Entrevista sobre Antropoceno e Crise Climática com Guy McPherson

Entrevista de Erva Daninha a Guy R. McPherson. Guy é um cientista americano, professor emérito de Ecologia e Recursos Naturais e Biologia Evolutiva da Universidade do Arizona. Agradecemos a Guy por esta entrevista conosco. Seu site é Nature Bats Last.

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Erva Daninha: Antes de mais nada, queremos agradecer pelo senhor ter aceitado participar desta entrevista, Dr. Guy McPherson. As suas investigações científicas sobre o caos climático na civilização industrial são de enorme importância ao apontar a gravidade da crise ambiental no mundo provocada pela atividade humana.

Vamos lá. Você é conhecido por defender a ideia de Extinção Humana a Curto Prazo (NTHE). Você pode nos explicar o que é a NTHE e quais são os principais indicadores ecológicos que sustentam essa teoria?

Guy McPherson: Obrigado pela oportunidade de iniciar esta conversação com você e seu público.

A Extinção Humana a Curto Prazo (NTHE) *NdT1 como resultado das mudanças climáticas abruptas refere-se ao desaparecimento precoce da nossa espécie, o Homo Sapiens. Eu estive prognosticando a NTHE por vários anos, e outros começaram a compartilhar este prognóstico de forma recente.

Os humanos são animais e, como outros animais, nossa espécie requer um habitat para sobreviver. Especificamente, os seres humanos são mamíferos vertebrados. No entanto, o ritmo projetado das mudanças climáticas, usando o índice gradual de mudança prevista pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) *NdT2, supera a capacidade dos vertebrados de se adaptar por um fator de 10.000. (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ele.12144). Os mamíferos levarão milhões de anos para se recuperar do evento de Extinção em Massa atualmente em processo (https://www.pnas.org/content/115/44/11262). Duvido seriamente que nossa espécie possa evitar a extinção, sobretudo quando os vertebrados não-humanos e os mamíferos não-humanos desapareçam.

Pelo menos sete espécies do gênero Homo já foram extintas, apesar de que nenhuma destas espécies se encontrava na Terra durante um evento de Extinção em Massa. Nós estamos no meio de um evento de extinção massiva. De acordo com o biólogo da conservação Gerardo Ceballos, principal autor de um artigo publicado em 19 de junho de 2015 na revista Advanced Science, indicando que a Terra está experimentando um evento de Extinção em Massa (https://advances.sciencemag.org/content/1/5/e1400253), “a vida levará muitos milhões de anos para se recuperar, e nossa própria espécie poderia desaparecer antes que isso aconteça”. (https://phys.org/news/2015-06-sixth-mass-extinction-declares.html). Um artigo com o mesmo autor publicado em 25 de Julho de 2017 na Proceedings of the National Academy of Sciences indica que a Terra está em um processo de Extinção em Massa bastante avançado (https://www.pnas.org/content/114/30/E6089.short).

Um artigo na publicação de Novembro de 2018 da revista Scientific Reports indica que uma elevação média de 5-6 graus na temperatura global levaria à extinção toda a vida na terra (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Esse aumento da temperatura média global é esperado logo após os oceanos do Ártico ficarem sem gelo, um evento incorretamente projetado para o ano 2016 + 3 na publicação de 2012 da Annual Reviews sobre A Terra e as Ciências Planetárias (https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev-earth-042711-105345). Apesar desta projeção incorreta, um Ártico sem gelo aparece no horizonte próximo.

As viagens comerciais aéreas representam uma ameaça existencial para toda a vida na Terra. De acordo com um artigo publicado na revista Atmospheric Chemistry and Physics de 27 de Junho de 2019, apenas os rastros dos aviões poderiam eliminar o habitat da maioria, senão de todas as formas de vida sobre a terra, ao interromper os padrões da circulação atmosférica (https://www.atmos-chem-phys.net/19/8163/2019/). Esta conclusão é apoiada por um estudo publicado on-line em 12 de Dezembro de 2019 na Earth and Space Science Open Archive (https://www.essoar.org/doi/10.1002/essoar.10501296.1).

A resposta padrão à atual crise climática é recomendar a redução das emissões de gases do efeito estufa. No entanto, a atividade industrial reduzida se traduz em uma redução abrupta dos aerossóis atmosféricos. Estes aerossóis refletem a radiação solar recebida, mantendo a Terra mais fria do que seria sem esses gases. Investigações sobre o efeito de resfriamento destes aerossóis apareceram na literatura científica sob revisão por pares desde 1929 (Angstor, 1929, “Sobre a transmissão atmosférica da radiação solar e sobre a poeira no ar”, Geografiska Annaler, 11, 156–166). A redução de apenas 20% da atividade industrial levaria a um aumento de 1 grau na temperatura global média em questão de semanas (Rosenfeld et al 2019, https://science.sciencemag.org/content/363/6427/eaav0566, e https://www.sustainability-times.com/environmental-protection/research-cooling-from-atmospheric-particles-may-mask-greater-warming/).

Erva Daninha: A conhecida ativista e escritora Naomi Klein, ao contrário de muitos negacionistas climáticos, argumenta que a atividade humana está intimamente relacionada à crise climática; no entanto, ela concentra a maior parte de seus esforços na pintura do capitalismo como o grande vilão do meio ambiente. Ocasionalmente, Naomi também critica o “socialismo industrial” de algumas nações, mas na maioria das vezes ela defende a mesma tese repetida pela grande maioria dos esquerdistas e ecologistas de todo o mundo: “se eliminarmos o capitalismo, tudo ficará bem”. Dr. Guy, acreditamos que suas críticas são mais amplas, elas visam o complexo industrial global e não apenas um tipo específico de ordem social. Por que você acha que a sociedade tecnológico-industrial global é o problema real e não apenas o capitalismo?

Guy McPherson: Como Tim Garrett apontou com base em extensas pesquisas, a civilização é uma máquina de calor (https://faculty.utah.edu/u0294462-TIM_GARRETT/research/index.hml). Em outras palavras, esse agrupamento de estruturas e seres vivos produz calor. Pouco importa como a civilização industrial opera. Os painéis solares e turbinas eólicas aquecem o planeta de igual maneira como a queima de combustíveis fósseis. A civilização está nos levando a um clima ao estilo do Plioceno que poderia chegar em 2030 (de acordo com um artigo da Proceedings of the National Academy of Sciences publicado em 26 de Dezembro de 2018, que se apoia no fortemente conservador Representative Concentration Pathways do IPCC, https://www.pnas.org/content/115/52/13288.short). Não consigo imaginar que humanos e outros mamíferos vertebrados sejam capazes de sobreviver a uma taxa tão alta de mudanças. Ainda sim, como apontei acima, desacelerar ou deter a civilização aqueceria o planeta ainda mais rápido do que se a mantivéssemos em pé.

Erva Daninha: Entre muitos outros cenários, temos destacadas as visões utópicas e esperançosas defendidas por Naomi Klein em relação ao ecossocialismo como uma alternativa para “salvar o mundo” de uma catástrofe ecológica e temos também a delirante “revolução primitivista” contra a civilização industrial apoiada por anarquistas como Kevin Tucker e John Zerzan. Em sua opinião, quão eficientes esses sistemas seriam quando o censo global prevê quase 10 bilhões de pessoas no planeta para 2050? Vivemos em um planeta finito com recursos limitados e a maioria desses recursos já desapareceram; mesmo uma mudança radical em direção a um sistema supostamente sustentável exigiria outras fontes massivas de energia, especialmente vinculadas a atividades de transporte ou para a produção de alimentos e, mesmo em casos mais extremos, como os da “utopia primitiva” defendida por alguns anarquistas, atividades em massa como alimentação e moradia, ou o que quer que seja, teriam um enorme impacto ambiental.

A natureza tende a exercer um controle auto-regulador sobre as espécies da Terra para impor uma coexistência orgânica, algo que alguns chamam de cascata trófica, mas a nossa espécie escapou disso e usou a tecnologia moderna a seu favor para superar o controle populacional imposto pela natureza manipulando o meio ambiente e expandindo-se para além de seus limites, enquanto consome a natureza indiscriminadamente e destrói grande parte dos recursos limitados da Terra, unicamente a benefício próprio. Você não acredita que exista uma superpopulação no mundo e que nossa cultura moderna seja alienada e decadente e que, dada a quantidade de bilhões de pessoas no mundo, qualquer proposta para criar uma sociedade global sustentável seria falha?

Guy McPherson: Como indiquei acima, duvido seriamente que sobreviveremos até 2030, muito menos até 2050. Uma população excessiva de humanos está consumindo excessivamente materiais finitos por um tempo excessivo. Superamos severamente o número sustentável de população humana sobre a terra.

Erva Daninha: Você afirmou em várias ocasiões que o IPCC é bastante conservador em suas estimativas. O senhor acredita que exista algum tipo pacto de conduta nessas entidades ou na própria comunidade científica que estabeleça um padrão de comportamento para evitar alarmes com impacto na economia ou na própria sociedade? Por exemplo, aqui no Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou dados alarmantes corroborados pela NASA sobre o aumento drástico do desmatamento na floresta amazônica no ano de 2019, e esta ação resultou na demissão de Ricardo Galvão, diretor da agência, a pedido do presidente Jair Bolsonaro. Acreditamos que, embora alertem sobre a crise climática, estas entidades e a maioria dos cientistas operam dentro da mesma lógica que a da cultura da civilização industrial-tecnológica e defendem a manutenção dessa lógica que, em teoria, seria a essência do caos climático, então, talvez por ordem dos governos (como foi o caso no Brasil), ou por iniciativa própria, as instituições manejam seus dados com precaução para não expor a inviabilidade dessa ordem social ecocida. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: O IPCC usa uma abordagem muito conservadora para desenvolver as suas avaliações. Os cientistas dentro dos grupos de trabalho geralmente recorrem à relutância ao tirar suas conclusões. Depois que uma avaliação é preparada por cientistas conservadores, exigidos pelo IPCC para obter consenso, essa avaliação é enviada aos governos para uma revisão. Como você pode imaginar, os governos do mundo estão interessados principalmente em sustentar o crescimento econômico. “Salvar o mundo” não está na sua agenda.

Erva Daninha: Recentemente, um cientista brasileiro revelou que a Antártica atingiu uma temperatura surpreendente de 20º C, algo que “nunca foi visto antes”. Tais temperaturas são drásticos exemplos do aquecimento global. As consequências do aumento da temperatura nesses ambientes congelados já são bem conhecidas, o aumento do nível do mar é amplamente discutido na comunidade científica, mas os efeitos do derretimento não se restringem a apenas isso. A revista Nature já publicou um estudo no qual afirma que a Antártica está possivelmente retendo quantidades colossais de gás metano produzido ao longo de milhares de anos dentro de sua camada de gelo e que, se esse gás fosse liberado, teria um impacto agressivo no efeito estufa. O mesmo vale para o Ártico com permafrost, onde a situação é talvez ainda mais grave, pois o solo do Ártico não está mais congelado. Estudos indicam que o permafrost contém o dobro da quantidade total de carbono atualmente na atmosfera da Terra, e que um vazamento massivo desse material seria catastrófico para a vida na Terra, podendo até causar uma extinção em massa como a do período Permiano-Triássico. Você acredita que o efeito da “arma de clatratos” poderia realmente colocar em risco a maior parte da vida na Terra até 2040?

Guy McPherson: Não só eu concordo, como também o renomado cientista climático James Hansen que discutiu esta possibilidade. Um artigo de 2017 revisado entre pares por Hansen e seus colegas, indicava que a Terra se encontrava em suas temperaturas mais altas desde a existência da nossa espécie (https://arxiv.org/abs/1609.05878). De fato, as emissões de metano provenientes do fundo do gelo e também as emissões de metano que saem do derretimento do permafrost representam dois dos sete meios pelos quais o planeta poderia aquecer muito rapidamente, destruindo o habitat para os seres humanos (https://weeklyhubris.com/seven-distinct-paths-to-loss-of-habitat-for-humans/).

Erva Daninha: Em 2014, em uma entrevista à Russia Today, citando um estudo do cientista climático Tim Garrett, você disse que apenas o colapso total da civilização industrial poderia impedir mudanças climáticas descontroladas. Por razões lógicas, uma solução baseada nessa premissa nunca virá de nenhum governo ou instituição como a ONU. Pelo contrário, o fraco Acordo de Paris já foi abandonado pelos Estados Unidos, o maior emissor de gases de efeito estufa de toda a história, e o Estado brasileiro também mostrou sinais de sua intenção de abandonar o acordo. Estudos como o da Universal Ecological Fundation já apontaram que o acordo não será suficiente para limitar o aumento da temperatura entre 1,5º C e 2º C em relação aos níveis da era pré-industrial. Avaliações como a sua indicam a possibilidade de um aumento superior a 3,5º C em um curto período de tempo. A interrupção das atividades industriais é impensável no mundo moderno, pois isso significaria negar a própria lógica na qual a maioria dos países estão inseridos. No entanto, isso não significa que cenários como esse sejam impossíveis de serem alcançados, apenas não através da ação de governos, claro.

No final do ano passado, os rebeldes houthis atacaram a maior refinaria de petróleo do mundo na Arábia Saudita com drones, interrompendo metade da produção do reino, que fornece 10% de todo o petróleo consumido no mundo. Embora extremo, este é um exemplo real da interrupção abrupta de uma atividade que é prejudicial ao meio ambiente. Grupos como os Vingadores do Delta do Níger também causaram danos catastróficos à produção de petróleo em países como a Nigéria. Estudos publicados pela revista Science Advances também concluíram que a guerra no Oriente Médio fez com que a poluição diminuísse em algumas áreas da região, porque os níveis de atividade industrial diminuíram e as atividades da vida urbana, como dirigir, foram afetadas. Deixando de lado todo o julgamento que poderia implicar esse tipo de ação e considerando o fato de que são necessárias ações urgentes para interromper a atividade industrial e os governos nunca as oferecerão, você considera que há eficiência prática nesse tipo de ação para interromper as emissões de poluentes ou destruição do meio ambiente no mundo? Repito, pergunto de uma perspectiva puramente prática, deixando de lado o julgamento sobre se é legal ou ilegal.

Guy McPherson: Consulte as informações anteriores sobre o efeito do Escurecimento Global.

Erva Daninha: Dr. Guy, o mundo está atualmente enfrentando uma pandemia do COVID-19, uma das mais catastróficas dos últimos tempos. A atenção está praticamente toda focada nos danos econômicos causados por essa situação, fala-se muito de uma nova recessão econômica no mundo e de uma crise financeira global semelhante à de 2008, mas pouco se fala sobre os benefícios dessa pandemia para o meio ambiente. Você mesmo disse que a interrupção total das atividades industriais são os eventos mais benéficos que podem contribuir para o não aumento da temperatura global e é exatamente isso que esta doença está causando.

Na China, houve uma grande paralisia das atividades econômicas e a redução de gases poluentes foi enorme e abrupta. Em fevereiro deste ano, a concentração desses gases foi 25% menor em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Center for Research on Energy and Clean Air. Na Itália, com o turismo reduzido a zero, as águas do Grande Canal de Veneza pareciam melhores e a qualidade do ar melhorava na área, segundo a prefeitura. Dados do satélite Sentinel-5P do programa Copernican da Comissão Europeia em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA) mostraram que, em termos gerais, a poluição teve uma forte queda na Itália, especialmente na região norte do país, que foi a mais afetada pelo vírus. Certamente, o mesmo se repete em várias regiões do planeta, e não apenas porque as atividades industriais foram paralisadas ou reduzidas, mas também porque o turismo, o transporte e muitas outras atividades diárias da civilização tecnológico-industrial cessaram.

Com base nisso, como você vê esses grandes desastres e seus benefícios ambientais? Acreditamos que eles contribuem para conter a crise climática global e indicam que, para o planeta, nosso estilo de vida civilizado é tão ruim quanto uma pandemia é para nós. Também pensamos que os desastres podem funcionar como uma catarse auto-reguladora da terra, tentando desmantelar o estilo de vida moderno e prejudicial e a grande civilização tecno-industrial.

Guy McPherson: Na verdade, revi minha avaliação sobre os horrores da civilização industrial, conforme observado acima. A civilização industrial intoxica o ar, suja as águas e enche os mares de óleo. A civilização industrial é uma praga para o planeta vivo. No entanto, partindo da perspectiva das mudanças climáticas, manter a civilização ajuda a sustentar o habitat dos seres humanos na Terra. Na nossa ausência, as plantas nucleares do mundo entrariam em colapso catastroficamente, deixando assim o planeta banhado em radiação ionizante. Suspeito que um evento destas características destruiria o habitat para todas as formas de vida na Terra em poucas gerações depois que as mutações letais começassem.

Erva Daninha: Atualmente vemos o surgimento de um “Green New Deal” global através de novos movimentos como o Extinction Rebellion e o Movimento Sunrise e também por ativistas climáticos como Greta Thunberg. Para os pouco informados, parece algo novo, mas o mesmo aconteceu em tempos passados com várias ONGs, com ênfase no Greenpeace, que ao longo dos anos reduziu suas atividades a performances pacíficas a serem registradas e disseminadas nas mídias sociais, campanhas para assinar petições para o governo e uma intensa atividade de greenwashing para promover o consumo supostamente sustentável.

Hoje as grandes eco-organizações do passado estão promovendo um discurso de mudança individual para mudar o mundo, o famoso ativismo “faça a sua parte”, uma vez que foram aceitas e incorporadas na própria lógica do sistema que criticaram, como é o caso o caso do Greenpeace, que fez pactos com empresas de exploração petroleira e da área madeireira e pesqueira, além de algumas outras. O Extinction Rebellion tem uma aparência muito jovem e atraente, o movimento atrai muitas pessoas para gritar contra líderes globais e exigir mudanças nas políticas ambientais em todo o mundo, respeitando os limites que a ordem lhes impõe e, indiretamente, usando a mesma lógica à qual se opõem e esperando dos líderes globais as tão esperadas mudanças nas políticas ambientais, os mesmos líderes que demonstram que são incapazes de cumprir acordos básicos como o de Paris. Você não acha que há ingenuidade nesses movimentos e que, em vez de abordar a raiz do problema, eles indiretamente defendem reformas e perpetuam a civilização industrial destrutiva? Se eles não estão lutando pelo fim da sociedade industrial, mas pela existência de uma “sociedade industrial melhor”, essa luta não seria um grande problema e um mero greenwashing?

Guy McPherson: Estes movimentos são excepcionalmente ingênuos. Como indiquei acima, a civilização industrial é uma máquina de calor, mas diminuir ou parar a civilização industrial aqueceria o planeta muito rapidamente. Isso representa um clássico Ardil 22 *NdT3.

Erva Daninha: Um relatório da ONU divulgado no ano passado, provavelmente conservador em termos numéricos, disse que um milhão de espécies de animais e plantas estão em risco de extinção. A principal causa indicada pelo relatório é a agricultura industrial, a poluição e o aquecimento dos oceanos. Muitos cientistas apontam para o mesmo. Você também acredita que estamos atualmente enfrentando a sexta extinção em massa? Esta seria a primeira extinção em massa causada pela espécie humana, certo? Antropoceno seria um termo adequado?

Guy McPherson: A terra se encontra no meio da Sétima Extinção em Massa. Passamos muito tempo acreditando que estávamos na Sexta Extinção em Massa, mas um artigo publicado na revista Historical Biology em 5 de Setembro de 2019 indica um evento de Extinção em Massa anteriormente desconhecido (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08912963.2019.1658096). Deixando esse pequeno ponto de lado, a atual evento de Extinção em Massa é comumente denominado Extinção em Massa do Antropoceno, porque é resultado das atividades humanas (principalmente, da civilização industrial).

Erva Daninha: O estudo de Mark Boyce publicado no Journal of Mammalogy sobre a experiência de reintroduzir lobos no Parque Nacional de Yellowstone reforçou o que muitos já sabiam, a natureza é interconectada e interdependente com as espécies que vivem nela, sejam animais, plantas, fungos, o que quer que seja. Se um único animal desaparece para sempre, toda a cascata trófica é desestabilizada e as consequências podem ser incomensuráveis.

Atualmente, todos os biomas terrestres estão ameaçados pelo avanço da civilização e a velocidade com que as espécies são extintas é mil vezes superior ao normal, segundo um estudo da University College London. Essa extinção massiva põe em perigo a vida não apenas das espécies, mas também dos próprios biomas. O bioma marinho, talvez o mais importante para a vida na Terra, está desaparecendo rapidamente. Os insetos vitais para os ciclos terrestres, como os polinizadores, também morrem em quantidades catastróficas. Você acha que essa enorme onda de extinção pode atingir a própria espécie humana em algum momento?

Guy McPherson: Várias outras espécies do gênero Homo foram extintas. De fato, todos os indivíduos morrem e todas as espécies se extinguem. O artigo revisado por pares de 13 de Novembro de 2018 na Scientific Reports indica que toda a vida na Terra se extinguirá com os aumentos de temperatura prognosticados para o futuro próximo, principalmente como resultado de co-extinções (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Em outras palavras, espécies como a nossa, que dependem de outras espécies para sua própria existência, enfrentam um risco existencial especificamente porque dependem de outras espécies. O atual apocalipse de insetos, o ritmo acelerado das mudanças climáticas, etc. A união interdependente de tantas formas de vida na Terra garante a nossa extinção a curto prazo.

Erva Daninha: Às vezes você é apontado na comunidade científica e em círculos ecologistas como alguém tremendamente pessimista e sem esperança. Nós pensamos em você como alguém que é apenas realista e bem informado. Na verdade é a própria realidade pessimista e cheia de más notícias para o futuro da humanidade. No ano passado, um texto chamado A esperança é um erro e uma mentira foi publicado em seu site, no qual você destrói o comportamento esperançoso sobre o futuro de nossa espécie. Dr. Guy, você não acha que há uma dificuldade amarga na comunidade científica, e entre militantes e ativistas, normalmente anarquistas e esquerdistas, de aceitar a realidade sobre o nosso futuro e entender o fato de que dias melhores nunca virão?

Nós em particular, somos bastante realistas (e também pessimistas) sobre o futuro de nossa espécie e acreditamos que, como seres humanos, traçamos nosso próprio fim e que colheremos as consequências da estrutura ecocida que os homo sapiens ergueram. Isso nos permite lidar com a realidade da maneira mais dura, fria e necessária. Ativistas ingênuos gritam para seus líderes políticos adotarem novas políticas ambientais, anarquistas e esquerdistas já parecem saber que não há saídas, mas eles preferem negar isso com todas suas forças e se apegam a sonhos utópicos confortáveis que não podem ser alcançados. A esperança é como uma droga e este perfil de pessoas é viciado, não podem aceitar os dias sombrios que estão por vir, então correm em círculos, porque renunciar à esperança seria renunciar à própria humanidade e a tudo o que ela criou até hoje. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: A sociedade adotou a ideia de que a esperança é universalmente boa. Eu acreditei nisso por um longo tempo, então busquei a definição no dicionário. Como você indicou, prefiro a realidade dura a submergir-me em delírios que dificilmente serão alcançados, e a esperança é uma versão destes pensamentos inalcançáveis.

Erva Daninha: Dr. Guy, o que você acha da perspectiva antropocêntrica de se enxergar as coisas? Esse tipo de pensamento que coloca o ser humano no centro de tudo e lhe dá mais importância do que as outras espécies está presente mesmo nas escolas contemporâneas de pensamento que apresentam uma crítica ecológica radical, como é o caso do eco-anarquismo.

Acreditamos que o ser humano é apenas mais uma espécie dentre as milhares que existem, e que talvez nem seja tão importante. O ciclo vida-morte está omnipresente na natureza e faz parte da trajetória de qualquer ser vivo; os seres nascem e morrem o tempo todo. O ser humano moderno nega a morte e sempre busca prolongar a sua existência. Não é errado dizer que a evolução da medicina, especialmente a medicina moderna, que proporcionou aos humanos tanta longevidade, fez com que burlassem a seleção natural e se expandissem em um ritmo muito acelerado. Hoje, as técnicas de biotecnologia e nanotecnologia flertam com a imortalidade. Acreditamos que esse tipo de pensamento também influenciou a capacidade da humanidade de alcançar um maior grau de ecocídio na Terra e é a base dos valores que apoiam as civilizações. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: Estou completamente de acordo. O Homo Sapiens representa uma espécie entre milhões que ocupam a Terra. Criamos as condições ambientais contrárias à continuação da vida neste maravilhoso planeta. Nós nos esforçamos para alcançar a imortalidade a nível individual e a nível de espécie. Pelo contrário, a aceitação da própria morte é um presente cheio de paz. O mesmo sentimento mantém sua veracidade ao nível da espécie.

Erva Daninha: Dr. Guy, existe a possibilidade de que o aquecimento global possa revelar ao mundo algo tão sério quanto a atual pandemia de coronavírus? Notícias recentes mostraram que o derretimento no Ártico e em outras regiões congeladas estava resultando no reaparecimento de bactérias e vírus considerados extintos e também tinha a possibilidade de liberar bactérias e vírus pré-históricos de capacidade patogênica desconhecida. A revista Scientific Reports já publicou que o derretimento do gelo no Ártico liberou um vírus normalmente encontrado no Atlântico que contaminou lontras marinhas no Alasca. Acreditamos que os super-microrganismos patogênicos poderiam, através do derretimento nos polos extremos da terra, alcançar as costas de vários países e iniciar infecções por pandemia, como ocorreu com o coronavírus na China, que poderia ter começado em um mercado de frutos do mar. Com base na sua experiência como pesquisador, você acredita que essa possibilidade é real?

Guy McPherson: Há poucas dúvidas sobre as interações entre as mudanças climáticas e o COVID-19. As mais importantes são (1) a potencial redução do efeito do Escurecimento Global à medida que as indústrias desaceleram, e (2) o reaparecimento de muitos vírus como resultado do derretimento do gelo (acelerado pelas mudanças climáticas). 28 novos grupos virais foram encontrados recentemente em uma geleira que estava derretendo (https://www.popularmechanics.com/science/health/a30643717/viruses-found-melting-glacier/). O novo coronavírus atualmente nos noticiários é a primeira de muitas dessas dificuldades que vamos enfrentar.

Erva Daninha: Uma pesquisa da revista Science Advances in Atmospheric Sciences revelou que 2018 foi o ano mais quente já registrado para as temperaturas dos oceanos desde o início do monitoramento. Muitas pessoas afirmam erroneamente que as florestas são os “pulmões da terra”. Embora importantes para a produção de oxigênio, absorção de carbono e regulação do clima, as florestas não produzem a maior parte do oxigênio do mundo, os oceanos produzem. O que acontece é que, com o aquecimento global, as temperaturas nos oceanos estão aumentando, uma vez que mais ou menos 93% de todo o calor das mudanças climáticas é absorvido pelos oceanos.

Os biomas e a fauna marinha são extremamente sensíveis às mudanças climáticas, e não são apenas as mudanças climáticas que atacam os mares, mas também a poluição (incluindo a poluição sonora de barcos e submarinos), a pesca industrial, o turismo etc. Os oceanos do mundo estão em uma situação muito delicada e, ao contrário de uma reserva ecológica terrestre, onde a destruição humana pode ser facilmente controlada e com grande esforço, revertida, o que acontece nos mares é que as ações de mitigação estão fora de controle. Embora possível, não é fácil “plantar” corais marinhos, plantar grama não é o mesmo que “plantar algas”, embora existam experiências bizarras de geoengenharia que proponham isso (o que poderia ser mais desastroso do que eficiente). Que diagnóstico você faria da situação dos oceanos globais e o que pode acontecer se eles continuarem a perder a vida marinha?

Guy McPherson: Nós somos produtos do oceano. Todas as formas de vida dependem do oceano. Paul Watson, autor e fundador da Sea Shepherd Conservation Society, afirma da melhor forma: “Não podemos viver neste planeta com os oceanos mortos. Se os oceanos morrem, nós morreremos”. Estamos no meio de um evento global de “branqueamento de corais”, o terceiro na história. Também é o terceiro desde 1998. A desoxigenação é um problema urgente para os sistemas marinhos atualmente. Eu apresentei evidências abundantes na literatura revisada por pares: https://guymcpherson.com/2018/12/ocean-deoxygenation-as-an-indicator-of-abrupt-climate-change/

Erva Daninha: No ano passado, um estudo pouco confiável da revista Science afirmou que para limitar o aumento da temperatura global a 1,5º C (meta do Acordo de Paris) seriam necessários 1,2 trilhão de novas árvores em todo o mundo, e o estudo defendeu o plantio indiscriminado de árvores para absorver e reduzir o excesso de dióxido de carbono na atmosfera da Terra. Achamos que o estudo não é confiável, pois apresenta apenas a quantidade como solução, sem pensar na complexidade do processo e em seus efeitos colaterais. O plantio indiscriminado de árvores, de acordo com o que lemos na literatura científica, como a análise do brasileiro Gerhard Overbeck, que confrontou uma proposta como essa do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique publicada no artigo The global tree restoration potential (O potencial global de restauração de árvores); pode ter consequências ambientais. Do nosso ponto de vista, plantar árvores indiscriminadamente parece irresponsável e inconsequente. A natureza é complexa, auto-reguladora e interconectada, a natureza não é apenas quantidade, mas complexidade. Os biomas não podem ser gerados abruptamente e, a longo prazo, o plantio massivo de árvores também pode trazer consequências ambientais, como o esgotamento das reservas de água subterrâneas, migrações ou extinções de espécies de animais e plantas, etc. O que você acha dessa proposta de cultivo massivo e plantio indiscriminado de árvores para reduzir a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera da Terra?

Guy McPherson: Esta ideia é terrível. Escrevi a respeito aqui: https://guymcpherson.com/2020/02/can-trees-sequester-enough-carbon/

Erva Daninha: Theodore Kaczynski, mais conhecido como Unabomber, escreveu uma vez um texto chamado “O Navio dos Tolos”. O texto é metafórico e muito inteligente, coloca o “navio” como nossa civilização e a tripulação como figuras sociais que mais se destacam em reclamações públicas. Na história, o capitão do navio, que representa líderes políticos no mundo real, é uma pessoa muito vaidosa e confiante, assim como a tripulação, então eles decidem loucamente viajar em águas turvas, em direção a perigosos icebergs. No texto, o capitão, apoiado por sua tripulação, lidera o navio, que simboliza a civilização, em direção a águas cada vez mais perigosas, algo que poderia facilmente resultar no naufrágio do barco se ele colidisse com icebergs. As águas perigosas no texto simbolizam claramente o rumo errado que nossa espécie está tomando, e os icebergs seriam o fim, a extinção. No conto, enquanto o capitão dirige o barco em direção aos icebergs, a tripulação começa a reclamar de vários problemas no navio. Há o membro da tripulação pobre que reclama de ganhar pouco, há a membra da tripulação feminina que reclama da desigualdade entre homens e mulheres no barco, há o membro da tripulação imigrante que reclama da desigualdade no tratamento de estrangeiros, há o membro da tripulação que é um índio que reclama que os brancos roubaram suas terras e é por isso que ele acabou naquele navio e nem deveria estar ali, há o membro da tripulação gay que reclama que ele é discriminado por suas preferências sexuais, há o membro da tripulação que é vegano e queixa-se de que os animais no barco estão sendo maltratados, há o membro da tripulação que é professor universitário e um tipo de intelectual que defende e apoia todas as queixas anteriores, e há também outro tripulante, um indivíduo que é ignorado por todos os anteriores e que diz que, embora todos se queixem do que os incomoda, o navio está indo em direção a icebergs e isso poderia matar a todos eles muito em breve. À medida que a história continua, as queixas continuam e o capitão atende a cada uma delas pouco a pouco, concedendo mais direitos para interromper os protestos e acalmar os ânimos. O mesmo cenário é repetido algumas vezes e o capitão sempre consegue acalmar a sua tripulação, concedendo-lhes um pouco mais de direitos, mas sem nunca mudar o rumo do barco. No final da história, todos estão mais ou menos satisfeitos com suas realizações, que não são grandes, mas são importantes de qualquer maneira, e de repente o barco colide com um imenso iceberg e todos morrem.

Dr. Guy, acreditamos que não é preciso muito esforço para entender que essa história reflete perfeitamente a situação crítica do mundo, com a grave crise ecológica em andamento, líderes políticos demagogos, movimentos sociais e suas queixas, e aquele 1% que percebe a delicada situação em que estamos e tenta alertar sobre o ecocídio ou agir à sua maneira contra a catástrofe climática. Você acredita que esse conto reflete lucidamente a realidade do mundo e os movimentos sociais existentes?

Guy McPherson: Sim, sem sombra de dúvidas. Kaczynski esteve a frente de seu tempo.

Erva Daninha: O respeitável cientista brasileiro Antonio Donato Nobre publicou em 2014 um relatório chamado O Futuro Climático da Amazônia, que destaca que, devido ao desmatamento e degradação, a floresta amazônica pode estar próxima do que ele chama de “ponto sem retorno”, quando não é mais capaz de se regenerar por conta própria e começa a se mover em direção à desertificação total. Desde então, seis anos se passaram e o desmatamento se intensificou consideravelmente, principalmente após a eleição de Jair Bolsonaro e a gestão de Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente. Em outras florestas tropicais da Ásia e da África, o desdobramento é o mesmo, há intenso desmatamento, de acordo com alguns relatórios científicos. As florestas tropicais são extremamente importantes no mundo, pois ajudam a regular o clima e o ciclo das chuvas; portanto, se essas florestas desaparecerem, as chuvas também poderão desaparecer e uma infinidade de ecossistemas seriam afetados e, talvez até extintos. Dr. Guy, você acha que existe a possibilidade de que, a curto prazo, possamos ver um processo severo de desertificação no planeta? Esse fenômeno já está ocorrendo no mundo, inclusive aqui no Brasil, especialmente nas regiões nordeste e norte do país, mas você acha que as florestas tropicais do mundo podem atingir o “ponto de não retorno” e colapsar e tornarem-se desertos, como defende o Dr. Antonio Donato Nobre?

Guy McPherson: A atual exploração da Amazônia é um emblema de nossa corrida à ganância. Existem muitos exemplos de florestas transformadas em desertos pelos humanos “civilizados”. O exemplo da Amazônia é uma continuação de outros exemplos anteriores no Crescente Fértil, grande parte do Oriente Médio e o Norte da África, e assim por diante. Em vista destes exemplos, podemos esperar um resultado terrível para a Amazônia.

Erva Daninha: Dr. Guy, um estudo da Rights and Resources Initiative (RRI), Woods Hole Research Center (WHRC) e World Resources Institute (WRI) indicou que as reservas indígenas detêm 24% do carbono armazenado na superfície terrestre. Os povos nativos têm perspectivas de existência distintas da nossa e uma relação diferente com a terra, por isso a preservam, a preservam porque a consideram sagrada e porque é dela que obtêm sua comida diretamente, da caça, coleta e baixa agricultura. A preservação é apenas uma consequência, uma consequência bonita e inteligente.

Acreditamos que há uma crise cultural dentro da civilização, especialmente com a chegada da modernidade ultratecnológica e cibernética. Nossa dieta, padrões de sono, cacofonia, rotina repetitiva, tipos de trabalho, pressão da família, trabalho ou sociedade, super e subproteção familiar, sedentarismo, obesidade, câncer, epidemias e pandemias, “infocalipse”, isolamento social nas redes sociais, confinamento, artificialização de tudo, poluição visual, o acinzentado das cidades, velocidade com o que tudo passa (dias, informações, pessoas, etc.), mudanças climáticas que influenciam em nossa disposição, controle social, vigilância, pornografia, publicidade, tendências, traumas, abusos, drogas, ideologias, abstração, perda de identidade, perda de raízes, liquidez de relacionamentos sociais, familiares e amorosos, violência, polícia, prisões, guerras, doenças psicológicas, distúrbios, ansiedade, depressão, suicídio, medo. Acreditamos que boa parte de todos esses problemas advém da vida civilizada e de seus valores, crenças, rotinas e comportamentos, principalmente da vida moderna, e que esses problemas só pioram com o passar dos anos e, possivelmente, alguns deles podem reincidir mesmo no cenário de alguma sociedade socialista, vegana, anarquista ou permacultural. Não sabemos se você já reparou nisso, mas quando caminhamos por uma floresta e sentimos a sua serenidade, o cheiro de terra molhada, o barulho dos animais, tudo parece estar bem, como se fosse terapêutico. Talvez seja a informação antiga contida em nosso DNA que traz de volta as memórias da vida ancestral na floresta. Alguns de nós somos descendentes diretos de tribos nativas e quilombolas ou temos fortes laços com o que resta dessas culturas ancestrais e sentimos que a solução para o ecocídio global e a crise cultural na civilização não é pensar no futuro, mas olhar para trás, ao nosso passado, ao modo de vida ancestral, em suas respeitosas relações com a terra, razão pela qual os povos indígenas preservam suas reservas e, consequentemente, elas podem absorver o carbono. Não somos ingênuos, não romantizamos povos tribais e muito menos cremos em um “futuro primitivo” como aquele pregado por anarquistas como John Zerzan e Kevin Tucker, nem achamos que seria saudável para qualquer ecossistema que uma grande parte da população mundial mudasse seu estilo de vida para um modelo primitivo para “salvar o mundo”. Com o número de humanos que existem hoje na Terra, acreditamos que nenhum modelo seria sustentável a longo prazo. O que acreditamos é que, em outra realidade (atualmente existente) longe da civilização e da sociedade de massas, a sabedoria e o modo de vida dos povos ancestrais realmente demonstram a possibilidade de coexistência a longo prazo com a natureza, onde há um futuro não apenas para o ser humano, mas para todas as outras espécies. Certamente, não é isso que o atualmente o futuro reserva para a espécie humana. Mas, independentemente do fim que está se aproximando, o que você acha dessa ideia de olhar para trás, para os tempos ancestrais e não para o futuro?

Guy McPherson: Coincido absolutamente. Muitas sociedades pré-civilizadas aprenderam e praticaram a sustentabilidade muito mais que os humanos contemporâneos, como observou Turnbull (The Forest People [1961], The Mountain People [1972]) e Quinn (Ishmael [1992], Beyond Civilization [1999]). Um exemplo clássico e muito citado é o da Confederação dos Iroqueses tomando decisões depois de considerar o impacto que teriam em sete gerações no futuro. Padgett nos fornece uma análise baseada na educação em 2018 (“Sustainability of Education: An Ecopedagogical Approach,” Journal of Sustainability Studies 1(1), Article 5, https://ir.una.edu/sustainabilityjournal/vol1/iss1/5). Claramente, o aprendizado era uma parte importante na vida cotidiana da Confederação dos Iroqueses e de outras sociedades pré-civilizadas. Pelo contrário, as evidências apresentadas aqui indicam que os humanos contemporâneos não aprenderam a praticar ações sustentáveis.

Erva Daninha: Guy, você diz que frear a civilização industrial abruptamente levaria à morte imediata de toda a vida humana na Terra, e talvez de toda forma de vida. Mas deixá-la continuar terá as mesmas consequências, vinte ou trinta anos mais tarde. Então… o que deveríamos fazer? O que você propõe? Qual é a sua postura pessoal a respeito?

Guy McPherson: A certeza da morte, junto com o absurdo da vida, me ajuda a viver com urgência e autenticidade.

Quase todos os dias as pessoas me pedem conselhos sobre como viver. Eu recomendo morar onde você se sinta mais vivo. Recomendo viver plenamente. Recomendo viver com intenção. Recomendo viver com urgência, com a morte em mente. Recomendo a busca da excelência. Recomendo a busca do amor. Não é de surpreender que eu seja frequentemente ridicularizado, alvo de piadas, rechaço e seja isolado por meus próprios contemporâneos na comunidade científica.

Persiga a ação correta. Não se apegue aos resultados. Considerando o pouco de tempo restante em sua vida e na minha, recomendo tudo isso acima, mais do que nunca. Mais intensamente do que você possa imaginar. Para os limites desta cultura restritiva e além. Por você. Por mim. Por nós. Por aqui. Pelo agora. Viva grande. Seja você mesmo, e mais ousado do que nunca. Viva como se estivesse prestes a morrer. O dia se aproxima.

Erva Daninha: Certo! Dr. Guy, agradecemos a oportunidade de entrevistá-lo. Foi um prazer. Se você quiser deixar uma mensagem, sinta-se à vontade para fazê-lo.

Guy McPherson: Agradeço a você. Aprecio a oportunidade de informar as pessoas sobre o mundo que ocupamos.

Notas do Tradutor:

1. NTHE, por suas siglas em inglês (Near-term human extinction).

2. IPCC, por suas siglas em inglês (Intergovernment Panel on Climate Change).

3. Ardil 22 é uma novela satírica antibelicista de ficção histórica escrita por Joseph Heller e publicada em 1961.

Interview with Guy McPherson about Anthropocene and Climate Crisis

Erva Daninha interview with Guy R. McPherson. Guy is an American scientist, professor emeritus of natural resources and ecology and evolutionary biology at the University of Arizona. We thank Guy for this interview with us. His website is Nature Bats Last.

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Erva Daninha: First of all, we want to thank you for accepting this interview, Dr. Guy McPherson. Your scientific investigations into the climatic chaos within industrial civilization are of tremendous importance in pointing out the seriousness of the environmental crisis in the world caused by human activity.

So let’s begin, you are known for defending the idea of Near-Term Human Extinction (NTHE). Can you explain to us what NTHE is and what are the main ecological indicators that support this theory?

Guy R. McPherson: Thank you for the opportunity to engage with you and your audience.

Near-term human extinction (NTHE) as a result of abrupt climate change refers to the rapid demise of our species, Homo sapiens. I have predicted NTHE for many years, and I have recently been joined by others in my prediction.

Humans are animals. As with other animals, our species requires hábitat to survive. Specifically, humans are vertebrate mammals. Yet the projected rate of environmental change, using the gradual rate of change projected by the Intergovernment Panel on Climate Change (IPCC), outstrips the ability of vertebrates to adapt by a factor of 10,000 times (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ele.12144). Mammals will take millions of years to recover from the ongoing Mass Extinction Event (https://www.pnas.org/content/115/44/11262). I seriously doubt our species can avoid extinction even as non-human vertebrates and non-human mammals disappear.

At least seven species in the genus Homo have already gone extinct, even though none of those species were on Earth during a Mass Extinction Event. We are in the midst of a Mass Extinction Event. According to conservation biologist Gerardo Cellabos, lead author of a paper published 19 June 2015 in Science Advances indicating Earth is experiencing a Mass Extinction Event (https://advances.sciencemag.org/content/1/5/e1400253), “life would take many millions of years to recover, and our species itself would likely disappear early on.” (https://phys.org/news/2015-06-sixth-mass-extinction-declares.html). A paper with the same lead author published 25 July 2017 in the Proceedings of the National Academy of Sciences indicates Earth is well into the ongoing Mass Extinction Event (https://www.pnas.org/content/114/30/E6089.short).

A paper in the November 2018 issue of Scientific Reports indicates a 5-6 C global-average rise in temperature will cause the extinction of all life on Earth (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Such an increase in global-average temperature is expected shortly after the Arctic Ocean become free of ice, an event incorrectly projected to occur in 2016 + 3 years in the 2012 issue of Annual Review of Earth and Planetary Sciences (https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev-earth-042711-105345). Despite this incorrect projection, an ice-free Arctic looms on the near horizon.

Commercial air travel poses an existential threat to all life on Earth. According to a paper in the 27 June 2019 issue of Atmospheric Chemistry and Physics, contrails alone could eliminate habitat for most, if not all, life on Earth by disrupting atmospheric circulation patterns (https://www.atmos-chem-phys.net/19/8163/2019/). This conclusion is supported by a study published online 12 December 2019 in Earth and Space Science Open Archive (https://www.essoar.org/doi/10.1002/essoar.10501296.1).

The standard response to the ongoing climate crisis is to recommend a reduction in emissions of greenhouse gases. However, reduced industrial activity tranlates to an abrupt reduction in atmospheric aerosols. These aerosols reflect incoming solar radiation, thereby keeping Earth cooler than it would be without these aerosols. Research on the cooling effect of these aerosols has appeared in the peer-reviewed literature since 1929 (Angstrom, 1929, “On the atmospheric transmission of sun radiation and on dust in the air,” Geografiska Annaler, 11, 156–166). As little as a 20% reduction in industrial activity leads to a 1 C global-average temperature spike with a few weeks (Rosenfeld et al 2019, https://science.sciencemag.org/content/363/6427/eaav0566, and https://www.sustainability-times.com/environmental-protection/research-cooling-from-atmospheric-particles-may-mask-greater-warming/).

Erva Daninha: The well-known activist and writer Naomi Klein, unlike many climate deniers, argues that human activity is closely related to the climate crisis, however, she concentrates most of her efforts on painting capitalism as the great villain against the environment. Occasionally Naomi also criticizes the “industrial socialism” of some nations, but for the most part she defends the same thesis repeated by the great majority of leftists and ecologists around the world, “if we eliminate capitalism everything will be fine”. Dr. Guy, we believe that your criticisms are broader, they target the global industrial complex and not just a specific type of social order. Why do you think that the global technological-industrial society is the real problem and not just capitalism?

Guy R. McPherson: As pointed out with abundant research by Tim Garrett, civilization is a heat engine (https://faculty.utah.edu/u0294462-TIM_GARRETT/research/index.hml). In other words, this set of living arrangements produces heat. It matters little or not at all how industrial civilization operates. Solar panels and wind turbines heat the planet, just as burning fossil fuels. Civilization takes us to a Pliocene-style climate as early as 2030 (according to a paper in the Proceedings of the National Academy of Sciences published 26 December 2018 that relies upon the IPCC’s stunningly conservative Representative Concentration Pathways, https://www.pnas.org/content/115/52/13288.short). I cannot imagine humans or other vertebrate mammals could survive such a rapid rate of change. Yet, as I pointed out above, slowing or stopping civilization heats the planet even faster than keeping civilization running.

Erva Daninha: Among many others scenarios, we have the utopian and hopeful views defended by Naomi Klein regarding eco-socialism as an alternative to “save the world” of an ecological catastrophe, or a delusional “primitivist revolution” against industrial civilization defended by anarchists like Kevin Tucker and John Zerzan. How efficient do you think these systems would be when the global census predicts almost 10 billion people on the planet for 2050? We live on a finite planet with limited resources and most of these resources have already disappeared, even a radical change towards a supposedly sustainable system would require other massive sources of energy, transportation or mass activities for food production, and even in more extreme cases like the “primitive utopia” defended by some anarchists, massive activity like feeding and housing, or whatever it may be, would have an enormous environmental impact on a large scale.

Nature tends to exercise a self-regulatory control over species on earth to enforce an organic coexistence, something that some call the trophic cascade, but our species has escaped this and has used the modern technology to its advantage to surpass the population control enforced by nature, manipulating its surroundings and expanding beyond its limit, whilst consuming nature indiscriminately and destroying great part of the limited resources on earth, all for it’s own benefit. Don’t you believe that there is overpopulation in the world and that our modern culture is alienated and decadent and that given the amount of billions of people in the world, any proposal to create a global sustainable society would be flawed?

Guy R. McPherson: As indicated above, I seriously doubt we survive until 2030, much less 2050. Too many humans have been consuming too many finite materials for far too long. We have severely overshot a sustainable population of humans on Earth.

Erva Daninha: You have stated on a number of occasions that the IPCC is quite conservative in its estimates. Do you believe that there is some kind of internal law within these entities or in the scientific community itself that establishes a pattern of behavior in order to avoid alarms that would have an impact on the economy or in society itself? For example, here in Brazil the National Institute for Space Research (INPE) released alarming data corroborated by NASA about the drastic increase of deforestation in the Amazon Rain forest in the year 2019, which resulted in the dismissal of Ricardo Galvão, director of the agency, at the behest of president Jair Bolsonaro. We believe that although they do warn about the climate crisis, these entities and most scientists operate within the same logic as that of the culture of industrial-technological civilization and defend the maintenance of this logic that in theory would be the essence of climatic chaos, then perhaps at the behest of governments (such was the case in Brazil), or by their own initiative, institutions handle their data carefully so as not to expose the infeasibility of this ecocidial social order. What do you think about this?

Guy R. McPherson: The IPCC uses a very conservative approach in creating their assessments. Scientists within working groups typically employ reticence in reaching their conclusions. After an assessment is drafted by conservative scientists who are required by the IPCC to rely upon consensus, the assessment is sent to governments for review. As you can probably imagine, the governments of the world are primarily interested in sustaining economic growth. “Saving the world” is not on the agenda.

Erva Daninha: Recently a Brazilian scientist revealed that Antarctica reached a surprising temperature of 20º C, something that was “never seen before”. Such temperatures are harsh examples of global warming. The consequences of the temperature rise in these frozen environments are already well known, the rise of the sea levels is widely discussed in the scientific community, but the effects of the melting are not restricted to it. Nature magazine has already published a study in which it states that Antarctica is possibly retaining colossal amounts of methane gas produced over thousands of years within its ice sheet and that if this gas were to be released, it would have an aggressive impact on the greenhouse effect. The same is true for the Arctic with permafrost, where the situation is perhaps even more serious, as the Arctic soil is no longer frozen. Studies indicate that the permafrost contains twice the total amount of carbon currently in the Earth’s atmosphere, and that a massive leak of this material would be catastrophic for life on Earth, even being able to cause a mass extinction like that of the Permian-Triassic period. Do you believe that the “clathrate gun” effect could really endanger most life on earth up until the year 2040?

Guy R. McPherson: Not only do I agree, but renowned climate scientist James Hansen has discussed this possibility. A peer-reviewed paper by Hansen and colleagues indicated Earth was at its highest temperature with our species present in 2017 (https://arxiv.org/abs/1609.05878). Indeed, methane emissions from beneath ice and also methane emissions from the melting permafrost represent two of seven means by which the planet could heat very quickly, thereby destroying hábitat for humans (https://weeklyhubris.com/seven-distinct-paths-to-loss-of-habitat-for-humans/).

Erva Daninha: In 2014 at an interview with Russia Today quoting a study by the climate scientist Tim Garrett you said that only the total collapse of industrial civilization could prevent uncontrolled climate change. For logical reasons, a solution based on this premise will never come from any government or institutions like the UN. On the contrary, the weak Paris Agreement has already been abandoned by the United States, the bigest emitter of greenhouse gases of all history, and the Brazilian State has also shown signs of its intents to abandon the agreement. Studies like the one of the Universal Ecological Fundation have already pointed out that the agreement won’t be enough to limit the temperature increase to between 1.5º C to 2º C in relation to the levels of the pre-industrial era. Assessments such as yours indicate the possibility of an increase of more than 3.5º C in a short period of time. Stopping industrial activities is unthinkable in the modern world, as this would mean to deny the very logic in which most countries are inserted in, however this does not mean that scenarios like this one are impossible to achieve, only not through the action of governments, of course.

At the end of last year, Houthis rebels attacked the world’s largest oil refinery in Saudi Arabia with drones, interrupting half of the kingdom’s production, which supplies 10% of all oil consumed in the world. Although extreme, this is a real example of the abrupt interruption of an activity that is harmful to the environment. Groups like the Niger Delta Avengers have also caused catastrophic damage to oil production in countries like Nigeria. Studies published by the magazine Science Advances also concluded that the war in the Middle East caused pollution to decrease in some areas of that region, because the levels of industrial activity decreased and activities of urban life such as driving were affected. Leaving aside all judgment that could be made regarding this type of action and considering the fact that urgent actions to interrupt industrial activity are needed and governments will never offer them, do you consider that there is practical efficiency in this type of action to interrupt pollutant emissions or destruction of the environment in the world? I say it again, I ask from a purely practical perspective, leaving aside the judgment as to whether it is legal or illegal.

Guy R. McPherson: Please see preceding information about the aerosol masking effect.


Erva Daninha:
Dr. Guy, the world is currently facing a COVID-19 pandemic, one of the most catastrophic in recent times. The attention is practically all focused on the economic damage caused by this situation, there is a lot of talk about a new economic recession in the world and a global financial crisis similar to that of 2008, but little is said about the benefits of this pandemic to the environment. You yourself said that total interruption of industrial activities are the most beneficial events that can contribute to the non-rise in global temperature and that is exactly what this disease is causing.

In China, there was a major paralysis of the economic activities and the reduction of polluting gases was huge and abrupt, in February this year the concentration of these gases was 25% lower compared to the same period last year, according to the Center for Research on Energy and Clean Air. In Italy, with tourism reduced to zero, the waters of the Grand Canal in Venice looked better and the air quality improved in the area, according to the city hall. Data from the Sentinela-5P satellite of the Copernican program at the European Commission and the European Space Agency (ESA) showed that in general terms pollution had a strong decrease in Italy, especially in the northern region of the country, the ones that were most affected by the virus. Certainly the same is repeating in various regions around the planet, and not only because industrial activities have been paralyzed or reduced, but also because tourism, transportation and many other daily activities within the technological-industrial civilization have ceased.

Based on this, how do you see these major disasters and their environmental benefits? We believe that they contribute in curbing the global climate crisis and indicate that, for the planet, our civilized lifestyle is just as bad as a pandemic to us. We also think that disasters can function as a self-regulating catharsis from the earth trying to dismantle the harmful modern lifestyle and the great techno-industrial civilization.

Guy R. McPherson: Actually, I have revised my assessment regarding the horrors of industrial civilization, as I have indicated above. Industrial civilization fouls the air, dirties the wáter, and washes soil into the ocean. Industrial civilization is a plague on the living planet. Yet, from the perspective of abrupt climate change, maintaining civilization helps to retain hábitat for humans on Earth. In our absence, the world’s nuclear power plants will melt down catastrophically, thereby leaving the planet bathing in ionizing radiation. I suspect such as event will destroy hábitat for all life on Earth within a few generations after the lethal mutations begin.

Erva Daninha: today we see the rise of a global “Green New Deal” through new movements like Extinction Rebellion and Sunrise Movement and also by climate activists such as Greta Thunberg. For the uninformed it looks like something new, but the same thing happened in past times with several NGOs, with emphasis on Greenpeace, which over the years reduced its activities to peaceful performances to be registered and disseminated on social media, campaigns to sign petitions to the government and an intense greenwashing activity to promote supposedly sustainable consumption.

The great eco-organizations of the past are promoting a discourse of “individual change to change the world”, the famous “do your part” activism, since they were accepted and incorporated within the very logic of the system that they criticized, such is the case for Greenpeace, which made pacts with oil, timber and fishing companies, in addition to many others. Extinction Rebellion has a very youthful and attractive appearance, the movement attracts enough people to shout against global leaders and demand changes in environmental policies around the world, respecting the limits that the order imposes on them, indirectly using the same logic that they oppose to and expecting from global leaders the longed-for changes in environmental policies, the same leaders who demonstrate that they are unable to comply with basic agreements like the one in Paris. Don’t you think that there is naivety in these movements and that instead of addressing the root of the problem they indirectly advocate for reforms and perpetuate the destructive industrial civilization? If they are not fighting for the end of industrial society, but for the existence of a “better industrial society”, wouldn’t this struggle be a big problem and a mere greenwashing?

Guy R. McPherson: These movements are exceptionally naive. As I indicated above, industrial civilization is a heat engine, but slowing or stopping industrial civilization heats the planet very quickly. This represents a classic Catch-22.

Erva Daninha: A UN report released last year, probably conservative in terms of numbers, said that one million species of animals and plants are at risk of extinction. The main cause indicated by the report is industrial agriculture, pollution and the warming of the oceans. Many scientists point towards the same, do you also believe that we are currently experiencing the sixth mass extinction? This would be the first human-made mass extinction, right? Would Anthropocene be a suitable term?

Guy R. McPherson: Earth is in the midst of the Seventh Mass Extinction. We have long believed we were in the Sixth Mass Extinction, but a paper published in the peer-reviewed Journal of Historical Biology on 5 September 2019 indicates an additional, previously unknown Mass Extinction Event (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08912963.2019.1658096). That minor point aside, the ongoing Mass Extinction Event is generally termed the Anthropocene Mass Extinction because it results from human activities (notably, industrial civilization).

Erva Daninha: Mark Boyce’s study published in the Journal of Mammalogy on the experience of reintroducing wolves in the Yellowstone National Park reinforced what many already knew, nature is interconnected and interdependent with the species that live in it, be it animals, plants, fungi, whatever it is. If a single animal disappears forever, the entire trophic cascade is destabilized and the consequences can be immeasurable.

Currently, all terrestrial biomes are threatened by the advance of civilization and the speed with which species are going extinct is a thousand times above normal, according to a study by University College London. This massive extinction endangers the life not only of the species, but of the biomes themselves. The marine biome, perhaps the most important one for life on earth, is rapidly disappearing. Insects vital to earth cycles, such as pollinators, also die in catastrophic quantities. Do you think that this massive extinction wave can reach the human species itself at some moment?

Guy R. McPherson: Several other species in the genus Homo have gone extinct. Indeed, all individuals die and all species go extinct. The 13 November 2018 peer-reviewed paper in Scientific Reports indicates all life on Earth will go extinct with the kind of temperature rise forecast in the near future, largely as a result of co-extinctions (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). In other words, species such as ours that rely upon other species for our own existence, face an existential risk specifically because we depend upon other species. The ongoing insect apocalypse, the rapid rate of environmental change, and our membership as life forms on Earth guarantee our near-term demise.

Erva Daninha: You are sometimes singled out within the scientific community and within the world of ecological discourse as someone who is tremendously pessimistic and hopeless. We think of you as someone who is just realistic and well informed. It’s reality itself that’s pessimistic and full of bad news for humanity’s future. Last year a text called “Hope is a Mistake and a Lie” was published on your website, in which you destroy the hopeful behavior about the future of our species. Dr. Guy, don’t you think that there is a bitter difficulty within the scientific community, and among militants and activists, normally anarchists and leftists, to accept the reality about our future and understand the fact that better days will never come?

Us in particular are very realistic (and also pessimistic) about the future of our species and we believe that as humans we draw our own end and that we will reap the consequences of the ecocidal structure that homo-sapiens has erected. This allows us to deal with reality in the hardest, coldest and most necessary way. Naive activists shout for their political leaders to adopt new environmental policies, anarchists and leftists already seem to know that there is no way out, but they prefer to deny it with all their strength and cling to comfortable utopian dreams that can not be achieved. Hope is like a drug and these types of people are addicted, they cannot accept the dark days to come, so they run in circles, because to renounce hope would be to renounce humanity itself and everything it has created until today. What do you think about this?

Guy R. McPherson: The society has promulgated the idea that hope is universally good. I believed it for a long time. Then I looked up the definition of the word in the dictionary. As you indicated, I prefer reality to wishful thinking. And hope is one versión of wishful thinking.

Erva Daninha: Dr. Guy, what do you think about the anthropocentric perspective of the world? This type of thinking that places the human being at the center of everything and gives it more importance than other species is present even in the contemporary schools of thought that present a radical ecological critique, such is the case with eco-anarchism. We believe that the human being is just one more species among the thousands that exist, and perhaps is not even that important. The life-death cycle is constantly present in nature and it’s a part of the life of any living being, beings are being born and dying all the time. The modern human being denies death and always seeks to extend its existence. It is not wrong to say that the evolution of medicine, especially modern medicine, which has provided humans with such longevity, has caused them to mock natural selection and to expand at a very accelerated pace. Today the techniques of biotechnology and nanotechnology flirt with immortality. We believe that this type of thinking has also influenced humanity’s capability to reach a higher degree of ecocide on earth and it’s the basis for the values that support civilizations. What do you think about this?


Guy R. McPherson: I could not agree more. Homo sapiens represents one species among millions to occupy Earth. We have created environmental conditions contrary to the continuation of life on this beautiful planet. We strive for immortality at the level of individuals and at the level of our species. To the contrary, acceptance of one’s own death is a gift filled with peace. The same sentiment holds true at the level of our species.

Erva Daninha: Dr. Guy, is there a possibility that global warming could reveal to the world something as serious as the current coronavirus pandemic? Recent news showed that the melting in the Arctic and other frozen regions was resulting in the reappearance of bacteria and viruses considered to be extinct and also had the possibility of bringing back prehistoric bacteria and viruses of unknown pathogenic capacity. The magazine Scientific Reports has already published that the melting of the ice in the Arctic has released a virus normally found in the Atlantic that has contaminated sea otters in Alaska. We think that pathogenic super-microorganisms could, through the melting at the extreme poles of the earth, reach the coasts of several countries and start pandemic infections as occurred with the coronavirus on China, which could have started on a seafood market. Based on your experience as a researcher, do you believe that this possibility is real?


Guy R. McPherson: There is little question about the interaction between climate change and COVID-19. Most notable are (1) the potential for a reduction of the aerosol masking effect as industries slow, and (2) reappearance of many viruses as a result of melting ice (accelerated by climate change). Twenty-eight new virus groups were found recently in a melting glacier (https://www.popularmechanics.com/science/health/a30643717/viruses-found-melting-glacier/). The novel coronavirus currently in the news is the first of many such difficulties we face.

Erva Daninha: A survey by the science magazine called Advances in Atmospheric Sciences revealed that 2018 was the warmest year on record for ocean temperatures since monitoring began. Many people erroneously claim that forests are the “lungs of the earth”. Although important for oxygen production, carbon absorption and climate regulation, forests do not produce most of the world’s oxygen, the oceans do. What happens is that with global warming the temperatures in the oceans are increasing since more or less 93% of all the heat from climate change is absorbed by the oceans.

Biomes and marine fauna are extremely sensitive to climate change, and it is not only climate change that attacks the seas, but also pollution (including noise pollution from boats and submarines), industrial fishing, tourism, etc. The world’s oceans are in a very delicate situation, and unlike a terrestrial ecological reserve, where human destruction can be easily controlled and with great effort, reversed, what happens in the seas is that mitigation actions are out of control. Although possible, it is not easy to “plant” marine corals, planting grass is not the same as “planting algae”, although there are bizarre geoengineering experiments that propose this (which could be more disastrous than efficient). What diagnosis would you make out of the situation of the global oceans and what can happen if they continue to lose marine life?

Guy R. McPherson: We are products of the ocean. All life is dependent upon the ocean. Paul Watson, author and founder of the Sea Shepherd Conservation Society, says it best: “We cannot live on this planet with dead oceans. If our oceans die, we die.” We are in midst of the a global coral bleaching event, the third one in history. It is also the third one since 1998. Deoxygenation is a pressing problem in marine systems right now. I present abundant evidence from the peer-reviewed literature: https://guymcpherson.com/2018/12/ocean-deoxygenation-as-an-indicator-of-abrupt-climate-change/

Erva Daninha: Last year, an unreliable study by the Science magazine revealed that to limit the increase in global temperature to 1.5º C (Paris Agreement target) 1.2 trillion new trees would be needed worldwide, and the study advocated the indiscriminate planting of trees to absorb and reduce excess carbon dioxide in the earth’s atmosphere. We think that the study is unreliable because it presents only the quantity as a solution, without thinking about the complexity of the process and its side effects. The indiscriminate planting of trees, according to what we have read in the scientific literature and also to the opinions of scientists, such as that of the Brazilian Gerhard Overbeck, who refuted a proposal like this one from the Federal Institute of Technology in Zurich published in the article The global Tree Restoration Potential; can have environmental consequences. From our point of view, planting trees indiscriminately seems irresponsible and inconsequential. Nature is complex, self-regulating and interconnected, nature is not just quantity, but complexity. Biomes cannot be generated abruptly and in the long run the massive planting of trees could also bring environmental consequences such as depletion of underground water reserves, migrations or extinctions of species of animals and plants, etc. What do you think about this proposal of massive and indiscriminate planting of trees to reduce the amount of carbon dioxide in the Earth’s atmosphere?


Guy R. McPherson: This is a terrible idea. I wrote about it here: https://guymcpherson.com/2020/02/can-trees-sequester-enough-carbon/

Erva Daninha: Theodore Kaczynski, best known as the Unabomber, once wrote a text called “The Ship of Fools”. The text is metaphorical and very intelligent, it places the “ship” as our civilization, and the crew as the social figures that stand out the most in public complaints. In the story, the captain of the ship, who represents political leaders in the real world, is a very vain and confident person, as well as the crew, so they madly decide to travel in murky waters, towards dangerous icebergs. In the text, the captain, supported by his crew, leads the ship, which symbolizes civilization, towards increasingly dangerous waters, something that could easily result in the sinking of the boat if it crashed into icebergs. The dangerous waters in the text clearly symbolize the wrong course that our species is taking, and icebergs would be the end, the extinction. In the tale, while the captain steers the boat towards the icebergs, the crew begins to complain about various problems on the ship. There is the poor crew member who complains about earning little, there is the female crew member who complains about the inequality between women and men on the boat, there is the immigrant crew member who complains about the inequality in the treatment of foreigners, there is the crew member who is an Indian native who complains that the white stole their land and that is why he ended up on that ship and shouldn’t even be there, there is the gay crew member who complains that he is discriminated for his sexual preferences, there is the crew member who is vegan and who complains that the animals on the boat are being abused, there is the crew member who is a university professor and kind of an intellectual who defends and supports all previous complaints, and there is also another crew member, an individual who is being ignored by all the previous ones, and who says that while everybody complains about what bothers them, the ship is heading towards icebergs and that could kill all of them very soon. As the tale goes on, the complaints continue and the captain attends to each complaint little by little, granting more rights to stop the protests and calm the spirits. The same scenario is repeated a few times and the captain always manages to calm his crew down by granting them a little more rights, but without ever turning the boat’s course. At the end of the story everyone is more or less satisfied with their achievements, which are not big, but are significant anyways, and suddenly the boat crashes into a huge iceberg and everyone dies.


Dr. Guy, we believe that it does not take much effort to understand that this story perfectly reflects the critical situation in the world, with the serious ecological crisis underway, demagogue political leaders, social movements and their complaints, and that one percent who realizes about the delicate situation we are in and tries to alert about the ecocide or to act on their own way against the climate catastrophe. Do you believe that this tale lucidly reflects the reality of the world and the existing social movements?

Guy R. McPherson: Yes, without question. Kaczynski was well ahead of his time.

Erva Daninha: The respectable Brazilian scientist Antonio Donato Nobre published in 2014 a report called “The Climate Future of the Amazon” that points out that due to deforestation and degradation, the Amazon forest could be close to what he calls the “point of no return”, when it’s no longer able to regenerate on its own and begins to move towards total desertification. Since then, six years have passed and deforestation has intensified considerably, especially after the election of Jair Bolsonaro and the management of Ricardo Salles, Minister of the Environment. In other tropical forests of Asia and Africa the unfolding is the same, there is intense deforestation, according to some scientific reports. Tropical forests are extremely important in the world, they help to do things like regulating the climate and the rain cycle, so if these forests disappear the rains could also disappear and a myriad of ecosystems would be affected, perhaps extinguished. Dr. Guy, do you think there is a possibility that in the short term we will see a severe process of desertification in the world? This process is already happening in the world, including here in Brazil, especially in the northeast and northern regions of the country, but do you think that the world’s tropical forests can reach the “point of no return” and collapse at the point of becoming desertic, as Dr. Antonio Donato Nobre defends?

Guy R. McPherson: The ongoing exploitation of the Amazon is emblematic of our rush to greed. There are many examples of forests turned into deserts by “civilized” humans. The Amazonian example follows other previous examples in the Fertile Crescent, much of the Middle East and northern Africa, and so on. Given these examples, we can expect a similarly dire outcome in the Amazon.

Erva Daninha: Dr. Guy, a study by the Rights and Resources Initiative (RRI), Woods Hole Research Center (WHRC) and World Resources Institute (WRI) indicated that indigenous reserves hold 24% of the carbon stored on the terrestrial surface. The native peoples have different perspectives of existence and a different relation with the land, that is why they preserve it, they preserve it because they consider it to be sacred and because it is from it that they directly get their food, from hunting and gathering. Preservation is just a consequence, a beautiful and intelligent consequence.


We believe that there is a cultural crisis within civilization, especially with the arrival of the ultratechnological and cyber-connected modernity. Our diet, sleep patterns, cacophony, repetitive routine, types of work, the pressure from the family, work or society itself, over and under protection of the family, physical inactivity, obesity, cancer, epidemics and pandemics, “infocalypse”, social isolation on social networks, confinement, the artificialization of everything, vision pollution, the grayness of the cities, the speed at which everything goes (days, information, people, etc.), the climate changes that influence our disposition, social control, surveillance, pornography, advertisements, trends, traumas, abuses, drugs, ideologies, abstraction, loss of identity, loss of roots, liquidity of social, familiar and loving relationships, violence, police, prisons, wars, psychological illnesses, disorders, anxiety, depression, suicide, fear. We believe that a great part of all these problems comes from civilized life and its values, beliefs, routines and behaviors, especially modern life, and that these problems will only get worse over the years, and possibly even in the scenario of some socialistic, vegan, anarchistic or permacultural society. We don’t know if you have ever experienced this, but when we walk through a forest and feel its serenity, the smell of wet earth, the noise of the animals, everything seems to be fine, as if it were therapeutic. Perhaps it is ancient information contained in our DNA that brings back the memories of ancestral life in the forest. Some of us are direct descendants of native tribes and Quilombolas or have strong ties to what is left of these ancestral cultures and we feel that the solution to the global ecocide and the cultural crisis in civilization is not to think ahead, but to look back, to our past, to the ancestral way of life, at their respectful relations with the land, which is the reason why the indigenous people preserve their reserves and consequently they can absorb carbon. We are not naive, we do not romanticize tribal people and much less believe in a “primitive future” as the one preached by anarchists like John Zerzan and Kevin Tucker, nor do we think that it would be healthy for any ecosystem that a large part of the world’s population would change their lifestyle to a primitive model to “save the world”. With the number of humans that exist today on earth, we believe that no model would be sustainable in the long run. What we believe is that in another reality (currently existing) far from civilization and mass society, the wisdom and way of life of ancestral peoples really demonstrates the possibility of long-term coexistence with nature, where there is a future not only for the human species, but for all others. Of course, that is not what the future currently holds for the human species. But regardless of the end that is getting closer, what do you think about this idea of looking back, to ancestral times, and not further away to the future?


Guy R. McPherson: Absolutely. Many pre-civilized societies learned and practiced sustainability to a far greater extent than contemporary humans, as pointed out by Turnbull (The Forest People [1961], The Mountain People [1972]) and Quinn (Ishmael [1992], Beyond Civilization [1999]). A classic and often-cited example is the Iroquois Confederacy making decisions only after considering the impacts seven generations in the future. Padgett provided an education-based overview in 2018 (“Sustainability of Education: An Ecopedagogical Approach,” Journal of Sustainability Studies 1(1), Article 5, https://ir.una.edu/sustainabilityjournal/vol1/iss1/5). Clearly, learning was an important part of everyday living for the Iroquois Confederacy and other pre-civilized societies. In contrast, the evidence presented herein indicates that contemporary humans have not learned to practice sustainable actions.

Erva Daninha: You say stopping industrial civilization abruptly will bring the immediate demise for human life on earth, and maybe all life. But letting it go on, will have the same consequences, maybe twenty or thirty years into the future. So… What should we do? What do you propose? What’s your personal stance on this?

Guy R. McPherson: The certainty of death, coupled with the absurdity of life, helps me live with urgency and authenticity.

I am asked nearly every day for advice about living. I recommend living where you feel most alive. I recommend living fully. I recommend living with intention. I recommend living urgently, with death in mind. I recommend the pursuit of excellence. I recommend the pursuit of love. It’s small wonder I am often derided, mocked, rejected, and isolated by my contemporaries in the scientific community.

Pursue right action. Do not be attached to the outcome.

In light of the short time remaining in your life, and my own, I recommend all of the above, louder than before. More fully than you can imagine. To the limits of this restrictive culture, and beyond.

For you. For me. For us. For here. For now.

Live large. Be you, and bolder than you’ve ever been. Live as if you’re dying. The day draws near.

Erva Daninha: Dr. Guy, we appreciate the opportunity to interview you. It was a pleasure. If you want to leave a message feel free to do so.

Guy R. McPherson: Thank you. I appreciate the opportunity to inform people about the world we occupy.

[VÍDEO] Entrevista de ITS a TV5MONDE

Vídeo traduzido e legendado ao português que faz parte da entrevista Terroristas, Ecologistas: Quem está por trás do grupo ITS, os Individualistas Tendendo ao Selvagem?, realizada pela rede francesa TV5MONDE com Xale, membro-fundador de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

[VÍDEO] Próximo trabalho sobre Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS)

Em breve será disponibilizado na web um trabalho sobre ITS editado por Jake Hanrahan, jornalista e cinegrafista especializado em guerras modernas. Jake dirige a Popupar Front e já realizou diversos documentários e vídeos sobre grupos terroristas e guerrilhas ao redor do mundo. Jake já abordou ITS em outra ocasião durante um podcast com John Jacobi, confira neste link.

Abaixo a prévia do trabalho.

Grupo ecoextremista reclama do agronegócio em MS e promete ataques neste ano

Replicamos aqui uma entrevista de Individualistas Tendendo ao Selvagem – Brasil (ITS-Brasil) concedida ao jornal eletrônico matrogrossense Mídiamax. A facção brasileira da organização eco-terrorista, a Sociedade Secreta Silvestre (SSS), contestou alguns pontos pertinentes levantados pelo jornal.

Foto encaminhada pelo ITS-Brasil.

Por e-mail criptografado, Anhangá falou com Jornal Midiamax sobre a situação dos agrotóxicos no Estado.

Por uma caixa de e-mail criptografada na Suíça, Anhangá, personagem conhecido nesta semana após relatar à Revista Veja que o grupo terrorista planeja atacar o presidente Jair Bolsonaro (PSL), revelou ao Jornal Midiamax que Mato Grosso do Sul é visto como um ‘inferno do agronegócio’ para a SSS (Sociedade Secreta Silvestre) e garantiu que o grupo planeja ataques para este ano no país.

Integrante de um grupo que se autodenomina eco-extremista, a sociedade faz parte do grupo terrorista internacional ITS (Individualistas que Tendem ao Selvagem), defendendo a natureza, contrária ao modo de vida atual, que prioriza a produção em larga escala em detrimento do meio ambiente. Para combater o modo de vida atual, a SSS quer difundir ‘guerra psicológica’ e afirma já ter sido autora de três ataques a bomba em Brasília.

“Uns danam colossalmente, outros danam pouco, mas todos danam e não fazemos distinções, e toda esta estrutura tecno-industrial só se sustenta porque há civis operando e a defendendo”, relata Anhangá.

Mas apesar de manter 83% da cobertura vegetal nativa, o bioma Pantanal tem apenas 4,6% da área protegidos por unidades de conservação, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. Terra da ministra do Agronegócio, Tereza Cristina (DEM), alvo de críticas após a liberação de agrotóxicos neste ano, o Jornal Midiamax conversou com Anhangá, que significa ‘espírito que protege os animais’, em tupi-guarani, sobre as questões que preocupariam o grupo extremista.

Ele seria um dos líderes do grupo e morador de Brasília, procurado pela Polícia Federal desde o vazamento do planejamento dos ataques ao presidente da República. Na troca de mensagens, é possível perceber que a Sociedade é pequena e que teria poucos recursos para planejar grandes ataques, como admitem.

Do contato inicial da reportagem com a organização terrorista internacional ITS no México até a primeira resposta de Anhangá a reportagem, foram dois dias. Por meio do representante, a organização revela se preocupar com a devastação do ecossistema do Pantanal e do Cerrado e afirma não ter lado político, apesar de não reclamar da visibilidade trazida pela reportagem da revista de circulação nacional para o pequeno número de membros no país.

O grupo eco-extremista reencaminhou o contato da equipe de reportagem a Anhangá pelo e-mail criptografado, nos respondendo que a mensagem já havia sido enviada ao representante do ITS no Brasil.

Anhangá, então, entrou em contato da sua caixa de e-mail criptografada com a da reportagem. Ao contrário do processo de produção da matéria da revista, quando ele encaminhou um link para um chat privativo, em que as mensagens eram destruídas após 24 horas.

Em troca de e-mails com a reportagem, Anhangá encaminhou imagens da SSS e de explosivos feitos pelo grupo.

Dois dias antes de a Revista Veja publicar uma possível nova ameaça ao presidente, o site oficial do ITS, Maldición Eco-extremista, divulgou um comunicado enviado pelo braço brasileiro do grupo intitulado Destruindo uma invenção política com o nosso nome”.

O texto tentava desligar qualquer atentado do SSS a ligações com a esquerda ou direita políticas. No entanto, Anhangá não negou em entrevista ao Jornal Midiamax o ódio ao que chama de ‘posturas cínicas’ do governo de Bolsonaro. O grupo também encaminhou fotos de dois explosivos que estariam sendo produzidos para serem utilizados ‘a qualquer momento’.

Ao Jornal Midiamax, Anhangá encaminhou fotos de explosivos feitos pelo ITS.

As mensagens foram reproduzidas na íntegra, mantidos os erros de digitação e de grafia.

Qualquer um pode ser alvo

“Uma coisa que deve ficar clara é que ITS não é um grupo que visa exclusivamente atacar governos, sejam eles quais forem, até porque isso gera um enorme trabalho e custo, algo que ainda não podemos bancar. Uma visão sobre nós está sendo moldada neste sentido, e está equivocada. Nós como eco-terroristas que somos podemos visar uma infinidade de alvos, desde um simples carro até pesquisadores, estudantes ou até civis, dado que desprezamos a vida humana civilizada e consideramos que a humanidade moderna, com o seu estilo de vida, é irreconciliável com a natureza selvagem e intrinsecamente danosa. Portanto, esperem por qualquer alvo. ITS como um grupo eco-extremista internacional já atacou presidentes de megaempresas, mas também atacou civis comuns indiscriminadamente, e todos sob o mesmo impulso. Uns danam colossalmente, outros danam pouco, mas todos danam e não fazemos distinções, e toda esta estrutura tecno-industrial só se sustenta porque há civis operando e a defendendo, conscientemente, por mais que neguem que assim seja, sobretudo os esquerdistas. Então, os alvos são infindos. Governos, sejam eles quais forem, sempre foram danosos, afinal o progressismo sempre foi buscado e ele é alcançado apenas através de danos graves à natureza, como mineração, desmatamento, barramento de rios, monoculturas, etc.. Acontece que o novo governo ressignificou o interesse em danos, nos parece proposital e há muito cinismo. Olhe aquele Salles, como é cínico. Bolsonaro fazendo papel de estúpido quis rebater esta semana dados objetivos do INPE com a intenção de negar o abissal desmatamento que ocorre no país. Então, é custoso visar alvos do governo e raramente o fazemos, mas esse governo tem nos enfurecido de uma maneira bastante particular devido a suas posturas cínicas e explícitas referente a questões ambientais”.

Liberação de agrotóxicos

“Não defendemos qualquer tipo de agronegócio, tampouco agrotóxicos, nossa perspectiva é outra. Mas é odioso o que esta pessoa tem feito, defender e liberar dezenas daqueles produtos químicos, muitos deles periculosíssimos e condenados em outros países. As consequências destes produtos sempre foram drásticas, sendo abruptas ou lentas, por “menos nocivos” que fossem. Sabe-se hoje que o declínio de insetos, especialmente aqueles polimerizadores, tem relação direta com a aplicação de pesticidas. Não é atoa que vulgarmente os chamam de “veneno”. Este país é um dos que mais consomem agrotóxicos no mundo, são toneladas todos os anos, estes produtos contaminam solos, rios, córregos, matam animais e insetos e se impregnam nos alimentos distribuídos. O resultado, além dos danos graves à natureza, são doenças neurológicas, câncer e tantas outras enfermidades. Mato Grosso é um inferno do agronegócio, e o Pantanal é rico e diverso, e como qualquer outro ecossistema neste país, especialmente o Cerrado, está ameaçado pela agropecuária. Tereza Cristina é como uma outra Kátia Abreu, a nova “rainha do motosserra”, e não hesito em dizer que será tão pior quanto.

Para ilustrar melhor o absurdo enquanto terminava minhas respostas, tive que voltar nesta pergunta para atualizá-la, já que hoje, 22 de Julho, acabo de saber que foi aprovado o registro de mais 51 agrotóxicos, totalizando 262, apenas neste ano, incluindo o Sulfoxaflor, inseticida do qual estudos mostram relação com o declínio da população de abelhas. Explosivos que dilaceram membros não são nada se comparados aos danos causados à natureza por nossa espécie’.

Ligações com o Paraguai

“Não existe nenhum membro de ITS no Paraguai. Mas já há algum tempo prestamos atenção no Exército do Povo Paraguaio (EPP), que inclusive realizou um interessante ataque há pouco tempo através de um braço indígena da organização, matando um brasileiro e causando danos materiais. Mas não temos qualquer tipo de contato ou relação com o grupo, há inclusive completa divergência em nossos caminhos, apenas tiramos lições da bela atuação destes insurgentes”.

SSS e PCC

“Não existem membros de ITS por “todo o país”. O grupo não possui esta dimensão. Quando emitimos aquele comunicado [de apoio ao PCC] estávamos apenas nos alinhando às intenções destas facções de atacar e retaliar autoridades e militares, já que um “salve geral” poderia ser dado a qualquer momento devido a transferência de líderes do PCC após planos de fuga frustrados. Se isso ocorresse, mesmo sem nenhuma ligação com o grupo, certamente atacaríamos contribuindo com as intenções caóticas da facção, porque diretamente isso contribuiria também com as nossas, caos e desestabilização da sociedade”.

Ataques planejados?

“Tem algo que sempre levamos em mente quando nos fazem esta pergunta. Em 1970 uma das informações cruciais para os militares alemães elaborarem um plano para aniquilar a organização palestina Setembro Negro na Alemanha, grupo terrorista que sequestrou e matou onze atletas israelenses, foi a quantidade de membros da organização. Durante as negociações na vila olímpica em Munique eles deixaram escapar seu contingente, e isso foi importantíssimo para uma contrainsurgência contra os rebeldes palestinos. Então jamais diremos quantos de nós existem, isso seria um tiro em nosso próprio pé. E sim, existem mais ataques planejados para este ano. Apenas aguardem.”

[MATÉRIA]: Líder de grupo terrorista revela plano para matar Bolsonaro

A edição edição nº 2644 da revista VEJA trouxe uma interessante matéria sobre ITS-Brasil. Na ocasião foi entrevistado Anhangá, membro proeminente da Sociedade Secreta Silvestre, a “ala” brasileira do grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). Abaixo a reportagem na íntegra que esteve a cargo dos jornalistas Thiago Bronzatto e Laryssa Borges.

Em entrevista a VEJA, representante do SSS ameaça presidente, seus familiares e dois ministros.

Imagem enviada a VEJA por um dos membros da SSS: os terroristas já praticaram três atentados a bomba em Brasília (./.)

Em 1º setembro do ano passado, ninguém deu atenção a uma mensagem no Facebook que trazia uma ameaça ao então deputado Jair Bolsonaro. O autor escreveu que testaria “a valentia” do então candidato do PSL à Presidência da República quando os dois se encontrassem e que ele “merecia” levar um tiro na cabeça. Ninguém deu atenção à postagem porque ameaças assim quase sempre não passam de bravatas. Ninguém deu atenção porque o autor, um garçom desempregado, também costumava publicar em sua página na rede social textos desconexos e teorias conspiratórias absolutamente sem sentido. Parecia coisa de maluco. Cinco dias depois, no entanto, Adélio Bispo de Oliveira, o autor da mensagem, esfaqueou Bolsonaro em uma passeata em Juiz de Fora (MG). O agressor de fato era um desequilibrado mental, mas o atentado ensinou que ameaças não devem ser subestimadas, por mais improváveis que pareçam.

ALERTA -Jair Bolsonaro: alvo da SSS, organização que se diz ecoextremista (Ueslei Marcelino/Reuters)

Há seis meses a Polícia Federal caça, ainda sem sucesso, os integrantes de um grupo terrorista que já praticou pelo menos três atentados a bomba em Brasília e anuncia como seu objetivo mais audacioso matar o presidente da República. Nas duas últimas semanas, VEJA entrevistou um dos líderes da Sociedade Secreta Silvestre (SSS), que se apresenta como braço brasileiro do Individualistas que Tendem ao Selvagem (ITS), uma organização internacional que se diz ecoextremista e é investigada por promover ataques a políticos e empresários em vários países. O terrorista identifica-se como “Anhangá”. Por orientação do grupo, o contato foi feito pela deep web, uma espécie de área clandestina da internet que, irrastreável, é utilizada como meio de comunicação por criminosos de várias modalidades.

Anhangá garante que o plano para matar Bolsonaro é real e começou a ser elaborado desde o instante em que o presidente foi eleito. Era para ter sido executado no dia da posse, mas o forte esquema de segurança montado pela polícia e pelo Exército acabou fazendo com que o grupo adiasse a ação. “Vistoriamos a área antes. Mas ainda estava imprevisível. Não tínhamos certeza de como funcionaria”, afirma o terrorista. Dias antes da posse, a SSS colocou uma bomba em frente a uma igreja católica distante 50 quilômetros do Palácio do Planalto. O artefato não explodiu por uma falha do detonador. No mesmo dia, a SSS postou um vídeo na internet reivindicando o ataque e revelando detalhes da bomba que só quem a construiu poderia conhecer. Nessa postagem, o grupo também anunciou que o próximo alvo seria o presidente eleito, o que levou as autoridades a sugerir o cancelamento do desfile em carro aberto. “Facilmente poderíamos nos misturar e executar este ataque, mas o risco era enorme (…) então seria suicida. Não queríamos isso.” Na ação seriam usados explosivos e armas. “A finalidade máxima seriam disparos contra Bolsonaro ou sua família, seus filhos, sua esposa.”

EM VÍDEO – Incêndio de carros do Ibama em Brasília: o grupo gravou as cenas (CBMDF/Divulgação)

Depois disso, em abril, dois carros do Ibama foram incendiados em um posto do órgão em Brasília. Em meio aos escombros, encontraram-se palitos de fósforo, restos de fita adesiva e vestígios de um líquido inflamável. No local, havia pichações com ameaças de morte ao ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente. De novo, num vídeo postado na internet clandestina, o grupo assumiu a responsabilidade pelo atentado e exibiu o material utilizado durante o ataque, oferecendo provas de que era mesmo o autor do crime. De acordo com Anhangá, foi mais um aviso, dessa vez endereçado diretamente a Ricardo Salles. “Salles é um cínico, e não descansará em paz, quando menos esperar, mesmo que saia do ministério que ocupa, a vez dele chegará. (…) É um lobo cuidando de um galinheiro”, diz o extremista, que alerta para a existência de um terceiro alvo no governo: Damares Alves, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. “(Ela) se tornou a cristã branca evangelizadora que prega o progresso e condena toda a ancestralidade. O eco-extremismo é extremamente incompatível com o que prega o seu ministério”, diz.

Espécie de holding internacional dos chamados ecorradicais, o ITS foi fundado em 2011 no México e afirma ter representantes também na Argentina, Chile, Espanha e Grécia. A organização se diz contra tudo o que leva à devastação do meio ambiente e defende o uso de medidas extremas e atos violentos contra os inimigos da natureza (evidentemente tal discurso não tem coerência alguma). Em maio passado, os ecoterroristas do Chile assumiram a autoria de uma carta-­bomba enviada a um empresário. Dois anos antes, em 2017, um artefato similar foi endereçado ao presidente de uma mineradora, que ficou ferido. No México, o ITS reivindicou a autoria de várias explosões em universidades. Uma delas resultou, em 2016, na morte de um pesquisador. No fim do ano passado, o grupo também se responsabilizou por uma bomba deixada próximo a uma igreja ortodoxa em Atenas.

RECADO – Bomba em frente a uma igreja de Brasília: o primeiro recado da SSS (./Reprodução)

Os terroristas brasileiros vêm sendo monitorados pelas autoridades há algum tempo. Um relatório elaborado pela diretoria de inteligência da PF intitulado “Informações sobre Sociedade Secreta Silvestre” descreve que, em 2017, uma bomba foi deixada na rodoviária de Brasília. O documento, obtido por VEJA, ressalta que a imprensa não noticiou o atentado, mas, mesmo assim, os detalhes foram divulgados num site do grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre, traduzidos para diversos idiomas e assinados por uma pessoa identificada como “Anhangá”. Em dezembro, depois da ameaça ao presidente Bolsonaro, a Polícia Federal decidiu pôr no caso os melhores agentes da seção antiterrorismo. Os policiais já seguiram várias pistas. Três suspeitos chegaram a ser presos. Mas os integrantes do grupo ainda não foram identificados. Anhangá provoca: “(Eles) são incompetentes (…). Não somos meros amadores, dominamos técnicas de segurança, de engenharia, de comportamento social. (…) Discutimos internamente com membros de outros países”.

Assim como para outros grupos, a internet exerce um papel importante na organização e divulgação de ideias. Os comunicados e vídeos do grupo terrorista ITS são postados num site chamado Maldición Eco-­extremista, traduzido para diversos idiomas. Foi por meio desse canal que VEJA solicitou uma entrevista com um integrante do ITS-Brasil. Um e-mail criptografado, de um servidor localizado na Suíça, indicou um endereço eletrônico para o qual deveriam ser enviadas as perguntas. Pouco tempo depois, Anhangá apareceu e disse que estava à disposição para esclarecer as dúvidas da reportagem. A partir daí, foi mandado um link de um chat privado, em que as mensagens eram destruídas após 24 horas. Nesse canal, foram feitas três entrevistas, reproduzidas ao longo destas páginas. Em fevereiro de 2019, a rede de televisão francesa TV5Monde utilizou o mesmo caminho para entrevistar o fundador do ITS, que se apresentou como “Xale”. A reportagem informava que o grupo tinha ramificação no Brasil.

EMBOSCADA – Aeroporto de Congonhas: o grupo planejou metralhar um ministro do STF na área de desembarque (Alf Ribeiro/Folhapress)

O máximo que Anhangá (que quer dizer espírito que protege os animais, em tupi-guarani) revela sobre si é que é do sexo masculino, tem entre 20 e 30 anos, está em Brasília e é um radical defensor da natureza. Com as vidas humanas, já não demonstra a mesma preocupação. Segundo ele, o presidente é um “estúpido populista” que “falha com sua segurança” e anda “sem uma proteção adequada”, o que facilita o atentado. Quando isso pode acontecer? “Um ataque a Jair Bolsonaro será sempre uma possibilidade latente.” Por quê? “Bolsonaro e sua administração tem declarado guerra ao meio ambiente.” Já há alguma preparação? “Tentamos sempre adquirir explosivos e armas mais potentes.” Onde? “Estudamos semanalmente nossos alvos.” Pode ser tudo bravata? Até pode, mas as evidências que se tem até agora apontam para o sentido contrário. Num inquérito sigiloso obtido por VEJA, a própria PF destaca que o grupo continua praticando atos criminosos com “extrema gravidade” e mostrando “profusão de ideias violentas e extremistas, além de divulgar ameaças contra a vida do Bolsonaro”. Isso, por si só, já se enquadra em crime de terror (leia mais nesta reportagem).

As ameaças contra autoridades de Brasília não envolvem apenas o Executivo. Em março, por determinação do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), foi instaurado um inquérito para apurar a origem de ataques a magistrados nas redes sociais. Numa primeira fase, os investigadores identificaram pessoas que usavam a internet para difundir notícias falsas e pregar agressões contra os ministros. Foi o caso de um advogado alagoano que publicou uma mensagem em que falava da necessidade de “matar aquele débil mental do irmão mongol do ministro Toffoli”. O irmão do ministro é portador de síndrome de Down. Identificado, o advogado prestou depoimento e disse que tudo não passava de bravata.

DO VIRTUAL PARA O REAL – Suzano: o massacre começou em fórum da internet (./Reprodução)

Mas não foi apenas isso. VEJA apurou que o inquérito do STF também reuniu evidências de um plano real de ataque contra um ministro da Corte. Os investigadores descobriram que um grupo havia monitorado durante algum tempo a rotina de um dos magistrados, cujo nome é mantido em sigilo, e de sua família, que mora em São Paulo. O objetivo era definir o melhor lugar para uma emboscada, e o local escolhido foi o Aeroporto de Congonhas. Por questões de segurança, autoridades e políticos têm acesso a salas vip em aeroportos. A ideia dos criminosos era cercar o carro do ministro na saída do terminal e metralhá-lo. “Eles diziam que ‘iam abrir fogo’”, revela um magistrado que teve acesso à investigação, conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes.

Curiosamente, o plano foi discutido em um chat da deep web também frequentado pelos estudantes Guilherme Monteiro e Luiz Henrique de Castro. Para quem não lembra, em março esses dois rapazes invadiram uma escola em Suzano, no interior de São Paulo, executaram cinco alunos e duas funcionárias e depois se mataram. No chat, o grupo que planejava o ataque ao ministro do STF trocava informações com os assassinos da escola. Por orientação da Polícia Federal, os juízes mudaram sua rotina e ampliaram o esquema de segurança. “Esse caso é diferente dos que já encontramos. Não se trata de alguém fazendo um desagravo ou uma bravata pela internet. Eram dois grupos distintos tramando dois ataques. O primeiro aconteceu. Não era brincadeira”, diz o mesmo magistrado. Infelizmente, o terrorismo, que durante tanto tempo não figurou entre as preocupações brasileiras, agora precisa ser levado a sério. Que os responsáveis sejam presos e punidos — antes que cometam as tais atrocidades que prometem.

INVESTIGAÇÃO - Alexandre de Moraes: ameaças não eram bravatas (Marcelo Chello/CJPress/.)

POSSIBILIDADE LATENTE

A conversa com o representante da SSS foi realizada através de um chat* na deep web. “Anhangá” confirma que o objetivo do grupo é matar o presidente

VEJA: O presidente da República, Jair Bolsonaro, é um dos alvos? Por quê?

Anhangá: Bem, ser um alvo ele é, só é bastante difícil às vezes de elaborar algo para alcançá-lo. Como ele é um estúpido populista às vezes falha com sua segurança e sai aqui em Brasília aleatoriamente sem uma proteção adequada. Ou em outros lugares como no Rio de Janeiro. As motivações carecem de justificativas porque são óbvias. Bolsonaro e sua administração tem declarado guerra ao meio ambiente, a Amazônia especialmente, tem feito de órgãos que teoricamente deveriam proteger a natureza catapultas para negócios danosos, facilitadores de exploração mineira, madeireira, caças, agropecuária, etc.

E isso de maneira intensa e explícita.

Proposital.

É um negacionista da catástrofe climática.

VEJA: Mas vocês ainda avaliam fazer um ataque ao presidente da República?

Anhangá: Um ataque a Jair Bolsonaro será sempre uma possibilidade latente. ITS-México feriu uma senadora mexicana com um livro-bomba, se não estou equivocado. ITS-Chile por pouco não mata o presidente de uma das maiores estatais do país com um pacote-bomba há dois meses, mais ou menos. Estas pessoas do alto escalão não são intocáveis, só é preciso saber das vulnerabilidades. As pessoas pensam que estamos parados, mas estudamos semanalmente nossos alvos, e tentamos sempre adquirir explosivos e armas mais potentes. Se a oportunidade bate em nossa porta Bolsonaro acabará como Luis Donaldo Colosio (político mexicano, morto em atentado em 1994).

*Foi mantida a grafia normal

NA CERIMÔNIA DE POSSE

“Conseguiríamos se tivéssemos tentado”

RECUO – Posse de Bolsonaro: um forte esquema de segurança impediu o ataque (Andre Penner/AP)

VEJA: Em relação à posse presidencial, qual era o plano de atentado?

Anhangá: Dificilmente conseguiríamos acessar a área restrita, havia barreiras e detectores de metal. Não era certo uma vista de longe para disparos, e mesmo que fosse, a área estava bastante vigiada por câmeras e atiradores, seriam deixadas sacolas com explosivos, na verdade iria atingir público, essa é a verdade.

Isso era viável.

Foi um público considerável, e facilmente poderíamos nos misturar e executar este ataque, mas o risco era enorme, e era previsível um ataque, então seria suicida.

Não queríamos isso.

E pensamos bem, outros membros de fora aconselharam também.

VEJA: Vocês desistiram, então, por causa da estrutura de segurança do evento?

Anhangá: De certo modo sim.

O risco era grande.

Mas conseguiríamos se tivéssemos tentado.

Só não é certo se sairíamos vivos.

VEJA: O que estava preparado?

Anhangá: Como mencionei, explosivos de extintores de incêndio e uma arma.

VEJA: Qual seria a finalidade da arma?

Anhangá: A finalidade máxima seriam disparos contra Bolsonaro ou sua família que desfilaria, seus filhos, sua esposa, o núcleo, mas sabemos que isso dificilmente aconteceria, mas essa era a finalidade. Não sabíamos se teríamos campo de visão para isso.

O MINISTRO DO MEIO AMBIENTE É ALVO

“Um lobo cuidando de um galinheiro”

INIMIGO – Salles e a “destruição” (Ueslei Marcelino/Reuters)

VEJA: Vocês também ameaçaram de morte o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Qual a razão disso?

Anhangá: Salles é um cínico, e não descansará em paz, quando menos esperar, mesmo que saia do ministério que ocupa, a vez dele chegará. Aquele sujeito já chegou a adulterar documentos para beneficiar mineradoras. Tudo o que faz e declara é antagônico ao cargo que ocupa. É um lobo cuidando de um galinheiro.

Ele foi condenado por isso.

É um aliado de empresas, mineradoras e ruralistas.

E não por acaso foi escolhido por Bolsonaro.

A MINISTRA NA MIRA

“A cristã branca que prega o progresso”

INIMIGA – Damares e o “progresso” Alves (Jorge William/Agência O Globo)

VEJA: Por que, além de Bolsonaro, vocês ameaçaram a ministra Damares Alves?

Anhangá Pelo símbolo que ela se tornou, a cristã branca evangelizadora que prega o progresso e condena toda a ancestralidade. Outro motivo é que o eco-extremismo é extremamente incompatível com o que prega o seu ministério, é um choque filosófico.

AS INVESTIGAÇÕES DA PF

“Não somos meros amadores”

(./.)

PREVENÇÃO – A Polícia Federal prendeu, em 2016, dez suspeitos de terrorismo. O documento acima mostra que a PF agora está no encalço da SSS (Ed Ferreira/Brazil Photo Press/)

VEJA: Por que até hoje a Polícia Federal não descobriu a identidade de vocês?

Anhangá: Porque são incompetentes e porque não somos meros amadores. Aqueles idiotas da Operação Hashtag foram presos enquanto preparávamos quase 10 quilos de explosivo. Não somos meros amadores, dominamos técnicas de segurança, de engenharia, de comportamento social. Pra falar a verdade discutimos internamente com membros de outros países e chegamos a conclusão que das polícias de cada país onde opera ITS a do Brasil é a mais avançada, mas ainda sim não foi capaz.

*de que

Como costumamos dizer, caminhamos com uma lebre, silenciosamente.

Terroristas, Ecologistas: Quem está por trás do grupo ITS, os Individualistas Tendendo ao Selvagem?

Esta é a tradução de Terroristes, écologistes: qui se cache derrière le groupe ITS?, uma reportagem do veículo francês TV5MONDE. Peca nas declarações do “investigador” frustado academicamente que faz afirmações tolas em torno de ITS. Suas declarações contrariam as de outros investigadores que definem Individualistas Tendendo ao Selvagem como um grupo lúcido, sensato, cabal e intelectualmente superior, com bastante formação intelectual e pensamento complexo. Para citar alguns exemplos temos a investigação da Bio-Bio Chile, o texto do El Mostrador El ecoterrorismo y la paradoja de la locura total, escrito pelo magistrado em direito ambiental Jorge Andrés Cash, e a entrevista do sociólogo e acadêmico da Universidade Central do Chile Rodrigo Larraín ao canal chileno Chilevisión Noticias. Talvez este “investigador” frustrado seja algum policial mal pago disfarçado para desacreditar ITS. Abaixo a reportagem.

Os eco-terroristas de ITS (Individualistas Tendendo ao Selvagem) são extremistas ecológicos para quem “todos os seres civilizados merecem morrer”. Desde dezembro de 2018 pelo menos cinco ataques foram reivindicamos em quatro países, incluindo a Grécia. Seu credo? Niilismo. Sua luta? O retorno à natureza, convencidos da inescapável destruição do mundo. Apresentamos uma entrevista exclusiva com um membro desta célula terrorista, presente na América Latina e na Europa.

Quando se fala em terrorismo se imagina os jihadistas da Al-Qaeda ou do ISIS, mas não se pensa em pessoas que podem colocar bombas em nome da ecologia. Esta é uma prática de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), um grupo eco-terrorista criado em 2011 no México, e que propagou novamente o terror no Chile em 4 de janeiro de 2019, depois de detonar uma bomba em uma parada de ônibus, no centro da capital, deixando cinco feridos. Seus membros parecem ter saído de um romance de ficção científica. Eles se movem clandestinamente na internet, e no vídeo enviado a TV5MONDE aparecem encapuzados e vestidos de preto. O membro da organização que fala neste vídeo se descreve como o “chefe de ITS no México”.

A TV5MONDE conseguiu entrar em contato com este grupo através de um blog conduzido por outro grupo eco-extremista de língua espanhola, “Maldición Eco-extremista“. Este blog está alojado no servidor italiano Altervista, que funciona como a “mídia oficial” de ITS. Todos os comunicados do grupo (75 até agora, sendo o último publicado em 22 de fevereiro de 2019), são publicados ali. O conteúdo do blog está em sete idiomas – Turco, inglês, italiano, português, grego, tcheco e romeno. “Nenhum membro de ITS fala francês”, indica um membro do “Maldición Eco-extremista” durante nossa investigação.

Para uma entrevista com um membro de ITS, trocamos emails com o “Maldición Eco-extremista” que nos pediu para criar uma conta em um serviço seguro de mensagens, com sede na Suíça. A entrevista resultante é a sexta desde a criação de ITS, e a primeira dada a um meio de comunicação em língua francesa. Três entrevistas de ITS foram dadas à mídia mexicana, depois à imprensa argentina, e por último a chilena.

TV5MONDE enviou a ITS perguntas por email. Xale, pseudônimo por trás do qual se esconde um dos membros fundadores de ITS e a cabeça da organização no México, respondeu algumas de nossas perguntas em um vídeo de sete minutos, posto a disposição através de um servidor baseado na Nova Zelândia.

Nada Nem Ninguém

“ITS foi criado espontaneamente”, diz Xale no vídeo que recebemos. “Em abril de 2011”, continua ele, “cometemos nosso primeiro ataque a bomba, que feriu gravemente um funcionário universitário no México. Queríamos parar por ali, mas vendo que poderíamos usar esse modus operandi, começamos a fazer dezenas de ataques com pacotes-bomba”.

Para ITS, um slogam resume tudo: “todos os seres humanos civilizados merecem morrer.” Em janeiro de 2019, enquanto ITS colocava um artefato explosivo em frente a uma universidade de Santiago, a capital do país, o grupo disse “se arrepender” de que o engenho não tenha explodido e matado alguém. “Qualquer um”, disseram no comunicado.

Ataques, mas com qual propósito? Nenhum. O grupo afirmou em 2016 a um jornal mexicano:não pedimos nada, não temos nenhuma demanda (…) não queremos resolver nada, não propomos nada a ninguém. Um niilismo em seu aspecto mais puro, é com esta nuance que Xale traz no vídeo: “Queremos participar da desestabilização da ordem estabelecida e, na paranoia coletiva, para aterrorizar os bons hábitos de uma sociedade corrompida por sua hipocrisia”.

“Todos os seres humanos civilizados merecem morrer.”
Trecho de um comunicado de ITS.

Além da desestabilização da ordem estabelecida, os niilistas do ITS desejam ferozmente um retorno à natureza. Uma visão como a de Rousseau, com frequentes referências aos povos indígenas da América Latina, tanto em revistas digitais, quanto no cenário do vídeo, com uma jarra utilizada pelo povo chichimeca (cabaça). A cena é adornada com um crânio de ovelha e raízes de uma planta mexicana: a mesquite, toda iluminada com “a cera de uma vela natural”, nos conta Xale.

Misticismo e Eco-terrorismo

Os nomes dos diferentes ramos de ITS também fazem referência a sua proximidade com a natureza: a “Horda Mística do Bosque” no Chile, as “Constelações Selvagens” na Argentina ou a “Seita Pagã da Montanha” no México. Seus membros não creem e nada, só em si mesmos, em sua “natureza selvagem” e suas “raízes primitivas”. “A esperança está morta aqui. Não existe. Não haverá mudanças nem revolução que transforme merda em ouro. Estamos perdidos e aceitamos nosso declínio enquanto olhamos o problema real: o progresso humano e a civilização moderna.”, disse Xale, membro fundador de ITS.

“Não pedimos nada, não temos nenhuma demanda (…) não queremos resolver nada, não propomos nada a ninguém”.
Trecho de uma entrevista de ITS dada a um jornal mexicano em 2016.

No entanto, ITS quer se livrar das fronteiras de qualquer ideologia e indicou, em 2016, na revista digitalRegresión – Cuadernos contra el progreso: “não somos revolucionários nem anarquistas, não representamos a esquerda radical. NÃO somos primitivistas. O romântico e ingênuo Zerzan (nota do editor da redação: filósofo primitivista) NÃO NOS REPRESENTA, tampouco o ingênuo radical Kaczynski (nota do editor da redação: eco-terrorista estadunidense) nem nenhum outro teórico grego, espanhol, italiano, brasileiro, nem ninguém”.

De acordo com um pesquisador latino-americano que prefere permanecer em anonimato por razões de segurança, ITS é um “grupo de pessoas jovens, mal preparadas, tanto intelectualmente quanto materialmente. O grupo se baseia em argumentos fracos”. Continua o investigador, “o que os faz ainda mais perigosos é que seu discurso evolui com o tempo”. Para o investigador, os membros de ITS tem mais “problemas mentais que crenças políticas”, o que é um “duplo perigo”.

Indivíduos tendentes ao selvagem, anticivilização

ITS está presente em sete países: três na Europa (Espanha, Grécia e Reino Unido (Escócia)) e quatro na América Latina: Argentina, Brasil, Chile e México.

Em 27 de junho de 2016 o grupo reivindicou o assassinato de Jaime Barrera Moreno, empregado da Faculdade de Química da Universidade do México, UNAM.

No blog Maldición Eco-extremista, haviam reivindicado outros assassinatos desde 2011, também relacionados com centros de investigação científica. Para ITS, “a humanidade está perdida”. Não é hostil à classe trabalhadora em particular, nem aos poderosos, o grupo se declara contra a “humanidade moderna”. Guerra de classes? “É uma estupidez desnecessária”.

“Por que atacar os oprimidos?”, se pergunta em uma declaração em janeiro de 2019. “Porque não nos importa o status social. Rico, pobre, carente. Qualquer ser humano merece morrer”, disse o grupo com um cinismo que não oculta depois de um ataque cometido na capital chilena.

Bombas em Nome da Ecologia

Em 4 de janeiro de 2019, uma bomba explode em uma parada de ônibus no centro de Santiago. O saldo: 5 feridos. Os santiaguinos ficaram com medo ao ver qualquer bolsa ou pacote esquecido na cidade nos dias após o ataque, a mídia ficou perplexa.

“Chile não está acostumado a este tipo de ações, e ainda menos quando não há uma ideologia forte por trás dele”, disse o investigador latino-americano contatado por TV5MONDE. Mas, acrescentou, “como em qualquer sociedade ocidental com um ritmo de vida agitado, este último ataque é quase esquecido por todos”.

Uma bomba em uma parada de ônibus e uma tentativa de incendiar um ônibus foi o que aconteceu no Chile em dezembro de 2018. Deixaram também explosivos na frente de igrejas no México e na Grécia na véspera de Natal do ano passado, ferindo a algumas pessoas. Bombas também foram abandonadas em frente a uma igreja no Brasil de Jair Bolsonaro, presidente de extrema direita recentemente eleito.

Os ataques de ITS, grupo oposto ao catolicismo, se dão em lugares “pequenos, isolados e fáceis de atacar”, analisa o investigador latino-americano. “Longe de um ataque em um shopping center, cercado por câmeras de segurança, onde aumentaria a pressão social para encontrar os perpetradores”, observa o investigador.

Por falta de evidências, as absolvições de ITS estão erigidas em vitórias. Após o ataque no Chile em 4 de janeiro de 2019, ninguém foi preso até agora.

Segundo uma fonte próxima à investigação a polícia chilena tem “poucas pistas”, e nenhuma delas “é clara”. Deve-se dizer que os serviços de inteligência chilenos foram desmantelados após a ditadura de Pinochet (1973 – 1990) e “não são efetivos”, disse o investigador latino-americano contatado por TV5MONDE. Isto explica sua “falta de jeito”, acrescenta, e explica em parte “os principais problemas no Chile para enfrentar e antecipar os casos de terrorismo”.

Em uma entrevista ao jornal andino La Tercera em janeiro de 2019, Raúl Guzmán, promotor encarregado da investigação do ataque de 4 de janeiro de 2019 em Santiago, segue na mesma direção: “Eu gostaria que a Agência Nacional de Inteligência do Chile (ANI) desempenhasse um papel mais operacional na descoberta de informações.” Em outras palavras, o promotor pede uma maior eficiência desta agência. Este promotor chileno agrega que estas ações terroristas “não obedecem a nenhuma ideologia política”. O niilismo, portanto, ligado ao desejo de liberdade dos animais.

Guerrilheiros da Causa Animal

ITS se opõe à domesticação de animais. Com os escândalos de carne polaca estragada, ou lasanha com carne de cavalo (*), podia-se crer que estes eco-terroristas são parte da linha anti-especista como a associação L214, mas não é bem assim.

Em um texto intitulado “O Mito do Veganismo“, criticam a “irracionalidade das ideias e valores da filosofia vegana”, denominada por eles “regime civilizado moderno que alimenta os sonhos progressistas dos humanistas de merda”. O eco-terrorismo não tem fé no homem, nem em seu futuro.

“A longo prazo, tudo o que queremos é sobreviver, continuar travando a nossa guerra, nos expandir a outras nações e ter êxito em todos os nossos ataques”, disse Xale no vídeo enviado a TV5MONDE.

Com respeito ao risco de ataques na França, de acordo com nossas fontes, ITS “não se constitui como uma ameaça imediata e prioritária no território nacional e não se considera suficientemente capaz para atacar os interesses fundamentais da Nação.”

*Se refere a escândalos relacionados com a indústria agroalimentar na França, como a carne polaca encontrada em mal estado e a venda fraudulenta de lasanha de cavalo.

Entrevista com o Popular Front Podcast: A Nova Onda do Eco-Terrorismo

John Jacobi, teórico da tendência Selvagista, concedeu uma entrevista recente ao Popular Front Podcast, um veículo investigativo britânico especializado em conflitos e guerras modernas. Na ocasião o tópico principal dos 54 minutos de conversa foi radicalismo e extremismo ecológico. É um registro pertinente e que merece ser compartilhado, especialmente porque se debate questões interessantes em torno de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), embora não concordemos com tudo o que é conversado. Abaixo está um resumo da conversa minuto a minuto.

DESCARREGAR ÁUDIO: LINK 1LINK 2

0: Apresentação do tema. John Jacobi fala sobre Eco-terrorismo, especificamente sobre ITS e o que o apresentador chama de “Militância Niilista”.
1: O que é Eco-terrorismo?
2: História do Eco-terrorismo (The Eco-Raiders).
3: Earth First!.
4/5: Ações da Earth First!
6: Surgimento do Unabomber e da ELF.
7/8: Processo de desconfiança e esgotamento das principais correntes do ambientalismo que levaram à radicalização.
9: Queda do Unabomber e prisões da ELF nos EUA.
10: The Green Scare.
11: Ao que se refere o conceito de Natureza Selvagem?
12/13: Ecologismo Radical, nem Esquerda nem Direta.
14: Surgimento de ITS e o renascimento do Eco-terrorismo.
15: Maior atenção da mídia ao assunto.
16: ITS, “a nova onda de Eco-terrorismo”.
17: O velho ITS, semelhanças com Ted Kaczynski e seus discípulos (UR) em atos e linguagem.
18: Primeiras ações.
19: Kaczynski rechaça ITS publicamente.
20/21/22: Retórica e estilo de ITS, passado e presente.
23/24: Extincionismo.
25: Expansão internacional de ITS.
26: Anarquistas desiludidos mudam de lado.
27: Táticas para a expansão, analogia com a Al-Qaeda e o Islamismo Extremista.
28: Pouca atenção por parte da imprensa, relevância no mundo do ambientalismo.
29: Novas analogias com o surgimento e o desenvolvimento inicial da Al-Qaeda em relação ao começo do grupo com pequenos ataques que servem tanto para fortalecer ao grupo como para criar laços e atrair indivíduos com psicologia semelhante.
30: Atassa.
31/32: Diferentes correntes que convergem em ITS, e um único fim, a destruição.
33: Relação com grupos satanistas, eco-fascistas e outros. Menção ao TOB e o ressurgimento do eco-fascismo.
34/35: A eco-militância está na moda?
36: As lutas ecologistas e sua tendência à radicalização no presente.
37/38: Atualidade das ideias de Kaczynski e a disseminação de um sentimento de desesperança e frustração.
39: A urgência de uma revolução e a polemização deste conceito por parte de ITS.
40: Grupos radicais e extremistas debocham dos movimentos ecologistas mainstream, já é tarde para cuidar do meio ambiente.
41: Crítica ao reformismo dos grupos mainstream.
42: Explicação do niilismo dos grupos radicais, buscam rejeitar o sistema e não concertá-lo.
43: É mencionada a possibilidade de realizar pequenas mudanças na medida em que a civilização vá tendendo ao desastre.
44: Grupos como ITS só querem participar do desastre.
45: Onde ITS aprendeu a fazer suas bombas?
46: Trabalho de Jacobi, “The Wild Will” e outros projetos.
47: Reselvagização em vez de violência.
48/49: Encerramento do programa e menção a outros projetos do Popular Front.
50/51: Agradecimentos e outras menções.
52/53/54: Música de encerramento.

Terceira Entrevista a Individualistas Tendendo ao Selvagem: A Mentira Sempre Tem Pernas Curtas

Traduzimos a terceira entrevista realizada com Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), desta vez concedida à revista política Siempre!.

A entrevista foi publicada na revista impressa e no site da empresa jornalística mencionada, embora não de forma completa. Um blog atribuído ao grupo terrorista a publicou sem cortes.

É válido mencionar que desde a publicação da entrevista (2017) ITS se expandiu ainda mais pelas Américas e inclusive pela Europa, com o surgimento de grupos na Grécia, Reino Unido e Espanha.

1. – Desde quando o grupo existe e em quais outros países operam?

Em 2011 “Individualidades tendendo ao selvagem” (Its) começou a operar, levando a cabo ataques contra centros de pesquisa científica, universidades, entre outros, nos municípios do Estado do México, nas delegações da Cidade do México, em Hidalgo, Morelos, Guanajuato, Veracruz e Coahuila.

Cabe destacar aqui que desde o ano de 2011 até então nós passamos por várias fases, por exemplo, em 2014 formamos um grupo chamado “Reação Selvagem” (RS) junto com uma dúzia de grupos que aderiram ao projeto, operando no Estado do México, Cidade do México e Tlaxcala, deixando de lado o nome “Its”. Já em 2015 RS foi dissolvido para que cada grupo continuasse o seu caminho sem estarem necessariamente unidos.

Em 2016 renasce “Individualistas Tendendo ao Selvagem” (ITS), e até agora temos presença na Cidade do México, Estado do México, Coahuila, Chihuahua e Jalisco. Este novo ITS tem como um de seus objetivos a expansão internacional desta tendência, portanto, em fevereiro deste mesmo ano, grupos de ITS surgiram no Chile e Argentina. Em Santiago, capital chilena, um grupo de ITS incendiou uma máquina do tipo “Metrobus” em plena luz do dia e com passageiros ainda dentro, e embora não houveram feridos, o ataque foi o terrorístico sinal da chegada do eco-extremismo ao sul do continente. Neste mesmo mês, mas em Buenos Aires, capital argentina, um grupo de ITS detonou um artefato explosivo nas imediações da Fundação Argentina de Nanotecnologia, realizou várias ameaças a cientistas e abandonou um pacote-bomba em uma estação de ônibus. Em agosto de 2016 o eco-extremismo chegou ao Brasil, um grupo de ITS detonou uma panela de pressão cheia de pólvora negra no estacionamento do centro comercial Conjunto Nacional, em Brasília.

Devemos reconhecer que nestes anos de atividade o Eco-extremismo teve cúmplices, afins de sangue aderidos à tendência do Terrorismo Niilista, defendida e representada pelas Seitas Egoarcas na Itália. Também surgiram vários grupos na Alemanha, França, Finlândia, etc., que embora não se digam eco-extremistas, compartilham o discurso visceral contra a civilização e o progresso humano, melhorando com isso a “bandeira” do individualismo.

Como é possível ver, não somos um grupo novo que saiu do nada, temos um histórico e as autoridades federais sabem disso, só que nunca nos reconheceram de maneira direta porque não lhes convém e, claro, a grande maioria dos meios de comunicação dissemina a verdade “oficial”, embora esta sempre feda.

2. – Qual é o objetivo de vocês para formar um grupo desse tipo e o que realmente estão buscando?

Individualistas Tendendo ao Selvagem é um grupo de pessoas anônimas com conexões internacionais unidas para fins criminosos, ou seja, somos uma Máfia.

ITS é um grupo com vistas à destruição e ao caos na civilização, detestamos e rechaçamos cada aspecto da vida civilizada, artificial e industrializada que é imposta à Natureza Selvagem. ITS é a vingança esquecida que nossos antepassados nos deixaram. Há séculos atrás os antigos reagiram violentamente contra a chegada dos ocidentais, mas também reagiram da mesma forma contra a chegada das civilizações mesoamericanas. Os nativos caçadores-coletores nômades destas terras nunca se renderam e muitos preferiram morrer ao invés de se submeter a modos de vida alheios às suas culturas. Na ITS nós resgatamos essa resistência selvagem, agora nós reagimos violentamente contra qualquer indício de civilização como fizeram os nossos antepassados mais antigos. ITS é apenas a expressão de algo maior, ITS é também a chuva que inunda cidades, é a avalanche que soterra vilas inteiras, são os raios que acertam infraestruturas alheias ao ambiente, é o terremoto que inesperadamente põe tudo abaixo, é o ataque da onça contra a sua presa, é o belo canto do faisão, o vôo do condor, o nado das tartarugas marinhas, as ervas que saem do pavimento rachado das pestilentas cidades. Todos nós temos um assassino primitivo no fundo de nosso ser, e nós o deixamos sair e isso surgiu e não iremos parar, porque o eco-extremismo é apenas uma expressão do Selvagem, ITS é um grupo de indivíduos com um objetivo comum mas, por si só, o Selvagem sempre prevalecerá.

Cabe ressaltar que nós não queremos voltar para as cavernas, não queremos voltar a ser primitivos como o homo sapiens, e qualquer um que diga isso é um idiota e não leu nada do que nós escrevemos. Isso é ITS, e nós realmente não esperamos que muitos entendam isto, poucos o fazem.

3. – Por que utilizar o crime como um meio para resolver conflitos? Por que ir ao extremo de atentar contra a vida das pessoas? Não há outra saída?

Para nós não há saída pacífica a isto, não há ofertas com ninguém, não há acordos nem negociações, o que estamos vivenciando é uma Guerra entre o civilizado e a Natureza Selvagem. Por acaso há outra saída para as milhares de árvores que são cortadas diariamente pelas mãos humanas? Por acaso houve outra saída para os animais selvagens marinhos presos nas redes dos pescadores legais e ilegais? Por acaso houve outra saída para os nossos ancestrais que foram expulsos de seus territórios e massacrados séculos atrás pelos ocidentais que vieram para “nos conquistar”? Por acaso houve outra saída para a Terra devastada pela extração de minérios das grandes indústrias? Por acaso há outra saída a toda esta loucura civilizada? CLARO QUE NÃO. O humano moderno segue crendo que é o umbigo do universo, segue se sentindo deus e dono de tudo ao seu redor, embora a sua existência signifique para o universo uma total insignificância. Nós, ITS, aceitamos que somos parte do ser humano moderno, só que nós nos demos conta de que ainda somos parte da Natureza Selvagem, porque quando vemos um rio contaminado sentimos raiva, quando vemos máquinas perfurando a Terra nos gera tristeza, quando vemos milhares de carros indo e vindo nas fedorentas cidades sentimos ódio, quando vemos o avanço da mancha urbana sepultando ambientes inteiros sentimos repúdio, quando lembramos que os antigos morreram lutando contra os civilizados a única coisa que sentimos é o desejo de reivindicar a sua vingança e continuar com a sua guerra, e o crime é o punho com o qual batemos. Dizem por aí que em um país cheio de ladrões ser um criminoso é motivo de orgulho, por isso tomamos para nós estas palavras.

Deve-se notar que a nossa causa não é nobre, não é de justiceiros se acaso pensaram isso em algum momento, ITS é um grupo politicamente incorreto de criminosos, defensores amorais do Selvagem, assassinos do que é ocidental e não lamentamos dizer isso porque aprendemos com isso, com o Selvagem. Somos indiscriminados como os terremotos e as inundações, somos bestiais como as onças atacando e discretos como as raposas espreitando.

4. – Existe alguma pessoa ou grupo que patrocine vocês ou algum grupo que esteja com vocês?

Dentro do que chamamos de Máfia Eco-extremista existem vários grupos que, certamente, não são parte de ITS e não tem relação conosco, mas que lideram diferentes projetos de propaganda teórica, porém não há patrocínio de ninguém. São vários os grupos que editam as revistas, escrevem textos com bases filosóficas e antropológicas (principalmente), criam blogs, traduzem artigos, estão a par do que acontece, e mantém isso em um constante fluxo de atividade. Por exemplo, os nossos comunicados estão traduzidos ao inglês, italiano, português, tcheco, polaco, alemão, francês, turco, romeno, grego, galês e até mesmo em hebraico. Isso é a prova de que nossas palavras e atos têm se estendido também graças a todos aqueles e aquelas que simpatizam com a nossa tendência, mas, novamente, estes grupos NÃO tem nada a ver com as atividades de ITS.

5. – O que vocês se consideram? São anarquistas? Qual é a filosofia de vocês?

Não, nós não somos anarquistas. O anarquismo é bastante recente em comparação com o que defendemos. Te digo que naquela época do Iluminismo muitas das ideias liberais começaram a florescer na Europa, houve uma em particular que aquelas velhas massas proletárias se apegaram muito (além do Marxismo), especialmente por suas demandas idealistas, foi assim como o anarquismo teve seu auge no século XIX. Naquela época as pessoas sonhavam com um amanhã melhor, devaneavam em trabalhar no hoje para a “revolução” futura, algo que nunca chegou a ser plenamente realizado devido aos “obstáculos” que os estados colocavam no caminho ácrata. E se esta “revolução” por acaso tiver chegado ela se transformou em algo completamente diferente das ideias originais. É engraçado porque os anarquistas quase sempre eram tão estupidamente nobres que até mesmo deixavam o caminho livre para os comunistas, e então eles se apoderavam de suas realizações e se atribuíam de seus trabalhos, assim aconteceu na Ucrânia, Rússia, Cuba, Espanha e até mesmo aqui, em Veracruz, durante o movimento arrendatário, mas estas são outras histórias.

Voltando ao assunto, o anarquismo é uma daquelas ideias nascidas das demandas progressistas de “liberdade, igualdade e fraternidade”, demandas que nós desprezamos completamente, uma vez que a “liberdade” já não existe nesta era, é uma palavra e prática morta, alguns tolos quiseram se apegar a seu cadáver, mas cedo ou tarde acabam fedendo junto aos restos podres da história. A “igualdade” é um mito, tampouco existe, nada é igualitário, e se alguma vez fosse, o mundo seria uma cópia fiel do romance de Orwell ou pior ainda, do de Huxley. A “fraternidade” é uma questão relativa, mas quando os progressistas a invocam quase sempre se referem a uma fraternidade ou solidariedade com o “próximo”, o que é asqueroso. Como você pode ser fraterno com alguém que você não conhece? A solidariedade promiscua é o que o sistema quer que pratiquemos para que ele siga adiante, porque quanto menos problemas sociais existirem tudo irá segundo o planejado. O sistema precisa de menos crimes, menos corrupção, menos discriminação, menos discussões entre diferentes grupos sociais para que a civilização siga de pé, é por isso que a mídia dissemina tanto esse mito da igualdade, da não-violência e contra a divisão, e é por isso que nós repudiamos a igualdade e somos violentos, porque somos desses humanos que resistem em ser ovelhas do rebanho, somos a contrapartida deste sistema, nossos instintos assassinos voltaram dos lugares mais hostis habitados pelos selvagens. Então, com os nossos ataques estamos honrando a memória de Guerra dos antigos, estamos levando o caos e a destruição a uma civilização que declarou guerra não só a nós, mas a toda a Natureza Selvagem. O vírus do humano moderno se estende, eles destroem bosques, contaminam rios, envenenam a Terra, roubam minerais, vagueiam sem rumo, invadem ambientes, modificam sementes, etc. Eles têm visto a devastação que causaram na Terra e buscam por novos planetas para habitá-los no futuro; o sistema tecno-industrial tornou-se extremista, então por que não reagir da mesma maneira contra todo este lixo? ITS faz isso, reagimos na forma de atentados porque isso é uma Guerra, porque embora aceitemos que somos humanos modernos temos dentro de nós a chama da confrontação selvagem.

ITS não se define ideologicamente, nós representamos uma tendência chamada “Eco-extremismo”, que é anti-política, amoral, suicida, indiscriminada e seletivamente terrorista, pessimista, anti-revolucionária, que realça as crenças pagãs ancestrais anti-cristãs, levanta o nome da Natureza Selvagem, ridiculariza até não poder mais a demência dos valores humanistas, rechaça categoricamente o progresso humano, e não tem problemas em cair em supostas “contradições” no discurso, por exemplo, no uso da internet para realizar propagandas. Tudo está justificado, nesta guerra se vale de tudo.

6. – Como operam? Realizam algum tipo de atividade para conscientizar as pessoas sobre cuidados com o meio ambiente ou seus atos são destinados unicamente, como afirmado à imprensa, a aterrorizar, ferir ou assassinar?

A verdade é que não nos interessa “conscientizar” as pessoas, não somos revolucionários nem nos interessa que as pessoas “despertem” de seu sono letárgico. A massa gosta de viver entre seus próprios excrementos e bem, você perguntaria, e porque então publicar comunicados, propagandas e responder a entrevistas se não querem conscientizar os outros? E a resposta é fácil. Sabemos que há individualistas como nós em alguma parte desta bonita Terra, e sabemos que são muito poucos, estes atos são um eco que chegam a eles, que talvez os inspirem a realizar atentados como nós. Os comunicados nós publicamos não para ganhar adeptos ou para chamar a atenção para a contaminação (por exemplo), mas para reivindicar egoisticamente os atos que são nossos, ITS não permitirá que outros se responsabilizem pelo que temos feito ou que as autoridades afirmem que foi a delinquência comum, NÃO, os atos que fazemos são unicamente nossos e escolhemos um acrônimo na União de Egoístas para gerar uma ferida em nossas vítimas, queremos aterrorizar porque isso não responde a nenhuma demanda política, é apenas por seguir o impulso animal-primitivo e impô-lo sobre o civilizado.

7. – Como vocês escolhem as suas vítimas? Vocês tem contato com elas antecipadamente ou simplesmente as escolhem aleatoriamente?

Depende, o especialista em biotecnologia Ernesto Méndez Salinas assassinado em Cuernavaca, nós o seguimos durante semanas, até que metemos uma bala em sua cabeça em 8 de Novembro de 2011, enquanto ele dirigia a sua camionete por uma das vias mais famosas da cidade.

Com o vice-reitor da Tec de Monterrey aconteceu o mesmo, alguém nos disse que ele viajaria de Monterrey a Chihuahua para um assunto de família, e quando ele saía de uma igreja nós o caçamos e o matamos em Fevereiro deste ano, embora devamos dizer que por uma falha na pistola utilizada não pudemos disparar contra a sua esposa, então decidimos apenas tomar a sua bolsa para que ela não chamasse a polícia, mas se não fosse por isso a sua esposa teria tido o mesmo destino que o seu marido. Foi por isso que as autoridades de Chihuahua disseram que havia se tratado de um roubo, mas eles sabem que não foi apenas isso.

Já o casal que matamos no Monte Tlaloc nós os matamos apenas porque se encontravam no caminho. Originalmente íamos pelos madeireiros, os quais nunca apareceram, apenas estes dois transeuntes “amantes da natureza”. Nós não queremos ver humanos nos ambientes ameaçados por eles mesmos, então os madeireiros, campistas, exploradores e assim por diante também estão na lista. O mesmo aconteceu com a mulher assassinada na Cidade Universitária, já dissemos na entrevista com a Rádio Fórmula porque a matamos, não precisamos dizer mais nada a respeito.

O que queremos deixar claro é que nós não temos uma maneira específica de atacar, da mesma forma que podemos colocar uma bomba em um shopping para que fira a todos aqueles e aquelas que estejam perto do artefato, nós podemos também matar a um cientista especializado e podemos atacar por todas as partes, desenvolvendo-nos prazerosamente no ato de atentar, desfrutando do momento e gerando nervosismo, Caos e desestabilização.

8. – Por que agir dentro da UNAM? Há alguma conexão com algum outro grupo, por exemplo, com o que tem ocupado o auditório Che Guevara?

A UNAM é o berço do progresso, a partir dali são concebidas as mentes do futuro, que estão sempre pensando em melhorar o lixo que está deixando a espécie. A UNAM, a Tec de Monterrey, qualquer universidade pública ou privada, qualquer centro educativo, todos tendem à artificialidade, é por isso que merecem pacotes-bomba, incêndios, balas, terror e morte.

E sobre o auditório Che Guevara, queremos deixar bem claro que nós desprezamos esse lugar tanto quanto nós desprezamos o progressismo. Dentro deste okupa se escondem um bando de hippies fedorentos revolucionários que enchem as suas sifilíticas bocas com álcool, inalam e fumam drogas enquanto dizem que são “livres”, enquanto pagam de fodões, sempre se esquivando da ideia de que também são fantoches; este tipo de gente é o pior lixo. São estas pessoas que estão a favor do progresso humano, mas de uma maneira diferente, não se dão conta de que estão iludidos, mas ainda sim se sentem os mais radicais. Há tempos a comunidade universitária tem os “convidado” para que abandonem a CU, os estudantes bunda mole fazem marchas e entre todas as suas razões para expulsá-los dali dizem que é porque dão “má imagem à UNAM”, que “quando passam fedem à maconha”, rá! Sabem o que vemos aí? Primeiramente, vemos a eterna luta entre “moderados” ou “ultras” da greve de 99 (com muitas nuances claras), e segundamente, vemos a hipocrisia feita realidade, de um lado os “okupantes” se fazendo de coitadinhos, e do outro os estudantes julgando a seu próprio reflexo, como se eles fossem abstinentes. Enfim… Nós não tememos a relação com eles nem com nenhum okupa, organização, nem grupo anarquista, marxista, nacionalista ou de qualquer tipo, pois o que defendemos vai contra o que eles acreditam.

9. – Estamos inevitavelmente em um ano eleitoral, e há quase um ano uma mudança no comando presidencial, há alguma conexão entre suas ações e isso?

Repito, nós não temos ideologias políticas, o que defendemos vai além da política, então pensar que o que fazemos tem um fundo político é repetir o mesmo coro conspiracionista de 50 anos atrás.

10. – Há algo a mais que vocês crêem importante destacar na entrevista?

Nada. Apenas acrescentamos que seguiremos com o que fazemos, nada disso acabou, as autoridades e certos meios de comunicação podem até se fazer de desentendidos e dizer que o que fazemos é falso ou que não fomos nós quem fizemos, não nos importamos, há apenas que enfatizar uma coisa, a mentira tem pernas curtas…

-Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS)

Segunda Entrevista a Individualistas Tendendo ao Selvagem

Tradução da segunda entrevista de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) concedida à Radio Fórmula em 12 de Maio de 2017, a qual se centra no escandaloso assassinato de uma mulher na Cidade Universitária pelas mãos do Grupo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem (GITS).

Por quê mataram-na?

A pergunta pode ter várias respostas, mas vamos direto ao ponto, o assassinato da mulher na Cidade Universitária foi uma brutal e sufocante reação de repulsa ao ser humano moderno. Por acaso você acha que uma pessoa vagando na madrugada cambaleando devido as drogas químicas ingeridas é digna de seguir vivendo? Nós pensamos que NÃO, é por isso que ela recebeu o que queria, o que ansiava profundamente, a morte.

Todos os membros de ITS repudiam completamente os vícios do ser humano moderno, rechaçamos nitidamente a sua diversão asquerosa, nós odiamos aqueles que com pouco ou muito dinheiro que tem vivem alterando os seus sentidos, estes e estas que apenas removem oxigênio do mundo, são um desperdício, um lixo de pessoas, sejam homens ou mulheres, são o mesmo vírus que infecta esta bela Terra e é por isso que merecem a sua extinção.

A mulher assassinada na CU é o reflexo fiel de uma sociedade decadente que vive com pesar, pessoas fracas que não podem enfrentar a vida com toda e sua crueza, e decidem se drogar com substâncias estranhas, covardes que estão no mundo epenas vegetando inutilmente.

É engraçado que a reação por ter assassinado uma mulher dentro da CU seja tanta, e embora não seja estranho, é certeza que o mesmo teria acorrido se uma mulher tivesse sido morta na Cineteca Nacional, no Politécnico, ou em qualquer outra área onde as feministas operam. A CU, como já dissemos, é um dos berços do progresso, ali é onde o humanismo pestilento é escondido e ensinado sob o enganoso manto do “pensamento próprio e crítico”. Já vimos as amostras de repúdio e ficamos com um sorriso derramando bile. Todas estas feministas são umas idiotas que com estas demonstrações banais sabem apenas se ver como indefesas, se veem como umas “vítimas revitimizadas”, algo completamente contrário ao que quiseram demonstrar. Para todas as feministas e “feministos”, ou seja, para todos os progressistas, a nossa mais hedionda e execrável cuspida. O novo e mais escandaloso atentado realizado em seu berço é a prova de que isso não é um jogo e de que estamos falando sério. Chamem-nos de assassinos, covardes, pós-modernistas e toda a sua besteira, nenhum de seus insultos através de um computador, nem suas marchas, nem suas assembleias esquerdozas, nem o repúdio podem apagar o que fizemos.

Ah! E é claro, sim, estamos contra o progresso, odiamos a sociedade tecnológica, e não nos importa merda alguma se nos chamem de “incongruentes” com este discurso, isto é, quando usamos computadores para lançar nossas as mensagens misantropas contra as massas.

Como podem provar que foi vocês?

Lembram da vez que o grupo de ITS “Máfia Eco-extremista/Niilista (ME/N) disse em Junho do ano passado que haveria mais derramamentos de sangue? Não era uma piada e olha, aí está a prova. Vale ressaltar que ITS tem vários grupos operando no México e fora deste território, ME/N disse que em seu próximo assassinato removeriam o couro cabeludo de suas vítimas, e respeitamos a sua decisão. Nós somos outro grupo que nos distinguem os assassinatos sem nenhum modus operandi específico, então não esperem provas de nada, apenas a reivindicação surpresa como agora.

Quais outros homicídios e ações realizaram nos últimos meses?

Em Janeiro vários grupos de ITS participaram de saqueios, roubos e uma grande variedade de atividades delinquenciais após o gasolinaço no Estado do México e Cidade do México.

Neste mesmo mês ITS do Brasil abandonou uma carga explosiva numa rodoviária em Brasília, assim como ITS do Chile enviou um pacote-bomba à casa do presidente da diretoria da mineradora multinacional Codelco, Óscar Landerretche, em Santiago. O pacote detonou exitosamente ferindo tanto o alvo como a sua filha e a empregada.

Em Fevereiro grupos de ITS da cidade de Torreón, Coahuila, reivindicaram o abandono de dois artefatos incendiários em igrejas da região, bem como abandonaram um pacote-bomba em uma loja pertencente a uma empresa de biotecnologia (Sanki).

Um grupo de ITS no município de Tlalnepantla incendiou um ônibus com passageiros dentro, embora não houve feridos.

No último dia de Fevereiro um grupo de ITS na cidade de Chihuahua assassinou com um tiro na cabeça o vice-reitor da Tec de Monterrey quando este saía de uma igreja.

Em Março um grupo de ITS realizou um ataque armado contra um prédio de propriedade da ICA/CARSO no município de Zumpango, Estado do México.

Em Abril um grupo de ITS em Torreón, Coahuila, abandonou de maneira indiscriminada um pacote-bomba em um dos bancos de La Alameda, resultando em uma adolescente com queimaduras.

Muitos já sabem o que aconteceu em 30 de Abril quando matamos a uma dupla de caminhantes no Monte Tlaloc em Texcoco, Estado do México, e em 3 de Maio, a tal Lesby.

Estamos apenas começando, a Máfia de ITS se estende pelo México, Chile, Brasil e Argentina e não há indícios de que possam nos deter.

Quais serão as suas próximas ações?

Apenas nós e o Oculto sabemos dos nossos próximos atentados, não há garantia em nada, não há avisos de advertências assim como o Jaguar em seu ataque, como a repentina tempestade que cai do céu, como os terremotos que sacodem e deixam destruição…

Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS)

Grupo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem (GITS)

Duras Palavras: uma conversa Eco-extremista

Esta é a tradução de uma extensa discussão de natureza jornalística divulgada na web através da publicação Atltlachinolli: Conversaciones Eco-Extremistas, onde Xale, editor-chefe da Revista Regressión, responde às questões postas por HH. No texto eles passam por assuntos como a etapa de ITS iniciada em 2016 juntamente com sua internacionalização e evolução, abordam o paganismo, a importância da atividade delinquencial para a tendência discutida, niilismo e a relação da tendência com os niilistas terroristas da Itália, eco-extremismo nos EUA, “reselvagização”, problemáticas com os anarquistas e vários outros temas que compõem a tendência eco-extremista.

“Duras são estas palavras! Quem pode ouvi-las?”

– (João 6:60)

Como leitor nunca estive muito satisfeito com todas as entrevistas que foram feitas com vários eco-extremistas durante alguns anos. Os interlocutores sempre foram mal informados, de má fé, não dispostos a aprender algo novo ou simplesmente não são muito inteligentes. De todos os modos, como um leitor um pouco mais informado queria fazer umas perguntas que realmente vão ao fundo do eco-extremismo, suas origens e sua evolução recente. Neste sentido, Xale, editor-chefe da Revista Regresión e membro de ITS-México, um especialista sobre estas questões, foi bastante generoso com seu tempo para responder às seguintes perguntas ou/e pensamentos.

Há de notar que tivemos esta conversa num espírito jornalístico. Fizemos e respondemos as perguntas para informar e não exortar neste documento. O interlocutor principal se declara independente de ITS ou do eco-extremismo, e apenas faz a entrevista para informar ou “entreter”.

Comecemos:

HH: Desde o início da nova fase de ITS e sua internacionalização, quais são as lições que você crê que aprenderam os eco-extremistas? Como crê você que o eco-extremismo evoluiu desde o início deste ano?

Xale: Este ano gregoriano tem sido bastante movimentado, cheio de novas notícias, novas cumplicidades e novas tonalidades nos atos e discursos dos eco-extremistas.

Como individualista partidário desta tendência penso que as lições deixadas durante a expansão do eco-extremismo são diversas e variam dependendo do individualista que as experimenta, mas pessoalmente falando penso que tem havido um avanço qualitativo referente a atos extremos contra o objetivo que o leitor inteligente conhece, a civilização e seu progresso.

Os eco-extremistas no Chile que aderiram a ITS ensinaram que se pode gerar um dano impressionante com apenas 1 litro ou menos de líquido inflamável, como fizeram com o ônibus Transantiago e com o centro comercial Mall Vivo, em fevereiro e maio, respectivamente. Também nos ensinaram que, embora em alguns casos os dispositivos não funcionem, a ameaça prevalece, os ânimos não se deterioram e a guerra de nervos prossegue.

Os eco-extremistas que se encontram na Argentina igualmente aderidos ao projeto de ITS ensinaram uma muito particular atitude terrorista e indiscriminada, as recentes ameaças de bomba em colégios, universidades e estações de metrô em maio e junho. É possível ver um rastro evidente do desprezo à vida civilizada em todas as suas variantes e em todos seus cantos. Isso também é evidenciado após ler seu comunicado emitido neste mês de agosto no qual se fazem responsáveis por envenenar dezenas de garrafas de Coca-Cola que foram distribuídas em um par de supermercados de Buenos Aires, ameaçando de maneira formidável a estabilidade social e física dos hiper-civilizados.

Os eco-extremistas no Brasil que também se uniram recentemente a ITS mostraram o fator surpresa, atacaram ferozmente e ensinaram que a ameaça de ITS é imprescindível. Sua sagaz atitude materializada em três quilos de pólvora negra detonada em um centro comercial de Brasília deixa desmoralizada as autoridades que mexem e remexem tentando encontrar os responsáveis por esta tendência que está presente em quatro países e que segue com suas ameaças.

Os eco-extremistas no México, lugar onde se forjou o projeto internacional de ITS, também ensinaram várias lições. Seu atentado homicida contra o chefe de serviços da faculdade de química na UNAM quis demonstrar a facilidade de atacar a qualquer momento os hiper-civilizados com apenas uma faca e alcançar o objetivo, demonstrou que é possível atacar o mais elevado local de aprendizagem dentro de suas próprias instalações, escarmentando as autoridades (com a morte de um homem no campus) por ocultar seus atentados passados na CU.

Seus constantes ataques com explosivos também evidenciam sua capacidade de ataque, sua diversidade no modus operandi e sua imparável atividade, embora seus atentados sejam censurados.

O antigo ITS em 2011 se concentrou em expandir à nível nacional e daquele ano até 2013 teve presença na Cidade do México, Estado do México, Morelos, Hidalgo, Coahuila, Veracruz e Guanajuato. Nos anos sucedidos esta expansão parou um pouco, e agora ITS-México, regionalmente falando, tem presença apenas na Cidade do México, Estado do México, Michoacán, Jalisco e Coahuila, embora tenha se internacionalizado, o que ensina a perseverança e a continuidade deste projeto.

Agora entrando no âmbito da teoria, o eco-extremismo também tem crescido nisso. No ciclo de RS (Reação Selvagem), ao menos eu considero que os editores da Revista Regresión juntamente com os grupúsculos do RS deram as bases teóricas para a tendência, as quais concentraram-se no estudo de grupos caçadores-coletores nômades da região, resgatando sua atitude hostil frente ao alheio e seu animismo pagão. Terminado este ciclo com RS, considero que “deixamos em paz” estas questões e nos concentramos na prática até que outros teóricos colocaram o dedo mais uma vez no assunto. Chahta-Ima, considero que é o mais importante teórico eco-extremista no decorrer deste novo ciclo, seus ensaios e investigações tem sido fundamentais para que outros individualistas cresçam e tenham fundamentações históricas para atacar ou seguir atacando.

O eco-extremista necessita de prática e teoria, necessita saber e fazer, necessita conhecer, aprender e ao mesmo tempo ensinar com atos e palavras a seus irmãos de guerra.

Em geral, o eco-extremismo não tem “planos futuros”, não atua sob um “programa” específico, não se alinha a procedimentos de luta pré-determinados, não possui uma estratégia a seguir, nós eco-extremistas atuamos sob a espontaneidade, fazemos coisas que consideramos oportunas ou não, para gerar uma reação, seguimos nossos instintos animais e prosseguimos com a herança de Guerra até que, como um pombo migratório, desapareçamos.

HH: Creio que as pessoas que leem a literatura eco-extremista não entendem o papel da “guerra de nervos”. Sei que foi explicado, mas ainda sim há críticas às ações eco-extremistas onde estipulam que devem ter um foco em atacar a infraestrutura elétrica ou o que quer que seja. Dizem que as ações dos eco-extremistas variam entre piadas de mal gosto (com bomba) ou assassinato psicopata (como houve na UNAM). As pessoas não sabem muito bem que tudo isso é parte de uma tática que é a “guerra dos nervos”. A clandestinidade, a decepção, o ataque indiscriminado, etc…, não funcionam apenas para golpear as estruturas da civilização (as quais, claramente falando, são difíceis de se atacar, e ao serem destruídas, são reconstruídas, dando assim mais trabalho “útil” para a massa), mas também para que o eco-extremista se converta no “monstro debaixo da cama”, uma ameaça a mais que a civilização criou. Ao menos para mim esta etapa do eco-extremismo sublinha este aspecto de ITS e os demais grupos.

Xale: Sim, as pessoas que tem dito que os atos de ITS e de outros grupos são “piadas de mau gosto” ou atos realizados por “assassinos psicopatas” talvez pensem que a guerra contra a civilização é apenas um jogo, talvez pensem que é apenas atacar centrais elétricas ou objetivos semelhantes. Nós e os demais eco-extremistas deixamos de pensar isso e tomamos a Guerra contra a civilização como um todo, como uma guerra REAL e não a entendemos como um fato onde se deva realizar atos “aceitáveis” para os demais radicais ou que midiaticamente sejam vistos como “espetaculares”. Embora os atos de ITS resultem incorretos para algumas pessoas, incômodos e insuportáveis, é exatamente o que deseja o eco-extremismo, demonstrar que a Guerra contra a Civilização tem que ser levada à sério e apenas deve ser travada por individualistas que realmente desprezam a morte e todo o progresso humano, há de haver sangue derramado, há de se ter feridas, mortes, uma vez que esta é a Guerra e nós que a levamos a cabo não hesitamos em aceitá-la.

Ultimamente o mundo ocidental tem andado catalogando as pessoas que realizam qualquer ato de violência extrema como “psicopatas”, “mercenários”, etc., e isso podemos ver nos atos terroristas do Estado Islâmico, e de fato é uma estratégia dos governos e seus meios de comunicação para desacreditar as causas maiores “rebaixando-as” a uma desordem mental ou o que seja. Não é surpreendente que as pessoas que portam os valores ocidentais sigam a mesma linha estratégica para também desacreditar os eco-extremistas.

HH: Qual é a relação entre o eco-extremismo e o niilismo? Pergunto porque aparenta que o terrorismo niilista é como “a rama” do eco-extremismo na Itália e, talvez, em alguns outros lugares.

Xale: Há pouco tempo se vem somando e desenvolvendo em conjunto com o eco-extremismo a tendência terrorista-niilista, aquela que não é passiva e que renega todos os valores morais fundamentais da civilização. O niilismo-terrorista e, em especial, o que tem defendido alguns grupos de individualistas na Itália, é a filosofia na qual encontramos a verdadeira afinidade, uma vez que é totalmente contrária ao humanismo e ao progressismo que os eco-extremistas tanto criticam.

Penso que os individualistas da América (de qualquer país) sintam simpatia com o eco-extremismo e isso pode ser visto na expansão do ITS e no fato de que certos grupos tem adotado pequenas, mas importantes, características desta tendência. Mas tenho notado que os “latino americanos”, em particular, sentem-se mais atraídos que os europeus que acabam se inclinando mais pelo niilismo, embora a esta altura o eco-extremismo e o niilismo-terrorista andem de mãos dadas.

Não é de se admirar que aqueles que habitam as terras deste lado do mundo se sintam atraídos por esta tendência já que o eco-extremismo é o chamado de nossos ancestrais. Não é uma guerra pelo separatismo nativo, pela identidade indígena ou para dar um sentido político a tudo isso, não, é uma guerra que herdamos de nossos ancestrais, invocamos os mortos de nossos avós e eles nos possuíram. Qualquer individualista que tenha no sangue a ferocidade dos antigos, diga-se teochichimecas, yahis, selknam, a grande variedade de tribos amazônicas, etc., é claro que se voltará para ver o que fazemos e o que dizemos. Penso que é uma questão até mesmo genética (isso, cientificamente explicando), muitos de nós eco-extremistas viemos de famílias nativas, isso nos faz continuar o conflito por aqueles que deram suas vidas, isto é, não somos estranhos, ainda testemunhamos a esse chamamento selvagem para nos defendermos por todos os meios necessários.

Historicamente a América foi invadida pelos brancos lá pelo século XVI, e com eles chegou a destruição, chegaram as epidemias e as desgraças. Violaram nossos terrenos sagrados, profanaram as tumbas de nossos mortos, mataram nossos sábios anciãos, escravizaram nossas mulheres, venderam nossos filhos, queimaram nossas casas, saquearam a Terra extraindo minerais praticando mineração das formas mais desrespeitosas, mataram as presas que caçávamos com veneração, escarneceram nossas deidades e crenças, exterminaram nossa língua, nossa cultura, jogaram-na ao esquecimento, e tudo isso e mais aconteceu em mais ou menos 500 anos, relativamente faz pouco tempo. Hoje a situação já não é racial, já não é o homem branco que faz estas atrocidades, é a civilização em seu conjunto. Já não temos nada pelo que lutar, já não temos terras ancestrais, já não temos uma comunidade com a qual compartilhar a língua, tradições, ambientes, já não há anciões sábios que nos presenteiem o conhecimento ancestral. Temos sido domesticados por anos, nos fizeram viver em grandes cidades, nos obrigaram a necessitar de dinheiro para sobreviver nas urbes e trabalhar como escravos para obtê-lo, nos fizeram crer que a ciência a tudo explicaria ou que a religião é a salvação eterna, nos aprisionaram em escolas onde nos “educaram”, tentaram arrancar nosso espírito guerreiro ofuscando-o com a modernidade e a religião, progresso e monotonia, drogas e diversão ambígua, humanismo e não-violência, tentaram enterrar na cova mais profunda a história maldita de nossos antepassados que emboscaram a seus inimigos, os flecharam, arrancaram seus coros cabeludos, cortaram seus tendões para servir de suporte para suas flechas, conspiraram e lutaram entregando suas vidas. Xale, o tlatoani (1) teochichimeca vive em mim, fala comigo através do vento das tempestades, nos trovões que caem indiscriminadamente sobre a cidade, me sussurra pelo musgo do rio, no Sangue de Grado (2) que se levanta em direção ao sol, na sombra da algaroba, me acorda no serpentear do fogo na fogueira, nos olhos do coiote noturno, no frio gélido da montanha, nas pegadas de veado no monte, me fala e sussurra a mim, me ensina e me guia, me ensinou a me transformar em um animal selvagem quando executo atentados sozinho ou com minha manada, me disse que todos os eco-extremistas tem um espírito que também os acompanha, me disse que com o simples fato de que tenhamos este tipo de pensamento nós somos um perigo para nossos inimigos, e uma das coisas mais importantes que me disse é que a vingança será terrível…

HH: Sim, me parece que os niilistas-terroristas na Europa tem seu modo muito particular de se comunicar. Mas acima de tudo a afinidade vem da ação. Alguns niilistas em outros lugares pensam que o eco-extremismo está tentando envergonhar os niilistas que pensam que fazer algo é “moralismo”. Sei que não é o seu caso nem de seus afins na Europa mas, em sua opinião, há como ser niilista sem atacar fisicamente esta sociedade? Alguns niilistas dizem que “seu Ego” não inclina ao ataque, e melhor fazem o que lhes dá vontade.

Xale: Esta é uma atitude própria de um niilista passivo que diz que o ataque não é parte essencial de seu pensamento. É entendível que o niilismo tenha esse tipo de variante e deturpações nesta era moderna, mas isso não se alinha ao pensamento original. É bem sabido por muitos que antes da Revolução de Outubro na Rússia existiam uma grande quantidade de homens, mulheres e sociedades secretas que com seus atentados indiscriminados e seletivos empurraram ao abismo a Rússia Czarista, e estes foram os fundadores do terrível niilismo, o original. Estas mulheres e homens causaram feridas na sociedade, foram os que empurraram o enfrentamento contra as guardas do regime, os que confeccionavam bombas para lançá-las contra os responsáveis por seus problemas sociais e econômicos, os que apunhalaram e encheram suas mãos de sangue. Para sua época estavam bastante avançados, hoje em dia como muitos aspectos “relaxaram” os novos niilistas se dedicam a criticar sem fazer nada, relaxam-se e se afundam em sua imobilidade, até mesmo há uma variante filosófica niilista que se baseia mais na arte (?), e desgraçadamente isso também é “niilismo”. O que eu resgataria sobre isso é que mesmo nesta era de adoçamento existem os verdadeiros niilistas que enfrentam ferozmente a sociedade assim como os pensadores originais fizeram, e a exemplo disso temos na Itália a “Seita Niilista da Livre Morte”, a “Seita do Niilístico Momento Mori” e o “Clã Terrorista Niilista Cenaze”, aqueles que com suas palavras e atos demonstraram que o ataque, o atentado, é uma parte importante para ser um niilista verdadeiro.

HH: Com relação a esta pergunta parece que a diferença entre a primeira etapa de ITS e a etapa de Reação Selvagem foi um retorno às fontes indígenas-selvagens-pagãs em RS. Certamente ainda há referências a “Chicomoztoc”, etc. Mas percebi uma redução deste aspecto e uma abertura a outras ideias e maneiras de se compreender as coisas. É correta tal percepção? É uma parte necessária para a expansão do eco-extremismo?

Xale: Sim, como eu havia respondido acima na primeira pergunta, nesta nova etapa do eco-extremismo temos deixado de lado o tema dos povos nativos, mas apenas um pouco, já que ultimamente temos abraçado completamente o estudo da questão sobre o paganismo.

Esta “redução” na temática nativa pode ser vista nos comunicados emitidos ultimamente e no conteúdo da Revista Regresión, e como efetivamente você disse, houve uma abertura a outras questões que tem haver com o niilismo e a atividade delinquencial, embora eu deva esclarecer que não é porque nós consideramos mais importante falar destas questões do que se aprofundar nos estudos da guerra nativa. NÃO, é o momento de cobrir mais variantes que compõem a tendência eco-extremista.

Com RS houve um estudo concreto e focado na guerra nativa, de fato a maioria dos comunicados dos grupúsculos que o integraram faziam referência à herança de guerra de nossos antepassados, mas passado este ciclo e tendo maior presença e mais indivíduos que participam da prática e teoria, é necessário fazer uma abertura de temas para solidificar esta tendência.

HH: É interessante porque ser nativo em lugares como Canadá e Estados Unidos não significa nem ilegalidade nem a guerra contra a civilização. As tribos modernas às vezes funcionam como empresas, tem cassinos ou vendem suas terras para a exploração de petróleo. No entanto, alguns críticos tem dito que o eco-extremismo explora a memória de “indígenas mortos” para suas doentes causas antissociais. Como você caracterizaria a relação do eco-extremismo com os indígenas de hoje em dia tão distantes (e às vezes aliados) com a civilização?

Xale: Essa crítica sempre me faz rir muito. Dizer que estamos explorando as “memórias” de “indígenas mortos” é apenas alongar a lista de desculpas que tem esse tipo de críticos. Os eco-extremistas não exploram as memórias de ninguém, seríamos “antissociais doentes” se justificássemos com este mesmo discurso a violação e prostituição de crianças, o tráfico de órgãos, o sexo com cadáveres e outras doenças derivadas da atrofiada mente dos hiper-civilizados, mas como apenas justificamos os atos incorretos contra a civilização, atos que levaram a cabo nossos antepassados e que inclusive algumas tribos selvagens ainda praticam, esta crítica está completamente equivocada.

Não vou negar que muitos grupos indígenas e nativos de várias partes do mundo são cúmplices das grandes empresas que devastam seus territórios, muito menos vou negar que muitos indígenas aqui no México, inclusive, se afastaram de suas tradições e adotaram as práticas ocidentais, gerando um dano em seus ambientes controlados por grandes corporações. Grupos de nativos que não estão absorvidos pela cultura dominante podem ser contados nos dedos, são muito poucos. Embora eu deva dizer que em muitos dos casos em que os indígenas se afastam de suas origens é por vontade própria, uma vez que eles decidem se adaptar ao modo de vida dos outros, em outros casos os indígenas são manipulados e postos em condições que os forçam a abandonar as montanhas e se unir aos não-vivos das cidades. Por aqui é bem sabido de que empresas chegam até as aldeias remotas e para conseguir mão de obra barata convencem os indígenas a trabalharem nas cidades com a promessa de que terão dinheiro e comodidades, algo completamente falso, já que quando não necessitam mais deles os abandonam e os deixam a mercê. Sobreviver em uma cidade tão monstruosa como a capital mexicana e sua área metropolitana é muito difícil para pessoas que são de fora, então estes indígenas terminam como vagabundos viciados, na prisão ou mortos. A situação é lastimável, claro, mas é parte da realidade.

HH: O eco-extremismo tem uma relação bastante complicada com o anarquismo, mas às vezes também se refere “à Anarquia, mas não o anarquismo”. É possível ser anarquista e estar aliado ao eco-extremismo? Como seria isso?

Xale: Recentemente escrevi para a próxima edição da Revista Regresión (N°6) um texto intitulado “Anarquistas Indiscriminados“, onde exponho os terríveis atos terroristas que realizaram alguns anarquistas na história sepultada no panteão do esquecimento. No texto eu menciono a constante briga entre os anarco-bandidos e os anarquistas humanistas a partir de suas perspectivas da época porque os primeiros atentavam contra seus objetivos sem se importar em ferir civis ou inocentes, atos que correspondem à terminologia do Ataque Indiscriminado, prática que tem sido um ponto de debate para muitos anarquistas da atualidade.

Com este texto público em breve eu me emprego a evidenciar que alguns anarquistas do século XIX atuavam indiscriminadamente, violando os códigos morais e políticos próprios do anarquismo e como os entendia a grande maioria do movimento anárquico tradicional.

Com o texto pretendo também “puxar” (mesmo que por um momento) estes anarcos das tumbas onde a história oficial e não oficial pretendia deixá-los.

É engraçado ler como lá por meados do século XX os atos terroristas de Di Giovanni (por exemplo) assustavam os anarco-sociais, e ler como é que se assustam alguns anarquistas de hoje em dia quando se inteiram de nossos atentados. É praticamente a mesma acusação histórica, “bandidos”, “desumanos”, “esses não são companheiros”, “excluamos eles do nosso movimento”, “são covardes que atacam ao acaso”, etc.

Respondendo à sua pergunta, penso que SE pode haver anarquistas aliados com os eco-extremistas desde que estes anarquistas respondam firmemente às características de seus antepassados demoníacos e terroristas. Contrariamente, um anarquista humanista que se preocupa com a sociedade e que sonha com um “mundo melhor” NÃO pode ser aliado dos eco-extremistas.

HH: Qual seria a diferença entre um anarquista que simpatiza com o eco-extremismo e um que severamente o rechaça?

Xale: A diferença teria que ser um tanto abismal. De fato um anarquista que simpatiza com o eco-extremismo teria que subverter com o que foi dito por pensadores anárquicos tradicionais e com isso abalar seu humanismo e seu progressismo úteis para alcançar um mundo sem “estado-capital”, teria que deixar de lado as utopias e se concentrar no presente decadente e pessimista no qual nos encontramos, assumindo seu papel como indivíduo dentro desta época e atuando em consequência, teria que desprezar tudo o que é humano (em termos filosóficos), teria que fazer as coisas que se tem que fazer respondendo friamente e inteligentemente sem importar que terceiros sejam afetados. Teria que ser como Di Giovanni, como Mario Buda, como Santiago Salvador, como os anarquistas galeanistas.

HH: Me parece que o anarquismo “social” é um vestígio da antiga política das massas. Não posso comentar muito já que nunca fui anarquista e não conheço muito bem a história. No entanto, suspeito que grande parte da atividade individualista que você menciona ocorreu antes da “época moderna das Revoluções”, como na Rússia em 1917, Espanha nos anos 30, etc. O anarquista social moderno tem muita dificuldade em terminar este capítulo, embora o resto mo mundo (político ou não) já tenha renunciado a toda essa coisa das massas lutando nas ruas ou o que seja. Contudo, no extremismo islâmico quando não é uma questão de guerra convencional muitas de suas ações são individualistas e indiscriminadas, mas o anarquista social não pode se separar da atitude de “despertar as massas” para forjar um “novo amanhecer” uma vez que não pode renunciar à velha análise e fazer isso retiraria toda sua esperança e o converteria em um eco-extremista niilista asqueroso, ou algo do tipo.

Xale: O contexto histórico em que se desataram os demônios da anarquia maldita foi antes e depois da Revolução Bolchevique e antes da Guerra Civil espanhola de 1936.

Por exemplo, Santiago Salvador atuou sozinho em novembro de 1893. O homem escolheu como objetivo o Grande Teatro de Liceu em Barcelona, isso em vingança pelo fuzilamento de seu amigo Paulino Pallás (outro anarquista terrorista que em setembro daquele mesmo ano atentou contra o general Martínez Campos em pleno desfile militar em Barcelona. O terrorista lançou um par de bombas contra sua carruagem, o general atentado ficou ferido, assim como outros dois generais e houve a morte de um guarda civil, além de deixar dezenas de civis feridos). Salvador escondeu entre suas roupas duas bombas Orsini, um explosivo muito popular entre os anarquistas daquela época que detonava ao se chocar fortemente contra o solo ou qualquer superfície sólida. O terrorista esperou até que a ópera estivesse na metade para que o teatro estivesse cheio, e quando percebeu o momento oportuno lançou indiscriminadamente desde um balcão as duas bombas contra o público. A primeira causou um ruído infernal e ensurdecedor arremessando pedaços de corpos, sangue e estilhaços por todas as partes, a segunda caiu no voluptuoso vestido de uma mulher que havia sido ferida após a primeira explosão, mas não detonou já que seu vestido amorteceu a queda. Este atentado anarquista deixou um saldo de 22 mortos e 35 feridos em gravidade.

Talvez muitos anarquistas de agora não recordem que o autor deste ataque foi um de seus antepassados políticos. É uma pena que um personagem tão emblemático que na sua época foi um terrível inimigo da sociedade e do sistema seja condenado ao esquecimento (como muitos outros), só que não totalmente, pois ainda existem alguns poucos que se lembram deles.

HH: Há certa ambiguidade em termos de “reselvagear-se” (“re-wilding”, em inglês). Às vezes diz-se que o eco-extremista tem que fazer o possível para não estar dependente da civilização, mas ainda voltando-se para o “não há futuro”. Há uma posição sobre a “reselvagização” ou é algo que depende de cada eco-extremista?

Xale: a reselvagização como nós a entendemos talvez difira um pouco do que entendem os ianques eco-radicais com seu “rewilding”, que creio que foram os primeiros a empregar o término. Desde o início eles o empregaram para designar uma ação a favor da natureza selvagem sempre relacionada com a preservação de entornos e o florescimento da natureza em certos espaços urbanizados que pouco a pouco vão se tornando feral.

Eu pessoalmente conheço alguns eco-extremistas que não nasceram na cidade e que neste exato momento estão levando uma vida de nômades em algum lugar da geografia “mexicana”. Eles saem por um tempo, regressam a seus lugares e então decidem atacar a civilização. É uma estratégia muito adequada.

Este tipo de eco-extremistas decidiram se reselvagear na natureza selvagem, andar como nômades, saber caçar, fazer fogo por fricção, usar peles, coletar sua comida, etc., eu pessoalmente respeito muito seu modo de vida e acho que se isso é o que eles querem fazer, adiante. De qualquer forma estar em contato com a natureza selvagem sempre te cria algo belo, você dá um valor muito mais especial às coisas. Este tipo de eco-extemistas também entendem que não há futuro, por isso vão às montanhas antes que estes entornos sejam devastados por completo. Felizmente aqui no México ainda temos lugares selvagens se comparado a outras partes do mundo onde quase não há mais nada ou os entornos viraram reservas.

Por outro lado os eco-extremistas da cidade também se reselvageiam individualmente a sua maneira. Muitos de nós sabemos fazer algo do que sabem fazer os eco-extremistas nômades para enfrentar qualquer situação que apareça em nosso caminho, mas na cidade é preciso saber se deslocar, há que ser um lobo vestido de ovelha. Os eco-extremistas da cidade se empregam à guerra, a saber atacar, emboscar, enganar as autoridades, assaltar, utilizar armas, provar o último suspiro após tirar a vida do inimigo, e tudo isso e mais também é reselvagear-se, é regressar ao primitivo em um conflito herdado por nossos ancestrais colocando em prática as táticas que usaram os antigos, só que dentro de outras condições. De fato o homicídio que levou a cabo ITS se apresenta como uma “reselvagização individualista”. Assassinando o empregando da UNAM ITS não SÓ pretendia eliminá-lo e criar reações, mas também com o mesmo ato os membros de ITS assassinaram o seu civilizado interior, onde matam à punhaladas pouco a pouco os valores ocidentais que são empurrados a eles desde pequenos.

Para mim e para os meus, os eco-extremistas da cidade e fora dela, não há futuro, apenas há o presente. Não temos nada pelo que lutar, exceto por nós mesmos. Reselvagear-nos é saber se mover como os caçadores, convertendo-nos em animais, é aprender a atacar o inimigo, odiá-lo, derramar seu sangue, cortar sua cabeleira e oferecê-la aos mortos. Igualmente também é conhecer a natureza selvagem, perder-se nos ambientes, estar em contato com seus ciclos, apreciá-la, respirá-la e amá-la.

HH: Algumas pessoas acusam o eco-extremismo de estar a favor da autoridade, uma vez que rechaça o anarquismo. O eco-extremismo possui uma posição abstrata sobre a “autoridade” ou é uma pergunta meramente escolástica na atualidade?

Xale: Não há como negar, a autoridade teve um papel importante nas sociedades humanas. Em cada grupo étnico antigo sempre houve um líder tanto de guerra como espiritual. A mulher coletora que fornecia a comida quando a caça escasseava também poderia ser considerada uma espécie de autoridade, a “cabeça” da tribo em tempos difíceis. Só há algum tempo tem sido visto apenas o lado negativo da autoridade com os autoritarismos, tem sido traduzido como uma figura concreta que “querem nos impor algo pela força”, e isso devemos à cultura ocidental que temos impregnada na cabeça. A educação forçada acompanhada de uma figura de autoridade que nos diz o que fazer e o que dizer é o modelo no qual fomos criados, e até certo ponto é compreensivo que muitos considerem a autoridade como algo prejudicial e invasivo.

É necessário se livrar da cultura ocidental para ver a autoridade com outros olhos, sabendo diferenciar entre uma figura de autoridade que a todo custo quer impor algo e uma figura de autoridade que dado o seu conhecimento nos compartilha lições valiosas.

Assim, sem meias palavras, posso dizer que o eco-extremismo não demoniza a autoridade, não a rejeita categoricamente como fazem os anarquistas, por exemplo, uma vez que não vemos apenas as partes negativas visualizadas da maneira ocidental, mas também as partes positivas visualizadas da forma nativa. De fato, ao contrário do que dizem os anarquistas, muitos grupos anarquistas tiveram líderes e figuras de autoridade, agora se estes eram chamados de maneira diferente a como “um exemplo a ser seguido”, etc., isso aí já é outra história. Dito isso podemos ver que na história dos anarco-bandidos, por exemplo, sempre houve um anarquista dentro destes grupos que teve maior presença, que incitava, que tinha mais iniciativa que os demais, que tinha um conhecimento mais elaborado, e para esclarecer com exemplos há Di Giovanni, aquele que foi o líder de seu bando dada a sua dedicação a tudo o que fazia, desde atentados à bomba, edição de jornais e livros, escrita de cartas onde ele sempre se defendia das calúnias dos anarco-franciscanos, até a execução de pessoas indesejáveis, assaltos, etc. Num outro exemplo Bonnot foi quem liderava seu grupo de assaltantes na França dado ao fato de que ele tinha maior conhecimento nos assaltos. Miguel Arcángel Rosigna foi quem liderava seu grupo de assaltantes no Uruguai dada a sua inteligência e sua metodologia quase perfeita para cometer roubos e realizar fugas da prisão.

Até mesmo Bakunin pode ser considerado como uma figura de autoridade, mas não faça o sinal da cruz diante disso leitor anarquista. De fato ele é um exemplo de uma figura de autoridade não nociva que com suas teorias ensinou coisas valiosas a muitos e devido a isso o movimento anarquista tornou-se uma ameaça para seus inimigos.

Então, resumindo um pouco tudo isso e respondendo à sua pergunta, penso que a autoridade para os eco-extremistas é um tema abstrato no qual não colocamos uma ênfase especial já que não há nenhum problema em aceitar isso.

HH: É verdade que o esquerdismo e o anarquismo (em geral) trata a autoridade como uma categoria metafísica absoluta quando tradicionalmente nunca foi assim. Eu culpo o fato de que o homem moderno não pode fazer nada, é completamente domesticado, e por isso se obceca pela questão da autoridade. Em outras sociedades a autoridade era, em especial, carismática, mas nos bandos mais primitivos houve leis e códigos sociais que ou alguém seguia ou seguia. Recentemente li sobre alguém que disse que o anarquista moderno não aguentaria viver em um bando primitivo uma vez que todos tinham seus papeis definidos dentro do bando e sua obrigação não poderia ser variada. E atenção, tudo isso sem estado ou polícia. Por outro lado o anarquista social parece completamente obrigado por sua solidariedade e reciprocidade entre “companheiros” ou o que quer que seja, mas nunca se questiona sobre esta moral…

Xale: Concordo com você, um anarco-primitivista certamente seria chutado como um cão num bando primitivo se algum dia tentasse se encaixar em um. Certamente estaria reprovando coisas e incitando os demais a se “rebelarem” contra o xamã ou algo assim.

HH: Creio que há muitos leitores interessados, especialmente nos Estados Unidos, que pensam que o eco-extremismo não é para eles, uma vez que lá o estado é bastante poderoso e as ações eco-extremistas não parecem possíveis. Existe alguma maneira de “ser eco-extremista” ianque sem ser jogado imediatamente na prisão ou morto pela polícia?

Xale: Sinceramente, penso que as pessoas que creem que o eco-extremismo não possa ser possível porque tem “em casa” as maiores agências de segurança do mundo, são pessoas medrosas que não conseguem pensar em formas convincentes de levar a cabo atentados nos Estados Unidos sem serem detidas. É bem verdade que a NSA espia a maioria dos radicais e de fato o FBI tem uma lista daqueles que podem gerar problemas, é verdade também que a polícia possui infiltrados muito bem preparados para desarticular grupos extremistas, isso eu não vou negar, mas penso que o problema aqui reside nas pessoas que são buscadas, que são marcadas em uma lista e que sua foto está no sistema, são pessoas que se relacionam com certos movimentos e que as agências de segurança já tem certa suspeita deles. As pessoas destes movimentos gostam de ser protagonistas, de serem reconhecidas como as “mais radicais”, gostam dos holofotes e da algazarra dentro de sua cena. Agora pensemos em um eco-extremista que não se importe com isso, que atue só ou com um cúmplice, que tenha um perfil discreto, que nunca assista nem frequente lugares onde haja pessoas que pertençam a movimentos radicais (anarquistas, ambientalistas, ecologistas, okupas, etc.), e pensemos que este eco-extremista saiba ocultar (o máximo possível) seu rastro na web, pensemos que seja extremamente cuidadoso, desconfiado e inteligente. Sob certas condições penso que este eco-extremista possa executar atentados sem ser detido ou morto pela polícia. Embora pareça fácil eu sei que não é, o eco-extremista deve ter convicção, dedicação, paciência e ser comprometido.

Um eco-extremista é bastante capaz de executar atentados nos Estados Unidos, sair ileso e continuar com a guerra, disso estou seguro. Talvez o tempo provará que estou certo, ou talvez não…

HH: Esta é uma questão muito sensível, e aqui não estou sugerindo nada específico, claro. Estou apenas observando. Mas parece que o ataque individualista e às vezes indiscriminado é um tema abordado ultimamente pelos gringos, ou pelo menos é algo que obceca a mentalidade ianque. John Zerzan, por exemplo, é obcecado pela questão do “mass shooter”, o atirador que mata pessoas inocentes em clubes, escolas ou qualquer lugar público sem razão alguma aparente ou por razões “doentes”. Como você sabe, todo o mundo na Ianquelândia tem armas, e muitas armas, de todos os calibres, etc. O atirador sempre se suicida no fim do ataque ou é preso pela polícia, mas nunca há maneiras de impedir estes “lobos solitários” até que seja tarde demais. Menciono isso porque pode explicar a reação dos bons anarcos sobre os ataques dos eco-extremistas: não é uma questão de estar distante da vida rotineira deles, mas é parte da vida cotidiana dos ianques: um “louco” com uma pistola mata pessoas por frustração e nada mais.

Xale: Me parece que o que você menciona é até uma questão cultural, embora no México não há muitos casos conhecidos de uma pessoa que se põe a disparar em quantas pessoas conseguir. As pessoas que tem armas por aqui é porque usam elas para proteção, para vingança ou para algum trabalho (assassinato por aluguel, assalto, sequestro, etc.). Quando uma pessoa é encontrada assassinada as pessoas ao invés de dizerem que foi por frustração ou resultado de uma pessoa com desordem mental, dizem: “talvez ele merecia” , ou “para que resistir ao assalto?!”.

Recordo de algo parecido que aconteceu por aqui e que é próximo ao termo “mass shooter”, quando em 2009 um homem estava pintando slogans na estação Balderas de metrô da Cidade do México, slogans sobre o aquecimento global, a responsabilidade dos governos, etc., um policial tentou detê-lo (saibamos que o que ocorreu foi num horário de pico quando havia uma maior quantidade de pessoas no metrô), o homem lutou com o policial e do meio dos seus pertences sacou um revólver e o matou. Muitos passageiros se assustaram e fugiram apavorados ou trataram de se esconder dentro dos vagões, alguns cidadãos heróis tentaram desarmar o homem que sem nenhum remorso igualmente atirou contra eles, deixando alguns feridos e um outro morto na rinha. Por fim a arma ficou sem balas, ele foi encurralado, quase linchado e foi preso. Depois a imprensa publicou que o homem sofria de esquizofrenia devido a tratamentos que teve numa clínica psiquiátrica e que por isso sua reação foi tão violenta. Como esperado, o homem foi condenado a passar alguns anos em uma clínica de “saúde mental” e depois saiu livre. Talvez neste caso em particular as pessoas daqui tacharam o homem como um “porra louca”, mas o contexto é muito diferente do que se passa lá pelos Estados Unidos, embora as causas centrais sigam sendo as mesmas. Nesta caso, os medicamentos que fizeram com que o homem sofresse esquizofrenia, estes medicamentos e tratamentos médicos são derivados do grande problema, a civilização.

Agora falando do contexto gringo, em minha perspectiva penso que os “mass shooters” tem verdadeiras razões para realizar estes tipos de atos indiscriminados, não fazem simplesmente porque sim, ou do nada, não disparam apenas por disparar, houve algo que os empurrou a fazer isso, a planificar. Assassinar a uma grande quantidade de pessoas utilizando este modus operandi pode ser resultado de uma grande matiz de causas e efeitos como por exemplo, religiosos e sociais, clínicos e culturais, econômicos e políticos, etc. É bem sabido que pessoas devido o assédio escolar um dia decidem chegar ao colégio com rifles de assalto e matar aos que os molestavam, já outros, por injustiças raciais contra os afroamericanos, outros por razões religiosas atentam contra a sociedade gringa por considerá-la inimiga de Alá, outros por suposta “supremacia branca”, outros por ter a mente atrofiada devido a medicamentos psiquiátricos. No caso de um eco-extremista estadunidense, se algum dia houver alguém que realize um ato deste tipo, certamente as razões pelas quais atuará seriam atacadas, mas nós, seus afins, saberíamos que era a única opção e a reconheceríamos completamente. Com isso chegamos à conclusão de que a civilização é o problema e a atacamos sem contemplações, ou seja, todas essas causas e razões, ações e consequências, são derivadas por toda uma rede de condições variadas, e penso eu que uma análise mais profunda é merecida antes de haver a condenação destes atos. Embora esses e outros casos sejam, para mim, apenas uma reação dos instintos animais humanos que tentam se desenvolver na civilização e que ao não poder se desenvolver como antes, encontram uma saída sob estas condições, há que se aceitar, todos nós na civilização estamos em certo grau “frustrados” por uma ou por outra razão, então dizer que estes fatos são derivados da frustração não é um julgamento TÃO equivocado afinal.

HH: Penso que “a obra teórica” na fase atual é encontrar uma maneira de restabelecer o paganismo/animismo além da mente secular do esquerdismo e o monoteísmo ocidental. Para mim, isso significa um conhecimento profundo do seu lugar. Você acha que uma mudança de percepção, longe do humanismo e do antropocentrismo, mudaria a retórica “pessimista” do eco-extremismo? Ou seja, se a Natureza vence no fim da história, e o homem civilizado é o “vilão derrotado”, isso significaria que os “verdadeiros niilistas” são os que defendem a civilização, e, (por que não?) a sociedade e a humanidade propriamente dita. O que você acha desta análise?

Xale: A mudança de percepção da qual você fala teria que ser radical, teríamos que passar de pessimistas a otimistas, e de niilistas a positivistas.

Talvez haja por aí algum eco-extremista ou não propriamente dito que, dado o seu desenvolvimento cultural, suas condições sociais, tenha uma percepção distinta de tudo isso e que, como você menciona, considera a humanidade moderna como os verdadeiros niilistas, embora se tivesse tal percepção, penso que isso não mudaria a ideia central da defesa individualista da natureza selvagem e o reconhecimento encarnado de deidades antigas ligadas a essa natureza que penso que são as bases fundamentais da tendência.

Mas a realidade dita este cenário pessimista e é nele em que nos desenvolvemos, não temos outra escolha a optar e agir em conformidade.

HH: Qual é o papel da delinquência no eco-extremismo? Parece que ele tem surgido como um tema significante nos blogs, na Revista Regresión, etc. O que você diria para as pessoas que se opõem à delinquência dizendo que ela também é parte da civilização e não merece ser idealizada?

Xale: As atividades delinquenciais são uma parte fundamental da tendência do eco-extremismo. É delinquência roubar, plantar bombas, incendiar coisas, ameaçar pessoas, adquirir os ingredientes para a fabricação de mesclas explosivas, transportar explosivos e armas, armazená-los, conspirar com individualistas de outras partes do mundo para executar atentados, assassinar pessoas; inclusive é um delito grave (dependendo do país onde você esteja) difundir, traduzir e editar este tipo de mensagem incitando direta ou indiretamente a cometer crimes, etc. Nós eco-extremistas somos delinquentes, criminais, assaltantes, assassinos e atentadores, essa é a essência desta tendência, a sua natureza. Nisto não há uma idealização, há uma prática herdada dos selvagens nus que roubavam gado dos espanhóis, dos que os emboscavam e assaltavam suas caravanas, daqueles que assassinavam o inimigo, dos que invadiam povoados inteiros reduzindo-os à cinzas, dos que afiavam as pontas de suas flechas embebecidas de veneno, etc., uma prática que seguimos, só que em um contexto e época diferente, mas que no fim das contas a mesma guerra é levada a cabo. Essa coisa referente à prática da delinquência, mas como termo, temos cunhado como retórica. Se a sociedade e as autoridades dizem que somos delinquentes isso nós somos, se dizem que somos terroristas isso também somos, esses rótulos não nos assustam, não vamos nos defender dizendo que não somos criminosos porque dentro de seus términos jurídicos nós somos, não vamos nos indignar como a maioria dos “revolucionários” e radicais fazem quando nos chamam destas formas, os eco-extremistas não defendem causas “justas”, não representam sua “compaixão” e seu “humanismo”, pelo contrário, representam a violência e o desprezo pela vida civilizada.

É verdade que muitas pessoas veem a delinquência como parte da civilização, muitos talvez pensem que é produto das condições sociais na qual estão submetidas as pessoas dentro da civilização, e em parte isso é verdade. Evidentemente, se a civilização não existisse a delinquência dentro do aspecto jurídico muito menos, mas repito, apenas dentro do aspecto jurídico, uma vez que os “crimes” contra alguém existiriam sem civilização. Mas mesmo sem civilização os atos delinquenciais seriam classificados como crimes? Ou seriam classificados como retribuições? Nesta era moderna dá no mesmo qualquer uma das duas categorizações? É a delinquência uma atividade que surge dos problemas de uma civilização ou pode ser considerada como uma consequência sem que esteja estritamente relacionada com as condições civilizadas? Devemos recordar que tudo neste mundo e fora dele é regido por ciclos, tudo é um constante movimento onde cada ação contribui uma reação.

Sobre isso colocarei um exemplo. Os astecas consideravam bárbaros e incivilizados os teochichimecas e não se atreviam a explorar a Grande Chichimeca, e quando fizeram isso deram de cara com selvagens hostis que os expulsaram violentamente. Os astecas não consideravam esses nativos criminosos ou delinquentes, mas simplesmente “não civilizados”, gente sem cultura, etc. Sob esta lógica os astecas se concentraram então em erguer sua civilização sem se meter em territórios da Teotlalpan Tlacochcalco Mictlampa (“lugar do norte onde se esconde a morte”, em nahuatl), talvez suas deidades lhes recomendassem a não se meter com os teochichimecas e essa recomendação eles houvessem escutado e a respeitaram. Após isso se dedicaram a conquistar e expandir seu primeiro império sob outras tribos que eram mais fáceis de dominar. Os chichimecas de guerra ao verem que os civilizados pré-hispânicos não entravam em seus territórios não viram a necessidade de causar um conflito generalizado contra estes.

Quando os espanhóis chegaram na Grande Chichimeca empreenderam uma campanha à sangue e fogo contra esses incivilizados malditos, e eles responderam com uma fúria semelhante à do branco, inclusive pior. Com isso foram então considerados criminosos pelas leis da coroa espanhola e foram presos, escravizados, domesticados ou exterminados. Ou seja, a ação dos espanhóis que se meteram com os teochichimecas provocou uma reação destes.

Mesmo se os ocidentais não tivessem chegado com essa insaciável atitude de subjugar a tudo e a todos, penso que os teochichimecas tivessem seguido com suas vidas simples e às vezes guerreando com tribos vizinhas como era há séculos tradição dada sua natureza conflituosa.

O mesmo se passa com os eco-extremistas dado que a civilização quer nos artificializar, nos mecanizar e nos domesticar completamente. Frente a isso nós respondemos violentamente como fizeram nossos ancestrais, e é deste modo que a delinquência não é completamente um produto da civilização moderna como tal, não surge com ela, é dado o nome de “crime” pelas leis dela, mas na verdade é uma consequência geral da ação dependendo do sistema estabelecido; chama-se civilização, sistema de dominação, etc. Todo este raciocínio baseia-se apenas no aspecto jurídico-histórico, penal-oficialista, mas se destroçarmos o termo da “delinquência” um pouco mais veremos que é muito relativo e que se apoia em uma posição moral fixa assim como exemplifico a seguir:

– Um homem assalta um banco à mão armada, ameaça explodir os miolos da cabeça do caixa se este não lhe der todo o dinheiro. Neste caso, o assaltante talvez considere que neste momento esteja cometendo um crime ou talvez não, talvez considere que esteja fazendo algo “ruim” ou talvez não, talvez como muitos assaltantes da Cidade do México considere o assalto à mão armada apenas como mais um “trabalho” onde se consegue dinheiro se arriscando, empregando força e inteligência assim como faz um mineiro, um limpador de vidros de grandes edifícios ou um trabalhador metalúrgico. Mas para o caixa, para o gerente da agência bancária e para a polícia, esse homem é um delinquente e está trabalhando “mal”.

– Um trabalhador de um matadouro mata dezenas de cabeças de gado diariamente. Ele corta a garganta com uma faca bastante afiada para que sangrem até a morte e sua carne possa ser processada. É um trabalho sujo, mas no fim das contas é um trabalho que o empregado considera “bom”, pois no fim de semana consegue uma remuneração para sustentar sua família e como um adicional contribui com a indústria alimentícia. Cortar gargantas de gados não é considerado “ruim” e muito menos um crime, mas para muitos veganos radicais o que este senhor que trabalha no matadouro faz é “ruim”, e é um delinquente por assassinar animais para que os outros comam, e por isso os veganos decidem incendiar seu carro.

– Um estudante de direito tem vontade de “triunfar” na vida, para isso durante sua vida acadêmica ele não se importa de passar por cima dos outros para alcançar ser alguém reconhecido dentro da advocacia. Ele utiliza artimanhas para conseguir seus títulos e, finalmente, torna-se um advogado importante. Em sua carreira se encarrega de por na cadeia pessoas acusadas falsamente e beneficiar seus clientes que sempre são ricos. Para o advogado isso não é “ruim” e muito menos ele se considera um delinquente por prender pessoas por meio de provas falsas enquanto recebia uma grande quantidade de dinheiro por cada caso ganho ao mesmo tempo que seus clientes endinheirados ficavam satisfeitos. Mas os familiares das pessoas que foram presas não pensam como ele, para eles não é “bom” o que faz o advogado, e um deles, em especial, o considera um delinquente, um criminoso, e sabendo que para este tipo de pessoa não há juiz que julgue, o familiar decide segui-lo e lhe mete um tiro na cabeça.

Como é possível ver nestes exemplos e como eu disse acima, se analisarmos o término “delinquência” em muitos casos veremos que é relativo. Claro, os eco-extremistas não veem a atividade delinquencial como algo “ruim” nem como algo “bom”, mas sim como uma consequência, empregando e defendendo o termo dentro da retórica que nos caracteriza.

HH: O que você diria da turma de Zerzan que acredita que os eco-extremistas deveriam fugir para a serra para lutar contra os cartéis para libertar os terrenos selvagens?

Xale: Caramba! Outra vez Zerzan e seus apóstolos. Cada vez mais me surpreende sua imbecilidade e a falta de coerência em suas críticas. Ha-ha, nota-se que acabaram suas críticas e agora seguem vomitando barbaridades como essas. Dizer isso é como se um ignorante perguntasse a estes anarco-primitivistas zerzianos, “por quê criticam tanto a tecnologia e possuem um programa de rádio na internet?”. Foram estúpidos ao dizer que temos que combater os cartéis para que deixem em paz as zonas montanhosas onde têm presença.

Para responder à sua pergunta eu perguntaria a Zerzan e a seus discípulos, porque teríamos que fugir para as montanhas e lutar com assassinos deste ou daquele cartel? Isso teríamos que fazer se nossa meta fosse “libertar a terra”, se nossa meta fosse “reselvagear” ao estilo gringo, mas como não temos essas finalidades, dane-se. Não resta dúvidas que o chefe Zerzan e seus subordinados apenas pensam dentro de seus termos, não podem fazer uma crítica sincera ou certeira porque não conseguem sair da sua mentalidade quadrada ondem pensam que tem a razão em tudo que pregam. Que lástima. Esperávamos que com tudo o que foi escrito contra o seu (anarco) primitivismo fosse sacada uma crítica adequada, mas nos equivocamos, talvez seja para uma outra vida…

HH: Com esta pergunta termina nossa conversa. A verdade é que poucos que leem este texto estarão de acordo com todo seu conteúdo, mas a verdade é que parece que o eco-extremismo não tem um caminho fixo previsível. É verdade que, como tendência definida, é muito jovem. Tem apenas cinco anos, e mudou bastante em muitos de seus aspectos. Mas nós estamos vivendo nas ruínas das utopias fracassadas, sejam socialistas, capitalistas ou religiosas, e o eco-extremismo seguirá sendo uma opção dentro deste âmbito. As pessoas odeiam o eco-extremismo não apenas porque ele se opõe à sociedade, mas também porque a reflete sem as ilusões dos civilizados, reflete o desgosto e a frustração do que os hiper-civilizados sentem, porém não podem mudar. É um ataque contra todas as mentiras de um mundo domesticado. Nem os próprios idealistas engolem a pílula do otimismo e do humanismo. O mundo está no precipício e não há como regressar. Alea iacta est.

Primeira Entrevista a Individualistas Tendendo ao Selvagem

Primeira entrevista de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) concedida à Radio La Fórmula após o ataque homicida do grupo no México que resultou na morte de um trabalhador da Faculdade de Química da UNAM.

O que vocês querem dizer com os ataques de 25 e de 8 de abril?

É preciso esclarecer uma coisa aqui, ITS NÃO foi responsável pelo ataque em 8 de abril na C.U., foi outro grupo que compartilha a mesma tendência do eco-extremismo, mencionamos ele em nosso último comunicado para evidenciar que as autoridades universitárias acalmaram ditos ataques.

Por outro lado, o ataque de 25 de abril na C.U., foi parte de uma coordenação entre grupos de ITS no México, Chile e Argentina.

Dedicamos todo o mês de abril a essa coordenação de ataques, os quais foram:

– Em 6 de abril a “Horda Mística do Bosque”, abandonou um artefato incendiário dentro da Faculdade de Ciências Físicas e Matemáticas da Universidade do Chile, em Santiago. Embora o artefato tenha sido encontrado antes de ser ativado, uma grande comoção foi gerada na comunidade universitária do país dos terremotos.

– Em 12 de abril o grupo “Ouroboros Silvestre”, detonou um explosivo em frente a Universidade de Ecatepec, no Estado do México, esta a poucos metros da Câmara Municipal localizada em pleno centro de San Cristóbal. Neste caso o artefato explodiu com sucesso sem que se soubessem mais detalhes.

– No mesmo dia o mesmo grupo abandonou um artefato explosivo de ativação eletromecânica na Comunidade Educativa Hispano-americana no mesmo município. O artefato detonou em um dos guardas da instituição no momento em que ele o ergueu e provocou-lhe ferimentos, acontecimento que as autoridades educativas e os meios de comunicação local acobertaram, os quais disseram que o artefato havia detonado sem deixar feridos e apenas danos materiais.

– Em 19 de abril o “Grupo Oculto Fúria de Lince” detonou um artefato explosivo caseiro em uma das entradas da Tec de Monterrey – Campus Cidade do México, em Tlalpan, sem que mais detalhes fossem conhecidos.

– Em 21 de abril o grupo “Constelações Selvagens” abandonou um pacote-bomba dentro da Universidade Tecnológica Nacional em Buenos Aireis, Argentina, sem que se soubessem maiores detalhes, pois as autoridades silenciaram o atentado.

– Em 25 de abril o “Grupo Oculto Fúria de Lince”, abandonou um artefato explosivo de ativação eletromecânica similar ao que detonou na Comunidade Educativa Hispano-americana em Ecatepec, mas dessa vez na Faculdade de Arquitetura na C.U., sem maiores detalhes.

– No mesmo dia, o mesmo grupo abandonou outro artefato explosivo com um mecanismo similar ao outro, mas, na faculdade de Engenharia, especificamente no edifício A, sem que mais detalhes fossem conhecidos.

Todos estes atos foram realizados pelos grupos mencionados e que estão associados a ITS, e que foram reivindicados em nosso Sétimo Comunicado em 9 de maio passado.

Contra quem atentaram?

Os ataques de 25 de abril na C.U., em particular, foram simbólicos e materiais contra a UNAM e contra qualquer universitário que cruzasse com os explosivos abandonados. É falsa a informação que propagaram alguns meios de comunicação onde dizem que os ataques de 25 foram especificamente contra o chefe de serviços químicos, é mentira.

Quantos mais objetivos vocês tem?

Nosso objetivo em específico é a civilização como um todo, as universidades e empresas que geram escravos para que este sistema continue a crescer, os shoppings e instituições que enchem de lixo as mentes das ovelhas cegas que rumam direto ao abate (com isso não estamos nos posicionando a favor da sociedade de massas, a qual também contribui com a destruição da Terra com a sua simples existência), atacamos os símbolos da modernidade, da religião, da tecnologia e do progresso, atentamos diretamente contra os responsáveis por esta mancha urbana que segue se expandindo e devorando os entornos silvestres que ainda restam. Em suma, nós, os eco-extremistas, estamos contra o progresso humano, o qual corrompe e destrói toda a beleza que há neste mundo, o progresso converte tudo em artificial, mecânico, cinzento, triste. Nós não suportamos isso e esse é o motivo pela qual declaramos guerra a esta civilização e seu asqueroso progresso já há alguns anos.

Nunca prenderam um companheiro de vocês?

Em 2011 depois de “mandar pelos ares” a dois professores da Tec de Monterrey – Campus Atizapán, dissemos que a PGR e demais instituições de segurança eram uma PIADA e ainda seguimos dizendo. Nenhum dos nossos foi detido até agora…

Por que matar?

E por que não? É pecado? É um crime? É errado? Com certeza mais de uma pessoa disse “sim” em alguma destas perguntas. Respondemos. Para ser claros, nós matamos porque isso é uma GUERRA, pelo motivo de não reconhecermos mais autoridade que a autoridade de nossas deidades pagãs relacionadas à natureza e contrárias ao catolicismo e ao deus judaico, deidades pessoais que nos empurram para o confronto. Matamos porque não reconhecemos outra lei a não ser as leis naturais que regem TUDO neste mundo morto. Matamos porque rechaçamos qualquer moral que nos queiram impor, porque não consideramos nem “mal” nem “bom”, mas sim uma resposta de nossa individualidade a toda a destruição que gera o progresso humano.

Dentro do espectro do terrorismo, matar pode ser uma estratégia, um chamado, uma advertência para o que talvez possa ocorrer…

Voltando ao tema central, assassinamos o chefe de serviços químicos da UNAM para lembrá-los que podemos atacar a qualquer momento a quem quer seja dentro da universidade, para mostrar que nossos objetivos foram ampliados. Em 2011 nos dedicamos a atacar os cientistas e investigadores, agora todos os que integram a comunidade universitária podem e são um objetivo potencial. Por quê? Pelo simples fato de serem parte da comunidade estudantil e progressista do mais alto local de estudos.

Advertimos meses atrás às autoridades da UNAM, advertimos que se nossos ataques permanecessem sendo silenciados teriam de enfrentar as consequências. O resultado foi a escandalosa morte dentro da Cidade Universitária como um aviso. Tanto faz para nós que tenha sido um trabalhador, o mesmo escândalo houvesse ocorrido se o morto fosse um estudante ou um professor, ou na melhor das hipóteses, um investigador renomado. O objetivo, a UNAM, foi atingido mais uma vez. As autoridades desmoralizadas e nós com mais uma morte em nossa história.

Como podem provar que foram vocês?

As provas estão nos fatos, o corpo tinha seus pertences, não foi um roubo. O corpo foi localizado em um lugar onde não há câmeras, isso indica um ataque direto e não outra coisa. Já sabemos que as autoridades da cidade estão preparando suas “investigações” torpes e com faltas de argumentação (como sempre) para indicar que não foi nós para não assustar ainda mais a comunidade universitária. Havíamos pensado em arrancar o couro cabeludo dele como prova, mas não foi possível. Como escrevemos no comunicado, fica para a próxima. Você e todos podem pensar o que quiserem, que foi um roubo, uma vingança pessoal por pessoas de seu bairro, que foi acidental, etc., mas a nossa história não mente, não somos um grupo novo que vem do nada, e já foi evidenciado com esse e com outros atos que não estamos de brincadeira.

Se não acreditam em um amanhã melhor nem são revolucionários, o que pedem? Qual é a finalidade de sua luta?

Nós não pedimos nada, não temos exigências ou “folhas de petição”. Se pode negociar a perda de nossas raízes como seres humanos naturais que estão resistindo à artificialidade da civilização? Claro que não, não há negociação nem mesas de diálogo ou qualquer outra coisa.

Nós não acreditamos nas revoluções, afinal sempre visam a “solução de problemas”, a construir algo novo e “melhor”. Deixe-nos dizer, a era das “revoluções” e dos “revolucionários” acabou, não existe “revolução” alguma que possa mudar uma coisa negativa por uma positiva porque hoje tudo está corrompido, porque tudo está à venda, porque o que rege o mundo na atualidade não é o poder político, mas o econômico. As revoluções são coisas do passado e nós entendemos isso muito bem.

Nós não queremos resolver nada, nem propomos nada a ninguém, não queremos mudar o mundo, nem queremos nos unir à massa. Chega das utopias secundárias, chega de ter em mente que possa haver um mundo novo. Olha ao seu redor, o presente está repleto de horrores causados pela mesma civilização, pela alienante realidade tecnológica (redes sociais, celulares, etc.), respira o espesso ar desta suja cidade, olha as pistas repletas de carros, observa a massa se espremendo nos ônibus, nos metrôs, veja suas caras cansadas da mesmice. O poder econômico poucos o tem, vivem no luxo, se afundam em notas e comodidades, os meios de comunicação estão vendidos à melhor oferta, e surgem os não-conformistas, e desaparecem com eles e os assassinam, a tensão social se agrava, e quando tudo parece que irá explodir, a normalidade retorna, ou tudo se vai a uma normalidade alternativa. Por isso nós deixamos de acreditar em um “amanhã melhor”, porque este presente decadente é o único que temos, e neste presente apenas vemos o progresso que avança sem freio em direção ao abismo civilizado.

A civilização está podre, cada vez mais se corrói, porém segue avançando. O que mais iríamos querer senão fazê-la colapsar com nossas próprias mãos? Mas isso seria outro propósito infantil.

Nós não apostamos na queda da civilização, nem temos como finalidade a destruição desta, que fique claro.

No aspecto filosófico somos pessimistas, porque vimos que todo o belo para nós, que é a natureza, se perdeu, a destruíram e seguem empurrando-a à extinção. Não nos resta nada pelo que lutar, exceto por nossas próprias individualidades. Nós seguimos sendo humanos ao invés de robôs, somos a Natureza Selvagem que resta, o último dos últimos, nós continuamos nos considerando parte da natureza e não os donos. Nós eco-extremistas resgatamos nossas raízes primitivas, e entre muitas outras coisas está a confrontação, o conflito que nos identificou como pessoas desta terra, filhos da algaroba e do coiote, guerreando contra os que nos queiram domesticar, assim como fizeram nossos antepassados mais selvagens ao não permitir serem subjugados pelos europeus a sua chegada na Grande Chichimeca.

Nós eco-extremistas somos animais domésticos com seus instintos ainda vivos. Para muitos é certeza que é uma “incoerência” dizer que estamos contra tudo isso e continuar usando tecnologia. Respondemos que não hesitamos em usá-la para conseguir nossos fins imediatos, isso é um fato, nós não nos importamos com um caminho cair em supostas “inconsistências”, assim como não nos importamos com nada que nos considerem o que quer que seja.

Uma das finalidade de ITS e do eco-extremismo em si é o ataque, é devolver os golpes que deram à Natureza Selvagem sem ser homenageados como “revolucionários”, desinteressadamente guiados por um impulso egoísta.

Os eco-extremistas são como as abelhas, as quais fincam seu ferrão para ferir a seu oponente (a civilização), lutando sabendo que morrerão tentando, já que está claro que nesta guerra não sairemos vitoriosos.

Isso vai parecer que somos doentes mentais ou desequilibrados, mas olha, o eco-extremismo niilista é uma tendência que praticamente “nasceu” no México, e que alguns individualistas tomaram como sua no Chile, Argentina e Europa. Está claro que não somos os únicos loucos…

Talvez há mais perguntas que respostas, isso é tudo que diremos por agora. O que está feito está feito.