On Decolonial Violence and Eco-Extremism For 2018 ASN Conference

Paper On Decolonial Violence and Eco-Extremism For 2018 ASN Conference é um artigo escrito por Julian Langer do blog Eco-Revolt e Feral Culture que foi apresentado em 13 de Setembro de 2018 durante a Anarchist Studies Network Conference, na Universidade de Loughborough. Neste denso texto o autor aborda a posição moralizante da esquerda (incluindo os anarquistas) em torno da “violência” que é abordada amplamente e como o eco-extremismo ultrapassa esta barreira.

On September the 13th I presented this paper at the Anarchist Studies Network Conference, at Loughborough University. This was written to be spoken and I haven’t edited it to make it any more readable.
*
Pessimist political theorist Jacques Camatte, whose writings after his years of being a Marxist theoretician influenced anarchist discourse at the time – in particular the anarcho­primitivist wing – stated in his work Against Domestication that – “There are others who believe they can fight against violence by putting forward remedies against aggressiveness, and so on. These people all subscribe, in a general way, to the proposition that each problem presupposes its own particular scientific solution. They are therefore essentially passive, since they take the view that the human being is a simple object to be manipulated. They are also completely unequipped to create new interhuman relationships (which is something they have in common with the adversaries of science); they are unable to see that a scientific solution is a capitalist solution, because it eliminates humans and lays open the prospect of a totally controlled society.”

It seems abundantly obvious that we live amidst a great deal of violence and that violence and the need to end it is the dominant theme within the narrative we are located within. The violence of rape culture; the violence of racial and colonial oppression; the violence of ISIS, Islamists and the international forces against them; the violence of Russia, North Korea and the USA; the violence of school shootings in America; the violence of mass stabbings from gangs in London; of bombs, cars, guns, knives and penises. Many acts of violence are spoken of less; the violence of animal traps; the violence of chainsaws; the violence of dehabitation to develop an area, or to grow industrial monocultures of crops, to feed a growing population.

Within radical discourse, particularly that of the anarchist tradition, we generally have somewhat of a strained relationship with violence. My wish here is to identify a theme within our discussions which often gets over looked – this theme is one regarding interiorisation and exterioisation, under the gaze of an big-­Other. I will focus this within contemporary discourse around decolonial, anti-­colonial and eco­-extremist activities. This will also involve, in the later part of this paper, an ontological assertion, regarding what violence actually is.

Last year the Chilean indigenous anti­-colonial organisation Fight Of The Rebel Territory, in a single action, burned down 29 logging vehicles. Between January andMay 2016 the group committed 30 similar acts of property damage, in defence of the land they live upon, the forests and the wildlife. Similarly, MEND, the Movement for the Emancipation of the Niger Delta, an armed militant organisation of loose cells engaged in guerrilla warfare against oil companies, have blown up pipelines, attacked oil fields and kidnapped oil workers, as part of their anti­-colonial activities.

As voices for the English speaking radical environmentalist and anti­-colonial milieus, groups like Earth First! and Deep Green Resistance have spoken out in support for these groups, and others like them, seeking to legitimise them, within the context of radical discourse. This involves undergoing a process that Deleuze and Guattari called territorialisation, where a process of interiorisation brings these groups into the structure of particular machine. This brings these groups into the space of moral­ acceptablity, within a left­-wing oriented moral framework. From this, these actions, the activities of these groups, and similar others, become part of the narrative of left­ wing radical politics, regarding the progress of civilisation and history. They become characters within the chapters preceding the “revolution” and, in a similar way to that being described by Camatte in the quote I stated earlier, they are viewed as passive objects to be scientifically manipulated. As characters within the metadrama they reside within, they are allocated an identity that functions entirely as a symbolic signifier for an Other, who stands as the parental superego, granting their struggles as legitimate, like God determining who is going to heaven, or rather who will not be thrown into the gulag, even the anarchist one, after the revolution – interiorised – and who will be cast into hell, or the gulag, again, even the gulag
constructed by anarchists – exteriorised.

This is also the case in decolonial struggles that aren’t necessarily connected to eco-radical struggles, such as the Palestinian struggle against the violences of Israel, where unarmed protestors are painted as “innocent” by pacifist Leftist organisations that use their struggle as a platform for their own, with the implication being that armed Palestinians, such as Hamas, are legitimate targets for statist colonial violence.

While the organisations leaders, who might be educated in the western philosophies of Marxism, anarchist, etc., might embrace this ideological trajectory, I think that, in actuality, outside of this interiorisation, those individuals who are actively engaged in the actions of these organisations and similar ones; they do not care about progress, history, capitalism or any of that. They care about the forests, lands, wildlife, rivers and world that they are immersed in and live as Extensions of.

This machinic enframing functions, in the way Heidegger describes regarding technology and enframing, whereby, as objects, symbols and characters of a technological description, they fit within the mode of human existence stated before, that of the lef-t­wing ideological narrative, dehumanised, inanimate and un­-animal.

Now I want to turn to something that might seem in many ways entirely opposite, but I argue stems from the same narrative I have been describing here. To do this though, I’m going to do a short bit of history.

Ted Kaczynski’s 17 ­year bombing campaign is arguably the most successful campaign of its type. As the Unabomber, Kaczynski sent 16 bombs, to various locations within the USA. It was only after the publication of his manifesto, Industrial Society and its Future, that his motivations became clear and he captured. The work is a brilliantly articulated critique of technological society, which includes a critique of Leftism, which I will not go into here, as it is not necessary for this and would take up too much space. I only acknowledge it for its relevance for what I am about to go into.

Kaczynski’s influence, regarding the anti­-colonial space, is particularly noteworthy, regarding the post­-anarchist nihilist­-terrorist movement called Eco-­Extremism. Growing out of dark­net nihilist­-anarchist anti­-civ discussions, and almost entirely located within Southern and Central America, from indigenous anti­-civ individuals, with only a few cells within Europe, this movement is one that has actively sought to exteriorise themselves from the left­-wing narrative and machine.

In their anti­progressive anti­meliorist activities, the group which is the most vocal proponent of Eco-­Extremism, Individualists Tending Towards the Wild (translated from Spanish), ITS (as the S stands for savagery), focused their early activities on, like Kaczynski, bombing university institutions, such as nano-­technology laboratories; before moving onto their famed, through moral disgust, indiscriminate killings, in the name of Wild Nature.

In case you are unfamiliar with the group, I’d like to state here quotations from their earlier communiqués –

1. “Civilization is collapsing and a new world will be born, through the efforts of anti­civilization warriors? Please! Let us see the truth, plant our feet on the ground and let leftism and illusions fly from our minds. The revolution has never existed, nor have revolutionaries; those who view themselves as “potential revolutionaries”and seek a “radical anti­technology shift” are truly being idealistic and irrational because none of that exists, in this dying world only Individual Autonomy exists and it is for this that we fight.”

2. “A world without domestication, with a system stopped by the work of the “revolutionaries,” with Wild Nature born from the ashes of the old technological regime and the human species (what remains) returned to the wild, is completely illusory and dreamy.”

3. “ITS shows its true face, we go to the central point, the fierce defense of Wild Nature (including human); we do not negotiate, we carry out our task with the necessary materials, without compassion and accepting the responsibility of the act. Our instincts make us do it, since (as we have said before) we are in favor of natural violence against civilized destruction.”

The response ITS has received has been one of active exteriorisation on the part of leftists and moral-­anarchists. The left­-anarchist publication Its Going Down in particular spoke out against ITS, noticeably following their 29th communiqué, where they claimed responsibility for the murder of a woman in a forest, and have demonised anarchists and westerners who include Eco­-Extremism within discussions. Its Going Down struck ITS with the label of Eco­-Fascism in one of their condemnations of the group, in an obvious attempt to morally demonise them, excluding them from the community of groups and organisations deemed acceptable within anarchist morality. This is, like with MEND and Fight of the Rebel Territory, done under the gaze of a parental superego Other, repressing that which is deemed morally unacceptable, from a position of moral authority, as God. This is an example of what Camatte described, where the leftist condemners of ITS and Eco-­Extremism treat Eco­-Extremists, those interested in Eco-­Extremism and their own sympathisers and supporters, as objects for scientific manipulation, in a capitalistic move to control, to territorialise.

The Eco­Extremist journal Regresion Magazine makes a noticeable attempt to exteriorise itself, in both its name and its contents. It describes itself as the antonym to progress, as the antithetical regressive force, placing its strategy as one of active Marxist style dualistic dialectics. The magazine is one that claims to actively not want to be read or be trying to find readers, but makes itself available to read online by anyone. It is actively saying “we are not one of you” and “we are not a part of this”, in a very similar way to how Leftists seek to exteriorise Eco-­Extremism. From these examples I have presented, I have looked to identify that, in both positive and negative moral framings, through both interiorising and exteriorising within the narrative of progress, revolution and history, the leftist relationship towards anti­-colonial and decolonial radical and extremist projects is one whose machinic structure is functionally and ideologically colonialist and racist. The left does not accept or condemn the actions of indigenous and anti­-civ groups simply on their own terms, but layers it with the symbology of its own ideological design. As well as this, the decolonial movement has become so much a part of the Leftist machine, that, in the case of Eco­Extremists, indigenous peoples are moving away from the struggle.

At this point I feel to move to somewhere slightly different to where we have been for the bulk of this, though not straying too far away. I frame this in geographical place, rather than historical time, because what I am moving to is neither historically progressive nor reactionary, or regressive, whichever term you prefer, but metaphysically presentist, in an egoist and phenomenologically immediatist sense. Karl Popper stated in his work The Open Society and Its Enemies, where he critiques the teleological historicism of Hegel, Marx and similar thinkers as being fundamentally totalitarian, “History has no meaning”– a proposition undoubtedly disagreeable to anyone who embraces Leftist political positions, but this is the sentiment I wish to move forward from.

This is the matter of destruction, which I will later differentiate from violence. Now, when I look outwards from myself at what post-­anarchist discourse and action means now, in this present moment, as we find ourselves in systematic crisis, ecological collapse and amidst so much violence, it seems to me that we can really only being talking about ontology. I am not meaning that we are talking about and can only talk about vague and abstract concepts, but rather that at the root of our discourses and that if we are honest about our discussions we are talking about psycho­ontics, social­ontics, eco­-ontics, about Realities and about the Real – I am delving here, through bringing ontics in alongside ontology, into the world of Things (capital T) and reification (using the term equally in the sense meant by good old Commie Marx and the sense of the fallacy of concretism, also know as hypostatization).

These ontological discussions might often be framed within Symbolic theatres of ideologies, interiorising and exteriorising, in processes of territorialisation. But underneath this clothing, the bare­naked flesh of our discourse, lives and selves, isontological. We are, in many ways, all practicing ontological anarchists.

From this, I make this assertion, that the ontological anarchist project is one of active destruction, in the Heideggerian sense (with the k replacing the c) – I like to borrow Discordian philosopher Robert Anton Wilson’s term guerrilla ontology for this. As Heidegger found, destruction is a presentist task and doesn’t fit into normal categories of positive­negative, being nihilistically amoral and not positioned within the past. Being non­dualistically positive or negative, destruction here is a radically monist force, in the way collectivist­-anarchist Bakunin suggests when he stated “the passion for destruction is also a creative passion”– immediate; unlike the gnostic traditions of left­-wing revolutionary ideology, where both theory and practice retain an esoteric dualism, towards objects that can be manipulated scientifically.

Even more than as an anti­political practice, I assert that the actual objectless creative­destruction of Being is the process of becoming that is happening always. Civilisation and history, in this sense, are attempts to halt this process and create, through Symbolic reification, a social ontology of structured-­absolute space – the construction of territories, of objects with interiors and exteriors, of nature and the space that is outside of nature (civilisation), of sets and categories; a theatre of phantasms, technologically inauthentic, in the sense Heidegger argues, attempting to repress the relationality of Being, as temporally extended unfoldings, or rather the happening of life as the open space of possibility. Civilisation, in order to continue the machinery of its functioning, must restrict, through colonisation, morality, etc., the open space of possibility, through interiorisation and exteriorisation aimed towards a totalitarian narrative, with one directed pathway.

Now, in one sense what I, as someone from the anti­-civ world, am saying here is that we should do away with sets, categories, territories, interiors, exteriors, inclusion, exclusion, objects, symbols and other technological phantasms, but this seems unlikely at this present time to lead to much. So, alongside this, I wish to make another assertion for us as individuals, or rather as singularities, involved in the decolonial and anti­-colonial projects of deterritorialisation; that we radically embrace the notion of monism­as­pluralism; not to interiorise the cartography of radical space in a new way to the one we now do. Rather, to leave the situation as messy and to not judge the mess through moral condemnation, and not fit events within the structures of left­-wing ideology, but to leave it all in the open space of possibility. Perhaps this could be considered the eco­anarchist equivalent of Bergson’s liberal notion of the open society – though also, perhaps not. If, though, we are dealing with ontological processes, I suggest we consider our perceptions ofreality, as space and time, in the way the mathematician Poincare suggests in his philosophy of geometry; as having been born out of intuitions, which became tied to normative conventions rather than facts.

This is obviously a very uncomfortable idea I am asserting, as it leaves open basically everything, but if we are going to decolonised the structurally racist psychic­space of anti­colonial politics, then we are left with this space of discomfort, where we are having to acknowledge without morally categorising, in an anti­political sense.

Finally, I also wish to make an ontical assertion here, for the purposes of discourse, that much of what gets categorised as violence by anti­-colonial and eco­radical groups is not violence, with violence being a reified object of civilisation, signifying violation. Rather what is often in this way categorised as violence is actually an embrace of wild non­ontical acosmic ontological creative­destruction. Violation, in this way, seems to be the basic machinic functioning of civilisation – flipping ITS’s assertion of nature being violent and civilisation being destructive. The object of civilisation is the object of violence. This is not to seek to legitimise those actions I am describing as destructive rather than violent, but to differentiate for the purposes of post­-anarchist praxis.

To violate is to interrupt the flow of a space and to create a blockage, like a dam blocking a river, like a military coming to interrupt the everyday life of a community, like a penis forcing its way into somewhere through rape. Destruction is a creative aspect of the actualising­becoming­temporal processes of space that is Being. Destruction is the opening up of space.

To decolonise is to destroy the colonial production­narrative that is this culture. Lets deterritorialise, without reterritorialising, and not judge what grows out of the open space. Lets leave things open and not treat the world as an object for our manipulation. Lets not try to be God and lets destroy totalitarianism. Lets live free from interiors and exteriors, from inclusion and exclusion. Lets actually do no borders and no boundaries, and be anarchists embracing anarchy. Poincare said “Geometry is not true, it is advantageous”, but this does not go far enough – geometry isn’t true, but it can be adventurous!

This goes further than just the decolonial space obviously, as it includes the spaces of anti­patriarchy, radical environmentalism and anti­state theory and practice, as these also could do with deconstructing their territories and embrace the ontological notion of monism = pluralism – but there is not space in this essay to include thesestruggles.

I’d like to end this with this quote from autonomous-­Marxist philosopher Agamben – “What had to remain in the collective unconscious as a monstrous hybrid of human and animal, divided between the forest and the city – the werewolf – is, therefore, in its origin the figure of the man who has been banned from the city. That such a man is defined as a wolf­-man and not simply as a wolf … is decisive here. The life of the bandit, like that of the sacred man, is not a piece of animal nature without any relation to law and the city. It is, rather, a threshold of indistinction and of passage be­tween animal and man, physis and nomos, exclusion and inclusion: the life of the bandit is the life of the loup garou, the werewolf, who is precisely neither man nor beast, and who dwells paradoxically within both while belonging to neither.”

Children of Ted: The Unlikely New Generation of Unabomber Acolytes

Escrito por John H. Richardson e publicado na revista quinzenal novaiorquina New York Magazine, Children of Ted: The Unlikely New Generation of Unabomber Acolytes é um interessante artigo sobre a trajetória do teórico Selvagista John Jacobi, mas acima de tudo, o texto passa por pensamentos primitivistas primários, indo do anti-industrialismo de Ted Kaczynski à teoria eco-extremista de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

Two decades after his last deadly act of ecoterrorism, the Unabomber has become an unlikely prophet to a new generation of acolytes.

When John Jacobi stepped to the altar of his Pentecostal church and the gift of tongues seized him, his mother heard prophecies — just a child and already blessed, she said. Someday, surely, her angelic blond boy would bring a light to the world, and maybe she wasn’t wrong. His quest began early. When he was 5, the Alabama child-welfare workers decided that his mother’s boyfriend — a drug dealer named Rock who had a red carpet leading to his trailer and plaster lions standing guard at the door — wasn’t providing a suitable environment for John and his sisters and little brother. Before they knew it, they were living with their father, an Army officer stationed in Fayetteville, North Carolina. But two years later, when he was posted to Iraq, the social workers shipped the kids back to Alabama, where they stayed until their mother hanged herself from a tree in the yard. John was 14. In the tumultuous years that followed, he lost his faith, wrote mournful poems, took an interest in news reports about a lively new protest movement called Occupy Wall Street, and ran away from the home of the latest relative who’d taken him in — just for a night, but that was enough. As soon as he graduated from high school, he quit his job at McDonald’s, bought some camping gear, and set out in search of a better world.

When a young American lights out for the territories in the second decade of the 21st century, where does he go? For John Jacobi, the answer was Chapel Hill, North Carolina — Occupy had gotten him interested in anarchists, and he’d heard they were active there. He was camping out with the chickens in the backyard of their communal headquarters a few months later when a crusty old anarchist with dreadlocks and a piercing gaze handed him a dog-eared book called Industrial Society and Its Future. The author was FC, whoever that was. Jacobi glanced at the first line: “The Industrial Revolution and its consequences have been a disaster for the human race.”

This guy sure gets to the point, he thought. He skimmed down the paragraph. Industrial society has caused “widespread psychological suffering” and “severe damage to the natural world”? Made life more comfortable in rich countries but miserable in the Third World? That sounded right to him. He found a quiet nook and read on.

The book was written in 232 numbered sections, like an instruction manual for some immense tool. There were two main themes. First, we’ve become so dependent on technology that the real decisions about our lives are made by unseen forces like corporations and market flows. Our lives are “modified to fit the needs of this system,” and the diseases of modern life are the result: “Boredom, demoralization, low self-esteem, inferiority feelings, defeatism, depression, anxiety, guilt, frustration, hostility, spouse or child abuse, insatiable hedonism, abnormal sexual behavior, sleep disorders, eating disorders, etc.” Jacobi had experienced most of those himself.

The second point was that technology’s dark momentum can’t be stopped. With each improvement, the graceful schooner that sails our shorelines becomes the hulking megatanker that takes our jobs. The car’s a blast bouncing along at the reckless speed of 20 mph, but pretty soon we’re buying insurance, producing our license and registration if we fail to obey posted signs, and cursing when one of those charming behavior-modification devices in orange envelopes shows up on our windshields. We doze off while exploring a fun new thing called social media and wake up to big data, fake news, and Total Information Awareness.

All true, Jacobi thought. Who the hell wrote this thing?

The clue arrived in section No. 96: “In order to get our message before the public with some chance of making a lasting impression, we’ve had to kill people,” the mystery author wrote.

Kaczynski at the time of his arrest, in 1996. Photo: Donaldson Collection/Getty Images

“Kill people” — Jacobi realized that he was reading the words of the Unabomber, Ted Kaczynski, the hermit who sent mail bombs to scientists, executives, and computer experts beginning in 1978. FC stood for Freedom Club, the pseudonym Kaczynski used to take credit for his attacks. He said he’d stop if the newspapers published his manifesto, and they did, which is how he got caught, in 1995 — his brother recognized his prose style and reported him to the FBI. Jacobi flipped back to the first page, section No. 4: “We therefore advocate a revolution against the industrial system.”

The first time he read that passage, Jacobi had just nodded along. Talking about revolution was the anarchist version of praising the baby Jesus, invoked so frequently it faded into background noise. But Kaczynski meant it. He was a genius who went to Harvard at 16 and made breakthroughs in something called “boundary functions” in his 20s. He joined the mathematics department at UC Berkeley when he was 25, the youngest hire in the university’s then-99-year history. And he did try to escape the world he could no longer bear by moving to Montana. He lived in peace without electricity or running water until the day when, maddened by the invasion of cars and chain saws and people, he hiked to his favorite wild place for some relief and found a road cut through it. “You just can’t imagine how upset I was,” he told an interviewer in 1999. “From that point on, I decided that, rather than trying to acquire further wilderness skills, I would work on getting back at the system. Revenge.” In the next 17 years, he killed three people and wounded 23 more.

Jacobi didn’t know most of those details yet, but he couldn’t find any holes in Kaczynski’s logic. He said straight-out that ordinary human beings would never charge the barricades, shouting, “Destroy our way of life! Plunge us into a desperate struggle for survival!” They’d probably just stagger along, patching holes and destroying the planet, which meant “a small core of deeply committed people” would have to do the job themselves (section No. 189). Kaczynski even offered tactical advice in an essay titled “Hit Where It Hurts,” published a few years after he began his life sentence in a federal “supermax” prison in Colorado: Forget the small targets and attack critical infrastructure like electric grids and communication networks. Take down a few of those at the right time and the ripples would spread rapidly, crashing the global economic system and giving the planet a breather: No more CO2 pumped into the atmosphere, no more iPhones tracking our every move, no more robots taking our jobs.

Kaczynski was just as unsentimental about the downsides. Sure, decades or centuries after the collapse, we might crawl out of the rubble and get back to a simpler, freer way of life, without money or debt, in harmony with nature instead of trying to fight it. But before that happened, there was likely to be “great suffering” — violent clashes over resources, mass starvation, the rise of warlords. The way Kaczynski saw it, though, the longer we go like we’re going, the worse things will get. At the time his manifesto was published, many people reading it probably hadn’t heard of global warming and most certainly weren’t worried about it. Reading it in 2014 was a very different experience.

The shock that went through Jacobi in that moment — you could call it his “Kaczynski Moment” — made the idea of destroying civilization real. And if Kaczynski was right, wouldn’t he have some responsibility to do something, to sabotage one of those electric grids?

His answer was yes, which was almost as alarming as discovering an unexpected kinship with a serial killer — even when you’re sure that morality is just a social construct that keeps us docile in our shearing pens, it turns out setting off a chain of events that could kill a lot of people can raise a few qualms.

“But by then,” Jacobi says, “I was already hooked.”

Jacobi in Chapel Hill, North Carolina. Photo: Colby Katz

Quietly, often secretly, whether they gather it from the air of this anxious era or directly from the source like Jacobi did, more and more people have been having Kaczynski Moments. Books and webzines with names like Against Civilization, FeralCulture, Unsettling America, and the Ludd-Kaczynski Institute of Technology have been spreading versions of his message across social-media forums from Reddit to Facebook for at least a decade, some attracting more than 100,000 followers. They cluster around a youthful nickname, “anti-civ,” some drawing their ideas directly from Kaczynski, others from movements like deep ecology, anarchy, primitivism, and nihilism, mixing them into new strains. Although they all believe industrial civilization is in a death spiral, most aren’t trying to hurry it along. One exception is Deep Green Resistance, an activist network inspired by a 2011 book of the same name that includes contributions from one of Kaczynski’s frequent correspondents, Derrick Jensen. The group’s openly stated goal, like Kaczynski’s, is the destruction of civilization and a return to preagricultural ways of life.

So far, most of the violence has happened outside of the United States. Although the FBI declined to comment on the topic, the 2017 report on domestic terrorism by the Congressional Research Service cited just a handful of minor attacks on “symbols of Western civilization” in the past ten years, a period of relative calm most credit to Operation Backfire, the FBI crackdown on radical environmental efforts in the mid-aughts. But in Latin America and Europe, terrorist groups with florid names like Conspiracy of Cells of Fire and Wild Indomitables have been bombing government buildings and assassinating technologists for almost a decade. The most ominous example is Individualidades Tendiendo a lo Salvaje, or ITS (usually translated as Individuals Tending Toward the Wild), a loose association of terrorist groups started by Mexican Kaczynski devotees who decided that his plan to take down the system was outdated because the environment was being decimated so fast and government surveillance technology had gotten so robust. Instead, ITS would return to its guru’s old modus operandi: revenge. The group set off bombs at the National Ecology Institute in Mexico, a Federal Electricity Commission office, two banks, and a university. It now claims cells across Latin America, and in January 2017, the Chilean offshoot delivered a gift-wrapped bomb to Oscar Landerretche, the chairman of the world’s largest copper mine, who suffered minor injuries. The group explained its motives in a defiant media release: “The pretentious Landerretche deserved to die for his offenses against Earth.”

In the larger world, where no respectable person would praise Kaczynski without denouncing his crimes, little Kaczynski Moments have been popping up in the most unexpected places — the Fox News website, for example, which ran a piece by Keith Ablow called “Was the Unabomber Correct?” in 2013. After summarizing some of Kaczynski’s dark predictions about the steady erosion of individual autonomy in a world where the tools and systems that create prosperity are too complex for any normal person to understand, Ablow — Fox’s “expert on psychiatry” — came to the conclusion that Kaczynski was “precisely correct in many of his ideas” and even something of a prophet. “Watching the development of Facebook heighten the narcissism of tens of millions of people, turning them into mini reality-TV versions of themselves,” he wrote. “I would bet he knows, with even more certainty, that he was onto something.”

That same year, in the leading environmentalist journal Orion, a “recovering environmentalist” named Paul Kingsnorth — who’d stunned his fellow activists in 2008 by announcing that he’d lost hope — published an essay about the disturbing experience of reading Kaczynski’s manifesto for the first time. If he ended up agreeing with Kaczynski, “I’m worried that it may change my life,” he confessed. “Not just in the ways I’ve already changed it (getting rid of my telly, not owning a credit card, avoiding smartphones and e-readers and sat-navs, growing at least some of my own food, learning practical skills, fleeing the city, etc.) but properly, deeply.”

By 2017, Kaczynski was making inroads with the conservative intelligentsia — in the journal First Things, home base for neocons like Midge Decter and theologians like Michael Novak, deputy editor Elliot Milco described his reaction to the manifesto in an article called “Searching for Ted Kaczynski”: “What I found in the text, and in letters written by Kaczynski since his incarceration, was a man with a large number of astute (even prophetic) insights into American political life and culture. Much of his thinking would be at home in the pages of First Things.” A year later, Foreign Policy published “The Next Wave of Extremism Will Be Green,” an editorial written by Jamie Bartlett, a British journalist who tracks the anti-civ movement. He estimated that a “few thousand” Americans were already prepared to commit acts of destruction. Citing examples such as the Standing Rock pipeline protests in 2017, Bartlett wrote, “The necessary conditions for the radicalization of climate activism are all in place. Some groups are already showing signs of making the transition.”

The fear of technology seems to grow every day. Tech tycoons build bug-out estates in New Zealand, smartphone executives refuse to let their kids use smartphones, data miners find ways to hide their own data. We entertain ourselves with I Am Legend, The Road, V for Vendetta, and Avatar while our kids watch Wall-E or FernGully: The Last Rainforest. An eight-part docudrama called Manhunt: The Unabomber was a hit when it premiered on the Discovery Channel in 2017 and a “super hit” when Netflix rereleased it last summer, says Elliott Halpern, the producer Netflix commissioned to make another film focusing on Kaczynski’s “ideas and legacy.” “Obviously,” Halpern says, “he predicted a lot of stuff.”

And wouldn’t you know it, Kaczynski’s papers have become one of the most popular attractions at the University of Michigan’s Labadie Collection, an archive of original documents from movements of “social unrest.” Kaczynski’s archivist, Julie Herrada, couldn’t say much about the people who visit — the archive has a policy against characterizing its clientele — but she did offer a word in their defense. “Nobody seems crazy.”

Two years ago, I started trading letters with Kaczynski. His responses are relentlessly methodical and laced with footnotes, but he seems to have a droll side, too. “Thank you for your undated letter postmarked 6/11/18, but you wrote the address so sloppily that I’m surprised the letter reached me …” “Thank you for your letter of 8/6/18, which I received on 8/16/18. It looks like a more elaborate and better developed, but otherwise typical, example of the type of brown-nosing that journalists send to a ‘mark’ to get him to cooperate.” Questions that revealed unfamiliarity with his work were poorly received. “It seems that most big-time journalists are incapable of understanding what they read and incapable of transmitting facts accurately. They are frustrated fiction-writers, not fact-oriented people.” I tried to warm him up with samples of my brilliant prose. “Dear John, Johnny, Jack, Mr. Richardson, or whatever,” he began, before informing me that my writing reminded him of something the editor of another magazine told the social critic Paul Goodman, as recounted in Goodman’s book Growing Up Absurd: “ ‘If you mean to tell me,” an editor said to me, “that Esquire tries to have articles on serious issues and treats them in such a way that nothing can come of it, who can deny it?’ ” (Kaczynski’s characteristically scrupulous footnote adds a caveat, “Quoted from memory.”) His response to a question about his political preferences was extra dry: “It’s certainly an oversimplification to say that the struggle between left & right in America today is a struggle between the neurotics and the sociopaths (left = neurotics, right = sociopaths = criminal types),” he said, “but there is nevertheless a good deal of truth in that statement.”

But the jokes came to an abrupt stop when I asked for his take on America’s descent into immobilizing partisan warfare. “The political situation is complex and could be discussed endlessly, but for now I will only say this,” he answered. “The current political turmoil provides an environment in which a revolutionary movement should be able to gain a foothold.” He returned to the point later with more enthusiasm: “Present situation looks a lot like situation (19th century) leading up to Russian Revolution, or (pre-1911) to Chinese Revolution. You have all these different factions, mostly goofy and unrealistic, and in disagreement if not in conflict with one another, but all agreeing that the situation is intolerable and that change of the most radical kind is necessary and inevitable. To this mix add one leader of genius.”

Kaczynski was Karl Marx in modern flesh, yearning for his Lenin. In my next letter, I asked if any candidates had approached him. His answer was an impatient no — obviously any revolutionary stupid enough to write to him would be too stupid to lead a revolution. “Wait, I just thought of an exception: John Jacobi. But he’s a screwball — bad judgment — unreliable — a problem rather than a help.”

The Kaczynski moment dislocates. Suddenly, everyone seems to be living in a dream world. Why are they talking about binge TV and the latest political outrage when we’re turning the goddamn atmosphere into a vast tanker of Zyklon B? Was he right? Were we all gelded and put in harnesses without even knowing it? Is this just a simulation of life, not life itself?

People have moments like that under normal conditions, of course. Sigmund Freud wrote a famous essay about them way back in 1929, Civilization and Its Discontents. A few unsettled souls will always quit that bank job and sail to Tahiti, and the stoic middle will always suck it up. But Jacobi couldn’t accept those options. Staggered by the shock of his Kaczynski Moment but intent on rising to the challenge, he began corresponding with the great man himself, hitchhiked the 644 miles from Chapel Hill to Ann Arbor to read the Kaczynski archives, tracked down his followers all around the world, and collected an impressive (and potentially incriminating) cache of material on ITS along the way. He even published essays about them in an alarmingly terror-friendly print journal named Atassa. But his biggest influence was a mysterious Spanish radical theorist known only by the pseudonym he used to translate Kaczynski’s manifesto into Spanish, Último Reducto. Recommended by Kaczynski himself, who even supplied an email address, Reducto gave Jacobi a daunting reading list and some editorial advice on his early essays, which inspired another series of TV-movie twists in Jacobi’s turbulent life. Frustrated by the limits of his knowledge, he applied to the University of North Carolina, Chapel Hill, to study some more, received a full scholarship and a small stipend, and buckled down for two years of intense scholarship. Then he quit and hit the road again. “I think the homeless are a better model than ecologically minded university students,” he told me. “They’re already living outside of the structures of society.”

Four years into this bizarre pilgrimage, Jacobi is something of an underground figure himself — the ubiquitous, eccentric, freakishly intellectual kid who became the Zelig of ecoextremism. Right now, he’s about to skin his first rat. Barefoot and shirtless, with an old wool blanket draped over his shoulders, long sun-streaked hair and gleaming blue eyes, he hurries down a rocky mountain trail toward a stone-age village of wattle-and-daub huts, softening his voice to finish his thought. “Ted was a good start. But Ted is not the endgame.”

He stops there. The village ahead is the home of a “primitive skills” school called Wild Roots. Blissfully untainted by modern conveniences like indoor toilets and hot showers, it’s also free of charge. It has just three rules, and only one that will get us kicked out. “I don’t want to be associated with that name,” Wild Roots’ de facto leader told us when I mentioned Kaczynski. “I don’t want my name associated with that name,” he added. “I really don’t want to be associated with that name.”

Jacobi arrives at the open-air workshop, covered by a tin roof, where the dirtiest Americans I’ve ever seen are learning how to weave cordage from bark, start friction fires, skin animals. The only surprise is the lives they led before: a computer analyst for a military-intelligence contractor, a Ph.D. candidate in engineering, a classical violinist, two schoolteachers, and a rotating cast of college students the older members call the “pre-postapocalypse generation.” Before he became the community blacksmith, the engineering student was testing batteries for ecofriendly cars. “It was a fucking hoax,” he says now. “It wasn’t going to make any difference.” At his coal-fired forge, pounding out simple tools with a hammer and anvil, he feels much more useful. “I can’t make my own axes yet, but I made most of the handles on those tools, I make all my own punches and chisels. I made an adze. I can make knives.”

Freshly killed this morning, five dead rats lie on a pine board. They’re for practice before trying to skin larger game. Jacobi bends down for a closer look, selects a rat, ties a string to its twiggy leg, and hangs it from a rafter. He picks up a razor. “You wanna leave the cartilage in the ear,” his teacher says. “Then cut just above the white line and you’ll get the eyes off.”

A few feet away, a young woman who fled an elite women’s college in Boston pounds a wooden staff into a bucket to pulverize hemlock bark to make tannin to tan the bear hide she has soaking in the stream — a mixture of mashed hemlock and brain tissue is best, she says, though eggs can substitute if you can’t get fresh brain.

Jacobi works the razor carefully. The eyes fall into the dirt.

“I’m surprised you haven’t skinned a rat before,” I say.

“Yeah, me too,” he replies.

He is, after all, the founder of The Wildernist and Hunter/Gatherer, two of the more radical web journals in the personal “rewilding” movement. The moderates at places like ReWild University talk of “rewilding your taste buds” and getting in “rockin’ fit shape.” “We don’t have to demonize our culture or attempt to hide from it,” ReWild University’s website enthuses. Jacobi has no interest in padding the walls of the cage — as he put it in an essay titled “Taking Rewilding Seriously,” “You can’t rewild an animal in a zoo.”

He’s not an idiot; he knows the zoo is pretty much everywhere at this point. He explained this in the philosophical book he wrote at 22, Repent to the Primitive: “My focus on the Hunter/Gatherer is based on a tradition in political philosophy that considers the natural state of man before moving on to an analysis of the civilized state of man. This is the tradition of Hobbes, Rousseau, Locke, Hume, Paine.” His plan is to ace his primitive skills, then test living wild for an extended time in the deepest forest he can find.

So why did it take him so long to get out of the zoo?

“I thought sabotage was more important,” he says.

But this isn’t the place to talk about that — he doesn’t want to break Wild Roots’ rules. Jacobi goes silent and works his razor down the rat’s body, pulling the skin down like a sock.

When he’s finished, he leads the way back into the woods, naming the plants: pokeberry, sourwood, rhododendron, dog hobble, tulip poplar, hemlock. The one with orange flowers is a lily that will garnish his dinner tonight. “If you want, I can get some for you,” he offers.

Then he returns to the forbidden topic. “I could never do anything like that,” he says firmly — unless he could, which is also a possibility. “I don’t have any moral qualms with violence,” he says. “I would go to jail, but for what?”

For what? The first time I talked to him, he told me he had dreams of being the leader Kaczynski wanted.

“I am being a little evasive,” he admits. His other reason for going to college, he says, was to plant the anti-civ seed in the future lawyers and scientists gathered there — “people who will defend you, people who have access to computer networks” — and also, speaking purely speculatively, who could serve as “the material for a terrorist criminal network.”

“Did you convince anybody?” I ask.

“I don’t know. I always told them not to tell me.”

“So you wanted to be the Lenin?”

“Yeah, I wanted to be Lenin.”

But let’s face it, he says, the revolution’s never going to happen. Probably. Maybe. That’s why he’s heading into the woods. “I want to come out in a few years and be like Jesus,” he jokes, “working miracles with plants.”

Isn’t he doing exactly what Lenin did during his exile in Europe, though? Honing his message, building a network, weighing tactical options, and creating a mystique. Is he practicing “security culture,” the activist term for covering your tracks? “Are you hiding the truth? Are you secretly plotting with your hard-core cadre?”

He smiles. “I wouldn’t be a very good revolutionary if I told you I was doing that.”

At the last minute, Abe Cabrera changed our rendezvous point from a restaurant in New Orleans to an alligator-filled swamp an hour away. This wasn’t a surprise. Jacobi had given me Cabrera’s email address, identifying him as the North American contact for ITS, which Cabrera immediately denied. His interest in ITS was purely academic, he insisted, an outgrowth of his studies in liberation theology. “However,” he added, “to say that I don’t have any contact with them may or may not be true.”

Now he’s leading me into the swamp, literally, talking about an ITS bomb attack on the head of the Department of Physical and Mathematical Sciences at the University of Chile in 2011. “Is that a fair target?” he asks. “For Uncle Ted, it would have been, so I guess that’s the standard.” He chuckles.

He’s short, round, bald, full of nervous energy, wild theories, and awkward tics — if “Terrorist Spokesman” doesn’t work out for him, he’s a shoo-in for “Mad Scientist in a B-Movie.” Giant ferns and carpets of moss appear and disappear as he leads the way into the swamp, where the elephantine roots of cypress trees stand in the eerie stillness of the water like dinosaurs.

He started checking out ITS after he heard some rumors about a new cell starting up in Torreón, his grandparents’ birthplace in Mexico, he says, but the group didn’t really catch his interest until it changed its name from Individuals Tending Toward the Wild to Wild Reaction. Why? Because healthy animals don’t have “tendencies” when they confront an enemy. As one Wild Reaction member put it in the inevitable postattack communiqué, another example of the purple prose poetry that has become the group’s signature: “I place the device, and it transforms me into a coyote thirsting for revenge.”

Cabrera calls this “radical animism,” a phrase that conjures the specter of nature itself rising up in revolt. Somehow that notion wove together all the dizzying twists his life had taken — the years as the child of migrant laborers in the vegetable fields of California’s Imperial Valley, his flirtation with “super-duper Marxism” at UC Berkeley, the leap of faith that put him in an “ultraconservative, ultra-Catholic” order, and the loss of faith that surprised him at the birth of his child. “Most people say, ‘I held my kid for the first time and I realized God exists.’ I held my kid the first time and I said, ‘You know what? God is bullshit.’ ” People were great in small doses but deadly in large ones, even the beautiful little girl cradled in his arms. There were no fundamental ethical values. It all came down to numbers. If that was God’s plan, the whole thing was about as spiritually “meaningful as a marshmallow,” Cabrera says.

John Jacobi is a big part of this story, he adds. They connected on Facebook after a search for examples of radical animism led him to Hunter/Gatherer. They both contributed to the journal Atassa, which was dedicated on the first page to the premise that “civilization should be fought” and that the example of Ted Kaczynski “is what that fighting looks like.” In the premier edition, Jacobi made the prudent decision to write in a detached tone. Cabrera’s essay bogs down in turgid scholarship before breaking free with a flourish of suspiciously familiar prose poetry: “Ecoextremists believe that this world is garbage. They understand progress as industrial slavery, and they fight like cornered wild animals since they know that there is no escape.”

Cabrera weaves in and out of corners like a prisoner looking for an escape route, so it’s hard to know why he chose a magazine reporter for his most incendiary confession: “Here’s the super-official version I haven’t told anybody — I am the unofficial voice-slash-theoretician of ecoextremism. I translated all 30 communiqués. I translated one last night.”

Abe Cabrera: Abracadabra.

Yes, he knows this puts him dangerously close to violating the laws against material contributions to terrorism. He read the Patriot Act. That’s why he leads a double life, even a triple life. Nobody at work knows, nobody from his past knows, even his wife doesn’t know. He certainly doesn’t want his kids to know. He doesn’t even want to tell them about climate change. Math homework, piano lessons, gymnastics, he’s “knee-deep in all that stuff.” He punches the clock. “What else am I gonna do? I love my kids,” he says. “I hope for their future, even though they have no future.”

His mood sinks, reminding me of Jacobi. Shifts in perspective seem to be part of this world. Puma hunted here before the Europeans came, Cabrera says, staring into the swamp. Bears and alligators, too, things that could kill you. The cypress used to be three times as thick. When you look around, you see how much everything has suffered.

But we’re not in this mess because of greed or nihilism; we’re in it because we love our children so much we made too many of them. And we’re just so good at dominating things, all that is left is to lash out in a “wild reaction,” Cabrera says. That’s why he sympathizes with ITS. “It’s like, ‘Be the psychopathic destruction you want to see in the world’, ” he says, tossing out one last mordant chuckle in place of a good-bye.

Kaczynski is annoyed with me. “Do not write me anything more about ITS,” he said. “You could get me in trouble that way.” He went on: “What is bad about an article like the one I expect you to write is that it may help make the anti-tech movement into another part of the spectacle (along with Trump, the ‘metoo movement,’ neo-Nazis, antifa, etc.) that keeps people entertained and therefore thoughtless.”

ITS, he says, is the very reason he cut Jacobi off. Even after Kaczynski told him the warden was dying for a reason to reduce his contacts with the outside world, the kid kept sending him news about them. He ended his letter to me with a controlled burst of fury. “A hypothesis: ITS is instigated by some country’s security services — probably Mexico. Their real task is to spread hopelessness, because where there is no hope there is no serious resistance.”

Wait … Ted Kaczynski is hopeful? The Ted Kaczynski who wants to destroy civilization? The idea seems ridiculous right up to the moment it spins around and becomes reasonable. What better evidence could you find than the unceasing stream of tactical and strategic advice that he’s sent from his prison cell for almost 20 years, after all. He’s hopeful that civilization can be taken down in time to save some of the planet. I guess I just couldn’t imagine how anyone could ever manage to rally a group of ecorevolutionaries large enough to do the job.

“If you’ve read my Anti-Tech Revolution, then you haven’t understood it,” he scolds. “All you have to do is disable some key components of the system so that the whole thing collapses.” I do remember the “small core of deeply committed people” and “Hit Where It Hurts,” but it’s still hard to fathom. “How long does it take to do that?” Kaczynski demands. “A year? A month? A week?”

On paper, Deep Green Resistance meets most of his requirements. The original core group spent five years holding conferences and private meetings to hone its message and build consensus, then publicized it effectively with its book, which speculates about tactical alternatives to stop the “planet from burning to a cinder”: “If selective disruption doesn’t work soon enough, some resisters may conclude that all-out disruption is needed” and launch “coordinated actions on a large scale” against key targets. DGR now has as many as 200,000 members, according to the group’s co-founder — a soft-spoken 30-year-old named Max Wilbert — who could shave off his Mephistophelian goatee and disappear into any crowd. Two hundred thousand may not sound like much when Beyoncé has 1 million-plus Instagram followers, but it’s not shabby in a world where lovers cry out pseudonyms during sex. And Fidel had only 19 in the jungles of Cuba, as Kaczynski likes to point out.

Jacobi says DGR was hobbled by a doctrinal war over “TERFs,” an acronym I had to look up — it’s short for “trans-exclusionary radical feminists” — so this summer they’re rallying the troops with a crash course in “resistance training” at a private retreat outside Yellowstone National Park in Montana. “This training is aimed at activists who are tired of ineffective actions,” the promotional flyer says. “Topics will include hard and soft blockades, hit-and-run tactics, police interactions, legal repercussions, operational security, terrain advantages and more.”

At the Avis counter at the Bozeman airport, my phone dings. It’s an email from the organizers of the event, saying a guy named Matt needs a ride. I find him standing by the curb. He’s in his early 30s, dressed in conventional clothes, short hair, no visible tattoos, the kind of person you’d send to check out a visitor from the media. When we get on the road and have a chance to talk, he says he’s a middle-school social-studies teacher. He’s sympathetic to the urge to escalate, but he’d prefer to destroy civilization by nonviolent means, possibly by “decoupling” from the modern world, town by town and state by state.

But if that’s true, why is he here?

“See for yourself,” he said.

We reach the camp in the late afternoon and set up our tents next to a big yurt. A mountain rises behind us, another mountain stands ahead; a narrow lake fills the canyon between them as the famous Big Sky, blushing at the advances of the night, justifies its association with the sublime. “Nature is the only place where you feel awe,” Jacobi told me after the leaves rustled at Wild Roots, and right now it feels true.

An hour later, the group gathers in the yurt outfitted with a plywood floor, sofas, and folding chairs: one student activist from UC Irvine, two Native American veterans of the Standing Rock pipeline protests, three radical lawyers, a shy working-class kid from Mississippi, a former abortion-clinic volunteer, and a few people who didn’t want to be identified or quoted in any way. The session starts with a warning about loose lips and a lecture on DGR’s “nonnegotiable guidelines” for men — hold back, listen, agree or disagree respectfully, avoid male-centered words, and follow the lead of women.

By that time, I’d already committed my first microaggression. The cook asked why I was standing in the kitchen doorway, and I answered, “Just supervising.” Her sex had nothing to do with it, I swear — I was waiting to wash my hands and, frankly, her question seemed a bit hostile. But the woman who followed me out the door to dress me down said that refusing to accept her criticism was another microaggression.

The first speaker turns the mood around. His name is Sakej Ward, and he did a tour in Afghanistan with the U.S. Joint Airborne and a few years in the Canadian military. He’s also a full-blooded member of the Wolf Clan of British Columbia and the Mi’kmaq of northern Maine with two degrees in political science, impressive muscles bulging through a T-shirt from some karate club, and one of those flat, wide Mohawks you see on outlaw bikers.
Unfortunately, he put his entire presentation off the record, so all I can tell you is that the theme was Native American warrior societies. Later he tells me the societies died out with the buffalo and the open range. They revived sporadically in the last quarter of the 20th century, but returned in earnest at events like Standing Rock. “It’s a question of ‘Are they there yet?’ We’ve been fighting this war for 500 years. But climate change is creating an atmosphere where it can happen.”

For the next two days, we get training in computer security and old activist techniques like using “lockboxes” to chain yourself to bulldozers and fences — given almost apologetically, like a class in 1950s home cooking. In another session, Ward takes us to a field and lines us up single file. Imagine you’re on a military patrol, he says, turning his back and holding his left hand out to the side, elbow at 90 degrees and palm forward. “Freeze!,” he barks.

We freeze.

“That’s the best way to conceal yourself from the enemy,” he tells us. He runs through basic Army-patrol semiotics. For “enemy,” you make a pistol with your hand and turn it thumbs-down. “Danger area” is a diagonal slash. After showing us a dozen signs, he stops. “Why am I making all the signs with my left hand?”

No one knows.

He turns around to face us with his finger pointed down the barrel of an invisible gun. “Because you always have to have a finger in control of your weapon,” he says.

The trainees are pumped afterward. “You can take out transformers with a .50 caliber,” one man says.

“But you don’t just want to do one,” says another. “You want four-man teams taking out ten transformers. That would bring the whole system to a halt.”

Kaczynski would be fairly pleased with this so far, I think. Ward is certainly a plausible contender for the Lenin role. Wilbert might be too. “We talk about ‘cascading catastrophic effects,’ ” he tells us in one of the last yurt meetings, summing up DGR’s grand strategy. “A large percent of the nation’s oil supply is processed in a facility in Louisiana, for example. If that was taken down, it would have cascading effects all over the world.”

But then the DGR women called us together for a lecture on patriarchy, which has to be destroyed at the same time as civilization. Also, men who voluntarily assume gendered aspects of female identity should never be allowed in female-sovereign spaces — and don’t call them TERFs unless you want a speech on microaggression.

Matt listens from the fringes in a hoodie and mirrored glasses, looking exactly like the famous police sketch of the Unabomber. I’m pretty sure he’s trolling them. Maybe he’s remembering the same Kaczynski quote I am: “Take measures to exclude all leftists, as well as the assorted neurotics, lazies, incompetents, charlatans, and persons deficient in self-control who are drawn to resistance movements in America today.”

At the farewell dinner, one of the more mysterious trainees finally speaks up. With long, wild hair, a floppy wilderness hat, pants tucked into waterproof boots, a wary expression, and an actual hermit’s cabin in Montana, he projects the anti-civ vibe with impressive authenticity. He was involved in some risky stuff during the Cove Mallard logging protests in Idaho in the mid-1990s, he says, but he retreated after the FBI brought him in for questioning. Lately, though, he’s been getting the feeling that things are starting to change, and now he’s sure of it. “I’ve been in a coma for 20 years,” he says. “I want to thank you guys for being here when I woke up.” One of the radical lawyers wraps up with a lyrical tribute to the leaders of Ireland’s legendary 1916 rebellion. He waxes about Thomas MacDonagh, the schoolteacher who led the Dublin brigade and whistled as he was led to the firing squad.

On the drive back to the airport, I ask Matt if he’s really a middle-school teacher. He answers with a question: What is your real interest in this thing?

I mention John Jacobi. “I know him,” he says. “We’ve traded a few emails.”

Of course he does. He’s another serious young man with gears turning behind his eyes.

“Can you imagine actually doing something like that?” I ask.

“Well,” he answers, drawing out the pause, “Thomas MacDonagh was a schoolteacher.”

The next time I talk to John Jacobi, he’s back in Chapel Hill living with a friend and feeling shaky. Things were getting strange at Wild Roots, he says — nobody could cooperate, there were personal conflicts. And, well, there was an incident with molly. It’s been a hard four years. First he lost Jesus and anarchy. Then Kaczynski and Último Reducto dumped him, which was really painful, though he understood why. “I’ve been unreliable,” he says woefully. To make matters worse, an ITS member called Los Hijos del Mencho denounced him by name online: The trouble with Jacobi was his “reluctance to support indiscriminate attacks” because of his sentimental attachment to humanity.

Jacobi is considering the possibility that his troubled past may have affected his judgment. He still believes in the revolution, he says, but he’s not sure what he’d do if somebody gave him a magic bottle of Civ-Away. He’d probably use it. Or maybe not.

I check in a couple of weeks later. He’s working in a fish store and thinking of going back to school. Maybe he can get a job in forest conservation. He’d like to have a kid someday.

He brings up Paul Kingsnorth, the “recovering environmentalist” who got rattled by Kaczynski’s manifesto in 2012. Kingsnorth’s answer to our global existential crisis was mourning, reflection, and the search for “the hope beyond hope.” The group he co-founded to help people with that task, a mixture of therapy group and think tank called Dark Mountain, now has more than 50 chapters worldwide. “I’m coming to terms with the fact that it might very well be true that there’s not much you can do,” Jacobi says, “but I’m having a real hard time just letting go with a hopeless sigh.”

In his Kaczynski essay, Kingsnorth, who has since moved to Ireland to homeschool his kids and write novels, put his finger on the problem. It was the hidden side effect of the Kaczynski Moment: paralysis. “I am still embedded, at least partly because I can’t work out where to jump, or what to land on, or whether you can ever get away by jumping, or simply because I’m frightened to close my eyes and walk over the edge.” To the people who end up in that suspended state now and then, lying in bed at four in the morning imagining the worst, here’s Kingsnorth’s advice: “You can’t think about it every day. I don’t. You’ll go mad!”

It’s winter now and Jacobi’s back on the road, sleeping in bushes and scavenging for food, looking for his place to land. Sometimes I wonder if he makes these journeys into the forest because of the way his mother ended her life — maybe he’s searching for the wild beasts and ministering angels she heard when he fell to his knees and spoke the language of God. Psychologists call that magical thinking. Medication and counseling are more effective treatments for trauma, they say. But maybe the dream of magic is the magic, the dream that makes the dream come true, and maybe grief is a gift too, a check on our human arrogance. Doesn’t every crisis summon the healers it needs?

In the poems Jacobi wrote after his mother hanged herself, she turned into a tree and sprouted leaves.

Fogo Contra Fogo: anarquistas contra eco-extremistas

Tradução de um curto, mas interessante artigo escrito por Eduardo Ortega e Fernanda Robles para o jornal chileno La Tercera, após o ataque de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) na avenida Vicuña Mackena em Santiago do Chile. No texto os autores acertam em um ponto bastante ignorado pela mídia e autoridades, a diferença entre a tendência eco-extremista e a filosofia política anarquista. Em muitas ocasiões ambos os movimentos são assimilados por leitores equivocados, mas cada um busca objetivos díspares e já chegaram a declarar guerra entre sí.

04 de JANEIRO de 2019/SANTIAGO, a Labocar realiza perícias na esquina Vicuña Mackena com Francisco Bilbao, após a detonação de um artefato explosivo em um ponto de ônibus da Transantiago. HANS SCOTT /AGENCIAUNO

Relacionados por suas ações diretas, muitas vezes nem sequer são distinguidos. Mas há diferenças, e nos últimos anos, entre eles mesmos se empenharam em deixá-las em evidência: apesar da origem comum, seus objetivos são díspares. Os anarquistas radicais, contra o sistema; os eco-extremistas, contra o progresso humano. Duas correntes que já declararam guerra entre si.

O primeiro aceno veio em uma noite de novembro de 2016, através de uma carta, diretamente do 25º módulo da prisão Santiago Um. Kevin Garrido, o mesmo que um ano antes explodiu uma bomba nas imediações da Escola de Gendarmería, em San Bernardo, oferecia uma crônica de seus dias atrás das grades: uma história de facas, repressão e assassinatos entre os presos. Mas isso parecia não lhe importar no relato. Pelo contrário, dizia que era um prisioneiro de guerra, que estava preparado, que não se arrependia de suas ações, que havia ganhado respeito, que a prisão não era para sempre. Além disso, talvez o mais importante para esta reportagem, que o tacharam falsamente de anarquista: no final, saudava calorosamente a distintas “células terroristas”, entre elas Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

Garrido, de 21 anos, morreu no último 2 de novembro: Lucas Bravo, outro preso, perfurou duas vezes seu tórax com uma faca artesanal que chegava a um metro de comprimento.

Como se tratava de um dos acontecimentos que tendem a ser comentados, cinco dias mais tarte, em 7 de novembro, em um blog que serve como um improvável veículo oficial –Maldición Eco-extremista– emitiu uma declaração dedicada à sua memória: “Para Kevin“, foi intitulada. Seria o primeiro de muitos posts, onde reivindicavam a figura de Garrido e o posicionavam como uma espécie de mártir. O consideram um guerreiro.

Mas a morte do jovem também acendeu os alarmes em outro extremo: grupos anarquistas. Rápidos, optaram por se distanciar da morte. Utilizando a mesma fórmula, os blogs, estavam determinados a demonstrar que Kevin não era um dos seus, que era um eco-extremista. Ou seja: um inimigo.

Um Melodrama Anarquista

Começaram como todos costumam começar: ansiosos, inexperientes, certamente animados, com a convicção de poder mudar a ordem estabelecida. Colheita dos anos 90, escutavam La Polla Records e Los Miserables e se politizaram ao som de Los Fiskales Ad-Hok. Nas mesmas marchas, todos de preto e com bandeiras negras, nos mesmos “okupas”. Alguns até tocaram nas mesmas bandas. Mas o tempo os separou: suas ideias os separaram. Alguns voltaram a suas casas, decepcionados. Outro punhado optou por seguir a luta através da via institucional.

Mas houve uma fração que optou por radicalizar o discurso. Se fizeram chamar, desde 2011, eco-extremistas.

Operando principalmente a partir da deep web, se comunicam através de blogs e se autodefinem Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). Sua luta: a tentativa de uma guerrilha urbana que -do anonimato- busca reivindicar e lutar contra tudo o que atente e domestique a natureza selvagem. Uma luta que se opõe ao progresso humano e tecnológico. Não fazem distinções: para eles, “qualquer humano civilizado merece estar morto”.

—Originalmente, pertenciam a uma linha anarquista insurrecionista. Mas hoje é mais uma corrente niilista que não tem uma lógica política e que concentra seus interesses em um ecologismo radical—explica um investigador especialista no assunto, que prefere ocultar sua identidade diante de possíveis represálias.

O conceito de grupo, esclarece, tampouco serve para definir aqueles que se identificam como ITS: têm o caráter de uma célula que poderia estar constituída por uma só pessoa. Talvez dois ou três indivíduos e, certamente, cada grupo nem sequer se conhece fisicamente.

—Quando a gente pensa em anarquismo, a primeira imagem que vem na cabeça é a dos “okupas” ou ataques com explosivos—reconhece um ex-membro de uma organização anarquista—. Com eles parece ser a mesma coisa, mas há pontos de inflexão que marcam diferenças entre ambas correntes.

Sergio Grez, historiador e autor do livro Los Anarquistas y el Movimiento Obrero (LOM, 2007), explica, neste sentido, que “o anarquismo têm princípios doutrinários claramente definidos: uma sociedade igualitária, sem classes sociais, sem divisão social do trabalho e, acima de tudo, sem Estado. Identificá-los com qualquer forma de violência política é um erro conceitual”.

Os atos de vandalismo, no entanto, parece ser o ponto comum que une as duas correntes. Embora seus objetivos sejam distintos: enquanto os anarquistas insurrecionais apontam para objetos simbólicos, como bancos ou imóveis, gerando danos materiais -considerando também os danos colaterais que podem implicar-, os eco-extremistas planejam ataques indiscriminados contra a “sociedade-rebanho” e o “humano-praga”, como definem.

Os próprios Individualistas Tendendo ao Selvagem do Chile, em seu primeiro comunicado, de fevereiro de 2016, evidenciam o distanciamento: “Já faz um tempo que jogamos no lixo a bíblia do anarquismo e sua igreja, especificamente o slogan de “sem Deus, nem mestres” ou “contra todo Deus”.

A resposta anarquista veio principalmente do exterior. Nos Estados Unidos, conseguiram o que muitos serviços de Inteligência não lograram: detectar alguns dos indivíduos por trás dos eco-extremistas, ou “eco-facistas”, como eles mesmos os apelidam, e difundiram seus dados na internet.

—No Chile, as críticas são duríssimas: os anarquistas os consideram uns imbecis — afirma o investigador.

Ameaças Invisíveis

Foi em 13 de janeiro de 2017, mas dois anos depois o pacote que explodiu nas mãos de Óscar Landerretche segue sendo o maior “orgulho” da curta história de ITS-Chile. Apesar das reivindicações por dezenas de atentados de diversas proporções entre outubro de 2015 e março de 2016, perpetrados pela Célula Karr-Kai, o ataque ao ex-presidente da diretoria da Codelco os colocou em uma discussão.

Regresión, revista que estreou em 2014, se encarregou de compilar e difundir os atentados dos eco-extremistas à nível mundial: na seção “Cronologia Maldita” detalham os ataques, com imagens dos artefatos e de suas consequências. Ali reúnem vários atentados no Chile, como o incêndio ocorrido em 24 de maio de 2016, na praça de alimentação do Mall Vivo, em Santiago.

Sua ação mais recente foi em 4 de janeiro de 2019, quando depositaram um artefato explosivo em um ponto de ônibus da Transantiago, na esquina Francisco Bilbao com Vicuña Mackenna: quatro pessoas ficaram feridas, sem risco de vida: “Nosso envelope-bomba estava composto por um niple de aço artesanal. Lembram deste niple? Foi o mesmo com o qual arrebentamos os dedos do mineiro em 2017. Desta vez, estava cheio com 100 gramas de pólvora negra cuja a ativação era gerada após puxar o explosivo encaixado e uma base.”, explicaram, posteriormente, em um comunicado acompanhado com a imagem de seu “presente”.

Também, através de seu blog, Maldición Eco-extremista, advertem sobre novos ataques: “Nós já estamos longe, ocultos e nos preparando para o próximo ataque, temos mais recipientes e mais vontade. Nossos pequenos artefatos causaram um enorme terror e tiveram uma grande repercussão mediática”. Asseguram, orgulhosos, que com pouco se pode fazer muito: você só precisa do desejo do desastre.

Seus próximos objetivos, aparentemente, estão ligados a Universidades, replicando o modelo mexicano que reivindicou numerosos atentados contra acadêmicos da UNAM desde 2011: “Nosso niple de aço contra a Universidade Católica Silva Henriquez em abril do ano passado e nossa garrafa térmica com lâminas abandonada em um ponto de ônibus em frente a Faculdade de Agronomia em setembro foram o preâmbulo do desastre”, lê-se no comunicado. Na quinta-feira 10 de janeiro, o GOPE desativou uma bomba de características similares a da última do atentado eco-extremista nas imediações da Universidade do Pacífico de Melipilla. O grupo ainda não se pronunciou.

Os anarquistas, entretanto, são acusados de serem os resposáveis pelo Caso Bombas I, que começou a tomar forma com uma série de ataques com artefatos incendiários em 2009. Mauricio Morales, em maio daquele ano, morreu após a explosão de um artefato que pretendia instalar na Escola de Gendarmería. Em 2011, Luciano Pitronello, outro anarquista, esteve próximo de ter o mesmo destino: sobreviveu, mas sofreu ferimentos graves. Em 2014, no chamado Caso Bombas II, foi condenado Juan Flores a 23 anos de prisão, pela detonação de uma bomba na Estação de Metrô da Escola Militar.

Estes ataques parecem ter se tornando uma verdadeira ameaça para o Ministério Público e a polícia: o Caso Bombas I foi considerado um fracasso e as condenações, nos últimos anos, foram apenas cinco: Luciano Pitronello (2012), Hans Niemeyer (2013), Carla Verdugo e Iván Silva (2013), Juan Flores (2018), Joaquín García e Kevin Garrido (2018).

Da Promotoria advertem que os eco-extremista podem chegar a ser ainda mais perigosos. São reconhecidos como grupos pequenos, de não mais que três pessoas, com motivações distintas a dos anarquistas, que estudam minunciosamente os lugares onde instalarão seus explosivos artesanais. As dificuldades para encontrá-los apontam principalmente a sua estrutura difusa: como não reivindicam uma ideologia política tradicional, é mais difícil rastreá-los. Também acrescenta o fato de que dispensam a comunicação formal: não utilizam telefones e se destacam pelo grande conhecimento de segurança informática. Após uma semana desde o último ataque ainda não há suspeitos. A investigação, segundo a Procuradoria, ainda se encontra na etapa de coleta de dados, esperando por informações, revisando câmeras.

Um ex-membro de um movimento que se define como anarco-sindicalista, no entanto, prefere não lhes dar tal importância:

—São uns cuzões que levantam suas cabeças uma vez por ano para dizer que existem. Não são a Al Qaeda ou a Frente Patriótica.

Eco-extremismo, a nova face do terror no México

Artigo de 2016 extraído da imprensa mexicana. É importante ressaltar que desde a data da publicação Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) se expandiu a vários países e causou grandes danos e deixou feridos e mortos com as suas atividades terroristas.

“Os pensamentos surgidos em um momento de terror tem o mistério e os olhos petrificados de ícones bizantinos.”
-E.M. Cioran, O Crepúsculo do Pensamento

Em 11 de Setembro de 2001 nossa visão de mundo mudou enquanto as torres do World Trade Center, localizadas no coração de Manhattan, Nueva York, caíam aos pedaços após serem impactadas por dois aviões comerciais sequestrados por integrantes do grupo jihadista Al Qaeda no mesmo momento em que um ato similar atingia o edifício do Pentágono e deixava-o seriamente danificado.

A partir deste momento, extremismo ou “terrorismo” deixou de ser apenas uma palavra e se converteu numa sombra sinistra disposta a atacar no momento menos esperado, causando o maior dano possível e deixando a sociedade mergulhada no caos. No entanto, o mais preocupante é a frequência com que estes ataques estão sendo realizados, pois condicionam o imaginário coletivo e o levam a um estado de paranóia, e simplesmente na medida em que o ano passa se pode contabilizar inúmeros ataques, sendo os mais destacados os ocorridos em Paris, Bruxelas e Orlando, mas sem contar os eventos quase diários que são realizados no Oriente Médio.

O Eco-extremismo

Menos visíveis e comentados foram os atos de extremismo cometidos nos últimos dias no México por um grupo radical conhecido como “Individualistas Tendendo ao Selvagem” que buscam desequilibrar o desenvolvimento tecnológico da sociedade através de ataques bem planejados aos pilares deste crescimento como é o caso dos centros educativos e científicos. Os chamados “eco-extremistas” argumentam que estão “contra o progresso humano, que corrompe e degrada toda a beleza que há neste mundo”.

Este grupo, que também tem presença na Argentina, Chile [e Brasil], afirma que não reconhecem nenhuma autoridade a não ser a da “Natureza Selvagem”, em suas próprias palavras: “matamos porque rechaçamos qualquer moral que nos queiram impor, porque não consideramos nem “ruim” nem “bom”, mas sim uma resposta de nossa individualidade a toda a destruição que gera o progresso humano”.

Não é um grupo novo, vem operando desde 2011 e, na verdade, tem se multiplicado em diferentes células que estão presentes no centro do país. Os métodos vão desde cartas bombas até ataques frontais. Assumiram ao menos meia dúzia destes acontecimentos até agora neste ano, sendo o mais recente o assassinato do chefe de serviços da faculdade de Química, José Jaime Barrera Moreno, que na segunda-feira, 27 de junho, foi encontrado morto com um ferimento causado no peito provocado por uma arma afiada, mas não é o primeiro e asseguram que não será o último.

Em uma entrevista concedida a Ciro Gómez Leyva na Rádio Fórmula, datada de 1 de julho de 2016, anunciaram que foram os responsáveis por 8 ataques realizados durante o mês de abril, embora não tenham tido cobertura mediática apesar de terem sido concretizados tal e como haviam planejado.

Nesta mesma entrevista revelaram que apesar dos ataques e assassinatos perpetrados no México até agora não foi detido nenhum integrante do grupo e que segundo eles se deve ao que, em suas próprias palavras, são as instituições de segurança do país, “uma PIADA”.

No entanto, apesar de ser um grupo ativo em constante expansão asseguram que sua única finalidade é a destruição, “porque nos encontramos em um ponto onde nenhuma mudança e nenhuma revolução serão suficientes para realizar uma transformação social, pois tudo está corrompido de maneira irreversível”. Neste sentido, também dizem que não apostam pela “caída da civilização, nem temos como finalidade a destruição desta”, o que alguns poderiam ver como uma contradição, mas no aspecto mais básico da existência, na Natureza Selvagem, é o que acontece quando um animal ferido se encontra encurralado, ele ataca até que não possa mais, “os eco-extremistas são como as abelhas, as quais enfiam seu ferrão para ferir a seu oponente (a civilização) lutando sabendo que morrerão tentando, já que está claro que nesta guerra não sairemos vitoriosos.”

O mundo está mudando diante de nossos olhos e a maioria destas mudanças estão baseadas no terror nascido do sistema no qual estamos imersos, pelo que a informação poderia significar a diferença, não se trata de saber tudo, mas de estar ciente destas alterações para fluir em consequência, seja para nos reencontrarmos como sujeitos sociais ou para seguir nos destruindo.

“Não podemos caminhar com eco-extremistas”, dizem anarquistas mexicanos

O texto abaixo é o fragmento de um artigo da imprensa publicado em 2016 onde é possível ver a opinião geral que tem os anarquistas mexicanos sobre os eco-extremistas.

Em um ponto o autor do texto foi equivocado ao mesclar ou relacionar as “libertações” de animais com os atos terroristas de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). É uma afirmação que não procede já que ITS não advoga pela “libertação animal”, embora a prática tenha feito parte das etapas anteriores de suas raízes.

À caça de anarquistas

18 de Outubro de 2016

“Salvajes” y ecoterroristas, contra universidades y trabajadores

Grupos como Individualistas Tendendo ao Selvagem, Seita Pagã da Montanha, entre outros, tem sido marcados como “anarquistas” sem que sejam.

Publicam suas “libertações” de animais (como coelhos de granja e galinhas de fazendas) em bosques descampados, e também seus atentados contra institutos de investigação e reivindicam explosões que colocam em risco a vida das pessoas.

Eu seus comunicados estas organizações repudiam o anarquismo e qualquer tipo de esperança em construir um novo tipo de sociedade ou fazer a revolução. Sobre o fato de que tenham sido relacionados com o anarquismo, Individualistas Tendendo ao Selvagem disse, por meio de seus comunicados, que isso se deve provavelmente a porque começaram enviando seus comunicados a portais de informação anarquista.

Todos os anarquistas entrevistados concordaram que os eco-terroristas e eco-extremistas –que atentaram contra a vida de trabalhadores, universitários e cientistas– não são anarquistas. “Estes grupos fazem parte daqueles que não podemos caminhar junto”.

Um Falso Escape

Tradução do escrito de Huehuecoyotl que faz duras críticas a uma das práticas mais comuns na vida civilizada, o vício.

Diferindo das críticas tradicionais o autor não apenas critica o vício em substâncias psicotrópicas que dissociam a realidade e projetam o viciado a um cenário surreal, mas se refere também ao vício em ideologias transformadoras e utopistas que colocam de lado o aqui e o agora pessimista e criam um delirante mundo fantástico que é ansiado pelos seus adictos.

A mentira chamada civilização é uma hidra; cada uma de suas cabeças busca a hora certa para morder, para matar nossos instintos selvagens e nos transformar em robôs que caminham em condição de cúmplices. Desta condição ninguém está livre de se encontrar dentro desta sociedade. Para nós eco-extremistas tudo isso é uma constante guerra interna e contínua, onde há tentativas de viver longe das práticas e dos valores sociais. Várias destas práticas são, para muitos sujeitos -até mesmo os que chamam a si mesmos de “anti-sistema”- libertadoras, quando na verdade são práticas impostas pela civilização. Neste trabalho irei me referir a uma prática social na qual um grande número de hiper-civilizados e sujeitos com “posturas anti-sistêmicas” estão imersos: a vida dentro de um vício. Estas pessoas encontram muitas razões e justificativas para levar esta vida cíclica: a diversão, uma medida contra a tristeza, a decepção, “abrir a mente”, e a que para mim é a mais desprezível; a busca pela fuga da realidade.

A realidade nos golpeia constantemente, vivemos dentro de um mundo no qual o caminho em direção à morte vai se tornando mais e mais curto de maneira rápida. Esta é a cotidianidade chata e depressiva a que uma grande parte da cidadania está presa: estresse, trabalho, família, escola, rotina, transporte, tráfego, etc. Ante todas estas dores “escapes” são buscados, algo que dê um fôlego e faça esquecer estes maus momentos. Seria um erro pensar que ditas fugas que se tornam parte de uma vida cíclica são apenas substâncias ingeridas.

A grande dominação tecnológica é um forte pilar da vida cíclica, tornou-se “normal” ver jovens que na maior parte de sua vida vão com o celular em mãos -isso literalmente-, escravos e aprisionados, fundidos a um “mundinho” virtual com amigos igualmente virtuais e uma forte dependência das redes sociais, as quais não passam nem uns minutos sequer sem revisá-las. Estes são dependentes totais dos celulares e das redes sociais -dentro disso tudo a morbidez e a opulência ditam o dia a dia-, assim caminha grande parte da sociedade, em especial, a juventude, em direção a uma vida de progresso e tecnologia. Anseiam dentro de seus aparatos celulares a “vida ideal” que querem alcançar enquanto ao redor tudo o que é vivo segue desaparecendo. Sua vida ideal se resume no consumismo desenfreado, em relações banais, uma existência onde tudo é assumido como verdade e nada é submetido a críticas. A juventude segue já perdida, são tão dependentes tanto do celular como do álcool. Não vejo nenhuma esperança no futuro. Alguns ilusoriamente pensariam que as gerações futuras ao verem a grande destruição da Natureza Selvagem refletiriam e optariam por uma vida antagônica à estabelecida dentro da civilização tecno-industrial. Eu acho isso incrível. Os “jovens” que para os estúpidos esquerdistas são biologicamente revolucionários se encontram também na condição de hiper-civilizados, levando a cabo as mesmas ações dos adultos, envolvidos em seus estudos, deixando toda sua vitalidade para o “grande” progresso da humanidade, um progresso que está a poucos passos do precipício. Se os jovens são “nossos” próximos revolucionários, a onde iria sua revolução? Ainda que os modos de produção fossem alterados a produção continuaria a durar. E esta revolução… Que revolução poderia fazer um jovem que na maioria de sua existência se encontra ligado a um aparato tecnológico? Como teria vigência a ideia do “povo organizado” se este “povo” segue acorrentado à tecnologias, e segue perpetuando o estilo de vida dentro dos cânones da tecno-indústria? Que isso não seja uma confusão, como eco-extremista não tento estabelecer uma revolução que derrube a civilização tecno-industrial como uma “resposta” ou uma “melhor” revolução. Então, por que criticar a ideia de uma revolução? Ou por que criticar os jovens que se sentem revolucionários?

Penso que em alguns jovens existe um sentimento de culpabilidade ou indignação diante das situações que eles consideram como injustiça. Então, optam por se apropriar de ideologias que propõem uma mudança…, enchem suas cabeça com ideias revolucionárias, e vivem com base em utopias, meros anseios. Isto não deixa de ser um escape da realidade, ignorando a decadente realidade presente e esperando a revolução que chegará. Vivem em seu eterno sonho. Não vejo diferenças de uma pessoa presa a algum videogame com uma outra presa à ideia da revolução. Ambas ignoram o aqui e o agora. Porque o ato de pensar em seu mundo virtual bem como em seu mundo mais justo que algum dia chegará mantém a cabeça ocupada, e no segundo caso, os “revolucionários”, cura-os do profundo sentimento de culpabilidade. Para muitos esta afirmação que aqui faço será incômoda, alarmante e indignante. Responderão eufóricos que ao contrário daqueles que se mantém dentro da realidade virtual, eles como revolucionários realmente analisam a realidade e enfrentam-na. Será isso verdade? Quão real será seu enfrentamento contra a realidade se em suas redes sociais ante os olhos de todos difundem o que fazem sem medo de serem presos? Um enfrentamento “real” contra a realidade dá possibilidades de expressar seus posicionamentos aos quatro cantos? Alguns até mesmo se põem a encher a cara enquanto permanecem “de pé em luta”. Que engraçada é a forma de enfrentar a realidade destes “revolucionários”. Nós eco-extremistas sabemos que estamos diante de um risco constante, que nossas palavras e ações são incômodas para cidadãos e autoridades. Sabemos que as forças de segurança que operam nos distintos territórios onde atentam os selvagens eco-extremistas estão atrás de nós, é por isso que nós seguimos sempre despertos, por isso que rejeitamos tudo aquilo que distorça nossa realidade, porque a aceitamos e a enfrentamos por mais deprimente que seja, é por isso que vários individualistas se propuseram a difundir seus conhecimentos sobre como sobreviver dentro da civilização. Seguimos nos mantendo fora das grades, seguimos conspirando dentro de suas urbes.

Romper com a ilusão revolucionária não é fácil, mas enquanto se vive nela se ignora a realidade presente, tudo se torna tão utópico que se esquece do agora. A revolução que promulgam jamais chegará, o humano perdeu sua condição natural e se transformou em um robô que trabalha à serviço do progresso destruidor da Natureza. Quando será que esses jovens se darão conta da ilusão em que vivem? Eu não sei, talvez seguirão toda a vida perseguindo o fantasma da revolução, porque não é nada mais que isso: uma ideia morta.

Falei daqueles acorrentados tanto ao mundo virtual como dos que se encontram arrastando as correntes do anseio. Ambos desprezíveis para mim, ambos buscando falsas saídas para a realidade existente. Outros, os que há de monte em todas as cidades, tem caído na hipocrisia de falar de posturas antagônicas à realidade com uma garrafa na mão e seu corpo infestado de substâncias psicotrópicas. Abundam, há em todas as partes, suas razões? Muitas: para escapar das dores da vida, para agigantar a felicidade, felicidade que como já disseram em diversos comunicados eco-extremistas, é totalmente falsa. Em sua condição total de hiper-civilizados, não são capazes de levar a cabo convivência alguma a não ser por meio de uma substância que altere sua percepção da realidade, uma fuga nauseante e falsa onde apenas perpetuam os modos de “diversão” que impõe a civilização. Tristes são aqueles que tentam sanar suas dores sedando-se desenfreadamente. Parece que a hidra tecno-industrial fala e de sua boca sangrando sai as palavras que ordena a seu escravo: se está triste, drogue-se! Se deseja estar feliz, drogue-se! A toda dor ou a todo desejo insaciável de diversão a civilização oferece uma grande quantidade de substâncias psicotrópicas. O triunfo total: se você quer ser rebelde, igualmente drogue-se, e com isso o feroz guerreiro que poderia se lançar a uma guerra contra a realidade terminará transformado em um escravo dócil. A hidra rindo pronuncia sua sentença: a civilização triunfou, o guerreiro já está sedado! Não há “liberdade” alguma em uma vida cíclica. Muitos ignorantes catalogarão estas palavras de moralismo, mas cairiam em um erro pensar que como eco-extremista rejeito essas substâncias por considerar que é “mal” ingeri-las. Tentarão justificar de milhões de formas, justificando suas cadeias. Estas palavras não são uma questão de moral, já que me posiciono como um ser amoral. Estas palavras nascem de um desprezo, um desprezo à vida cíclica, às substâncias e às práticas que levam a essa vida. Se sentem tão vivos quando estão tão mortos, tão dependentes de uma substância ou de uma prática que sem isso o viver se tornaria algo impossível. Não é questão de moral nem muito menos que nos espantemos e cataloguemos essas práticas como “más”, é mero desprezo a suas atividades “libertadoras” que mais são um atalho à vida cíclica. No momento, até aqui chegarão estas palavras, haverá mais tempo para ir mais a fundo na crítica à vida cíclica e as distintas formas que ela se apresenta.

Adiante críticos terroristas!

Longa vida à guerra amoral eco-extremista!

Morte à vida cíclica dos hiper-civilizados!

Huehuecoyotl

Outono de 2016

A Ovelha Negra e o Lobo

Tradução de um texto extraído do trabalho editorial espanhol Contos do Lado Negro.

Na história várias questões são tratadas, incluindo predominantemente críticas às posturas de alguns anarquistas que acreditam ser rebeldes, mas que permanecem sendo parte do rebanho. Trata sobre individualismo, Natureza Selvagem, etc…

Libertária era uma jovem ovelha negra, mas, ao contrário das outras ovelhas do rebanho, ela havia nascido de cor negra. E a cor era apenas uma de suas peculiaridades. Seu caráter também se diferenciava do caráter das ovelhas brancas. Não era tão dócil como suas companheiras. Não abaixava a cabeça e se apertava contra as demais na hora do descanso. Ela preferia ir dar caminhadas nas proximidades em vez de ficar sonolenta. E na hora de se deslocar com o rebanho ela saía à frente, já outras vezes caminhava devagarzinho ou até mesmo saía fora da trilha, fazendo com que o pastor e os cachorros se irritassem e tivessem sempre que estar correndo atrás dela para devolvê-la ao grupo. E ao retornar para o rebanho quando anoitecia ela sempre era a última a chegar e se fazia a durona vindo com má vontade, de tal modo que o pastor costumava ter de ameaçá-la a gritos brandindo por um porrete e fazendo Libertária entrar à base de empurrões e pontapés. Às vezes, se contorcia contra o pastor ou os cachorros e os ameaçava de dar-lhes uma cabeçada. Ela inclusive já havia feito isso uma vez. Outras vezes quando o pastor ficava desatento Libertária cagava e mijava encima do seu cobertor e da sua mochila, pensava sobre as coisas, e tratava de explicar às outras ovelhas que era uma injustiça o pastor não tratá-las bem como os outros animais; não acariciá-las como fazia com os cachorros, não dar a elas outra coisa para comer além de ervas que encontravam no campo ao contrário do que fazia o pastor com o gado bovino que recebia feno e cevada, não levá-las para passear ao povoado como era feito com o burro… e ao ouvi-la as outras ovelhas deixavam de pastar por um momento, levantavam a cabeça, olhavam inexpressivamente para ela e logo após voltavam a pastar, assim como faziam quando durante uma tempestade o monótono som da chuva era interrompido por um trovão distante.

Devido a todas estas características tão atípicas em uma ovelha, Libertária via a si mesma como uma rebelde e se sentia afortunada porque pensava que ela havia se libertado dos preconceitos que as demais ovelhas não podiam ver. Pensava ela ser totalmente livre.

E assim foi até que um dia quando o rebanho estava nas pastagens de verão nas terras finais de julho, Libertária, que estava andando por aí como era de costume, deu de cara com um estranho animal que estava deitado na extremidade de um grande carvalho. No começo ela o identificou como um cachorro, pois seu aspecto era como tal, e tranquilamente logo trocaram saudações entre si.

– Olá!

– E aí!

– Você está vigiando algum rebanho aqui pelos arredores? – perguntou Libertária.

– No momento não. A propósito, ovelha, você não acha que está um pouco longe do seu rebanho? Poderia se perder.

– Não pense assim – disse a ovelha se gabando – eu não sou uma ovelha convencional, sou uma ovelha negra, ando por aí livremente.

Ao ouvir isso o desconhecido soltou uma gargalhada que deixou à mostra uma boca cheia de dentes afiados e dois pares de presas. Libertária ao vê-los se assustou e, de repente, se deu conta de que aquele animal parecido com um cachorro era o que as ovelhas mais velhas e os cães do pastor chamavam de “lobo”. Ela ia sair correndo quando o lobo lhe disse com um sorriso:

– Não fuja, eu não vou te machucar, acabo de comer uma igual a você agorinha do outro lado das montanhas. Não tenho fome pelo momento.

Gostei de ti e por isso vou te ensinar algumas coisas sobre você mesma que você não sabe.

Libertária ao ver que o lobo não se movia e que realmente parecia não ter a intenção de atacá-la, relaxou um pouco e expressou interesse.

– O que você pode me ensinar que eu não saiba? – lhe contestou.

– Sou um lobo velho, não se esqueça, e se tem algo que eu sei bastante é de ovelhas, porque matei e devorei muitas em toda a minha vida.

– Certo, mas eu não sou uma ovelha normal, sou uma ovelha negra.

– Negra ou branca, não importa, no fundo ainda segue sendo ovelha. Você se orgulha de ser independente, livre… mas não é capaz de ficar muito longe do rebanho, de abandoná-lo realmente, estou errado? Você já passou algum tempo do rebanho apenas com você? Você ao menos tentou? Por que não? Nem sequer passou pela sua cabeça – olhava a Libertária com seus olhos puxados de lobo e um olhar severo, e ela se calava e abaixava o olhar em um silêncio mais do que eloquente.

– Para você é suficiente passear na hora do descanso, mas claro, sem perder as demais ovelhas nem o pastor e seus cachorros de vista, acha suficiente sair da trilha quando o rebanho se movimenta, mas sem nunca deixar de acabar indo a onde vão todas as demais ovelhas. E, em geral, você só faz isso para gerar um pouco mais de confusão e para dar trabalho aos cães e a seu mestre. Com isso você se acha livre e rebelde, mas na realidade, segue sendo escrava, segue formando parte deste rebanho cujo não pode nem quer escapar, segue sendo ovelha, rara e negra, mas ovelha no fim das contas.

Você não é nem um muflão, nem um veado, nem um cervo, nem um javali, nem uma cabra da montanha, nem uma raposa, nem um urso, nem qualquer um dos outros animais selvagens que habitam estas montanhas e que são realmente livres. Nós desprezamos os cuidados e o afeto dos mestres e a comodidade de uma vida de escravos e prisioneiros, e o que realmente apreciamos é a vida livre e selvagem que temos aqui.

Já você, no entanto, não sabe nem pode saber o que é a liberdade, e se inveja da alimentação que o teu mestre dá a suas vacas e das carícias e o apreço que dá a seus cães, porque você é tão escrava quanto eles, e sempre será, porque não é mais que uma ovelha que não quer deixar de ser ovelha e crê que é o suficiente ser negra.

Você tem de saber que, se o pastor ainda não se desfez de ti e suporta tuas extravagâncias é porque você é útil para ele. Os rebanhos de ovelhas negras e brancas são mais resistentes a doenças do que os rebanhos compostos apenas por ovelhas brancas. Este último, com o tempo, tende a se degenerar e posteriormente se extinguir. Na verdade, no outro lado das montanhas, onde a pecuária está muito mais avançada do que aqui, os rebanhos estão compostos em sua maioria por ovelhas negras e cinza porque a mescla de ovelhas de distintas cores para escurecer a pelagem de seus descendentes garante a saúde futura, a resistência e a produção do rebanho, apesar de ser menos fácil de se manejar.

E agora, volte para teus semelhantes antes que eu tenha fome novamente e me arrependa de não haver te degolado.

E Libertária de cabeça baixa retornou ao rebanho. E seguiu sendo negra, é claro; e tampouco deixou de atuar de forma excêntrica de vez em quando (ao fim das contas era uma ovelha negra e não poderia deixar de ser um pouco peculiar), mas nunca se esqueceu da verdade das palavras do lobo: as ovelhas negras seguem sem ser mais que meras ovelhas, membros do rebanho.

E=mc2

Eu e Depois Eu

Tradução de um relato de um individualista em guerra contra a civilização. Nele se fala de coletivismo, drogas, terrorismo e Natureza Selvagem. É assinado por alguém das Individualidades Antissociais Pela Queda da Civilização.

Afastei-me do rebanho, escapei de falsas amizades, de relações hipócritas de companheirismo. Cansei-me das reuniões de convivência do modo correto e normal que impõe a civilização, convivências baseadas no consumo de álcool, drogas, conversas decadentes e repetitivas, apenas para quê? Simples… Para continuar com uma relação vazia. Como individualista com tendências eco-extremistas declaro-me inimigo de qualquer droga (legal ou ilegal) que domestique meus instintos selvagens e violentos. Devo estar atento e preparado para qualquer coisa, a vida é caótica e uma vida imersa no ataque a esta civilização tecno-industrial é ainda mais caótica.

Lanço-me a uma guerra contra o meu eu, o eu de alguns anos atrás, aquele que ainda acreditava na farsa da esperança revolucionária, que depositava seu esforço físico e psicológico no despertar do povo, cansei-me de esperar a revolução, abandonei esta ideia que agora me causa náuseas. As palavras revolucionárias apenas servem para encher a boca de esquerdistas ou de algum outro anarquista faminto de atenção. Quando falo de revolução não apenas me refiro a proposta por comunistas ou anarquistas que buscam a expropriação das fábricas, das coletividades, o assembleísmo etc., também refiro-me a ideia ilusória do primitivismo. Neste ponto da história isso é apenas um sonho, algo tão utópico. Estamos em uma civilização dependente das tecnologias até mesmo para a mínima ação onde os instintos selvagens desapareceram quase por completo. Para esta civilização alheia a natureza é impossível obter esta regressão às mais primitivas formas de vida. Quando as novas tendências são o altruísmo, o apoio mútuo, o humanismo, eu cada vez me afasto do humano. Seu altruísmo hipócrita que apenas se baseia em buscar a aceitação da sociedade na qual vive “o altruísta” ou na forma mais repugnante; o altruísmo por troca de “likes”, são o pão de cada dia neste terreno. O domínio total triunfou, adolescentes destruindo seus corpos a cada dia com dezenas de vícios, com aspirações tão decadentes como ter o melhor celular, o melhor carro, o par com o melhor físico. Este é o grande progresso humano?

Amargurado? Pessimista? Sim! Impossível ser feliz neste mundo cinzento que asfixia, que mata desenfreadamente a Natureza Selvagem. “Que siga o extermínio do natural!”, gritam ferozmente os hiper-civilizados agitando a bandeira do progresso com cada uma de suas nefastas ações.

Eu e depois eu!, grito tentando acabar com minha domesticação rompendo laços de relacionamentos inúteis, lançando-me a uma guerra contra a civilização e seus escravos, contra seu coletivismo, seu altruísmo e humanismo. Morte às relações baseadas na hipocrisia, vida longa para as afinidades sinceras. Meus afins que acompanham-me nesta guerra já perdida sabem; para mim sempre será eu antes deles, e vice-versa: seus eus antes do meu eu. Assim continuaremos porque somos indivíduos amorais e egoístas.

Opinião breve de Individualidades Antissociais Pela Queda da Civilização:

Nos enteramos que na madrugada de quarta-feira, 10 de agosto, algum grupo ou indivíduo colocou um artefato incendiário na sede do Partido Revolucionário Institucional (PRI) localizado em Torreón, Coahuila. Para ser honesto, ficamos surpresos com o dito ato, já que esta cidade é um ninho de hiper-civilizados e fábrica de dominação e artificialidade, onde não são comuns os atentados desta índole.

Também na mesma quarta-feira um guarda de um carro-forte foi assassinato a tiros após uma assalto. Esse ato foi realizado pela delinquêncoa comum e de igual maneira incentivamos esses tipos de atos terroristas que implantam o pânico e a tensão na sociedade. Um ser que se preocupa mais com o dinheiro (em muitos casos, alheio) que sua própria vida, apenas merece morrer.

Pela defesa extrema da Natureza Selvagem!

Adiante pessimistas e niilistas terroristas, eco-extremistas e anarquistas anti-civilização!

Pelo ataque indiscriminado e seletivo!

Manter viva a crítica e a ação contra a civilização tecno-industrial!

Com a Natureza do nosso lado!

-Algum individualista –

-Individualidades Antissociais Pela Queda da Civilização-

Torreón, verão de 2016

Halputta

Tradução do texto do autor Bowlegs que aborda o “ataque indiscriminado” defendido pelos eco-extremistas. O contexto deste escrito é o ataque de um caiman contra uma criança de 2 anos na Disney, em 2016.

O caiman é um caçador noturno. Durante o dia, na maioria das vezes ele é visto com apenas a cabeça acima da água, descansando. Mas quando o sol se põe, ele começa a caçar. Caça indiscriminadamente, quase como uma “máquina”, dirão alguns tolos. Mas estão errados, as mandíbulas podem facilmente quebrar uma perna, ou um braço ou algo mais. Sua cauda se move rapidamente na água à procura de presas, suas poderosas garras se movem na terra, tudo isso é a força da Natureza. Caso percebe algo se movendo na costa, o espreita, o ataca, o morde, o leva abruptamente para a água, o afoga, e, finalmente, o devora. Sem se importar com o que seja. Talvez, se percebe que não é algo tão saboroso, o deixa, mas sempre ataca primeiro, morde primeiro, e então decide se consumirá ou não. O caiman faz o que caimans fazem, não pode fazer nada a mais. Todo o raciocínio do mundo não pode mudá-lo.

As aldeias que se formaram em torno das águas dos caimans sabiam muito bem como eram. Os reverenciavam, como um dos donos das águas. Os hiper-civilizados, com sua arrogância e sua ignorância, anseiam que a Natureza se curve à sua vontade. Mas são descuidados, se sentem seguros, e a Natureza outra vez ataca.

Isso ocorreu no “Reino Mágico”, no que hoje é conhecido como o estado da Flórida, nos Estados Unidos. Uma família de Nebraska, estado do interior e sem litoral, pensava em deixar seu bebê de 2 anos brincar na margem de um lago próximo a seu hotel, em torno das 21 horas. Claro, os caimans estavam caçando, e o bebê se converteu em uma presa. O pai viu o caiman agarrar o seu filho, lutou com ele, mas nada pode fazer. O caiman levou o menino, mas não o comeu. O deixou na água, afogado e morto, uma tragédia para a família jovem do interior que estava de férias na Disneylândia com o seu bebê. Os civilizados, por pura vingança travestida de “segurança” mataram o caiman, depois outro e outro, procurando o culpado, o criminoso, o animal delinquente que se atreveu a seguir com sua natureza feroz, aconteça o que acontecer. Ainda não estão seguros se pegaram o malfeitor.

Cada selvagem nestas terras sabe que não se deve estar próximo a margem a esta hora da noite, pois é o momento de se respeitar a hora do caiman, da puma, do urso, das serpentes, e outros animais que são manifestação da força e esplendor da Natureza, a Vida e a Morte. Todo o Selvagem. Mas a família “inocente” não, a família “inocente” pensava que seu filho estava em uma “banheira”, brincando em sua casa com seus bonecos. Foi um momento de alegria e relaxamento que se converteu na vingança pela escravidão da Natureza. Assim, o pai pagou o preço mais alto:

“No meio da noite, Deus matou a todos os primogênitos da Terra do Egito, desde o primogênito do faraó, que se assenta sobre o seu trono, até o primogênito do prisioneiro na cadeia…”

O eco-extremista é uma manifestação da Natureza, não tão perfeito como o caiman, é claro. É um ser rejeitado, um produto defeituoso e mal feito da sociedade tecno-industrial. Por isso não respeita suas leis, seu horário, sua ordem. Ataca como o caiman e depois se esconde na escuridão das podres urbes como um caiman se esconde na água pantanosa, sempre observando. E acima de tudo, é indiscriminado. Quando lhe aparece a presa, já era, não há remédio. Não é que não tenha “livre arbítrio”, o que francamente é uma piada. A civilização não nos dá escolha, é uma questão que ou você aceita completamente ou te classificam como um delinquente, um criminoso, um perverso. Bem, o eco-extremismo rejeita a falsa escolha do sistema tecno-industrial. A única escolha que será oferecida é o ataque, o fogo, a morte, até mesmo de “inocentes”.

Que os hiper-civilizados, até mesmo os mais progressistas ou também os “anti-autoritários”, morram de asco pensando nos atos indiscriminados dos eco-extremistas. Como os caimans, não é possível mudá-los. É uma questão de caçar ou ser presa, às vezes acontece de você ser uma, outras vezes não.

Ânimo, sempre foi assim.

Boa sorte.

-Bowlegs

kvco-hvse (junho), ano do crucificado, 2016.