O Mito do Veganismo

Texto analítico e crítico do veganismo traduzido do blog Matar o Morir Ediciones.

O Mito do Veganismo (1)

“O veganismo é uma filosofia de vida que exclui todas as formas de exploração e crueldade para com o reino animal e inclui uma reverência pela vida. Na prática se aplica seguindo uma dieta vegetariana pura e incentiva o uso de alternativas para todas as matérias derivadas parcial ou completamente de animais”.

– Donold Watson, membro fundador da Vegan Society (Sociedade Vegana).

Este pequeno texto não questionará a irracionalidade das ideias e valores (2) da filosofia vegana. Nesta ocasião demonstraremos que o veganismo é um mito na Sociedade Tecno-industrial e como é um obstáculo para entender e atuar pela verdadeira Libertação Animal (3).

O veganismo é um mito. Nada nem ninguém é vegano dentro da moderna Sociedade Tecno-industrial. No entanto, são muitos os ingênuos que acreditam neste mito e que creem que seus alimentos, vestimenta, calçado, produtos de higiene e beleza, aparatos tecnológicos, livros, música, bikes… e todo o lixo industrial que consomem compulsivamente é, segundo eles, “vegano”.

Mas na realidade é bem diferente disso. Todo esse resíduo industrial denominado “vegano” não poderá conter materiais de animais não-humanos, ok, mas, na verdade, contém… ou melhor dizendo, de fato colaboram com a exploração animal, humana e não humana.

Então se retomarmos nossa definição anterior de veganismo, “… uma filosofia de vida que exclui toda forma de exploração e crueldade para com o reino animal…”, é evidente que não é coerente com a filosofia porque contribui com a exploração sistemática do reino animal, logo, o veganismo é um mito.

Os autodenominados “veganos” são muito ingênuos ao não analisar, questionar e entender o funcionamento da complexa realidade e do grande complexo sistema social em que vivemos.

Todo alimento ou produto que provenha da moderna Sociedade Tecno-industrial não está livre de colaborar com a exploração e domesticação sistemática do reino animal e ambiental.

As sementes, frutas e verduras que produz e distribui a moderna Sociedade Tecno-industrial não são veganas já que a moderna agricultura industrial necessita de:

a) desmatar grandes extensões de terra fértil para aproveitar a fertilidade deste solo e convertê-lo em um campo de cultivo. Desmatar significa; destruir o ecossistema que ocupava este solo. Deve-se cortar ou incendiar a vegetação deste ecossistema e em seguida é necessário assassinar, capturar, domesticar, deslocar ou até extinguir as diferentes espécies de animais deste ecossistema. Isso aniquila todas as complexas relações e interações que mantinha esse ecossistema consigo mesmo (ecossistema e habitantes) e a relação que esse ecossistema mantinha com outros ecossistemas e com o planeta em geral.

b) já que se tem o campo de cultivo pronto, se necessita de camponeses que trabalharão a terra, há a necessidade de suas ferramentas (máquinas ou animais não-humanos de trabalho), se necessitam as sementes (nativas ou transgênicas) que serão semeadas, se necessita o fertilizante (natural ou industrial), se necessitam inseticidas (naturais ou industriais), se necessita a água para irrigação, etc…

E uma vez obtida a colheita ela é vendida a intermediários, eles a transportarão, armazenarão e distribuirão, até que finalmente esta semente, fruta ou verdura chegará ao estabelecimento comercial onde os “veganos” farão suas compras.

Então para poder realizar todo este processo é necessário utilizar a grande e complexa divisão do trabalho da moderna Sociedade Tecnológica, e em todas estas grandes complexas relações existe exploração e domesticação sistemática do reino animal e ambiental.

Alguns “veganos” poderão argumentar em sua defesa que as sementes, frutas e verduras que consomem não são de origem industrial, mas de hortas orgânicas, ok, mas se esta horta utiliza tecnologia moderna para a produção, armazenamento e distribuição de seus alimentos e se para poder adquiri-los há circulação de dinheiro, inevitavelmente continua colaborando com as dinâmicas de exploração e domesticação sistemática, animal e ecológica.

Talvez, as sementes, frutas e verduras realmente veganas são as que colheriam cada indivíduo com técnicas como; a permacultura ou jardinagem orgânica, e com o uso de ferramentas ou tecnologia simples, já que apenas assim deixaria de depender do Sistema Tecno-industrial e haveria uma renúncia a seus mecanismo de poder, controle, domesticação e exploração sistemáticos, mas a maioria dos autodenominados “veganos” não plantam seu próprio alimento.

Os autodenominados “veganos” dependem da moderna Sociedade Tecno-industrial para poder levar a cabo sua dieta. Na Natureza Selvagem nenhum animal determina de que maneira se alimentará, isso em grande parte quem determina é o entorno natural no qual se desenvolve. A dieta onívora dos animais humanos não foi uma escolha, mas uma necessidade de sobrevivência, um requisito para poder sobreviver em distintos entornos, comer o que houver, o que se possar comer. O organismo humano não é especialista, é oportunista, e sua dieta onívora é uma prova disso.

O animal humano domesticado em sua jaula civilizada é quem é capaz de decidir como se alimentar (dieta vegetariana, vegana, frugívora ou carnívora), mas para que isso seja possível é necessário colaborar e manter sua condição de animal humano domesticado a serviço do progresso do Sistema Tecnológico.

Nenhum vegetariano, vegano ou frugívoro com este tipo de dieta sobreviveria como o animal humano realmente livre deveria ser no entorno onde deveria se desenvolver (Natureza Selvagem).

A maioria dos autodenominados “veganos”, talvez, não se considerem a si mesmos como o que realmente são: animais humanos.

E também é bem verdade que aqueles que lutam pela “Liberação Animal” não lutam por sua própria Liberdade Individual Selvagem e não questionam nada sobre sua própria condição de animais humanos domesticados.

Se as sementes, frutas e verduras que nos oferece a moderna Sociedade Tecno-industrial não são veganas, muito menos seus demais produtos nocivos de origem industrial são: vestimenta, calçado, produtos de higiene e beleza, livros, música, bikes…

Uma análise similar poderia ser aplicada aos produtos enganosamente chamados de “verdes” ou “ecológicos”.

Nenhum produto proveniente da moderna Sociedade Tecno-industrial é vegano, e muito menos ecológico.

Os autodenominados “veganos” poderão seguir enganando a outros e enganando a si mesmos, poderão seguir dependendo do sistema de domesticação e exploração sistemática.

Poderão seguir denunciando as condições de escravidão dos animais não-humanos; e tudo isso sem ver nem denunciar sua própria condição de animais humanos domesticados a serviço do Progresso Tecnológico.

Eles conseguem ver as jaulas dos demais animais, mas são cegos demais para ver a moderna jaula civilizada em que vivemos.

Poderão seguir lutando inutilmente pela “Libertação Animal” sem antes lutar primeiro por sua própria Liberdade Individual Selvagem. É muito engraçado como um animal domesticado pretende libertar a outros animais.

Poderão seguir defendendo e promovendo as ideias e valores do Sistema Tecnológico (esquerdismo), buscando apenas melhorá-lo com suas inúteis reformas, e não destruí-lo definitivamente.

Poderão seguir consumindo compulsivamente seus produtos ou alimentos nocivos industriais supostamente veganos.

Tudo isso apenas enganará e tranquilizará de alguma maneira sua consciência, mas na verdade não fará nada para tentar atacar a domesticação e exploração sistemática do reino animal nem muito menos fará algo contra a domesticação, devastação e artificialização sistemática da Natureza Selvagem.

Frente a irracional fraude que resulta a teoria e a prática vegana, decidimos:

Renunciar ao consumo desnecessário, reutilizar os materiais já produzidos e deixar de depender do Sistema Tecnológico, desenvolvendo nossa própria forma de vida autossuficiente, longe dos valores da jaula civilizada e o mais próximo de nossa Liberdade Individual e da Natureza Selvagem.

Pela verdadeira Libertação Animal!

Fogo nas jaulas, fogo na civilização!

Revolución Feral

Primavera de 2013

Notas:

(1) Estas ideias e valores a que nos referimos, são: animalismo, sentimentalismo, anti-especismo, biocentrismo, hedonismo, a religião, o esquerdismo, a suposta naturalidade do vegetarianismo nos animais humanos, ecologia social, misantropia, etc..

(2) Quando falamos do veganismo neste texto estamos nos referindo a todas suas “diferentes” vertentes, desde o “veganismo burguês” até o chamado “anarcoveganismo”. E desde o movimento pela “Libertação Animal” reformista até o movimento pela “Libertação Animal” abolicionista ou radical (ALF, Animal Liberation Front – FLA, Frente de Libertação Animal).

Os ativistas da ALF-FLA poderão argumentar que eles não são reformistas porque são de ação, mas a verdade é que eles são idênticos aos que compõem o movimento pela “Libertação Animal” reformista que tanto criticam. São reformistas por defender e promover os mesmos valores do Sistema Tecnológico (esquerdismo), eles não buscam destruir o Sistema Tecnológico, apenas procuram melhorá-lo, e o pior é que não são conscientes disso.

(3) Por Libertação Animal nós entendemos: animais humanos e não-humanos que desenvolvem sua vida em Liberdade, em seu habitat Natural e Selvagem.

Lições deixadas pelos antigos: a batalha do “Pequeno Grande Chifre”

Tradução de Lecciones dejadas por los antiguos: La batalla del “Pequeño Gran Cuerno”, investigação antropológica que faz parte da edição 3 da Revista Regresión, divulgada publicamente na web.

A batalha do Pequeno Grande Chifre, ou também “Little Big Horn”, foi um dos episódios mais dolorosos que o exército estadunidense já sofreu, um acontecimento histórico enquadrado dentro das chamadas “Guerras Indígenas”. Na batalha os nativos americanos liderados pelo chefe Siux Tasunka Wikto, conhecido também por Cavalo Louco, o chefe espiritual Lakota Touro Sentado, o chefe Duas Luas dos Cheyennes, entre outros, alcançaram uma derrota esmagadora contra os invasores brancos. O que será aqui contado é apenas um rápido resgate de uma das tantas histórias de resistência mortal contra a civilização e o progresso e que nos deixa uma grande lição.

Pequeno Grande Chifre é como era chamado um rio dentro dos territórios do estado de Montana, no Estados Unidos. A zona vizinha de Black Hiils havia sido ocupada majoritariamente por colonos brancos após estes encontrarem nas proximidades várias minas repletas de ouro. No ano de 1876 o governo estadunidense tentou comprar as terras para explorá-las, o que irritou a muitos dos nativos que ainda viviam na região. O decreto do governo se espalhou por estes territórios dando apenas duas opções aos ancestrais donos destas terras, ou vendiam suas terras para serem transferidos para uma reserva ou seriam infratores da lei. Muitos escolheram a segunda opção e foi assim que a resistência começou a consolidar-se.

O governo deu aos aborígenes um prazo para que abandonassem suas terras milenárias e tendo excedida a data e desobedecendo o mandado, unidades militares começaram a expulsar à força vários acampamentos. O povo de Duas Luas e de Cavalo Louco foram agredidos e tiveram que abandonar suas posições. Foi então quando consultaram a quem na época era considerado o grande chefe espiritual e com maior influência em toda a comunidade nativa, Touro Sentado.

Este chefe Lakota realizou um chamado pela unidade de outros clãs para se defenderem da ameaça europeia e então algo como um “Tlatol” (1) foi celebrado a mando do chefe espiritual. Segundo as crônicas cerca de quinze mil nativos assistiram a reunião.

É dito que Touro Sentado ao ver tantas pessoas reunidas proclamou uma oração onde pedia a Wakan Tanka (segundo a cosmovisão dos Siux, o Grande Espírito) que a caça fosse boa para o seu povo, e assim os homens foram fortes e imbatíveis. Para que isso viesse a acontecer Touro Sentado fez a Dança do Sol no qual dançou dois dias e duas noites sem comida nem água, orando e observando os movimentos solares. Ao final da dança o líder espiritual teve uma revelação, via uma grande quantidade de soldados brancos e nativos caírem do céu. Segundo ele os soldados caídos eram uma oferenda a Wakan Tanka pela qual os guerreiros nativos deveriam assassiná-los, mas sem tomar suas armas, cavalos ou qualquer um de seus pertences. Se esta regra fosse ignorada as coisas dariam errado para os nativos.

Com uma coragem incandescente chefes tribais como Cavalo Louco reuniram seus homens e partiram em busca da oferenda a Wakan Tanka e para ao mesmo tempo defenderem suas terras das quais não se retirariam sem uma luta. Em 16 de Junho um grupúsculo de guardas nativos avistou das montanhas uma coluna de 1.300 homens brancos e índios aliados próximos a seu acampamento na zona de Rosebud. Quem liderava os soldados era o tenente George Crook.

A defesa começa e os homens armam-se para lutar. Se os invasores se aproximassem mais haveria a possibilidade de que houvesse baixas de crianças e mulheres entre o combate.

Pela madrugada do dia seguinte o chefe Cavalo Louco com mil de seus homens inesperadamente arma uma tocaia contra seus inimigos. Foi assim como as tropas ocidentais entraram em desespero e em uma rápida estratégia de guerra a horda de selvagens se dividiu em pequenos grupos para ir à caça daqueles que haviam se separado da coluna, tornando mais fácil o assassinato dos soldados norte-americanos. Após terem freado os invasores os nômades acamparam nas margens do rio Pequeno Grande Chifre.

Em 25 de Junho deste ano o tenente-coronel George Armstrong Custer (herói estadunidense por sua participação na guerra civil, considerado como o general mais jovem do exército daquele país em toda sua história, mimado pela imprensa e apelidado de “General Criança”), juntamente com sua coluna de 600 soldados dividida em três grupos, tentaram emboscar os guerreiros que haviam desmoralizado o coronel Crook e seus homens alguns dias antes.

Um dos três grupos disparou diretamente na parte frontal do acampamento, os guerreiros ao grito de Hoka Hey (que em Lakota significa “hoje é um bom dia para morrer”) responderam a agressão com seus arcos e flechas, com seus machados e suas escopetas e fizeram correr os soldados que caíram mortos sobre o rio.

O segundo grupo comandado por Custer decide atacar o acampamento nômade a partir de outro flanco. Durante a batalha o chefe espiritual Touro Sentado cuida das mulheres e das crianças enquanto as estratégias dos selvagens levam os soldados à loucura quando estes se veem indefesos após a fuga de seus cavalos, os quais fugiram assustados pelos nativos. Em questão de minutos os inimigos foram reduzidos e sitiados, e lá do alto das colinas os homens de Cavalo Louco gritavam palavras de guerra enquanto os estadunidenses aterrorizados assassinavam seus próprios cavalos ao usá-los como escudo. Segundo conta as crônicas a batalha foi feroz e caótica, era possível ver os guerreiros assassinando os soldados em luta corporal ou desde seus cavalos com flechas e machados ou disparando à queima-roupa contra eles em uma atmosfera de fumaça de pólvora. Se escutava gritos, uivos e o disparar das armas. Ao terminar a batalha o grande coronel Custer jazia morto com tiros na cabeça e no peito. Seus homens foram destroçados. Os selvagens nativos desnudaram os corpos, cortaram seus coros cabeludos e os castraram, além de também levar seus pertences, coisa que o chefe espiritual Touro Sentado havia dito que não fizessem. Desobedecer esta indicação seria visto depois pelos nativos como um prelúdio maligno já que após esta batalha eles ganhariam o ódio de um grande setor da sociedade ocidental e seriam massacrados e caçados como animais pelo exército estadunidense.

O terceiro e último grupo estava longe reunido com os poucos sobreviventes do primeiro. Este pediu apoio e mais soldados foram chegando. Cavalo Louco não podia arriscar perder mais homens devido ao que o acampamento ordenara em se levantar e partir com a vitória em mãos. A última grande estratégia que traçaram os antigos guerreiros foi que se dividiriam em pequenos grupos, pois assim todo o grande grupo não seria avistado. Muitos grupos pequenos era mais difícil de se encontrar do que apenas um. Foi assim como todos partiram em direções distintas.

Há várias lições aqui para se aprender com esta luta contra a civilização:

A primeira: a estratégia é muito importante quando se trata de sair vitorioso em uma luta ou uma batalha. Neste caso a luta individualista contra o sistema tecnológico deve ser tratada com tática e inteligência. Sabemos muito bem que ao dizer isso não se pretende ter em conta ganhar ou vencer totalmente este sistema, pois isso não está em nossas mãos, mas, na medida das nossas possibilidades, desferir golpes contra a mega-máquina que sejam transformados em vitórias individuais e que regressemos sem lesões ou sem detenções, esta deve ser a finalidade durante os ataques tanto de sabotagem como terroristas.

A segunda: vendo o exemplo de luta exposto acima dos antigos unidos contra um único objetivo e defendendo seu modo de vida com a natureza, a ferocidade desempenhou um papel muito importante e, embora durante a batalha houve feridos e até mortos, o ponto central recai na ideia de que a luta contra a civilização e o progresso deve ser a morte, feroz e exuberante, ou seja, extremista. As meias medidas não se incluem nesta guerra, aqueles ainda não robotizados totalmente que estão dispostos a matar e morrer defendendo sua natureza humana e defender a Natureza Selvagem que permanece indômita, devem ter isso em mente. Cavalo Louco foi assassinado um ano após liderar os nômades selvagens contra o exército estadunidense, morreu baixo uma saraivada de tiros de indígenas aliados do inimigo, seu corpo foi perfurado pelo chumbo da civilização, mas seu orgulhoso exemplo guerreiro permaneceu como um legado vivo para as gerações vindouras que assim como ele, se defendem e resistem ante o avanço do alheio.

A terceira: atacar o inimigo quando ele menos espera é outra das lições. Para ser efetivo e sair ileso de um ataque não é muito prático atacar durante uma data em que as autoridades possam estar informadas da ameaça. Por exemplo, a cada 8 de agosto o Tec de Monterrey se mantém em estado de alerta por se recordar de que neste dia no ano de 2011 o grupo eco-extremista “Individualidades Tendendo ao Selvagem” enviou um pacote-bomba na já conhecida história dos tenólogos feridos. Neste dia em especial, levar a cabo algum atentado contra a mesma instituição acadêmica seria um perigo para aqueles que o executassem já que é montado um dispositivo especial de segurança, só que muito discreto. Embora eu, pessoalmente, gostasse de ver outro atentado nas mesmas condições (ou até mais) na mesma instituição e nesse mesmo dia, e que funcionasse e burlasse todo o dispositivo de segurança, isso não seria muito pertinente.

A quarta: alguns tolos perguntaram anteriormente e sem conhecer nossas posturas: usarão as armas do sistema para enfrentá-lo?

Os nativos americanos que citamos acima lutaram com tudo o que tinham em mãos, arcos e flechas, machados e bastões, cavalos e rifles. Ditas armas foram úteis na hora de investir contra os brancos e os indígenas aliados. O que teria acontecido se estes mesmos indígenas houvessem rejeitado as armas dos brancos e tivessem atacado apenas com seus antigos utensílios de caça e de luta? Talvez nem haviam saído vitoriosos na batalha do Pequeno Grande Chifre ou outras mais.

As baixas do exército foram muito mais que as dos nativos. Um dos fatores que contribui para isso foi que os guerreiros levavam rifles de repetição (ou seja, poderiam disparar uma sequência de balas sem recarregar) os quais haviam roubado previamente do inimigo e com eles ganhavam tempo ao disparar em vários brancos em questão de segundos enquanto que os estadunidenses e aliados portavam rifles mono-tiro (poderiam atirar apenas uma vez e após isso era necessário recarregar). Esta lentidão em suas armas fez com que os nativos disparassem enquanto corriam com seus cavalos em direção aos soldados, rodeando-os enquanto estes tentavam recarregar suas armas.

Aqui é respondida a pergunta que foi abordada na quarta questão. Não podemos nos limitar às antigas ferramentas de guerra apenas porque criticamos este sistema tecnológico, devemos utilizar as armas do mesmo sistema para combatê-lo. Assim como os nativos americanos participantes da matança do Pequeno Grande Chifre não pensaram duas vezes em utilizar estes rifles de repetição nós também não teremos qualquer problema em utilizar alguma arma moderna que possa causar baixas ao inimigo.

É assim como termina este texto. Cada qual que saque suas próprias conclusões.

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  1. Tlatol” é como era chamada uma reunião selvagem na Mesoamérica Setentrional lá por meados do ano de 1540. Vários grupos caçadores-coletores nômades desta região se reuniam pela noite com toda a sua tribo e faziam rituais de guerra se preparando para o combate contra os invasores brancos e seus subordinados.

A Semente da Confrontação: a Guerra de Mixtón

Investigação antropológica extraída da edição número 2 da Revista Regresión, divulgada publicamente na web.

Durante o período de 1520-1531 foram edificadas várias cidades sobre os restos da civilização asteca, duas das mais importantes foram Nova Espanha e Nova Galícia, esta última ocupava os atuais estados de Jalisco, Colima, parte de Zacatecas e Nayarit.

O conquistador Nuño de Guzmán se encarregou de usar a força em vários povos sedentários e nômades do norte da Nova Galícia. Guzmán ficou caracterizado pelo seu excessivo uso da força contra os nativos, assim como por seus letais castigos contra aqueles que resistiam a ser escravizados.

Durante anos o conquistador trabalhou fielmente para a coroa e a religião católica, e embora suas ações contra os índios tenham lhe custado a prisão, a memória dos acontecimentos persistiu na mente dos aborígenes até o dia em que começou a rebelião.

Já em 1541 com os nativos cansados dos abusos e decididos a defender seu modo de vida, suas crenças e suas terras ancestrais, começaram a se rebelar, inicialmente evitando assistir as missas. Seu descontentamento foi maior quando soldados enviados por frades autorizaram levar os rebelados à força até a igreja, foi aí que muitos nativos sedentários abandonaram os povoados dos espanhóis e se refugiaram nas montanhas, adaptando-se novamente à vida de caçadores-coletores seminômades. Nas montanhas se encontraram com mais e mais indígenas que tinham decidido fazer o mesmo. Assim, após várias reuniões entre tribos e liderados por vários “tlatoanis”, a rebelião generalizada começou. Ao grito de “¡Axcan kema, tehuatl, nehuatl!” (Até tua morte ou a minha), os grupos de originários armados atacaram soldados espanhóis, queimaram conventos, igrejas e pequenos povoados, armaram emboscadas, mataram frades, cidadãos espanhóis, negros, mulheres, mulatos, indígenas aliados dos brancos, gados e cavalos.

Na rebelão participaram coras, huachichiles, caxcanes, zacatecos, guamares, guainamotas, tepehuanes, irritilas, huicholes, entre outros.

Depois de vários ataques os guerreiros se unificaram no Monte de Mixtón, de onde atacavam as cavalarias espanholas que eram enviadas pelo governador de Nova Galícia, Critóbal de Oñate. Por sua vez, frades missionários subiam o monte para tentar se envolver em negociações e assim alcançar a paz por meio de pregações religiosas. Segundo as crônicas, o franciscano Juan de Calero tentou dialogar com os rebeldes com sua bíblia na mão quando um deles respondeu furiosamente Já não nos pregará mais coisas do céu nem do inferno, não queremos tua doutrina!”, depois destas palavras mencionadas no idioma dos selvagens eles o atacaram e mataram-no com flechas e lanças.

Fernán Gonzales de Eslava descrevia os bárbaros da seguinte forma: “dentro de seu furor indescritível são aprisionados todos os males, e com flechas infernais não deixam vivos nenhum dos missionários viventes”.

Devido a grande maioria dos ataques que lançaram os europeus contra os rebelados de Mixtón terem fracassado, e advertido porque estes haviam tomado várias cidades (inclusive a própria cidade de Guadalajara), Oñate mandou chamar o capitão Diego de Ibarra, experto em estratégias militares. Este tratou de sitiar os rebeldes em raras ocasiões, mas nenhuma delas deu resultado mais do que já era esperado: cavalos flechados, soldados mortos e os vivos muito desmoralizados, tanto pelas perdas como pelas piadas que os rebelados faziam com eles lá do topo da colina após as batalhas.

Mas os nativos tinham algo guardado para Ibarra e seus homens, um golpe tão forte que iria abalar até mesmo o vice-rei de Nova Espanha, Antonio de Mendoza e a todo o Conselho das Índias.

Em 9 de abril de 1541, conhecendo os ciclos naturais e tendo o selvagem a seu favor, os nativos aproveitaram a aparição de um eclipse solar para surpreender aos brancos e matar a grande maioria.

Este golpe foi tão forte que o próprio vice-rei solicitou a presença de um conhecido conquistador, aquele que na época havia sido capitão de Hernán Cortes, quem havia ajudado fortemente a derrotar totalmente os guerreiros águia e jaguar que protegiam Tenochtitlán, só que por sua própria arrogância e megalomania ele cairia ante os pés descalços dos selvagens de Mixtón. Estamos falando de Pedro de Alvarado.

Alvarado confiante de que poderia controlar a situação decidiu ir diretamente junto com seus homens, unindo-se com os de Ibarra, ao Peñol de Nochistlán, outra colina onde os rebeldes haviam se fortalecido bastante. Alvarado não esperou reforços e lançou-se em sangrentas batalhas, as quais dia-a-dia foram ganhando e resistindo aos guerreiros nativos.

Em 24 de junho, durante uma grande batalha nas florestas do Peñol de Nochistlán, as flechas, lanças e as pedras fariam correr os espanhóis liderados por Alvarado. Aos gritos dos selvagens, sua atitude hostil e aparência agressiva seus homens ficaram fora de controle gerando um bolo humano durante a retirada, uns esmagando os outros costa abaixo. Em meio a isso Alvarado também foi afetado, recebeu várias feridas resultado das fortes flechas que os selvagens haviam projetado exclusivamente para perfurar as armaduras espanholas. Seu cavalo caiu sobre ele e fraturou-lhe várias costelas, deixando-o estendido no chão gravemente ferido.

Em 4 de julho Alvarado morreria devido aos ferimentos causados na batalha de Nochistlán. Ele havia perdido uma batalha contra aqueles quem catalogavam como primitivos inexperientes em batalhas. Alvarado pôde naquela época matar os melhores guerreiros da elite militar asteca, mas não teve chances contra os indomáveis caçadores-coletores.

Este foi mais um duro golpe para os brancos que realmente viam seu reino em perigo latente. O vice-rei Mendoza, inquieto e extremamente preocupado com as perdas, e porque a rebelião havia se espalhado até Michoacán, onde vários purépechas tinham pegado em armas junto com os (teo) chichimecas, mandou que fosse agrupado o maior número de indígenas aliados para combater a seus parentes étnicos. Com isso centenas de mexicas, tlaxcaltecas, xilotepecas, huejotzincas, etc., foram misturados ao exército espanhol para exterminar os rebeldes. As crônicas contam que mais de 50 mil homens foram os que atacaram ferozmente os rebeldes e os fizeram recuar das cidades que já haviam sido tomadas. Os selvagens tanto de Mixtón como de Nochistlán também caíram pelos numerosos ataques dos espanhóis e seus aliados indígenas, em 1542.

O extermínio foi inevitável. Assim terminaria mais um episódio da resistência nativa contra a civilização e o progresso. Muitos dos selvagens guerreiros morreram em batalha porque não estavam dispostos a negociar sua liberdade nem em aceitar os mandatos dos novos governantes, preferiam morrer negando os costumes e as crenças dos estranhos. Aqueles que sobreviveram deram seguimento a suas ações hostis, mas com menos impacto do que o levantamento generalizado. A chama do conflito seguia ardendo neles, a Guerra de Mixtón apenas seria o começo de algo maior; a Guerra Chichimeca, o maior e mais sangrento conflito nativo e de maior duração em toda a América do Norte, no qual oficialmente duraria mais de 50 anos.

Primeira Entrevista a Individualistas Tendendo ao Selvagem

Primeira entrevista de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) concedida à Radio La Fórmula após o ataque homicida do grupo no México que resultou na morte de um trabalhador da Faculdade de Química da UNAM.

O que vocês querem dizer com os ataques de 25 e de 8 de abril?

É preciso esclarecer uma coisa aqui, ITS NÃO foi responsável pelo ataque em 8 de abril na C.U., foi outro grupo que compartilha a mesma tendência do eco-extremismo, mencionamos ele em nosso último comunicado para evidenciar que as autoridades universitárias acalmaram ditos ataques.

Por outro lado, o ataque de 25 de abril na C.U., foi parte de uma coordenação entre grupos de ITS no México, Chile e Argentina.

Dedicamos todo o mês de abril a essa coordenação de ataques, os quais foram:

– Em 6 de abril a “Horda Mística do Bosque”, abandonou um artefato incendiário dentro da Faculdade de Ciências Físicas e Matemáticas da Universidade do Chile, em Santiago. Embora o artefato tenha sido encontrado antes de ser ativado, uma grande comoção foi gerada na comunidade universitária do país dos terremotos.

– Em 12 de abril o grupo “Ouroboros Silvestre”, detonou um explosivo em frente a Universidade de Ecatepec, no Estado do México, esta a poucos metros da Câmara Municipal localizada em pleno centro de San Cristóbal. Neste caso o artefato explodiu com sucesso sem que se soubessem mais detalhes.

– No mesmo dia o mesmo grupo abandonou um artefato explosivo de ativação eletromecânica na Comunidade Educativa Hispano-americana no mesmo município. O artefato detonou em um dos guardas da instituição no momento em que ele o ergueu e provocou-lhe ferimentos, acontecimento que as autoridades educativas e os meios de comunicação local acobertaram, os quais disseram que o artefato havia detonado sem deixar feridos e apenas danos materiais.

– Em 19 de abril o “Grupo Oculto Fúria de Lince” detonou um artefato explosivo caseiro em uma das entradas da Tec de Monterrey – Campus Cidade do México, em Tlalpan, sem que mais detalhes fossem conhecidos.

– Em 21 de abril o grupo “Constelações Selvagens” abandonou um pacote-bomba dentro da Universidade Tecnológica Nacional em Buenos Aireis, Argentina, sem que se soubessem maiores detalhes, pois as autoridades silenciaram o atentado.

– Em 25 de abril o “Grupo Oculto Fúria de Lince”, abandonou um artefato explosivo de ativação eletromecânica similar ao que detonou na Comunidade Educativa Hispano-americana em Ecatepec, mas dessa vez na Faculdade de Arquitetura na C.U., sem maiores detalhes.

– No mesmo dia, o mesmo grupo abandonou outro artefato explosivo com um mecanismo similar ao outro, mas, na faculdade de Engenharia, especificamente no edifício A, sem que mais detalhes fossem conhecidos.

Todos estes atos foram realizados pelos grupos mencionados e que estão associados a ITS, e que foram reivindicados em nosso Sétimo Comunicado em 9 de maio passado.

Contra quem atentaram?

Os ataques de 25 de abril na C.U., em particular, foram simbólicos e materiais contra a UNAM e contra qualquer universitário que cruzasse com os explosivos abandonados. É falsa a informação que propagaram alguns meios de comunicação onde dizem que os ataques de 25 foram especificamente contra o chefe de serviços químicos, é mentira.

Quantos mais objetivos vocês tem?

Nosso objetivo em específico é a civilização como um todo, as universidades e empresas que geram escravos para que este sistema continue a crescer, os shoppings e instituições que enchem de lixo as mentes das ovelhas cegas que rumam direto ao abate (com isso não estamos nos posicionando a favor da sociedade de massas, a qual também contribui com a destruição da Terra com a sua simples existência), atacamos os símbolos da modernidade, da religião, da tecnologia e do progresso, atentamos diretamente contra os responsáveis por esta mancha urbana que segue se expandindo e devorando os entornos silvestres que ainda restam. Em suma, nós, os eco-extremistas, estamos contra o progresso humano, o qual corrompe e destrói toda a beleza que há neste mundo, o progresso converte tudo em artificial, mecânico, cinzento, triste. Nós não suportamos isso e esse é o motivo pela qual declaramos guerra a esta civilização e seu asqueroso progresso já há alguns anos.

Nunca prenderam um companheiro de vocês?

Em 2011 depois de “mandar pelos ares” a dois professores da Tec de Monterrey – Campus Atizapán, dissemos que a PGR e demais instituições de segurança eram uma PIADA e ainda seguimos dizendo. Nenhum dos nossos foi detido até agora…

Por que matar?

E por que não? É pecado? É um crime? É errado? Com certeza mais de uma pessoa disse “sim” em alguma destas perguntas. Respondemos. Para ser claros, nós matamos porque isso é uma GUERRA, pelo motivo de não reconhecermos mais autoridade que a autoridade de nossas deidades pagãs relacionadas à natureza e contrárias ao catolicismo e ao deus judaico, deidades pessoais que nos empurram para o confronto. Matamos porque não reconhecemos outra lei a não ser as leis naturais que regem TUDO neste mundo morto. Matamos porque rechaçamos qualquer moral que nos queiram impor, porque não consideramos nem “mal” nem “bom”, mas sim uma resposta de nossa individualidade a toda a destruição que gera o progresso humano.

Dentro do espectro do terrorismo, matar pode ser uma estratégia, um chamado, uma advertência para o que talvez possa ocorrer…

Voltando ao tema central, assassinamos o chefe de serviços químicos da UNAM para lembrá-los que podemos atacar a qualquer momento a quem quer seja dentro da universidade, para mostrar que nossos objetivos foram ampliados. Em 2011 nos dedicamos a atacar os cientistas e investigadores, agora todos os que integram a comunidade universitária podem e são um objetivo potencial. Por quê? Pelo simples fato de serem parte da comunidade estudantil e progressista do mais alto local de estudos.

Advertimos meses atrás às autoridades da UNAM, advertimos que se nossos ataques permanecessem sendo silenciados teriam de enfrentar as consequências. O resultado foi a escandalosa morte dentro da Cidade Universitária como um aviso. Tanto faz para nós que tenha sido um trabalhador, o mesmo escândalo houvesse ocorrido se o morto fosse um estudante ou um professor, ou na melhor das hipóteses, um investigador renomado. O objetivo, a UNAM, foi atingido mais uma vez. As autoridades desmoralizadas e nós com mais uma morte em nossa história.

Como podem provar que foram vocês?

As provas estão nos fatos, o corpo tinha seus pertences, não foi um roubo. O corpo foi localizado em um lugar onde não há câmeras, isso indica um ataque direto e não outra coisa. Já sabemos que as autoridades da cidade estão preparando suas “investigações” torpes e com faltas de argumentação (como sempre) para indicar que não foi nós para não assustar ainda mais a comunidade universitária. Havíamos pensado em arrancar o couro cabeludo dele como prova, mas não foi possível. Como escrevemos no comunicado, fica para a próxima. Você e todos podem pensar o que quiserem, que foi um roubo, uma vingança pessoal por pessoas de seu bairro, que foi acidental, etc., mas a nossa história não mente, não somos um grupo novo que vem do nada, e já foi evidenciado com esse e com outros atos que não estamos de brincadeira.

Se não acreditam em um amanhã melhor nem são revolucionários, o que pedem? Qual é a finalidade de sua luta?

Nós não pedimos nada, não temos exigências ou “folhas de petição”. Se pode negociar a perda de nossas raízes como seres humanos naturais que estão resistindo à artificialidade da civilização? Claro que não, não há negociação nem mesas de diálogo ou qualquer outra coisa.

Nós não acreditamos nas revoluções, afinal sempre visam a “solução de problemas”, a construir algo novo e “melhor”. Deixe-nos dizer, a era das “revoluções” e dos “revolucionários” acabou, não existe “revolução” alguma que possa mudar uma coisa negativa por uma positiva porque hoje tudo está corrompido, porque tudo está à venda, porque o que rege o mundo na atualidade não é o poder político, mas o econômico. As revoluções são coisas do passado e nós entendemos isso muito bem.

Nós não queremos resolver nada, nem propomos nada a ninguém, não queremos mudar o mundo, nem queremos nos unir à massa. Chega das utopias secundárias, chega de ter em mente que possa haver um mundo novo. Olha ao seu redor, o presente está repleto de horrores causados pela mesma civilização, pela alienante realidade tecnológica (redes sociais, celulares, etc.), respira o espesso ar desta suja cidade, olha as pistas repletas de carros, observa a massa se espremendo nos ônibus, nos metrôs, veja suas caras cansadas da mesmice. O poder econômico poucos o tem, vivem no luxo, se afundam em notas e comodidades, os meios de comunicação estão vendidos à melhor oferta, e surgem os não-conformistas, e desaparecem com eles e os assassinam, a tensão social se agrava, e quando tudo parece que irá explodir, a normalidade retorna, ou tudo se vai a uma normalidade alternativa. Por isso nós deixamos de acreditar em um “amanhã melhor”, porque este presente decadente é o único que temos, e neste presente apenas vemos o progresso que avança sem freio em direção ao abismo civilizado.

A civilização está podre, cada vez mais se corrói, porém segue avançando. O que mais iríamos querer senão fazê-la colapsar com nossas próprias mãos? Mas isso seria outro propósito infantil.

Nós não apostamos na queda da civilização, nem temos como finalidade a destruição desta, que fique claro.

No aspecto filosófico somos pessimistas, porque vimos que todo o belo para nós, que é a natureza, se perdeu, a destruíram e seguem empurrando-a à extinção. Não nos resta nada pelo que lutar, exceto por nossas próprias individualidades. Nós seguimos sendo humanos ao invés de robôs, somos a Natureza Selvagem que resta, o último dos últimos, nós continuamos nos considerando parte da natureza e não os donos. Nós eco-extremistas resgatamos nossas raízes primitivas, e entre muitas outras coisas está a confrontação, o conflito que nos identificou como pessoas desta terra, filhos da algaroba e do coiote, guerreando contra os que nos queiram domesticar, assim como fizeram nossos antepassados mais selvagens ao não permitir serem subjugados pelos europeus a sua chegada na Grande Chichimeca.

Nós eco-extremistas somos animais domésticos com seus instintos ainda vivos. Para muitos é certeza que é uma “incoerência” dizer que estamos contra tudo isso e continuar usando tecnologia. Respondemos que não hesitamos em usá-la para conseguir nossos fins imediatos, isso é um fato, nós não nos importamos com um caminho cair em supostas “inconsistências”, assim como não nos importamos com nada que nos considerem o que quer que seja.

Uma das finalidade de ITS e do eco-extremismo em si é o ataque, é devolver os golpes que deram à Natureza Selvagem sem ser homenageados como “revolucionários”, desinteressadamente guiados por um impulso egoísta.

Os eco-extremistas são como as abelhas, as quais fincam seu ferrão para ferir a seu oponente (a civilização), lutando sabendo que morrerão tentando, já que está claro que nesta guerra não sairemos vitoriosos.

Isso vai parecer que somos doentes mentais ou desequilibrados, mas olha, o eco-extremismo niilista é uma tendência que praticamente “nasceu” no México, e que alguns individualistas tomaram como sua no Chile, Argentina e Europa. Está claro que não somos os únicos loucos…

Talvez há mais perguntas que respostas, isso é tudo que diremos por agora. O que está feito está feito.

Ecologistas Selvagens

Pequena reportagem investigativa extraída do site Reporter Indigo. Foi publicada em 2016.

jalisco

A Procuradoria Geral de Jalisco atribuiu a organização eco-terrorista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) dois explosivos encontrados em fevereiro em Guadalajara, o que confirma sua chegada; em 2011 ITS perpetrou diversos ataques contra membros da comunidade científica do TEC, UNAM, UPP e outros.

“Nossos atos estão pensados para aterrorizar, ferir, mutilar e assassinar aos mencionados objetivos. Utilizando ameaças, explosivos e armas de fogo para cumprir nossos fins imediatos. Os e as que trabalham na destruição da natureza selvagem necessitam de uma punição, seus atos não permanecerão impunes.”

“Nada, absolutamente nada garante que não serão feridos civis. Na verdade, nossos ataques são projetados para causar o maior dano possível e se em um destes atentados caem mais vidas do que havíamos pensado, melhor ainda.”

Isso faz parte do Quinto Comunicado de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), uma organização inclinada ao eco-terrorismo a qual a Procuradoria Geral de Jalisco atribui a colocação de dois artefatos explosivos em Guadalajara, em fevereiro passado, o que revela sua chegada à cidade.

A notícia passou um tanto despercebida. Em 8 de fevereiro foram abandonados pacotes explosivos nas delegações do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (Conacyt), e na Secretaria de Agricultura, Pecuária, Desenvolvimento Rural, Pesca e Alimentação (Sagarpa), ambos neutralizados pelo esquadrão Tedax de Guadalajara.

Dois dias depois, o promotor Eduardo Almanguer Ramírez disse que o atentado “foi dirigido a cientistas”, e abundou:

Um deles é investigador em novas tecnologias de produção agroalimentícia e o outro é o diretor do Conacyt, estão desenvolvendo vários projetos e estamos revisando o que poderia ter ocorrido”, uma declaração registrada pelo jornal Crónica.

Em 13 de fevereiro foi o próprio ITS que se atribuiu da autoria destes artefatos, em seu Segundo Comunicado, onde descreve suas ações e objetivos:

“Um pacote-bomba de ativação eletro-mecânica composto de dinamite foi abandonado nas oficinas centrais da Sagarpa na colônia Tabachines, do município de Zapopan. O pacote estava dirigido ao titular da instituição federal.”

“Um outro pacote-bomba de ativação similar, porém composto por um tubo de papelão sólido preenchido com pólvora negra foi abandonado nos escritórios do Conacyt, dirigido ao encarregado da instituição, na colônia Vallarta San Jorge, em Guadalajara.”

“Embora ambos explosivos não tenham alcançado o seu fim, o qual era ferir ou privar a vida das pessoas-objetivos, foi gerada uma grande mobilização policial e militar em ambos municípios.”

Em um informe posterior de seu Comissário de Segurança Pública, Raúl Alejandro Velázquez Ruiz, obtido em 14 de março através da lei de acesso à informação pelo Repórter Indigo, a Procuradoria confirmou o ITS por trás dos pacotes explosivos.

A Chegada

A organização ITS -antes denominada de Individualidades, não Individualistas– situa sua origem em 2011, ano em que perpretaram diversos ataques à comunidade científica em locais como a Cidade e o Estado do México, Guanajuato, Hidalgo e Morelos, mas não havia antecedente dela em Jalisco.

“Que saibam que ITS também se encontra em Jalisco, isto foi apenas uma prova, seguiremos empenhados em aterrorizar, ferir, mutilar e até mesmo assassinar os cínicos responsáveis por trás de uma instituição que se dizem “preocupados” com a natureza, mas que, em vez disso (sic), são responsáveis diretos pela devastação e a domesticação desta.”

Em seu Primeiro Comunicado de 26 de janeiro de 2016 definiram seus objetivos:

“Persistimos nesta guerra declarada contra o sistema tecnológico, contra os que o aperfeiçoam e o sustentam. Atentamos fisicamente e emocionalmente contra aquelas pessoas-objetivos que se empenham em destruir e manipular os ambientes naturais, indômitos e selvagens que restam.”

“Nossos atos estão pensados para aterrorizar, ferir, mutilar e assassinar aos mencionados objetivos. Utilizando ameaças, explosivos e armas de fogo para cumprir nossos fins imediatos. Os e as que trabalham na destruição da natureza selvagem necessitam de uma punição, seus atos não permanecerão impunes.”

Em seu Quinto Comunicado em 2 de março, afirmou ter presença no Estado do México (Ouroboros Silvestre); na Cidade do México (Grupo Oculto “Fúria do Lince”); em Michoacán (Grupo Editorial “Revista Regresión”); e em Jalisco (Bando Feral-Delinquencial), além de Chile e Argentina.

“Vagamos por suas cidades em busca de seus defeitos e imperfeições, à procura de tudo que seja civilizado e progresso humano. Conhecemos seus tempos, suas horas e momentos, sua rotineira monotonia civilizadora nos ampara”, é parte do seu Terceiro Comunicado de 19 de fevereiro, desde o Chile.

A História

O primeiro atentado que é atribuído a ITS data 19 de abril de 2011, na Univerdade Politécnica do Vale do México, em Tultitlán, onde um artefato explodiu e provocou feridas graves a um trabalhador no rosto.

Somente em 2011 ITS assumiu a autoria de outros quatro pacotes explosivos: no Tec de Monterrey em Atizapán (8 de agosto); no Centro de Investigação e de Estudos Avançados de Irapuato (Cinvestav, 28 de agosto); na Universidade Politécnica de Pachuca (8 de dezembro); e nos escritórios do Greenpeace (25 de novembro).

Além disso, assumem a responsabilidade do homicídio em Cuernavaca de Ernesto Méndez Salinas, investigador do Instituto de Biotecnologia da UNAM, em 8 de novembro de 2011.

Após o ataque citado ao Tec de Monterrey, onde a explosão do dispositivo feriu a Armando Herrera Corral, coordenador do Centro de Desenvolvimento Empresarial e Transferência de Tecnologia, e a outro cientista, Alejandro Aceves López, ITS difundiu:

“Parece que neste atentado acertamos a dois tecnonerds com um só tiro.”

Em seguida o procurador mexiquense, Alfredo Castillo Cervantes, disse à imprensa em 9 de agosto de 2011:

“Foi identificado como prováveis responsáveis um grupo denominado Individualidades Tendendo ao Selvagem, por suas siglas ITS, como aqueles que tem atribuído o envio e fabricação de um artefato explosivo contra o pessoal acadêmico deste centro educacional”; asegurou que tinha presença na Espanha, França e Chile.

Em 2013 ITS atribuiu a suas atividades mais dois explosivos, um explodiu em um carro dos correios da Sepomex em Tlalpan (21 de fevereiro), e outro foi dirigido ao investigador em nanotecnologia Sergio Andrés Águila, do Instituto de Biotecnologia da UNAM, em Morelos, entretanto não detonou (11 de fevereiro).

Libertação Animal

Antes de ITS, um grupo também de orientação eco-extremista -mas sem se assumir como terrorista- havia deixado explosivos em Guadalajara: a Frente de Libertação Animal, a qual a Procuradoria atribui três artefatos, embora apenas tenha detonado.

O primeiro foi colocado aos arredores do laboratório Novartis em 22 de setembro de 2009. A FLA acusou a esta empresa de torturar animais; e o segundo foi posto em 19 de maio de 2010 a 20 metros de distância do primeiro local; nenhum explodiu.

Em contrapartida, em 6 de novembro de 2010, a FLA explodiu um pacote nas imediações da Secretaria de Desenvolvimento Rural, embora sem causar grandes danos. Os três foram na colônia Americana de Guadalajara.

Em seu relatório sobre Terrorismo em 2009, o Departamento de Estado estadunidense incluiu a atividade da FLA no México:

“Embora os incidentes de terrorismo doméstico não tenham aumentado durante o ano passado, o México recebeu ameaças de um grupo anteriormente ativo (o EPR) e testemunhou o surgimento de um novo elemento.”. E observa:

“De maio a agosto, a Frente de Libertação Animal assumiu a responsabilidade por ataques a bancos e pontos comerciais na Cidade do México, usando bombas com tanques de propano. Três bombas foram descobertas sem explodir, outras três causaram danos em propriedades, mas não houve feridos.”

No relatório de 2010 os atos da FLA voltaram a ser incluídos nos “incidentes terroristas” no México.

Nanotechnology: Armed resistance

Nanotechnology: Armed Resistance é um artigo publicado pela revista científica Nature que aborda as primeiras ações terroristas do grupo Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) em 2011. Na época a organização eco-terrorista se dedicou a atacar a comunidade científica engajada na exploração da nanotecnologia, especialmente investigadores da Tec de Monterrey no México.

Você pode ler o artigo completo no próprio site ou pode acessá-lo logo abaixo.

DESCARREGUE em PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

Revisitando a Revolução

Escrito redatado pelo autor John Jacobi da tendência Selvagista e publicado no The Wild Will Project. Este texto é produto da reflexão do teórico após investigar o Eco-extremismo e concordar com a sua crítica à “revolução”. O texto foi extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Resumo – Os selvagistas, assim como seus precursores ideológicos, em geral apoiavam a noção de “revolução” como resposta a seus anseios. No entanto, uma série de grupos conhecidos como “eco-extremistas”, que vieram dos mesmos precursores ideológicos que os selvagistas, desafiaram a “abordagem revolucionária” do retorno ao selvagem. Este artigo explica a abordagem revolucionária e por que os eco-extremistas estão certos.

A Velha Visão

Os valores dos eco-radicais e eco-extremistas selvagistas já foram suficientemente elaborados, mas parte da minha intenção ao iniciar este jornal era explorar e esboçar um modus operandi com base nesses valores. Até então, eu (e aqueles com quem trabalho) havíamos nos atido a uma noção aproximada de “revolução”, ou melhor, de reação anti-industrial. O raciocínio era tal como se segue:

Já que desejamos que o mundo entre em colapso para tornar-se um lugar menos administrado ou mais selvagem, nossa preocupação é como alcançar um estado de coisas em que o modo de produção industrial seja tornado cada vez menos eficiente, ou até mesmo, em algumas regiões, um estado em que ele seja destruído para além de qualquer possibilidade de restauração. Mas, é claro, a vida industrial é por demais conveniente. É pouco provável, então, que as pessoas se revoltem contra ela.

No entanto, historicamente tem havido períodos revolucionários em que esse tipo de coisa torna-se possível – épocas em que as pessoas de um lugar específico perdem muitas de suas inibições normais e agem fora dos limites da moralidade convencional. Durante esse período, é muito mais provável que as pessoas ajam contra os seus interesses materiais imediatos, deixando um espaço para que minorias pequenas e organizadas tirem vantagem desse momento de massa e instiguem a ação contra toda estrutura que considerem ilegítima. A Revolução Francesa foi um desses períodos. E o partido bolchevique da Revolução Russa, que explorou metodicamente muitos aspectos inerentes à sociedade de massa, demonstrou como uma minoria pode fazer uso de um momento como esse.

Evidentemente, parte da análise selvagista envolve uma compreensão de que a sociedade (e sua técnica) desenvolvem-se de modo autônomo em relação a qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos; ou seja, as culturas evoluem (ver “Technical Autonomy). Isso significa, entre outras coisas, que os revolucionários não podem planejar sua revolução. A Revolução Francesa, por exemplo, foi resultado de forças imprevisíveis tais como a fome e a industrialização; e a Revolução Russa irrompeu em um momento de intensa pobreza dos russos e de guerra mundial. Esse aspecto do desenvolvimento cultural em geral em que este “arrasta os humanos consigo” também é o motivo pelo qual os revolucionários conseguiram destruir a sociedade-alvo, mas falharam miseravelmente em instituir seus esquemas utópicos racionais. De novo, as culturas evoluem; elas não são planejadas. A única razão pela qual os radicais da época conseguiram tirar vantagem da instabilidade foi porque, de antemão, eles se organizaram e se isolaram, criando uma minoria resoluta não comprometida com a estrutura dominante que buscava derrubar. Por conta disso, os selvagistas e suas influências ideológicas (por exemplo, Kaczynski e os indomitistas) defendiam a criação dessa minoria, que se prepararia para a ação cada vez mais radical em tempos de instabilidade. Essa minoria não teria esperanças de instaurar esquemas racionais, mas se dedicaria totalmente a atacar de modo implacável a sociedade industrial.

Nós, eco-radicais, acreditávamos que essa era a única forma de causar dano máximo ao sistema industrial global. Não é que a revolução fosse uma solução perfeita. De qualquer forma, soluções perfeitas não existem. Mas outras propostas eram ou completamente irrealistas ou não iam longe o bastante, e a reforma é impossível como uma força satisfatória, dadas as demandas de nossos valores. Havia até mesmo uma chance de que a reação seria global em alcance, o que significaria não que toda a indústria entraria em colapso, mas que os esforços revolucionários estariam ocorrendo em muitos lugares ao mesmo tempo, talvez com algumas regiões em que eles seriam mais bem-sucedidos. Essa é uma possibilidade nos dias de hoje porque a infraestrutura industrial unifica o mundo, permitindo que as mensagens se espalhem muito mais rápido do que antes. Essa foi, no fim das contas, a razão pela qual os valores da Revolução Francesa se espalharam tão rápida e completamente; e é o motivo pelo qual os jihadistas podem agora ser vistos atacando por toda parte.

Além disso, em regiões onde houve colapso estatal ou industrial, muitas vezes causado por revoluções, podemos observar ganhos notáveis para a natureza selvagem. Considere-se, por exemplo, a Síria, a Líbia, muitas partes do Afeganistão, e até mesmo lugares ao sul dos EUA, como o México e o Brasil. Onde há um alto grau de instabilidade na sociedade moderna (indústria, democracia, instituições humanistas, etc.), as sociedades são menos vigiadas, a natureza não-humana é menos desenvolvida em um sentido material, a infraestrutura começa a ruir… De fato, as emissões de carbono no Oriente Médio estão diminuindo rapidamente devido à atividade revolucionária que se passa por lá, tal como é de se esperar, já que as emissões desde a Revolução Industrial somente diminuíram globalmente em tempos de declínio ou de colapso (por exemplo, a Grande Depressão, o colapso da União Soviética, a Recessão de 2008 etc.).

Porém, esse raciocínio é falho. Não é que a reação em si mesma seja algo indesejável ou mesmo impossível. Claramente, ela é possível. Por exemplo, os jihadistas, não importa o quão abomináveis sejam, estão de tal modo suficientemente organizados e difundidos que, se algum fator externo incontrolável, como um desastre natural, causasse danos severos às sociedades industriais, eles poderiam tirar vantagem desse momento e provocar um enorme estrago. A rigor, é errôneo basear a própria ecodefesa nessa possibilidade, é errôneo imaginar a reação como uma “solução definitiva” para os problemas do Progresso, e é errôneo legitimar o retorno radical ao selvagem por referência ao período revolucionário. Nossos valores oferecem uma mensagem diferente dessa.

Um grupo com influências ideológicas semelhantes às dos selvagistas, os assim chamados eco-extremistas, tentaram elaborar esse argumento em seus comunicados e escritos. Inicialmente, seus argumentos pareciam juvenis, impacientes, imediatistas. Porém, com o passar do tempo, sua análise tornou-se mais aguçada e, quanto a mim, eles conseguiram me convencer que o lugar da revolução no discurso selvagista deveria ser repensado. Depois de muito debate sobre essa questão, minha posição (e a da maioria das pessoas com quem trabalho) mudou.

A Nova Visão

Em primeiro lugar, consideramos o retorno ao selvagem e a ecodefesa como bons em si mesmos. Não há necessidade de um evento futuro que os legitime. É no presente que a natureza selvagem está sendo dominada e destruída, e é no presente que a defenderemos e a restabeleceremos. A ação radical pode precisar de uma justificativa especial, mas isso pode ser facilmente explicado, e não por recurso ao messias da revolução: se a própria ameaça é radical, por que a defesa, por sua vez, não pode ser radical também? Conforme assinalei em “The Foundations of Wildist Ethics”, é razoável dizer que, à medida que o selvagem torna-se cada vez menos uma qualidade definidora de nosso mundo, tanto mais valioso ele se torna, e tanto mais justificável a defesa radical. “Nenhum recurso a não ser ao presente.”, disse um selvagista; e ele tem razão.

Ademais, a revolução não é nenhum messias. Visto que nenhum humano ou grupo de humanos pode incitá-la – apenas tirar vantagem do momento –, nunca está claro como ela irá terminar. De novo, podemos observar isso em regiões onde a revolução ou o colapso estão ocorrendo. Alguns desses processos foram bastante prejudiciais à natureza selvagem, ou pelo menos não foram ideais, e a situação é tal que um curso de eventos semelhante será comum em situações futuras. Pode ser que a revolução aconteça e ainda haverá trabalho a fazer. Um único evento, portanto, não é o foco. Na verdade, é possível que ele seja tangencial.

Considere-se, por exemplo, outros meios através dos quais o colapso ocorreu. Alguns colapsos aconteceram sem absolutamente nenhuma participação humana, com a própria natureza selvagem batendo tão forte que nenhuma intervenção humana se fez necessária; em outros casos, a única participação humana foi a resistência ao colapso, mas fracos como somos enquanto força motriz da sociedade, ele ocorreu mesmo assim. Em alguns lugares, a revolução apenas levou a mais Progresso, ou a regimes totalitários que, embora menos eficientes do que as democracias, continuam sendo incompatíveis com nossos valores. Em suma, a revolução não é o fim. Pode-se até mesmo argumentar que, muitas vezes, ela é apenas o começo.

Isso envolve um aspecto da análise selvagista que eu já havia notado que parece ser contraditório com a proposta anterior da revolução: nosso fatalismo. Acreditamos que os humanos estão tão sujeitos aos processos e aos rumos da natureza selvagem quanto qualquer outro animal; e como qualquer outro animal, somos levados por ela, não uma força motriz por trás dela, não importa o quão enganosas nossas percepções possam ser. Isso é ilustrado até mesmo pelo materialismo científico moderno e por seu determinismo (seja ele literal ou, dependendo da interpretação que se tenha dos fenômenos quânticos, prático). Escrevi brevemente sobre isso em “The Question of Revolution”, chamando a atenção para o fato de que o colapso não é algo que os selvagistas pensam que possam causar. Em vez disso, se é para acontecer, acontecerá de qualquer forma. O colapso, portanto, é mais uma previsão, e falar de ação ou livre arbítrio é meramente uma “ficção útil” para mentes humanas que nunca conhecem nem são capazes de conhecer o bastante para que tenham certeza de seu destino. Isso, o argumento do naturalismo filosófico, é de fato aquilo em que eu mesmo acredito; os eco-extremistas o mais das vezes falam simplesmente em fatalismo, sem referência a fundamentos filosóficos mais profundos. Nesse mesmo sentido, muitos caçadores-coletores adotavam uma espécie de ponto de vista fatalista em relação à vida, forçados como eram a reconhecer sua pequenez perante as montanhas, os mares e o céu noturno não poluído.

O que dizer, então, da possibilidade de que o colapso talvez nunca ocorra? É aqui que os eco-extremistas conseguiram me convencer. Eles dizem: “Pouco importa.”. Eles têm razão, tal como eu mesmo observei na mesma seção de “The Question of Revolution”. A despeito da possibilidade da revolução, me mantenho firme nos meus valores e agirei de acordo com eles. Estas instituições, esta sociedade, a infraestrutura industrial sobre a qual ela é construída – pode ser que tudo isso continue conosco para sempre, mas isso não significa que eu tenha que respeitá-las. Tampouco acredito que sequer consiga fazê-lo. Estou condenado, fadado, talvez: nada posso fazer a não ser desprezar o controle de minha vida e do mundo selvagem que amo.

Mais uma vez, os eco-extremistas defenderam esse argumento há mais tempo do que eu. Embora os selvagistas sempre tenham argumentado que os valores originam-se da vontade individual – seu niilismo em relação aos valores objetivos tendo também sua fonte no naturalismo filosófico supracitado –, os eco-extremistas foram aqueles que assumiram firmemente sua posição e agiram como indivíduos, não apenas dispensando a revolução como uma força legitimadora, mas também os movimentos de massa. Pode ser que ajude que os outros estejam comigo, mas eu pouco preciso deles para poder viver com integridade, e eu em nada dependo deles para fazê-lo.

Por fim, dado o caráter não planejado dos fenômenos culturais de massa, é arriscado argumentar a favor do messias da revolução. Considere-se meu ensaio “The Question of Revolution”, no qual discuti mais sobre a moralidade relativa à revolução do que sobre estratégia e incitação. Como, questionei, a morte causada pela revolução é compatível com os valores selvagistas? E quanto aos perigos do colapso nuclear? Loucura humana? Ao responder a essas questões, eu normalmente explicava que elas eram irrelevantes, dado que os humanos não causam as revoluções. Nenhum movimento revolucionário, não importa o quão forte, vai ter um botão que, quando acionado, desencadeará o colapso industrial. Assim, eles não seriam responsáveis por tudo o que ocorresse (sob qualquer noção normal de “responsabilidade”). Em vez disso, sendo os humanos criaturas com conhecimento e influência limitados, qualquer instabilidade revolucionária somente contará com o reforço de indivíduos que ajam de acordo com o modo que julgarem apropriado naquele momento, sendo esses indivíduos responsáveis pelas consequências dessas ações específicas, mas incapazes de prever o rumo geral de sua sociedade. No entanto, muitas vezes eu vacilava em minha análise ao tentar uma visão “global” da situação, por exemplo, ao argumentar que a morte causada por uma situação revolucionária não chega nem perto da devastação causada pelas mudanças climáticas, pelas extinções de espécies (que chegam a mais de 1.000 vezes a taxa de extinção natural!), e por outros problemas citados pelos eco-radicais.

E até mesmo nesse caso, eu quase me contradisse ao chamar a atenção para as limitações da razão moral humana, provavelmente de base biológica. Por exemplo, eu mencionei as descobertas de Paul Slovic, um psicólogo social que observou que os humanos geralmente passam por um processo de “entorpecimento psíquico” em relação ao sofrimento à medida que o número de humanos que sofrem fica maior. Em um experimento, ele pediu que os voluntários doassem dinheiro para uma causa que alimentava crianças na África, dizendo a eles que uma criança específica estava precisando de ajuda; mas à medida que os números aumentavam, ou se o sofrimento da criança era colocado no contexto de uma tragédia maior, as doações diminuiriam rapidamente. Isso ocorria até mesmo depois que apenas mais uma criança era mencionada. Foi com esse tipo de limitações em mente que eu brinquei com a ideia de uma moralidade baseada na razão em “Foundations”, argumentando que em uma situação não-natural como essa em que nos encontramos, precisaríamos usar muito mais o lado racional de nossa mente do que o lado intuitivo. Mas nem sequer está claro que isso seja possível, o que torna um experimento como esse altamente perigoso. Além disso, qualquer tipo de raciocínio dependeria de dados acessíveis somente através da infraestrutura científica e industrial moderna ou hipermoderna – algo obviamente incompatível com nossos valores regressivos.

Em vez disso, os eco-extremistas – corretamente – argumentaram que deveríamos ignorar qualquer raciocínio “global” e agir no presente de acordo com nossos valores. Se um radical ataca a infraestrutura industrial, ele o faz porque acredita que a ação seja justificada nesse caso específico; se mata um técnico, terá que viver com a responsabilidade; se tira vantagem de uma manifestação para dar notoriedade aos valores eco-radicais, justificará a ação com sua própria vontade selvagem.

Ressalvas e Esclarecimentos

É claro, nada disso significa descartar uma reação anti-industrial como uma possibilidade, especialmente em regiões pequenas, como países equatoriais que serão afetados pelas mudanças climáticas. Em vez disso, significa que se ela ocorrer, será meramente um evento significativo no decorrer de nossas vidas – ou não. Os eco-extremistas em geral parecem concordar nesse ponto. MictlanTepetli, o propagandista com o qual conversei, disse: “É claro, se a oportunidade surgir e nos depararmos com um setor da cidade destruído pela guerra civil ou por uma catástrofe semelhante, nos dedicaríamos a resselvagizar esse lugar, sem sombra de dúvida.”. Esse é, em geral, o posicionamento das pessoas com quem trabalho. Não faz sentido ficar de braços cruzados. Mas alguns comunicados eco-extremistas dizem que a revolução é absolutamente impossível, e eles têm certeza disso. Isso eu não posso dizer que seja de fato verdade; simplesmente não temos como saber, e é o máximo que se pode dizer a respeito. Basta dizer que pouco importa se a revolução irá ou não ocorrer. Tal como um texto eco-extremista coloca:

“Sim, os eco-extremistas são pessimistas e lamentavelmente nos demos conta de que a destruição da civilização é impossível. A única capaz de causar um dano sério à civilização e, na melhor das hipóteses, acabar com ela, é a própria Natureza Selvagem; então, o que fazer?; cruzar os braços e esperar?; observar como a civilização se expande em todas as direções acabando com os hábitats selvagens, sem fazer nada? Nunca!”

É claro, tal como escrevi anteriormente, os eco-extremistas, mais do que qualquer outra pessoa, seriam capazes de tirar vantagem da instabilidade, seja ela revolucionária ou não. Considere-se os bolcheviques. Lenin manteve o partido altamente isolado do resto da sociedade que eles pretendiam destruir, resistindo à propaganda dominante e exacerbando essa deslealdade através da atividade conspiratória. Ele também promoveu vários projetos congruentes com essa estratégia, como um “jornal com circulação em toda a Rússia”, que ensinava aos revolucionários como se coordenarem ao mesmo tempo em que aprendiam como explorar a tensão ao de fato fazê-lo quando os sindicatos se rebelassem ou entrassem em greve. Não foi esperando que eles tiveram êxito, mas sim somente agindo. Os jihadistas operam de um modo semelhante. É claro, grande parte disso é irrelevante para a filosofia e para os valores eco-radicais, em especial a natureza de massa da estratégia leninista, mas permanece a questão: aprende-se agindo agora, e nada menos do que isso. E, de novo, isso é verdadeiro não apenas em uma situação revolucionária. Desastres naturais, tribos não-contatadas lutando de um modo selvagem contra os civilizados, e muitos outros aspectos em que a natureza contra-ataca fazem parte da luta eco-radical. Tal como os eco-extremistas colocam:

“O eco-extremismo é a resistência armada das tribos amazônicas em guerra contra os madeireiros, as petroleiras, os mineradores; é a flecha lançada contra os helicópteros pelos aborígenes isolados na África, é a continuidade das crenças pagãs que resistem à cristianização total, é a resistência individual por meio das atividades delinquenciais contra a domesticação, é o tornado, o terremoto, a ferocidade dos últimos coiotes, a hostilidade dos elefantes, é a abelha que solta seu ferrão para depois morrer, o eco-extremismo é a violenta defesa da própria Natureza Selvagem, suas reações, suas respostas e manifestações.”

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Selznick, P. (1952). The Organizational Weapon: A Study of Bolshevik Strategy and Tactics. RAND Corporation.

Slovic, P. (2007). “If I look at the mass I will never act”: Psychic numbing and genocide. Judgment and Decision Making, 2(2), 79-95.

Último Reducto. (2009). Con Amigos Como Éstos…: Último Reducto vs. Los Amigos de Ludd.

[ES – MINI-DOCUMENTÁRIO] Infierno Egoico: Terrorismo Nihilista En La Italia Del Siglo XXI

Infierno Egóico: Terrorismo Nihilista en la Italia del siglo XXI é um mini-documentário disponibilizado publicamente na web que aborda brevemente algumas ações de grupos que advogam pelo Niilismo Terrorista na Itália, tendência que influenciou parte do pensamento sobre “atentado amoral” no Eco-extremismo.

[EN – PDF] Ash and Ruin (Subversive nihilist periodical) (Todas as Edições – All Editions)

Ash and Ruin (Subversive nihilist periodical) é uma publicação sem periodicidade definida disponibilizada na web dedicada fomentar estudos, análises e críticas contra a civilização e a era moderna.

Atualmente está em sua primeira edição.

PRIMEIRA EDIÇÃO

INTRODUCTION

I have written and compiled the following texts purely for my own satisfaction, as a manifestation of my conscious desire for the diffusion of iconoclastic and heretical publications and also as a way to unravel my own thoughts more clearly and attempt to articulate them in a manner that is reflective of my chaotic nature.

In this issue there are various different writings which appealed to me, as well as personal reflections, poems, rants, etc., etc. I have not asked any permissions for the texts which are not mine, but included and sourced these texts either because they articulated an analysis worthy of my consideration and reflection, or simply because they made me smile upon reading them. I have particularly included claims of responsibility from groups and individuals from many different territories across the world, who have placed the march of technoindustrial progress and I feel even more importantly its “humanist” and anthropocentric values in their lines of fire.

The thought of others joining in the incendiary celebration of our own selfrealisation, and carrying out their own sacrilegious deeds of refusal, spreading wildfire to the cities, desecrating every sacred idol, destroying machines and maiming and terrorizing those who are responsible for inflicting all of this modern crap onto us will always bring a smile to my face. It is to this end that I share these writings, to subvert, desecrate, provoke and agitate.

Though I digress on some of the perspectives presented in the texts of others which I have chosen to include in this publication, it would be completely absurd for me to make any changes to their words and to articulate my opinions fully on each minor discrepancy would take more time and consideration than I would care to spare for the purposes of this first issue of Ash and Ruin (Though personal reflections on these topics may be offered in future issues).

I spit on the church of “political correctness” and the creeds of any dogmatic moralists. It has never been in my interests to tend to the needs of the herd, nor to make anything more “appropriate” or appealing to those incapable of critical, independent thought and reflection.

I detest “the community” and all of the naive optimism it breeds and I reject all other delusional fairy tales that serve only to distract one from the realisation of their ego in the present.

As an individualist and a nihilist, I am motivated by my own will for life, not haunted by the phantoms of any purpose or cause and I will make it clear now that I only represent myself.

Total liberation is my own war, a war that I have fought for years, against every cage, every civilisation, every society, every creed, every ideology and morality.

It is a matter of fulfilling my creative-destructive desires. It is misanthropic. It is existentialist. It is striving against all domestication. It is my vengeance for all the years that this prison-society has stolen from me, my vengeance for the destruction and pollution of the natural environment, my vengeance for the nonhumans whose lives I respect more than the life of any
“human”.

My total liberation means total war!
War to the bitter end!
– A

DESCARREGUE em PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

[ES – DOCUMENTÁRIO] – La Espora del Eco-extremismo en el Sur América

La Espora del Eco-extremismo en el Sur América é um documentário disponibilizado publicamente na web que aborda o início da internacionalização do grupo Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). A produção cobre a expansão do grupo eco-terrorista para o Chile, Argentina e Brasil, não aborda a sua chegada à Europa no ano de 2018.

Uma Grande e Terrível Tormenta

Texto escrito por A. para a Ash and Ruin (Subversive nihilist periodical). Foi extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

O império da “humanidade” tem a certeza de sua queda.
A chuva, vil e ácida, tem vindo a cair sobre todos nós
como as lágrimas de uma dor silenciosa por bastante tempo,
No entanto, poucos prestam atenção à tormenta que se aproxima.
Os perdidos e os covardes marcham animados aos montes para o topo da ilusão
construindo os muros de sua própria prisão
na vã esperança de que podem esconder de vista
as nuvens escuras que agora surgem acima de todos.
Mas nada pode deter as marés crescentes
ou deter a marcha dos desertos
que consumirá as cidades
e deixará apenas ruínas em seu rastro.
Com desprezo, amargura e ceticismo
Penetro a escuridão que me rodeia.
E sem qualquer esperança por um amanhã melhor
Eu abraço a tormenta e vagueio por ela.
Carrego minha tocha na noite
E escuto os gritos de batalha através do estrondo.
Ansiosamente vou ainda mais em direção ao Desconhecido
Na busca de uma vida que vala a pena.
A chuva torrencialmente chicoteia em direção abaixo
E a noite é escura e impenetrável
Exceto para os incêndios no horizonte
Que são minha única bússola…

– A

Selvagens Politicamente Incorretos

Texto escrito por Chahta-Ima e extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Steve Sheldon me contou sobre uma mulher que deu à luz sozinha na praia. Algo deu errado. Um parto de nádegas. A mulher estava agonizando e dizia: “Ajuda-me, por favor! O bebê não vem”, gritava. Os Pirarrãs sentaram-se passivamente, alguns parecendo tensos, outros falando normalmente. “Estou morrendo! Isto dói. O bebê não vem.”, ela gritava. Ninguém respondeu. Já era tarde. Steve se dirigiu a ela. “Não, ela não quer a você. Quer a seus pais.”, foi-lhe dito, o que implicava claramente para que ele não se dirigisse a ela. Mas seus pais não estavam perto e ninguém mais iria em sua ajuda. A noite chegou e seus gritos eram notados regularmente, cada vez mais fracos. Finalmente, se detiveram. Pela manhã, Steve soube que ela e o bebê haviam morrido na praia, sem ajuda.

Steve registrou a história deste incidente, que é repetido aqui. O texto relata… [o] trágico incidente de uma ideia da cultura Pirarrã. Em particular, nos é dito que o Pirarrã deixa a uma jovem morrer sozinha e sem ajuda devido a sua crença de que as pessoas devem ser fortes e superar as dificuldades por conta própria. Daniel Everett, “Don’t Sleep, There are Snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle”, pg. 90-91

Um curioso efeito foi observado, o qual deu lugar a muitas queixas por parte da população masculina nativa. Como resultado da associação das mulheres com os homens brancos, desenvolveu-se um movimento feminista espontâneo. Primitivamente, a mulher não era apenas fisicamente, mas também economicamente e espiritualmente subordinada ao homem. A índia realizava a maior parte do duro trabalho manual associado à vida na aldeia, enquanto o seu marido e o pai passavam o tempo descansando. Ela se viu obrigada a obedecer a todas as ordens e caprichos de seu amo e senhor. Caso contrário, não evitaria o inevitável castigo. Com a chegada de milhares de homens brancos, não casados e à caça de fêmeas, a situação foi alterada. As mulheres poderiam fazer frente aos índios homens com a escolha de um melhor tratamento ou deixar o seu conjugue e trocá-lo por um pretendente branco. Por outro lado, a índia, sem dúvida, foi profundamente influenciada pela invejável posição que ocupou o seu sexo nas comunidades brancas recém-criadas. Embora nenhum sociólogo contemporâneo tenha dado suficiente atenção a isso, temos indícios de uma formidável revolta feminista. Um agente da Fresno Indian Farm, reportou:

“Embora os homens sejam, ou uma vez foram, donos absolutos das mulheres, muitas delas neste momento… encontraram refúgio entre os brancos e, portanto, são independentes dos homens.”

Uma declaração também apareceu próxima ao mesmo período no sentido de que, “os homens brancos tomaram as mulheres dos índios, desde suas casas de campo e ensinaram-nas a desprezar as criaturas preguiçosas, e utilizaram isso para fazê-las escravas.” Se este clima era característico de grande parte da opinião feminina, é fácil ver como, mesmo sem grande agitação social envolvida, a mudança poderia agir como um agente irritante e, assim, servir como um fator na interrupção da vida familiar aborígene. – “The American Invasion, 1848-1870” pgs. 81-82 em “Cook, Sherburne F. The Conflict Between the California Indian and White Civilization”. Berkeley: University of California Press, 1976.

Os Jarawas são cerca de 400, e um geneticista os descreve como “possivelmente as pessoas mais enigmáticas do nosso planeta”, e que se acredita que tenham migrado da África há cerca de 50 mil anos. São muito escuros, de baixa estatura e até 1998 viveram em completo isolamento cultural, atiraram com flechas de ponta de aço quando estrangeiros chegaram perto demais… Não é nenhum segredo que, no passado, a tribo tenha realizado assassinatos ritualísticos de crianças nascidas de viúvas ou -muito mais raro- engendrados por aborígenes. O Dr. Ratan Chandra Kar, um médico do governo que escreveu um livro de memórias sobre seu trabalho com os Jarawas, descreveu uma tradição em que os bebês recém-nascidos foram amamentados por cada uma das mulheres no período de lactação no grupo antes de serem estrangulados por um dos anciões da tribo, a fim de manter “a chamada pureza e santidade da sociedade.”. “Baby’s Killing Tests India’s Protection of an Aboriginal Culture,” New York Times, 13 de Março, 2016.

Certa noite Debe caminhava à direita do acampamento de Gau, e sem dizer uma só palavra disparou três flechas contra Gau, uma no ombro esquerdo, uma na testa, e a terceira no peito. O povo de Gau não fez nenhum movimento para protegê-lo. Depois que as três flechas foram disparadas, Gau seguia sentado diante de seu atacante. Debe levantou sua lança como se fosse apunhalá-lo, mas Gau disse, “Você já me flechou três vezes. Não é o suficiente para me matar e agora também quer me cravar uma lança?” Quando Gau tentou se esquivar da lança o povo de Gau apareceu para desarmar a Debe de sua lança. Após ser gravemente ferido, Gau morreu rapidamente. Richard Lee, The Dobe !Kung, citado em “Ultrasociety: How 10,000 Years of War Made Humans the Greatest Cooperators on Earth”, pg. 104

Para mim, todas estas citações anteriores me lembram a uma citação aparentemente insignificante que apareceu quase no final da polêmica Ya Se Habían Tardado: Reacción Salvaje En Respuesta a Destruye las Prisiones, que diz o seguinte:

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.”

Não posso falar por todo o eco-extremismo, apenas por mim, e vou aceitar outros pontos de vista da tendência se uma correção for necessária, mas a partir disso, posso afirmar que o anarquismo, o primitivismo, o esquerdismo, etc., estão mal orientados e são moralistas precisamente porque tentam se organizar-julgar-melhorar a sociedade, enquanto que os animais humanos possivelmente não podem fazer isso, não com nenhuma competência, pelo menos. Muitas dessas sociedades tem práticas bárbaras, violentas e “sombrias”, mas elas existem há centenas de anos, isso senão por milhares. Então, porque é que, em nosso tempo de vida em uma sociedade excepcionalmente jovem (se é que é vivaz), nos damos o direito de determinar como uma sociedade humana deve ser em TODAS as circunstâncias? Eu diria que não o faria. As sociedades que se desenvolveram dentro de seus ambientes desde tempos imemoriais demonstraram que podem manter suas formas de vida por milênios. Nossa própria sociedade (isto é, a que estamos presos, embora não voluntariamente) não pode dizer o mesmo, mas muito pelo contrário.

Pessoalmente, este ponto de vista é porque não posso tomar nem o anarquismo, o marxismo, o esquerdismo, o liberalismo, etc., seriamente como um meio de interpretar a realidade. Estas ideologias são obcecadas por coisas ocidentais, tais como a organização social, a igualdade entre os indivíduos, a divisão do trabalho, etc. Em nossa realidade animal, que é como escolher algo para comer baseado apenas em sua cor em vez de seu sabor e seu valor nutricional, a relação principal não é a dos seres humanos entre si, mas a dos seres humanos com a natureza, ou melhor, com seu ambiente natural, e com as outras entidades, conscientes ou não, que compartilham conosco. Todas estas ideologias errôneas e civilizadas, até mesmo os autoproclamados “primitivistas” são humanistas e antropocêntricos, enquanto que nós só queremos a relação com a Natureza Selvagem e as culturas que se formaram ao longo de milênios, como as gotas de água que podem polir uma pedra, de forma inconsciente, organicamente e não planejada.

Os seres humanos, sem dúvida, tem um papel a desempenhar nisso, e suas ações fazem dar forma a paisagem e a eles mesmos, assim como as ações dos castores, formigas, aves, etc., formam um bosque ou um rio. Mas isso está completamente determinado pela encarnação da Natureza Selvagem que eles encontram, é realizado por séculos, e de nenhuma maneira é “planificada” ou “controlada” pelo intelecto humano determinado. Isso simplesmente acontece. Apresentar-se a um “selvagem” com a ideia de que a queima seletiva de ervas daninhas ou de atividades semelhantes o torna mestre do ambiente, provavelmente estaria confundido pela afirmação.

Aqui, então, afirmo que os seres humanos no passado estavam sempre em equilíbrio entre seu próprio poder e sua mente, e o da própria Natureza Selvagem. A questão não é dizer que alguns viviam em completa harmonia com a natureza, sem hierarquia ou sem guerra ou qualquer coisa que ofenda a sensibilidade ocidental burguesa. O ponto é que o equilíbrio de poder entre o humano e a natureza selvagem se manteve. Em alguns casos, isso implicaria o patriarcado, em alguns lugares que não seria o caso (foram os Selk’nam da Terra do Fogo “mais domesticados” que outros caçadores-coletores porque eles eram regidos por um patriarcado? Considerando sua cultura, outro estado seria absurdo.) Foram os Choctaw, no que é agora o sudeste dos Estados Unidos, tão civilizados como os Astecas ou Maias simplesmente porque também cultivaram milho? Eram os Yuroks do norte da Califórnia, de alguma forma ruins, porque tinham uma hierarquia social rígida, mas sem agricultura? “Domesticação” e “civilização”, estas podem não ser categorias tão claras como algumas ideologias anti-civilização afirmam que são. Isso porque nosso conhecimento é animal e, portanto, defeituoso.

Aqui temos que olhar as coisas que não estão em preto e branco, mas em um espectro, e nesse espectro, nós não estamos julgando as sociedades humanas por sua forma “agradável” e o quão bem tratavam as mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Nós não nos preocupamos com estas coisas, e aqueles que são obcecados por isso são extremamente estúpidos e deixam que seus próprios preconceitos civilizados mostrem o melhor deles.

Preferimos confiar nas sociedades que viveram há milhares de anos em seus respectivos ambientes e em seus “valores”, que nos valores humanistas dos ocidentais que ocultam a violência da sociedade tecno-industrial moderna, por trás de platitudes como moralismo e decência. O mais importante sobre a domesticação e a civilização, então, é que surgem, mas surgem nos lugares mais frágeis. Ou seja, que nunca foram capazes de dominar completamente, nunca exaltaram as sociedades humanas individuais no domínio completo sobre a natureza, e quando o fazem, inevitavelmente, o colapso ocorre. O que temos agora é uma monstruosidade completa, um Leviatã que não pode entrar em colapso e que não há possibilidades de livrar a maioria dos seres vivos dele, pois busca a completa dominação. Ante este ser antinatural a única atitude que nós podemos ter é a de hostilidade total e absoluta.

Isso pode parecer completamente reflexões escolares, e talvez não. Pelo menos escrevo para apoiar a afirmação eco-extremista de que os valores ocidentais liberais não importam em nada, e, portanto, quando as pessoas tentam esfregá-los em nossa cara, deveríamos energeticamente rechaçá-los e insultar os que seguem comprando estes contos de fadas. Além disso, isso indica que o pessimismo eco-extremista está mais do que garantido: se tudo o que temos a nosso favor em termos de “esperança” são as observações incompletas dos “antropólogos” e nossas próprias faculdades intelectuais defeituosas, está claro que estamos completamente fodidos.

Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.

A relação primária no eco-extremismo é entre o animal humano e a Natureza Selvagem, que é concretizada em seu ambiente imediato, e não com uma abstração conhecida como humanidade. Portanto, é uma tendência anti-humanista e não humanista. Como todos os ursos não simpatizam com ursos menores, mas os dois dependem de todas as plantas, animais, as águas e as rochas circundantes para sobreviver, então todos os seres humanos não deveriam ter solidariedade com toda a humanidade, apenas com aqueles de outras disposições similares e com os seres que passaram a amar em seu entorno. Isso deveria ser óbvio, e muitos selvagens têm esta atitude.

Além disso, nos damos conta de que a civilização é uma “doença transitória”, que surge ocasionalmente e logo se vai, deixando cicatrizes algumas vezes, mas nunca terminal, como o todo nunca pode ser destruído por uma parte. Somos deficientes neste sentido, que nós não conhecemos nossos lugares, ou que eles foram roubados, indica a tragédia do nosso estado e nossa raiva na guerra indiscriminada contra o que pode nos destruir e escraviza o Selvagem. Mesmo se a única Natureza Selvagem que nos resta somos nós mesmos, ou talvez seja apenas a dor e a raiva de ter sido privado dela, isso é o suficiente para levar a cabo esta guerra contra a humanidade domesticada.

-Chahta-Ima

Nanih Waiya

Primavera de 2016

Primitivismo Sem Catástrofe

Tradução do ensaio Primitivism Without Catastrophe, escrito por Abe Cabrera e publicado no espaço virtual da Ritual Magazine, uma revista de política e cultura e uma plataforma crítica para examinar a vida sob o capitalismo contemporâneo.

Este texto foi extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Toda boa ideia precisa de um bom ponto de venda. O ponto de venda da ideologia abrangente que pode ser chamada de vários nomes como “anarco-primitivismo” e “pensamento anticivilização”, é a ideia de que a civilização moderna tecnoindustrial está destruindo a espécie humana, e de que se nós quisermos parar essa destruição, temos que destruir a civilização. É uma questão de auto-preservação. Nós precisamos renunciar a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc. Como nós sabemos disso? Bom, a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc, nos dizem isso. Eu provavelmente não sou o primeiro a notar a inconsistência nessa perspectiva, mas talvez eu seja o primeiro a falar algo sobre isso.

O “Pensamento anticivilização” (por falta de um termo melhor) tem um “problema de conhecimento”. O problema é que ele tenta criticar a totalidade do ponto de vista da própria totalidade. Ele tenta desmantelar as ferramentas que construíram tudo que ele despreza usando essas mesmas ferramentas. Isso culmina na ideia de uma “Catástrofe”: O colapso catártico do seu inimigo e a chance da restauração de uma ordem justa. Para alguém que segura um martelo, tudo se parece com um prego, e para alguém com uma narrativa apocalíptica, tudo leva ao fim do mundo. De fato, alguns diriam que a catástrofe é para o primitivista o que a ressurreição de Jesus era para São Paulo: O sinequa non fora do qual a mensagem não pode existir. Se a humanidade não está condenada pela tecnologia, se toda a vida na terra não está ameaçada pela ascendência de um primata egoísta vindo da África, então o que estamos fazendo aqui? Poderíamos simplesmente voltar para nossas casas e desfrutar de nossas televisões de tela plana e ar condicionado.

É claro que as coisas não são tão simples. A primeira pergunta deveria ser: “Nós estamos condenados?”. Alguns livros que saíram recentemente tentam responder essa pergunta com uma negação, mesmo que levando muito a sério a ciência que analisa a mudança climática e a escassez de recursos naturais. O livro de Ronald Bailey “O Fim da Tragédia: Renovação Ecológica no Século XXI” é uma das maiores contribuições ao gênero eco-modernista. Apesar de não ter tempo para cobrir todo o conteúdo do livro, posso ao menos falar sobre o ponto mais forte do livro (pelo menos sob a minha perspectiva): a análise da ideia ecológica de que “não fazer nada” é melhor do que “fazer algo”.

Esse conceito é certamente comum no discurso ambientalista. A natureza tem feito o que ela faz por milhões de anos, e assim, como diz o discurso, ela sabe melhor o que fazer. Isso é o que Bailey chama de “princípio de precaução”, melhor formulado pela frase que dá o nome ao terceiro capítulo de seu livro, “Nunca Tente Nada Pela Primeira Vez”. Tudo que é novo é culpado até que se prove inocente, e o ônus da prova está na novidade, que tem que demonstrar que ela não irá criar mais problemas do que ela está tentando resolver. É evidente que aqueles que se prendem a esse princípio de precaução se tornam paralisados e impedidos de agir, pois não há como eles saberem com certeza quais são as implicações de um desenvolvimento tecnológico (pense por exemplo no debate em torno de alimentos geneticamente modificados). Aqueles que sofrem por causa dessa hesitação, diz Bailey, não tem o luxo da dúvida: eles precisam do remédio novo contra o câncer, de comida barata e de outros benefícios que o desenvolvimento tecnológico traz. Como diz Bailey:

Infelizmente, o princípio de precaução soa razoável para muitas pessoas, especialmente para aquelas que já estão cercadas de tecnologia. Essas pessoas tem as suas casas com aquecimento elétrico nas montanhas; elas já gozam da liberdade da necessidade, ignorância e doenças que a tecnologia pode providenciar. Mas existem bilhões de pessoas que desejam ver as suas vidas transformadas. Para essas pessoas, o princípio de precaução é uma garantia de pobreza contínua, não de segurança.” (93-94)

Temos aqui um problema de conhecimento virado e revirado. O pensador anticivilização e neo-ludita estudou o suficiente sobre a sociedade tecnoindustrial para saber que ela é uma causa perdida. Ele sabe disso através do uso das ferramentas que a sociedade tecnoindustrial lhe forneceu. Mesmo assim, um eco-modernista como Bailey vira o jogo e mostra que esse pessimismo é baseado em uma visão otimista do conhecimento humano apoiado por uma infraestrutura tecnológica que permite estudo e reflexão. Se nós não sabemos realmente, e sabemos que não sabemos, não temos a obrigação de tentar? Não seria essa ignorância uma oportunidade ao invés de um obstáculo? Não é disso que se trata o iluminismo e a revolução científica?

Ao longo do resto do livro, Bailey demonstra diversas vezes, em assuntos que variam do pico do petróleo ao suposto aumento do número de casos de câncer causado pelo uso de produtos industriais que os pessimistas têm estado errados, e muito errados até agora. Bailey conclui que o homo sapiens é um animal sagaz e adaptável, capaz de extrair a vitória das garras da derrota repetidas vezes. Bailey tem poucas dúvidas que nós continuaremos fazendo isso, mesmo admitindo que algumas coisas, como a mudança climática, são problemas reais que afetam toda a humanidade.

Ironicamente, aceitar as premissas de Bailey pode ser a posição mais “primitivista” de todas. Se no fim nós somos apenas animais incapazes de salvar a nós mesmos sem abrir mão dos instrumentos que nos conferem um poder que parece absoluto, como é possível que nós sejamos capazes de condenar nós mesmos a não-existência? Ou ainda, se somos burros demais para nos salvarmos, podemos também ser burros demais para matar a nós mesmos. É claro que há o princípio da entropia, além da intuição de que é mais fácil quebrar do que consertar algo. Mas a analogia não se sustenta aqui, já que estamos falando de bilhões de animais individuais pelo planeta que se mostraram resistentes o suficiente para infestar toda a terra.

Então qual é a resposta? Estamos salvos ou condenados? A catástrofe é uma realidade inevitável ou um desejo masoquista? No fim das contas a resposta é: nós não sabemos. Aqueles que fingem saber estão se agarrando a um suposto bastião de certeza da ruína ou do otimismo no qual os cisnes negros de Nassim Nicholas Taleb jamais ocorrem. O futuro não pode ser completamente desolado, e também não podemos ter certeza de que o desastre não ocorrerá simplesmente porque ele ainda não ocorreu até agora. Tudo que nós realmente temos é o presente.

Assim voltamos ao título: é possível haver um primitivismo sem catástrofe? E se essa sociedade conseguir resolver seus problemas e seguir em frente? Nós voltamos para casa então? Nós passamos a tolerar essa ordem capitalista tecnoindustrial e reconhecer que se nós não podemos viver na sociedade em que desejamos, devemos aprender a amar a sociedade na qual vivemos? Afinal de contas, somos todos humanos, e compartilhamos as mesmas almas, corpos, sentimentos e intelecto. Já que as coisas são assim, nós podemos também trabalhar para salvar todos, e quem se importa com como faremos isso? Sonhos de um retorno a existência idealizada de caçadores-coletores se tornam cada vez menos atraentes.

Confrontados com esse impasse, trazemos aqui pensamentos de uma entrevista recente com membros da tendência mexicana eco-extremista:

“A maior diferença entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecnoindustrial. Nós atacamos agora porque o futuro é incerto. Você não pode criar uma estratégia baseada em suposições, acreditando que tudo irá ocorrer de acordo com os seus planos com uma vitória garantida. Nós paramos de acreditar nisso quando entendemos a enormidade do próprio sistema, de seus componentes e de seu vasto alcance que se estende por todo o planeta e até para fora dele. Se a civilização cair amanhã ou nos próximos 30 ou 50 anos, nós saberemos que travamos uma guerra necessária contra ela a partir de nossa própria individualidade. Nós não sabemos se haverá um colapso global do sistema algum dia. Os especialistas dizem que haverá, mas não há como ter certeza. É possível que o sistema caia e a natureza ressurja de suas ruínas. Mas talvez o sistema consiga se manter sempre um passo à frente, tornando-se autossuficiente e com a capacidade de se reparar com facilidade. Como nós já dissemos, não sabemos o futuro. Gostaríamos de saber, mas essa não é a realidade.”

Com os eco-extremistas, então, nós podemos encontrar uma maneira de sair da posição errônea de “um futuro melhor através de um retorno ao passado”. Aqui, nós podemos dizer que o futuro é nosso inimigo. Toda saída proposta, seja através das teorias liberais de Bailey ou de esquemas tecno-progressistas da esquerda é algo que nós rejeitamos logo de cara. Nós não queremos cooperar, e nem salvar o mundo. Nós nos recusamos a oferecer as nossas vidas ou a vida de outros por um futuro melhor. Esse futuro é sempre prometido, mas nunca chega. E nesse ponto, o problema de conhecimento entra novamente em cena: esse futuro não chega porque ninguém é capaz de trazê-lo. As coisas estão “melhorando o tempo todo” apenas porque nós fomos domesticados a ponto de achar que a cenoura na ponta da vara é o objetivo, e que nós estamos nos aproximando dela, e que a vara não está realmente lá, mesmo quando ela bate bem nos nossos narizes. Assim é a essência da civilização: o passado nebuloso e mítico e o futuro que nunca chega.

A catástrofe é a catarse que acaba com o ciclo de sofrimento. Mas assim como a versão budista, ela também é elusiva e nunca acontece nessa vida. De fato, o problema real do “pensamento anticivilização”, especialmente em sua forma anarco-primitivista, é que ele não sabe o que quer, porque o que ele quer é moldado pelo que ele odeia. Ele nem sequer conhece realmente a natureza por se recusar a admitir que não há como conhecê-la com qualquer certeza, e assim faz da natureza um ídolo representando todos os seus desejos ambivalentes. A própria ideia de defender a natureza nos mostra que o nosso conhecimento sobre a natureza, especialmente o conceito peculiarmente norte-americano de “natureza pristina” é mal embasado. David George Haskell descreve a situação da vegetação florestal em face da ressurgência recente da população de veados em seu livro A Floresta Oculta: Um Ano de Observação na Natureza:

“Humanos eliminaram alguns predadores, mas também introduziram três criaturas que matam veados: cães domésticos, coiotes invadindo do oeste e automóveis. Os dois primeiros são matadores eficientes de veados jovens, enquanto o terceiro é o principal assassino suburbano de adultos. Nós nos deparamos com uma equação impossível. De um lado, nós temos a perda de dezenas de espécies de herbívoros; do outro, nós temos a substituição de um predador por outro. Que nível de pastagem é normal, aceitável e natural em nossas florestas? Essas são perguntas desafiadoras, mas é certo que a vegetação florestal exuberante que cresceu no século XX era menos pastada do que o comum.”

Uma floresta sem grandes herbívoros é que nem uma orquestra sem violinos. Nós estamos acostumados a sinfonias incompletas, e estranhamos quando os tons incessantes dos violinos retornam e colidem com os instrumentos mais familiares. Essa reação negativa ao retorno dos herbívoros não tem nenhuma boa fundação histórica. Nós temos que ter uma visão mais ampla, ouvir toda a sinfonia e celebrar a parceria entre animais e micróbios que tem afetado as plantas jovens por milhões de anos. Adeus arbustos; olá carrapatos. Seja bem-vindo de volta ao pleistoceno.

Nós devemos então encarar o fato de que talvez não haja nenhuma “catástrofe”, e se houver, ela não terá o efeito purificador que esperamos. A definição do capitalismo moderno é crise, e o bom homem de negócios faz da crise uma oportunidade. Isso significa que nós não devemos lutar? Que nós devemos abaixar as nossas armas e sermos derrotados pelo quietismo e agnosticismo? Não necessariamente, mas significa que nós precisamos definir melhor porque nós nos opomos a sociedade atual mesmo que ela tenha o potencial de durar milhões de anos, e mesmo que ela torne nossas vidas “melhores” em alguns sentidos. Ao menos temos que definir por que nós nos opomos a ela e não acreditamos que ela seja capaz de concretizar qualquer uma de suas promessas de tirar os animais humanos da miséria.

Primeiro, vamos começar com a natureza. Nós não podemos rejeitar a catástrofe como um conceito sem nenhuma nuance precisamente porque a natureza é uma catástrofe ao longo prazo. Isso ocorre porque a natureza é mudança, e é uma mudança que vai muito além da compreensão humana mesmo em seu sentido mais científico e abstrato. Humanos modernos tem o problema de acreditar que as suas ideias são consubstanciais com a realidade, mesmo que frequentemente não haja razão nenhuma para acreditar nisso. Eles dominam conceitos incompreensíveis como tempo, espaço, matéria, luz, etc. no abstrato e assim acham que não há mais nada para eles no sentido concreto, mesmo que eles nunca tenham saído do conforto de sua cadeira ou do espaço na frente da lousa. A natureza é catástrofe porque ela interrompe, desmantela, destrói tudo e cria novamente: das estrelas mais distantes até as células de nossos corpos. Aderentes do pensamento anticivilização tem dificuldade de aceitar isso de uma maneira concreta, apesar de estarem constantemente falando banalidades abstratas sobre isso. Para eles só se pode dizer “Doutor, cure a si mesmo!”.

O que é então a nossa relação com a natureza? Como nós superamos a ideia frequentemente repetida pelos críticos de que os primitivistas “reificam a natureza”. Aqui, eu ofereço um tropismo cripto-hegeliano. Muitos “primitivistas” (por falta de um termo melhor) veem a natureza como algo que nos é externo, e que oferece a nossa existência como uma dádiva passiva, e que o problema real é que nós nos esquecemos do aspecto gratuito dessa dádiva (pense aqui no conceito cristão de “graça”. Da mesma maneira que um homem não pode obter salvação através do Deus de Calvino, ele é também incapaz de criar os seus meios de vida sem o assentimento da natureza. Obviamente, essa é uma formulação absurda. A natureza, ou se você preferir usar o muito criticado termo de Lovelock, “Gaia”, é o produto de bilhões de coisas vivas trabalhando juntas e sustentando umas às outras ao longo das eras: ela é o ato de coisas vivas. Elas são formadas por ela e a formam também, que vai de pequenos microrganismos até ecossistemas complexos e a própria biosfera. Nós temos que manter isso em mente cada vez que olhamos para a “natureza pristina”. Como Haskell diz várias vezes ao longo de seu livro citado acima, a natureza não é uma sala de meditação, e nem um Éden onde se pega as frutas dos cachos sem esforço algum. Há também confronto e tragédias, da mesma maneira que há cooperação e piedade. O fato que ela persistiu por tanto tempo é uma evidência disso.

O pecado do homem moderno não é ter resistido a sua natureza humana passiva, como diriam muitos primitivistas. O problema é que ele acredita que ele é independente da própria natureza, que ele consegue se virar sozinho, que ele pode dominá-la por completo e não deixar nada sob a sombra do mistério. Esse é o homem moderno, alienado, implacável e autocentrado. Não é o que ele faz, e sim o que ele faz bem demais que é o problema, ou pelo menos assim ele pensa. Por causa disso que não há “solução”. Não há nenhuma abstração que consiga capturar o problema inteiro e torná-lo digerível. O mundo onde há soluções é um mundo que não deveria existir, ou melhor, é o mundo que cria problemas em primeiro lugar. A catástrofe da maneira que ela é entendida pelo homem moderno (purificante, final, devastadora) é o mito necessário pairando sobre a utopia como a espada de Damocles. Alguns de nós preferem espadas caindo do que um paraíso imaginário.

Sendo assim, a solução eco-extremista é brutal e pessimista. Não há futuro, e nem uma “nova comunidade”. Não há “esperança”. Nós não falamos isso com uma alegria gótica, e sim com alívio, como se tivéssemos tirado um fardo de nossos ombros. Seres humanos são feitos para errar o alvo, e nós tendemos a fracassar mais do que acertamos. Mesmo assim, nós fazemos parte de um todo, e deixamos outros para trás para vencer e perder, e para lutar outro dia. Nossa ambição não tem fim, porque ela nunca conquista a vitória. Nós olhamos para sociedades do passado que já foram extintas que aceitaram as suas limitações (ou assim pensamos, pois não há como saber de verdade) com admiração; uma admiração que sabe que se elas não eram “perfeitas”, é porque há algo de errado com as nossas expectativas domesticadas, e nada verdadeiramente errado nelas. Tudo que nós podemos fazer é lutar de volta até nos extinguirmos nessa existência onde uma parte acredita que pode engolir o todo.

E é assim que se parece de fato um primitivismo sem catástrofe, sem uma narrativa fechada, sem um “final feliz”: o contentamento do olho e de todos os outros sentidos em face do que nós conhecemos por natureza, mesmo que nós não a entendamos, mesmo que ela pareça mutilada e incompreensível aqui e agora. Não é algo que nós fazemos (apesar de nós termos uma participação) e nem algo que controlamos (apesar de fazermos o nosso melhor). Mas emaranhada nos corações ementes do homem, é algo verdadeiramente maravilhoso de se contemplar: esse todo, o vasto céu estrelado, o canto do pássaro, a lesma que rasteja, o dia novo, a decomposição, a morte, a vida… terminamos com a grande voz poética de Robinson Jeffers:

Saber que as grandes civilizações foram reduzidas a violência,

e seus tiranos vieram, muitas vezes antes.

Quando a violência aberta surge; evitá-la com honra ou

escolher a facção menos feia; esse mal é essencial.

Manter a própria integridade, piedoso e não corrompido,

sem desejar o mal; e sem ser enganado

Por sonhos de justiça universal ou felicidade. Esses sonhos

não se realizarão.

Saber disso, e saber que por mais feias que pareçam as partes

o todo permanece maravilhoso. Uma mão amputada

É algo feio, e o homem separado da terra e das estrelas

e da sua história… por contemplação ou de fato…

Parece por vezes terrivelmente feio. Integridade é inteireza,

a maior beleza é a

Totalidade orgânica, a totalidade da vida e das coisas, a beleza divina

Do universo. Ame isso, não o homem

Separado disso, senão você irá compartilhar as suas patéticas confusões,

ou se afogar em desespero quando os seus dias escurecem.

A Solidão e a Autorrealização

Tradução de Solitude and Self-Realisation, de A.. Este texto foi extraído da segunda edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Todos os dias me encontro em um estado de perpétuo conflito sendo rasgado pela agonia de minha consciência. A cada dia que passa na medida em que o sol nasce e novamente se põe, o concreto e a artificialidade sufoca mais a terra, e o “humano” deixa seu toque viscoso e corrosivo sobre tudo o que considero belo neste mundo, e sempre que o ódio e a raiva temporariamente desaparecem, é fácil sentir-se esmagado por sentimentos de tristeza.

Mergulho nas águas frias e turvas do desespero enquanto me afundo nas profundezas com a boca cheia de água fétida. Eu bebo do fundo e começo a nadar, o desejo de viver me empurra para resistir ao peso esmagador deste abismo negro. Não! Não irei sofrer a indignidade de afogar-me neste lago sujo.

No fundo encontro uma caverna, e dentro destes sinuosos túneis descubro uma câmara escura e secreta. Como tenho que lutar fora da água sombria, me falta ar, então colido contra pedras afiadas. Embriagado pelo licor do desespero, durmo e espero o ar doce, à deriva confortavelmente em um estado de total isolamento. Começo a escutar uma voz familiar, ela sussurra segredos maravilhosos para mim em meio à escuridão e me conta contos sacrílegos de coragem e de criminalidade, histórias que iluminam os olhos como chamas de tochas pela noite, ali, naquela caverna, no fundo do lago do desespero onde caio no sono mais profundo e as imaginações pecaminosas da mente vadia vem à mim em meus sonhos.

Começo a acordar, não por causa do silêncio ensurdecedor do qual me havia distanciado, mas sim devido a uma barulhenta cacofonia! Os motores rugem, os alarmes apitam, telefones tocam, as vozes de estranhos estão por todas as partes, bate-papo sobre as coisas mais insignificantes e detestáveis. É então quando me dou conta de como o calor do sol é escaldante e abaixo de mim está mais quente do que nunca. Ao abrir os olhos e despertar totalmente, percebo que eu estou de volta aqui, neste reino de miséria e estagnação, rodeado por tolos desprezíveis e cretinos, pela artificialidade e banalidade.

Pra onde foi a caverna? Pra onde foi a voz familiar? E como cheguei até aqui? Aqui, de tantos lugares! Bem quando eu poderia ter morrido tão feliz naquela caverna escura e fria. Oh, o quão confortável estava na caverna! Como eu anseio o doce abraço da solidão mais uma vez.

Agora me dou conta de que a voz familiar que ouvi não era nenhuma outra voz a não ser a minha. Esses segredos que sussurravam em meu ouvido, e esses sonhos criminosos que tive lá no fundo do lago do desespero são a essência pura de meus desejos conscientes e subconscientes, e ainda que meus sonhos nasçam ao sair da angústia e do sofrimento, estão cheios da energia mais vívida e selvagem que já depositaram em minha visão e da força para viver minha vida com sua capacidade máxima!

Mas, o que significa viver? Certamente, quando todas as opções são “oferecidas” por este circo repugnante da civilização, te apresentam uma “vida”, o tédio, a humilhação, o desespero, e em última instância, a derrota por uma morte lenta, então, viver significa para mim resistir a tudo isso com todo o meu coração. Tenho que lutar, tenho que lutar! Devo matar a meus inimigos porque estão me matando! Se alguém me fala sobre “racionalismo”, “paciência”, “consideração” ou algo nascido da confusão pútrida das obrigações sociais, rirei em sua cara! A vontade da vida não pode ser contida pelos valores patéticos da manada, ovelhas covardes, dispostas até mesmo a olhar ao seu redor e reconhecer suas prisões. Não importa, começarei a quebrá-las.

E os motores rugem, e os alarmes apitam e os telefones tocam, e as árvores caem, e os não-humanos morrem, e as vozes de estranhos seguem frenéticamente tagarelando sobre isso e aquilo. Olho os infelizes idiotas da barulhenta massa em torno de sua indiferença, sua sujeira e sua contaminação, e os amaldiçoo.

Apenas quando me arrastei para fora deste poço transbordado de normalidade, comecei armar meus desejos mais selvagens, e intencionalmente defini a mim mesmo como indivíduo, consegui assegurar mais nada além do desprezo contra eles.

Deixei que meu ódio fluísse livremente por mim, envolvendo tudo o que toca em chamas, e se a constante rejeição e a solidão acabarem por ser as consequências de minha atitude perante a vida, que assim seja! Sairei como sempre, no entanto, desdenhoso e erguido. Um exílio de cada “comunidade”. Prefiro morrer sozinho com uma pistola na mão do que com covardes ao meu lado e um punhal nas costas.

É claro, nem sempre tem que ser apenas no sentido literal da palavra. Há possibilidades de encontrar cúmplices em nossas lutas e oportunidades de compartilhar ideias e armas entre si e criar belos momentos de ruptura, muitas vezes estas situações podem aparecer – devemos buscar nos lugares certos – mas falando de uma maneira existencial, o único sempre está sozinho, contra todas as probabilidades e as normas, sempre tratando de ofuscar todas as limitações que são impostas, as limitações que derivam de dentro e de fora.

-A

O que queremos dizer quando falamos “natureza”?

Tradução do texto What Do We Mean When We Say “Nature”?, de Chahta-Ima. Este texto foi extraído da primeira edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

Um tema que surgiu recentemente entre os críticos do eco-extremismo é a ideia de que adoramos uma falsa ideia de “Natureza”. A seus olhos, estamos postulando algo vago, talvez usando um pensamento ilusório, e tentando encaixar a esfera redonda da realidade no buraco quadrado de nossos conceitos. Não estamos aqui para dar a definição do que cada eco-extremista quer dizer com “natureza” ou “Natureza Selvagem”. Eu só vou dar a minha própria ideia sobre isso. Outra vez, qualquer um é livre para se pronunciar, porque eu reconheço que este é um tópico difícil de tratar. Pelo menos para aqueles que estão presos à tentativa de definir o que acreditam que é o mais profundo de si mesmos e do mundo, talvez eles possam se referir a isso e encontrar algo útil. Com isso em mente:

Um objeto “natural” na linguagem moderna geralmente indica uma coisa que existe apenas para si. Ela é, simplesmente isso, e não precisa de qualquer outro propósito adicionado a ela. Se um arqueólogo, por exemplo, está caminhando através de uma floresta, ele pode ver centenas de árvores e milhares de plantas, mas nenhuma delas o interessa. Se ele vê uma grande pedra com gravuras, no entanto, ele vai definitivamente parar e estudá-la. Enquanto a floresta pode realmente ser o que sobrou de uma antiga floresta cultivada ou o produto de milhares de anos de cultivo ou de horticultura de corte e queima, o arqueólogo não tem meios de saber isso. Mas ele, assim como qualquer amador, sabe o que é “natural” e o que não é, o que é feito diretamente pela mão do homem e o que não é.

Da mesma forma, em nossas próprias vidas, se vemos um controle remoto em uma sala que nunca estivemos antes, perguntamos que máquina ele pode controlar: para que serve? Se vemos uma planta em um vaso, não surge tal questão. Se estamos no nosso quintal e vemos um veado ou um guaxinim, não perguntamos: “Mas para que serve?” Nós até podemos, mas não sendo domesticados, não é como se eles reformassem seu propósito de acordo com as ideias que nós temos deles. Natureza, selvageria, o selvagem, o animal, etc., são por si mesmos.

Assim, quando nos encontramos com uma pessoa, geralmente fazemos a pergunta: “Então, o que você faz?” Enquanto domesticados, somos como gado em que nossa própria existência se baseia no que fazemos pelos outros e não por nós mesmos. Eu não sou um contador por mim mesmo; não é inerentemente parte da minha natureza. Calcular números ou conhecer o código tributário não me traz nenhum benefício direto, não é algo que eu faria naturalmente com pouca solicitação e pequeno esforço. O mesmo é o caso de um edifício: muitas pessoas (se não a maioria) podem talvez ter uma sensação de temor ao olhar para um edifício impressionante, e eles podem até confundi-lo com um mysterium tremendum et fascinans. No entanto, a razão pela qual muitos gostam de olhar para uma floresta ou estar cercado por vegetação é talvez porque eles querem se lembrar de que existem coisas que existem para si mesmas e não para os outros. O mesmo é verdade com as crianças, já que crianças, pelo menos quando muito jovens, não são “úteis”.

Além disso, há a ideia de “brincar”. As crianças são definidas pelo seu amor por brincar: atividade que não tem nenhum benefício além da alegria de realizá-la. Alguns dizem que a atividade dos caçadores-coletores assemelha-se profundamente à brincadeira, na medida em que a divisão do trabalho é apenas uma questão de grau. Os homens crescidos caçam, e os meninos pequenos imitam a caça, então capturam presas menores. E, claro, as meninas imitam e participam na coleta e outras atividades de fabricação. Em todos, os benefícios de toda a atividade são geralmente imediatos e óbvios.

Claro, há aqueles que não gostam nem de crianças e nem da natureza, mas isso é principalmente porque elas não respeitam os projetos que as pessoas têm preconcebido para as coisas em suas cabeças. Só posso dizer que, para mim, estar na natureza é transformador por estar em contato com coisas que não precisam de outro propósito senão elas mesmas. Elas apenas são.

Alguns diriam que toda experiência humana é mediada pela cognição e agência humanas, mas ao dizer isso no contexto das pessoas modernas, elas estão perdendo uma distinção crucial. “Natureza” como um espaço intocado e intocável de vegetação é talvez um conceito recente. Mesmo caçadores-coletores “primitivos” manipularam e “coletaram” de seus ambientes de formas muito complexas. Eles teriam percorrido uma floresta ou outra paisagem e não teriam visto apenas uma cena de admiração ou de meditação, como uma pintura, mas uma “fábrica” viva que produz o modo como eles viviam, com sua “ajuda”, embora eles possam não perceber dessa forma. Por outro lado, não é correto afirmar que as pessoas modernas fazem exatamente o mesmo quando elas derrubam uma floresta, explodem uma montanha procurando carvão ou despejam resíduos industriais em um rio.

Aqui, divergirei das ideias adotadas pelo discurso “anti-civilização” ou anarco-primitivista e declaro que não se trata de viver “em harmonia” com a natureza ou estar sujeito a ela, seja o que for que isso signifique. Isso não é um programa de software inato que nós ou seguimos à letra ou não, por nosso próprio risco. A questão, como já afirmei anteriormente, é de escala e capacidade. Se os povos “primitivos” pudessem ter criado plástico ou escavadeiras ou motosserras, talvez o tivessem feito, embora os resultados poderiam não ser os mesmos que vemos hoje. Nosso mundo moderno não é uma inevitabilidade teleológica. Ele pode atender certos desejos daquela coisa indescritível chamada “natureza humana”, mas as pessoas viveram dezenas de milhares de anos, talvez mais, sem nenhum de nossos gadgets ou sistemas de governança. Comparativamente, a domesticação, a agricultura, a vida urbana, etc. são uma espécie de “cisne negro” que tem sido tremendamente bem-sucedido na tentativa de conquistar tudo o que lhes é estranho, mas isso não significa que não poderia ter sido de outra forma. Na maioria dos lugares e circunstâncias com presença de homo sapiens, não tem que ser assim. A civilização tem a pretensão de ter dominado o tempo no abstrato, mas no concreto, ele só existe por um minúsculo período de tempo, e esse tempo pode estar se esgotando.

Assim é também a natureza. Nós pensamos que porque nós manipulamos a natureza, nós a “criamos” e a “definimos”. Isso pressupõe que podemos colocá-la em nossas cabeças e fazer com ela o que quisermos. Aqueles que se opõem a uma linha dura entre a natureza e a cognição humana da matéria muitas vezes não se opõem quando se trata da linha entre a mente humana e os objetos que ela contempla e procura alterar. Nisso, a cognição/consciência humana é soberana, masculina, especial e quase divina. A mente humana é, assim, “de outra ordem”, e assim a linha estrita entre natureza e mente é mantida. Na verdade, quando a mente olha para a natureza, tudo o que realmente está fazendo é olhar para si mesma olhando para… qualquer coisa. Ela não sabe o que, nem nunca poderá saber. Todas as coisas são por elas mesmas, mesmo as coisas que ela não pode controlar, mesmo as coisas que possivelmente não podem perceber (?)

Assim, na minha própria ideia de natureza, percebi que estou dando um salto de fé bem menor ao afirmar que, sim, de fato, há algo lá fora, para além de mim, para além da minha percepção ou cognição. Eu não sou um sistema fechado ou auto-sustentado: eu não sou a origem da existência. Caso contrário, qual seria o resultado de declarar a potencial onisciência do pensamento humano; a mediação absoluta da cognição humana em tudo; a ideia de que todas as coisas são para nós, e nós somos, finalmente, todas as coisas? Para mim, isso cheira a um complexo de Deus, como no deus monoteísta que habita o céu realizado por outros meios, quer chamemos isso de ciência, ou filosofia, ou solipsismo, ou o Futuro, ou o que quer que seja. Estes todos executam a mesma função.

A natureza existe porque a mente humana é fraca e limitada. É mortal, é feita de carne, e, finalmente, este é o seu limite, mesmo que não possamos vê-la. É como se ela estivesse jogando um jogo com o resto da existência, e ela vai perder. A existência da natureza é o limite do pensamento. É o fato de que todas as coisas não são para nós, nossos pensamentos não fazem as coisas: as coisas estão lá por si mesmas, e estariam lá sem a nossa intervenção. Em outras palavras, nós não somos deuses, não somos espíritos, precisamente porque essas coisas não existem como nós as entendemos. Nosso pensamento não compreende e não pode compreender tudo, e é por isso que é tão miseravelmente pouco confiável.

Há coisas que existem puramente para si. Uma criança sabe isso. Até um idiota pode saber isso. É preciso que o “sábio” do “Mundo” (um termo bíblico) o negue. Há coisas neste mundo que nunca vamos dominar. Podemos ser capazes de aterrissar o nosso lixo tecnológico na Lua, mas não podemos alimentar todas as crianças que estão com fome, ou impedir o nosso estremecimento diante da sombra da morte. É por isso que a humanidade será suplantada, e a natureza permanecerá.

O eco-extremismo é, na minha opinião, a confiança na ordem com a qual a própria natureza tem operado, bem como as “fracas” sociedades humanas que foram formadas por ela. Confiar na natureza não é um salto de fé, pelo contrário. A civilização é um culto que exige fé, exige a obediência à ideia de que o “bem comum” é o bem supremo de todos. É um ato de fé acreditar que sacrificar a si mesmo e a natureza selvagem de hoje de alguma forma trará benefícios para todos amanhã. Nós preferimos o “bem” que está diante de nós, nas árvores, nos rios, nos oceanos, no céu azul, nas montanhas e em nossos próprios desejos não-domesticados; e não um “bem” inventado pela civilização que busca a escravidão e destruição de todas as coisas que são por elas mesmas. Detestamos isso, atacamos isso, e não lhe damos nenhuma trégua. Quando falamos “Natureza Selvagem”, não estamos sendo vagos: estamos nos referindo a algo bem na frente de seu nariz. Que você não vê que é seu problema, não nosso.

– Chahta-Ima

Nanih Waiya

Hash Bihi (Maio), 2016.

[ES – EN] (PDF) Revista Regresión (Todas as Edições) – Regresión Magazine (All Editions)

A Revista Regresión – Cuardernos Contra el Progreso Tecnoindustrial é uma publicação sem periodicidade definida disponibilizada na web e editada desde a América do Norte dedicada a estudar o eco-extremismo e a fomentar estudos, análises e críticas contra a civilização e o progresso.

Atualmente está em sua sétima edição.

PRIMEIRA EDIÇÃO

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SEGUNDA EDIÇÃO

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TERCEIRA EDIÇÃO

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QUARTA EDIÇÃO

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QUINTA EDIÇÃO

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SEXTA EDIÇÃO

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SÉTIMA EDIÇÃO

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EM INGLÊS

FIRST EDITION

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THIRD EDITION

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FOURTH EDITION

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FIFTH EDITION

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“Salvar o Mundo” como a maior forma de Domesticação

Tradução do texto “Saving the world” As The Highest Form of Domestication, escrito por Chahta-Ima. Este texto foi extraído da primeira edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

“Cada Apache decide por si mesmo se ele luta ou não. Somos um povo livre. Não forçamos os homens a lutar como fazem os mexicanos. O serviço militar forçado produz escravos, não guerreiros.”

– “Avô”, citado em In the Days of Victorio: Recollections of a Warm Springs Aparche, por Eve Ball e James Kaywaykla

O contexto desta citação é interessante por ter sido proferida em uma reunião de líderes apaches cujo tema era sobre se devem ou não continuar a resistência contra o homem branco invasor ou sucumbir à poderosa força invasora. Com uma visão retrospectiva, pode-se afirmar que tal postura é uma tolice: se os Apaches fossem uma “frente unida” em vez dos diversos bandos que sempre foram, eles poderiam ter tido uma chance de vitória, é o que nosso raciocínio nos faz pensar. Em vez disso, sua incapacidade de adaptar sua organização social a novas condições levou-os diretamente à sua queda. Diante de uma sociedade de cidadãos intercambiáveis que constituem um Leviatã maciço e unificado, os Apaches continuaram a ser o povo indomável e selvagem de antes. E eles pagaram o preço final por isso: derrota, humilhação, exílio e, em muitos casos, morte prematura.

Mas talvez, mesmo assim, os fins não justifiquem os meios. Ou melhor, os “fins” são realmente os “meios” projetados e amplificados em uma conclusão lógica e monstruosa. Mesmo que os chefes apaches tivessem recrutado todos os guerreiros e os tivessem obrigado a lutar, mesmo que alguns dos guerreiros não tivessem fugido e se tornado caçadores de seu próprio povo para o exército branco, mesmo que pudessem ter segurado o Exército dos EUA por alguns anos mais, eles não teriam feito isso como Apaches, ou como o povo que sempre foram. O caso aqui é parecido, “para salvar a cidade, teríamos que destruí-la”. Ou melhor, para evitar que a cidade fosse estabelecida na terra dos apaches, eles tinham que se tornar a cidade no raciocínio da civilização. E eles sabiam o que isso significava: a escravidão de uma forma ou de outra. Eles aceitaram as conseqüências de sua recusa, mesmo que tivessem dúvidas sobre isso.

Podemos aplicar essas lições à nossa própria situação. Muitos grupos “anarquistas verdes” ou “pós-esquerdistas verdes” como o Deep Green Resistance e outros semelhantes têm uma atitude “militarista” ou “militante” em relação ao “desmantelamento” ou “destruição” da civilização. Existem até mesmo grupos “pró-Unabomber” que sonham com uma “revolução” contra a “sociedade tecno-industrial”. Mas e se, como diz o avô acima, em seus esforços para combater a escravidão, eles estiverem apenas criando mais escravos? Não seria esta a essência do projeto esquerdista/revolucionário: uma última “escravidão”, um último “martírio” que acabará com todas as escravidões e martírios? Só mais um grande empurrão e vamos constituir o lugar onde não há tristeza, nem suspiros, nem mais dor. O Leviatã já teve esse sonho antes, uma miríade de vezes agora, e as pessoas se lançaram contra as rodas do Progresso para torná-lo realidade. Eles ainda estão mortos, e não estamos mais perto da liberdade.

Ainda assim, há outros, como John Zerzan, que pensam que “desistir” de defender o mundo que a civilização criou é algo semelhante ao niilismo e ao desespero. “Esperança”, de acordo com esse raciocínio, seria encontrar uma maneira de “deixar todo mundo terminar bem”, de evitar todas as conseqüências negativas do fim de um modo de vida que não tem produzido nada além de conseqüências negativas para aqueles que se opuseram a ela (como nossos Apaches aqui). O Réquiem cantado para um mundo construído no enorme cemitério de outros mundos mortos deve ser pastoral e pacífico, é o que nos dizem, para que não sucumbamos à vingança e ao ódio, para que não pecamos contra os valores da “Iluminação” que de algum modo escaparam de ser plenamente domesticados, mesmo quando tudo o mais foi (mirabile visu!).

Mas e se esse desejo de salvar o mundo, esse desejo de “derrubar a tirania”, não importando o custo, essa coceira para “lutar por um mundo melhor”, for apenas mais uma roda de hamster, outro jugo para ser colocado em nós, para resolver problemas que nós não criamos e para nos sacrificarmos por um mundo melhor que nunca veremos (engraçado como isso funciona)? E se a perspicácia da civilização domesticada se baseia em aproveitar nossa hostilidade para torná-la melhor, mercantilizando nosso radicalismo e perpetuando valores civilizados em inimigos auto-proclamados como um vírus em um hospedeiro inocente? Por que não apenas manter nossos princípios, como fizeram os Apaches derrotados, e deixar as fichas caírem onde elas irão cair? E se percebêssemos que, como animais, não sabemos o que o futuro vai trazer, que a única resistência que temos é a resistência no agora, e os cuidados de amanhã cuidarão de si mesmos? Na verdade, simplesmente não temos poder sobre o amanhã, assim como não temos poder para ressuscitar o passado. Se o fizéssemos, não seríamos animais, e o revolucionário/esquerdista/tecnocrata estaria certo.

Os eco-extremistas mexicanos estão incorporando essas idéias como na seguinte passagem, que eu traduzi de um trabalho recente deles:

“Percebemos plenamente que somos seres humanos civilizados. Encontramo-nos dentro deste sistema e usamos os meios que ele nos proporciona para expressar uma tendência oposta a ela, com todas as suas contradições, sabendo muito bem que há muito tempo estamos contaminados pela civilização. Mas mesmo como os animais domesticados que somos, ainda nos lembramos de nossos instintos. Vivemos mais tempo como uma espécie em cavernas do que em cidades. Não estamos totalmente alienados, e é por isso que atacamos. A característica distintiva do RS nessa conversa é que dizemos que não há melhor amanhã. Não há como mudar o mundo para um mundo mais justo. Isso nunca pode existir dentro dos limites do sistema tecnológico que engloba todo o planeta. Tudo o que podemos esperar é um amanhã decadente, cinza e turbulento. Tudo o que existe é o agora, o presente. É por isso que não estamos apostando na “revolução” tão esperada nos círculos esquerdistas. Mesmo que isso pareça exagerado, é assim que é. A resistência contra o sistema tecnológico deve ser extremista no aqui e agora, não esperando por mudanças em condições objetivas. Não deve ter “metas de longo prazo”. Deve ser realizado agora por indivíduos que assumem o papel de guerreiros sob sua própria direção, aceitando suas próprias inconsistências e contradições. Deve ser suicida. Não pretendemos derrubar o sistema. Nós não queremos seguidores. O que queremos é a guerra individualista travada por várias facções contra o sistema que nos domina e subjuga. Nosso grito para a Natureza Selvagem será sempre o mesmo até o nosso próprio extermínio violento: “E iraram-se as nações, e veio a tua ira… e o tempo em que tu deverias destruir os que destroem a terra” (Apocalipse 11:18).”

Talvez a única resposta verdadeiramente livre, a única que escapa ao ciclo da domesticação, seja aquela que afirma firmemente que este mundo não vale a pena ser salvo, que seus dias estão contados e quanto mais cedo o mal cair, melhor. Às vezes, a condenação na escatologia cristã não é meramente um castigo, mas é o que é melhor para a alma saturada de iniqüidade. O mundo deve cair, e provavelmente nada irá substituí-lo, nada que possamos prever de qualquer maneira. A única práxis real, portanto, é a da rejeição e não a da reconstrução: um dos animais heróicos que se defronta com o gigante civilizado da escravidão e do medo.

– Chahta-Ima (2016)

O que é o Eco-extremismo? – A flor que cresce no submundo: Uma introdução ao eco-extremismo

Tradução do escrito What is Eco-extremism?, de Abe Cabrera. Este texto foi extraído da primeira edição da Revista Anhangá, disponibilizada publicamente na web.

“Una salus victis nullam sperare salutem.” (A única esperança dos conquistados é não esperar a salvação.) – Virgil, The Aeneid

“Se a morte vier, continuaremos destruindo as coisas no inferno; mundo repugnante, vou dar risadas enquanto assisto sua queda, neste eterno confronto…” – Décimo primeiro Comunicado de Individualistas Tendendo ao Selvagem, 2016

O eco-extremismo é uma das mais recentes escolas de pensamento do nosso tempo, mas mais do que uma escola de pensamento é também um plano de ação, uma atitude de hostilidade e uma rejeição de tudo o que aconteceu antes dele na sociedade tecno-industrial. Nascido de várias ideologias radicais como a libertação animal, o anarquismo insurrecional, o anarco-primitivismo e o neoluddismo de Theodore Kaczynski, germinou e brotou como algo completamente diferente: um poema de amor à violência e à criminalidade; uma visão ecológica radical onde a esperança e o humanismo são superados pelo cano de uma arma, pela explosão do dispositivo incendiário e pela faca que persegue presas humanas na escuridão. Todos os seus verdadeiros adeptos são atualmente desconhecidos. Não é uma ideologia que se formou na academia ou mesmo em espaços políticos “alternativos”. Seus escritos só podem ser encontrados (alguns diriam ironicamente) em sites anônimos na Internet. O eco-extremismo foi formado nas sombras, e permanecerá ali, uma ameaça clandestina até que todos os eco-extremistas sejam capturados ou mortos… ou seja, até que outros tomem seu lugar.

Pouco depois de eu ter escrito meu ensaio na Ritual Magazine1, Rumo à Selvageria: desenvolvimentos recentes do pensamento eco-extremista no México, o principal grupo descrito nesse ensaio, Reacción Salvaje, se desfez (em agosto de 2015), citando uma nova etapa de sua luta e desenvolvimento. Muitos dos sites que eu usei para a minha pesquisa também se silenciaram ou anunciaram seu fim. No entanto, rumores eco-extremistas podiam ser ouvidos no sul, ecoados através de notícias na Internet. Grupos como a Seita Pagã da Montanha cometeram ataques no Estado do México e em outras partes do país, usando a mesma retórica contra os “hiper-civilizados” e sem nenhuma preocupação com a moralidade e a sociedade tecnológica em massa. Uma das principais revistas do eco-extremismo, a Revista Regresión, continuou a ser publicada fora do México.

Em janeiro de 2016, novos sites eco-extremistas e até mesmo um extenso documentário em vídeo sobre eco-extremismo surgiram on-line. No final do mês, foi emitido o primeiro comunicado do reorganizado Individualistas Tendendo ao Selvagem (Individualistas Tendiendo a lo Salvaje, ITS) no principal site eco-extremista, Maldición Eco-extremista, bem como no anti- authoritarian news. Logo começou a se perceber que a continuação do ITS havia se espalhado para outros países, nomeadamente o Chile, a Argentina e, mais tarde, o Brasil, juntamente com os grupos aliados de Terroristas Niilistas na Itália. Os textos eco-extremistas foram traduzidos em idiomas que vão do espanhol e inglês ao turco, tcheco e romeno. As ações eco-extremistas no último ano civil variaram de incêndio, ameaças de bomba, bombardeamentos indiscriminados até o assassinato de um trabalhador científico na maior universidade do México. Pelo que sabemos, ninguém foi detido ou investigado por esses crimes.

A recente teoria eco-extremista enfatizou a ação acima do estudo histórico e da teoria. Grande parte da energia polêmica no início deste ano foi consumida por uma defesa do “ataque indiscriminado“: isto é, bombardeio, tiro, incêndio, etc. que não leva em conta “espectadores inocentes”, mas ataca um alvo, independentemente do “dano colateral ” que possa causar. Outras questões de contenção têm sido a relação entre niilismo e egoísmo (a ideia de que os ITS e outros eco-extremistas não acreditam em um futuro e lutam no aqui e agora por nenhum objetivo estratégico particular), primitivismo, animismo/paganismo e individualismo. No que se segue vou discutir termos essenciais e conceitos que esperamos que possam esclarecer a retórica e linguagem eco-extremista. Deve-se notar desde o início que o eco-extremismo não visa uma clareza absoluta para o observador imparcial, mas sim busca estimular a afinidade naqueles que estão em desacordo com a tecnologia, a artificialidade e a civilização.

Eco-extremismo é uma tendência que visa recuperar o selvagem. Exalta os instintos de guerreiro ancestral de cada um e declara guerra a tudo o que é civilizado. O eco-extremismo é corporificado por eco-extremistas individuais escondidos que emergem com ferocidade fria no momento oportuno. O eco-extremista é um individualista na medida em que ele desafia a proibição do coletivo ou comunidade, qualquer comunidade, à lutar, ferir, mutilar ou matar. Nenhum coletivo tem a autoridade de dizer-lhe o que fazer, pois todos eles perderam a sua autoridade (inexistente) em sua guerra contínua contra a Natureza Selvagem. Junto com a renúncia ao coletivo há uma renúncia à esperança ou qualquer “futuro primitivo”. Eco-extremistas acreditam que este mundo é lixo, eles entendem o progresso como a escravidão industrial, e eles lutam como animais selvagens encurralados, uma vez que sabem que não há escapatória. Eles olham a morte nos olhos, e gritam, “Hoka Hey!” (Hoje é um bom dia para morrer.)

O eco-extremismo é uma resistência violenta que imita a reação reflexiva da Natureza Selvagem contra aquilo que procura alienar e escravizar todas as coisas vivas e inanimadas. Contra a artificialidade da sociedade moderna, e tudo o que subjuga o instinto humano a um “fim superior”.

Comecemos, no entanto, a definir nossos termos:

Natureza Selvagem: Natureza Selvagem é o principal agente da guerra eco-extremista. Os filisteus se opõem à invocação da “Natureza Selvagem” taxando isso de atavismo ou “superstição”, mas o fazem apenas por causa da sua própria domesticação e idiotice. “Natureza Selvagem” é tudo o que cresce e se manifesta no planeta em objetos animados e inanimados, de pedras a oceanos, de microrganismos a toda a flora e fauna que se desenvolveram na Terra. Mais especificamente, “Natureza Selvagem” é o reconhecimento de que a humanidade não é a fonte e o fim da realidade física e espiritual, mas apenas uma parte dela, e talvez nem mesmo uma parte importante. O eco-extremismo, na medida em que pensa sobre a epistemologia, baseia-se na ideia de que a realidade é governada por nossos sentidos e instintos animais. Como Chahta-Ima afirmou em seu ensaio, O que queremos dizer quando dizemos, ‘natureza’?:

“A natureza existe porque a mente humana é fraca e limitada. Ela é mortal, é feita de carne e, por fim, este é o seu limite, mesmo que não possamos vê-lo. É como se ela jogasse um jogo contra o resto da existência, e ela vai perder. A existência da natureza é o limite do pensamento. É o fato de que todas as coisas não são para nós, nossos pensamentos não fazem as coisas: as coisas estão lá para a tomada, e estariam lá sem a nossa intervenção. Em outras palavras, nós não somos deuses, não somos espíritos, precisamente porque essas coisas não existem como nós as entendemos. Nosso pensamento não compreende e não pode compreender tudo, e é por isso que é tão miseravelmente pouco confiável.”

O eco-extremismo, portanto, adota uma posição pessimista no que diz respeito à empreendimentos humanos e conquistas, sejam elas físicas, espirituais ou morais. É por isso que se opõe à civilização, especialmente na sua manifestação tecno-industrial. A civilização moderna procura subjugar tudo a si mesma, e sua hubris é sua queda. Eco-extremistas procuram ser instrumentos dessa queda, embora eles não acreditem que possam fazê-lo por si sós. Mais importante ainda, a natureza selvagem é encontrada em nós, principalmente em nossos instintos, e ao sentir o gemido da terra em face da destruição causada pela vida civilizada. Esta tendência procura (embora imperfeitamente) recuperar crenças baseadas nas montanhas, desertos, costas, pântanos, florestas, animais, fases da lua, e assim por diante.

Muitos eco-extremistas ouvem o chamado de seus antepassados que resistiram à sua subjugação. Quando a Natureza Selvagem fala, ela o faz na linguagem de seus antepassados Teochichimecas, os Selk’nam, os Yahis, os Navajo, os Maoris, os bárbaros europeus, os Waranis, os Taromenanes, os Seris, os Tobas e qualquer outro grupo que lutou contra a extinção de seu antigo modo de vida. A natureza selvagem está assim dentro de nós, na individualidade que recusa a mentalidade e a moral da civilização e da domesticação.

Individualismo: Mais do que uma corrente filosófica, o individualismo é uma importante escolha tática dentro da sociedade de massas. É a decisão de se tornar um lobo no meio de todas as ovelhas. É a decisão de cuidar do próprio interesse e agir em conformidade com ele. Os individualistas aprendem com a solidão e buscam a auto-realização porque entenderam que não podem mais seguir as normas e costumes que a civilização lhes ditou. Os individualistas negam a moralidade aceita e rejeitam os valores que lhes foram ensinados desde o nascimento. Eles não esperam para tomar a iniciativa, mas sim unem-se com aqueles de disposição semelhante para melhorar sua teoria e prática. O individualismo é uma arma contra o coletivismo progressista imposto pelo sistema. Como um eco-extremista escreveu:

“’Eu e depois eu!’, Eu grito tentando acabar com minha domesticação, quebrando os laços de relacionamentos inúteis, lançando-me de cabeça em uma guerra contra a civilização e seus escravos. Contra seu coletivismo, seu altruísmo e humanismo. Morte às relações fundadas na hipocrisia! Longa vida às afinidades sinceras! Meus aliados que lutam esta guerra perdida junto comigo sabem: para mim será sempre eu antes deles, e vice-versa: para eles, o ‘eu’ deles vem antes do meu ‘eu’. Assim nós continuaremos já que somos indivíduos amorais e egoístas.”

Os eco-extremistas individualistas são cautelosos e espirituais, amam profundamente e quando odeiam, não perdoam. Eles agem de forma indiscriminada, são frios e calculistas. Eles rondam e camuflam-se nas paisagens urbanas e rurais com a astúcia de uma raposa. Eco-extremistas usam tudo o que tiver ao seu alcance para alcançar seus objetivos, mas tentam ligar-se ao passado sagrado sabendo que o tempo para a paz já não mais existe. Procuram oferecer as suas vítimas como um sacrifício aos seus antepassados e à própria Terra. Como em muitas das guerras passadas contra a civilização, a força motriz por trás dela não é a moralidade nem a justiça, mas sim a vingança.

Ataque indiscriminado: A mente progressista moderna se opõe à ataques indiscriminados, uma vez que ainda não foi capaz de livrar-se da moralidade ocidental. Para os eco-extremistas, agir indiscriminadamente é um dos principais métodos de ataque. Atacar indiscriminadamente é atacar um alvo sem considerar “espectadores inocentes” ou “danos colaterais”. Enquanto os individualistas eco-extremistas geralmente visam alvos que são significativos para a sociedade tecno-industrial (ministérios governamentais, universidades, veículos de transporte), os terroristas individualistas o fazem com a intenção de infligir o máximo de danos, incluindo as mortes humanas. Como o ITS expressou em seu Quinto Comunicado deste ano:

“Consideramos inimigos todos aqueles que contribuem para o processo sistemático de domesticação e alienação: os cientistas, os engenheiros, os investigadores, os físicos, os executivos, os humanistas e (por que não?), afirmando o princípio do ataque indiscriminado, a sociedade em si e tudo o que ela implica. Por que a sociedade? Porque ela tende ao progresso, tecnológico e industrial. Contribui para a consolidação e avanço da civilização. Podemos pensar em todos os que fazem parte da sociedade como sendo meras ovelhas que fazem o que lhes é dito e nada mais, mas para nós não é assim tão simples. As pessoas obedecem porque querem. Se tivessem uma escolha e, se dependessem deles, gostariam de viver como aqueles malditos milionários, mas apodrecem na sua pobreza como os servos eternamente fiéis ao sistema que nos escraviza como animais domésticos”.

O eco-extremismo realiza ataques indiscriminados como um eco da natureza selvagem e para mostrar que sua hostilidade para com a sociedade é real. Os tsunamis não param de repente quando chegam aos bairros pobres, os jacarés não distinguem entre inocentes e culpados em suas caças noturnas e os furacões não atacam as pessoas de acordo com a raça. O eco-extremismo é parte desse ciclo de ação e reação. O tempo da “ação revolucionária” já passou, e os eco-extremistas procuram levar a cabo uma guerra real, com verdadeiras baixas e ações que não são meramente simbólicas, mas que, de fato, derramam sangue.

Niilismo: O niilismo é principalmente uma recusa do futuro. Como eu descrevi no meu ensaio “Primitivismo Sem Catástrofe“, as sociedades humanas em todos os níveis, mas especialmente a sociedade tecno-industrial, são extremamente complexas, compostas de muitas partes complexas e de muitas pessoas. Assim, qualquer aspiração de pastorear as pessoas em um curso coletivo de ação, seja ele humanista, socialista, liberal ou mesmo anarquista, não funcionará e terá de enfrentar a oposição daqueles que buscam resistir à sua própria escravidão tecno-industrial.

Na “Mafia Eco-extremista” (como eles gostam de chamar a si mesmos) há os Terroristas Niilistas, particularmente na Itália. Estes niilistas aderem à posição de que o verdadeiro niilismo é o niilismo ativo, do contrário não seria um niilismo completo. Não adianta falar de “niilismo” ou “egoísmo” enquanto se paga impostos e obedece às leis de trânsito. Tal egoísmo ou niilismo puramente passivo talvez seja mais parecido com o budismo ou o niilismo filosófico do século XIX, que sustenta todas as coisas que condenam a pessoa a ser uma engrenagem na grande máquina social, mas oferece algum tipo de integridade ou pureza invisível (ou um “espaço emancipado” particular) semelhante à “libertação espiritual”. O Niilismo Ativo Terrorista, praticado pela Seita do Niilístico Memento Mori e outros, busca atacar o que obviamente escraviza o indivíduo à sociedade, e esse ataque deve ser sempre um ataque físico contra alvos reais como máquinas, edifícios, etc. e os autômatos humanoides que constroem e operam. Todas as outras manifestações de niilismo ou egoísmo não são melhores do que o ascetismo oriental ou o cristianismo.

“O puro golpe para a vida que flui na margem do “viver”. Sou o criminoso niilista que nega a humanidade obsoleta, transcendendo o humano moral-mortal, numa representação categórica e identificadora de valores iguais”. – Nechaevshchina, “Nihilist Funeral”

Paganismo/animismo: O eco-extremismo é fundado no animismo pagão e tenta resgatar divindades ancestrais que muitas vezes foram esquecidas pela sociedade cristã/secular. Por razões profundamente pessoais e estratégicas, o eco-extremista busca reviver a adoração dos espíritos da Terra e oferecer sacrifícios a eles. O componente estratégico é renunciar e opor-se à filosofia do cientificismo secular defendida por alguns anarquistas que clamam: “Sem deuses, nem mestres!” Os eco-extremistas reconhecem a necessidade de autoridades espirituais, mesmo que estas sejam mal compreendidas ou quase esquecidas, já que estas ainda determinam o curso da vida e da morte. Nenhum guerreiro pode fazer a guerra por conta própria: sempre há forças maiores em ação que nem mesmo a civilização tecno-industrial pode dominar. Na guerra eco-extremista, apesar do individualismo tático, um componente espiritual é necessário para realizar um ataque contra essa sociedade pútrida e se livrar dela. Isso também lembra o eco-extremista que, em última instância, se ele ou ela vive ou morre não é uma questão que está nas mãos dele, mas sim nas mãos de forças que sempre estiveram no controle, e ainda estarão mesmo depois de nós termos partido. Como Halputta Hadjo afirmou em seu monógrafo,Os Calusa: Um Reino Selvagem?:

“[O eco-extremista] pode atacar ou ele pode render-se, mas tudo o que ele faz está limitado pela cegueira e impotência de sua própria natureza carnal. Isso não é motivo para desistir, e não é motivo para o desespero. Pelo contrário, isso é razão para reverenciar as forças que criaram as coisas dessa maneira, e estes são os “espíritos”, ou os “deuses”, de um ambiente específico, seja qual for o nome que você queira chamá-los. A atitude dos eco-extremistas é a hostilidade eterna contra a civilização tecnológica em nome dos espíritos que são seu patrimônio perdido”.

Como o selvagem guerreiro do passado, o eco-extremista entende que, apesar de o couro cabeludo e sangue do inimigo poder ser seu no curto prazo, no longo prazo, seu destino é a decadência como toda a carne, com seu espírito voltando ao vento e à poeira. O eco-extremista não foge de seus “fantasmas”, de seu “lado negro”, ou de sua ignorância, mas abraça-os para que estes lhe deem coragem contra o inimigo. Estes são seus deuses, seus próprios espíritos guardiães que são emissários da Natureza Selvagem. Ele não necessita da racionalidade matemática do domesticado para agir, mas age por instinto com o conhecimento necessário para atacar seu inimigo. Seu único consolo é que ele também é Natureza Selvagem, que seu lamento é seu lamento, que sua vitória final será sua, mesmo que ele não viva para vê-lo com seus olhos físicos. No final, todos os sentimentos elevados e as ideias estão a uma mera batida do coração de serem extinguidos, o que dá ao eco-extremista um sentido de urgência na luta contra a domesticação e artificialidade.

Conclusão: Guerra com data de vencimento, guerra sem fim

O eco-extremismo é o sentido trágico da vida encarnado em nossa época. É um produto das contradições de nosso tempo, da turbulência da erudição antropológica, da renúncia à ação política e do impasse ideológico contemporâneo. Esta tendência sabe que este impasse não será resolvido por melhores filosofias ou códigos morais, mas apenas pela destruição de tudo o que existe, incluindo o “hiper-civilizado” (isto é, todos nós). A sociedade tecno-industrial é um problema que nunca deveria ter existido em primeiro lugar, e todos os “defeitos” e “contradições” do eco-extremismo como ideologia são o resultado de contradições da sociedade refletidas como um espelho distorcido. Não há solução. A única resposta adequada é fogo e balas.

Esta atitude coloca o eco-extremista em conflito não só com as autoridades da sociedade tecno-industrial, mas também com outros grupos chamados radicais. Não há nenhum “chamado às ruas” ou expressões de “solidariedade” por parte dos eco-extremistas. Não há nenhuma tentativa de se justificar moral ou filosoficamente. “Inocência” ou “culpa” nunca entram no cálculo eco-extremista. De fato, essa tendência absorve os “piores” aspectos da sociedade moderna, incluindo a criminalidade, sem qualquer esforço de justiça por meio da lógica da “justiça civilizada”. A recente introdução ao ensaio “Os Calusa: Um Reino Selvagem?” destaca os atores e grupos societários que o eco-extremismo procura imitar em nosso tempo:

“‘Os Calusa: Um Reino Selvagem?’ Ensina uma lição valiosa; nomeadamente, que muito pode ser aprendido tanto dos pequenos grupos nômades como das grandes civilizações pré-colombianas. Aqui não há perigo de cair em uma “contradição” teórica, pois os eco-extremistas podem fazer referência aos selk’nam e aos maias. Podem referir-se às experiências dos pequenos criminosos, bem como as das grandes máfias; as gangues guatemaltecas, bem como a rígida organização do Estado islâmico. Ou seja, os eco-extremistas se vêem livres para se referirem a tudo que os interessem, sem qualquer indício de moralidade, com a única condição de que isso sirva como uma lição particular útil no que diz respeito ao planejamento e execução de sua guerra”.

O ecletismo teórico só entra em choque no eco-extremista quando se vê frente à obstinação pelo ataque violento. O eco-extremista tem abandonado sua afinidade com o hiper-civilizado e vê praticamente todos como um inimigo. Estes individualistas têm vindo a valorizar o ataque mais do que suas próprias vidas, como inúmeros outros guerreiros e selvagens têm feito antes deles. Eles não pedem ajuda àqueles que hoje vêem como, na melhor das hipóteses, inúteis, e na pior das hipóteses, o adversário odiado digno de morte. Os eco-extremistas já estão no radar das autoridades dos países onde operam, e além. Eles não alimentam a ilusão de que serão capazes de evitá-los indefinidamente.

A Natureza Selvagem corrói a civilização pouco a pouco por meio da entropia assim como a água diminui aos poucos a massa de uma pedra. Juntamente com as mudanças climáticas, terremotos e outros desastres naturais, os novos individualistas que resistem à sua domesticação tomarão o lugar dos eco-extremistas, talvez conscientes daqueles que vieram antes deles. Estamos agora entrando numa era de extremos, uma era de incerteza, onde ilusões de esquerda e banalidades conservadoras não podem mais nos preparar para o nosso rumo futuro. O individualista continuará sendo uma ameaça invisível, imune à coerção moral do rebanho e trabalhando na total privacidade de seus próprios pensamentos e desejos. As massas podem se enfurecer e as autoridades lamentar, mas sempre haverá bolsões de recusa destrutiva emergindo como faíscas no escuro apenas para sair novamente, até que esta sociedade seja moída até o pó, e os espíritos de todos os guerreiros vão mais uma vez caçar na terra de seus antepassados. Axkan kema, tehuatl, nehuatl! [Até a sua morte, ou a minha!]

[PT – PDF] Ishi e a Guerra Contra a Civilização

Ishi e a Guerra Contra a Civilização é a versão em português de uma investigação antropológica desenvolvida por Chahta-Ima.

Ishi, o indígena foco principal da abordagem é “tido” como “o último nativo americano sobrevivente do extermínio branco”, sendo muitas vezes apresentado com o mito do “bom selvagem”, mas a história de sua tribo é atormentada de violência indiscriminada defensiva, e nos conta que muito difere das conhecidas narrativas contadas por pessoas que desconhecem o histórico desta tribo.

Os eco-extremistas vêem em Ishi e outros selvagens semelhanças no que chamam de “guerra contra a civilização”.

O material compartilhado foi extraído da web.

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Ishi e a Guerra Contra a Civilização

A aparição do eco-extremismo e as táticas que utiliza, tem causado muitas controvérsias nos círculos radicais à nível internacional. As críticas de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) e outros grupos alinhados, tem recebido uma ampla gama de acusações de loucura ultra-radical. Um aspecto destacado desta polêmica gira em torno da ideia do ataque indiscriminado. A amarga retórica por parte dos eco-extremistas pode exacerbar a hostilidade para com estas táticas entre os incrédulos. Como muitos se referem, no entanto, parecia que ITS e outros grupos eco-extremistas estão envolvidos em detonações de explosivos em centros pré-escolares e lares de idosos, ou seja, objetivos aleatórios ao invés de objetivos de importância específica para o sistema tecno-industrial (laboratórios, ministérios governamentais, etc.). Deve-se admitir que muitos dos envolvidos em polêmicas contra o eco-extremismo tem a priori uma inclinação negativa contra qualquer argumento, não importando o quão bem esteja elaborado, afinal, como eles mesmos admitem, a manutenção da civilização e a domesticação é de seu próprio interesse. Não é o ponto discutir com eles. Por outro lado, o eco-extremismo ainda tem muito o que dizer, então aqueles que tem ouvidos para ouvir, que ouçam.

O mais amistoso seria perguntar por que ITS e seus aliados devem “retirar-se” da ideia do ataque indiscriminado. Por que fazer dano às pessoas que estão tratando de ajudar? Em outras palavras, a civilização e a destruição que se desata sobre o mundo são culpa de um pequeno setor da sociedade moderna, e há que se concentrar em convencer a grande maioria que não tem a culpa, com a finalidade de ter o equilíbrio das forças necessárias para superar os males que atualmente nos afligem. Fora isso, é apenas a má forma. É compreensível que “coisas ruins” ocorram até mesmo em ações bem planificadas. O mínimo que podem fazer aqueles que se submetem a elas é que peçam desculpas. Isso é apenas boas maneiras. Alguns anarquistas chilenos fizeram algo recentemente, explodiram bombas de ruído às quatro da manhã, quando ninguém estava por perto com a intenção e expressar sua “solidariedade” com quem solicitou o anarquismo internacional para orar por… quero dizer, expressar sua solidariedade nesta semana. Mas se você tem que fazer algo, o mínimo que pode fazer é minimizar os danos e expressar seu pesar se algo der errado (mas acima de tudo, então você deve fazer nada…).

Claro, o eco-extremismo rechaça esta objeções infantis e hipócritas. Estas pessoas estão expressando sua superioridade moral enquanto brincavam com fogos de artifício no meio da noite e logo se dedicam a outras coisas pelo mundo, sem nenhuma razão aparente? Querem um biscoito ou uma estrelinha por serem bons meninos? O eco-extremismo admitirá facilmente que esse anarquismo devoto é piedoso e santo. Os eco-extremistas não querem ajuda destes anarquistas piedosos. Se os anarquistas que se inclinam para a esquerda buscam ganhar popularidade no manicômio da civilização, é claro, o eco-extremismo se rende.… Parabéns de antecedência.

Houve críticas contra os eco-extremistas dizendo que não é assim que se trava uma guerra contra a civilização. Ok, vamos em frente e dar uma olhada mais de perto a uma guerra real contra a civilização. Os editores da Revista Regresión já escreveram uma extensa série de artigos sobre a Rebelião do Mixtón e a Guerra Chichimeca, que se estendeu por grande parte do território do México durante o século XVI, aqui recomendamos encarecidamente seu trabalho. Neste ensaio, vamos aumentar seus argumentos recorrendo a um exemplo muito amado de um “tenro” e trágico índio, Ishi, o último da tribo Yahi no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Neste exercício não pretendemos saber de tudo dos membros de uma tribo da Idade da Pedra que foram caçados até sua extinção pelos brancos. Na medida em que qualquer analogia histórica é falha, ipso facto, aqui vamos pelo menos tentar tirar lições de como o Yahi lutou, suas atitudes em relação à civilização sendo o último homem, e como a forma de sua cultura problematiza os valores anarquistas e os de esquerda advindos do iluminismo. Este ensaio pretende mostrar que a guerra do Yahi contra a civilização também foi indiscriminada, carente de valores ocidentais como a solidariedade e o humanismo, e foi um duelo de morte contra a vida europeia domesticada. Em outras palavras, é um modelo de como muitos eco-extremistas veem sua própria guerra travada a partir de sua individualidade. Ishi, longe de ser o modelo do “bom selvagem”, foi o último homem de pé em uma guerra travada contra os brancos, com a maior quantidade de brutalidade e “criminalidade” que o agora extinto Yahi pode suportar.

O Yahi

Em 29 de agosto de 1911, um homem de cor marrom, nu e com fome, com cerca de cinquenta anos de idade foi encontrado do lado de fora de um matadouro perto de Oroville, Califórnia. O homem foi rapidamente detido e encarcerado na prisão da cidade. No início, ninguém podia se comunicar com ele em qualquer idioma conhecido. Logo, os antropólogos chegaram de San Franciso e descobriram que o homem era Yahi, um bando situado mais ao sul da tribo Yana, conhecido localmente como “índios escavadores” ou “índios Mill Creek/Deer Creek”. Durante muito tempo se suspeitava que um pequeno grupo de “índios selvagens” ainda viviam na região montanhosa do norte inóspito da Califórnia. Os antropólogos fizeram os arranjos para que o último “índio selvagem” vivesse com eles em seu museu, e que os ensinasse sobre sua cultura em San Francisco. Depois de haver encontrado um (imperfeito) tradutor Yana, não puderam obter outro nome do índio que não fosse apenas “Ishi”, a palavra Yana para “homem”. Esse é o nome pela qual ficou conhecido no momento de sua captura até sua morte, quatro anos e meio mais tarde.

Os Yahi eram um ramo meridional de uma tribo maior chamada Yana, encontrada no norte da Califórnia, ao norte da cidade de Chico e do rio Sacramento. Antes da chegada dos europeus, havia talvez não mais de 3.000 Yana em suas terras tradicionais fazendo fronteira com os Maidu ao Sul, os Wintu ao Oeste, e a tribo Shastan ao Norte. Falavam a língua Hokan, as raízes das quais compartilharam com tribos em toda a América do Norte. Como tribo, os Yana, em particular, eram muito menores que seus vizinhos, mas ainda sim havia uma reputação de brutalidade contra eles. Também se especula que o Yana pode primeiro ter vivido nas terras baixas mais produtivas antes de ser levado para a região montanhosa menos produtiva por seus vizinhos muito maiores e mais ricos ao Sul, particularmente. Como Theodora Kroeber comenta em seu livro, “Ishi in Two Worlds”:

“Os Yana foram menores em número e mais pobres em confortos materiais se comparados aos seus vizinhos do vale, a quem eles consideravam combatentes suaves, relaxados e indiferentes. Assim como as tribos de montanhas em outras partes do mundo, os Yana, também, eram orgulhosos, valentes, engenhosos e rápidos, e foram temidos por povos maidu e wintu que viviam nas terras baixas.” (25)

M. Steven Shackley, em seu ensaio, “The Stone Tool Technology of Ishi and the Yana”, escreve sobre a relação dos Yahi com seus vizinhos imediatos:

“Pelo motivo de ter de viver em um ambiente tão marginal, os Yahi nunca tiveram boas relações com os grupos dos arredores em qualquer período de tempo. Evidência arqueológica regional sugere que, os falantes de línguas hokanas, provavelmente os que poderiam ser chamados de proto-Yana, viviam em um território muito maior que incluía a parte superior do vale do Rio Sacramento, assim como as colinas da Cascata do Sul até a “Intrusão Penutia” em algum momento há mais de 1000 anos. Estes grupos que falavam idiomas Penutian foram os antepassados dos Maidu e Wintu/Nomlaki, que viviam no vale do rio no momento do contato espanhol e Anglo. A violência considerável sugere neste momento, no registro arqueológico e do proto-Yana, evidentemente, que não se moveram a um habitat menor ou mais marginal de bom grado. A violência nas mãos de estrangeiros não era nova, com a chegada dos anglo-saxões a partir de 1850, os Yahi tinham mantido relações de inimizade em um longo período de tempo com grupos que falavam idiomas Penutian, que haviam tomado à força a terra inferior e seus arredores por algum tempo.” (Kroeber y Kroeber, 190)

Em geral, no entanto, os Yana viveram como a maioria das tribos, se agarraram ao ciclo das estações e tinham pouca estratificação social. A única diferença importante entre os Yana é que tinham dualidade sexual na linguagem, ou seja, uma forma diferente na língua Yana era utilizada por cada sexo. Como explica Theodora Kroeber:

“Os bebês de ambos sexos estavam sob cuidado da mãe, com uma irmã mais velha ou a avó ajudando. Sua primeira fala, foi a do dialeto da mulher, sempre se fala das mulheres e dos homens, e os meninos na presença de meninas e mulheres. Quando o menino crescia e era independente da atenção da mãe, era levado por seu pai ou irmão mais velho a onde quer que fossem, durante maiores períodos de tempo a cada dia. Na idade de nove ou dez anos, muito antes da puberdade, passava a maior parte de suas horas na companhia masculina e dormia em vigília na casa dos homens. Portanto, o menino aprendeu seu segundo idioma, o dialeto dos homens.” (29-30)

Kroeber explica que a fala feminina era muitas vezes um discurso “cortado” com as palavras masculinas que tem mais sílabas. Embora as mulheres usassem apenas um dialeto da língua, conheciam a variante masculina também. Theodora Kroeber especula que na língua Yana, longe de ser uma curiosidade linguística, a divisão estrita das palavras pode ter feito dos Yahi mais intransigentes à interferência do mundo exterior. Ela escreve:

“É um aspecto psicológico desta peculiaridade no idioma, que não está sujeito à prova, mas que não deve ser descartado. O Yahi sobrevivente parece que nunca perdeu sua moral em sua longa e desesperada luta pela sobrevivência. Poderia a linguagem haver desempenhado um papel nesta tensão contínua da força moral? Ela havia sido dotada a suas conversações com o hábito da cortesia, formalidade, e o uso carregado de um forte sentido na importância de falar e de se comportar desta ou daquela maneira e não de outra, de modo que não permitia o desleixo seja ele de palavra ou de comportamento.” (Ibid, 31)

Theodora Kroeber examina este aspecto da vida Yana mais tarde em seu livro, quando descreve a relação de Ishi com seu primeiro intérprete mestiço Yana, Sam Batwi:

“Ishi era um conservador cujos antepassados haviam sido homens e mulheres de retidão; cujo pai e avô e tios haviam levado com dignidade a restrição das responsabilidades de serem os principais de seu povo. As maneiras de Ishi eram boas; as de Batwi cheiravam a crueza da cidade fronteiriça, que era o que melhor conhecia e que, por costume da época, sabia de seus cidadãos menos esclarecidos… É muito possível que no primeiro encontro, Ishi e Batwi reconheceram que eram de diferentes estratos da sociedade Yana, Batwi era o menos considerado…” (153)

A maior parte da cultura Yahi era muito similar às culturas indígenas da Califórnia em geral. Os esforços dos homens centravam-se na caça e a pesca nos rios, em especial com o salmão como alimento disponível. Os esforços das mulheres eram centrados na coleta, armazenamento e preparação de bolotas e outras plantas como parte de sua dieta básica. O antropólogo Orin Starn, em seu livro “Ishi’s Brain: In Search of America’s Last “Wild” Indian”, afirma o seguinte em relação ao conservadorismo dos Yahi, em particular, (71):

“No entanto, os Yahi eram também uma comunidade encarnada a seus costumes. É possível que tenham casado com tribos vizinhas (ocasionalmente sequestravam mulheres em meados do século XIX), mas os estrangeiros eram absorvidos pelo caminho Yahi. Em outras partes da América nativa, antes de Colombo, houve instabilidade na mudança – doenças, guerra, migração, invenção cultural, e adaptação. No sudeste, por exemplo, os lendários Anasazi de repente desapareceram no século XII, por razões ainda não discutidas. Ao longo do tempo, no entanto, o Yahi mostrou mais continuidade e instabilidade que outros grupos. Relativamente poucas modificações ocorreram em suas pontas de lança, nos primeiros acampamentos, no fato de amassar bolotas, ou outras rotinas da existência yahi. Ao que parece, os antepassados de Ishi seguiram mais ou menos o mesmo modo de vida durante muitos séculos.”

Como eram muito do norte, a neve e a falta de alimentos foram fatores que surgiam frequentemente nos tempos de escassez no inverno. No entanto, os Yana sabiam como prosperar na terra que lhes foi dada, como Kroeber resume em seu retrato da vida Yana e sua relação com as estações do ano:

“O inverno era também o tempo de voltar a recontar a velha história da criação do mundo e como foram feitos os animais e os homens, o tempo para escutar outra vez as aventuras do Coiote e da Raposa e da Marta do Pinho, e a história do Urso e dos Cervos. Assim, sentado ou deitado perto do fogo na casa coberta de terra, e envolvido em mantos de pele de coelho, com a chuva que cai lá fora ou com o espetáculo da lua brilhante que caía com sua luz para baixo em Waganupa ou distante em Deer Creek, o ciclo Yana das mudanças de estações estava completado ao dar outra volta. A medida que as cestas de alimentos estavam vazias, uma por uma, o jogo se manteve oculto e escasso, os sonhos dos Yana se dirigiram a um tempo, não muito distante, quando a terra foi coberta novamente com o novo trevo. Sentiram o impulso de serem levantados e despertaram em um mundo, às vezes muito distante, em um grande oceano que nunca haviam visto, o salmão brilhante foi nadando em direção à boca do Rio Sacramento, seu próprio fluxo de origem dos Yana.” (39)

Starn também cita um canto entonado por Ishi aos antropólogos que resume o fatalismo Yahi (42):

Serpente de chocalho morde.
Urso cinzento morde.
E vão a matar as pessoas.
Deixe que assim seja.
O homem sairá ferido ao cair da rocha.
O homem cairá quando estiver colhendo pinhões.
Ele nadará na água, à deriva, morre.
Eles caem por um penhasco.
Serão atingidos por pontas de flecha.
Eles irão se perder.
Terão que remover as lascas de madeira de seu olho.
Serão envenenados pelos homens maus.
Vão ser cegos.

Os Yahi em Guerra

Como era de se esperar, a invasão dos europeus poderia ter até mudado algumas tribos pacíficas a hostis e selvagens. Como Sherburne F. Cook declarou em seu livro, “The Conflict Between the California Indian and White Civilization”:

“O efeito geral destes eventos provoca uma mudança em todo o horizonte social dos indígenas, particularmente nos Yokuts, Miwok, e Wappo. As forças disruptivas, previamente discutidas com a referência a sua influência na diminuição da população, tiveram também o efeito de gerar um tipo totalmente novo de sociedade. Para colocá-lo em essência: um grupo sedentário, tranquilo e muito localizado, se converteu em um grupo belicoso e seminômade. Obviamente, este processo não foi completado em 1848, nem afetava a todas as partes componentes das massas de nativos igualmente. Mas seus inícios haviam se tornado muito aparentes.” (228)

No entanto, nem todos os índios reagiram ferozmente à invasão do Anglo branco. Os Maidu, vizinhos do vale dos Yahi mais para o sul, parecia que não haviam posto muita resistência ao ataque dos brancos próximos a suas terras, como o escritor maidu, Marie Potts, indicou:

“A medida em que chegaram mais homens brancos, drenaram a terra. Os ranchos se desenvolveram tão rápido que, depois de havermos tido um país de montanhas e prados para nós mesmos, nos convertemos em obreiros ou desabrigados. Sendo pessoas pacíficas e inteligentes, nos adaptamos como melhor pudemos. Sessenta anos mais tarde, quando demos conta de nossa situação e apresentamos nosso caso ao United States Land Commission, nosso pedido se resolveu por setenta e cinco centavos o acre.

Não ouve levantamentos na zona maidu. Os colonos brancos que chegaram a nossa zona estavam contentes de ter mão de obra indígena, e os registros mostram, por vezes, um negócio justo”. (Potts, 10)

Como observado anteriormente, os Yahi eram hostis, até mesmo com tribos indígenas próximas a eles, e de maneira brutal. Ms. Potts se refere às relações dos Yahi com os maidu:

“Os Mill Creeks (Yahi) eram o que para nós “significa” gente perigosa. Haviam matado muitos de nós, até mesmo pequenos bebês. Eles vigiaram, e quando nossos homens estavam ausentes na caça ou em alguma atividade, atacaram as mulheres, as crianças e os mais velhos. Quando o homem voltou da caça encontrou sua esposa morta e seu bebê caído no solo, comido pelas formigas.

Depois os Mill Creeks haviam matado a numerosos brancos, se inteiraram de que os brancos estavam reunindo voluntários para invadi-los e puni-los. Com isso, estabeleceram um sistema de alarme para serem alertados, vivendo na mira de canhões, em uma zona improdutiva”. (Ibid, 41)

Quando os colonos brancos chegaram a encontrar ouro na Califórnia na década de 1840 e início da década de 1850, trouxeram com eles o modus operandi de “o único índio bom, é o índio morto”. Não havia amor entre eles e os Yahi, então os Yahi foram persuadidos a aprimorar suas formas rígidas e intransigentes em uma guerra de guerrilhas de terror contra os brancos. Stephen Powers que escreveu sobre em 1884, descreve o Yahi na seguinte passagem:

“Se os Nozi são um povo peculiar, eles [os Yahi] são extraordinários; se o Nozi parece estrangeiro da Califórnia, estes são duplamente estrangeiros. Parece provável que esteja presenciando agora um espetáculo sem paralelo na história humana – o de uma raça bárbara em resistência à civilização com armas em suas mãos, até o último homem e a última mulher, e o último pappoose… [Eles] infligiram crueldade e torturas terríveis em seus cativos, como as raças Algonkin. Seja como for, as abominações das raças indígenas podem ter perpetrado a morte, a tortura em vida era essencialmente estranha na Califórnia.” (Heizer y Kroeber, 74)

O antropólogo californiano Alfred Kroeber, especula sobre as tendências bélicas dos Yahi:

“Sua reputação bélica pode ser, em parte, devida a resistência oferecida contra os brancos por um ou dois de seus bandos. Mas se a causa disso era, em realidade, uma energia superior e a coragem ou um desespero incomum ajudado pelo entorno, ainda pouco povoado, e o habitat facilmente defensável, é mais duvidoso. Eram temidos por seus vizinhos, como os maidu, eles preferiram estar famintos na montanha ao invés de se enfrentar. O habitante da colina tem menos a perder lutando que o habitante rico. Também está menos exposto e, em caso de necessidade, tem melhor e mais numerosos refúgios disponíveis. Em toda a Califórnia, os povos das planícies se inclinaram mais para a paz, embora fossem fortes em quantidade numerosa: a diferença é a situação que se reflete na cultura, não em qualidade inata.” (ibid, 161)

Jeremías Curtin, um linguista que estudou as tribos indígenas da Califórnia no final do século XIX, descreve a natureza “renegada” da tribo de Ishi:

“Certos índios viviam, ou melhor, estavam de tocaia, os Miil Creek rondavam em lugares selvagens ao leste da Tehama e ao norte de Chico. Estes índios Mill Creek eram fugitivos; estavam fora da lei de outras tribos, entre outros, dos Yanas. Para ferir a estes últimos, foram a um povoado Yana aproximadamente em meados de agosto de 1864, e mataram a duas mulheres brancas, a senhora Allen e a senhora Jones. Quatro crianças também foram dadas como mortas, mas depois se recuperaram. Depois dos assassinatos perpetrados pelos Mill Creek, eles voltaram a casa inadvertidamente, e com eles, levando vários artigos saqueados.” (Ibid, 72)

Um cronista detalhou outra atrocidade yahi na seguinte passagem:

“A matança das jovens Hickok foi em junho de 1862. Filhos do povo Hickok, duas meninas e um menino foram colher amoras em Rock Creek, cerca de três quartos de uma milha de sua casa, quando foram rodeados por vários índios. Primeiro dispararam contra a menina mais velha, ela tinha dezessete anos, atiraram e deixaram-na completamente nua. Em seguida, dispararam contra a outra jovem, mas ela correu a Rock Creek e caiu de cara na água. Não levaram sua roupa, pois ela ainda tinha seu vestido. Neste momento, Tom Allen entrou em cena. Ele transportava madeira de construção para um homem chamado Keefer. De imediato atacaram a Allen. Foi encontrado com o coro cabeludo arrancado e com a garganta cortada. Dezessete flechas haviam sido disparadas contra ele, e sete o atravessaram.” (Ibid, 60)

Mrs. A. Thankful Carson, esteve cativa pelos Mill Creeks ou índios Yahi, também descreveu outros exemplos de brutalidade Yahi:

“Um menino de uns doze anos de idade morreu da forma mais bárbara: cortaram-lhe os dedos, a língua, e se supõe que pensavam em enterrá-lo com vida, mas quando foram vê-lo já estava morto. Em outra ocasião, um homem chamado Hayes estava cuidando de suas ovelhas. Em algum momento durante o dia, ele foi a sua cabana e se viu rodeado por quinze índios. Eles o viram chegar: ele virou-se e correu, os índios começaram a disparar flechas sobre ele, foi de árvore em árvore. Por último, atiraram com uma arma de fogo que atravessou seu braço. Ele conseguiu escapar da captura por um estreito buraco”. (Ibid, 26)

Outro cronista local, H.H Sauber, descreve o raciocínio de caça dos Yahi ao extermínio:

“Uma vez assassinaram a três crianças em idade escolar a menos de dez milhas de Oroville, e a mais de quarenta milhas de Mill Creek. Pouco depois, mataram a um carreteiro e dois vaqueiros durante a tarde, e foram vistos à distância em carroças carregadas com carne bovina roubada através das colinas, antes que ninguém soubesse que eram eles por trás do ato. Outras vítimas, demasiadamente numerosas para mencioná-las, haviam caído em suas implacáveis mãos. Em suma, eles nunca roubaram sem assassinar, embora o delito pudesse ajudá-los no início, o fato só poderia exacerbar mais os brancos a se voltarem contra eles”. (Ibid, 20)

Alfred Kroeber fez eco sobre esse sentimento em 1911 com um ensaio sobre os Yahi, onde afirmou:

“O Yana do sul, os Mill Creeks, se reuniram com um destino muito mais romântico que seus parentes. Quando o americano veio à cena, tomaram possessão de suas terras para a agricultura ou pecuária, e à base da ponta do rifle propuseram a eles que se retirassem e não interferissem, como ocorreu antes de que houvesse passado dez anos após a primeira corrida do ouro, os Mill Creeks, como muitos de seus irmãos, resistiram. Não se retiraram, no entanto, após o primeiro desastroso conflito aprenderam a esmagadora superioridade das armas de fogo do homem branco e sua organização e humildemente desistiram e aceitaram o inevitável. Em troca, apenas endureceram seu espírito imortal na tenacidade e o amor à independência, e começaram uma série de represálias energéticas. Durante quase dez anos mantiveram uma guerra incessante, destrutiva e principalmente contra si próprios, mas, no entanto, sem precedentes em sua teimosia com os colonos dos municípios de Tehama e Butte. Apenas recuperados de um só golpe, os sobreviventes atacavam em outra direção, e em tais casos não poupavam nem idade nem sexo. As atrocidades cometidas contra as mulheres brancas e contra as crianças despertaram o ressentimento dos colonos em maior grau, e cada um dos excessos dos índios foi mais que correspondido, e, no entanto, embora o bando tivesse diminuído, mantiveram a luta desigual.” (Ibid, 82)

Theodora Kroeber tenta moderar estas contas com as suas próprias reflexões sobre a brutalidade e “criminalidade” dos Yahi:

“Os índios tomavam sua parte, os cavalos, mulas, bois, vacas, ovelhas, quando e onde pudessem, sem esquecer de que estes animais eram alimento e roupa para eles. Fizeram cobertores e capas destas peles, secaram os coros, e fizeram “charqui” ou “jerki” da carne que não era comida fresca. Em outras palavras, trataram os animais introduzidos pelos europeus da mesma forma que faziam com os cervos, ursos, alces, ou coelhos. Eles parecem não ter percebido que os animais foram domesticados, e o cachorro era o único animal que eles sabiam que estava domesticado. Roubaram e mataram para viver, não para acumular rebanhos ou riquezas, os índios realmente não entendiam que o que eles levavam era a propriedade privada de uma pessoa. Muitos anos mais tarde, quando Ishi havia passado da meia idade, se enrubescia de uma dolorosa vergonha cada vez que recordava tudo isso aos padrões morais dos brancos. Ele e seus irmãos Yahi haviam sido culpados de roubo.” (61)

Theodora Kroeber em seu trabalho não parece abordar profundamente o estilo brutal dos Yahi na guerra, sublinhando que o que ocorreu era apenas para enfrentar a invasão massiva dos brancos sobre suas terras.

Ishi

Apesar de ter “a vantagem do campo” e um foco excepcionalmente energético para atacar a seus inimigos, os Yahi foram caçados gradualmente e destruídos até que restassem apenas alguns. Em 1867 e 1868, no massacre da caverna Kingsley foram mortos 33 Yahi homens, mulheres e crianças, sendo este o último grande golpe dos brancos aos últimos Yana selvagens.

Como Theodora Kroeber afirma:

“Ishi era uma criança de três ou quatro anos de idade na época do massacre de Tres Lomas, idade suficiente para recordar as experiências carregadas de terror. Ele tinha oito ou nove anos quando houve o massacre da caverna Kingsley e, possivelmente, fez parte da limpeza da caverna e da eliminação ritualística dos corpo das vítimas. Entrou na clandestinidade, na qual cresceria sem ter mais de dez anos de idade”. (Ibid, 91)

Com a derrota militar aberta dos Yahi, os selvagens começaram um tempo de clandestinidade, que A.L. Kroeber classificaria como; “a menor e mais livre nação do mundo, que por uma força sem precedentes e a teimosia do caráter, conseguiram resistir à maré da civilização, vinte e cinco anos mais até mesmo do que o famoso bando Geronimo, o Apache, e durante quase trinta e cinco anos depois de que os Sioux e seus aliados derrotaram Custer”. (Heizer y Kroeber, 87)

Os restantes Yahi ocultos e perseguidos, se reuniram e roubaram tudo o que puderam em circunstâncias difíceis. Acendiam suas fogueiras de modo que não era possível ver desde longas distâncias, tinham seus assentamentos não longe dos lugares que os brancos normalmente viajavam e frequentavam. Logo, sua presença se converteu em um rumor e, em seguida, uma mera lenda. Ou seja, apenas alguns anos antes de Ishi adentrar à civilização, seu acampamento foi encontrado próximo a Deer Creek em 1908. Ishi e alguns índios restantes escaparam, mas ao longo de três anos, Ishi estava sozinho, havia tomado a decisão de caminhar em direção ao inimigo, onde estava seguro de que, sem dúvida, iriam matá-lo, assim como fizeram com o resto do seu povo.

Em 1911, no entanto, através da benevolência problemática dos vencedores, Ishi passou de um inimigo declarado a uma celebridade menor, se mudando então para San Francisco e tendo um fluxo constante de visitantes que iam ao museu onde viveu. As pessoas estavam fascinadas por este homem que era a última pessoa real da Idade da Pedra na América do Norte, alguém que podia fabricar e esculpir suas próprias ferramentas ou armas de pedras e paus. Ishi “fez as pazes” com a civilização, e até mesmo amigos. Desenvolveu suas próprias preferências de alimentos e outros bens, e manteve meticulosamente sua propriedade assim como tinha feito quando viveu quarenta anos na clandestinidade. Porém, em menos de cinco anos de ter chegado à civilização, Ishi, o último Yahi, sucumbiu a talvez uma das doenças mais civilizadas de todas: a tuberculose.

No entanto, houve alguns detalhes bastante interessantes que são fonte indicativa da atitude de Ishi frente a vida na civilização. Ishi se negou a viver em uma reserva, e escolheu viver entre os brancos, na cidade, distante dos índios corruptos que há muito tempo haviam se entregado aos vícios da civilização.

Como T. T. Waterman declarou em uma referência indireta a Ishi em um artigo de uma revista, ele escreveu:

“Sempre acreditamos nos relatos de várias tribos formadas por estes renegados Mill Creek. A partir do que aprendemos recentemente, parece pouco provável que houvesse mais de uma tribo em questão. Em primeiro lugar, o único membro deste grupo hostil que nunca foi questionado, [diga-se, Ishi], expressa o desgosto mais animado com todas as demais tribos. Parece, e sempre pareceu, mais disposto a fazer amizades com os próprios brancos que com os grupos vizinhos de índios. Em segundo lugar, todas as outras tribos indígenas da região professam o horror mais apaixonado para os Yahi. Este temor se estende até mesmo ao país hoje em dia. Mesmo os Yahi e os Nozi, embora falassem vários dialetos de uma mesma língua (o chamado Yana), expressavam a mais implacável hostilidade entre si. Em outras palavras, os índios que se escondiam ao redor das colinas de Mill Creek durante várias décadas depois da colonização do vale, eram provavelmente a remanescência de um grupo relativamente puro, já que havia poucas possibilidades de mescla.” (Heizer y Kroeber, 125)

[Cabe apontar aqui que Orin Starn rechaça a ideia da pureza étnica dos Yahi no período histórico, mas não mostra nenhuma razão por trás disso (106). Esta questão será tratada mais adiante.]

Em seu cativeiro voluntário na civilização, Ishi se destacou por sua sobriedade e equanimidade para com aqueles ao seu redor, dedicado às tarefas que lhe foram atribuídas no museu em que vivia, e também para mostrar a fabricação de artefatos que utilizava para a sobrevivência. Theodora Kroeber descreve a atitude geral de Ishi em relação ao seu entorno civilizado:

“Ishi não foi dado ao voluntariado, ele criticava as formas do homem branco, porém era observador e analítico e, quando pressionado, podia fazer um julgamento ou ao menos algo assim. Estava de acordo com as “comodidades” e a variedade do mundo do homem branco. Ishi e muito menos qualquer outra pessoa que tenha vivido uma vida de penúrias e privações subestimam uma melhora dos níveis de prioridade, ou o alcance de algumas comodidades e até mesmo alguns luxos. Em sua opinião, o homem branco é sortudo, inventivo, e muito, muito inteligente; porém infantil e carente de uma reserva desejável, e de uma verdadeira compreensão da natureza e sua face mística; de seu terrível e benigno poder.”

Perguntado como hoje em dia caracterizaria a Ishi, [Alfred] Kroeber disse:

“Era o homem mais paciente que conheci. Me refiro a que dominou a filosofia da paciência, sem deixar traço algum de autopiedade ou de amargura para adormecer a pureza de sua alegria. Seus amigos, todos testemunham a alegria como uma característica básica no temperamento de Ishi. Uma alegria que passou, dada a oportunidade, a uma suave hilaridade. O seu era o caminho da alegria, o Caminho do Meio, que deve perseguir em silêncio, trabalhando um pouco, brincando e rodeado de amigos.” (239)

Desde o ponto de vista eco-extremista ou anti-civilização, estes últimos anos de Ishi pareceram problemáticos, mesmo contra a narrativa desejada. Até mesmo Theodora Kroeber utiliza a magnanimidade aparente de Ishi como foi, “aceitar gentilmente a derrota” e, “os caminhos do homem branco”, “até ser um apoio das ideias do humanismo e do progresso” (140). No entanto, esta é uma simples questão de interpretação. Não se pode julgar uma pessoa que viveu quarenta anos na clandestinidade, e viu a todos seus seres queridos morrerem violentamente, pela idade, ou por doenças, e fazer um julgamento sobre tudo quando ele estava à beira da inanição e da morte. Apesar de tudo, Ishi agarrou-se à dignidade e a sobriedade que é, ironicamente, a essência do selvagismo como Ishi o via. Acima de tudo, no entanto, Ishi deu testemunho deste selvagismo, se comunicava, e rechaçava aqueles que o haviam dado as costas e abraçado os piores vícios de seus conquistadores. Como os editores da Revista Regresión declararam em sua resposta em relação com os chichimecas que haviam se “rendido” aos brancos no século XVI. O artigo, da revista “Ritual Magazine“:

“San Luis de la Paz no estado de Guanajuato é a última localização chichimeca registrada, especificamente na zona de Misión de Chichimecas, onde é possível encontrar os últimos descendentes: os Chichimecas Jonáz, que guardam a história contada de geração em geração sobre o conflito que pôs em xeque o vice-reinado naqueles anos.”

Um membro do RS (Reacción Salvaje) conseguiu estabelecer conversações com algumas pessoas deste povoado, dos quais evitaram seus nomes para prevenir possíveis ligações com o grupo extremista.

Nas conversações os nativos engrandecem a selvageria dos chichimecas-guachichiles, enaltecem orgulhosamente seu passado em guerra, eles mencionaram que, após o extermínio dos últimos selvagens, caçadores-coletores e nômades, os demais povos chichimecas que haviam se salvado da morte e da prisão decidiram ceder terreno e ver os espanhóis que seguiam sua religião, que compartilhavam seus novos mandatos e que se adaptariam à vida sedentária, tudo isso a fim de manter viva sua língua, suas tradições e suas crenças. Inteligentemente os anciões daquelas tribos juntamente com os curandeiros (madai coho), que haviam descido os montes para viver em paz depois de anos de guerra, decidiram adaptar-se, desde que suas histórias e seus costumes não fossem também exterminados, de modo que fossem deixados como herança às gerações futuras.”

Se não fosse por Ishi ter adentrado à civilização no lugar de escolher morrer no deserto, nunca conheceríamos sua história, ou a história do último bando livre de índios selvagens na América do Norte. Portanto, mesmo na derrota, a “rendição” de Ishi é realmente uma vitória para a Natureza Selvagem, uma vitória que pode inspirar aqueles que vem atrás dele para participar em lutas semelhantes de acordo com a nossa própria individualidade e habilidades.

Cabe apontar por meio de um posfácio que muitos historiadores “revisionistas” veem a história de Ishi de uma maneira muito mais complicada que a história inicial contada pelos antropólogos que o encontraram. Alguns estudiosos pensam que devido a sua aparência e a forma com que polia suas ferramentas de pedra, Ishi pode ter sido racialmente maidu ou ter metade do sangue maidu-yahi. Isso não seria surpreendente, pois os Yahi muitas vezes invadiam tribos vizinhas para levarem mulheres (Kroeber y Kroeber, 192). Os linguistas descobriram que os Yahi tinham muitas palavras adotadas do espanhol, postulando que alguns do bando de Ishi haviam deixado as colinas em um passado não muito distante e trabalharam para os pecuaristas espanhóis no vale, regressando às colinas somente quando chegaram os anglo-saxões hostis. Embora os estudiosos pensem que estejam descobrindo as matizes da história Yahi, na verdade muitas de suas ideias estavam nos informes originais, sem destacar.

Além disso, o próprio Starn, aliás, bastante revisionista, admite a possibilidade de que Ishi e seu bando permaneceram escondidos nas colinas devido a um conservadorismo notável em sua forma de vida e visão de mundo:

“Esse Ishi estava aqui tão detalhado e entusiasta [em recontar os contos Yana], Luthin e Hinton insistem, evidenciaram “seu claro respeito e amor” para as formas tradicionais Yahi, no entanto, a vida foi difícil para os últimos sobreviventes nos confins das inacessíveis colinas. Além do temor de ser enforcado ou fuzilado, a decisão tomada por Ishi e seu pequeno bando de não se render também pode ter mensurado apego a sua própria forma de vida: uma fumegante tigela de bolota cozida em uma manhã fria, as preciosas noites estreadas, e o ritmo tranquilizador das estações.” (116)

Lições da guerra Yahi

Serpenteei desde o início deste ensaio, mas o fiz de propósito. A intenção foi deixar que Ishi e os Yahi, a última tribo selvagem da América do Norte, falassem por si mesmos, ao invés de envolver-me em polêmicas simples onde slogans desleixados desviam a atenção real e profunda do tema. O que está claro é que os Yahi não fizeram a guerra como cristãos ou humanistas liberais. Eles assassinaram a homens, mulheres e crianças. Roubaram, atacaram secretamente, e fugiram para as sombras depois de seus ataques. Não eram muito queridos até mesmo por seus companheiros índios, aqueles que deveriam ter sido tão hostis à civilização como eram antes. Mesmo a perspectiva de uma derrota certa não os impediu que dessem início a uma escalada de ataques até que restassem apenas alguns deles. Uma vez alcançado esse ponto, literalmente resistiram até o último homem. Com isso, o eco-extremismo compartilha ou ao menos aspira a muitas destas mesmas qualidades.

Os Yahi foram um exemplo perfeito do que o eco-extremista procura, como observado no editorial da Revista Regresión número 4:

“Austeridade: as necessidades materiais são um problema para os membros desta decadente sociedade, embora alguns não as vislumbrem e se sintam felizes cobrindo-as com a vida de escravos que levam. A maioria das pessoas está sempre tentando pertencer a certos círculos sociais acomodados, sonham com luxos, com comodidades, etc., e para nós isso é uma aberração. A simplicidade, manejá-la com o que tenha em mãos, e afastar-se dos vícios civilizados recusando o desnecessário são características muito notórias dentro do individualista do tipo eco-extremista.”

Os Yahi, assim como muitas das tribos chichimecas que estavam no que hoje é o México, viveram em uma “inóspita” região montanhosa ao contrário de seus vizinhos mais acomodados e numerosos nas terras baixas; isso foi o que ocorreu, mesmo antes da chegada dos europeus. Estes vizinhos, em particular os Maidu, não se defenderam contra a civilização, já que sua vida relativamente acomodada fez com que resultasse mais favorável a aceitar a forma de vida civilizada. Ao contrário dos reinos mesoamericanos, os Maidu não conheciam a agricultura, mas estavam, no entanto, já “domesticados” a certo nível.

Foi a cultura dura e espartana dos Yahi que fortaleceu sua oposição aos europeus, até mesmo quando mostraram um poder superior, inclusive quando estava claro que se tratava de uma guerra de extermínio que provavelmente perderiam. Redobraram seus esforços e lutaram sua própria guerra de extermínio na medida do possível, sem diferenciar nem mulheres nem crianças. Através da astúcia, o engano, e tendo um conhecimento superior da paisagem, empreenderam uma campanha de terror contra os brancos, uma campanha que confundiu a todos os que estudaram as tribos indígenas da região. Até mesmo outros índios os temiam (também outras pessoas que dizem se opor à civilização excomungando os eco-extremistas), já que não dividiam o mundo em dicotomias ordenadas de índios contra brancos. Para eles, aqueles que não estavam do seu lado eram inimigos e foram tratados como tal.

A guerra dos Yahi foi indiscriminada e “suicida”, assim como a luta eco-extremista pretende ser. “Indiscriminada” no sentido de que não é regida por considerações humanistas ou cristãs. Não tinham considerações por quem poderia ter sido “inocente” ou “culpado”: foram atacados a todos os não-Yahi, a todos os que haviam se rendido às formas genocidas do homem branco. Os Yahi não pretendiam fazer amizade com outras tribos, mesmo quando Ishi chegou à civilização, se negava a se associar com os índios de sua região que se renderam tão facilmente à civilização branca. Para preservar sua dignidade, preferiu permanecer com o vencedor em vez de estar com os vencidos. A guerra Yahi era “suicida”, uma vez que não teve considerações com seu futuro: seu objetivo era viver livre no aqui e agora, e atacar aqueles que estavam os atacando, sem medir as consequências. Isto se deve a sua forma de vida que foi forjada às margens dos terrenos hostis, e grande parte de sua dignidade focou-se no ataque aos que eles consideravam flexíveis e não autênticos. Não havia futuro para os Yahi na civilização porque não havia espaço para um compromisso com a civilização.

Aqui vou especular (puramente baseado em minha opinião) a respeito de porque que alguém poderia adotar pontos de vista eco-extremistas em nosso contexto. Claro, há muito furor, talvez até mesmo raiva envolvida. Penso que ali seria necessário realizar tais ações. No entanto, o que faz o amor eco-extremista? Os seres humanos modernos estão tão distantes da Natureza Selvagem, tão insensíveis, adotando um modo de vida a qual dependem da civilização para todas suas necessidades, se queixam caso alguém resulte ferido devido a explosão de um envelope, no entanto, minimizam a importância ou até mesmo apoiam a destruição de uma floresta, um lago ou um rio para o benefício da humanidade civilizada. São tão insensíveis à sua natureza que pensam que a própria natureza é um produto de sua própria inteligência, que as árvores apenas caem nas florestas para que possam ouvi-las, e que a condição sine qua non da vida na Terra é a contínua existência de oito bilhões de famintos e gananciosos. Se alguém está cego pelo ódio, é o humanista, os esquerdistas e sua apologia da “lei e a ordem”, que faz de sua própria existência uma condição não negociável para a continuidade da vida na Terra. Se lhes for dada a escolha de optar entre a destruição do planeta e de sua própria abstração amada chamada “humanidade”, prefeririam destruir o mundo ao ver a humanidade falhar.

O que é ainda mais triste é que a maioria dos seres humanos civilizados nem sequer estão agradecidos pelos nobres sentimentos dos anarquistas e esquerdistas. Para eles são apenas punks que lançam umas bombas e que deveriam dar uma relaxada, ir a uma partida de futebol, e deixar de incomodar aos demais com sua política ou solidariedade. A esquerda/anarquista tem Síndrome de Estocolmo com as massas que nunca vão escutá-los, e muito menos ganhar sua simpatia. Eles querem ser vistos com bons olhos pela sociedade, embora a sociedade nunca dará qualquer atenção, e muito menos a eles. Se negam a ver a sociedade como inimiga, e é por isso que estão juntos a ela, sem entender o porque do sonho iluminista ter falhado, por isso todos os homens nunca serão irmãos, por isso a única coisa a qual os seres humanos civilizados são iguais é em sua cumplicidade na destruição da Natureza Selvagem. O objetivo deles é ser os melhores alunos da civilização, mas serão sempre os criminosos, os forasteiros, os anarquistas sujos que precisam conseguir um trabalho.

O eco-extremismo crescerá porque as pessoas sabem que este é o fim do jogo. Na verdade, desde os muçulmanos aos cristãos a todo tipo de outras ideologias, o apocalipse está no ar, e nada pode detê-lo. Isso é porque a civilização é a morte, e sempre foi. Sabe que o homem não pode ser dominado, que a única maneira de fazer isso é submetê-lo para transformá-lo em uma máquina, para mecanizar seus desejos e necessidades, para eliminar a partir do profundo de seu caos, que é a Natureza Selvagem. Neste sentido, o espírito de Ishi e os Yahi permanecerão e sempre estarão reaparecendo quando você menos esperar, como uma tendência e não como uma doutrina, como um grito que combate hoje sem medo do amanhã. O eco-extremismo não terá fim, porque é o ataque selvagem, o “desastre natural”, o desejo de deixar que o incêndio arda, dançando em torno dele. O anarquista recua e o esquerdista se espanta, porque sabem que não podem derrotá-lo. Continuará, e consumirá tudo. Serão queimadas as utopias e os sonhos do futuro civilizado, restando apenas a natureza em seu lugar. Para o eco-extremista, este é um momento de alegria e não de terror.

– Chahta-Ima
Nanih Waiya, primavera de 2016
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Bibliografia:

“The Physical and Demographic Reaction of the NonmissionIndians in Colonial and Provincial California” in Cook, Sherburne F. The Conflict Between the California Indian and White Civilization. Berkeley: University of California Press, 1976.
Heizer, Robert and Kroeber, Theodora (Editors). Ishithe Last Yahi: A Documentary History. Berkeley: University of California Press, 1979.
Kroeber, Karl and Kroeber, Clifton (Editors). Ishiin Three Centuries. Lincoln: University of Nebraska Press, 2003.
Kroeber, Theodora. Ishiin Two Worlds. Berkeley: University of California Press, 1976.
Potts, Marie. The Northern Maidu. Happy Camp, CA: NaturegraphPublishers Inc. 1977.
Starn, Orin. Ishi’sBrain: In Search of America’s Last “Wild” Indian. New York: W.W. Norton & Company, 2004.

RUMO À SELVAGERIA: Desenvolvimentos Recentes no pensamento Eco-Extremista no México

Tradução do ensaio Toward Sevagery – recent developments in eco-extremist thought in México, escrito por Abe Cabrera e publicado no espaço virtual da Ritual Magazine, uma revista de política e cultura e uma plataforma crítica para examinar a vida sob o capitalismo contemporâneo.

Introdução

“Isso foi chamado de Guerra Chichimeca e começou perto do momento da morte de Hernan Cortes (1547), simbolicamente fechando a “primeira” conquista do México. A nova guerra, travada na vasta área selvagem que se estende para o norte das terras da vitória de Cortes, ensanguentou quatro décadas, 1550-1590, a mais longa guerra indígena na história norte-americana. Foi a primeira competição plena e constante entre civilização e selvageria do continente.”


Philip Wayne Powell, Soldiers, Indians, & Silver: North America’s First Frontier War, vii

Em 2011, um grupo que se autodenomina “Individualidades Tendendo ao Selvagem” (Individualidades Tendiendo A Lo Salvaje – ITS) iniciou uma série de ataques eco-terroristas no México. Estes ataques variavam de cartas-bombas enviadas para diversas instituições de pesquisa em todo o país até o assassinato de um pesquisador em biotecnologia em Cuernavaca, Morelos. Para cada tentativa de atentado à bomba ou ação, o ITS publicava comunicados explicando os motivos por trás dos ataques, e usavam os ataques como “propaganda pelo ato” para propagar suas idéias. Em 2014, após uma série de polêmicas e auto-críticas, suas forças supostamente se juntaram com outros grupos aliados no México e mudaram seu nome para “Reação Selvagem” (Reacción Salvaje – RS). Este último grupo caracteriza-se como um grupo de “sabotadores niilistas, nômades incendiários, delinquentes individualistas, anarco-terroristas e críticos política e moralmente incorretos” [1], entre outros. Desde sua re-nomeação, o RS assumiu a responsabilidade pelo bombardeio de um Teleton, bem como pela recente agitação durante manifestações contra o governo na Cidade do México.

Não há nenhuma maneira de saber o número ou o tamanho de ITS/RS, as suas origens para o observador externo parecem obscuras e suas influências parecem indefinidas. Em seus comunicados há muitas citações de Theodore Kaczynski (conhecido como “Unabomber” ou “Clube da Liberdade” [Freedom Club]), bem como referências passageiras a Max Stirner e vários pensadores anarco-primitivistas. Seu método de ação e preferência por comunicados também sugerem óbvia influência de Kaczynski. Ao longo de seus escritos, no entanto, os indivíduos do ITS/RS insistem que não representam ninguém além de si mesmos, ética e ideologicamente. Conforme expresso no primeiro comunicado do ITS:

“Se tivéssemos de dar nomes para a guerra contra a civilização como aqueles que defendem a “revolução”, os “revolucionários” ou “pseudo-revolucionários”, estaríamos caindo no mesmo erro que os marxistas quando excluem as pessoas enquanto “contra-revolucionárias”. Além disso, nós estaríamos caindo no mesmo dogmatismo religioso de regimes de esquerda; onde Deus é a natureza selvagem; o Messias é Ted Kaczynski; a Bíblia é o Manifesto Unabomber, os Apóstolos são Zerzan, Feral Faun, Jesus Sepulveda, entre outros; o Paraíso muito aguardado é o colapso da civilização; o iluminado ou pregadores são os “revolucionários”, mantidos pela fé cega de que um dia a “Revolução” virá. Os discípulos serão aqueles que são “potencialmente revolucionários”, as cruzadas ou as missões serão a de levar a palavra aos círculos envolvidos nas lutas ambientalistas ou anarquistas (onde eles podem encontrar “potenciais revolucionários”); e os ateus ou seitas seriam aqueles de nós que não acreditam em seus dogmas, nem aceitamos as suas ideias como coerentes com a realidade presente. [2]

O objetivo deste artigo é analisar a trajetória ideológica do ITS/RS e tentar vinculá-lo a correntes intelectuais e históricas mais amplas. Nesta análise, tenho a intenção de mapear o desenvolvimento deste grupo a nível ideológico, mostrando mudança e continuidade dentro de suas idéias como reflexo da ação militante. Acredito que a história do ITS/RS é mais uma fuga ideológica de tendências anarquistas de esquerda, que inclui retórica tomada do anarquismo insurrecionalista e de lutas pela libertação animal, até de uma crítica aprofundada à ideologia anti-tecnologia de Theodore Kaczynski. Esta fuga incluí uma polêmica intensa em oposição à idéia de Kaczynski de revolução contra o “sistema tecno-industrial”. Em vez disso, o ITS/RS tem favorecido uma crítica egoísta individualista à ação das massas fundamentada por uma visão de suas próprias investigações antropológicas acerca da vida de caçadores-coletores no contexto mexicano. Vou argumentar que eles chegaram a uma abordagem “pós-política” para suas ações terroristas extremas, buscando uma reversão para uma selvageria indígena encontrada na longa história da civilização e resistência do México. Finalmente, vou avaliar as atuais tendências ideológicas do RS contra o registro histórico e pesquisa antropológica. Na minha opinião, o desenvolvimento ideológico do ITS/RS possui uma abordagem inovadora para o pensamento anti-civilização, embora esteja anexado ao romantismo vestigial e retórica exagerada que muitas vezes ofusca sua mensagem.

Para fora do Esquerdismo, Para dentro do Selvagem

O sétimo comunicado do ITS, publicado em 22 de Fevereiro de 2012, estabelece o seguinte:

“Seguindo temas de caráter anarquista, publicamente aceitamos que cometemos o erro em comunicados anteriores (especificamente o primeiro, segundo e quarto) quando nos referimos a assuntos que não conheço pessoalmente à respeito, mas aos quais naquela época nos considerávamos potenciais aliados. Durante esse tempo, o ITS foi muito influenciado pelas correntes de libertação (dos animais e da terra) e por insurrecionalistas, que foram no início uma parte integrante do nosso desenvolvimento ideológico, mas agora nós deixamos isso para trás, e como se pode ler acima, temos nos transformado em algo diferente.”

Uma das organizações mexicanas que popularizou os materiais do ITS/RS é a Ediciones Aborigen. Esta organização tem publicado vários comunicados do ITS/RS, bem como materiais de pesquisa produzidos muitas vezes em colaboração com o ITS/RS.[3] Em uma edição da revista Ediciones Aborigen [4], Palabras Nocivas, Ediciones Aborigen descreve sua própria história; digno de nota é o fato de que esse esforço de publicação saiu da dissolução de uma revista anterior, Rabia y Acción. Esta é uma revista insurrecionalista extinta que já havia coberto lutas de animais e de Libertação da Terra durante todo México e em outros lugares. A décima edição da revista, publicada em 2012, anunciou a sua dissolução, afirmando que os autores agora se opõem a sua antiga orientação voltada a ações pelos direitos dos animais e da terra. Eles vieram a considerar estas ações como “reducionistas”, “uma fuga psicológica” e “sentimentalista”. [5] Os autores também expressaram apoio à contenda de Kaczynski que afirma que a luta contra o “sistema tecno-industrial” é a única que importa . Eles também republicaram um ensaio em meados de 2003, intitulado “Stirner, o Único, o Egoísta e o Selvagem”, onde o autor afirma o seguinte: “O homem de verdade, e não o civilizado, o selvagem, foi sacrificado para o engrandecimento da glória da dominação pela pira civilizatório, juntamente com o resto dos animais selvagens e do próprio planeta”.

Muitos dos temas abordados pelos autores do Rabia y Acción ecoam os do ITS/RS, incluindo a crítica ao esquerdismo, lutas coletivistas e domesticação no coração da civilização. Os primeiros comunicados do ITS também expressam um horizonte expandido de ação de ativismo pela libertação animal e da terra. Seus ataques a nanotecnologia e cientistas trabalhando em diversos empreendimentos tecnológicos foram uma tentativa de atingir um alvo mais amplo do que campanhas contra fazendas industriais e vivissecação de animais que tinham sido os projetos anteriores de grupos eco-anarquistas no México. Considerando que os ataques até então tinham se focado no sofrimento concreto e exploração de determinados animais e extensões de terra, o ITS se focou no “sistema tecno-industrial” como um todo, conforme definido por Kaczynski durante sua suposta campanha contra a infra-estrutura científica durante todo o intervalo entre 1980 e meados de 1990.

A trajetória ideológica do ITS/RS e, portanto, de seus aliados, parece ser uma de purificação sem fim, talvez até mesmo paranóica, da mensagem acerca do ataque à tecnologia e à civilização. Neste processo de auto-crítica, o ITS/RS se desfizeram das suas ligações com o esquerdismo, o anarquismo e o coletivismo objetivando chegar cada vez mais a uma mensagem “mais pura” da guerra absoluta contra a civilização técnico-industrial, bem como a auto-conversão à “selvageria” na medida em que eles são capazes. Como se afirma em seu primeiro comunicado:

Vamos ver a verdade. Vamos plantar nossos pés na terra e parar de voar iludidos dentro da mente esquerdista. A revolução nunca existiu e, portanto, nem há revolucionários. Aqueles que se visualizam como “potencialmente revolucionários”, e que procuram por “mudança radical anti-tecnológica” estão sendo verdadeiramente irracionais e idealistas, porque tudo isso não existe. Tudo o que existe neste mundo moribundo é a autonomia do indivíduo e é para isso que nos esforçamos. E mesmo que tudo isso seja inútil e permaneça estéril em seus resultados, nós preferimos nos levantar em uma guerra contra a dominação do que nos manter inertes, meros observadores, passivos, ou parte de tudo isso. [6]

A crítica do ITS acabaria por afastar qualquer aparência de discurso esquerdista, incluindo a sua identidade anterior de “ecologista radical”. Posteriormente, ele também renunciaram a categorias ideológicas tais como “humanismo”, “igualdade”, “pluralidade”, e assim por diante [7]. No processo, o ITS/RS desenvolveu uma crítica pungente à revolução, ao esquerdismo e até mesmo à própria sociedade, em favor do objetivo singular da desestabilização do sistema tecnológico moderno. A conclusão definitiva do ITS/RS foi posta logo no início: a verdadeira solidariedade e comunidade humana não pode ser alcançada sob a civilização tecno-industrial, e, portanto, todas as idéias e valores que vem atreladas à ela são obsoletas e perniciosas. A ação coletiva é, portanto, fora de questão; somente a resistência de indivíduos que confrontam este sistema é adequada para aqueles que estão voltando à selvageria. A este respeito, nenhum curso de ação ou tática está fora de questão.

O Filho Bastardo de Ted Kackzynski [8]

Em janeiro de 2012, o ITS publicou o seu sexto comunicado que foi uma auto-crítica de várias tendências apresentadas anteriormente em comunicados anteriores. O comunicado começa por criticar o anterior uso ortográfico de colocar um “x” em vez de um “o” ou “a” em certos substantivos pessoais para preservar a neutralidade de gênero. [9] O ITS também clarificou a sua posição em relação ao “esquerdismo”, indicando que deixaria de enviar mensagens de solidariedade à prisioneiros anarquistas como vinha fazendo em comunicados anteriores, e que não iria nem mesmo se referir aos seus atos como parte de um “movimento” ou “revolução” para derrubar ou alterar o “sistema Techno-industrial.” O ITS resumiu a sua crítica ao esquerdismo afirmando:

“Com relação à nossa posição, o que isso tem a ver com a nossa guerra contra o esquerdismo? Temos reavaliado o que dissemos no passado, e concluímos que o esquerdismo é um fator que não merece nada mais do que mera rejeição, crítica e ruptura por parte de todos aqueles que lutam contra o sistema industrial Tecnológico.” [9]

A crítica ao esquerdismo é tomado em grande parte de Theodore Kaczynski. No parágrafo 214 de seu famoso “Sociedade Industrial e o seu Futuro”, Kaczynski afirma:

“Para evitar isso, um movimento que exalta a natureza e se opõe à tecnologia deve assumir uma posição resolutamente anti-esquerdista e deve evitar toda a colaboração com os esquerdistas. O esquerdismo é a longo prazo incompatível com a natureza selvagem, com a liberdade humana e com a eliminação da tecnologia moderna. O esquerdismo é coletivista; que busca unir o mundo inteiro (tanto a natureza quanto a raça humana) em um todo unificado. Mas isto implica gestão da natureza e da vida humana por parte da sociedade organizada, e isso exige tecnologia avançada. Você não pode ter um mundo unido sem transporte veloz e comunicação, você não pode fazer todas as pessoas amarem umas as outras sem técnicas psicológicas sofisticadas, você não pode ter uma “sociedade planejada” sem a base tecnológica necessária. Acima de tudo, o esquerdismo é impulsionado pela necessidade de poder, e o esquerdista procura sua energia numa base coletiva, através da identificação com um movimento de massas ou uma organização. O esquerdismo provavelmente nunca desistirá da tecnologia, porque a tecnologia é uma fonte muito valiosa de poder coletivo.” [11]

No sétimo comunicado, o ITS desenvolve uma crítica à afinidade entre anarquismo e sociedades primitivas. Por exemplo, o ITS defende na discriminação deste comunicado, a autoridade e a hierarquia familiar no contexto da vida de caçadores-coletores. Este também parece ser um reflexo da própria crítica de Kaczynski em seu ensaio, “A verdade sobre a vida primitiva: uma crítica ao anarco-primitivismo”:

“O mito do progresso pode ainda não estar morto, mas ele está morrendo. Em seu lugar um outro mito está crescendo, um mito que tem sido promovido principalmente pelos anarco-primitivistas, embora seja difundido em outros grupos também. De acordo com este mito, antes do advento da civilização ninguém nunca teve de trabalhar, as pessoas simplesmente arrancavam a comida das árvores e colocavam na boca e passavam o resto de seu tempo brincando de joguinhos com as crianças. Homens e mulheres eram iguais, não havia nenhuma doença, nem concorrência, nem racismo, sexismo ou homofobia, as pessoas viviam em harmonia com os animais e tudo era amor, partilha e cooperação.

É certo que o precede é uma caricatura da visão dos anarco-primitivistas. A maioria deles – espero – não estão tão longe do contato com a realidade como fiz parecer. Eles, no entanto, estão bastante longe da realidade, e é tempo de alguém desmascarar seu mito.” [12]

Estas posições, assim como as citações freqüentes de escritos e ações de Kaczynski, indicam claramente uma influência do legado “Unabomber” sobre o grupo mexicano. No entanto, o que eles herdam de suas leituras de Max Stirner e outros teóricos radicais aponta em uma direção bem longe da “revolução” contra a sociedade tecno-industrial de que Kaczynski falou. Na verdade, esta posição foi prevalecente no ITS desde os primeiros comunicados, mesmo que fosse muitas vezes revestida de açúcar ou apenas vagamente reconhecida, como na seguinte passagem do segundo comunicado:

“Recordamos que Kaczynski está em uma prisão de segurança máxima, isolado do mundo que o rodeia, desde 1996; certamente, se ele deixasse a prisão agora, iria perceber que tudo está pior (muito pior) do que estava da última vez que pode o ver no século passado, ele iria perceber o quanto a ciência e a tecnologia têm avançado e quanto elas têm devastado e pervertido. Ele iria perceber que agora as pessoas estão mais alienadas com o uso da tecnologia e que elas têm até mesmo colocado-a em um altar como a sua divindade, seu sustento, a sua própria vida. Como tal, o conceito de “revolução” é completamente antiquado, estéril e fora de contexto com as idéias anti-civilização que se gostaria de expressar. Uma palavra que em si tem sido usado por diferentes grupos e indivíduos na história a fim de chegar ao poder, a fim de mais uma vez dominar e ser o centro do universo. Uma palavra que tem servido como o ansiado sonho de todos os esquerdistas que têm fé de que um dia ela virá para libertá-los de suas cadeias.” [13]

Depois que o ITS se tornou o RS em 2014, começou uma polêmica bastante acentuado contra o Ediciones Isumatag (EI), um site de língua espanhola pró-Kaczynski. Em um comunicado intitulado “Algumas respostas sobre o presente e não sobre o futuro” várias facções do RS deram sua resposta às críticas do EI contra o RS por sua falha em endossar um movimento anti-tecnológico que poderia levar a uma derrubada revolucionária do sistema industrial tecnológico . Na sua resposta, o RS afirma que uma tal revolução teria de ser sustentada por um longo período de tempo em âmbito internacional, um evento que nunca aconteceu anteriormente na história. Na verdade, de acordo com o RS, a única revolução que teve um efeito transformador global foi a Revolução Industrial. [14] Aguardar uma revolução em um futuro indefinido é uma esperança “sem nada de concreto, totalmente no ar”. A “revolução” é, em uma palavra, impossível, e talvez nem mesmo desejável. O RS escolhe assim viver e lutar no presente contra a sua domesticação e subjugação:

“Quando o ITS (em seu momento), ou as facções do RS, declaram que não esperam nada dos ataques que realizamos, estamos nos referindo ao que é estritamente associado com o “revolucionário” ou “o que é transcendental na luta”. Nós não esperamos por uma “revolução”, nem por uma “crise mundial”, nem pelas “condições ideais.” A única coisa que esperamos é que depois de um ataque, nós possamos sair intactos com a nossa vitória individualista, com as mãos cheias de experiências para os próximos passos que serão ainda mais constantes, destrutivos e ameaçadores.” [15]

Assim, o RS classifica a revolução anti-tecnológica de Kaczynski tanto como delirante quanto um impedimento à ação extremista no aqui e agora. O único caminho aceitável de ação para o ITS/RS é um em que apenas o presente importa, um que golpeia a máquina tecnológica com pouca preocupação com efeitos ou consequências de longo prazo. O ITS/RS abdicou assim a sua obrigação para com o futuro em nome de atos individualistas de violência que são uma feroz desconstrução de sua própria domesticação. É claramente observável que o ITS/RS nunca acreditou que qualquer outra coisa fosse possível ou construtiva. O que vou tentar mostrar no restante deste ensaio é como eles chegaram a essas conclusões, e como o seu próprio estudo do passado os levou a rejeitar o futuro em nome de um presente selvagem.

Axcan kema, tehuatl, nehuatl! (Até sua Morte, ou a minha!)

A transição do Individualidades Tendiendo a lo Salvaje à sua nova identidade de Reacción Salvaje em 2014 foi marcada por um enfoque decisivo na história no contexto mexicano. O pensamento anti-civilização no México aborda a longa história de resistência à civilização que já acontecia mesmo antes da chegada dos europeus. Em particular, tribos de caçadores-coletores do norte do México central eram uma ameaça constante para as prósperas civilizações que os europeus encontraram após a sua chegada. Embora esta região do mundo tenha domesticado algumas culturas como o milho, que serviu como a espinha dorsal da agricultura sedentária em todo o continente, a dominância da forma civilizada de vida não alcançava algumas das regiões vizinhas dos impérios da Mesoamérica pré-conquista. Mesmo após a conquista espanhola em 1521, estas tribos do norte, chamado de “Gran Chichimeca” (Grande Chichimeca), travaram uma guerra feroz com o crescente império espanhol. Esta guerra duraria quase quarenta anos. O RS retira substancial inspiração ideológica deste evento histórico, como declarou em uma polêmica recente:

“Ediciones Isumatag escreve em seu texto que o confronto direto constitui, mais cedo ou mais tarde, suicídio, e eles estão certos. Mas decidimos que, para nós mesmos, sabemos que talvez teremos que compartilhar o mesmo destino de prisão ou morte dos selvagens guerreiros Chichimecas Tanamaztli e Maxorro, o mesmo que aconteceu com indomável Chiricahua Mangas Coloradas e Cosiche. Isso nós sabemos bem, nós escolhemos nos engajar em uma luta até a morte com o sistema antes de conformar-nos e aceitar a condição de seres humanos hiper-domesticados que eles querem nos impor. Lembramo-nos de que cada indivíduo é diferente. Para alguns, é bastante reconfortante se enganarem pensando que um dia uma grande crise vai chegar e só então eles vão trabalhar ativamente para o colapso hipotético do sistema. Mas para nós, esse não é o caso. Nós não somos idealistas, vemos as coisas como elas são, e elas nos impelem à confrontação direta, assumindo sobre nós mesmos as últimas conseqüências.” [16]

Outro trabalho que o RS e seus aliados têm realizado é imprimir publicações como o Regresión e o Palabras Nocivas que publicam tanto propaganda do RS quanto matérias informativas sobre a história indígena de luta contra a civilização. Por exemplo, em outubro de 2014, um número do Regresión foi lançado com informações sobre a resistência Chichimeca à colonização espanhola e à Guerra de Mixtón do século 16. [17] A Guerra de Mixtón foi uma revolta, em 1541, dos povos recentemente conquistados contra a dominação espanhola no centro do México. Esses povos indígenas tinham sido agricultores sedentários que “reverteram” para um estilo de vida caçador-coletor nas colinas e montanhas da região central do México para combater os espanhóis. No decorrer do ano, as forças indígenas conquistaram vitórias bastante impressionantes, mas em 1542 eles foram decisivamente derrotados por uma coalizão de espanhóis e seus aliados indígenas. Como o autor do artigo Regresión escreve:

“Cinvestav alterou e modificado geneticamente um grande número de plantas antigas e exóticas. Uma dessas plantas é a chilague, uma de nossas raízes ancestrais. Muitos selvagens foram salvos da morte através do uso desta raiz, e assim eles foram capazes de continuar sua guerra contra a civilização. Pode-se afirmar com firmeza que a Guerra Mixtón (1540-1541), a Guerra Chichimeca (1550-1600) e a Rebelião de Guamares (1563-1568) foram todas autênticas guerras contra a civilização, tecnologia e progresso. Os Chichimecas selvagens não querem um novo ou melhor governo. Eles não desejavam nem defendiam as cidades ou centros das civilizações mesoamericanas derrotadas. Eles não buscavam a vitória. Eles só desejavam atacar aqueles que os atacaram e os ameaçaram. Eles buscavam confronto, e de lá vem a grito de guerra: “Axkan kema, tehualt, nehuatl”. (Até a sua morte, ou a minha)” [18]

O Chichimeca é o “selvagem” arquetípico no pensamento atual do RS, mais do que qualquer outro grupo de caçadores-coletores. Os nômades caçadores-coletores que se encontravam aonorte da civilização mesoamericana foram inimigos ferozes das cidades agrícolas sedentárias da região central do México antes da chegada dos espanhóis. A afinidade recém-descoberta do RS com a história do Gran Chichimeca é a melhor indicação de uma mudança ideológica dentro de suas fileiras. Não só é necessário rejeitar o esquerdismo e a “revolução” contra o sistema tecno-industrial, mas em sua mentalidade, é preciso voltar a “selvageria”, e adotar o ethos dos antigos “selvagens” que lutaram contra a civilização. O RS pretende, assim, ir da crítica ao abandono imediato da mentalidade civilizada, em direção a uma atitude que eles reconhecem como “selvagem” e mais em sintonia com a natureza, que é a única considerada boa.

A tendência intelectual do RS no sentido de uma nova barbárie parece ser um resultado de um envolvimento com fontes acadêmicas disponíveis. Enquanto estas fontes tendem a documentar o Gran Chichimeca como um lugar inóspito e violento, sem dúvida essas calúnias só inspiraram ainda mais o RS na adoção de uma identidade “feroz”. A dureza da vida de caçadores-coletores em uma região árida ainda equivale a liberdade em seus olhos. Um artigo de investigação independente citado no blog El Tlatol é intitulado, “Repensando o Norte: O Grande Chichimeca – Um Diálogo com Andres Fabregas.” [19] Uma passagem deste trabalho cita o imperador asteca pré-colombiano, Montezuma Ilhuicamina, que afirmou o seguinte, relativo à re-escrita da história asteca:

“Temos que reconstruir nossa história, porque ainda somos como os Chichimecas do Vale do México, e isso não pode acontecer. Assim, devemos apagar essa história Chichimeca de nosso passado e construir outra: a história de como nós somos o povo civilizador do México, e como nós somos os construtores da grande Tenochtitlan.”

Fabregas nesta entrevista também resume as atitudes dos astecas e outros índios civilizados como a seguir:

“E, efetivamente, os mexicas renunciaram ao passado, afastaram-se de seu passado, que era um passado Chichimeca, inventaram o termo: mais do que o termo, eles inventaram o conceito, o que torna as pessoas do norte, ao norte do centro do mundo – já que o México é o centro do mundo – povos incivilizados. E eles usaram um argumento que agora parece lunático para nós, mas naquele momento foi crucial. O argumento era: os Chichimecas não sabiam como fazer tamales, para não mencionar como comê-los. Nós achamos isto estranho, mas o fato é que fazer tamales exigia toda uma transformação da natureza. Um conhecimento impressionante da natureza. Era como um resumo da história cultural. Com isto queriam dizer que os Chichimecas não são capazes de criar cultura.” [20]

Outros mexicas prenunciaram preconceitos europeus contra a vida “primitiva” de caçadores-coletores, descrevendo a terra dos Chichimecas aos primeiros cronistas espanhóis sob uma luz muito negativa: “É uma terra de penúria, de dor, de sofrimento, fadiga, pobreza e tormento, é um lugar de aridez pedregosa, de fracasso, um lugar de lamentação; é um lugar de morte, de sede, um lugar de desnutrição. É um lugar de muita fome e muita morte”. [21]

A rejeição à moralidade recebeu das RS até parece, em certa medida, inspirada pelo que eles consideram ser as atitudes dos Chichimecas em relação à sociedade cristã ocidental. Por exemplo, em um comunicado assumindo a responsabilidade por um ataque recente sobre o Teleton Nacional em Novembro de 2014, o “Nocturnal Hunter Faction” do RS declarou: “Sem o recurso a mais explicações, não somos cristãos, e nobreza é algo que não pode ser atribuído a nós! Nós somos selvagens! Nós não desejamos defender ou caridade dos outros e para os outros!” [22] A aparente imoralidade e ardor de luta é uma característica comumente conhecida dos Chichimecas em sua guerra contra os espanhóis e seus aliados indígenas cristianizados. O estudioso norte-americano, Philip Wayne Powell, em seu livro seminal sobre a Guerra Chichimeca, “Soldados, Índios e Prata”, afirma o seguinte sobre o tratamento dos Chichimecas à seus inimigos capturados em batalha:

“A tortura e mutilação de inimigos capturados pelos Chichimecas tomou muitas formas. Às vezes, o peito da vítima era aberto e o coração era removido enquanto ainda estava pulsando, na forma do sacrifício asteca; esta prática era característica das tribos mais próximas dos povos sedentários do sul. O escalpelamento foi amplamente praticado no Gran Chichimeca e, com freqüência, enquanto a vítima ainda vivia… Os guerreiros também cortavam os órgãos genitais e enfiava-os na boca da vítima. Eles empalavam seus cativos, “como os turcos faziam.” Eles removiam várias partes do corpo, perna e braço, ossos e costelas, um por um, até que os prisioneiros morressem; os ossos eram, por vezes, levados como troféus. Algumas vítimas eles jogavam do alto de penhascos; alguns eles enforcavam. Eles também abriam as costas e arrancavam os tendões, que eles usavam para amarrar pontas de seta em flechas. As crianças pequenas, que ainda não caminhavam, eram agarradas pelos pés e as cabeças eram batidas contra rochas até que seus cérebros esguichassem para fora.” [23]

Apesar de sua barbárie, e talvez por causa dela, os Chichimecas foram praticamente invictos militarmente pelos espanhóis e seus aliados indígenas subjugados. Eles eram guerreiros ferozes com “vantagem de jogar em casa” em terreno hostil, e a guerra da Espanha contra eles se arrastou por décadas no final do século XVI. Para o Reacción Salvaje, eles são oponentes arquetípicos contra a civilização no contexto mexicano. Num comunicado recente, alguns membros admitem ter para a região onde estas batalhas ocorreram para interrogar os moradores locais para obter mais detalhes e confirmar o que leram nos livros de história “civilizados”. [24]

Os membros do RS, juntamente com o jornal Regresión e o Ediciones Aborigen, resumiu o que a Chichimeca significava para sua versão de ideologia eco-extremista em sua compilação antropológica, “O Lugar das Sete Cavernas”:

“Nós entendemos Chicomoztok [O Lugar das Sete Cavernas] como aquele lugar isolado da civilização, o local de convergência de várias tribos nômades selvagens, que representa a vida selvagem e plena que nossos ancestrais viviam antes de serem convencidos a adotar a vida sedentária. É uma visão do passado que tende para a regressão e uma lembrança daquilo que temos vindo a perder pouco a pouco. Ele simboliza para nós a clivagem ao nosso passado primitivo e, assim, a defesa extrema da natureza selvagem; o fogo inicial que incita conflito individual e em grupo contra o que representa artificialidade e progresso.” [25]

Os Chichimecas são o símbolo da intransigência do RS ao ponto de morte contra uma força que está destruindo a natureza através da tecnologia e vida civilizada. Note-se também que o símbolo do RS, com a sua representação de um indígena vestido em pele de coiote acendendo um fogo, é tomada a partir de um códice que representa um guerreiro Chichimeca em Chicomoztok. Mesmo a própria idéia de tempo é concebida como sendo “muito civilizada” para o RS e seus aliados e, portanto, o objetivo é concebido em termos os quais apenas um “selvagem” adequado poderia compreendê-los:

“Nós não acreditamos na possibilidade de “revoluções anti-industriais”, nem nos movimentos futuristas que podem trazer (de acordo com aqueles pensadores) a queda deste sistema artificial. Na natureza selvagem, não existe “possivelmente”, nem “talvez”. Não há pontos intermediários, nem neutros. Só existe o concreto: é ou não é. A sobrevivência sempre foi assim, e obedecemos essas leis naturais. O presente é tudo o que há, aqui e agora. Tentar ver o futuro, ou trabalhar para realizar algo no futuro, é um desperdício de tempo. Esse tem sido o verdadeiro erro dos revolucionários.” [26]

Conclusão: o Orgão do Capitão Vancouver, Ou: como o Norte venceu?

Tendo percorrido a trajetória ideológica do ITS/RS, neste momento eu sinto a necessidade de fazer uma avaliação da recente “selvageria” do RS. O aspecto que mais precisa ser interrogado é “anti-hagiografia” que o RS faz dos Chichimecas. Embora seja claro que a guerra terminou com a dominação espanhola, não fica claro, pela narrativa ideológica do RS, como ela terminou. Era realmente um “lutar até a morte”? Foram todos os Chichimecas abatidos? E se não, por que eles finalmente se renderam? Ou, isso poderia mesmo ser chamado de “rendição”?

O que o RS e seus aliados parecem não se importar de falar é que, pelo menos de acordo com o livro inovador de Philip Wayne Powell sobre o assunto, o fim da Guerra Chichimeca foi relativamente pacífica e anti-clímax. Enquanto alguns guerreiros, de fato, “lutaram até a morte”, a grande maioria não o fez. Eles eram militarmente parelhos ou mesmo superiores aos seus adversários espanhóis, mesmo com a ajuda de indígenas “sedentários” aliados. Enquanto muitos Chichimecas foram levados cativos durante a fase da guerra que Powell denomina, “la guerra a fuego y a sangre” (a guerra à fogo e sangue, ou menos figurativamente, a guerra total), o impasse que se seguiu obrigou os espanhóis a adotar outra abordagem para acabar com as hostilidades. Em vez de utilizar um método de pacificação que incentivava a escravização dos índios como forma de pagamento aos soldados mercenários, a Coroa decidiu pegar os fundos para a guerra e usá-los para pagar a lealdade de vários líderes Chichimecas. Em tantas palavras, os espanhóis compraram os Chichimecas:

“A diplomacia de paz tornou-se um pouco menos difícil durante a última década do século [XVI], como as tribos Chichimecas perceberam que poderiam obter vantagens a partir dos tratados de paz e que eles não seriam prejudicados pelos espanhóis. Vez após vez, os próprios índios iniciaram negociações de paz, mostrando vontade real de abandonar a sua vida nômade e se estabelecer nas terras de nível.” [27]

Avançando apenas mais de dois séculos pode-se ver este processo replicado mais ao norte, desta vez na Califórnia colonial tardia. Enquanto este último exemplo se deu com ainda maior tragédia e violência devido a uma mortandade em massa de doença e violência dos colonos, no geral, a subjugação dos índios da Califórnia frente o sistema de missão foi um caso quase voluntário. Como comenta Randall Milliken em seu livro, A Time of Little Choice: The Disintegration of Tribal Culture in the San Francisco Bay Area 1769-1810:

“Os moradores da área da baía foram tentados por produtos materiais e tiveram suas práticas tradicionais denegridas pelos agentes da complexidade tecnológica e organizacional ocidental. As taxas de mortalidade elevadas e a ameaça contínua de violência militar esmagadora contra qualquer grupo que tentasse barrar os proselitistas missioneiros aumentou a pressão. É de se admirar que os povos tribais tenham chegado a duvidar do valor de sua cultura nativa, e começado a aceitar uma definição de si mesmos como ignorantes, não qualificados, e merecedores de uma vida de subordinação na nova estrutura social baseada em castas?” [28 ]

Em alguns casos, não foi necessário muito contato para convencer as tribos indígenas para subjugarem-se ao jugo cristão espanhol. Nos anais da missão de San Juan Bautista, na Califórnia, é contada uma história de um órgão que pertenceu ao capitão britânico George Vancouver:

“Em uma ocasião, esse órgão foi designado para salvar a missão da destruição nas mãos dos bélicos índios Tulare, que atacaram San Juan Bautista, assassinando neófitos e fugindo conduzindo os cavalos. Índios cristãos recuperaram os cavalos, e os Tulares, gritando gritos de guerra, apareceram novamente. Padre de la Cuesta arrastou o órgão apressadamente para fora e começou a acionar a manivela furiosamente. O clangor da música primeiramente deixou os agressores intrigados, e depois os encantou, então pacificamente se renderam à missão que eles tinham a intenção de destruir.” [29]

Dessa forma, o RS cometeu um erro raro, mas ainda assim grave, de considerar certos povos como “selvagens ignóbeis” completamente imunes ao comportamento e consideração “civilizados”. Este, claramente, não foi o caso do registro histórico. Enquanto os Chichimecas empreenderam duras batalhas na fronteira para defender seu modo de vida, uma vez que se tornou claro que o espanhol iria lhes dar presentes e não escravizá-los, em sua maior parte, eles se estabeleceram de bom grado ao lado de seus antigos inimigos indígenas sedentários e fizeram as pazes com a ordem colonial. Em última análise, os chichimecas e outros índios na fronteira não travaram uma guerra de morte contra a civilização. Com efeito, não se pode projetar um discurso anti-civilização da parte deles, porque eles não sabiam o que isso significava. Os povos indígenas não foram nem homogêneos nem aliados uns dos outros de alguma forma coesa. Eles não estavam unidos como uma força contra algo que viríamos chamar de “civilização”. Quando foi dada uma forma de se comprometer, pelo menos na questão da guerra Chichimeca e na Califórnia colonial, os nativos aceitaram o fim de seu modo de vida sem muita resistência.

O ato do ITS/RS de olhar para a sua própria história local buscando fundamentar sua luta em guerras anteriores contra a civilização travadas em solo mexicano é altamente admirável e renovador no contexto de conceitos de esquerda muitas vezes abstratos. No entanto, a sua atitude a respeito da necessidade de um “retorno à selvageria”, uma espécie de purificação da poluição da modernidade e da esquerda, é um enquadramento intelectual mal concebido. A única razão pela qual nós sabemos que a civilização é o mal é porque temos passado por isso e temos vindo a temer o atual Prometeica vontade de poder sobre a natureza. “Purificação” é, portanto, muito mais difícil do que o ITS/RS as vezes deixa transparecer.

No entanto, ainda que os nossos antepassados tenham falhado na luta contra o Leviatã civilizado, eu e outros acreditamos que essa luta deve continuar. A retórica semi-suicida do ITS/RS à respeito do enfrentamento contra a civilização tecno-industrial pode parecer exagerada às vezes, mas, dada a cooptação de todas as lutas anteriores e o verdadeiro beco sem saída que é o esquerdismo, é difícil argumentar contra a adequação de tal militância. Um animal selvagem pode fugir, mas quando encurralado, ele não senta e obedece; ele ataca; mesmo que as probabilidades estejam contra ele, mesmo que a morte seja certa. Um animal selvagem só pode ser morto pela civilização porque não serve a nenhum uso para ela. Aqueles animais que obedecem e encontram uma maneira de se acomodar à seus mestres são a história de sucesso da domesticação. Os animais que se escondem na auto-preservação são o que a civilização precisa. Esquemas e revoluções para “um futuro melhor” podem muito bem ser a armadilha na qual sempre caímos. Esta é a armadilha que leva à domesticação e conformidade, que é uma morte em vida que conduz rapidamente à morte real maciça em uma escala global.

Assim, pode-se criticar as táticas das ITS/RS, a sua falta de empatia para com as vítimas que se tornam “danos colaterais” em seus ataques, sua prosa histriônica, seu romantismo sádico, e assim por diante. Mas quando tudo tiver sido dito e feito, a lápide da Terra dirá que ela morreu por culpa de um modo de vida que procurou trazer paz e prosperidade à custa da escravidão de todas as coisas para os seus fins. Esse tipo de violência generalizada e despretensiosa faz ações como as do ITS/RS parecerem insignificantes, por comparação. Talvez, nesse sentido, nós também devemos evocar a “selvageria”, aquela vida interior ainda não conquistada, que proclama uma firme não-servidão a um sistema que oferece paz ao preço de nossa morte lenta. Talvez seja por isso que está escrito: “E desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam pela força” (Mateus 11:12).

Notas:

[1] First communiqué of Wild Reaction, 113, found at: https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/11/la-naturaleza-es-el-bien-la-civilizacic3b3n-es-el-mal.pdf. The title of the book containing the communiqués is: La Naturaleza es El Bien, La Civilización es el Mal: Comunicados de Individualidades tendiendo a lo salvaje. Edicions Matar o Morir: Mexico, 2014. All translations are the author’s unless otherwise noted.

[2] Second ITS communiqué, 20.

[3] See for example this link: https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/12/el-lugar-de-las-siete-cuevas.pdf

[4] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/palabras-nocivas-5.pdf

[5] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/rabia-y-accion-10.pdf

[6] First ITS communiqué, 11.

[7] First communiqué of Wild Reaction, August 2014.

[8] The title is taken from this link: https://eltlatol.wordpress.com/2015/01/12/eco-extremismo/

[9] In Spanish, as in most Romance languages, plural personal nouns where a mixed group of people of both genders are present are made masculine by default, no matter what the makeup of the group. Some radical groups of feminist sensitivities try to get around this by placing a gender neutral “x” instead of an “a” or “o” at the end of plural personal nouns to avoid this grammatical rule, e.g. “compañeros” (comrades) becomes “compañerxs”.

[10] Sixth ITS communiqué, 74.

[11] Technological Slavery, 106.

[12] Technological Slavery, 129.

[13] Second communiqué, 18.

[14] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/24/algunas-respuestas-sobre-el-presente-y-no-del-futuro-2/

[15] Ibid.

[16] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/24/algunas-respuestas-sobre-el-presente-y-no-del-futuro-2/

[17] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/10/regresion2.pdf

[18] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/regresic3b3n-1.pdf

[19] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/10/la-gran-chichimeca.pdf

[20] Ibid.

[21] Braniff, 7.

[22] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/18/artefacto-explosivo-detonado-en-fundacion-teleton-mexico/

[23] Powell, 51.

[24] https://eltlatol.wordpress.com/2015/02/27/ya-se-habian-tardado-reaccion-salvaje-en-respuesta-a-destruye-las-prisiones/

[25] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/12/el-lugar-de-las-siete-cuevas.pdf

[26] https://eltlatol.wordpress.com/2014/09/22/algunos-comentarios-criticos-al-articulo-de-john-zerzan-en-vice/

[27] Powell, 207.

[28] Milliken, 226-27.

[29] http://www.sandiegohistory.org/journal/63january/organ.htm

Bibliografia

Braniff, Beatriz, ed. La Gran Chichimeca: El lugar de las rocas secas. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 2001.

Individualidades Tendiendo a lo Salvaje (ITS). La Naturaleza es El Bien, La Civilización es el Mal: Comunicados de Individualidades tendiendo a lo salvaje. México: Ediciones Matar o Morir, 2014.

Kaczynski, Theodore. Technological Slavery: The Collected Writings of Theodore J. Kaczynski, a.k.a. “The Unabomber.” Port Townsend, WA: Feral House, 2010.

Milliken, Randall, A Time of Little Choice. Menlo Park, CA: Ballena Press, 1995.

Powell, Philip Wayne. Soldiers, Indians, & Silver: North America’s First Frontier War. Tempe: Center for Latin American Studies, 1975.

[ES – PDF] “Nem Insensatos, Nem Dementes” – ¿Qué es el Eco-extremismo?: análisis de “Individualistas Tendiendo a lo Salvaje”

¿Qué es el Eco-extremismo?: análisis de “Individualistas Tendiendo a lo Salvaje é uma assertiva investigação desenvolvida por Bio-Bio Chile após o ataque realizado por um grupo chileno de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) contra Óscar Landerretche no início de 2017, época em que dirigia a empresa estatal de mineração.

Abaixo está a tradução da introdução do artigo.

O que é o Eco-extremismo?

Análise de Individualistas Tendendo ao Selvagem

(…) O que temos exposto -exceto as notas de rodapé e referências da imprensa-, foi tirado diretamente das publicações de ITS. Embora seja um breve resumo, permite realizar a seguinte análise ideológica, e sua correspondente correlação política e factual: O Eco-extremismo que defende ITS, é, em essência, uma nova expressão do Niilismo como fundamento filosófico e do Eco-pessimismo como doutrina base. É um Neo-niilismo. (…)

Entao, como vimos, não se trata de “Anarquistas”: estão muito além da mera abolição do “Princípio”… seu objetivo é “Nada Humano”. E além, parafraseando a Emile Cioran, “se tivessem o poder, destruiriam ao homem e limpariam da Terra as suas pegadas”: são narrativas densas e complexas, com fundamentos consistentes, e até mesmo terrivelmente coerentes em sua absoluta busca do Nada.

Não “carecem de um programa político”, pelo contrário, seu programa é a ação direta, sistemática, sem tréguas nem descanso contra seus alvos, “renunciando até mesmo a pensar no amanhã”. Sua política é agora, sempre, e sua –nas palavras do Subsecretário Aleuy–, “estranha denominação”, reflete exatamente sua ideologia: são, precisamente, “Individualistas Tedendo ao Selvagem”.

São extremamente formais em suas convicções, a ponto de nunca renunciar a sua própria anti-natureza humana, chegando até a postular o suicídio como saída formal final. Em suas concepções, não há nem vítimas nem vitimizadores, nem culpados nem inocentes, nem civilizados nem incivilizados, mas “não-civilizados”.

Portanto, “Indivíduos Tendendo ao Selvagem” não são, como os qualificou o Subsecretário Aleuy, “bárbaros”, conceito que os gregos cunharam para denominar os persas, referindo ironicamente a sua fala: “bar-bar”, um término que posteriormente foi utilizado por alguns antropólogos para denominar como “barbárie” um estado de evolução cultural das sociedades humanas, intermediário entre selvagismo e a civilização.…

Como ITS afirmou em seu comunicado: “Somos uma Horda de selvagens eco-extremistas, niilistas e egoístas, estamos pelo caos total na civilização e pela proliferação da delinquência”.

E, por último, eles NÃO “tem mais aversão à pessoas que eram da Concertação que as mesmas pessoas de direita”: para eles dá exatamente no mesmo se assassinam a alguém de direita, de esquerda, de cima, de baixo, negro, branco, chinês, judeu, palestino, heterossexual, homossexual, homem ou mulher, criança ou idoso, deficiente ou campeão olímpico, pobre ou rico, idiota ou inteligente. Para eles, qualquer Humano civilizado merece estar morto.

Como pontou o presidente da Suprema Corte, Hugo Dolmestch:

“Espera-se que as autoridades competentes façam o máximo esforço para esclarecer este crime, que pode dar início a uma escalada…”, sustentando que o atentado “é de uma gravidade tremenda, que pode mudar a história delitual e política no Chile”.

É provável que a você tudo isso possa soar como uma completa loucura, própria de “insensatos ou dementes”…. Mas eles não são.

Se trata de jovens, de adultos jovens, completamente lúcidos, sensatos e cabais. Não estão nem loucos nem doentes. Não são nem estúpidos nem ignorantes. Pelo contrário. Todos os seus textos e, em particular, seus trabalhos historiográficos, antropológicos e ideológicos, revelam muita formação intelectual e pensamento complexo… mesmo quando se expressam com erros ortográficos óbvios.

E o mais importante: se definem como terroristas –não quanto ao uso do “terror por si mesmo”, mas seu uso como “propaganda pelo ato”–, eles mesmo se consideram extremamente perigosos, e advertem que não vão parar, não vão se arrepender e que nunca, nunca se renderão.

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Un Análisis a Individualist… by on Scribd

[ES – DOCUMENTÁRIO] La Evolución del Eco-extremismo en México

Presentación:

“La evolución del Eco-extremismo en México” es un esfuerzo audio-visual realizado por “Espíritu Tanu de la Tierra Maldita” y la “Revista Regresión”, en este, se refleja el desarrollo tanto teórico como práctico que han tenido ciertos grupos que han puesto en su mira el progreso de la civilización, la ciencia y la tecnología.

Desde el año 2007 hasta ahora (2016), se ha desatado toda una serie de ataques, los cuales, se han venido perfeccionando tras el pasar del tiempo.

Al principio esos ataques fueron a golpear la industria de la explotación animal, después pasaron a atacar la industria de la destrucción de los ecosistemas; previamente los ataques se fueron afinando, implementando atentados contra personas en específico relacionadas con las ciencias avanzadas, después de este lapso, los grupos que participaron en estas tres etapas se unieron en un grupo denominado “Reacción Salvaje”, para así después de su disolución, estos grupos ya afinados en sus críticas y mejorados en práctica, siguieran la guerra por separado, como hasta ahora se ha mantenido.

Los individualistas que formamos parte de la tendencia del Eco-extremismo, nos unen varias cualidades, las cuales mencionamos en seguida, con esto no estamos diciendo que las personas que pasan a los actos extremos contra el sistema tecnológico TIENEN QUE ser así, pero es necesario tenerlos en cuenta.

El Eco-extremismo lo han formado sus propios propulsores, lo consolidan bajo la espontaneidad, en la solidificación del ataque y en la variabilidad de los objetivos, abarcando varios factores como los siguientes:

-Defensa extrema de la Naturaleza Salvaje y guerra a muerte contra la Civilización:

“(…) viendo la realidad vislumbramos que la mayoría de las críticas que se hacen a la tecnología tienen un trasfondo reformista, dicen “la tecnología nos está llevando a la no-interacción personal, mejor hay que limitarla”, “la vida en sedentarismo en esta civilización causa problemas de salud, mejor hay que ejercitarnos más seguido”, “lo artificial nos consume, no soporto la vida en la ciudad, vamos a un día de campo”, “la basura inunda los mares, hay que comprar productos amigables con el medio ambiente”, “la tecnología no es el problema, el problema es el uso que se le da”, etc. Estas supuestas críticas son las que son negociables, y hasta son propuestas para que el sistema siga creciendo, reformándose y fortaleciéndose.

Pero qué tal si decimos; “la tecnología es el problema, incendiemos tal o cual empresa de innovación tecnológica con todos dentro”, “la civilización se expande peligrosamente arrasando con la naturaleza que queda, asesinemos al ingeniero de tal mega proyecto”, “la sociedad estúpida solo sigue las reglas haciendo que la maquina siga avanzando, son parte del problema, detonemos un explosivo en un lugar público con un cargo simbólico importante”, etc. Ese tipo de críticas extremistas son las que no son negociables y las que defendemos (…)” – Entrevista a Reacción Salvaje.

-Apego y respeto a la Naturaleza Salvaje:

Existe una relación muy íntima entre la naturaleza y nuestra especie de carácter simbiótico, esa relación la hemos perdido un poco tras el pasar de las generaciones, pero es posible volver a reconectarnos, volver a recuperar nuestra naturaleza salvaje (aunque no en su totalidad, claro).

Apreciamos en gran manera la naturaleza, de ella provenimos y a ella regresaremos, defenderla y defender nuestras raíces más profundas, las que nos unen a ella, es solo una consecuencia de ser aun humanos y no humanoides. Las habilidades de supervivencia, el reconocimiento de flora y fauna silvestre, la caza, la recolección, la imaginación que da cabida a una vida lo más alejada de la civilización que se pueda, son herramientas que complementan al individualista y a su grupo de afines.

“Para muchos de nosotros es muy viable tener un huerto orgánico desde donde poder tomar la comida en tiempos de escases o la medicina en tiempos de enfermedad. No caemos en contradicciones, lo importante es desarrollar estilos de vida que se alejen lo más que se pueda de la dependencia artificial del sistema.

Aunque algunos miembros de RS están más atraídos por la vida de recolectores y cazadores, no desestiman la opción de los huertos.”Entrevista a Reacción Salvaje.

-Rechazo total al cristianismo, y enaltecimiento de creencias individuales paganas apegadas a la naturaleza, tanto en lo cotidiano como en los actos extremistas.

“Seguimos estando de lado de la naturaleza salvaje, seguimos venerando al sol, a la luna, al viento, a los ríos, al coyote y al venado, seguimos rechazando el cristianismo con ritualismos en la oscuridad de los espesos bosques, seguimos siendo las guardianas del fuego, seguimos danzando alrededor de la hoguera, aunque seres civilizados seguimos teniendo el instinto característico del ataque.”Articulo La Guerra Chichimeca (segunda parte). Revista Regresión N° 4

“(…) saltamos las alambradas de púas que protegían el canal de aguas negras y detrás de un gran árbol de Pirúl que sigue de pie, realizamos varias detonaciones de arma de fuego en contra de las maquinarias, estructuras y paredes de dicha construcción. Los disparos directos dañaron y aterrorizaron a los que se encontraban en el lugar, con el tronido de las balas detonando iban los sonidos de los animales muertos para la construcción de la obra, iba el violento zumbido del viento que mueve las hojas de los árboles derribados y el imperceptible cantar del agua del rio ennegrecido por lo artificial, también, iban los gritos de guerra de nuestros antepasados: ¡Axcan Kema Tehuatl Nehuatl!” – Acción armada contra Túnel Emisor Oriente (TEO). Grupúsculo de Lo Oculto de Reacción Salvaje.

-Terrorismo:

“Porque en el ataque terrorista no hay consideraciones para nadie, ni siquiera para nosotros mismos, nos adentramos en la nada porque lo único seguro es la incertidumbre.
Sin importar herir a civiles, golpeamos así, con este acto, la quijada de la “moral del ataque”, porque en la Guerra contra la Civilización y su Progreso no existen ataques ni “buenos” ni “malos”, porque esta Guerra si no es extremista e indiscriminada, no lo es.” – Muerte a la “moral del ataque” (Explosivo en Sanborns). Ouroboros Nihilista.

-Determinación: El arrojo es una de las cosas que caracteriza a los grupúsculos. Actuar fríamente y sin contemplación alguna con extraños durante un atentado, sabotaje o atraco, es menester.

Si hay dudas o no se está del todo seguro en defenderte (en matar o morir), de aquella persona que intenta detenerte (ya sea un civil o un policía), mejor ni lo intentes. En otras palabras, se indiscriminado.

“(…) nuestra intención era que explotara causando la mayor destrucción posible sin importar que con ello murieran o se mutilaran personas. Queremos dejar en claro también que, en nuestro accionar en contra de la civilización no consideraremos la vida de los borregos que ciegamente aceptan el desarrollo y el progreso para llevar una vida más cómoda, por ello es que decidimos atacar este medio de transporte y aunque no causó las magnitudes que se esperaban creó una gran tensión entre usuarios y autoridades.” – Ataque explosivo frustrado en el Metro. Grupúsculo Indiscriminado.

-Austeridad: Las necesidades artificiales son un problema para los miembros de esta decadente sociedad, aunque algunos no las vislumbren y se sientan felices cubriéndolas con su vida de esclavos que llevan. La mayoría de la gente está siempre intentando pertenecer a ciertos círculos sociales acomodados, sueñan con lujos, con comodidades, etc., y para nosotros eso es una aberración. La sencillez, arreglártelas con lo que tengas a la mano, y apartarse de los vicios civilizados rehusando de lo innecesario son características muy notorias dentro del individualista del tipo eco-extremista.

-Apego y práctica de actividades delincuenciales:

“En Regresión remarcamos como parte de nuestra esencia, el extremismo individualista, que es la consecuente postura frente a la civilización moderna difusora de los valores humanistas que tienden al progreso, y que nos están llevando al despeñadero tecnológico.

Las dinámicas sociales a las que estamos sometidos dentro de este complejo sistema, muchas veces nos absorben como individuos, nos hacen participes de la masa, del devastador consumismo y de la rutinaria vida de esclavos en las urdes, pero nosotros hemos decidido resistir esos embates, resistir desde la clandestinidad y aceptar en lo cotidiano nuestras contradicciones de las cuales nos retroalimentamos y nos formamos como verdaderos individuos, sujetos únicos.

Resistir y negar la vida impuesta desde pequeños y formarnos una vida sencilla y lo más alejadamente posible de aquellos lineamientos y esquemas culturales modernos, es una de las finalidades que se concreta desde el presente. Pero para formarnos esa vida que queremos, alejada de las grandes ciudades y adentrada en la profundidad de la naturaleza, conlleva en algunas ocasiones requerir dinero, dinero que preferiríamos robarlo de cualquier lugar u obtenerlo por medio de las cientos de formas delincuenciales que existen, antes que esclavizarnos a la vida de subordinados que la mayoría de personas lleva. Así de claro, es por eso que el grupo editorial de esta revista, siente simpatía por la reapropiación del dinero para fines concretos que lleven a tener una vida digna de vivir, sin importar a quien se dispare cuando el dinero no es entregado, porque cuando un empleado no entrega el dinero del patrón, este no merece la pena que siga viviendo, defiende como un perro obediente las migajas del amo, así que merece una puñalada o una bala en su cuerpo, igualmente, cuando el empresario, dueño o ejecutivo del negocio no cumple las exigencias del ladrón, también se merece lo mismo o algo peor.

No hay misericordia tampoco en estos actos, es todo o nada, es del extremismo del que hablamos sin tapujos, si es que ese dinero hará falta para algún fin del extremista individualista, este lo debe tomar pase lo que pase. Aquí cabria mencionar que para nosotros el dinero no lo es todo, esto lo decimos de una forma realista, en este mundo regido por grandes corporaciones económicas, en algunas ocasiones es necesario obtener dinero para cubrir ciertos fines y/o medios, para nosotros obtenerlo trabajando no es una opción, obtenerlo por fraude, asaltando o estafando sí.

Aquellos antepasados que vieron afectados sus modos de vida por la expansión de las civilizaciones tanto mesoamericanas como occidentales, tuvieron que actuar también en su momento de esta forma (depredación, rapiña, engaño, robo y/o asesinato), nosotros solo cumplimos nuestro rol histórico como herederos de esa fiereza salvaje.
¡Por la proliferación de la delincuencia y el terrorismo que sacie los instintos de los individualistas!” – Texto editorial. Regresión N° 3

-Sobriedad: Mantenerse sobrios y rechazar en todo las drogas legales e ilegales es importantísimo dentro de esta tendencia, siempre hay que estar alertas ante cualquier eventualidad. Caerse de borracho, fumar cigarros o mariguana, inyectarse drogas, inhalar solventes, intentarse “curar” con medicina alopática, es decir, invadir tu cuerpo con esas nocivas sustancias solo lo hacen los necios, que no se respetan ni a sí mismos, los carentes de control, los débiles e inconsecuentes. Así que las rechazamos totalmente.

“Los integrantes de RS no se dejarían morir por aquella “enfermedad” que su propio cuerpo no pueda resistir, y a decir verdad, creemos que nadie en su sano juicio. Y claro que podríamos hacer de lado los antibióticos farmacéuticos, todos los integrantes de RS se curan con los remedios de la tierra y rechazan totalmente la medicina alopática, para aquellos que han adoptado la cultura de la medicina moderna y nociva se les hace imposible vivir sin aspirinas, ranitidinas, paracetamol, etc., pero realmente no son necesarios los antibióticos con aditivos químicos, existen antibióticos naturales muy efectivos como el propóleo. Para quien conoce de hierbas curativas no es ningún problema aliviarse o curarse de las enfermedades de las ciudades con infusiones, cataplasmas, vaporizaciones, extractos, etc.” – Comunicado: Ya se habían tardado… Respuesta de RS a “Destruye las Prisiones”.

-Paciencia: Esta es una de las virtudes más respetables, la desesperación es una enfermedad de la civilización, en esta, vemos que todo corre a una velocidad frenética, todos andan de un lado para otro sin control alguno y dejando que sus rutinas los envuelvan en eso, en la desesperación. Tener paciencia y ser cuidadoso tanto en los actos en contra del sistema como en la vida misma, te alejan de los problemas que muchos han padecido (cárcel, accidentes, muerte, etc.), repetimos, te alejan, mas no te dejan exento.

-Rechazo total (tanto en ideas como en actos) al progresismo:

“Decidimos atentar contra esta institución pues simboliza humanismo y progresismo, repudiamos a todos aquellos que, chillando, llegan a parar a este tipo de comisiones para exigir garantías a sus “derechos” humanos, “respeto” a sus decisiones grupales y “cese” a la represión, es absurdo que esta gentuza espere a que este tipo de raquíticas organizaciones resuelva sus problemas, los ampare y los defienda, ejemplo claro de cómo es que el ser humano moderno ha dejado en manos de extraños su propia seguridad, en vez de tomar justicia por su propia mano y defenderse como lo hacía antes. Este tipo de instituciones son una banalidad, “la pus”, solo una simple fachada para disimular la incapacidad que tiene el sistema para manejar los problemas internos de una sociedad decadente, por eso la atacamos.” – Paquetes-incendiarios contra Comisión de Derechos Humanos, subestación eléctrica CFE y Universidad Lucerna. Grupúsculo Trueno del Mixtón, Grupúsculo Señor del Fuego Verde de Reacción Salvaje.

-Constancia: Darle seguimiento a un proyecto como este no ha sido fácil, siempre hay problemas que uno no espera que se presenten, y que aunque no los esperas siempre hay que estar preparados.

Las motivaciones reales llevan a ser constante a un individualista eco-extremista, trabajar duro y darle continuidad a la finalidad inmediata puede llevarte a conseguir metas directas. Nosotros en Regresión, la meta que tenemos en publicar esta revista es darle el seguimiento que se merece a esta tendencia, si algo cambia en alguien y ese alguien decide emprender desde su individualidad la guerra heredada por nuestros ancestros, adelante, aunque esa no es nuestra finalidad (cambiar a las personas) si eso pasa, solo sería obra de la causalidad.

-Rechazo a las luchas selectivas: Es necesario centrarse en la guerra TOTAL contra el sistema tecnológico y contra la civilización, las demás luchas son reduccionistas y solo son una pequeña parte del problema real, luchas como los “derechos humanos” (discapacitados, negros, mujeres golpeadas, inmigrantes, homosexuales, etc.), “derechos animales”, “derechos laborales”, “anti-racismo”, “anti-fascismo”, “anti-militarismo”, “feminismo”, “veganismo”, “abolicionismo carcelario”, “anarquismo social”, “comunismo”, “patriotismo”, etc.

“(…) si ponemos en un cuarto a un hombre común, un negro, una mujer, un discapacitado, un gay y un defensor de los derechos de los animales, podrás ver tu que todos son distintos en cuanto a carácter, pensamientos, reglas morales, aptitudes, etc., pero algo los une, todos y cada uno de ellos tiene un papel que desempeñar en la sociedad, y ese papel es que la estabilidad del sistema siga en pie. Para nosotros hay diferencia pero a la vez no, pues vemos una regla general, y es que, el HUMANO (como tal), contribuye expresamente a la destrucción de la naturaleza salvaje, su civilización arrasa todo a su paso, su tecnología lo vuelve todo cada vez más mecánico y su ciencia subyuga lo natural y lo vuelve artificial. No nos centramos en los problemas de la gente, o en las problemáticas de un sector en específico.

Pienso que las personas que ven, se preocupan y “luchan” por las causas menores, como eso de la obtención de “derechos”, nuevas leyes, reformas, apoyo a grupos vulnerables, etc., se están especializando en esas problemáticas, y no nosotros, nos hemos centrado en el sistema tecnológico y en la civilización pues son las raíces de todos los males que nos aquejan como especie, lo demás es solo un efecto del verdadero problema.” – Entrevista a RS.

-Repudio total (tanto en ideas como en actos) al progresismo:

“Seguro muchos se preguntarán: ¿Y qué tiene de malo que existan este tipo de caridades con la gente desprotegida? Quizás, los preguntones no se han dado cuenta de que el sistema siempre se viste de “monja bienintencionada” para seguir perpetuándose. La tecnología compleja siempre tendrá el mismo fin en cualquiera de sus formas, ya sea terapéutica o armamentista, educacional o de destrucción masiva, medicinal o ponzoñosa. Y ese fin es el continuar existiendo por sobre la naturaleza salvaje, por eso nuestro ataque.

Sin más explicaciones: ¡No somos cristianos, ni nos caracteriza la nobleza, somos salvajes, no buscamos ni defendemos la caridad de nadie ni con nadie!” – Ataque explosivo a la sede de la Fundación Teletón México. Grupúsculo Cazador Nocturno de RS.

-Asumir la responsabilidad, tomar en tus manos las consecuencias de tus actos y asumirlas como tuyas hayan causado el impacto que hayan causado, enfrentándose muchas veces a contradicciones, la más común es cuando los necios cuestionan: ¿si luchas contra el sistema tecnológico porque usas computadoras? Abajo rescatamos una nota aclaratoria-sarcástica desde un grupo eco-extremista sobre esta cuestión:

“Vivimos en las cavernas, sin electricidad, sin celulares, sin INTERNET; y sin comunicación más allá de las señales de humo. Siendo testigos pasivamente, de cómo la artificialidad corroe cualquier rastro de naturaleza silvestre, la manipula, la modifica, y con un tono jugoso y brillante, la presenta ante una total disposición, aguardando sosegadamente la aceptación de la población humana, sin ningún aspaviento y contratiempo alguno. Apacibles ante cualquier cambio biológico espurio, entregando el rumbo de nuestras vidas a funestos extraños. Esto sería una menor incoherencia, ¿Cierto?

Menor que publicar reivindicaciones, atentados y amenazas por internet, que tanto les preocupa y critica la comunidad televidente, cibernauta, lectora, etc… Porque claro está, la crítica al progreso científico-tecnológico moderno impide usarlo en su contra, ¡Eso sería trampa, pillines!

Nos tienen sin cuidado sus críticas a nuestra supuesta “incoherencia”, no solo sin cuidado, si no que sirven para mofarnos de la mediocre obediencia y complicidad, al defender y proteger el auge científico-tecnológico, expendiendo más que solo sus vidas… Dejando solo una estela de lo que alguna vez fue naturaleza salvaje.”Atentados contra la Alianza Pró-Transgénicos. Circulo Eco-extremista de Terrorismo y Sabotaje.

-Rechazo a la “Revolución” como concepto y estrategia: La realidad muchas veces nos presenta un escenario muy derrotista, muy pesimista, aun así, asumir ese realismo y aceptarlo tal y como es, (aunque cause un conflicto mental) es necesario para tirar por la borda esa venda de los ojos que nos ha cegado desde hace tiempo, esa venda llamada utopía. Muchos han criticado a Individualidades tendiendo a lo salvaje, a Reacción Salvaje y a otros grupos que han desechado la idea de un “mejor” mañana, que declaran que no esperan nada positivo de toda esta guerra, y que desprecian la esperanza. La gente siempre va a querer oír lo que les conviene, y no la Realidad. El individualista eco-extremista es realista y pesimista a la vez, no escucha la alegre cantaleta de los pueriles optimistas, porque para él, el presente que vive está lleno de realidades sombrías, las cuales hay que enfrentarlas con fortaleza, defendiéndose de ellas con uñas y dientes.

“La lucha contra el Sistema Tecnoindustrial, no es un juego del cual debemos ganar o perder, vencer o ser vencidos, eso es lo que muchos no han comprendido aun y parece ser que muchos todavía están esperando a ser “recompensados” en el futuro por hacerla hoy de “revolucionarios”. Se debe aceptar que muchas cosas en la vida no son recompensadas, que muchas tareas y/o finalidades ni siquiera son alcanzadas (incluida la Autonomía) y la destrucción del tecnosistema por obra de los “revolucionarios” es una de ellas. Ahora no es tiempo de esperar el inminente colapso, para los que se quieran tomar el tiempo como si el progreso tecnológico no creciera a pasos agigantados y devorara nuestra esfera de Libertad individual poco a poco. Somos la generación que ha visto crecer ante sus ojos el progreso tecnológico, la especialización de nanobiotecnología en varios campos de la no-vida civilizada, creación y comercialización del grafeno, desastres nucleares como en Fukushima, deterioro ambiental acelerado, el acrecentamiento de la biomimética, la expansión cualitativa y cuantitativa de la inteligencia artificial, bioinformática, neuroeconomía, etc. Es por eso que Its ve por lo que es tangible, palpable e inmediato, y eso inmediato es el ataque con todos los recursos, tiempo e inteligencia necesarios contra este sistema. Somos individualidades en proceso de la consecución de nuestra Libertad y Autonomía, dentro de un ambiente optimo, y junto con ello atacamos al sistema que nos quiere a todas luces en jaulas, obedeciendo nuestros instintos humanos salvajes. Con esto nos esforzamos como individuos afines por tratar de mantenernos lo más alejados que se pueda de conceptos, prácticas e ideologizaciones civilizadas.” – Sexto comunicado de Individualidades tendiendo a lo salvaje.

El Eco-extremismo es una tendencia, no es una teoría, ni una regla, todos aquellos que se sienten comprometidos realmente con la naturaleza salvaje, lo comprenden, los que no, no.

Fuego, explosivos y balas contra el sistema tecnológico y la civilización!
En defensa extrema de la naturaleza salvaje!
Axkan Kema, Tehuatl, Nehuatl!
Adelante con la Guerra!!

-Espíritu Tanu de la Tierra Maldita
-Revista Regresión


Tierra Maldita y especialmente “El Espíritu Tanu”, quedamos muy satisfechos al haber participado en la edición de este trabajo audiovisual en conjunto con la “Revista Regresión”. De este intercambio de complicidades y materiales audio-visuales salimos con aprendizajes tanto técnicos como prácticos. Esperando que este trabajo contribuya y sea un gesto mínimo al avance de la guerra contra el sistema tecnoindustrial, llegando a esos ojos y mentes radicales.

Saludamos así a cada uno de los integrantes de la Revista Regresión por confiar en nosotros. A Xale por su paciencia y esfuerzo. Al Espíritu “Tanu” por cada hora de edición. Haciendo posible todos la publicación de este trabajo. ¡COSTO PERO SALIO!

¡Larga vida a los individuos eco-extremistas!
¡En guerra salvaje contra la civilización!

 

[PT – PDF] Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul (Todas as Edições – All Editions)

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A Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul é uma publicação sem periodicidade definida disponibilizada na web e editada desde a América do Sul dedicada a estudar o eco-extremismo e a fomentar estudos, análises e críticas contra a civilização e o progresso.

Atualmente está em sua segunda edição.

PRIMEIRA EDIÇÃO

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CONTEÚDO

1. O que é o Eco-extremismo? – A flor que cresce no submundo: Uma introdução ao eco-extremismo (pg. 4-9)

2. RUMO À SELVAGERIA: Desenvolvimentos Recentes no pensamento Eco-Extremista no México (pg. 10-20)

3. “Salvar o Mundo” como a maior forma de Domesticação (pg. 21-23)

4. O que queremos dizer quando falamos “natureza”? (pg. 23-26)

SEGUNDA EDIÇÃO

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CONTEÚDO

1. “Introdução”, por Editorial Ponta de Lança (pg. 1-3)
2. Tocaia (pg. 4)
3. Nós Juramos Vingar (pg. 5-6)
4. Pacto (pg. 7)
5. Revisitando a Revolução (pg. 8-11)
6. Primitivismo Sem Catástrofe (pg. 12-15)
7. Breves Reflexões de Uma Caminhada de Inverno (pg. 16)
8. Selvagens Politicamente Incorretos (pg. 17-19)
9. “Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica (pg. 20-26)
10. O Retorno do Guerreiro (pg. 27-35)
11. Apocalipsis Ohlone (pg. 36-38)
12. Um Poema de Guerra (pg. 39)
13. É o Momento de Beijar a Terra Novamente (pg. 40-42)
14. Nota Anônima (pg. 43-44)
15. A Ovelha Negra e o Lobo (pg. 45-46)
16. Autexousious Apanthropinization (pg. 47-49)
17. A Solidão e a Auto-realização (pg. 50-51)
18. Funeral Niilista – A Aniquilação da Vida (pg. 52-55)
19. Duras Palavras: Uma Conversa Eco-extremista (pg. 56-65)
20. Eu e Depois Eu (pg. 66)
21. O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante (pg. 67)
22. As Lições do Estado Islâmico Antes de Seu Colapso (pg. 68-71)
23. Uma Grande e Terrível Tormenta (pg. 72)
24. A Evolução da Dieta (pg. 73-76)
25. Um Falso Escape (pg. 77-78)
26. Lições Deixadas Pelos Incendiários (pg. 79-81)
27. Notas Sobre o Anarco-primitivismo (pg. 82-83)
28. A Noite do Mundo Infernal (pg. 84-85)
29. Halputta (pg. 86-87)
30. Animismo Apofático (pg. 88 – 90)
31. O Mito do Veganismo (pg. 91 – 93)
32. Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo (pg. 94-95)
33. Reflexões a Respeito da Liberdade (pg. 96-99)
34. Conversações Eco-extremistas: Uma Conversa Com Eco-extremistas Mulheres Desde o Norte do Continente (pg. 100-103)
35. A Guerra de José Vigoa: Um Breve Discurso Sobre o Método Eco-extremista (pg. 104-109)
36. Assassinando a Nosso Civilizado Interno (pg. 110-113)
37. (Roma Infernetto – “Mundo Merda”) – Profanação e Devoração (pg. 114-115)
38. Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez (pg. 116-118)
39. Guerra Oculta (pg. 119-123)
40. Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3 (pg. 124-128)
41. Humanos (pg. 129)
42. “Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã (pg. 130-135)
43. Por que te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor (pg. 136-137)
44. Pensamentos Sobre a Moralidade (pg. 138-139)
45. Ódio Misantrópico (pg. 140)
46. Moralidade (pg. 141-142)