[PT – PDF] Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul (Todas as Edições – All Editions)

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A Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul é uma publicação sem periodicidade definida disponibilizada na web e editada desde a América do Sul dedicada a estudar o eco-extremismo e a fomentar estudos, análises e críticas contra a civilização e o progresso.

Atualmente está em sua segunda edição.

PRIMEIRA EDIÇÃO

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CONTEÚDO

1. O que é o Eco-extremismo? – A flor que cresce no submundo: Uma introdução ao eco-extremismo (pg. 4-9)

2. RUMO À SELVAGERIA: Desenvolvimentos Recentes no pensamento Eco-Extremista no México (pg. 10-20)

3. “Salvar o Mundo” como a maior forma de Domesticação (pg. 21-23)

4. O que queremos dizer quando falamos “natureza”? (pg. 23-26)

SEGUNDA EDIÇÃO

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CONTEÚDO

1. “Introdução”, por Editorial Ponta de Lança (pg. 1-3)
2. Tocaia (pg. 4)
3. Nós Juramos Vingar (pg. 5-6)
4. Pacto (pg. 7)
5. Revisitando a Revolução (pg. 8-11)
6. Primitivismo Sem Catástrofe (pg. 12-15)
7. Breves Reflexões de Uma Caminhada de Inverno (pg. 16)
8. Selvagens Politicamente Incorretos (pg. 17-19)
9. “Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica (pg. 20-26)
10. O Retorno do Guerreiro (pg. 27-35)
11. Apocalipsis Ohlone (pg. 36-38)
12. Um Poema de Guerra (pg. 39)
13. É o Momento de Beijar a Terra Novamente (pg. 40-42)
14. Nota Anônima (pg. 43-44)
15. A Ovelha Negra e o Lobo (pg. 45-46)
16. Autexousious Apanthropinization (pg. 47-49)
17. A Solidão e a Auto-realização (pg. 50-51)
18. Funeral Niilista – A Aniquilação da Vida (pg. 52-55)
19. Duras Palavras: Uma Conversa Eco-extremista (pg. 56-65)
20. Eu e Depois Eu (pg. 66)
21. O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante (pg. 67)
22. As Lições do Estado Islâmico Antes de Seu Colapso (pg. 68-71)
23. Uma Grande e Terrível Tormenta (pg. 72)
24. A Evolução da Dieta (pg. 73-76)
25. Um Falso Escape (pg. 77-78)
26. Lições Deixadas Pelos Incendiários (pg. 79-81)
27. Notas Sobre o Anarco-primitivismo (pg. 82-83)
28. A Noite do Mundo Infernal (pg. 84-85)
29. Halputta (pg. 86-87)
30. Animismo Apofático (pg. 88 – 90)
31. O Mito do Veganismo (pg. 91 – 93)
32. Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo (pg. 94-95)
33. Reflexões a Respeito da Liberdade (pg. 96-99)
34. Conversações Eco-extremistas: Uma Conversa Com Eco-extremistas Mulheres Desde o Norte do Continente (pg. 100-103)
35. A Guerra de José Vigoa: Um Breve Discurso Sobre o Método Eco-extremista (pg. 104-109)
36. Assassinando a Nosso Civilizado Interno (pg. 110-113)
37. (Roma Infernetto – “Mundo Merda”) – Profanação e Devoração (pg. 114-115)
38. Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez (pg. 116-118)
39. Guerra Oculta (pg. 119-123)
40. Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3 (pg. 124-128)
41. Humanos (pg. 129)
42. “Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã (pg. 130-135)
43. Por que te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor (pg. 136-137)
44. Pensamentos Sobre a Moralidade (pg. 138-139)
45. Ódio Misantrópico (pg. 140)
46. Moralidade (pg. 141-142)

[EN – PDF] African Medicine – A Complete Guide to Yoruba Healing Science

A combination of West African Healing Wisdom, spirituality, and modern science, presents a self-care healing guide in which Concepts such as Orisha Energies form the basis for diagnosis and treatment of chronic illnesses that most frequently threatened balanced health. The Yoruba people, a tribe in West Africa, are considered to be the oldest herbalists on the planet. After living in ancient benin for a time, they settle in Egypt , bringing with them an herbal, dietary, and healing drum system dating back 75,000 Years BC. Dr. Tariq Sawandi presents Yoruba medicine as a comprehensive system of healthcare that heals the whole person, mind, body, and spirit. Chapters include the history, philosophy, methodology, and medicinal usage of African and Caribbean herbs, Roots, gemstones, and sound to heal cancer, sickle cell anemia, high blood pressure, diabetes, HIV/AIDS, and other chronic diseases. This empowering book gives you many approaches to balanced health with easy-to-use charts, diagrams, and tables.

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Artigo Sobre Violência Descolonializadora e Eco-extremismo Para a Conferência da ASN em 2018

Interessante texto de autoria de Julian Langer, do blog Eco-revolt, que fala sobre moralidade e territorialização política moralizadora, especialmente pelos esquerdistas (incluindo os anarquistas).

Este texto de Langer foi publicado em seu blog e rapidamente apagado devido às reações que provocou, já que o que ele mesmo discute em seu ensaio graciosamente ocorreu com ele próprio, foi instantaneamente atacado pelas freiras da igreja da anarquia. A sua versão íntegra foi publicada pelo grupo eco-extremista brasileiro Sociedade Secreta Silvestre, que afirmou possuir a versão original do texto e o divulgou no comunicado 63 do grupo ITS. Tal comunicado tem haver com uma briga que se iniciou com o IGD (It’s Going Down), mencionado no texto de Langer, e se estendeu envolvendo outros personagens, como os “anarcaguetas” do 325 a quem o grupo brasileiro direcionou o comunicado. Talvez a maior resposta por parte dos eco-extremistas a todo este pleito foi o texto Against the World-Builders: Eco-extremists respond to critics. Também há outra resposta mais curta chamada Tendências Cristãs Pseudo-humanistas.

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Em 13 de setembro, apresentei este artigo na conferência da Rede de Estudos Anarquistas, na Universidade de Loughborough. Isso foi escrito para ser falado e não foi editado para que sua leitura fosse simplificada.

*
O teórico político pessimista Jacques Camatte, cujos escritos após seus anos como teórico marxista influenciaram o discurso ana
rquista de sua época —em particular a ala anarco-primitivista— declarou em seu trabalho Contra a Domesticação que; “Há outros que acreditam que podem combater a violência propondo remédios contra a agressividade e coisas do tipo. Todas essas pessoas geralmente concordam com a preposição de que cada problema pressupõe sua própria solução científica específica. São, portanto, essencialmente passivos, pois consideram que o ser humano é um simples objeto a ser manipulado. Eles, por sua vez, são completamente desprovidos do que é necessário para se criar relações interpessoais (algo que eles têm em comum com os adversários da ciência); eles são incapazes de ver que uma solução científica é uma solução capitalista, porque elimina os humanos e coloca a perspectiva de uma sociedade totalmente controlada”.

Parece mais do que óbvio que vivemos entre grandes quantidades de violência e que a violência e a necessidade de acabar com ela é o assunto dominante dentro da narrativa em que nos encontramos. A violência da cultura do estupro; a violência da opressão racial e colonial; a violência do ISIS, os islamitas e as forças internacionais contra eles; a violência da Rússia, Coreia do Norte e Estados Unidos; a violência dos tiroteios nas escolas da América; a violência dos apunhalamentos em massa pelas gangues em Londres; de bombas, carros, armas, facas e pênis. Muitos atos de violência são pouco comentados; a violência das armadilhas para animais; a violência das motosserras; a violência da desocupação de uma área para reutilizá-la para construções ou plantações de monocultivos industriais para alimentar uma população em crescimento.

No discurso radical, particularmente no da tradição anarquista, geralmente temos um tipo de relacionamento distorcido com a violência. Meu desejo aqui é identificar um tópico em nossas discussões que muitas vezes é negligenciado —esse tópico tem a ver com a interiorização e exteriorização —, sob o olhar do grande Outro. Neste assunto, me concentrarei no discurso contemporâneo sobre as atividades descoloniais, anticoloniais e eco-extremistas. Isso também envolverá, na parte final deste artigo, uma declaração ontológica sobre o que a violência realmente é.

No ano passado, a organização anticolonial chilena Luta do Território Rebelde (Weichan Auka Mapu), em uma única ação, incendiou 29 veículos usados em atividades de extração de madeira. Entre janeiro e maio de 2016, o grupo cometeu 30 atos semelhantes de danos à propriedade, em defesa do território em que vivem, das florestas e a vida selvagem. Da mesma forma, o MEND, Movimento Para a Emancipação do Delta do Níger, uma organização combativa armada composta por células independentes envolvidas em uma guerra de guerrilhas contra as empresas de petróleo, explodiram oleodutos, atacaram campos de petróleo e sequestraram petroleiros como parte de suas atividades anticoloniais.

Como porta-vozes dos âmbitos de ambientalistas radicais e anticoloniais de fala inglesa, grupos como Earth First! e Deep Green Resistance lançaram seus apoios a esses grupos e a outros como eles, buscando legitimá-los, dentro do contexto do discurso radical. Isso envolve experimentar o processo que Deleuze e Guattari denominaram territorialização, no qual um processo de interiorização associa esses grupos à estrutura de um mecanismo particular. Isso leva esses grupos a um lugar de aceitação moral, dentro do marco moral com orientações de esquerda. A partir disso, essas ações, as atividades desses grupos, e outros similares, passam a fazer parte da narrativa da política radical de esquerda, referente ao processo de civilização e história. Eles se convertem em personagens nos capítulos que precedem a “revolução” e, semelhante ao descrito por Camatte na citação que mencionei anteriormente, são vistos como objetos passivos a serem cientificamente manipulados. Como personagens do meta-drama em que residem, eles recebem uma identidade que funciona plenamente como um significante simbólico para um Outro, que se posiciona como o superego paterno, legitimando suas lutas, como Deus ao determinar quem vai para o céu, ou melhor, quem não será jogado no gulag, mesmo o anarquista, depois da revolução —interiorizada— e quem será jogado no inferno, ou no gulag, novamente, até o gulag construído por anarquistas — exteriorizado.

Esse também é o caso em lutas descoloniais que não estão necessariamente ligadas a lutas eco-radicais, como a luta palestina contra as violências de Israel, na qual manifestantes desarmados são pintados como “inocentes” pelas organizações pacifistas de esquerda que usam a luta destes indivíduos como uma plataforma própria, com a implicação de que palestinos armados, como o Hamas, são alvos legítimos da violência colonial estatista.

Enquanto os líderes das organizações, que podem ser educados nas filosofias ocidentais do marxismo, anarquistas etc., podem abraçar essa trajetória ideológica, acho que, na verdade, fora dessa interiorização, aqueles indivíduos que estão ativamente engajados nas ações desses organizações e similares; eles não se importam com progresso, história, capitalismo ou nada disso. Eles se preocupam com as florestas, terras, vida selvagem, rios e mundo em que estão imersos e vivem como Extensões.

Essas funções de enquadramento mecânico, da maneira que Heidegger descreve em relação à tecnologia e enquadramento, onde, como objetos, símbolos e personagens de uma descrição tecnológica, se encaixam no modo da existência humana previamente descrita, aquela da narrativa ideológica de esquerda, desumanizada, inanimada e não animal.

E agora quero avançar para algo que poderia parecer de muitas maneiras como totalmente o oposto, mas argumento que se enraíza na mesma narrativa que descrevi aqui. De qualquer forma, para isso, vou me dedicar um pouco à história. Pode-se dizer que a campanha de ataques de Kaczynski, que durou 17 anos, foi a de maior sucesso do seu tipo. Como Unabomber, Kaczynski enviou 16 bombas a vários locais nos Estados Unidos. Foi somente após a publicação de seu manifesto, A Sociedade Industrial e Seu Futuro, que suas motivações foram esclarecidas e ele foi capturado. O trabalho é uma crítica brilhantemente articulada sobre a sociedade industrial, que inclui uma crítica ao esquerdismo, que não irei me aprofundar aqui, uma vez que não é tão necessário e isso ocuparia muito espaço. Menciono apenas por sua relevância e pelo que estou prestes a desenvolver.

A influência de Kaczynski, com relação ao espaço anticolonial, é particularmente notável em relação ao movimento pós-anarquista niilista-terrorista chamado Eco-extremismo. Surgido das profundezas das discussões niilistas-anarquistas e anticiv, e quase inteiramente situado na América do Sul e Centro, composto por indivíduos indígenas e anticivilização, com apenas algumas células na Europa, esse movimento tem buscado ativamente se exteriorizar da maquinaria e da narrativa esquerdista.

Em suas atividades anti-progressitas e anti-melioristas, o grupo que é o defensor mais conhecido do Eco-extremismo, Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), centrou suas atividades, assim como Kaczynski, em plantar bombas em instituições universitárias, como laboratários nano-tecnológicos; antes de avançar com seus famosos, devido ao rechaço à moralidade, assassinatos indiscriminados, em nome da Natureza Selvagem.

Caso você não esteja familiarizado com o grupo, gostaria de resgatar aqui algumas citações de seus primeiros comunicados:

1. “A civilização entrará em colapso e um novo mundo nascerá devido aos esforços dxs guerreirxs anticivilização? Ah, por favor! Sejamos realistas, plantemos os pés no chão e deixemos de voar dentro da mente delirante e esquerdista. A revolução nunca existiu e, portanto, tampouco xs revolucionárixs. Aquelxs que se vêem como “potencialmente revolucionárixs” e que buscam uma “mudança radical anti-tecnológica”, estão sendo verdadeiramente idealistas e irracionais, porque tudo isso não existe. Neste mundo moribundo existe apenas a Autonomia do Indivíduo, e é por ela que lutamos.”

2. “Um mundo sem domesticação, com um sistema derrotado através do trabalho dxs “revolucionárixs”, com a Natureza Selvagem nascendo das cinzas do antigo regime tecnológico e a espécie humana (o que restaria) de volta à natureza, é completamente ilusório e sonhador.”

3. “Its mostra a sua verdadeira face, vamos ao ponto central, a feroz defesa da Natureza Selvagem (inclusive humana) não se negocia, é executada com os materiais necessários, sem compaixão e assumindo a responsabilidade pelo ato. Nossos instintos nos marcam, porque (como dissemos anteriormente) somos a favor da violência natural e contra a destrutividade civilizada.”

A resposta que ITS recebeu foi de exteriorização ativa por parte dos esquerdistas e anarquistas-morais. A publicação anarquista de esquerda Its Going Down particularmente se pronunciou contra ITS, especialmente após o comunicado 29, no qual reivindicavam a responsabilidade pelo assassinato de uma mulher em uma floresta, e também demonizaram anarquistas e ocidentais que incluem o Eco-extremismo em suas discussões. Its Going Down os classificou como Eco-fascistas em uma de suas condenações contra o grupo, numa tentativa óbvia de demonizá-los moralmente, excluindo-os da comunidade de grupos e organizações consideradas aceitáveis dentro da moralidade anarquista. Isto é, assim como o MEND e a Luta Pelo Território Rebelde (Weichan Auka Mapu), realizado sob o olhar do Outro superego paternal, reprimindo aquilo que é moralmente inaceitável, desde uma posição de autoridade moral, como Deus. Este é um exemplo do que Camatte descreve, onde os esquerdistas condenando ITS e o Eco-extremismo tratam os Eco-extremistas, aqueles interessados no Eco-extremismo e seus próprios simpatizantes e partidários, como objetos para a manipulação científica, em um movimento capitalista por controlar, territorializar.

A revista Eco-extremista Regresión faz uma tentativa notável de se exteriorizar, tanto em seu nome quanto em seu conteúdo. Ela se descreve como o antônimo do progresso, como uma força regressiva antiética, marcando sua estratégia em um estilo marxista ativo da dupla dialética. A Revista proclama ativamente que não deseja ser lida por muitas pessoas e que não busca atrair leitores, mas está disponível na web para ler lida por quem quiser. Está dizendo ativamente que “não somos um de vocês” e “não formamos parte disso”, de maneira muito semelhante a como os esquerdistas buscam exteriorizar o Eco-extremismo. A partir desses exemplos que apresentei, tentei identificar que, tanto em enquadramentos morais positivos e negativos, através de interiorização ou exteriorização dentro da narrativa do progresso, revolução e história, a relação esquerdista com relação aos projetos extremistas e radicais anticoloniais e descoloniais é aquela cuja estrutura mecanicista é ideológica e funcionalmente colonialista e racista. A esquerda não aceita nem condena as ações de grupos indígenas e anticoloniais simplesmente sob seus próprios termos, mas os associa ao simbolismo de seu próprio desenho ideológico. Ao mesmo tempo, o movimento descolonial tornou-se tão incorporado à maquinaria esquerdista que, no caso dos Eco-extremistas, os povos indígenas estão se afastando da luta.

Aqui, sinto a necessidade de ir a outro ponto ligeiramente diferente daquele de onde estivemos durante a maior parte disso, mas sem nos afastarmos muito. Enquadro isso em um lugar geográfico, mais que em um tempo histórico, pois a onde quero chegar não é nem historicamente progressivo nem reacionário, ou regressivo, seja qual for o termo que você prefira, mas metafisicamente presentista, em um sentido imediatista egoísta e fenomenológico. Karl Popper declarou em seu trabalho A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, onde critica o historicismo teleológico de Hegel, Marxs e pensadores semelhantes por ser fundamentalmente totalitários, que a “História não tem significado” —uma preposição sem dúvida desagradável para qualquer pessoa que tenha uma postura política esquerdista, mas é neste sentimento a qual quero chegar. Esta é a questão da destruição, que mais tarde diferenciarei da violência. Agora, quando olho para fora de mim rumo ao que o discurso e ação pós-anarquista significam hoje em dia, no tempo presente, quando nos encontramos em uma crise sistemática, colapso ecológico e em meio a tanta violência, me parece que realmente podemos apenas falar sobre ontologia. Não estou querendo dizer que estamos falando e que só podemos falar sobre conceitos vagos e abstratos, mas que, na raiz de nossos discursos e, se formos honestos em nossas discussões, estamos falando de psico-ônticos, socio-ôticos, eco-ônticos, sobre Realidades e sobre o Real. Estou indagando aqui, ao incorporar o ôntico junto com a ontologia, dentro do mundo das Coisas (C maiúscula) e a reificação (usando o termo no sentido exposto pelo velho e confiável comunista Marx e no sentido da falácia do concretismo, também conhecido como hipostatização). Essas discussões ontológicas podem frequentemente ser enquadradas nos teatros simbólicos das ideologias, interiorizando e exteriorizando, em processos de territorialização. Mas abaixo destas vestimentas, na carne nua de nosso discurso, é ontológico. Somos, de muitas maneiras, todos anarquistas ontológicos de práxis.

Com base nisso, farei uma afirmação de que o projeto anarquista ontológico é de destruição ativa, no sentido Heideggeriano. Eu gostaria de pegar emprestado o termo da guerrilha ontológica de Robert Anton Wilson para isso. Como Heidegger observou, a destruição é uma tarefa presentista que não se enquadra nas categorias normais de positivo-negativo, sendo niilisticamente amoral e não posicionada no passado. Sem ser dualisticamente positiva nem negativa, a destruição aqui é uma força radical monística, no sentido que sugere o anarquista-coletivista Bakunin quando declarou que “a paixão pela destruição é também uma paixão criativa” imediata; ao contrário das tradições gnósticas da ideologia revolucionária de esquerda, nas quais tanto a teoria como a prática mantêm um dualismo esotérico, em relação a objetos que podem ser manipulados cientificamente.

Mais do que como uma prática antropológica, afirmo que a verdadeira destruição-criativa sem objetivos de Ser é o processo de transformação que está acontecendo constantemente. A civilização e a história, nesse sentido, são tentativas de interromper esse processo e criar, através da reificação simbólica, uma ontologia social de um estruturado-espaço absoluto —a construção de territórios, de objetos com interiores e exteriores, da natureza e do espaço que está fora da natureza (civilização), de grupos e categorias; um teatro de fantasmas, tecnologicamente inautênticos, no sentido em que Heidegger expõe, tentando reprimir a relacionabilidade do Ser, na forma de desenvolvimentos prolongados no tempo, ou melhor, como a passagem da vida vista como o espaço aberto da possibilidade. A civilização, a fim de manter o maquinário de seu funcionamento, deve restringir, através da colonização, a moralidade, etc., o espaço aberto da possibilidade, através da interiorização e a exteriorização voltadas para uma narrativa totalitária, com um caminho direcionado.

Agora, de certa forma, o que eu, como alguém do mundo anti-civ, estou dizendo com isso é que deveríamos nos livrar dos grupos, categorias, territórios, interiores, exteriores, inclusão, exclusão, objetos, símbolos e outros fantasmas tecnológicos, mas isso dificilmente chegará a algum lugar no tempo presente. Assim, junto com isso, desejo fazer outra afirmação para nós, como indivíduos, ou melhor, como singularidades, envolvidas em projetos descoloniais e anticoloniais de desterritorialização; que abracemos radicalmente a noção de monismo-como-pluralismo; não para interiorizar o mapeamento do espaço radical de uma nova maneira em relação àquela em que o fazemos atualmente. Se não, deixar a situação o mais desordenada possível e não julgar a desordem através da condenação moral, e não encaixar os eventos dentro das estruturas de ideologias de esquerda, mas deixar tudo no espaço da possibilidade. Talvez isso possa ser considerado o equivalente eco-anarquista da noção liberal de Bergson da sociedade aberta —embora também, talvez não. Se, no entanto, estamos lidando com processos ontológicos, sugiro que consideremos nossas percepções da realidade, como espaço e tempo, da maneira que o matemático Poincaré indica com sua filosofia da geometria; como se tivéssemos nascidos sem intuições, que se tornaram mais convenções normativas do que fatos.

Essa ideia que estou propondo é obviamente bastante incômoda, pois deixa quase tudo em aberto, mas se vamos descolonizar o espaço físico estruturalmente racista das políticas anticoloniais, então nos resta este lugar de incomodidade, no qual devemos reconhecer sem categorizar moralmente, em um sentido anti-político.

Finalmente, também desejo fazer uma declaração ontológica aqui, para os propósitos do discurso, de que muito do que é categorizado como violência por grupos eco-radicais e anticoloniais não é violência, sendo a violência um objeto reificado da civilização, significando violação. Em vez disso, o que geralmente é categorizado como violência, neste sentido, é realmente uma aceitação da destruição-criativa não-ôntica acósmica ontológica selvagem.

Violação, dessa maneira, parece ser o funcionamento mecanicista básico da civilização —invertendo a afirmação de ITS de que a natureza é violenta e a civilização é destrutiva. O propósito da civilização é o propósito da violência. Isso não é para legitimar estas ações que estou descrevendo como destrutivas ao invés de violentas, mas para diferenciá-las para os propósitos da práxis pós-anarquista.

Violar é interromper o fluxo de um espaço e criar uma obstrução, como uma represa em um rio, como um militar chegando para interromper o cotidiano da comunidade, como um pênis forçando sua entrada no corpo por estupro. A destruição é um aspecto criativo dos atuais processos temporais do espaço que é o Ser. Destruição é a abertura do espaço. Descolonizar é destruir a narrativa de produção que é essa cultura. Desterritorializar, sem reterritorializar, e sem julgar o que cresce no espaço aberto. Deixemos as coisas abertas e não tratemos o mundo como um objeto para nossa manipulação. Deixemos de tentar ser Deus e destruamos o totalitarismo. Vivamos livres de interiores e exteriores, de inclusão e exclusão. Tornemos real o sem fronteiras nem limites, e sejamos anarquistas abraçando a anarquia. Poincaré disse que “A Geometria não é verdadeira, é vantajosa”, mas isso não vai longe o suficiente. A geometria não é verdade, mas pode ser uma aventura!

Obviamente, isso vai além do espaço descolonial, pois inclui os espaços de teoria e práxis antipatriarcais, de ambientalismo radical e antiestatismo, uma vez que a estes também seria importante desconstruírem seus territórios e abraçar a noção ontológica do monismo = pluralismo —mas não há espaço neste ensaio para incluir estas lutas.

Gostaria de terminar com esta frase do filósofo marxista-autônomo Agamben; “O que teve de perdurar no inconsciente coletivo como um híbrido monstruoso de humano e animal, dividido entre o bosque e a cidade —o lobisomem— é, portanto, originalmente a figura do homem que foi expulso da cidade. Que esse homem seja definido como um lobisomem e não simplesmente como um lobo…é decisivo aqui. A vida do bandido, como a do homem sagrado, não é um pedaço de natureza humana sem relação alguma com a lei e a cidade. É, em vez disso, um umbral de indistinção e de passagem entre animal e homem, Physis e Nomos, exclusão e inclusão: a vida do bandido é a vida de Loup Garou, o lobisomem, que não é exatamente nem homem nem besta, e que habita paradoxalmente dentro de ambos sem pertencer a nenhum”.

Anarquismo Verde Murcho

Texto extraído de La Mauvaise Herbe vol.17 no.2.

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Ninguém mais se importa com eles por aqui, por que você simplesmente não os deixa murchar em impertinência?”, perguntou um bom amigo que se identifica como anarco-primitivista.

Curioso, talvez, mas não poderia deixar de lembrar de um evento de ecologia radical de muito sucesso que participei há pouco tempo. Era uma conferência bem preparada, por um anarquista que dominava o seu “nicho”. A conferência foi proferida em uma sala cheia de estudantes radicais entusiasmados, durante um seguimento dedicado ao anarco-primitivismo. Todo aquele discurso sobre igualdade, democracia direta e até as 15-horas-de-trabalho-semanal-que-é-como-se-fosse-um-jogo foi servido de forma conveniente. [1] Pelo menos ele não começou a falar sobre telepatia ou visão telescópica. Lembro que o evento gerou uma impressão tão boa que uma coordenadora da Universidade onde a conferência estava ocorrendo se aproximou de Mauvaise Herbe, que estava no local distribuindo publicações, para saber se eventualmente eles iriam também compartilhar suas mensagens positivas com as juventudes. Então deram algumas Mauvaise Herbe para que ela pudesse ler e creio que mudou de opinião.

Mas é verdade que não ouvimos muito sobre os Anarquistas Verdes por aqui. Ainda sim, em minhas conversas e no que frequentemente escuto do discurso “anti-civ”, tanto aqui como em qualquer lugar, são sempre as mesmas reflexões comumente conhecidas, as mesmas referências, as mesmas premissas e os mesmos fins. O discurso humanista-hedonista sobre a vida primitiva tornou-se mainstream. Aos poucos, as especulações de alguns tornaram-se fatos para outros. Os anarquistas em geral nunca se posicionaram muito longe do progressismo, se sentem em casa, em paz com ele. Aqueles que escolheram se distanciar através de suas palavras e ações sempre se levantaram contra as igrejas que guiam o caminho desta “luta”. Praticamente chegaram a um ponto em que se deve professorar a fé em cada declaração, em cada ação.

Para muitos agora, em momentos de choque, questionar a retórica da coesão social é revelar “fascismo”. Enquanto os anarco-policiais insurrecionalmente corretos pedem caça às bruxas, é contra toda a sua Inquisição que dedico estas provocações.

O Verde é o novo vermelho

“Esta visão ideológica do passado foi radicalmente revertida nas últimas décadas, através do trabalho de acadêmicos como Richard Lee e Marshall Sahlins. Surgiu uma reviravolta quase completa na ortodoxia antropológica, com importantes implicações. Agora podemos ver que a vida antes da domesticação/agricultura era, na verdade, uma vida de recreação, intimidade com a natureza, sabedoria sensorial, igualdade sexual e saúde. Esta era a nossa natureza humana, durante alguns milhões de anos, antes da escravidão por sacerdotes, reis e chefes”. – John Zerzan, Futuro Primitivo

Pertencemos a uma era desiludida com as promessas do progresso. Ele não trouxe a utopia prometida. Os progressistas já não são necessariamente aqueles que haviam prometido que “a máquina trabalharia para o homem”, aqueles que, há mais de um século, já haviam anunciado a mesma “recreação, intimidade com a natureza, sabedoria sensorial, igualdade sexual e saúde” graças ao desenvolvimento humano e tecnológico… agora os progressistas são aqueles que se preocupam com as crises que foram geradas, aqueles que acompanham constantemente o apocalipse que está se desenrolando – o desastre ecológico e a civilização planetária em total decadência. Mas alguns ainda não perderam a esperança na humanidade, e a possibilidade de prover uma nova consciência universal. Ela pode impulsionar uma cultura de resistência de caçadores-coletores nômades que levarão todo o humanismo herdado pelo anarquismo do século XX!

E é nesse sentido que um trabalho essencial do cânone anarco-primitivista como Futuro Primitivo é um exercício de sedução, com sua crítica à civilização e seus louvores à vida primitiva, a fim de satisfazer essas sensibilidades humanistas decepcionadas com as consequências da modernidade. Portanto, deriva mais abundantemente do trabalho antropológico de um certo período em que foram feitas tentativas de romper com o mito da vida primitiva brutal com declarações ousadas sobre lazer e aspectos igualitários, mais atraentes para o civilizado moderno – trabalhos de antropólogos que queriam que seu campo alimentasse debates sociais.

Em um ensaio abordando o legado do trabalho aclamado por Zerzan de Marshall Sahlins, “A Primeira Sociedade da Afluência”, o antropólogo Nurit Bird-David nos lembra que “Todo o interesse que atraiu sem dúvidas reflete nossas necessidades simbólicas e ideológicas em nossa (Ocidental) construção do passado pré-histórico. (…) Com a intenção de provocar tanto quanto documentar, o ensaio se eleva acima do discurso científico convencional, apelando diretamente às fantasias ocidentais sobre trabalho, felicidade e liberdade”. [2]

Para muitos daqueles que se identificam com o anarco-primitivismo ou com uma espécie de Anarquismo Verde, a vida dos caçadores-coletores nômades do paleolítico representam o anarquismo como foi vivido pelos humanos por séculos. Alguns até chamam de Anarquia Primitiva. Nesta utopia original, no Jardim do Éden anarquista, eles veem nossa “natureza humana”. Assim, em sua propaganda, para uma plateia inclinada ao anarquismo, com seus valores progressistas, eles louvam a vida primitiva de acordo com o quão anarquista ela possa parecer.

Esta leitura seletiva da antropologia tornou-se comum entre os anarco-primitivistas e influenciou muitos outros anarquistas (incluindo stirnerianos e niilistas). Reduz a vida primitiva a generalizações sobre atributos essenciais presumidos – atributos igualitários, coletivistas, anti-opressivos, hedonistas, ecologistas e anarquistas. A relevância da vida primitiva deriva da representação destes valores.

Comportamentos selvagens que não se encaixam são descartados como sem importância quando não são simplesmente ignorados ou são abordados com muita suspeita, assimilados aos efeitos e as consequências da civilização (sincretismo, usurpação ou má interpretação por parte dos civilizados, etc.), enquanto comportamentos que combinam bem com os valores progressistas nunca recebem o mesmo questionamento ou suspeita. O resultado é a interpretação do estilo de vida caçador-coletor como um modelo de sociedade progressista por excelência, com o imediatamente-regressado caçador-coletor como seu representante mais puro.

Na tradição socialista, as culturas indígenas não tem importância além da recuperação do folclore, pois são reduzidas a seus aspectos proletários: as aventuras socialistas na América Latina nos deixaram um claro testemunho sobre isso. Onde faltava a experiência proletária, era introduzida ao ritmo do progresso, em nome do humanismo, aniquilando culturas indígenas já dizimadas para integrá-las à grande irmandade do homem. Não é de alguma forma nessa tradição que hoje muitos anarquistas projetam sua ideologia sobre os costumes dos antigos, apresentando-os como anarquistas, como praticantes ou exemplos de anarquismo? Podemos escolher o que se encaixa com a narrativa e o rolo compressor anarquista pode esmagar o resto. Nada mais civilizado que isso.

O que podemos aprender através da antropologia e arqueologia sobre a vida de grupos nômades caçadores-coletores ao longo do tempo é que eles parecem estar longe de serem homogêneos. Se queremos encontrar condutas progressistas, como aquelas que eu nomeei, nós as encontraremos. Se alguém deseja procurar condutas de um espectro totalmente oposto, também as encontrará: as ideologias encontrarão o que buscam. Mas é precisamente essa variabilidade que me parece importante. O selvagem questiona toda a narrativa do progresso humano, toda nossa domesticação. Isso inclui mais que tudo nossas inclinações humanistas essenciais na hora de incitar o progresso social necessário para o desenvolvimento contínuo. Os humanos se relacionam com uma infinidade de fatores e tangentes, ao longo de milhares de anos – uma infinidade de situações vividas e, portanto, uma diversidade de reações, adaptações, formas de conceber e agir. Estas características dificultam a simples transposição dos costumes de um grupo sobre outro. Para que uma maneira de ser seja reproduzível de um grupo a outro, é melhor substituir as variáveis por um ambiente homogêneo e controlado, e é isso que faz o progresso.

Se na vida primitiva gostamos de ver o reflexo dos valores que nos são familiares, tais como a cooperação, coletivismo, igualdade, amor ao próximo, compartilhar e tolerar, valores que nos ensinaram desde a infância, não deveríamos nos perguntar para onde eles estão nos levando em nossa situação atual? O contexto muda tudo. A representação idílica da vida primitiva é especialmente enganosa já que o colapso de nossa civilização está longe de ser igual ao do paleolítico. A terra já não é aquela onde os nômades caçadores-coletores floresceram, e quem sabe em que estado desumano poderia se transformar durante um colapso da civilização e seus eventos sucessores.

Mesmo com a isca da utopia, até que ponto aqueles que desejam o bem da tal humanidade poderão desejar e agir sobre o colapso da civilização que possivelmente precipitará a humanidade ao abismo? “Vimos o mundo em que queremos viver, e vale a pena lutar por ele”. [3]

“O anarco-primitivismo é uma lealdade a uma adaptação humana específica à vida neste planeta, uma forma de vida a partir da qual todas as evidências conhecidas nos mostram que ela durou de forma sustentável e em estreita relação com a ecologia selvagem por eras mais que qualquer outra. Com esse conhecimento objetivo em mãos, os anarco-primitivistas manterão nossa agência humana e a usarão para tomar os tipos de ação que consideramos mais eficazes e para criar simultaneamente os tipos de sociedades que NÓS QUEREMOS criar. Esta é nossa prerrogativa”. – Choloa Tlacotin, Uma Carta a: Halputta Hadjo

Acima de todas as coisas, é a prerrogativa do híper-civiliziado. Na verdade, é profundamente civilizado aquele que, a partir do conforto da abstração, pode, num piscar de olhos, inspirar-se nos princípios de James Woodburn sobre os caçadores-coletores igualitários como regra de vida e, logo depois admirar os povos guerreiros que lutaram contra os civilizados na América do Norte; e finalmente, maravilhar-se com a resistência que os humanos foram capazes de desenvolver em condições difíceis, “como os Ona [Selk’nam]” na Terra do Fogo. [4] São agentes do progresso aqueles que pensam que podem isolar o que lhes convém no banco de dados para construir seu mundo ideal pelo qual vale a pena lutar. Não venha me apresentar isso como des-domesticação ou alguma merda do tipo.

O Homem dedicou todo o poder do progresso para tentar controlar seu destino, e ainda sim falhou. Os anarquistas, sendo os civilizados teimosos que são, acreditam que podem controlar o resultado de suas ações de acordo com a intenção com que as realizam. Embora muitos deles saibam bem que as coisas nem sempre saem conforme o planejado (greves sociais que resultam em eleições gerais, artefatos que explodem na hora errada, etc.) Ao longo da história, todos aqueles que tentaram criar a sociedade que queriam falharam, mas os super-anarquistas certamente terão êxito…

Mas, depois de todos os esforços, seria possível, por exemplo, que algumas gerações depois os descendentes dos anarco-primitivistas – crianças re-selvagizadas, caçadores-coletores enraizados nos duros cenários da prognosticada queda da civilização – também resultem tão resolutamente patriarcais como os Selk’nam, cuja cosmovisão estabelecia de maneira muito explícita uma divisão entre os sexos e a dominação espiritual e social das mulheres pelos homens? [5] (esse pequeno detalhe que os Anarquistas Verdes omitiram em suas publicações, de pessoas pelas quais expressaram admiração e cujas perdas lamentaram, provavelmente teria caído mal na Feira do Livro Anarquista).

De qualquer forma, quem tem filhos deve saber que não há garantias de que eles ouvirão nossas advertências. Em qualquer caso, tenho a impressão de que as hipotéticas crianças selvagens do futuro primitivo provavelmente não dariam a mínima para a retórica moralizante de um velho ideólogo civilizado que sabe absolutamente tudo sobre suas vidas cotidianas.

A esperança é melhor que nada?

A esperança se converteu em um conceito bastante popular entre os Anarquistas Verdes nos últimos anos. Zerzan até dedicou um de seus últimos livros, Por que Esperança? A Postura Contra a Civilização, e junto com seus discípulos e colaboradores, em sua publicação da Black and Green Review, dedicaram atenção constante à oposição de sua esperança contra o que consideram o niilismo endêmico que contamina os anarquistas.

Em seu editorial da Black and Green Review Nº 4, Kevin Tucker nos fala com seriedade de como a ausência de uma Revista publicada pelos Anarquistas Verdes “levou os anarquistas ao beco sem saída do terrorismo niilista e à busca espiritual egoísta. Nessa trajetória, o anarco-primitivismo é um para-raios, pois tem a audácia de se posicionar para algo: ter apostado nossa reivindicação em ver um mundo que vale a pena lutar e defender. Para querer construir comunidades de resistência, apoiar aqueles que estão e têm resistido aos avanços da civilização e recusam o processo de domesticação, pois ele procura nos afastar da natureza selvagem que atravessa toda a vida.”

Para eles, jovem Padawan, a desesperança que fomentam estes niilistas leva à postura conformista de olhar para o umbigo, ou para criticar e atacar a qualquer pessoa e qualquer coisa: suas palavras e ações não levam a nada… E a esperança é melhor do que nada! Certo?

Se funcionou bem para os cristãos, a Obama e aos rebeldes em Star Wars, por que não funcionaria também para os anarco-primitivistas de Oregon?

Ainda não está convencido de votar pela esperança? No final de uma entrevista ao The Telegraph, orgulhosamente publicada em seu site durante a promoção de Por que Esperança?, Zerzan compartilha conosco o que tanto o inspira:

“Estranhamente, são tempos bons para ser um anarco-primitivista”, disse Zerzan. “Nunca tivemos tanta tecnologia como agora, e estão sendo lançadas cada vez mais rápido. Mas é exatamente por isso que acho que as pessoas começarão a mostrar resistência. Estão começando a ver que a tecnologia não está cumprindo com suas promessas. Por isso tenho esperança. Tenho muita esperança”.

Para o qual o entrevistador concede:

“Em algumas ocasiões também não gosto da tecnologia. Como quando minha internet não carrega rápido o suficiente. E geralmente estou convencido de que seria mais feliz sem estar constantemente conectado, embora nunca faça muito a respeito”. [6]

Certamente é porque ele ainda não leu a última Black and Green Review.

Ao longo do livro Por que Esperança?, sempre há a mesma resposta: é no advento de um movimento de massa de re-selvagização, preparado para a iminente queda da civilização do qual participará, que é preciso ter esperança e se comprometer junto com outros.

“Não será fácil, mas se um número crescente de pessoas estiverem envolvidas nesse movimento os meios podem ser encontrados. Penso que cada vez mais pessoas podem estar sentido a necessidade de uma nova direção como essa. Decifraremos nosso caminho assim que nossas metas possam ser vistas e discutidas. À medida que nos encontrarmos, o debate público necessário começará e o esforço de avançar em conjunto pode dar bons resultados. Não há garantias, mas vale a pena a jornada libertadora!” – John Zerzan, Por que Esperança?

Essa é uma boa quantidade de merda. Alguém está disposto a derrubar toda a rede de dominação porque Zerzan teve uma espécie de “sensação boa”, e depois veremos o que acontece?

É isso mesmo? Um movimento carregado pelo senso comum e pela esperança de ser o futuro da humanidade libertada? Que original! Nada com o qual o Leviatã possa ser reinventado…

E se a civilização não cair? Digamos que uma transição para um estilo de vida primitivo nunca ocorra, nem voluntariamente nem pela força das circunstâncias, que a civilização sobreviva ao que nós consideramos insuperável e transcendente. Existem empresas, laboratórios, universidades e legiões de nerds ambiciosos ao redor do mundo trabalhando em descobertas experimentais para superar os desafios do progresso em nome da humanidade. Sim, o triunfo do progresso é hipotético, assim como o futuro primitivo também é… e a esperança nada mais é do que uma questão de fé.

“Mas se estamos dispostos a fazer essa mudança em nossa percepção, a aprender a abraçar a nova era de nomadismo, a enxergar além de nós mesmos e empoderarmo-nos fazendo parte de algo muito maior e mais magnífico que nossas próprias vidas, então temos o mundo a ganhar com isso”. – Kevin Tucker, Meios e Fins, Black and Green Review Nº 4

É a sobrevivência da humanidade ou de toda a vida na terra o que gera e motiva meu desejo de ver a civilização sendo aniquilada (mesmo que, entre cenários hipotéticos, seja possível que a civilização destrua toda a biosfera em sua queda)? Por acaso meu desagrado pela civilização depende de um futuro hipotético? É a vida cotidiana, a abrumadora e sufocante presença de um mundo humanizado, que me desagrada e pesa sobre mim, e não sinto nenhuma necessidade de justificar este sentimento com teorias catastróficas ou interesses superiores. Pode me chamar de niilista podre, se quiser!

O mundo não necessita de uma nova ideologia libertadora tanto quanto precisa se livrar do que torna possível transmitir uma ideologia em larga escala… a menos que seja uma que corrompa as mentes dos civilizados, levando-os a decair em tal perturbação, tal desordem antissocial, tal autodestrutividade, que a estabilidade global e, finalmente, o próprio funcionamento da sociedade seja seriamente comprometido.

Morte à civilização e a todo o progresso humano!

– Lyokha

Notas:

[1] Este número referenciado de horas de trabalho se originou de estudos especulativos nos primeiros trabalhos antropológicos de Richard Lee e Marshall Sahlins. Desde então, os dados desses estudos receberam muitas respostas em seu campo, e o próprio Richard Lee reconheceu amplamente algumas de suas falhas. O atual consenso sobre os caçadores-coletores é de uma média de 30 a 40 horas de trabalhos semanais, mas ainda há muito debate sobre o que deveria ser considerado como trabalho.

Ver: Elizabeth Cashdan, Hunters and Gatherers: Economic Behavior in Bands; Richard Lee, The Dobe !Kung; David Kaplan, The Darker Side of the “Original Affluent Society”.

[2] Nurit Bird-David, Beyond “The Original Affluent Society.” Current Anthropology 33:25-47

[3] Uma frase que os Anarquistas Verdes gostam de usar em seus escritos. Por mais que lutem pelo seu mundo contra a civilização, se alguém se machuca, não era a intenção deles, tá bom?

[4] Humano de Quatro Patas, A Mercantilização do Selvagem e suas Consequências, Black and Green Review n.1, Humanos de Quatro Patas, O Vento Ruge Ferozmente, Fundações Selvagens e a Necessidade de uma Resistência Selvagem, Black and Green Review n.4

Os Anarquistas Verdes denunciam sem hesitação aqueles que são inspirados em sociedades não-igualitárias em sua confrontação contra a civilização se não juraram lealdade à sua ideologia. Veja Choloa Tlacotin, Uma Carta a: “Halputta Hadjo”. Mas um Anarquista Verde, graças ao seu conhecimento superior e melhores intenções, pode escolher o que quiser do banco de dados antropológico.

[5] Anne Chapman, Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam – Anne Chapman, A Mulher-Lua na Sociedade Selk’nam

[6] À medida que a tecnologia escurece nossas vidas, os próximos Unabombers aguardam seu momento – Jamie Bartlett, The Telegraph, 13 de Maio, 2014

Entrevista sobre Antropoceno e Crise Climática com Guy McPherson

Entrevista de Erva Daninha a Guy R. McPherson. Guy é um cientista americano, professor emérito de Ecologia e Recursos Naturais e Biologia Evolutiva da Universidade do Arizona. Agradecemos a Guy por esta entrevista conosco. Seu site é Nature Bats Last.

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Erva Daninha: Antes de mais nada, queremos agradecer pelo senhor ter aceitado participar desta entrevista, Dr. Guy McPherson. As suas investigações científicas sobre o caos climático na civilização industrial são de enorme importância ao apontar a gravidade da crise ambiental no mundo provocada pela atividade humana.

Vamos lá. Você é conhecido por defender a ideia de Extinção Humana a Curto Prazo (NTHE). Você pode nos explicar o que é a NTHE e quais são os principais indicadores ecológicos que sustentam essa teoria?

Guy McPherson: Obrigado pela oportunidade de iniciar esta conversação com você e seu público.

A Extinção Humana a Curto Prazo (NTHE) *NdT1 como resultado das mudanças climáticas abruptas refere-se ao desaparecimento precoce da nossa espécie, o Homo Sapiens. Eu estive prognosticando a NTHE por vários anos, e outros começaram a compartilhar este prognóstico de forma recente.

Os humanos são animais e, como outros animais, nossa espécie requer um habitat para sobreviver. Especificamente, os seres humanos são mamíferos vertebrados. No entanto, o ritmo projetado das mudanças climáticas, usando o índice gradual de mudança prevista pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) *NdT2, supera a capacidade dos vertebrados de se adaptar por um fator de 10.000. (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ele.12144). Os mamíferos levarão milhões de anos para se recuperar do evento de Extinção em Massa atualmente em processo (https://www.pnas.org/content/115/44/11262). Duvido seriamente que nossa espécie possa evitar a extinção, sobretudo quando os vertebrados não-humanos e os mamíferos não-humanos desapareçam.

Pelo menos sete espécies do gênero Homo já foram extintas, apesar de que nenhuma destas espécies se encontrava na Terra durante um evento de Extinção em Massa. Nós estamos no meio de um evento de extinção massiva. De acordo com o biólogo da conservação Gerardo Ceballos, principal autor de um artigo publicado em 19 de junho de 2015 na revista Advanced Science, indicando que a Terra está experimentando um evento de Extinção em Massa (https://advances.sciencemag.org/content/1/5/e1400253), “a vida levará muitos milhões de anos para se recuperar, e nossa própria espécie poderia desaparecer antes que isso aconteça”. (https://phys.org/news/2015-06-sixth-mass-extinction-declares.html). Um artigo com o mesmo autor publicado em 25 de Julho de 2017 na Proceedings of the National Academy of Sciences indica que a Terra está em um processo de Extinção em Massa bastante avançado (https://www.pnas.org/content/114/30/E6089.short).

Um artigo na publicação de Novembro de 2018 da revista Scientific Reports indica que uma elevação média de 5-6 graus na temperatura global levaria à extinção toda a vida na terra (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Esse aumento da temperatura média global é esperado logo após os oceanos do Ártico ficarem sem gelo, um evento incorretamente projetado para o ano 2016 + 3 na publicação de 2012 da Annual Reviews sobre A Terra e as Ciências Planetárias (https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev-earth-042711-105345). Apesar desta projeção incorreta, um Ártico sem gelo aparece no horizonte próximo.

As viagens comerciais aéreas representam uma ameaça existencial para toda a vida na Terra. De acordo com um artigo publicado na revista Atmospheric Chemistry and Physics de 27 de Junho de 2019, apenas os rastros dos aviões poderiam eliminar o habitat da maioria, senão de todas as formas de vida sobre a terra, ao interromper os padrões da circulação atmosférica (https://www.atmos-chem-phys.net/19/8163/2019/). Esta conclusão é apoiada por um estudo publicado on-line em 12 de Dezembro de 2019 na Earth and Space Science Open Archive (https://www.essoar.org/doi/10.1002/essoar.10501296.1).

A resposta padrão à atual crise climática é recomendar a redução das emissões de gases do efeito estufa. No entanto, a atividade industrial reduzida se traduz em uma redução abrupta dos aerossóis atmosféricos. Estes aerossóis refletem a radiação solar recebida, mantendo a Terra mais fria do que seria sem esses gases. Investigações sobre o efeito de resfriamento destes aerossóis apareceram na literatura científica sob revisão por pares desde 1929 (Angstor, 1929, “Sobre a transmissão atmosférica da radiação solar e sobre a poeira no ar”, Geografiska Annaler, 11, 156–166). A redução de apenas 20% da atividade industrial levaria a um aumento de 1 grau na temperatura global média em questão de semanas (Rosenfeld et al 2019, https://science.sciencemag.org/content/363/6427/eaav0566, e https://www.sustainability-times.com/environmental-protection/research-cooling-from-atmospheric-particles-may-mask-greater-warming/).

Erva Daninha: A conhecida ativista e escritora Naomi Klein, ao contrário de muitos negacionistas climáticos, argumenta que a atividade humana está intimamente relacionada à crise climática; no entanto, ela concentra a maior parte de seus esforços na pintura do capitalismo como o grande vilão do meio ambiente. Ocasionalmente, Naomi também critica o “socialismo industrial” de algumas nações, mas na maioria das vezes ela defende a mesma tese repetida pela grande maioria dos esquerdistas e ecologistas de todo o mundo: “se eliminarmos o capitalismo, tudo ficará bem”. Dr. Guy, acreditamos que suas críticas são mais amplas, elas visam o complexo industrial global e não apenas um tipo específico de ordem social. Por que você acha que a sociedade tecnológico-industrial global é o problema real e não apenas o capitalismo?

Guy McPherson: Como Tim Garrett apontou com base em extensas pesquisas, a civilização é uma máquina de calor (https://faculty.utah.edu/u0294462-TIM_GARRETT/research/index.hml). Em outras palavras, esse agrupamento de estruturas e seres vivos produz calor. Pouco importa como a civilização industrial opera. Os painéis solares e turbinas eólicas aquecem o planeta de igual maneira como a queima de combustíveis fósseis. A civilização está nos levando a um clima ao estilo do Plioceno que poderia chegar em 2030 (de acordo com um artigo da Proceedings of the National Academy of Sciences publicado em 26 de Dezembro de 2018, que se apoia no fortemente conservador Representative Concentration Pathways do IPCC, https://www.pnas.org/content/115/52/13288.short). Não consigo imaginar que humanos e outros mamíferos vertebrados sejam capazes de sobreviver a uma taxa tão alta de mudanças. Ainda sim, como apontei acima, desacelerar ou deter a civilização aqueceria o planeta ainda mais rápido do que se a mantivéssemos em pé.

Erva Daninha: Entre muitos outros cenários, temos destacadas as visões utópicas e esperançosas defendidas por Naomi Klein em relação ao ecossocialismo como uma alternativa para “salvar o mundo” de uma catástrofe ecológica e temos também a delirante “revolução primitivista” contra a civilização industrial apoiada por anarquistas como Kevin Tucker e John Zerzan. Em sua opinião, quão eficientes esses sistemas seriam quando o censo global prevê quase 10 bilhões de pessoas no planeta para 2050? Vivemos em um planeta finito com recursos limitados e a maioria desses recursos já desapareceram; mesmo uma mudança radical em direção a um sistema supostamente sustentável exigiria outras fontes massivas de energia, especialmente vinculadas a atividades de transporte ou para a produção de alimentos e, mesmo em casos mais extremos, como os da “utopia primitiva” defendida por alguns anarquistas, atividades em massa como alimentação e moradia, ou o que quer que seja, teriam um enorme impacto ambiental.

A natureza tende a exercer um controle auto-regulador sobre as espécies da Terra para impor uma coexistência orgânica, algo que alguns chamam de cascata trófica, mas a nossa espécie escapou disso e usou a tecnologia moderna a seu favor para superar o controle populacional imposto pela natureza manipulando o meio ambiente e expandindo-se para além de seus limites, enquanto consome a natureza indiscriminadamente e destrói grande parte dos recursos limitados da Terra, unicamente a benefício próprio. Você não acredita que exista uma superpopulação no mundo e que nossa cultura moderna seja alienada e decadente e que, dada a quantidade de bilhões de pessoas no mundo, qualquer proposta para criar uma sociedade global sustentável seria falha?

Guy McPherson: Como indiquei acima, duvido seriamente que sobreviveremos até 2030, muito menos até 2050. Uma população excessiva de humanos está consumindo excessivamente materiais finitos por um tempo excessivo. Superamos severamente o número sustentável de população humana sobre a terra.

Erva Daninha: Você afirmou em várias ocasiões que o IPCC é bastante conservador em suas estimativas. O senhor acredita que exista algum tipo pacto de conduta nessas entidades ou na própria comunidade científica que estabeleça um padrão de comportamento para evitar alarmes com impacto na economia ou na própria sociedade? Por exemplo, aqui no Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou dados alarmantes corroborados pela NASA sobre o aumento drástico do desmatamento na floresta amazônica no ano de 2019, e esta ação resultou na demissão de Ricardo Galvão, diretor da agência, a pedido do presidente Jair Bolsonaro. Acreditamos que, embora alertem sobre a crise climática, estas entidades e a maioria dos cientistas operam dentro da mesma lógica que a da cultura da civilização industrial-tecnológica e defendem a manutenção dessa lógica que, em teoria, seria a essência do caos climático, então, talvez por ordem dos governos (como foi o caso no Brasil), ou por iniciativa própria, as instituições manejam seus dados com precaução para não expor a inviabilidade dessa ordem social ecocida. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: O IPCC usa uma abordagem muito conservadora para desenvolver as suas avaliações. Os cientistas dentro dos grupos de trabalho geralmente recorrem à relutância ao tirar suas conclusões. Depois que uma avaliação é preparada por cientistas conservadores, exigidos pelo IPCC para obter consenso, essa avaliação é enviada aos governos para uma revisão. Como você pode imaginar, os governos do mundo estão interessados principalmente em sustentar o crescimento econômico. “Salvar o mundo” não está na sua agenda.

Erva Daninha: Recentemente, um cientista brasileiro revelou que a Antártica atingiu uma temperatura surpreendente de 20º C, algo que “nunca foi visto antes”. Tais temperaturas são drásticos exemplos do aquecimento global. As consequências do aumento da temperatura nesses ambientes congelados já são bem conhecidas, o aumento do nível do mar é amplamente discutido na comunidade científica, mas os efeitos do derretimento não se restringem a apenas isso. A revista Nature já publicou um estudo no qual afirma que a Antártica está possivelmente retendo quantidades colossais de gás metano produzido ao longo de milhares de anos dentro de sua camada de gelo e que, se esse gás fosse liberado, teria um impacto agressivo no efeito estufa. O mesmo vale para o Ártico com permafrost, onde a situação é talvez ainda mais grave, pois o solo do Ártico não está mais congelado. Estudos indicam que o permafrost contém o dobro da quantidade total de carbono atualmente na atmosfera da Terra, e que um vazamento massivo desse material seria catastrófico para a vida na Terra, podendo até causar uma extinção em massa como a do período Permiano-Triássico. Você acredita que o efeito da “arma de clatratos” poderia realmente colocar em risco a maior parte da vida na Terra até 2040?

Guy McPherson: Não só eu concordo, como também o renomado cientista climático James Hansen que discutiu esta possibilidade. Um artigo de 2017 revisado entre pares por Hansen e seus colegas, indicava que a Terra se encontrava em suas temperaturas mais altas desde a existência da nossa espécie (https://arxiv.org/abs/1609.05878). De fato, as emissões de metano provenientes do fundo do gelo e também as emissões de metano que saem do derretimento do permafrost representam dois dos sete meios pelos quais o planeta poderia aquecer muito rapidamente, destruindo o habitat para os seres humanos (https://weeklyhubris.com/seven-distinct-paths-to-loss-of-habitat-for-humans/).

Erva Daninha: Em 2014, em uma entrevista à Russia Today, citando um estudo do cientista climático Tim Garrett, você disse que apenas o colapso total da civilização industrial poderia impedir mudanças climáticas descontroladas. Por razões lógicas, uma solução baseada nessa premissa nunca virá de nenhum governo ou instituição como a ONU. Pelo contrário, o fraco Acordo de Paris já foi abandonado pelos Estados Unidos, o maior emissor de gases de efeito estufa de toda a história, e o Estado brasileiro também mostrou sinais de sua intenção de abandonar o acordo. Estudos como o da Universal Ecological Fundation já apontaram que o acordo não será suficiente para limitar o aumento da temperatura entre 1,5º C e 2º C em relação aos níveis da era pré-industrial. Avaliações como a sua indicam a possibilidade de um aumento superior a 3,5º C em um curto período de tempo. A interrupção das atividades industriais é impensável no mundo moderno, pois isso significaria negar a própria lógica na qual a maioria dos países estão inseridos. No entanto, isso não significa que cenários como esse sejam impossíveis de serem alcançados, apenas não através da ação de governos, claro.

No final do ano passado, os rebeldes houthis atacaram a maior refinaria de petróleo do mundo na Arábia Saudita com drones, interrompendo metade da produção do reino, que fornece 10% de todo o petróleo consumido no mundo. Embora extremo, este é um exemplo real da interrupção abrupta de uma atividade que é prejudicial ao meio ambiente. Grupos como os Vingadores do Delta do Níger também causaram danos catastróficos à produção de petróleo em países como a Nigéria. Estudos publicados pela revista Science Advances também concluíram que a guerra no Oriente Médio fez com que a poluição diminuísse em algumas áreas da região, porque os níveis de atividade industrial diminuíram e as atividades da vida urbana, como dirigir, foram afetadas. Deixando de lado todo o julgamento que poderia implicar esse tipo de ação e considerando o fato de que são necessárias ações urgentes para interromper a atividade industrial e os governos nunca as oferecerão, você considera que há eficiência prática nesse tipo de ação para interromper as emissões de poluentes ou destruição do meio ambiente no mundo? Repito, pergunto de uma perspectiva puramente prática, deixando de lado o julgamento sobre se é legal ou ilegal.

Guy McPherson: Consulte as informações anteriores sobre o efeito do Escurecimento Global.

Erva Daninha: Dr. Guy, o mundo está atualmente enfrentando uma pandemia do COVID-19, uma das mais catastróficas dos últimos tempos. A atenção está praticamente toda focada nos danos econômicos causados por essa situação, fala-se muito de uma nova recessão econômica no mundo e de uma crise financeira global semelhante à de 2008, mas pouco se fala sobre os benefícios dessa pandemia para o meio ambiente. Você mesmo disse que a interrupção total das atividades industriais são os eventos mais benéficos que podem contribuir para o não aumento da temperatura global e é exatamente isso que esta doença está causando.

Na China, houve uma grande paralisia das atividades econômicas e a redução de gases poluentes foi enorme e abrupta. Em fevereiro deste ano, a concentração desses gases foi 25% menor em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Center for Research on Energy and Clean Air. Na Itália, com o turismo reduzido a zero, as águas do Grande Canal de Veneza pareciam melhores e a qualidade do ar melhorava na área, segundo a prefeitura. Dados do satélite Sentinel-5P do programa Copernican da Comissão Europeia em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA) mostraram que, em termos gerais, a poluição teve uma forte queda na Itália, especialmente na região norte do país, que foi a mais afetada pelo vírus. Certamente, o mesmo se repete em várias regiões do planeta, e não apenas porque as atividades industriais foram paralisadas ou reduzidas, mas também porque o turismo, o transporte e muitas outras atividades diárias da civilização tecnológico-industrial cessaram.

Com base nisso, como você vê esses grandes desastres e seus benefícios ambientais? Acreditamos que eles contribuem para conter a crise climática global e indicam que, para o planeta, nosso estilo de vida civilizado é tão ruim quanto uma pandemia é para nós. Também pensamos que os desastres podem funcionar como uma catarse auto-reguladora da terra, tentando desmantelar o estilo de vida moderno e prejudicial e a grande civilização tecno-industrial.

Guy McPherson: Na verdade, revi minha avaliação sobre os horrores da civilização industrial, conforme observado acima. A civilização industrial intoxica o ar, suja as águas e enche os mares de óleo. A civilização industrial é uma praga para o planeta vivo. No entanto, partindo da perspectiva das mudanças climáticas, manter a civilização ajuda a sustentar o habitat dos seres humanos na Terra. Na nossa ausência, as plantas nucleares do mundo entrariam em colapso catastroficamente, deixando assim o planeta banhado em radiação ionizante. Suspeito que um evento destas características destruiria o habitat para todas as formas de vida na Terra em poucas gerações depois que as mutações letais começassem.

Erva Daninha: Atualmente vemos o surgimento de um “Green New Deal” global através de novos movimentos como o Extinction Rebellion e o Movimento Sunrise e também por ativistas climáticos como Greta Thunberg. Para os pouco informados, parece algo novo, mas o mesmo aconteceu em tempos passados com várias ONGs, com ênfase no Greenpeace, que ao longo dos anos reduziu suas atividades a performances pacíficas a serem registradas e disseminadas nas mídias sociais, campanhas para assinar petições para o governo e uma intensa atividade de greenwashing para promover o consumo supostamente sustentável.

Hoje as grandes eco-organizações do passado estão promovendo um discurso de mudança individual para mudar o mundo, o famoso ativismo “faça a sua parte”, uma vez que foram aceitas e incorporadas na própria lógica do sistema que criticaram, como é o caso o caso do Greenpeace, que fez pactos com empresas de exploração petroleira e da área madeireira e pesqueira, além de algumas outras. O Extinction Rebellion tem uma aparência muito jovem e atraente, o movimento atrai muitas pessoas para gritar contra líderes globais e exigir mudanças nas políticas ambientais em todo o mundo, respeitando os limites que a ordem lhes impõe e, indiretamente, usando a mesma lógica à qual se opõem e esperando dos líderes globais as tão esperadas mudanças nas políticas ambientais, os mesmos líderes que demonstram que são incapazes de cumprir acordos básicos como o de Paris. Você não acha que há ingenuidade nesses movimentos e que, em vez de abordar a raiz do problema, eles indiretamente defendem reformas e perpetuam a civilização industrial destrutiva? Se eles não estão lutando pelo fim da sociedade industrial, mas pela existência de uma “sociedade industrial melhor”, essa luta não seria um grande problema e um mero greenwashing?

Guy McPherson: Estes movimentos são excepcionalmente ingênuos. Como indiquei acima, a civilização industrial é uma máquina de calor, mas diminuir ou parar a civilização industrial aqueceria o planeta muito rapidamente. Isso representa um clássico Ardil 22 *NdT3.

Erva Daninha: Um relatório da ONU divulgado no ano passado, provavelmente conservador em termos numéricos, disse que um milhão de espécies de animais e plantas estão em risco de extinção. A principal causa indicada pelo relatório é a agricultura industrial, a poluição e o aquecimento dos oceanos. Muitos cientistas apontam para o mesmo. Você também acredita que estamos atualmente enfrentando a sexta extinção em massa? Esta seria a primeira extinção em massa causada pela espécie humana, certo? Antropoceno seria um termo adequado?

Guy McPherson: A terra se encontra no meio da Sétima Extinção em Massa. Passamos muito tempo acreditando que estávamos na Sexta Extinção em Massa, mas um artigo publicado na revista Historical Biology em 5 de Setembro de 2019 indica um evento de Extinção em Massa anteriormente desconhecido (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08912963.2019.1658096). Deixando esse pequeno ponto de lado, a atual evento de Extinção em Massa é comumente denominado Extinção em Massa do Antropoceno, porque é resultado das atividades humanas (principalmente, da civilização industrial).

Erva Daninha: O estudo de Mark Boyce publicado no Journal of Mammalogy sobre a experiência de reintroduzir lobos no Parque Nacional de Yellowstone reforçou o que muitos já sabiam, a natureza é interconectada e interdependente com as espécies que vivem nela, sejam animais, plantas, fungos, o que quer que seja. Se um único animal desaparece para sempre, toda a cascata trófica é desestabilizada e as consequências podem ser incomensuráveis.

Atualmente, todos os biomas terrestres estão ameaçados pelo avanço da civilização e a velocidade com que as espécies são extintas é mil vezes superior ao normal, segundo um estudo da University College London. Essa extinção massiva põe em perigo a vida não apenas das espécies, mas também dos próprios biomas. O bioma marinho, talvez o mais importante para a vida na Terra, está desaparecendo rapidamente. Os insetos vitais para os ciclos terrestres, como os polinizadores, também morrem em quantidades catastróficas. Você acha que essa enorme onda de extinção pode atingir a própria espécie humana em algum momento?

Guy McPherson: Várias outras espécies do gênero Homo foram extintas. De fato, todos os indivíduos morrem e todas as espécies se extinguem. O artigo revisado por pares de 13 de Novembro de 2018 na Scientific Reports indica que toda a vida na Terra se extinguirá com os aumentos de temperatura prognosticados para o futuro próximo, principalmente como resultado de co-extinções (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Em outras palavras, espécies como a nossa, que dependem de outras espécies para sua própria existência, enfrentam um risco existencial especificamente porque dependem de outras espécies. O atual apocalipse de insetos, o ritmo acelerado das mudanças climáticas, etc. A união interdependente de tantas formas de vida na Terra garante a nossa extinção a curto prazo.

Erva Daninha: Às vezes você é apontado na comunidade científica e em círculos ecologistas como alguém tremendamente pessimista e sem esperança. Nós pensamos em você como alguém que é apenas realista e bem informado. Na verdade é a própria realidade pessimista e cheia de más notícias para o futuro da humanidade. No ano passado, um texto chamado A esperança é um erro e uma mentira foi publicado em seu site, no qual você destrói o comportamento esperançoso sobre o futuro de nossa espécie. Dr. Guy, você não acha que há uma dificuldade amarga na comunidade científica, e entre militantes e ativistas, normalmente anarquistas e esquerdistas, de aceitar a realidade sobre o nosso futuro e entender o fato de que dias melhores nunca virão?

Nós em particular, somos bastante realistas (e também pessimistas) sobre o futuro de nossa espécie e acreditamos que, como seres humanos, traçamos nosso próprio fim e que colheremos as consequências da estrutura ecocida que os homo sapiens ergueram. Isso nos permite lidar com a realidade da maneira mais dura, fria e necessária. Ativistas ingênuos gritam para seus líderes políticos adotarem novas políticas ambientais, anarquistas e esquerdistas já parecem saber que não há saídas, mas eles preferem negar isso com todas suas forças e se apegam a sonhos utópicos confortáveis que não podem ser alcançados. A esperança é como uma droga e este perfil de pessoas é viciado, não podem aceitar os dias sombrios que estão por vir, então correm em círculos, porque renunciar à esperança seria renunciar à própria humanidade e a tudo o que ela criou até hoje. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: A sociedade adotou a ideia de que a esperança é universalmente boa. Eu acreditei nisso por um longo tempo, então busquei a definição no dicionário. Como você indicou, prefiro a realidade dura a submergir-me em delírios que dificilmente serão alcançados, e a esperança é uma versão destes pensamentos inalcançáveis.

Erva Daninha: Dr. Guy, o que você acha da perspectiva antropocêntrica de se enxergar as coisas? Esse tipo de pensamento que coloca o ser humano no centro de tudo e lhe dá mais importância do que as outras espécies está presente mesmo nas escolas contemporâneas de pensamento que apresentam uma crítica ecológica radical, como é o caso do eco-anarquismo.

Acreditamos que o ser humano é apenas mais uma espécie dentre as milhares que existem, e que talvez nem seja tão importante. O ciclo vida-morte está omnipresente na natureza e faz parte da trajetória de qualquer ser vivo; os seres nascem e morrem o tempo todo. O ser humano moderno nega a morte e sempre busca prolongar a sua existência. Não é errado dizer que a evolução da medicina, especialmente a medicina moderna, que proporcionou aos humanos tanta longevidade, fez com que burlassem a seleção natural e se expandissem em um ritmo muito acelerado. Hoje, as técnicas de biotecnologia e nanotecnologia flertam com a imortalidade. Acreditamos que esse tipo de pensamento também influenciou a capacidade da humanidade de alcançar um maior grau de ecocídio na Terra e é a base dos valores que apoiam as civilizações. O que você pensa sobre isso?

Guy McPherson: Estou completamente de acordo. O Homo Sapiens representa uma espécie entre milhões que ocupam a Terra. Criamos as condições ambientais contrárias à continuação da vida neste maravilhoso planeta. Nós nos esforçamos para alcançar a imortalidade a nível individual e a nível de espécie. Pelo contrário, a aceitação da própria morte é um presente cheio de paz. O mesmo sentimento mantém sua veracidade ao nível da espécie.

Erva Daninha: Dr. Guy, existe a possibilidade de que o aquecimento global possa revelar ao mundo algo tão sério quanto a atual pandemia de coronavírus? Notícias recentes mostraram que o derretimento no Ártico e em outras regiões congeladas estava resultando no reaparecimento de bactérias e vírus considerados extintos e também tinha a possibilidade de liberar bactérias e vírus pré-históricos de capacidade patogênica desconhecida. A revista Scientific Reports já publicou que o derretimento do gelo no Ártico liberou um vírus normalmente encontrado no Atlântico que contaminou lontras marinhas no Alasca. Acreditamos que os super-microrganismos patogênicos poderiam, através do derretimento nos polos extremos da terra, alcançar as costas de vários países e iniciar infecções por pandemia, como ocorreu com o coronavírus na China, que poderia ter começado em um mercado de frutos do mar. Com base na sua experiência como pesquisador, você acredita que essa possibilidade é real?

Guy McPherson: Há poucas dúvidas sobre as interações entre as mudanças climáticas e o COVID-19. As mais importantes são (1) a potencial redução do efeito do Escurecimento Global à medida que as indústrias desaceleram, e (2) o reaparecimento de muitos vírus como resultado do derretimento do gelo (acelerado pelas mudanças climáticas). 28 novos grupos virais foram encontrados recentemente em uma geleira que estava derretendo (https://www.popularmechanics.com/science/health/a30643717/viruses-found-melting-glacier/). O novo coronavírus atualmente nos noticiários é a primeira de muitas dessas dificuldades que vamos enfrentar.

Erva Daninha: Uma pesquisa da revista Science Advances in Atmospheric Sciences revelou que 2018 foi o ano mais quente já registrado para as temperaturas dos oceanos desde o início do monitoramento. Muitas pessoas afirmam erroneamente que as florestas são os “pulmões da terra”. Embora importantes para a produção de oxigênio, absorção de carbono e regulação do clima, as florestas não produzem a maior parte do oxigênio do mundo, os oceanos produzem. O que acontece é que, com o aquecimento global, as temperaturas nos oceanos estão aumentando, uma vez que mais ou menos 93% de todo o calor das mudanças climáticas é absorvido pelos oceanos.

Os biomas e a fauna marinha são extremamente sensíveis às mudanças climáticas, e não são apenas as mudanças climáticas que atacam os mares, mas também a poluição (incluindo a poluição sonora de barcos e submarinos), a pesca industrial, o turismo etc. Os oceanos do mundo estão em uma situação muito delicada e, ao contrário de uma reserva ecológica terrestre, onde a destruição humana pode ser facilmente controlada e com grande esforço, revertida, o que acontece nos mares é que as ações de mitigação estão fora de controle. Embora possível, não é fácil “plantar” corais marinhos, plantar grama não é o mesmo que “plantar algas”, embora existam experiências bizarras de geoengenharia que proponham isso (o que poderia ser mais desastroso do que eficiente). Que diagnóstico você faria da situação dos oceanos globais e o que pode acontecer se eles continuarem a perder a vida marinha?

Guy McPherson: Nós somos produtos do oceano. Todas as formas de vida dependem do oceano. Paul Watson, autor e fundador da Sea Shepherd Conservation Society, afirma da melhor forma: “Não podemos viver neste planeta com os oceanos mortos. Se os oceanos morrem, nós morreremos”. Estamos no meio de um evento global de “branqueamento de corais”, o terceiro na história. Também é o terceiro desde 1998. A desoxigenação é um problema urgente para os sistemas marinhos atualmente. Eu apresentei evidências abundantes na literatura revisada por pares: https://guymcpherson.com/2018/12/ocean-deoxygenation-as-an-indicator-of-abrupt-climate-change/

Erva Daninha: No ano passado, um estudo pouco confiável da revista Science afirmou que para limitar o aumento da temperatura global a 1,5º C (meta do Acordo de Paris) seriam necessários 1,2 trilhão de novas árvores em todo o mundo, e o estudo defendeu o plantio indiscriminado de árvores para absorver e reduzir o excesso de dióxido de carbono na atmosfera da Terra. Achamos que o estudo não é confiável, pois apresenta apenas a quantidade como solução, sem pensar na complexidade do processo e em seus efeitos colaterais. O plantio indiscriminado de árvores, de acordo com o que lemos na literatura científica, como a análise do brasileiro Gerhard Overbeck, que confrontou uma proposta como essa do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique publicada no artigo The global tree restoration potential (O potencial global de restauração de árvores); pode ter consequências ambientais. Do nosso ponto de vista, plantar árvores indiscriminadamente parece irresponsável e inconsequente. A natureza é complexa, auto-reguladora e interconectada, a natureza não é apenas quantidade, mas complexidade. Os biomas não podem ser gerados abruptamente e, a longo prazo, o plantio massivo de árvores também pode trazer consequências ambientais, como o esgotamento das reservas de água subterrâneas, migrações ou extinções de espécies de animais e plantas, etc. O que você acha dessa proposta de cultivo massivo e plantio indiscriminado de árvores para reduzir a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera da Terra?

Guy McPherson: Esta ideia é terrível. Escrevi a respeito aqui: https://guymcpherson.com/2020/02/can-trees-sequester-enough-carbon/

Erva Daninha: Theodore Kaczynski, mais conhecido como Unabomber, escreveu uma vez um texto chamado “O Navio dos Tolos”. O texto é metafórico e muito inteligente, coloca o “navio” como nossa civilização e a tripulação como figuras sociais que mais se destacam em reclamações públicas. Na história, o capitão do navio, que representa líderes políticos no mundo real, é uma pessoa muito vaidosa e confiante, assim como a tripulação, então eles decidem loucamente viajar em águas turvas, em direção a perigosos icebergs. No texto, o capitão, apoiado por sua tripulação, lidera o navio, que simboliza a civilização, em direção a águas cada vez mais perigosas, algo que poderia facilmente resultar no naufrágio do barco se ele colidisse com icebergs. As águas perigosas no texto simbolizam claramente o rumo errado que nossa espécie está tomando, e os icebergs seriam o fim, a extinção. No conto, enquanto o capitão dirige o barco em direção aos icebergs, a tripulação começa a reclamar de vários problemas no navio. Há o membro da tripulação pobre que reclama de ganhar pouco, há a membra da tripulação feminina que reclama da desigualdade entre homens e mulheres no barco, há o membro da tripulação imigrante que reclama da desigualdade no tratamento de estrangeiros, há o membro da tripulação que é um índio que reclama que os brancos roubaram suas terras e é por isso que ele acabou naquele navio e nem deveria estar ali, há o membro da tripulação gay que reclama que ele é discriminado por suas preferências sexuais, há o membro da tripulação que é vegano e queixa-se de que os animais no barco estão sendo maltratados, há o membro da tripulação que é professor universitário e um tipo de intelectual que defende e apoia todas as queixas anteriores, e há também outro tripulante, um indivíduo que é ignorado por todos os anteriores e que diz que, embora todos se queixem do que os incomoda, o navio está indo em direção a icebergs e isso poderia matar a todos eles muito em breve. À medida que a história continua, as queixas continuam e o capitão atende a cada uma delas pouco a pouco, concedendo mais direitos para interromper os protestos e acalmar os ânimos. O mesmo cenário é repetido algumas vezes e o capitão sempre consegue acalmar a sua tripulação, concedendo-lhes um pouco mais de direitos, mas sem nunca mudar o rumo do barco. No final da história, todos estão mais ou menos satisfeitos com suas realizações, que não são grandes, mas são importantes de qualquer maneira, e de repente o barco colide com um imenso iceberg e todos morrem.

Dr. Guy, acreditamos que não é preciso muito esforço para entender que essa história reflete perfeitamente a situação crítica do mundo, com a grave crise ecológica em andamento, líderes políticos demagogos, movimentos sociais e suas queixas, e aquele 1% que percebe a delicada situação em que estamos e tenta alertar sobre o ecocídio ou agir à sua maneira contra a catástrofe climática. Você acredita que esse conto reflete lucidamente a realidade do mundo e os movimentos sociais existentes?

Guy McPherson: Sim, sem sombra de dúvidas. Kaczynski esteve a frente de seu tempo.

Erva Daninha: O respeitável cientista brasileiro Antonio Donato Nobre publicou em 2014 um relatório chamado O Futuro Climático da Amazônia, que destaca que, devido ao desmatamento e degradação, a floresta amazônica pode estar próxima do que ele chama de “ponto sem retorno”, quando não é mais capaz de se regenerar por conta própria e começa a se mover em direção à desertificação total. Desde então, seis anos se passaram e o desmatamento se intensificou consideravelmente, principalmente após a eleição de Jair Bolsonaro e a gestão de Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente. Em outras florestas tropicais da Ásia e da África, o desdobramento é o mesmo, há intenso desmatamento, de acordo com alguns relatórios científicos. As florestas tropicais são extremamente importantes no mundo, pois ajudam a regular o clima e o ciclo das chuvas; portanto, se essas florestas desaparecerem, as chuvas também poderão desaparecer e uma infinidade de ecossistemas seriam afetados e, talvez até extintos. Dr. Guy, você acha que existe a possibilidade de que, a curto prazo, possamos ver um processo severo de desertificação no planeta? Esse fenômeno já está ocorrendo no mundo, inclusive aqui no Brasil, especialmente nas regiões nordeste e norte do país, mas você acha que as florestas tropicais do mundo podem atingir o “ponto de não retorno” e colapsar e tornarem-se desertos, como defende o Dr. Antonio Donato Nobre?

Guy McPherson: A atual exploração da Amazônia é um emblema de nossa corrida à ganância. Existem muitos exemplos de florestas transformadas em desertos pelos humanos “civilizados”. O exemplo da Amazônia é uma continuação de outros exemplos anteriores no Crescente Fértil, grande parte do Oriente Médio e o Norte da África, e assim por diante. Em vista destes exemplos, podemos esperar um resultado terrível para a Amazônia.

Erva Daninha: Dr. Guy, um estudo da Rights and Resources Initiative (RRI), Woods Hole Research Center (WHRC) e World Resources Institute (WRI) indicou que as reservas indígenas detêm 24% do carbono armazenado na superfície terrestre. Os povos nativos têm perspectivas de existência distintas da nossa e uma relação diferente com a terra, por isso a preservam, a preservam porque a consideram sagrada e porque é dela que obtêm sua comida diretamente, da caça, coleta e baixa agricultura. A preservação é apenas uma consequência, uma consequência bonita e inteligente.

Acreditamos que há uma crise cultural dentro da civilização, especialmente com a chegada da modernidade ultratecnológica e cibernética. Nossa dieta, padrões de sono, cacofonia, rotina repetitiva, tipos de trabalho, pressão da família, trabalho ou sociedade, super e subproteção familiar, sedentarismo, obesidade, câncer, epidemias e pandemias, “infocalipse”, isolamento social nas redes sociais, confinamento, artificialização de tudo, poluição visual, o acinzentado das cidades, velocidade com o que tudo passa (dias, informações, pessoas, etc.), mudanças climáticas que influenciam em nossa disposição, controle social, vigilância, pornografia, publicidade, tendências, traumas, abusos, drogas, ideologias, abstração, perda de identidade, perda de raízes, liquidez de relacionamentos sociais, familiares e amorosos, violência, polícia, prisões, guerras, doenças psicológicas, distúrbios, ansiedade, depressão, suicídio, medo. Acreditamos que boa parte de todos esses problemas advém da vida civilizada e de seus valores, crenças, rotinas e comportamentos, principalmente da vida moderna, e que esses problemas só pioram com o passar dos anos e, possivelmente, alguns deles podem reincidir mesmo no cenário de alguma sociedade socialista, vegana, anarquista ou permacultural. Não sabemos se você já reparou nisso, mas quando caminhamos por uma floresta e sentimos a sua serenidade, o cheiro de terra molhada, o barulho dos animais, tudo parece estar bem, como se fosse terapêutico. Talvez seja a informação antiga contida em nosso DNA que traz de volta as memórias da vida ancestral na floresta. Alguns de nós somos descendentes diretos de tribos nativas e quilombolas ou temos fortes laços com o que resta dessas culturas ancestrais e sentimos que a solução para o ecocídio global e a crise cultural na civilização não é pensar no futuro, mas olhar para trás, ao nosso passado, ao modo de vida ancestral, em suas respeitosas relações com a terra, razão pela qual os povos indígenas preservam suas reservas e, consequentemente, elas podem absorver o carbono. Não somos ingênuos, não romantizamos povos tribais e muito menos cremos em um “futuro primitivo” como aquele pregado por anarquistas como John Zerzan e Kevin Tucker, nem achamos que seria saudável para qualquer ecossistema que uma grande parte da população mundial mudasse seu estilo de vida para um modelo primitivo para “salvar o mundo”. Com o número de humanos que existem hoje na Terra, acreditamos que nenhum modelo seria sustentável a longo prazo. O que acreditamos é que, em outra realidade (atualmente existente) longe da civilização e da sociedade de massas, a sabedoria e o modo de vida dos povos ancestrais realmente demonstram a possibilidade de coexistência a longo prazo com a natureza, onde há um futuro não apenas para o ser humano, mas para todas as outras espécies. Certamente, não é isso que o atualmente o futuro reserva para a espécie humana. Mas, independentemente do fim que está se aproximando, o que você acha dessa ideia de olhar para trás, para os tempos ancestrais e não para o futuro?

Guy McPherson: Coincido absolutamente. Muitas sociedades pré-civilizadas aprenderam e praticaram a sustentabilidade muito mais que os humanos contemporâneos, como observou Turnbull (The Forest People [1961], The Mountain People [1972]) e Quinn (Ishmael [1992], Beyond Civilization [1999]). Um exemplo clássico e muito citado é o da Confederação dos Iroqueses tomando decisões depois de considerar o impacto que teriam em sete gerações no futuro. Padgett nos fornece uma análise baseada na educação em 2018 (“Sustainability of Education: An Ecopedagogical Approach,” Journal of Sustainability Studies 1(1), Article 5, https://ir.una.edu/sustainabilityjournal/vol1/iss1/5). Claramente, o aprendizado era uma parte importante na vida cotidiana da Confederação dos Iroqueses e de outras sociedades pré-civilizadas. Pelo contrário, as evidências apresentadas aqui indicam que os humanos contemporâneos não aprenderam a praticar ações sustentáveis.

Erva Daninha: Guy, você diz que frear a civilização industrial abruptamente levaria à morte imediata de toda a vida humana na Terra, e talvez de toda forma de vida. Mas deixá-la continuar terá as mesmas consequências, vinte ou trinta anos mais tarde. Então… o que deveríamos fazer? O que você propõe? Qual é a sua postura pessoal a respeito?

Guy McPherson: A certeza da morte, junto com o absurdo da vida, me ajuda a viver com urgência e autenticidade.

Quase todos os dias as pessoas me pedem conselhos sobre como viver. Eu recomendo morar onde você se sinta mais vivo. Recomendo viver plenamente. Recomendo viver com intenção. Recomendo viver com urgência, com a morte em mente. Recomendo a busca da excelência. Recomendo a busca do amor. Não é de surpreender que eu seja frequentemente ridicularizado, alvo de piadas, rechaço e seja isolado por meus próprios contemporâneos na comunidade científica.

Persiga a ação correta. Não se apegue aos resultados. Considerando o pouco de tempo restante em sua vida e na minha, recomendo tudo isso acima, mais do que nunca. Mais intensamente do que você possa imaginar. Para os limites desta cultura restritiva e além. Por você. Por mim. Por nós. Por aqui. Pelo agora. Viva grande. Seja você mesmo, e mais ousado do que nunca. Viva como se estivesse prestes a morrer. O dia se aproxima.

Erva Daninha: Certo! Dr. Guy, agradecemos a oportunidade de entrevistá-lo. Foi um prazer. Se você quiser deixar uma mensagem, sinta-se à vontade para fazê-lo.

Guy McPherson: Agradeço a você. Aprecio a oportunidade de informar as pessoas sobre o mundo que ocupamos.

Notas do Tradutor:

1. NTHE, por suas siglas em inglês (Near-term human extinction).

2. IPCC, por suas siglas em inglês (Intergovernment Panel on Climate Change).

3. Ardil 22 é uma novela satírica antibelicista de ficção histórica escrita por Joseph Heller e publicada em 1961.

Interview with Guy McPherson about Anthropocene and Climate Crisis

Erva Daninha interview with Guy R. McPherson. Guy is an American scientist, professor emeritus of natural resources and ecology and evolutionary biology at the University of Arizona. We thank Guy for this interview with us. His website is Nature Bats Last.

DESCARREGUE em PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

Erva Daninha: First of all, we want to thank you for accepting this interview, Dr. Guy McPherson. Your scientific investigations into the climatic chaos within industrial civilization are of tremendous importance in pointing out the seriousness of the environmental crisis in the world caused by human activity.

So let’s begin, you are known for defending the idea of Near-Term Human Extinction (NTHE). Can you explain to us what NTHE is and what are the main ecological indicators that support this theory?

Guy R. McPherson: Thank you for the opportunity to engage with you and your audience.

Near-term human extinction (NTHE) as a result of abrupt climate change refers to the rapid demise of our species, Homo sapiens. I have predicted NTHE for many years, and I have recently been joined by others in my prediction.

Humans are animals. As with other animals, our species requires hábitat to survive. Specifically, humans are vertebrate mammals. Yet the projected rate of environmental change, using the gradual rate of change projected by the Intergovernment Panel on Climate Change (IPCC), outstrips the ability of vertebrates to adapt by a factor of 10,000 times (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ele.12144). Mammals will take millions of years to recover from the ongoing Mass Extinction Event (https://www.pnas.org/content/115/44/11262). I seriously doubt our species can avoid extinction even as non-human vertebrates and non-human mammals disappear.

At least seven species in the genus Homo have already gone extinct, even though none of those species were on Earth during a Mass Extinction Event. We are in the midst of a Mass Extinction Event. According to conservation biologist Gerardo Cellabos, lead author of a paper published 19 June 2015 in Science Advances indicating Earth is experiencing a Mass Extinction Event (https://advances.sciencemag.org/content/1/5/e1400253), “life would take many millions of years to recover, and our species itself would likely disappear early on.” (https://phys.org/news/2015-06-sixth-mass-extinction-declares.html). A paper with the same lead author published 25 July 2017 in the Proceedings of the National Academy of Sciences indicates Earth is well into the ongoing Mass Extinction Event (https://www.pnas.org/content/114/30/E6089.short).

A paper in the November 2018 issue of Scientific Reports indicates a 5-6 C global-average rise in temperature will cause the extinction of all life on Earth (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Such an increase in global-average temperature is expected shortly after the Arctic Ocean become free of ice, an event incorrectly projected to occur in 2016 + 3 years in the 2012 issue of Annual Review of Earth and Planetary Sciences (https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev-earth-042711-105345). Despite this incorrect projection, an ice-free Arctic looms on the near horizon.

Commercial air travel poses an existential threat to all life on Earth. According to a paper in the 27 June 2019 issue of Atmospheric Chemistry and Physics, contrails alone could eliminate habitat for most, if not all, life on Earth by disrupting atmospheric circulation patterns (https://www.atmos-chem-phys.net/19/8163/2019/). This conclusion is supported by a study published online 12 December 2019 in Earth and Space Science Open Archive (https://www.essoar.org/doi/10.1002/essoar.10501296.1).

The standard response to the ongoing climate crisis is to recommend a reduction in emissions of greenhouse gases. However, reduced industrial activity tranlates to an abrupt reduction in atmospheric aerosols. These aerosols reflect incoming solar radiation, thereby keeping Earth cooler than it would be without these aerosols. Research on the cooling effect of these aerosols has appeared in the peer-reviewed literature since 1929 (Angstrom, 1929, “On the atmospheric transmission of sun radiation and on dust in the air,” Geografiska Annaler, 11, 156–166). As little as a 20% reduction in industrial activity leads to a 1 C global-average temperature spike with a few weeks (Rosenfeld et al 2019, https://science.sciencemag.org/content/363/6427/eaav0566, and https://www.sustainability-times.com/environmental-protection/research-cooling-from-atmospheric-particles-may-mask-greater-warming/).

Erva Daninha: The well-known activist and writer Naomi Klein, unlike many climate deniers, argues that human activity is closely related to the climate crisis, however, she concentrates most of her efforts on painting capitalism as the great villain against the environment. Occasionally Naomi also criticizes the “industrial socialism” of some nations, but for the most part she defends the same thesis repeated by the great majority of leftists and ecologists around the world, “if we eliminate capitalism everything will be fine”. Dr. Guy, we believe that your criticisms are broader, they target the global industrial complex and not just a specific type of social order. Why do you think that the global technological-industrial society is the real problem and not just capitalism?

Guy R. McPherson: As pointed out with abundant research by Tim Garrett, civilization is a heat engine (https://faculty.utah.edu/u0294462-TIM_GARRETT/research/index.hml). In other words, this set of living arrangements produces heat. It matters little or not at all how industrial civilization operates. Solar panels and wind turbines heat the planet, just as burning fossil fuels. Civilization takes us to a Pliocene-style climate as early as 2030 (according to a paper in the Proceedings of the National Academy of Sciences published 26 December 2018 that relies upon the IPCC’s stunningly conservative Representative Concentration Pathways, https://www.pnas.org/content/115/52/13288.short). I cannot imagine humans or other vertebrate mammals could survive such a rapid rate of change. Yet, as I pointed out above, slowing or stopping civilization heats the planet even faster than keeping civilization running.

Erva Daninha: Among many others scenarios, we have the utopian and hopeful views defended by Naomi Klein regarding eco-socialism as an alternative to “save the world” of an ecological catastrophe, or a delusional “primitivist revolution” against industrial civilization defended by anarchists like Kevin Tucker and John Zerzan. How efficient do you think these systems would be when the global census predicts almost 10 billion people on the planet for 2050? We live on a finite planet with limited resources and most of these resources have already disappeared, even a radical change towards a supposedly sustainable system would require other massive sources of energy, transportation or mass activities for food production, and even in more extreme cases like the “primitive utopia” defended by some anarchists, massive activity like feeding and housing, or whatever it may be, would have an enormous environmental impact on a large scale.

Nature tends to exercise a self-regulatory control over species on earth to enforce an organic coexistence, something that some call the trophic cascade, but our species has escaped this and has used the modern technology to its advantage to surpass the population control enforced by nature, manipulating its surroundings and expanding beyond its limit, whilst consuming nature indiscriminately and destroying great part of the limited resources on earth, all for it’s own benefit. Don’t you believe that there is overpopulation in the world and that our modern culture is alienated and decadent and that given the amount of billions of people in the world, any proposal to create a global sustainable society would be flawed?

Guy R. McPherson: As indicated above, I seriously doubt we survive until 2030, much less 2050. Too many humans have been consuming too many finite materials for far too long. We have severely overshot a sustainable population of humans on Earth.

Erva Daninha: You have stated on a number of occasions that the IPCC is quite conservative in its estimates. Do you believe that there is some kind of internal law within these entities or in the scientific community itself that establishes a pattern of behavior in order to avoid alarms that would have an impact on the economy or in society itself? For example, here in Brazil the National Institute for Space Research (INPE) released alarming data corroborated by NASA about the drastic increase of deforestation in the Amazon Rain forest in the year 2019, which resulted in the dismissal of Ricardo Galvão, director of the agency, at the behest of president Jair Bolsonaro. We believe that although they do warn about the climate crisis, these entities and most scientists operate within the same logic as that of the culture of industrial-technological civilization and defend the maintenance of this logic that in theory would be the essence of climatic chaos, then perhaps at the behest of governments (such was the case in Brazil), or by their own initiative, institutions handle their data carefully so as not to expose the infeasibility of this ecocidial social order. What do you think about this?

Guy R. McPherson: The IPCC uses a very conservative approach in creating their assessments. Scientists within working groups typically employ reticence in reaching their conclusions. After an assessment is drafted by conservative scientists who are required by the IPCC to rely upon consensus, the assessment is sent to governments for review. As you can probably imagine, the governments of the world are primarily interested in sustaining economic growth. “Saving the world” is not on the agenda.

Erva Daninha: Recently a Brazilian scientist revealed that Antarctica reached a surprising temperature of 20º C, something that was “never seen before”. Such temperatures are harsh examples of global warming. The consequences of the temperature rise in these frozen environments are already well known, the rise of the sea levels is widely discussed in the scientific community, but the effects of the melting are not restricted to it. Nature magazine has already published a study in which it states that Antarctica is possibly retaining colossal amounts of methane gas produced over thousands of years within its ice sheet and that if this gas were to be released, it would have an aggressive impact on the greenhouse effect. The same is true for the Arctic with permafrost, where the situation is perhaps even more serious, as the Arctic soil is no longer frozen. Studies indicate that the permafrost contains twice the total amount of carbon currently in the Earth’s atmosphere, and that a massive leak of this material would be catastrophic for life on Earth, even being able to cause a mass extinction like that of the Permian-Triassic period. Do you believe that the “clathrate gun” effect could really endanger most life on earth up until the year 2040?

Guy R. McPherson: Not only do I agree, but renowned climate scientist James Hansen has discussed this possibility. A peer-reviewed paper by Hansen and colleagues indicated Earth was at its highest temperature with our species present in 2017 (https://arxiv.org/abs/1609.05878). Indeed, methane emissions from beneath ice and also methane emissions from the melting permafrost represent two of seven means by which the planet could heat very quickly, thereby destroying hábitat for humans (https://weeklyhubris.com/seven-distinct-paths-to-loss-of-habitat-for-humans/).

Erva Daninha: In 2014 at an interview with Russia Today quoting a study by the climate scientist Tim Garrett you said that only the total collapse of industrial civilization could prevent uncontrolled climate change. For logical reasons, a solution based on this premise will never come from any government or institutions like the UN. On the contrary, the weak Paris Agreement has already been abandoned by the United States, the bigest emitter of greenhouse gases of all history, and the Brazilian State has also shown signs of its intents to abandon the agreement. Studies like the one of the Universal Ecological Fundation have already pointed out that the agreement won’t be enough to limit the temperature increase to between 1.5º C to 2º C in relation to the levels of the pre-industrial era. Assessments such as yours indicate the possibility of an increase of more than 3.5º C in a short period of time. Stopping industrial activities is unthinkable in the modern world, as this would mean to deny the very logic in which most countries are inserted in, however this does not mean that scenarios like this one are impossible to achieve, only not through the action of governments, of course.

At the end of last year, Houthis rebels attacked the world’s largest oil refinery in Saudi Arabia with drones, interrupting half of the kingdom’s production, which supplies 10% of all oil consumed in the world. Although extreme, this is a real example of the abrupt interruption of an activity that is harmful to the environment. Groups like the Niger Delta Avengers have also caused catastrophic damage to oil production in countries like Nigeria. Studies published by the magazine Science Advances also concluded that the war in the Middle East caused pollution to decrease in some areas of that region, because the levels of industrial activity decreased and activities of urban life such as driving were affected. Leaving aside all judgment that could be made regarding this type of action and considering the fact that urgent actions to interrupt industrial activity are needed and governments will never offer them, do you consider that there is practical efficiency in this type of action to interrupt pollutant emissions or destruction of the environment in the world? I say it again, I ask from a purely practical perspective, leaving aside the judgment as to whether it is legal or illegal.

Guy R. McPherson: Please see preceding information about the aerosol masking effect.


Erva Daninha:
Dr. Guy, the world is currently facing a COVID-19 pandemic, one of the most catastrophic in recent times. The attention is practically all focused on the economic damage caused by this situation, there is a lot of talk about a new economic recession in the world and a global financial crisis similar to that of 2008, but little is said about the benefits of this pandemic to the environment. You yourself said that total interruption of industrial activities are the most beneficial events that can contribute to the non-rise in global temperature and that is exactly what this disease is causing.

In China, there was a major paralysis of the economic activities and the reduction of polluting gases was huge and abrupt, in February this year the concentration of these gases was 25% lower compared to the same period last year, according to the Center for Research on Energy and Clean Air. In Italy, with tourism reduced to zero, the waters of the Grand Canal in Venice looked better and the air quality improved in the area, according to the city hall. Data from the Sentinela-5P satellite of the Copernican program at the European Commission and the European Space Agency (ESA) showed that in general terms pollution had a strong decrease in Italy, especially in the northern region of the country, the ones that were most affected by the virus. Certainly the same is repeating in various regions around the planet, and not only because industrial activities have been paralyzed or reduced, but also because tourism, transportation and many other daily activities within the technological-industrial civilization have ceased.

Based on this, how do you see these major disasters and their environmental benefits? We believe that they contribute in curbing the global climate crisis and indicate that, for the planet, our civilized lifestyle is just as bad as a pandemic to us. We also think that disasters can function as a self-regulating catharsis from the earth trying to dismantle the harmful modern lifestyle and the great techno-industrial civilization.

Guy R. McPherson: Actually, I have revised my assessment regarding the horrors of industrial civilization, as I have indicated above. Industrial civilization fouls the air, dirties the wáter, and washes soil into the ocean. Industrial civilization is a plague on the living planet. Yet, from the perspective of abrupt climate change, maintaining civilization helps to retain hábitat for humans on Earth. In our absence, the world’s nuclear power plants will melt down catastrophically, thereby leaving the planet bathing in ionizing radiation. I suspect such as event will destroy hábitat for all life on Earth within a few generations after the lethal mutations begin.

Erva Daninha: today we see the rise of a global “Green New Deal” through new movements like Extinction Rebellion and Sunrise Movement and also by climate activists such as Greta Thunberg. For the uninformed it looks like something new, but the same thing happened in past times with several NGOs, with emphasis on Greenpeace, which over the years reduced its activities to peaceful performances to be registered and disseminated on social media, campaigns to sign petitions to the government and an intense greenwashing activity to promote supposedly sustainable consumption.

The great eco-organizations of the past are promoting a discourse of “individual change to change the world”, the famous “do your part” activism, since they were accepted and incorporated within the very logic of the system that they criticized, such is the case for Greenpeace, which made pacts with oil, timber and fishing companies, in addition to many others. Extinction Rebellion has a very youthful and attractive appearance, the movement attracts enough people to shout against global leaders and demand changes in environmental policies around the world, respecting the limits that the order imposes on them, indirectly using the same logic that they oppose to and expecting from global leaders the longed-for changes in environmental policies, the same leaders who demonstrate that they are unable to comply with basic agreements like the one in Paris. Don’t you think that there is naivety in these movements and that instead of addressing the root of the problem they indirectly advocate for reforms and perpetuate the destructive industrial civilization? If they are not fighting for the end of industrial society, but for the existence of a “better industrial society”, wouldn’t this struggle be a big problem and a mere greenwashing?

Guy R. McPherson: These movements are exceptionally naive. As I indicated above, industrial civilization is a heat engine, but slowing or stopping industrial civilization heats the planet very quickly. This represents a classic Catch-22.

Erva Daninha: A UN report released last year, probably conservative in terms of numbers, said that one million species of animals and plants are at risk of extinction. The main cause indicated by the report is industrial agriculture, pollution and the warming of the oceans. Many scientists point towards the same, do you also believe that we are currently experiencing the sixth mass extinction? This would be the first human-made mass extinction, right? Would Anthropocene be a suitable term?

Guy R. McPherson: Earth is in the midst of the Seventh Mass Extinction. We have long believed we were in the Sixth Mass Extinction, but a paper published in the peer-reviewed Journal of Historical Biology on 5 September 2019 indicates an additional, previously unknown Mass Extinction Event (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08912963.2019.1658096). That minor point aside, the ongoing Mass Extinction Event is generally termed the Anthropocene Mass Extinction because it results from human activities (notably, industrial civilization).

Erva Daninha: Mark Boyce’s study published in the Journal of Mammalogy on the experience of reintroducing wolves in the Yellowstone National Park reinforced what many already knew, nature is interconnected and interdependent with the species that live in it, be it animals, plants, fungi, whatever it is. If a single animal disappears forever, the entire trophic cascade is destabilized and the consequences can be immeasurable.

Currently, all terrestrial biomes are threatened by the advance of civilization and the speed with which species are going extinct is a thousand times above normal, according to a study by University College London. This massive extinction endangers the life not only of the species, but of the biomes themselves. The marine biome, perhaps the most important one for life on earth, is rapidly disappearing. Insects vital to earth cycles, such as pollinators, also die in catastrophic quantities. Do you think that this massive extinction wave can reach the human species itself at some moment?

Guy R. McPherson: Several other species in the genus Homo have gone extinct. Indeed, all individuals die and all species go extinct. The 13 November 2018 peer-reviewed paper in Scientific Reports indicates all life on Earth will go extinct with the kind of temperature rise forecast in the near future, largely as a result of co-extinctions (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). In other words, species such as ours that rely upon other species for our own existence, face an existential risk specifically because we depend upon other species. The ongoing insect apocalypse, the rapid rate of environmental change, and our membership as life forms on Earth guarantee our near-term demise.

Erva Daninha: You are sometimes singled out within the scientific community and within the world of ecological discourse as someone who is tremendously pessimistic and hopeless. We think of you as someone who is just realistic and well informed. It’s reality itself that’s pessimistic and full of bad news for humanity’s future. Last year a text called “Hope is a Mistake and a Lie” was published on your website, in which you destroy the hopeful behavior about the future of our species. Dr. Guy, don’t you think that there is a bitter difficulty within the scientific community, and among militants and activists, normally anarchists and leftists, to accept the reality about our future and understand the fact that better days will never come?

Us in particular are very realistic (and also pessimistic) about the future of our species and we believe that as humans we draw our own end and that we will reap the consequences of the ecocidal structure that homo-sapiens has erected. This allows us to deal with reality in the hardest, coldest and most necessary way. Naive activists shout for their political leaders to adopt new environmental policies, anarchists and leftists already seem to know that there is no way out, but they prefer to deny it with all their strength and cling to comfortable utopian dreams that can not be achieved. Hope is like a drug and these types of people are addicted, they cannot accept the dark days to come, so they run in circles, because to renounce hope would be to renounce humanity itself and everything it has created until today. What do you think about this?

Guy R. McPherson: The society has promulgated the idea that hope is universally good. I believed it for a long time. Then I looked up the definition of the word in the dictionary. As you indicated, I prefer reality to wishful thinking. And hope is one versión of wishful thinking.

Erva Daninha: Dr. Guy, what do you think about the anthropocentric perspective of the world? This type of thinking that places the human being at the center of everything and gives it more importance than other species is present even in the contemporary schools of thought that present a radical ecological critique, such is the case with eco-anarchism. We believe that the human being is just one more species among the thousands that exist, and perhaps is not even that important. The life-death cycle is constantly present in nature and it’s a part of the life of any living being, beings are being born and dying all the time. The modern human being denies death and always seeks to extend its existence. It is not wrong to say that the evolution of medicine, especially modern medicine, which has provided humans with such longevity, has caused them to mock natural selection and to expand at a very accelerated pace. Today the techniques of biotechnology and nanotechnology flirt with immortality. We believe that this type of thinking has also influenced humanity’s capability to reach a higher degree of ecocide on earth and it’s the basis for the values that support civilizations. What do you think about this?


Guy R. McPherson: I could not agree more. Homo sapiens represents one species among millions to occupy Earth. We have created environmental conditions contrary to the continuation of life on this beautiful planet. We strive for immortality at the level of individuals and at the level of our species. To the contrary, acceptance of one’s own death is a gift filled with peace. The same sentiment holds true at the level of our species.

Erva Daninha: Dr. Guy, is there a possibility that global warming could reveal to the world something as serious as the current coronavirus pandemic? Recent news showed that the melting in the Arctic and other frozen regions was resulting in the reappearance of bacteria and viruses considered to be extinct and also had the possibility of bringing back prehistoric bacteria and viruses of unknown pathogenic capacity. The magazine Scientific Reports has already published that the melting of the ice in the Arctic has released a virus normally found in the Atlantic that has contaminated sea otters in Alaska. We think that pathogenic super-microorganisms could, through the melting at the extreme poles of the earth, reach the coasts of several countries and start pandemic infections as occurred with the coronavirus on China, which could have started on a seafood market. Based on your experience as a researcher, do you believe that this possibility is real?


Guy R. McPherson: There is little question about the interaction between climate change and COVID-19. Most notable are (1) the potential for a reduction of the aerosol masking effect as industries slow, and (2) reappearance of many viruses as a result of melting ice (accelerated by climate change). Twenty-eight new virus groups were found recently in a melting glacier (https://www.popularmechanics.com/science/health/a30643717/viruses-found-melting-glacier/). The novel coronavirus currently in the news is the first of many such difficulties we face.

Erva Daninha: A survey by the science magazine called Advances in Atmospheric Sciences revealed that 2018 was the warmest year on record for ocean temperatures since monitoring began. Many people erroneously claim that forests are the “lungs of the earth”. Although important for oxygen production, carbon absorption and climate regulation, forests do not produce most of the world’s oxygen, the oceans do. What happens is that with global warming the temperatures in the oceans are increasing since more or less 93% of all the heat from climate change is absorbed by the oceans.

Biomes and marine fauna are extremely sensitive to climate change, and it is not only climate change that attacks the seas, but also pollution (including noise pollution from boats and submarines), industrial fishing, tourism, etc. The world’s oceans are in a very delicate situation, and unlike a terrestrial ecological reserve, where human destruction can be easily controlled and with great effort, reversed, what happens in the seas is that mitigation actions are out of control. Although possible, it is not easy to “plant” marine corals, planting grass is not the same as “planting algae”, although there are bizarre geoengineering experiments that propose this (which could be more disastrous than efficient). What diagnosis would you make out of the situation of the global oceans and what can happen if they continue to lose marine life?

Guy R. McPherson: We are products of the ocean. All life is dependent upon the ocean. Paul Watson, author and founder of the Sea Shepherd Conservation Society, says it best: “We cannot live on this planet with dead oceans. If our oceans die, we die.” We are in midst of the a global coral bleaching event, the third one in history. It is also the third one since 1998. Deoxygenation is a pressing problem in marine systems right now. I present abundant evidence from the peer-reviewed literature: https://guymcpherson.com/2018/12/ocean-deoxygenation-as-an-indicator-of-abrupt-climate-change/

Erva Daninha: Last year, an unreliable study by the Science magazine revealed that to limit the increase in global temperature to 1.5º C (Paris Agreement target) 1.2 trillion new trees would be needed worldwide, and the study advocated the indiscriminate planting of trees to absorb and reduce excess carbon dioxide in the earth’s atmosphere. We think that the study is unreliable because it presents only the quantity as a solution, without thinking about the complexity of the process and its side effects. The indiscriminate planting of trees, according to what we have read in the scientific literature and also to the opinions of scientists, such as that of the Brazilian Gerhard Overbeck, who refuted a proposal like this one from the Federal Institute of Technology in Zurich published in the article The global Tree Restoration Potential; can have environmental consequences. From our point of view, planting trees indiscriminately seems irresponsible and inconsequential. Nature is complex, self-regulating and interconnected, nature is not just quantity, but complexity. Biomes cannot be generated abruptly and in the long run the massive planting of trees could also bring environmental consequences such as depletion of underground water reserves, migrations or extinctions of species of animals and plants, etc. What do you think about this proposal of massive and indiscriminate planting of trees to reduce the amount of carbon dioxide in the Earth’s atmosphere?


Guy R. McPherson: This is a terrible idea. I wrote about it here: https://guymcpherson.com/2020/02/can-trees-sequester-enough-carbon/

Erva Daninha: Theodore Kaczynski, best known as the Unabomber, once wrote a text called “The Ship of Fools”. The text is metaphorical and very intelligent, it places the “ship” as our civilization, and the crew as the social figures that stand out the most in public complaints. In the story, the captain of the ship, who represents political leaders in the real world, is a very vain and confident person, as well as the crew, so they madly decide to travel in murky waters, towards dangerous icebergs. In the text, the captain, supported by his crew, leads the ship, which symbolizes civilization, towards increasingly dangerous waters, something that could easily result in the sinking of the boat if it crashed into icebergs. The dangerous waters in the text clearly symbolize the wrong course that our species is taking, and icebergs would be the end, the extinction. In the tale, while the captain steers the boat towards the icebergs, the crew begins to complain about various problems on the ship. There is the poor crew member who complains about earning little, there is the female crew member who complains about the inequality between women and men on the boat, there is the immigrant crew member who complains about the inequality in the treatment of foreigners, there is the crew member who is an Indian native who complains that the white stole their land and that is why he ended up on that ship and shouldn’t even be there, there is the gay crew member who complains that he is discriminated for his sexual preferences, there is the crew member who is vegan and who complains that the animals on the boat are being abused, there is the crew member who is a university professor and kind of an intellectual who defends and supports all previous complaints, and there is also another crew member, an individual who is being ignored by all the previous ones, and who says that while everybody complains about what bothers them, the ship is heading towards icebergs and that could kill all of them very soon. As the tale goes on, the complaints continue and the captain attends to each complaint little by little, granting more rights to stop the protests and calm the spirits. The same scenario is repeated a few times and the captain always manages to calm his crew down by granting them a little more rights, but without ever turning the boat’s course. At the end of the story everyone is more or less satisfied with their achievements, which are not big, but are significant anyways, and suddenly the boat crashes into a huge iceberg and everyone dies.


Dr. Guy, we believe that it does not take much effort to understand that this story perfectly reflects the critical situation in the world, with the serious ecological crisis underway, demagogue political leaders, social movements and their complaints, and that one percent who realizes about the delicate situation we are in and tries to alert about the ecocide or to act on their own way against the climate catastrophe. Do you believe that this tale lucidly reflects the reality of the world and the existing social movements?

Guy R. McPherson: Yes, without question. Kaczynski was well ahead of his time.

Erva Daninha: The respectable Brazilian scientist Antonio Donato Nobre published in 2014 a report called “The Climate Future of the Amazon” that points out that due to deforestation and degradation, the Amazon forest could be close to what he calls the “point of no return”, when it’s no longer able to regenerate on its own and begins to move towards total desertification. Since then, six years have passed and deforestation has intensified considerably, especially after the election of Jair Bolsonaro and the management of Ricardo Salles, Minister of the Environment. In other tropical forests of Asia and Africa the unfolding is the same, there is intense deforestation, according to some scientific reports. Tropical forests are extremely important in the world, they help to do things like regulating the climate and the rain cycle, so if these forests disappear the rains could also disappear and a myriad of ecosystems would be affected, perhaps extinguished. Dr. Guy, do you think there is a possibility that in the short term we will see a severe process of desertification in the world? This process is already happening in the world, including here in Brazil, especially in the northeast and northern regions of the country, but do you think that the world’s tropical forests can reach the “point of no return” and collapse at the point of becoming desertic, as Dr. Antonio Donato Nobre defends?

Guy R. McPherson: The ongoing exploitation of the Amazon is emblematic of our rush to greed. There are many examples of forests turned into deserts by “civilized” humans. The Amazonian example follows other previous examples in the Fertile Crescent, much of the Middle East and northern Africa, and so on. Given these examples, we can expect a similarly dire outcome in the Amazon.

Erva Daninha: Dr. Guy, a study by the Rights and Resources Initiative (RRI), Woods Hole Research Center (WHRC) and World Resources Institute (WRI) indicated that indigenous reserves hold 24% of the carbon stored on the terrestrial surface. The native peoples have different perspectives of existence and a different relation with the land, that is why they preserve it, they preserve it because they consider it to be sacred and because it is from it that they directly get their food, from hunting and gathering. Preservation is just a consequence, a beautiful and intelligent consequence.


We believe that there is a cultural crisis within civilization, especially with the arrival of the ultratechnological and cyber-connected modernity. Our diet, sleep patterns, cacophony, repetitive routine, types of work, the pressure from the family, work or society itself, over and under protection of the family, physical inactivity, obesity, cancer, epidemics and pandemics, “infocalypse”, social isolation on social networks, confinement, the artificialization of everything, vision pollution, the grayness of the cities, the speed at which everything goes (days, information, people, etc.), the climate changes that influence our disposition, social control, surveillance, pornography, advertisements, trends, traumas, abuses, drugs, ideologies, abstraction, loss of identity, loss of roots, liquidity of social, familiar and loving relationships, violence, police, prisons, wars, psychological illnesses, disorders, anxiety, depression, suicide, fear. We believe that a great part of all these problems comes from civilized life and its values, beliefs, routines and behaviors, especially modern life, and that these problems will only get worse over the years, and possibly even in the scenario of some socialistic, vegan, anarchistic or permacultural society. We don’t know if you have ever experienced this, but when we walk through a forest and feel its serenity, the smell of wet earth, the noise of the animals, everything seems to be fine, as if it were therapeutic. Perhaps it is ancient information contained in our DNA that brings back the memories of ancestral life in the forest. Some of us are direct descendants of native tribes and Quilombolas or have strong ties to what is left of these ancestral cultures and we feel that the solution to the global ecocide and the cultural crisis in civilization is not to think ahead, but to look back, to our past, to the ancestral way of life, at their respectful relations with the land, which is the reason why the indigenous people preserve their reserves and consequently they can absorb carbon. We are not naive, we do not romanticize tribal people and much less believe in a “primitive future” as the one preached by anarchists like John Zerzan and Kevin Tucker, nor do we think that it would be healthy for any ecosystem that a large part of the world’s population would change their lifestyle to a primitive model to “save the world”. With the number of humans that exist today on earth, we believe that no model would be sustainable in the long run. What we believe is that in another reality (currently existing) far from civilization and mass society, the wisdom and way of life of ancestral peoples really demonstrates the possibility of long-term coexistence with nature, where there is a future not only for the human species, but for all others. Of course, that is not what the future currently holds for the human species. But regardless of the end that is getting closer, what do you think about this idea of looking back, to ancestral times, and not further away to the future?


Guy R. McPherson: Absolutely. Many pre-civilized societies learned and practiced sustainability to a far greater extent than contemporary humans, as pointed out by Turnbull (The Forest People [1961], The Mountain People [1972]) and Quinn (Ishmael [1992], Beyond Civilization [1999]). A classic and often-cited example is the Iroquois Confederacy making decisions only after considering the impacts seven generations in the future. Padgett provided an education-based overview in 2018 (“Sustainability of Education: An Ecopedagogical Approach,” Journal of Sustainability Studies 1(1), Article 5, https://ir.una.edu/sustainabilityjournal/vol1/iss1/5). Clearly, learning was an important part of everyday living for the Iroquois Confederacy and other pre-civilized societies. In contrast, the evidence presented herein indicates that contemporary humans have not learned to practice sustainable actions.

Erva Daninha: You say stopping industrial civilization abruptly will bring the immediate demise for human life on earth, and maybe all life. But letting it go on, will have the same consequences, maybe twenty or thirty years into the future. So… What should we do? What do you propose? What’s your personal stance on this?

Guy R. McPherson: The certainty of death, coupled with the absurdity of life, helps me live with urgency and authenticity.

I am asked nearly every day for advice about living. I recommend living where you feel most alive. I recommend living fully. I recommend living with intention. I recommend living urgently, with death in mind. I recommend the pursuit of excellence. I recommend the pursuit of love. It’s small wonder I am often derided, mocked, rejected, and isolated by my contemporaries in the scientific community.

Pursue right action. Do not be attached to the outcome.

In light of the short time remaining in your life, and my own, I recommend all of the above, louder than before. More fully than you can imagine. To the limits of this restrictive culture, and beyond.

For you. For me. For us. For here. For now.

Live large. Be you, and bolder than you’ve ever been. Live as if you’re dying. The day draws near.

Erva Daninha: Dr. Guy, we appreciate the opportunity to interview you. It was a pleasure. If you want to leave a message feel free to do so.

Guy R. McPherson: Thank you. I appreciate the opportunity to inform people about the world we occupy.

[ES – PDF] Revista Ajajema N° 8 – Contra El Progreso Humano Desde El Sur

Todas as edições neste link.

Editorial

“Por fim, escutarei (sem escutar) o ser humano silenciado, mesmo que eu também seja silenciado, e finalmente haverá a voz silenciosa da Natureza Selvagem sussurrando eternamente nos galhos.” – A.

“Sempre antes de sair na rua, e especialmente antes de algum ataque, confio-me aos espíritos dos fueguinos, os agradeço e a eles peço proteção. Minha intenção é mergulhar em tudo isso, aprender coisas que os antigos fizeram, trazê-los de volta à nossa era atual.” – T.

Acompanhando o calor infernal que assola as terras do sul, saímos novamente com a oitava edição. Continuamos firmes em nosso caminho de propagação do germe eco-extremista, no Sul e até onde chegue.

Assim como as temperaturas que atingem níveis insuportáveis nestas terras, os Individualistas Tendendo ao Selvagem seguem com suas ações, pacientes como o lobo quando caça e letais como a mandíbula do Puma. As ações registradas desde o nosso último número foram poucas, mas altamente perigosas e até letais… Sim, os irmãos de ITS-México novamente entregaram vidas humanas aos Deuses Mesoamericanos, desta vez, devorados por um feroz incêndio que também torrou lojas e produtos do mercado Merced, na Cidade do México, mas isso não foi tudo e, para demonstrar que a expansão da tendência mafiosa segue avançando, testemunhamos o surgimento de um novo grupo de ITS, na casa das agências de segurança mais renomadas do mundo, o FBI e a CIA, no território ancestral dos Lakota, dos Siux, e tantos outros. As siglas terroristas da Máfia chegaram até os Estados Unidos e, para começar, dois assassinatos escandalosos foram perpetuados contra miseráveis tecno-executivos, destes que abundam por lá. Assim, o grupo “Ira da Natureza” deixa a sua marca em sua apresentação a ITS. Enviamos daqui uma calorosa saudação de cumplicidade aos irmãos, desejando que os espíritos os protejam, assim como as malditas deidades do sul fazem por estas terras. Certamente, com esse sacrifício, eles saciaram a sede de sangue das antigas ânimas do mundo subaquático. Agora não decaiam, irmãozinhos, nutram-se com sua manada e preparem-se para o que virá. Aprendam com os velhos e com os novos, com os do Sul e com os do Norte, com os da América e também com os da Europa, mas, acima de tudo, aprendam com o Selvagem, e sigam o caminho traçado por seus antepassados, de guerra e morte contra o mundo civilizado.

“Um dia fomos os selvagens da terra, de todas as terras, dançávamos com pumas, lobos, condores e elefantes. Éramos irmãos da baleia, do coypu e do pombo, e embora não lembremos quem éramos, nossos nomes e nossa língua, é hora de voltar a respirar selvagemente e a ser parte desta essência rebelde que lembra que fomos uma criança de peito, que amou e viveu apenas por sua mãe, que nasceu de seu ventre e que, após se afastar dela, amadureceu e voltou com a cabeça erguida, com os olhos cheios de sangue e os punhos cerrados, caminhando de frente, atacando sem medo a terra dos povos do concreto, das árvores de metal e dos rios de sangue.”

Nem tudo foi violência homicida para os grupos da Máfia, o terror também esteve presente, desta vez no berço da civilização ocidental. Foi na Grécia, com um tremendo dispositivo explosivo que não acabou com a vida de alguns gambés “por milagre”. Eles se salvaram desta vez, mas os irmãos que andam por lá demonstraram de sobra a sua periculosidade, a morte espera ansiosamente…

E é claro, se alguma coisa marcou estes meses de intervalo entre o penúltimo número e este, foram os incansáveis distúrbios em todo o mundo. Assistimos em êxtase como o Caos toma conta do globo e estende seus tentáculos em todas as direções. Foi Hong Kong, Líbano, Equador, Venezuela, Espanha, Turquia, Irã e muitos outros, mas o que realmente nos preenche a alma são os distúrbios sanguinários que sacodem o Chile. A terra do terremoto vibra como nunca enquanto desajustados saqueiam negócios, queimam propriedades, cravam punhais, colocam explosivos, roubam veículos e exibem os seus impulsos egoístas e sanguinários através de todas as formas possíveis. ITS não poderia ficar de fora disso, como evidenciado pelos grupos “Incitadores do Caos” e a “Horda Mística do Bosque” nos comunicados 88 e 89 respectivamente, aproveitando-se da desordem geral para atacar os hipercivilizados e empurrar esta crise a níveis insuportáveis, alimentando a violência e a tensão que reina nas ruas.

A nova década foi recebida pelo inconfundível sinal do desastre, civilizações antigas prenunciaram o desastre de seus mundos e os viram desmoronar diante de seus olhos. O panorama de agora é de catástrofes naturais, pestes contagiosas e mortíferas, conflitos armados crescentes, desequilíbrios ecológicos incomensuráveis, superpopulação, superprodução, esgotamento dos solos, fome, incêndios ferozes, estado de vigilância massiva. Em resumo, estamos testemunhando uma crise planetária sem precedentes. À medida que as fundações da civilização ruem, os grupos eco-extremistas e niilistas seguem adquirindo novas armas e ganhando valiosas experiências na prática, executando atentados e assassinatos sem piedade.

Seguiremos sem hesitar ao lado do Caos, alimentando esta guerra com textos afiados, poemas elogiando a beleza do mundo natural, com palavras perversas incitando a violência, instruindo outros na confecção de explosivos e na execução de ataques, estabelecimento de novas redes de cúmplices em todo o mundo e incentivando os irmãos a continuarem no caminho do confronto, sem dar um só passo atrás.

Abrigados pelo calor do verão no sul, pervertendo as mentes daqueles que se deixam levar pelo inconfundível chamado do Desconhecido, entregamos esta versão carregada de misticismo, ensinamentos criminais e reflexões tendentes à misantropia.

Sigamos os passos de nossos ancestrais!

Que brotem novos grupos eco-extremistas e que esta peste se expanda. Coragem, TlahueleIknoyotl!

Oferendas de sangue para os demônios antigos, para Ajajema, Mictlantecuhtli e Mishipeshu!

                              Individualistas Tendendo ao Selvagem – Chile

– Grupo Ajajema: Letras do Caos
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Conteúdo:

– Tradução de “About a Tree”, de Shaugnessy.

– Tradução de “Swallows”, de Shaugnessy.

– Tradução de “An Age of Monsters”, de Shaugnessy.

– “Sobre la vida, profetas y aniquilación”, por Ometeotl.

– “Lamento por los indios de Tierra del Fuego”, extraído do livro “Fin de un mundo: Los Selknam de Tierra del Fuego”, de Anne Chapman

– Tradução de “La Destrucción Perfecciona aquello que es Dios”, do blog “The Tiger’s Leap”.

– Tradução de “Una noche entre sueños: Sangre de Muérdago – Noite”, do blog “The Tiger’s Leap”.

– Tradução de “Un obituario previo a la muerte de nuestros parientes ballenas”, do blog “The Cult of Infinity”.

– “Terrorismo ecológico en la CDMX y Zona metropolitana; el caso de ITS como nuevo fenómeno social.”, ensaio para um TCC possivelmente abandonado.

– Tradução de “Una respuesta a un concepto verdaderamente idiota.”, de Abe Cabrera.

– “Cronología Maldita.”

– “Breves palabras contra el progreso humano a través de la cosmovisión mapuche”, por Werkén.

– “Volver al Futuro: El regreso del violento terrorismo de extrema derecha en la era de los Lobos Solitarios”, traduzido do seguinte artigo: https://warontherocks.com/2019/04/back-to-the-future-the-return-of-violent-far-right-terrorism-in-the-age-of-lone-wolves/

– “Capitulo I. Fin del Mundo.”, extraído do livro “Fin de un mundo: Los Selknam de Tierra del Fuego”, de Anne Chapman
– “Las brujas no se dejan vencer por la civilización. Parte primera”, por Ruda.

– “Apología del Caos.”

– “Respuesta a El Mostrador por parte de un miembro de la tendencia eco-extremista.”, por Místico y Maldito.

– Tradução de “Hacia un misticismo radical”, do blog “Eco-Revolt”.

– “Un rápido vistazo a la correlación entre el Eco-extremismo y el pensamiento Nihilista Misantrópico Egoárquico.”

– “Nunca apagues el teléfono: Un nuevo enfoque a la cultura de seguridad.”

– Tradução de “Un ensayo sobre el Nihilismo Verde”, do blog “Eco-Revolt”.

– “Elogio a Abe”, do blog “Barbaric”.

– “Plegarias Eco-extremistas.”

DESCARREGUE em PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

[PT – VÍDEO] Catarse – Dias Melhores Nunca Virão II

E sai a segunda edição do projeto Catarse, elaborado por Erva Daninha. A primeira parte pode ser conferida neste link. Esta nova edição aparece em um momento drástico para o cenário mundial, marcado pelo agravamento da crise ecológica, surgimento de convulsões sociais, derrocadas econômicas e uma pandemia que castiga a vários países. Esta compilação confirma de maneira amarga os prognósticos para os próximos anos, dias melhores não virão.

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Este projeto é sobre o agora, o mesmo agora de há cinco anos quando ele foi iniciado. Esta edição é sobre os gritos de dor de um planeta que morre pelas mãos de um animal chamado humano e indiferente com a natureza selvagem ao redor do mundo. Nesta segunda edição há compilações das piores notícias sobre o agravamento da crise mundial, com ênfase na crise climática, onde houve alguns dos piores incêndios da era moderna em importantes florestas ao redor do mundo, como na Amazônia, África Central e Austrália. Também abarca notícias sobre o severo derretimento de gelo nos polos extremos da terra, onde o aquecimento provocou colossais 20º graus na Antártida, a maior temperatura já registrada no século. Relata o culmine do simbólico Relógio do Apocalipse, um projeto elaborado por cientistas de diversas áreas que “prevê” o fim do mundo analisando as diversas crises que o mundo atravessa, o relógio nunca esteve tão perto da meia-noite, que simbolizaria a nossa extinção. Abarca as bárbaras convulsões sociais ao redor do mundo, como as de caráter niilista que houve no Chile e que causaram destruições bilionárias sem precedentes e danaram a infraestrutura chilena em muitas escalas, bem como repressões que custaram milhares de prisões e sangrentas mortes. Há quase dois centenares de recortes de notícias nesta segunda edição do projeto, incluindo a discussão do momento, a pandemia da COVID-19 que mata a milhares de pessoas e colapsa o mundo em diferentes frentes, com ênfase no cenário econômico.

Juntei todas as minhas forças para reunir o que encontrei de mais grave e pessimista sobre a situação da grande civilização mundial, recortes que apenas afirmam que já acabou para o humano e a civilização, não há mais volta e ele será punido com uma catástrofe extintiva que o varrerá deste planeta. As águas, os solos, as florestas, os outros animais, todas estas coisas sagradas significam nada para o humano civilizado adorador da modernidade. Coisa alguma poderá mudar o curso que a nossa espécie traçou para si mesma. Não há esperanças nem revoluções, tampouco messias que poderá deter a catarse da natureza selvagem. Merecemos o nosso próprio extermínio porque miseravelmente brincamos de deuses sem possuir grandeza para isto. Os dias por virem são pessimistas porque nós fizemos do agora o fim. Não haverão dias melhores.

Erva Daninha.

Um obituário antes da morte de nossos parentes de baleias

Tradução do texto A pre-death obituary for our whale kin, do blog The Cult of Infinity .

“O mundo dos sons das baleias reverbera nas profundezas dos mares, de centenas de metros a centenas de quilômetros. Ele é completamente alheio à paisagem sonora da humanidade, gritando e cantando no ar, onde canções e discursos não sonham em chegar tão longe. Padrões profundos e estrondosos são encontrados abaixo da superfície, e talvez a música possa nos ajudar a encontrar sentido quando as palavras e a lógica falham.” – David Rothenberg

Talvez a razão pela qual as baleias pareçam tão tristes e melancólicas seja porque elas previram o destino de sua espécie. É preciso se perguntar se elas sabiam como seria. A prática generalizada da caça às baleias e sua crueldade visceral pode tê-las levado a crer que esta seria a causa de seu desaparecimento do ecossistema, mas e se elas pudessem ter visto o seu destino, e se de alguma maneira tivessem previsto que não seria a caça, mas sim a morte lenta e dolorosa ao serem preenchidas com detritos humanos? Ou que sua linguagem e senso de direção, fundamentais para sua sobrevivência, seriam profundamente afetados pelo sonar naval? E as provas bem documentadas de armas nucleares?

A Marinha dos Estados Unidos conhecia as canções das baleias jubartes antes do público em geral. Por décadas, eles publicaram guias e treinaram cadetes sobre como reconhecer e diferenciar estes sons de outros sinais subaquáticos, como por exemplo, o ruído do radar inimigo. Claro, a observação das canções das baleias precede qualquer gravação. Elas podem ter sido a inspiração para as sereias encontradas na jornada épica de Odisseu… e é muito bonito pensar que os homens ficaram tão hipnotizados pelos gemidos e lamentos que colidiam contra penhascos e desapareciam.

Em 1585, um viajante holandês chamando Adriaen Coenen escreveu que o som das baleias beluga, também conhecidas como ‘canários marinhos’, ou baleias brancas pelos russos, era como “o canto dos humanos… se uma tempestade é iminente, elas brincam na superfície da água e é dito que elas lamentam quando são pegas… elas gostam de escutar canções tocadas por alaúde, arpa, flauta e instrumentos similares”. Como David Rothenberg observou em seu livro Thousand Mile Song, “por um longo tempo as pessoas sentiram que estes animais estão bastante intrigados com a vida humana para gostar de ouvir nossas canções.”

Elas já não ouvem mais músicas agradáveis, mas um grito tortuoso que sem dúvidas leva muitas ao suicídio. Não é um ruído do qual possam escapar, sim algo imposto, assim como a música e o som que são usados em guerras psicológicas e durante torturas. Para os cadetes da marinha, as canções eram simplesmente “evidências biológicas” que precisavam ser diferenciadas das “não biológicas”.

Embora a Marinha possa ser responsável pela interrupção das migrações devido o sonar, todo tipo de poluição acústica ameaça as baleias, e o oceano não foi menos afetado do que as criaturas terrestres pela incessante perturbação criada pelos seres humanos. As baleias, por exemplo, gravitam naturalmente em direção aos motores dos navios, o que resulta em horríveis e profundas lacerações que geralmente são fatais. Há também o som estridente da exploração sísmica de petróleo e gás.

As baleias são observadas encalhadas há séculos, no entanto não há explicações concretas sobre o porque de centenas encalharem ao mesmo tempo. Alguns especulam que a proliferação de algas vermelhas, que em 2018 devastaram a costa da Flórida, possa desempenhar um papel. Essas “marés vermelhas”, como são chamadas, foram registradas desde os anos 1500 pelos exploradores espanhóis, e são conhecidas por ocorreram após tempestades particularmente fortes. À medida que o oceano se aquece e as tempestades se tornam cada vez mais intensas, estas plantas se tornam cada vez mais tóxicas.

As baleias são frequentemente descritas como “extraterrestres”, o que é adequado. O mar profundo foi a última fronteira para a humanidade aqui na terra. A pressão das profundezas impedia que os humanos descobrissem seus segredos bem guardados. O homo sapiens é uma criatura muito curiosa, e que exige tudo do mundo não-humano. Querem saber o que estes sons significam, ou para onde vão quando desaparecem, para depois se divertir e se acasalar sem serem interrompidos por estas criaturas estranhas que os seguem e observam. As linhas entre os zoológicos e a natureza nunca foram tão porosas, e é sabido que as criaturas do zoológico exibem características ansiosas, se movem de um lado para o outro ou muitas vezes sequer se movem.

Quando as primeiras gravações de canções de baleias foram escutadas por multidões de ambientalistas na época em que o movimento internacional de conservação estava começando com o maciço “Dia da Terra”, elas tiveram um efeito hipnótico. A multidão permaneceu em silêncio enquanto ouvia a triste música que provocou o mesmo efeito de quando as primeiras imagens da própria terra foram mostradas ao mundo, isto é, uma percepção momentânea do quanto podemos perder. Mas esses sentimentos logo desapareceram, já que as pessoas saíram das ruas e começaram a promover a responsabilidade individual como a reciclagem e medidas contra a produção de lixo. O Greenpeace foi encorajado quando as canções das baleias atraíam cada vez mais pessoas a ineficazes organizações sem fins lucrativos que agora nos honram com constantes pedidos de doações ou com assinaturas em uma petição inútil. E enquanto as pessoas se enfurecem com o lixo jogado no quintal, não se importam para onde todo o lixo está indo, desde que esteja fora de vista.

Somente na Tailândia, cerca de 300 mamíferos marinhos morrem por ingestão de plástico a cada ano. Não é preciso ser um cientista para entender o que acontece com estas criaturas que recebem uma dieta constante de lixo. Seus estômagos são bloqueados com tudo o que não pode ser digerido, causando uma morte lenta, certamente agonizante devido à fome. Simplesmente não podem colocar comida de verdade em seus estômagos.

Claro, o plástico não é a única coisa que ameaça a vida dos oceanos; das baleias ao krill, do qual elas dependem, todos vivem em mares cheios de derramamentos venenosos provenientes de fábricas. A única coisa que chama a atenção para esta paródia é o sushi, cada vez mais caro, mas tóxico. A demanda por mariscos, bem como a toxicidade da carne das criaturas, nunca foi tão grande, e isso na medida em que os recursos se escasseiam. Até agora, as pessoas mais afetadas não são as que mais aparecem nos noticiários; sim os indígenas e os pobres que dependem da pesca em pequena escala para manter suas famílias, e ocasionalmente da baleia para alimentar a um povoado inteiro durante bastante tempo. No que diz respeito às práticas indígenas, o respeito dado a seu sustento permitiu uma abordagem sustentável, mas tudo foi arrastado pelas marés do progresso. Assim como nos parques nacionais com a proibição da caça, muitos povos nativos não podem continuar com suas antigas formas de se alimentar, o que por sua vez interrompe outros aspectos da cultura, uma vez que a caça e as festas comunais permitiam a coesão social.

As baleias nos deram de tudo, desde o óleo até o entretenimento, e sustentam uma massiva indústria do turismo, projetada para dar às pessoas uma ideia de sua magnificência. Suas imagens foram usadas para vender produtos e movimentos ecológicos às massas. Orcas, jubartes e golfinhos tem sido particularmente eficazes para abrir carteiras. E como retribuímos a eles? Para início de conversa, todo esse dinheiro movimentado só beneficiou os humanos, responsáveis pela destruição das baleias.

Apesar do otimismo implacável que nos empurram goela abaixo, é cada vez mais óbvio que o tempo está acabando. Não há mais tempo para elas, e não há mais para nós. No mais otimista dos cenários, as reformas podem atrasar um pouco as coisas, enquanto o homo sapiens tenta freneticamente encontrar um novo planeta para destruir. Talvez haja outro planeta com oceanos e mais baleias para se conquistar.

Este é um comprimido amargo de se engolir, mas que a humanidade deve e eventualmente engolirá.

Lamento pelos índios da Terra do Fogo

Texto traduzido da parte final do livro El Fin de un Mundo: Los Selknam de Tierra del Fuego, escrito por Anne Chapman, etnologista franco-americana que registrou as narrações de Lola Kiepja, última xamã selk’nam, e outros descendentes.

“Para onde foram as mulheres que cantavam como os ‘canários’ ”? Havia muitas mulheres. Para onde elas foram?” – Lola Kiepja, 1966

Como falar em poucas palavras de povos poderosos?

Como falar dos Selk’nam, os Aush, os Yaganes, os Alakalufes?

Foram povos poderosos porque não apenas chegaram, mas permaneceram nas terras mais inóspitas do mundo.

Isso foi conseguido graças à sua coragem de arrancar sustento dos mares turbulentos, dos bosques nevados, dos pampas atingidos por ventos gelados.

Mulheres canoeiras, yaganes e alacalufes, desafiavam ondas que vinham da Antártica, remando suas canoas em direção a baleias, enquanto seus homens, de pé na proa, com apenas uma lança em mãos, lutavam para vará-las.

Homens caçadores, selk’nam e aush, apenas com arcos e flechas, perseguiam os guanacos sob a neve e a tempestade, enquanto suas mulheres, com pesadas cargas, corriam para montar um acampamento e fazer uma fogueira no local.

Atiraram suas vidas em guerrilhas e vinganças. Eram corajosos, inimigos difíceis e tenazes.

Mas também se amaram e amaram a suas ilhas, cordilheiras cujos cumes não se afundam nos mares glaciais.

Amaram seus bloques, onde pássaros coloridos faziam os seus ninhos.

Amaram o céu e seus deuses transformados em estrelas, em ventos e mares.

E cantaram. Cantaram esperando curar a seus doentes ou soluços de quando partiram.

Cantaram esperando ir Mais Adiante.

Cantaram à Lua em seu esplendor, ao Sor que nascia, às crianças adormecidas.

Cantaram em seus ritos, solenemente ou entre risos.

Foram. Não há mais do que alguns, cujos pais ou avós foram aqueles que “se foram”.

No final do século XIX da era cristã, homens estranhos desembarcaram em suas ilhas; armados com balas, venenos, desejo de riqueza.

Se apropriaram da terra que depois “limparam” para explorá-las sem amá-las.

Depois se gabaram pagando de pioneiros, civilizadores, servos sacrificados, arquitetos do futuro, de construtores de nações. Os índios se defenderam como puderam, apenas com arcos e flechas. Famílias inteiras fugiram de homens a cavalo, armados, pagos para matá-las, de cachorros treinados para despedaçá-las.

Os índios resistiram como puderam, com angústia, de maneira confusa, com vontade de sobreviver. Mas caíram crivados de balas. As orelhas, às vazes a cabeça, eram arrancadas. Foram desterrados. Pareciam perdidos. Agonizaram com as doenças trazidas e sofreram dores indescritíveis ao ver que seus filhos também sucumbiam.

Aqueles homens estranhos os caluniaram mais tarde.

Disseram, publicaram, que os índios atacaram primeiro, que os índios roubaram suas ovelhas, que os índios matavam gados (gados com o suor de suas armas legitimamente comprados).

Explicaram que os índios se matavam entre si porque eram assim, selvagens indomáveis, inadaptáveis à vida civilizada.

Esclareceram, claro, que os índios não era muitos; que os missionários cuidaram deles, que a história não pode ser parada.

Alguns tentaram salvá-los, mas falharam.

Abaixe a cortina. Em frente à cena são erguidos monumentos ao aborígene. Os nomes indígenas são dados a estâncias, bairros e ruas, a hotéis, clubes e praias.

Bandeiras e estátuas são feitas para vender ao turista uma lembrança do nativo fueguino.

E é comentado “que pena, nosso índio fueguino não nos deixou folclore”.

Mas sim, ele nos deixou o eco de seu canto, lamento por um povo que abatemos e contagiamos, choro por um povo que exterminamos.

Uma Era de Monstros

Tradução do poema An Age of Monsters, de Shaughnessy.

Creio que a guerra da humanidade contra a terra só conseguiu matar os deuses mais gentis
Os deuses que eram amigos dos humanos nas velhas histórias
Mas a arrogância do homem é grande, e seu poder contra a fúria do mundo é limitado
E trará, devido à sua arrogância, uma era de monstros
Os poderes sombrios e ctônicos* NdT1 que emergem das entranhas do mundo
Os monstros que sempre atormentaram o mundo dos homens
Os furiosos deuses das velhas histórias, violentos e cruéis, devoradores de mundos
Inimigos da raça humana, estes serão os deuses do futuro
E quem ame o divino deverá aprender a amar os deuses mais sombrios

Nota do Tradutor:

1: Ctônico se refere às deidades e poderes do submundo.

Greta Thunberg: a favorita dos bilionários

Tradução do texto Greta Thunberg: the billionaires’ favourite, publicado em Winter Oak Press.

“Uau, isso é incrível!”, tuitou Greta Thunberg em resposta à notícia de que havia sido nomeada Pessoa do Ano pela revista Time em 2019.

Só que não era bem isso, já que o dono da Time é um dos empresários ricos que ajudaram e incitaram sua ascensão meteórica à fama.

O que é realmente incrível é que ainda exista gente por aí que não entendeu que a marca Greta (ao invés da própria pessoa) foi cuidadosamente fabricada e explorada para promover um grupo particular de interesses financeiros pré-fabricados. Alguns crentes obstinados nem sequer se deixaram levar pela recente revelação de que seus primeiros protestos foram filmados por uma equipe de documentários que, de alguma forma, percebeu antecipadamente que essa adolescente em particular chegaria à fama mundial em breve.

Mas voltemos à revista Time por um momento. Previsível, o artigo que anunciava o prêmio de Greta se dizia maravilhado com a “pequena voz” e a “indignação penetrante” do “ícone de uma nova geração” que se tornara “a voz de milhões, um símbolo de uma crescente rebelião global”.

Outro dia, outra sessão de fotos.

A revista acrescentou: “Ela conseguiu criar uma mudança global de atitude, transformando milhões de ansiosos vagos no meio da noite em um movimento que exige mudanças urgentes”.

Mas, que tipo de mudança exatamente?

Uma pista apareceu no início de 2019, quando Greta se presentava, junto a Jane Goodall (acima), diante de um estande que promovia a “Quarta Revolução Industrial”.

O termo “Quarta Revolução Industrial” foi utilizado pela primeira vez por Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial, e ex-membro do comitê de direção do Grupo Bilderberg.

Schwab escreveu em um artigo chave em 2015: “Estamos à beira de uma revolução tecnológica que alterará fundamentalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos interagimos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de tudo o que a humanidade já experimentou antes”.

A Quarta Revolução Industrial, explicou, estaria “caracterizada por uma fusão de tecnologias que está apagando as linhas entre as esferas físicas, digital e biológica”.

Schwab continuou: “As possibilidades de bilhões de pessoas conectadas por dispositivos móveis, com poder de processamento, capacidade de armazenamento e acesso ao conhecimento sem precedentes, são limitadas. E essas possibilidades serão multiplicadas pelos avanços tecnológicos emergentes em áreas como inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos materiais, armazenamento de energia e computação quântica”.

Não é exatamente uma visão do futuro amigável com a natureza!

Outro grande admirador da Quarta Revolução Industrial é Marc Benioff (acima), bilionário americano do Vale do Silício, cujo papel no capitalismo climático foi exposto pelo jornalista investigativo Cory Morningstar.

Benioff faz parte do Conselho de Administração do Fórum Econômico Mundial (sob comando de Schwab) e preside o Centro WEF para a Quarta Revolução Industrial em São Francisco.

Ele ficou empolgado em 2018: “Todos devem se unir para a quarta revolução industrial no capitalismo inclusivo. Os negócios são agora uma plataforma para mudanças”.

A empresa Salesforce de Benioff, gigante da computação em nuvem é, no mínimo, controversa.

Em março de 2019, ele foi processado por 50 mulheres que alegaram ter facilitado o tráfico sexual, das quais eram vítimas. Também foi fortemente criticado e boicotado por ativistas por “ganhar milhões de dólares com o sofrimento de imigrantes detidos na fronteira sul dos Estados Unidos”.

Mas, apesar de Benioff estar contente com o fato de suas tecnologias da “Quarta Revolução Industrial” serem usadas para construir um tenebroso estado policial racista-capitalista, ele gosta de pagar de “filantropo”, um cara bom, um homem que se importa.

Uma das coisas com as quais ele diz que se importa é o meio ambiente. Em uma conversa com Schwab no Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro de 2019, Benioff disse que a Quarta Revolução Industrial havia “introduzido tecnologias que podem ajudar a salvar o planeta”.

Benioff é, como muitos bilionários, um grande admirador de Greta Thunberg e deve ter ficado encantado ao vê-la posar diante do logotipo de sua empresa e do slogam da “Quarta Revolução Industrial”.

E claro, ele também é dono da revista Time.

“Uau, incrível”, como diria Greta.

Marc Benioff (esquerda) com Greta Thunberg na cúpula do Fórum Econômico Mundial em Davos em Janeiro de 2019. À direita está a sinistra Christiana Figueres.

“Somos xs Jovens Guerreirxs que se preparam para iluminar a noite com relâmpagos”

Tradução do texto da Conspiração do Trovão.

“A única forma possível de começar uma declaração deste tipo é dizendo que detesto escrever. O processo por si só resume o conceito de “pensamento legítimo”. O que está escrito tem uma importância que nega a oralidade… É um dos caminhos do mundo branco para a destruição das culturas dos povos não-europeus, a imposição de uma abstração sobre a prática oral de um povo… Na verdade, não me importo se minhas palavras chegam aos brancos ou não, eles já demonstraram, através de sua história que não podem ouvir, nem ver, que sabem apenas ler (claro, há exceções, mas as exceções apenas confirmam a regra). É preciso um grande esforço de cada um dos índios do continente americano para não ser europeizado. A força deste esforço pode vir apenas da tradição, de suas formas e caminhos, dos valores tradicionais que nossos anciãos retém. Deve vir do aro, das quatro direções do vento, das relações: não pode vir das páginas de um livro ou de mil livros… Mas há outro caminho. Há o caminho tradicional dos Lakota e os caminhos dos outros povos indígenas deste continente. É o caminho que sabe que os humanos não têm o direito de degradar a Mãe Terra, que existem forças além de tudo o que as mentes europeias conceberam, que os seres humanos devem estar em harmonia com todas as relações ou tais coisas eliminarão a desarmonia…

A arrogância europeia de atuar como se estivesse acima da natureza de todas as coisas pode apenas resultar em total desarmonia e em um reajuste que corta o tamanho da arrogância do ser humano, que lhe dê um gostinho da realidade que está além do seu alcance ou controle e restaure a harmonia. Não há necessidade de nenhuma teoria revolucionária para isso, está além do controle humano. Os povos naturais deste planeta sabem e não precisam teorizar sobre isso. A teoria é abstrata, nosso conhecimento é real. A racionalidade é uma maldição, pois pode fazer com que os humanos esqueçam a ordem das coisas de maneira que outras criaturas não podem fazer. Um lobo nunca esquece seu lugar na ordem natural.

A Mãe Terra foi abusada, os poderes foram abusados, e isso não pode seguir para sempre. Nenhuma teoria pode alterar essa simples verdade. A Mãe Terra retaliará, todo o ambiente retaliará e os agressores serão eliminados, as coisas completam o círculo de volta ao ponto de partida. Essa é a revolução, e esta é uma profecia do meu povo, do povo Hopi e de outros povos corretos.” – Wanbli Othinka, Para que a América viva a Europa deve morrer.

A questão agora é o que fazer com estas palavras. Apenas guardá-las (como vocês acadêmicxs frequentemente fazem) nos cofres do conhecimento inútil, para depois trazê-las à tona em alguma conversa, escrito ou debate através do qual alimentarão seu ego miserável? Ou realmente levarão a sério pela primeira vez algo que não visa a um benefício egoísta?

Porque, sejamos sincerxs, muitxs de vocês sabem que tanto a antropologia quanto a própria academia são besteiras, mas sabem que através dela podem obter certos benefícios civilizados: conforto, reconhecimento, poder dentro de sua sociedade. Então apenas se desculpam e até mentem para si mesmxs dizendo que daquele lugar darão sua contribuição para melhorar as coisas, mas nós sabemos que não é assim, sabemos que a grande maioria só quer ganhar dinheiro e obter confortavelmente suas possibilidades. Esta sociedade hipocritamente quer o bem para todxs, mas o bom é inimigo do melhor, e o que é bom para vocês, é mau para a terra, para xs indivíduxs que não desejam se submeter a esta ordem mundial doentia. Para nós, o único caminho digno e honrado é a guerra contra esta sociedade civilizada, a essa ordem tecnoindustrial e, sobretudo, à escuridão que prolifera dentro do coração humano e que se materializa diante de nossos olhos nessa grande catástrofe apocalíptica que testemunhamos horrorizadxs, mas que nos alimentamos dia a dia.

Hoje, muitos espíritos de sábixs ancestrais se vendem por qualquer miséria, alienadxs, buscam escapar de seu sofrimento, e tentando fugir dele, ele aumenta cada vez mais, alçando o círculo de autodestruição. Isso que acontece a nível aparentemente pessoal, acontece a nível macro, como espécie completa. Por este motivo, nós deixamos de ignorar a voz dos espíritos, NOSSA PRÓPRIA VOZ, e enfrentar uma guerra espiritual, que é travada em nosso interior, e que ao mesmo tempo se manifesta em nossa vida, atacando também materialmente esta sociedade e cada um de seus bastiões.

12 de Outubro:

Segundo a “história oficial”, há quinhentos e vinte e sete anos uma frota europeia chegou a estas terras em busca das Índias. Foi assim que começou a devastação de nosso mundo sagrado, o mundo de nossos avós.

Com os europeus, uma nova e decadente forma de se compreender a realidade e se relacionar com ela foi trazida aqui (isto é, de se relacionar com o Grande Espírito, o TODO).

O respeito à vida e seus ciclos, a medicina sagrada, a sexualidade e eté a alimentação, a nossa magia e nossas Deidades foram alteradas por uma cosmovisão inferior e medíocre chamada catolicismo, uma religião criada vários séculos antes por outros europeus ambiciosos (romanos) com a intenção de criar súditxs a partir da psiquê, formar escravxs em massa (em todo o império), tentando garantir a perpetuidade de sua tirania.

Isso só poderia ser alcançado cobrindo os olhos e ouvidos espirituais de todos os povos subjugados (poderíamos dizer que a conquista aconteceu primeiro na Europa). A perda das almas ao separar (cada vez mais) x indivídux de seus ciclos, de seus arredores, de seu pai céu, de sua mãe terra e das estrelas irmãs, de sua medicina, das energias e seres vivos, de todo o conhecimento guardado com amor pelos antepassados.

Vocês, antropólogxs, ouviram a voz de nossos povos e deturparam suas palavras por conveniência, acreditam que tudo pode ser traduzido para sua pobre língua ocidental, seu raciocínio medíocre. A antropologia é outra expressão da arrogância ocidental e dos rasteiros e traidores que são xs brancxs. (Lembre-se que a brancura é uma aculturação, um modo de pensar, de ser, se relacionar e assumir um lugar no mundo, e não apenas uma cor de pele específica). Eles se envolvem com uma determinada comunidade, retiram toda a informação que podem, deformam-na com sua interpretação corrupta para compartilhá-la com seu mundo (e claro, exaltar seu próprio nome) e utilizam o conhecimento obtido para seus propósitos egoístas, muitas vezes em detrimento da própria comunidade que lhes abriu as portas. Vocês ocidentais trancadxs em suas academias não fazem nada além de masturbar seus egos e contar mentiras.

O conhecimento que eles obtém quase sempre é usado para manter a ordem macabra (que eles costumam dizer que odeiam), fortalecendo o progresso de sua sociedade degenerada (sociedade da qual somos inimigxs).

São ridículos seus discursos humanistas sobre paz, respeito pela alteridade ou inclusão. Quem disse que queremos ser incluídxs no inferno deles? Não queremos ser escravxs do mundo ocidental, queremos atacá-lo para iluminar sua escuridão.

Há quinhentos e poucos anos seus progresso chegou à nossa mãe, tentando destruir tudo em nome de sua ambição. Vocês foram e são os verdadeiros demônios!

A modernidade e tudo o que agora atormenta a vida no planeta não seriam possíveis sem o cristianismo, sem a razão instrumental, sem o desejo de possuir tudo.

Eles levaram seu germe imundo a cada canto do planeta e se enriqueceram com nosso sofrimento. Mas não é mais tempo para lamentos, são tempos de guerra e fé! É por isso que atacamos este símbolo da arrogância, brancxs “ensinando” sobre nossxs ancestrais, que ofensa asquerosa nos cospem na cara!

Saibam que cada causa tem um efeito, e que cada ação é uma reação. Nós não somos amigxs, vocês não são bem-vindxs nesta Terra. Seu estilo de vida não será mais tolerado por nós. Europeus, gringxs, colizadorxs que traem seu sangue, saibam que o punhal os aguarda ao dobrarem cada esquina. Somos xs Jovens Guerreirxs que se preparam para iluminar a noite com relâmpagos. Sorrimos à morte porque amamos a vida.

Somos filhos do sol e da lua!
Somos Tlahuele Iknoyotl!
Somos a Conspiração do Trovão!

Sobre enfeites e amuletos

Respeitável texto de Anin Urasse.

Tudo na ancestralidade africana tem uma função. Nada é meramente um enfeite. Vou dar exemplos bem simples.

Um anel te protege do que você pega, por exemplo. E ajuda a regular seu ritmo cardíaco e, consequentemente, corporal (faz um exercício de jogar no google “veias da mão” e observe as ramificações das veias basílica e cefálica nos dedos. Tente refletir sobre como um metal circundando essa rede vascular cria um campo magnético ali).

Brincos filtram o que seus ouvidos ouvem e permitem que você ouça o que ninguém ouviu. Colares. Pulseiras. Umbigueiras. Enfeites de cabeça. Tornozeleiras. Até aquela “maquiagem” ao redor dos olhos no antigo Kemet tem uma função. (Aliás, só um adendo, as sacerdotisas de Osogbo são conhecidas por usar tornozeleiras e pintar os calcanhares de vermelho. Repito: não é só enfeite. Tudo tem um porquê.)

Não é a toa que cada objeto desse é, geralmente, CIRCULAR. Seus materiais são/eram detalhadamente escolhidos também. Cada pedra, cada metal, cada cor. Tudo isso confeccionado a partir de um processo iniciático regido por uma sacerdotisa. E é sempre uma mais velha a lhe conceder, ninguém se auto-abençoa. (Nosso aprendizado sempre foi iniciático, lembre-se.) Enfim, num contexto tradicional, todas essas coisas eram/são sacralizadas pra uso.

Atualmente, não funciona mais assim pra maioria das pessoas. Como o Ocidente é a sociedade do enfeite, todas essas coisas são compradas em lojas. Não há muito rigor na sua elaboração, e uma pessoa pode estar completamente arrasada espiritualmente confeccionando algo que você, depois, vai colocar no seu pescoço. O que se há de fazer? A babilônia é isso aí.

Mas eu tô escrevendo esse texto por um motivo. Algumas de nós, sentindo falta/necessidade de um uso tradicional desses “enfeites” (a ancestralidade chama, preta, não tem jeito) têm trocado alho por bugalho. Gente, sendo bem honesta, se você quiser um enfeite, compre. Mas se você quiser um amuleto (afinal é disso que estamos falando, né?) procure uma sacerdotisa. Não é qualquer pessoa que pode confeccionar. Nem tudo todo mundo pode usar. Não é a qualquer tempo, (nem em África, quem dirá aqui) e o uso de qualquer coisa também tem suas consequências.

Repito, aqui na babilônia enfeites são enfeites. E eles servem pra… enfeitar. Por mais que eu tenha a maior crença e boa fé de que aquilo vai funcionar, nossa ancestralidade se faz com ciência. Ademais, o que lhe garante que não será prejudicial? Procure uma sacerdotisa. Gente velha. Sério mesmo. (Sim, num contexto tradicional, teríamos um sacerdócio muito menos institucionalizado, mais acessível e espraiado. Mas o contexto atual não é esse e precisamos lidar com ele.)

Veja, eu não tô falando de nenhuma “religião” especificamente. Eu tô dizendo que quem não tem equilíbrio em sua própria vida não pode querer equilibrar os outros. Preste atenção. Formação sacerdotal demanda TEMPO. Não é um final de semana. Não é um curso. Uma vivência. E ninguém se forma sozinho. Ninguém se auto-abençoa. Demora! (Em Kemet eram 42 anos!) Dá trabalho. E é referendada em comunidade. Tomem cuidado a quem vocês estão entregando suas cabeças, corpo e ventre.

Enfeites são enfeites. Amuletos são outra coisa. Cuidado pra não confundir.

Posturas acadêmicas antagônicas contra o Eco-extremismo

Opiniões da Dra. Gabriela Muñoz Meléndez, diretora do Departamento de Estudos Urbanos e do Meio Ambiente do Colegio de la Frontera Norte, prestigiado instituto científico mexicano. Neste registro a cientista faz um rápido repasso sobre o eco-terrorismo, com menções à Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). A catedrática diz entender parte de suas motivações, mas se coloca contra o uso da violência e evoca outras conhecidas críticas humanistas.

SISBIN debate eco-extremismo

Em um evento sediado na ABIN em Brasília, a atuação de grupos extremistas foi debatida por profissionais de órgãos integrantes do Sistema Brasileira de Inteligência (SISBIN), na semana passada.

O evento foi marcado pela interação entre os mais de 40 integrantes de núcleos de Inteligência governamentais do Centro-oeste.

Com ênfase nas ações do Estado Islâmico, o extremismo violento em geral, as ações de ecoextremistas e os processos de radicalização online também foram abordados.

Você pode conferir neste link, mas recomendamos utilizar o Tor ou uma VPN para acessá-lo.

[PT – DOCUMENTÁRIO] A Evolução do Eco-extremismo no México

BAIXAR

Disponibilizamos legendado em português o documentário A Evolução do Eco-extremismo no México, uma produção publicada na web que mostra as origens, etapas e ações de grupos eco-radicais e de libertação animal que levaram ao surgimento espontâneo da tendência do eco-extremismo, e em seguida de grupos como Reação Selvagem (RS) e pouco depois Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS), o mais expressivo que abdica pela tendência do eco-extremismo. O registro não trata de sua internacionalização que ocorreu em meados de 2016, já que a cobertura vai até o final de 2015.

O texto abaixo foi resgatado do já encerrado blog Tierra Maldita. O documentário e o texto ajudam a entender suas origens e alguns aspectos da tendência.

A tradução ao português é um esforço da Revista Anhangá em conjunto com a Revista Regresión.

Para maior entendimento do que é o eco-extremismo nos dias de hoje recomendamos o texto O que é o Eco-extremismo? – A flor que cresce no submundo: Uma introdução ao eco-extremismo.

Apresentação:

“A Evolução do Eco-extremismo no México” é um esforço audiovisual realizado por “Espírito Tanu da Terra Maldita” e a “Revista Regresión”. Nele se reflete o desenvolvimento tanto teórico como prático que tiveram certos grupos que colocaram em sua mira o progresso da civilização, a ciência e a tecnologia.

Desde o ano de 2007 até agora (2016), foi desencadeada uma série de ataques que foram se aperfeiçoando ao passar dos anos.

A princípio estes ataques visaram atacar a indústria da exploração animal, depois passaram a atacar a indústria da destruição dos ecossistemas, então foram se refinando, implementando atentados contra pessoas específicas relacionadas com as ciências avançadas. Depois desta fase, os grupos que participaram nestas etapas se uniram em um grupo denominado “Reação Selvagem”, de modo que após sua dissolução, estes grupos já refinados em suas críticas e melhorados na prática, seguiram a guerra separadamente, como até agora tem sido mantida.

Os individualistas que fazem parte da tendência do Eco-extremismo se unem em várias qualidades que serão mencionadas neste texto. Com isso não estamos dizendo que as pessoas que realizam atos extremos contra o sistema tecnológico TEM QUE ser assim, mas é necessário tê-los em conta.

O Eco-extremismo foi formado por seus próprios propulsores, se consolidou sob a espontaneidade, na solidificação do ataque e na variabilidade dos objetivos, abrangendo vários fatores, tais como:

– Defesa extrema da Natureza Selvagem e uma guerra até a morte contra a civilização:

“(…) observando a realidade vislumbramos que a maioria das críticas que fazem à tecnologia tem um fundo reformista, dizem “a tecnologia está nos levando à falta de interação pessoal, é melhor que a eliminemos”, “a vida em sedentarismo nesta civilização causa problemas de saúde, é melhor nos exercitarmos frequentemente”, “o artificial nos consome, não suporto a vida na cidade, vamos um dia ao campo”, “o lixo inunda os mares, há que comprar produtos amigáveis com o meio ambiente”, “a tecnologia não é o problema, o problema é o uso que lhe é dado”, etc. Estas supostas críticas são as que são negociáveis, e podem até serem propostas para que o sistema continue a crescer, se reformando e sendo fortalecido.

Mas, que tal se dissermos; “a tecnologia é o problema, incendiemos esta ou aquela empresa de inovação tecnológica com todos dentro”, “a civilização se expande perigosamente acabando com a natureza que resta, assassinemos o engenheiro de tal mega projeto”, “a sociedade estúpida só segue as regras fazendo com que a máquina siga avançando, são parte do problema, detonemos um explosivo em um local público com um papel simbólico importante”, etc. Este tipo de crítica extremista são as que não são negociáveis e as que defendemos (…)” – Entrevista a Reação Selvagem.

– Apego e respeito à Natureza Selvagem:

Existe uma relação muito íntima de caráter simbiótico entre a natureza e a nossa espécie. Perdemos bastante desta relação após a passagem das gerações, mas é possível nos reconectarmos outra vez, voltar a recuperar a nossa natureza selvagem (embora não em sua totalidade, é claro).

Apreciamos grandiosamente a natureza, dela viemos e a ela regressaremos. Defendê-la e defender nossas raízes mais profundas, as que nos unem a ela, é apenas uma consequência de ainda sermos humanos e não humanoides. As habilidades de sobrevivência, o reconhecimento da flora e fauna silvestre, a caça, a coleta, a imaginação que dá lugar a uma vida o mais longe da civilização, são ferramentas que complementam o individualista e a seus grupos de afinidades.

“Para muitos de nós é bastante viável ter uma horta orgânica de onde possamos tirar a comida em tempos de escassez ou a medicina em tempos de enfermidade. Não caímos em contradições, o importante é desenvolver estilos de vida que se distanciem o máximo que se possa da dependência artificial do sistema.

Embora alguns membros do RS estejam mais atraídos pela vida de caçadores-coletores, não descartam a opção das hortas.” – Entrevista a Reação Selvagem.

– Rejeição total ao cristianismo, e enaltecimento de crenças individuais pagãs ligadas à natureza, tanto no cotidiano como nos atos extremistas.

“Continuamos ao lado da natureza selvagem, seguimos venerando o sol, a lua, o vento, os rios, o coiote e ao veado, continuamos rejeitando o cristianismo com ritualismos na escuridão dos espessos bosques, continuamos sendo os guardiões do fogo, continuamos dançando ao redor da fogueira. Embora seres civilizados, ainda temos o instinto característico do ataque.” – Artigo “A Guerra Chichimeca” (segunda parte). Revista Regresión N° 4

“(…) pulamos os arames farpados que protegiam o canal de esgoto e atrás de uma grande árvore de Pirúl que ainda está de pé, realizamos vários disparos de arma de fogo contra as máquinas, estruturas e paredes de tal construção. Os disparos diretos danificaram e aterrorizaram aqueles que estavam no local. Com o trovão das balas detonando iam os sons dos animais mortos para a construção da obra, ia o violento zumbido do vento que move as folhas das árvores derrubadas e o imperceptível cantar da água do rio enegrecido pelo artificial. Também iam os gritos de guerra de nossos antepassados: ¡Axcan Kema Tehuatl Nehuatl!” – Ação armada contra o Túnel Emissor Oriente (TEO). Grupúsculo do Oculto/Reação Selvagem.

– Terrorismo:

“Porque no ataque terrorista não há considerações por ninguém, nem sequer por nós mesmos. Nos atiramos ao nada porque a única certeza é a incerteza.”

Independentemente de ferir civis, atacamos, assim, com este ato, o coração da “moral do ataque”, porque na Guerra contra a Civilização e seu Progresso não existem ataques nem “bons” nem “maus”, porque esta Guerra se não é extremista e indiscriminada, não é uma guerra.” – Morte à “moral do ataque” (Explosivo na Sanborns). Ouroboros Niilista.

– Determinação: a coragem é uma das coisas que caracteriza os grupúsculos. Atuar friamente e sem contemplação alguma com estranhos durante um atentado, sabotagem ou assalto, é necessário.

Se há dúvidas ou não está completamente seguro em defender-se (em matar ou morrer), daquela pessoa que tenta detê-lo (seja um civil ou um policial), melhor que nem tente. Em outras palavras, seja indiscriminado.

“(…) nossa intenção era que explodisse causando a maior destruição possível sem importar que nesta ação morressem ou fossem mutiladas algumas pessoas. Queremos deixar claro também que, em nossas ações contra a civilização não consideraremos a vida das ovelhas que cegamente aceitam o desenvolvimento e o progresso para levar uma vida mais confortável, por isso que decidimos atacar este meio de transporte. Embora não tenha causado a magnitude que esperávamos, criou-se uma grande tensão entre usuários e autoridades.” – Ataque explosivo frustrado no Metrô. Grupúsculo Indiscriminado.

– Austeridade: as necessidades artificiais são um problema para os membros desta decadente sociedade, embora alguns não as vislumbrem e se sintam felizes celebrando a vida de escravo que levam. A maioria das pessoas está sempre tentando pertencer a certos círculos sociais acomodados, sonham com luxos, com confortos, etc., e para nós isso é uma aberração. A simplicidade, manejá-la com o que se tenha em mãos, e afastar-se dos vícios civilizados, recusando o desnecessário, são características muito notórias em individualistas do tipo Eco-extremista.

– Apego e prática de atividades delinquenciais:

“Na Regresión enfatizamos como parte de nossa essência, o extremismo individualista, que o crime é a consequente postura diante da civilização moderna difusora de valores humanistas que tendem ao progresso, e que estão nos levando ao desfiladeiro tecnológico.

As dinâmicas sociais as quais estamos submetidos dentro deste complexo sistema muitas vezes nos absorvem como indivíduos, nos fazem participantes da massa, do devastador consumismo e da rotineira vida de escravos nas urbes, mas decidimos resistir a esses ataques, resistir a partir da clandestinidade e aceitar no cotidiano as nossas contradições das quais nos retroalimentamos e nos formamos como verdadeiros indivíduos, sujeitos únicos.

Resistir e negar a vida que nos é imposta desde pequenos, para que busquemos uma vida simples e, tanto quanto possível, distante dos alinhamentos e esquemas culturais modernos, é um dos propósitos a serem concretados no presente. Mas para formar esta vida que queremos, longe das grandes cidades e na natureza, às vezes requer dinheiro, dinheiro que preferimos roubar de qualquer lugar ou obtê-lo através das centenas de formas criminais que existem. Preferimos isso do que levar uma vida subordinada de escravos que a maioria das pessoas levam. Claro, é por isso que o grupo editorial desta revista sente simpatia pela reapropriação do dinheiro para fins específicos que levam a uma vida digna de ser vivida, não se importando com quem seja baleado se o dinheiro não é entregue, porque quando um funcionário não entrega o dinheiro do empregador ele não merece seguir vivendo, já que defende como um cão obediente as migalhas do seu amo; portanto, merece punhaladas ou uma bala em seu corpo. O mesmo para quando um empresário, proprietário ou executivo de uma empresa não cumpre as exigências do ladrão, também merece o mesmo ou algo pior.

Nestes atos não há misericórdia, é tudo ou nada, é do extremismo que falamos sem escrúpulos. Se este dinheiro será necessário para algum propósito do extremista individualista ele deve ser alcançado aconteça o que acontecer. Aqui cabe ser mencionado que para nós o dinheiro não é tudo, dizemos isso de maneira realista. Neste mundo governado por grandes corporações econômicas, às vezes é necessário obter dinheiro para cobrir certos fins e/ou meios, e para nós obtê-lo trabalhando não é uma opção, obtê-lo por fraude, assaltos ou golpes, sim.

Aqueles antepassados que viram seus modos de vida afetados pela expansão das civilizações tanto mesoamericana como ocidental, tiveram que agir dessa maneira (predação, ataques, roubo, engano, assassinato, etc.). Nós apenas cumprimos nosso papel histórico como herdeiros desta ferocidade selvagem.

Pela proliferação da delinquência e o terrorismo que satisfaça os instintos dos individualistas!” – Texto editorial. Regresión N° 3

– Sobriedade: Ficar sóbrio e rejeitar todas as drogas legais e ilegais é muito importante dentro desta tendência, é preciso sempre estar alerta para qualquer eventualidade. Cair bêbado, fumar cigarro ou maconha, injetar drogas, inalar solventes, tentar se “curar” com medicina alopática, ou seja, violar o corpo com estas substâncias nocivas apenas os tolos fazem, aqueles que não respeitam a si mesmos, os carentes de controle, os fracos e os inconsequentes. Então, nós rejeitamos totalmente as drogas.

“Os integrantes de RS não se deixariam morrer por essa ou aquela “doença” que seu próprio corpo não possa resistir e, para dizer a verdade, acreditamos que ninguém em sã consciência. É claro que poderíamos ignorar os antibióticos farmacêuticos. Todos os membros de RS se curam com os remédios da terra e rejeitam totalmente os medicamentos alopáticos. Para aqueles que adotaram a cultura da medicina moderna e nociva, é quase impossível viver sem aspirinas, ranitidinas, paracetamol, etc., mas antibióticos com aditivos químicos realmente não são necessários. Existem antibióticos naturais muito efetivos, como o própolis. Para quem conhece a cura por ervas é fácil aliviar-se ou se curar das doenças das cidades com infusões, cataplasmas, vaporizações, extratos, etc.” Comunicado: Já era hora… Resposta de RS a “Destrua as Prisões”.

– Paciência: Esta é uma das virtudes mais respeitáveis, já que o desespero é uma doença da civilização. Nela vemos que tudo corre a uma velocidade frenética, todos andam de um lado para o outro sem nenhum controle e deixando que suas rotinas os envolvam nisso, no desespero. Ter paciência e ser cuidadoso, tanto em atos contra o sistema quanto na própria vida, te distancia de problemas que muitos já sofreram (prisão, acidentes, morte, etc.) Repetimos, te afasta, mas não te isenta.

– Rejeição total (tanto em ideias como em atos) ao progressismo:

“Decidimos atentar contra esta instituição porque ela simboliza o humanismo e o progressismo. Repudiamos todos aqueles que, gritando, acabam neste tipo de comissão, exigindo garantias por seus “direitos humanos”, “respeito” a suas decisões grupais e o “cesse” da repressão. É absurdo que esta multidão espere que este tipo de organização precária resolva a seus problemas, os ampare e defenda, um exemplo claro de como o ser humano moderno deixou sua própria segurança na mão de estranhos, em vez de tomar a justiça em suas próprias mãos e defender-se como faziam os antepassados. Estes tipos de instituições são uma banalidade, não passam de uma fachada simples para ocultar a incapacidade que tem o sistema de lidar com os problemas internos de uma sociedade decadente, por isso a atacamos.” Pacotes-Incendiários contra a Comissão de Direitos Humanos, subestação elétrica CFE e Universidade Lucerna. Grupúsculo Trovão de Mixtón e Grupúsculo Senhor do Fogo Verde de Reação Selvagem.

– Constância: Dar seguimento a um projeto como este não tem sido fácil, sempre há problemas que não se espera que ocorra e, embora você não os espere, é preciso estar sempre preparado.

Se empenhar duramente e dar continuidade à finalidade imediata criam motivações reais que levam um individualista eco-extremista a ser constante. Isso pode nos levar a alcançar metas mais diretas. A meta que nós de Regresión temos ao publicar esta revista é acompanhar esta tendência. Se muda algo em alguém e esta pessoa decida empreender desde sua individualidade a guerra herdada por nossos ancestrais, adiante, embora esse não seja o nosso propósito (mudar as pessoas). Se isso acontece, é apenas obra do acaso.

– Rechaço às lutas seletivas: é necessário focar na guerra TOTAL contra o sistema tecnológico e contra a civilização, as demais lutas são reducionistas e são apenas uma pequena parte do problema real, lutas como “direitos humanos” (deficientes, negros, mulheres agredidas, imigrantes, homossexuais, etc.), “direitos dos animais”, “direitos trabalhistas”, “anti-racismo”, “anti-fascismo”, “anti-militarismo”, “feminismo”, “veganismo”, “abolicionismo carcerário”, “anarquismo social”, “comunismo”, “patriotismo”, etc.

“(…) Se colocamos em uma sala um homem comum, um negro, uma mulher, uma pessoa com deficiência, um gay e um defensor dos direitos dos animais, poderá ver que todos são diferentes em termos de caráter, pensamentos, regras morais, habilidades, etc., mais algo os une, todos e cada um deles tem um papel a desempenhar na sociedade, e esse papel é que estabilidade do sistema siga de pé. Para nós há diferença, mas ao mesmo tempo não, porque vemos um padrão, ou seja, o HUMANO (como tal) contribui expressamente para a destruição da natureza selvagem, sua civilização destrói tudo em seu caminho, sua tecnologia torna tudo mais mecânico e sua ciência subjuga o natural e o transforma em artificial. Não focamos nos problemas das pessoas ou problemas de um setor específico.

Penso que as pessoas que veem, se preocupam e “lutam” pelas causas menores, como a obtenção de “direitos”, novas leis, reformas, apoio a grupos vulneráveis, etc., estão se especializando nestas problemáticas e nós nos centramos no sistema tecnológico e na civilização, porque são as raízes de todos os males que nos afligem como espécie, o resto é apenas um efeito do problema real.” Entrevista a RS.

– Repúdio total (tanto em ideias como em atos) ao progressismo:

“Certamente muitos se perguntarão: E o que há de errado que exista este tipo de caridade com pessoas vulneráveis? Talvez, os especuladores não se deram conta de que o sistema sempre se veste de “monge bem-intencionado” para continuar se perpetuando. A alta tecnologia sempre terá o mesmo fim em qualquer uma de suas formas, seja terapêutica ou armamentista, educacional ou de destruição massiva, medicinal ou venenosa. E esse fim é continuar existindo sobre a natureza selvagem, por isso atacamos. Sem mais explicações: Não somos cristãos, não somos nobres, nós somos selvagens e não buscamos nem defendemos a caridade de nada com ninguém!”. Ataque explosivo à sede da Fundação Teletón México. Grupúsculo Caçador Noturno de RS.

– Assumir a responsabilidade: tomar em suas mãos as consequências de seus atos, reconhecer que causaram o impacto que causaram, muitas vezes enfrentando contradições, sendo a mais comum quando os tolos questionam: Se você luta contra o sistema tecnológico, por que usa computadores? Abaixo resgatamos uma nota esclarecedora e sarcástica de um grupo eco-extremista sobre a questão.

“Vivemos nas cavernas, sem eletricidade, sem celulares, sem INTERNET, e sem comunicação além dos sinais de fumaça, sendo testemunhos passivamente de como a artificialidade corrói qualquer rastro de natureza selvagem, a manipula, modifica, e com um tom suculento e brilhante, a apresenta ante uma disposição total, aguardando com calma a aceitação da população humana, sem nenhuma confusão ou contratempo. Gentis ante qualquer mudança biológica espúria, entregando o curso de nossas vidas a estranhos infortúnios.

Isso seria menos incoerente, né? Menos que publicar reivindicações, atentados e ameaças por internet, que preocupam tanto e são tão criticados por espectadores, internautas, leitores, etc… Porque, claro, as críticas contra o progresso científico-tecnológico moderno impedem que utilizemos certas tecnologias, porque aí seria armadilha ou trapaça! Raciocínio estúpido.

Não nos importa suas críticas a nossa suposta “incoerência”, não só não importa a nós, mas nos provoca risos a medíocre obediência e cumplicidade ao defender e proteger o boom científico-tecnológico, gastando apenas suas vidas… deixando apenas um rastro do que algum dia foi a natureza selvagem.” Atentados contra a Aliança Pró-Transgênicos. Círculo Eco-extremista de Terrorismo e Sabotagem.

“A luta contra o Sistema Tecnoindustrial não é um jogo do qual devemos vencer ou perder, vencer ou ser vencidos, é o que muitos ainda não entenderam e parece que muitos ainda estão esperando ser “recompensados” no futuro por pagarem de “revolucionários” no agora. É preciso aceitar que muitas coisas na vida não são recompensadas, que muitas tarefas e/ou finalidades nem mesmo são alcançadas (incluindo a autonomia), e a destruição do tecnosistema por obra dos “revolucionários” é uma delas. Agora não é hora de esperar pelo “colapso iminente”, para aqueles que querem ter tempo, como se o progresso tecnológico não crescesse aos trancos e barrancos e devorasse a nossa esfera de liberdade individual aos poucos.

Somos a geração que viu crescer ante seus olhos o progresso tecnológico, a especialização da nanobiotecnologia em vários campos da não-vida civilizada, criação e comercialização do grafeno, desastres nucleares como Fukushima, deterioração ambiental acelerada, o crescimento da biomimética, a expansão qualitativa e quantitativa da inteligência artificial, bioinformática, neuroeconomia, etc. É por isso que ITS vê o que é tangível, palpável e imediato, e esse imediato é o ataque com todos os recursos, tempo e inteligência necessários contra este sistema. Somos individualidades em processo de alcançar a nossa liberdade e autonomia dentro de um ambiente ideal, e junto com ele obedecendo a nossos instintos humanos selvagens atacamos o sistema que claramente nos quer em jaulas. Com isso nos esforçamos como indivíduos afins para tentar ficar o mais longe possível de conceitos, práticas e ideologizações civilizadas.” Sexto comunicado de Individualidades Tendendo ao Selvagem.

O Eco-extremismo é uma tendência, não é uma teoria nem regra, todos aqueles que se sentem realmente comprometidos com a natureza selvagem o entendem, e os que não, já sabem.

Fogo, explosivos e balas contra o sistema tecnológico e a civilização!
Em defesa extrema da natureza selvagem!
Axkan Kema, Tehuatl, Nehuatl!
Adiante com a Guerra!
– Espírito Tanu da Terra Maldita
-Revista Regresión


Terra Maldita e, especialmente o “Espírito Tanu”, ficam muito satisfeitos por terem participado na edição desde trabalho audiovisual em conjunto com a “Revista Regresión”. Deste intercâmbio de cumplicidades e materiais audiovisuais saímos com aprendizagens tanto técnicas como práticas. Esperamos que este trabalho contribua e seja um pequeno gesto para o avanço da guerra contra o sistema tecnoindustrial, chegando a olhos e mentes radicais.

Sudamos a cada um dos integrantes da Revista Regresión por confiar em nós. A Xale por sua paciência e esforço, a Espírito Tanu pelas horas de edição, possibilitando a publicação deste trabalho. CUSTOU, MAS SAIU!

Vida longa aos indivíduos eco-extremistas!
Em guerra selvagem contra a civilização!

[ES/EN – PDF] Chichimecas de Guerra/Chichimecas of War

Este trabajo es una recopilación del estudio sobre los mas fieros y salvajes nativos de la Mesoamérica Septentrional. Los antiguos grupos cazadores-recolectores nómadas, llamados “Chichimecas” fueron quienes resistieron y defendieron con gran arrojo sus sencillos modos de vida, sus creencias y sus entornos, quienes decidieron matar y morir por aquello que consideraban como parte de ellos mismos en guerra declarada contra todo lo ajeno.

Recordarlos en esta era moderna no es solo por tener un referente histórico de su conflictividad, sino que, evidencía que por el simple hecho de criticar a la tecnología, afilar las garras para atacar este sistema y querer volver a nuestras raíces, estamos reviviendo esa guerra, estamos avivando el fuego interno que nos impulsa a defendernos y defender todo lo Salvaje, así como lo hicieron nuestros ancestros.

De este estudio se pueden sacar muchas conclusiones, pero una de vital importancia, es darle continuidad a la guerra contra la artificialidad de esta civilización, en contra del sistema tecnológico rechazando sus valores y sus vicios, y sobre todo, por la defensa extremista de la naturaleza salvaje.

!Axkankema, tehuatl, nehuatl!

DESCARGUE en PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

This compilation is a study concerning the fiercest and most savage natives of Northern Mesoamerica. The ancient hunter-gatherer nomads, called “Chichimecas,” resisted and defended with great daring their simple ways of life, their beliefs, and their environment,. They decided to kill or die for that which they considered part of themselves, in a war declared against all that was alien to them.

We remember them in this modern epoch not only in order to have a historical reference of their conflict, but also as evidence of how, due to the simple fact of our criticism of technology, sharpening our claws to attack this system and willing to return to our roots, we are reliving this war. Just like our ancestors, we are reviving this internal fire that compels us to defend ourselves and defend all that is Wild.

Many conclusions can be taken from this study. The most important of these is to continue the war against the artificiality of this civilization, a war against the technological system that rejects its values and vices. Above all, it is a war for the extremist defense of wild nature.

Axkankema, tehuatl, nehuatl!

DOWNLOAD in PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

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No canal do Telegram serão compartilhadas, produzidas e fomentadas críticas e discussões desde uma perspectiva ecológica, ancestral e niilista da humanidade moderna, civilização e o progresso humano. Postulando análises e reflexões que se chocam aos valores éticos e morais desta era, pensamentos que partem desde outras formas orgânicas de se ver e entender o mundo, modos de vida primitivos ou simplesmente iconoclastas. Resumidamente estudará o chamado antropoceno e suas origens bem como as consequências ecológicas da tecnologia e a humanidade moderna à natureza selvagem, incluindo a própria espécie humana.

[MÚSICA] Mundo Muerto

DOWNLOAD DO ÁLBUM | SOUNDCLOUD

01. Para Poder Decir Yo Te amo, Primero Hay Que Saber Decir Yo
02. La Tierra Sin Sociedad Tecnoindustrial
03. La Victoria Del Sistema
04. Queremos Ver Arder Su Mundo Moderno
05. El Lobo Aulla Para Reunir Al Grupo
06. La Pesadilla de Orwell
07. La Violenta Naturaleza Salvaje
08. Realidad…
09. Tortuosa Cotidaniedad Civilizada
10. Cuando Las Máquinas Nos Controlen
11. Mensajería Desde el Bosque

Would Human Extinction Be a Tragedy?

Pertinente artigo de Todd May, um professor de filosofia da Clemson University. Publicado no The New York Times o texto de May planteia a possibilidade da extinção da espécie humana como um fenômeno benéfico ao planeta em face a inimaginável destruição que a humanidade tem causado a terra.

An overgrown lot along Highway 13 near the town of Haleyville, Ala.Credit…William Widmer for The New York Times

There are stirrings of discussion these days in philosophical circles about the prospect of human extinction. This should not be surprising, given the increasingly threatening predations of climate change. In reflecting on this question, I want to suggest an answer to a single question, one that hardly covers the whole philosophical territory but is an important aspect of it. Would human extinction be a tragedy?

To get a bead on this question, let me distinguish it from a couple of other related questions. I’m not asking whether the experience of humans coming to an end would be a bad thing. (In these pages, Samuel Scheffler has given us an important reason to think that it would be.) I am also not asking whether human beings as a species deserve to die out. That is an important question, but would involve different considerations. Those questions, and others like them, need to be addressed if we are to come to a full moral assessment of the prospect of our demise. Yet what I am asking here is simply whether it would be a tragedy if the planet no longer contained human beings. And the answer I am going to give might seem puzzling at first. I want to suggest, at least tentatively, both that it would be a tragedy and that it might just be a good thing.

To make that claim less puzzling, let me say a word about tragedy. In theater, the tragic character is often someone who commits a wrong, usually a significant one, but with whom we feel sympathy in their descent. Here Sophocles’s Oedipus, Shakespeare’s Lear, and Arthur Miller’s Willy Loman might stand as examples. In this case, the tragic character is humanity. It is humanity that is committing a wrong, a wrong whose elimination would likely require the elimination of the species, but with whom we might be sympathetic nonetheless for reasons I discuss in a moment.

To make that case, let me start with a claim that I think will be at once depressing and, upon reflection, uncontroversial. Human beings are destroying large parts of the inhabitable earth and causing unimaginable suffering to many of the animals that inhabit it. This is happening through at least three means. First, human contribution to climate change is devastating ecosystems, as the recent article on Yellowstone Park in The Times exemplifies. Second, increasing human population is encroaching on ecosystems that would otherwise be intact. Third, factory farming fosters the creation of millions upon millions of animals for whom it offers nothing but suffering and misery before slaughtering them in often barbaric ways. There is no reason to think that those practices are going to diminish any time soon. Quite the opposite. Humanity, then, is the source of devastation of the lives of conscious animals on a scale that is difficult to comprehend.

To be sure, nature itself is hardly a Valhalla of peace and harmony. Animals kill other animals regularly, often in ways that we (although not they) would consider cruel. But there is no other creature in nature whose predatory behavior is remotely as deep or as widespread as the behavior we display toward what the philosopher Christine Korsgaard aptly calls “our fellow creatures” in a sensitive book of the same name.

If this were all to the story there would be no tragedy. The elimination of the human species would be a good thing, full stop. But there is more to the story. Human beings bring things to the planet that other animals cannot. For example, we bring an advanced level of reason that can experience wonder at the world in a way that is foreign to most if not all other animals. We create art of various kinds: literature, music and painting among them. We engage in sciences that seek to understand the universe and our place in it. Were our species to go extinct, all of that would be lost.

Now there might be those on the more jaded side who would argue that if we went extinct there would be no loss, because there would be no one for whom it would be a loss not to have access to those things. I think this objection misunderstands our relation to these practices. We appreciate and often participate in such practices because we believe they are good to be involved in, because we find them to be worthwhile. It is the goodness of the practices and the experiences that draw us. Therefore, it would be a loss to the world if those practices and experiences ceased to exist.

One could press the objection here by saying that it would only be a loss from a human viewpoint, and that that viewpoint would no longer exist if we went extinct. This is true. But this entire set of reflections is taking place from a human viewpoint. We cannot ask the questions we are asking here without situating them within the human practice of philosophy. Even to ask the question of whether it would be a tragedy if humans were to disappear from the face of the planet requires a normative framework that is restricted to human beings.

Let’s turn, then, and take the question from the other side, the side of those who think that human extinction would be both a tragedy and overall a bad thing. Doesn’t the existence of those practices outweigh the harm we bring to the environment and the animals within it? Don’t they justify the continued existence of our species, even granting the suffering we bring to so many nonhuman lives?

To address that question, let us ask another one. How many human lives would it be worth sacrificing to preserve the existence of Shakespeare’s works? If we were required to engage in human sacrifice in order to save his works from eradication, how many humans would be too many? For my own part, I think the answer is one. One human life would be too many (or, to prevent quibbling, one innocent human life), at least to my mind. Whatever the number, though, it is going to be quite low.

Or suppose a terrorist planted a bomb in the Louvre and the first responders had to choose between saving several people in the museum and saving the art. How many of us would seriously consider saving the art?

So, then, how much suffering and death of nonhuman life would we be willing to countenance to save Shakespeare, our sciences and so forth? Unless we believe there is such a profound moral gap between the status of human and nonhuman animals, whatever reasonable answer we come up with will be well surpassed by the harm and suffering we inflict upon animals. There is just too much torment wreaked upon too many animals and too certain a prospect that this is going to continue and probably increase; it would overwhelm anything we might place on the other side of the ledger. Moreover, those among us who believe that there is such a gap should perhaps become more familiar with the richness of lives of many of our conscious fellow creatures. Our own science is revealing that richness to us, ironically giving us a reason to eliminate it along with our own continued existence.

One might ask here whether, given this view, it would also be a good thing for those of us who are currently here to end our lives in order to prevent further animal suffering. Although I do not have a final answer to this question, we should recognize that the case of future humans is very different from the case of currently existing humans. To demand of currently existing humans that they should end their lives would introduce significant suffering among those who have much to lose by dying. In contrast, preventing future humans from existing does not introduce such suffering, since those human beings will not exist and therefore not have lives to sacrifice. The two situations, then, are not analogous.

It may well be, then, that the extinction of humanity would make the world better off and yet would be a tragedy. I don’t want to say this for sure, since the issue is quite complex. But it certainly seems a live possibility, and that by itself disturbs me.

There is one more tragic aspect to all of this. In many dramatic tragedies, the suffering of the protagonist is brought about through his or her own actions. It is Oedipus’s killing of his father that starts the train of events that leads to his tragic realization; and it is Lear’s highhandedness toward his daughter Cordelia that leads to his demise. It may also turn out that it is through our own actions that we human beings bring about our extinction, or at least something near it, contributing through our practices to our own tragic end.

Todd May is a professor of philosophy at Clemson University and the author of, most recently, “A Fragile Life: Accepting Our Vulnerability.” He is a philosophical adviser for the television show, “The Good Place.” (https://twitter.com/nbcthegoodplace)

Now in print: “Modern Ethics in 77 Arguments,” and “The Stone Reader: Modern Philosophy in 133 Arguments,” with essays from the series, edited by Peter Catapano and Simon Critchley, published by Liveright Books.

¿Por qué incendian iglesias en Chile?: una guerra irregular contra Occidente

Fragmentos do escrito de Vanessa Vallejo, colunista do PanAm Post. Compartilhamos aqui os trechos que se encaixam dentro da narrativa deste espaço, nos distanciando dos lamentos presentes no texto, postura recriminadora e visões exageradas ou conspiratórias que enxergam a catarse chilena exclusivamente como uma “tática esquerdista” promovida por “interferência externa” para se alçar um “regime socialista”. O que se passa em Chile é plural e perpetrado por diversos grupos multi-intencionados, e o escrito da autora é bem assertivo ao observar o fenômeno do caos niilista naquela região como uma guerra ao ocidente, a seu modelo social e valores. A luta contra a civilização e o progresso em maior ou menor grau é uma das faces do que se passa em Chile, e este aspecto da rebelião foi inteligentemente observado pela autora e merece ser compartilhado.

Lo que ocurre en Chile va más allá de la común lucha socialista por llegar al poder. Lo que en el fondo quieren es destruir la cultura occidental (EFE)

Creo, sinceramente, que ni el presidente Sebastián Piñera, ni la mayoría de los chilenos de bien, han dimensionado el ataque del que son víctimas.

Lo que ocurre en Chile no es simplemente la arremetida de un grupo de socialistas que quiere llegar al Congreso y a la presidencia y replicar el modelo cubano o venezolano. Lo que tiene lugar en el país austral es, además, una guerra irregular contra Occidente. Específicamente, lo que enfrentan los chilenos es un ataque práctico y teórico contra las instituciones que refuerzan y mantienen los valores occidentales. La idea, al final, es destruir el sistema. Destruir lo que conocemos como sociedad Occidental.

Reflexione el lector en por qué, en menos de un mes de protestas, van decenas de iglesias profanadas e incendiadas. No solo católicas, sino también evangélicas. Las iglesias protestantes no son fáciles de reconocer; a simple vista parecen bodegas o locales. Sin embargo, los «manifestantes» chilenos han ubicado estas iglesias y les han prendido fuego.

En diferentes calles de Chile, y dentro de las iglesias atacadas, los terroristas han pintado en las paredes la frase: «iglesia bastarda».

Si -como dicen los voceros de lo que ahora llaman «primavera chilena»- las movilizaciones son en contra de supuestas injusticias sociales y «mala situación económica», ¿por qué se ensañan con tal violencia contra las iglesias? ¿Qué culpa tienen los creyentes de las decisiones políticas del Gobierno de turno?

Y, en general, ¿por qué desatar tal nivel de caos? Hay ya más de 20 muertos, la mayoría perdieron la vida al quedar atrapados en medio de los incendios provocados los supuestos manifestantes. La Cruz Roja estima que 2.500 personas han resultado heridas. Unas 6.800 empresas pequeñas han sido destruidas, las estimaciones de los daños en infraestructura ascienden a 4.500 millones de dólares. 70 de las 136 estaciones de metro que tiene Santiago han sido totalmente destruidas. Y se han perdido aproximadamente 100 mil puestos de trabajo.

Lo que ocurre en Chile es terrorismo urbano. La gente normal no se enoja y sale a incendiar iglesias o edificios con gente adentro. Estamos hablando de grupos terroristas que quieren cambiar el sistema -como abiertamente lo dicen y lo pintan en las paredes- a través del caos.

Pero no hablan solo de un cambio de sistema económico, digo que lo que ocurre en Chile no es solo el típico socialismo que quiere estatizar la economía y quedarse con el poder político, los chilenos enfrentan una amenaza que va mucho más allá. El fondo, el objetivo final, es un cambio cultural que ni siquiera los mismos cabecillas de estos grupos tienen claro a dónde nos conduciría, pero lo que sí tienen claro es que necesitan deconstruir la cultura occidental. Lo que conocemos como natural. Por eso atacan las iglesias, por eso atemorizan a los creyentes de esa forma.

Aunque estas ideas puedan sonar extrañas y confusas para muchos lectores que no ven en las protestas chilenas más que una intento común del socialismo para llegar al poder, todo esto del cambio cultural la izquierda ya lo ha propuesto y trabajado desde hace años.

Lo que ocurre hoy en Chile parece la puesta en marcha de lo que alguna vez teorizaron Georg Lukács y los «intelectuales» de la Escuela de Frankfurt.

Lukács, por ejemplo, planteaba la necesidad de sumir a las personas en el pesimismo y hacerlas creer que vivían en un “mundo olvidado por Dios”, para de este modo tener las condiciones necesarias de desesperación social que permitirían la adhesión de nuevos militantes a la causa marxista. La iglesia, católica o protestante, es una barrera de contención contra el socialismo.

Pero yendo al fondo del asunto, tanto Lukács como los teóricos de la Escuela de Frankfurt, dejaron de lado el asunto económico y convirtieron la cultura en su centro de estudio, teniendo claro que lo que querían era provocar «cambios sociales masivos».

La escuela de Frankfurt plantea que bajo la Cultura Occidental, todos viven en un constante estado de represión psicológica, que la libertad y la felicidad solo se conseguirá eliminando lo que conocemos como valores occidentales. Por eso hay que atacar las instituciones como la familia y la iglesia, que son las que refuerzan e inculcan las virtudes sobre las que sustenta Occidente.

¿Cuál es la nueva sociedad que quieren construir? Ni ellos lo saben, estos teóricos de la nueva izquierda creían que estaban tan «alienados» por la cultura occidental que hasta que no la destruyeran no podrían ser realmente libres para saber qué es lo verdaderamente deseable.

Eso sí, tienen claro, y escriben ampliamente al respecto -en libros como “Eros y Civilización”- que la destrucción de la cultura occidental pasa por la eliminación de cualquier restricción a la conducta sexual y la normalización del desenfreno, consiguiendo que cualquier cosa que antes pudiera ser tildada de aberrante ahora deba ser aceptada. La familia, como la conocemos, debe desaparecer, la monogamia es para ellos una atadura y los hijos no deben ser de los padres sino del Estado, de la «comunidad». Y por supuesto la religión es un impedimento para la consecución de todo esto.

Estos mismos grupos que atacan iglesias en Chile -tal vez el más conocido es «Individualistas tendiendo a lo salvaje»-, según dicen sus páginas, tienen entre sus objetivos la «lucha contra la civilización y el progreso científico y tecnológico». Dice la «teoría crítica» de la Escuela de Frankfurt que el progreso técnico es «un mecanismo ideológico de alienación». En Chile, siguen al pie de la letra las teorías de los padres de la izquierda moderna.

Ellos entienden perfecto lo que muchos capitalistas y liberales no comprenden aún, sin valores judeocristianos, sin cultura occidental, no hay capitalismo, de modo que tienen claro que una vez destruida la cultura el capitalismo será imposible.

No hablamos de una guerrilla uniformada a la que se puede atacar frontalmente -como ocurre en Colombia-, hablamos de terroristas vestidos de civiles que incendian iglesias y causan caos.

[VÍDEO] Entrevista de ITS a TV5MONDE

Vídeo traduzido e legendado ao português que faz parte da entrevista Terroristas, Ecologistas: Quem está por trás do grupo ITS, os Individualistas Tendendo ao Selvagem?, realizada pela rede francesa TV5MONDE com Xale, membro-fundador de Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

[VÍDEO – TRADUZIDO] Anónimx Sabotaje & Ignición, Cautela – Odio Arraigado

Letra:

Sou ninguém, nós somos nada
Traidores de nossa espécie, a bastarda raça humana

Sou mais um ser que despreza o cotidiano
Sou duas pernas, duas mãos contra todo o progresso humano

Eu não confio em sociedades utópicas
Não creio que haverão dias sem poder e noites sem autoridade

Eu não acredito que deixaremos de pensar
Que animais e plantas só existem para a nossa prosperidade

Capacidade de pensar, aparentemente nos fez mal
Destruindo o meio ambiente pelo desejo de governar

Este desejo insaciável de estar sempre pisando em algo
Parece inata esta ambição por dominar

Possuir a natureza para o seu bem estar
É fácil detestar quando somos o centro de tudo

Humano lixo, quando você será erradicado?
Quando diabos será o dia em que você deixará de respirar?

E se este ódio doente parece não ser justificado,
Tire as suas vendas e olhe para qualquer lado

Que daqui deste lado é possível ver que tudo piorou
O progresso tem avançado rapidamente

Arrastando consigo a vida
Os pulmões da Terra verão apenas a sua queda

Cortando a sua sábia existência
Por algum povoado desgraçado, a cidade e a ciência

Ódio enraizado palpitado sobre mim
Germinando ações, constantemente ameaçando
Incomodando!
A realidade presente!
Detestando!
Meu próprio fedor de humanidade!

Me inundando em mares de misantropia!
Como a falta de ar que é possível sentir ao ver carros nas avenidas
Minha respiração também será parada
Mas desejo que esta espécie veja o fim de seus dias

Extinção em massa
É a merda que se aproxima
Os alertas para conscientizações são puro show
São mais mentiras

Nova publicidade buscará “seres conscientes”
Formando parte do capitalismo verde

Somos o Nada!
Matilha faminta exterminando uma praga

À autoridade escrava
Estou pouco me fodendo para os seus protestos mortos

O mar e a terra em breve verão cair
A onda de vingança que tremerá edifícios e casas

Milhares de animais deixarão de viver
Desparecem por causa de uma espécie que não sabe conviver

Já basta de acreditar numa mudança coletiva
A esperança está morta, o Caos se tornou meu amigo

As bombas nos esperam para destruir a cidade
Interromperão o seu sem bem-estar, a sua bastarda comodidade

Existência destrutiva predadora da vida
Suas mentes aspiram à mineração e a construir represas

Filhos para mim, honestamente os quero mortos!
À irrevogável maternidade eu sempre fui induzida

A luta, o legado, não são motivos
Para mim não há razões
Por isso não estou nem aí
Para gerar um novo ser humano

População humana zero!
É o que eu realmente quero!
Os animais são os únicos que liberdade mereceram.

DOWNLOAD DA MÚSICA

SOUNDCLOUD DE IGNICIÓN, CAUTELA | SOUNDCLOUD DE ANÓNIMX SABOTAJE

Orangotango luta contra uma escavadeira que destrói seu habitat em Bornéu

Um vídeo captado em 2013 mostra um orangotango sobre uma das últimas árvores de sua floresta que ainda não tinham sido derrubadas por homens e máquinas. O animal corre sobre o tronco e parece tentar parar a escavadeira com as próprias mãos.

De Público:

O corte massivo de árvores em Bornéu para a extração do questionado óleo de palma é um problema ecológico descomunal. Os Orangotangos são alguns dos animais mais prejudicados pela ação do ser humano nesta ilha do sudeste asiático. Entre 1999 e 2015 sua população caiu 50%.

A organização International Animal Rescue difundiu um vídeo de 2013 em que um Orangotango ataca a uma escavadora que está devastando seu habitat, uma reação desesperadora de um animal que parece apenas querer proteger seu território e seu lar.

O desmatamento não é a única ameaça que sofrem estes animais. Se calcula que cerca de 70% da queda da população destes animais se deve a assassinatos cometidos pelos humanos. Isso significa que, em números estimados, 100.000 Orangotangos foram assassinados em áreas florestais pelas mãos do homem.

Os Orangotangos habitam as florestas das terras baixas de Bornéu, uma ilha compartilhada pela Indonésia, Malásia, Brunei e a ilha indonésia de Sumatra, comendo normalmente frutas silvestres, insetos, cascas, flores e folhas.

[VÍDEO] Entrevista do sociólogo Rodrigo Larraín sobre Individualistas Tendendo ao Selvagem

Interessante entrevista de um sociólogo a um jornal chileno sobre ITS. Em seguida um texto analisando o que foi dito.

Entrevista da televisão chilena. O sociólogo entrevistado apresenta um interessante ponto de vista sobre o que representa o grupo Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

A fim de esclarecer algumas coisas ditas no programa e de uma maneira puramente pessoal, darei meu ponto de vista, tentando responder algumas questões. Embora eu deva dizer que, devido à profunda estupidez, insensatez e imbecilidade máxima do entrevistador, nenhum de meus esclarecimentos poderá fazê-lo entender qual é o real pensamento de ITS.

A entrevista é do dia 07 de Janeiro de 2019, e foi transmitida no jornal matinal Chilevision Noticias.

Sobre o Sociólogo

O acadêmico, de uma maneira bem-sucedida, consegue acertar algumas coisas e, em geral, creio que graças a seu conhecimento, ele consegue nos dar uma boa interpretação do significado das siglas. Mas, aparentemente, não tem conhecimento de um ponto crucial da guerra de ITS-Chile, dizendo que ITS concentrou seus atentados nos “setores populares”. Não é esse o caso, e para isso basta apenas lembrar das cicatrizes deixadas no corpo do endinheirado e elitista Oscar Landerretche, essas marcas provam que ITS também executou atentados contra os ricos e burgueses. É de conhecimento público que ITS não crê na guerra de classes nem em nenhuma destas supérfluas bobagens, o grupo não está contra a classe trabalhadora nem contra a dos poderosos, mas contra a humanidade moderna, portanto estas analogias não vêm ao caso.

Ele diz que os grupos de ITS-Chile não têm muitos recursos, e talvez esteja certo, este é um ponto que eu desconheço. Eu me questiono humildemente neste caso, se com os poucos recursos que têm os terroristas do sul conseguiram causar desastres contundentes, nem quero imaginar o que fariam quando consigam seus AK-47 e TNT.

Esclarecido isso, é extremamente interessante a visão do acadêmico de que o ITS funciona como uma seita que recebe ordens “a mando do sobrenatural”. Algo que chamou minha atenção foi como o professor, em seu entendimento, faz uma espécie de “defesa” das ideias do grupo contra a absoluta tolice do jornalista que não capta a essência do discurso dos terroristas.

Sobre o Jornalista

Este profissional meia boca em sua estreita mente e com base em seu humanismo enraizado se contorce de incompreensão ao ouvir as contradições dos terroristas de ITS. A preocupação deste espécime é que ele não consegue entender um grupo que critique a tecnologia e ao mesmo tempo a utilize. É importante dizer que ele não é o único com esta visão.

Eu aceito minha falta de lógica ou minha incoerência, ou como queiram chamar, não tenho nenhum problema moral em me contradizer. Diante deste questionamento eu não tenho a resposta iluminada que me dá a razão, é mais duvidoso que exista uma resposta. Mas vamos supor que eu consiga responder a sua pergunta; “porque usam a tecnologia se a criticam?”. A resposta poderia ser, “bem, porque é a única maneira de encarar sua civilização de maneira equitativa”. Essa é uma resposta possível, mas eu não busco a coerência em meu discurso, porque a verdade é que não quero encontrar uma resposta coerente. Os grupos de ITS entenderam que a única forma de avançar e conseguir travar sua guerra extremista é aceitando esta contradição, torná-la parte de seu caminho de terror e ponto. Deixando de lado laços morais que apenas atrapalham a sua guerra.

Este sujeito fica muito zangado e dá ênfases ao dizer “eles são completamente contra a tecnologia, mas suas mensagens eles mandam pelas redes sociais”. O cara acusa os terroristas de pouco sérios e de ilógicos. O engraçado aqui é que ele acha que a maior contradição é usar a internet, ignorando que a contradição não está apenas em usar a internet, assim como diz as partes mais importantes da entrevista, mas em muitas outras coisas.

Seguindo a lógica da coerência e a lógica que este sujeito aconselha, os terroristas não poderiam usar pólvora, nem tubos de aço, cabos, ou qualquer outra coisa para fazer seus artefatos. Deveriam ir morar no topo de uma colina, e sequer deveriam usar roupas e então andar nus pela rua, o que é algo impossível e estúpido. O cara pensa que ITS deveria utilizar flechas para atacar as máquinas do progresso e esculpir seus comunicados em pedra.

Então, por falta desta coerência, os terroristas não deveriam realizar atentados? Deveriam primeiro encontrar uma ideologia coerente e com isso ficaria justificado o método do terrorismo? Deveriam se render, abandonar sua guerra e deixar tudo como está? Deveriam eles fugirem para a natureza selvagem e se esquecer das vexações da humanidade contra a terra? Estúpido.

Como eu disse, “o ilógico” por utilizar a internet é minúsculo ao lado de outras contradições, como a adoção da misantropia. O mesmo acontece aqui. “Se odeiam a raça humana, porque não se matam primeiro?”. Aparentemente, esta “incoerência” que é mais profunda passa batido pelo sujeito. Talvez alguns terroristas realmente desejem se matar. Mas e se antes de se suicidarem preferissem seguir atentando contra a civilização? E se os terroristas desejem levar a cabo sua misantropia, se matando como os kamikazes e levar com eles a vida de vários humanos? Isso só eles sabem.

Mas isso das contradições não é um problema exclusivo de ITS, os grupos terroristas ao longo da história evidenciaram sua incoerência em alguns pontos. Não sei, penso nos terroristas islâmicos que odeiam tudo o que é ocidental, mas não tem escrúpulos na hora de utilizar a internet ou uma infinidade de produtos de seus inimigos. Os grupos anarquistas antiautoritarios que matam exercendo com isso a autoridade sobre a pessoa morta, ou o terrorista primitivista Unabomber que vivia sem eletricidade no bosque, mas usava materiais tecnológicos da civilização para seus atentados. Bem tudo se repete novamente, as mesmas críticas. Isso parece ser um problema histórico da qual ITS não se isenta.

Como podem ver, se os extremistas de ITS buscassem a coerência, a única coisa que lhes restaria seria dar um tiro na própria cabeça ou se atirar de um prédio. Mas não, desgraçadamente para a ordem social os terroristas não são simplesmente suicidas. A complexidade da mente dos eco-extremistas escapa ao raciocínio humanista. Somos loucos? Pode ser que sim, se a sanidade é a humanidade moderna e seu progresso implacável, então estamos loucos, fodidamente loucos.

Nascemos nesta era, a era da híper-tecnologia, não utilizá-la a nosso favor seria algo idiota, infantil e orgulhoso da nossa parte. Os povos selvagens ancestrais ao longo da história enfrentaram os invasores que buscavam conquistá-los, inicialmente utilizando ferramentas primitivas, mas logo entenderam que não era viável essa confrontação. O que fizeram? Se renderam? Deixaram que os invadissem sem mais nem menos? Claro que não. Em vez disso, se apoderaram das armas modernas de seus inimigos (armas de fogo, cavalos e táticas de guerra) e com isso travaram uma guerra sangrenta. O mesmo faz os terroristas modernos ao utilizar as tecnologias modernas, seja a internet, eletricidade, pólvora, vestimentas, comidas, etc.

Sem dúvida, poucos serão capazes de entender isso, já que é necessário um nível superior de inteligência para chegar à compreensão. Portanto, toda essa ninhada de jornalistas de quinta categoria, reportuchos de jornais ou simples cidadãos nunca entenderão. Em seus pequenos cérebros humanistas, onde tudo tem que ser razoável e coerente nossos postulados arrancam a sua lógica.

É por isso que pessoas intelectualmente superiores, como o acadêmico entrevistado, conseguem entender melhor a situação do terrorismo moderno.

-Malviviente

Excursionismo

Tradução do texto Hiking, escrito por Abe Cabrera.

Cenas de uma vida dupla.

“Só queremos deixar claro que nenhum ser humano estará tranquilo na natureza, nós não acreditamos ser coiotes, lobos, ou qualquer coisa assim, mas nós somos aqueles que não hesitarão em disparar uma arma para que nenhum ser humano pise na pouca natureza semivirgem que ainda existe, então a partir daqui advertimos que nenhum eventinho desses como a “montanha fantasma” que organizam, as visitas à “floresta dos vagalumes”, passeios pelos bosques, eventos humanistas e estúpidos de “sobrevivência primitivista”, nenhuma pessoa é bem-vinda na natureza, será melhor que se abstenham de querer entrar e é melhor que fiquem em suas malditas cidades”.

– Vigésimo Nono Comunicado de ITS/GITS

“Quero viver nas florestas com predadores. Não quero ser o animal mais perigoso nas matas quando entro nelas. Eu gosto de saber que existe um predador maior por aí, um que pertence e se encaixa em um ecossistema saudável. Odeio a ideia da natureza como um espaço rural, livre de todas as ameaças. Essa é a visão do invasor, não a minha.”

– Rod Coronado, “A Resiliência do Selvagem: Lobos Falando e Espreitando com Rod Coronado.”

Black and Green Review Nº 1 (primavera de 2015), página 108.

Quando ando pela floresta, tento estar o mais atento possível. Mas no fundo da minha mente, eu sei que estou em um lugar seguro. De fato, até digo a minhas filhas que o lugar que fico mais nervoso é o estacionamento subterrâneo do shopping. Este é o lugar mais antinatural que um humano poderia conceber, razão pela qual é um dos mais provocadores de ansiedade que alguém possa imaginar. De qualquer forma, o problema real são os carros dando ré, que é uma das situações mais notáveis para acidentes de carros. As crianças, sendo pequenas, poderiam facilmente serem atropeladas por um condutor que não presta atenção ao que está atrás dele. Em comparação com a floresta aqui, o máximo que poderia ser encontrado seria uma serpente ou parar sobre um formigueiro. Com muita sorte se poderia encontrar um lagarto tomando sol, ao lado de um pântano ou uma lagoa. Mas os lagartos são muito tímidos, e fugiriam para a água se alguém os encontrasse.

Ironicamente, em locais selvagens no Oeste, mesmo em lugares que parecem muito mais desenvolvidos, caminhar na natureza poderia ser potencialmente uma proposta muito mais perigosa. Quando eu morava nas montanhas da Califórnia Central, sempre tive medo de me encontrar com um leão da montanha, especialmente quando alguém dizia que havia visto um em alguma montanha, fora do local onde eu estava me hospedando. Lembro-me de ter ficado em outro lugar, e tive que sair para caminhar muito cedo pela manhã, no escuro, e estava desesperadamente com medo de me encontrar com um leão da montanha ou um urso. Os porcos selvagens eram também uma preocupação. No deserto eram os cães errantes que eu mais temia, e levava inclusive uma vara. Uma serpente cascavel poderia ser facilmente evitada: ao contrário das pantanosas florestas de pinheiros, há pouca grama no deserto para que se escondam. O máximo que eu vi foi um pequeno lince ou um coiote meio emaciado. Ao me verem sequer mudaram seus cursos, seguiram vagando.

Também vi coisas menos ameaçantes. Os cervos são abundantes a oeste, já que a caça é estritamente proibida. Caminhando nas terras de Robinsón Jeffers, especificamente em Wolf Point, cheguei a dois metros de um cervo, e fiquei diante dele. Ele me olhou e não tinha medo. Durante semanas em um dos lugares em que eu estava hospedado, mencionado acima, uma família de cervos passava todas as tardes, perto das cinco horas em ponto: uma cerva e cerca de cinco filhotes. Certa manhã, acordei para encontrar com um lindo cervo de cifres predominantes que havia sido atropelado campina abaixo. Essa visão partiu meu coração.

Houve outros encontros, e haverá mais sem dúvidas. Mas estou começando a perceber que estas epifanias do Deus Selvagem do mundo, se manifestam dentro do cativeiro Babilônico, uma curta, mas trágica época em que um animal decidiu que dominará tudo, e que tudo que restar o servirá enquanto sua existência puder se beneficiar disso. Por exemplo, os lagartos nesta área quase foram extintos no início do século passado. Ursos, lobos, panteras e martas vagavam por estas florestas. Sem dúvida, o grande coro dos pássaros foi uma grande orquestra até não muito tempo atrás. A floresta abre de tempos em tempos mausoléus a céu aberto, e inconfundivelmente silenciosos em comparação a quando uma sinfonia total de animais acrescentava suas medidas musicais. E elas (as florestas atuais) *¹ foram feitas desta maneira por e para o homem. Eu já comentei como minha área nativa na Califórnia foi alterada além do reconhecível.

Declaro tudo isso porque recentemente me pediram para refletir sobre o selvagem *². Para mim, não existe tal coisa. A “natureza” existe completamente a critério do homem. Leia um livro como A Terra dos Cervos: A Caça na América Para o Equilíbrio Ecológico e a Essência da Vida Selvagem, e você percebe que mesmo os selvagens e impressionantes cervos são meramente um produto da civilização: uma população que é permitida vagar e que são extraídos de acordo com cotas muito estritas do governo. De fato, a forma pela qual algumas pessoas caçam cervos, usando milho para atraí-los e ficando a postos para disparar contra eles, já que o cervo não consegue levantar seu olhar, está mais para um massacre que para uma caçada. Existe até um procedimento que a pessoa deve seguir se ela atropela um cervo (que é um acidente muito comum em algumas partes dos Estados Unidos). Em algumas partes do sul, enquanto se está transbordando de árvores, elas são colhidas de acordo com uma determinada agenda. Há a temporada dos lagartos, dos patos, etc., etc. Considerando o número de armas nesta parte do mundo, e o entusiasmo de alguns em usá-las contra animais comparativamente indefesos, a única coisa que impede estas criaturas de serem extintas é o Estado. Muitos animais foram extintos apoiando esta hipótese, uma vez que o governo foi menos entusiasta para protegê-los.

Então enquanto as pessoas pensam que o Estado está contra a “Natureza”, eu estou um pouco relutante em concordar. Se o Estado e a sociedade tecnoindustrial entrassem em colapso amanhã, os primeiros a morrerem seriam todos os animais. Todos os cervos: mortos. Tartarugas: mortas. Lagoas e rios: saturados pela pesca. As pessoas até mesmo começariam a matar os guaxinins e gambás (que eu ouvi dizer que caem bem se vão acompanhados com batatas). Talvez comecem a comer tatus, que dizem que carregam lepra, e depois cães e gatos, e assim por diante. Muitos romances distópicos foram escritos sobre isso. Se a sociedade tecnoindustrial entrasse em colapso amanhã, o leve, mas entusiasta coro da floresta, cairia em silêncio total, enquanto milhões de humanos vagariam pelos espaços silvestres a procura de carne para se alimentar. A descrição de Paul Theroux do silencioso campo da Angola destruído pela guerra, em seu livro The Last Train to Zona Verde, vem à mente.

Claro, agora é muito mais perigoso andar pelos bairros mais distantes, Eu sei, tendo sido assaltado uma vez, tarde da noite, na Califórnia (não levaram nada, e descobri que eu poderia aguentar um soco). Os tiroteios geralmente ocorrem à noite, assim como todos os tipos de assassinatos, roubos de veículos, violações, assaltos, etc. Homo homini lupus*³, especialmente quando todos os lupis reais, foram massacrados pelas mãos do homo sapiens. Ou talvez não seja tão sábio ao tentar criar um mundo em que ele é o único predador a ser temido. É verdade, talvez, que a única Natureza Selvagem que resta está no coração do homem: em seu coração mortal, frio, onde apenas outros homens são presas. No final, este é o mundo que criamos. Um em que a única forma de replicar a sensação do homem primitivo, caminhando pelo bosque primaveril, é afrontando outro homem na floresta artificial de concreto, concebida fora de sua mente limitada. Lá pelo menos deve permanecer alerta e consciente de sua própria mortalidade. Na floresta real, a reserva que sobrou da civilização, é como um claustro monástico em comparação.

De qualquer forma, penso eu, que posso entrar na floresta, no pântano, e nas águas para expressar minha dor. Talvez algum dia, outro homem possa sentir a plenitude de viver entre as árvores, rochas e águas, onde ele é meramente outro animal, a potencial comida de algum animal, e somente outra voz na grande Roda Cósmica. Isso e nada mais. Talvez isso aconteça novamente no sonho do Mundo, talvez não, mas não voltarei a cometer o erro de acreditar que sou eu quem está sonhando.

1. * Esclarecimento do tradutor.
2. * Referindo neste caso a áreas selvagens, geograficamente.
3. * (O homem é o lobo do homem)

Minha Autoridade

Texto extraído da terceira edição da Revista Ajajema.

É um pouco difícil para mim começar a escrever algumas palavras, posto que os teóricos da tendência se lançaram no abismo das reflexões. Tanto que muitas vezes sinto que logo ficaremos sem mais nada para dizer. Muitas coisas já foram ditas, cada uma igualmente interessante. Reflexões muito letradas, especialmente a dos manos dos EUA. Às vezes invejo a capacidade reflexiva e intelectual dos compas. Ler cada palavra dos irmãos e irmãs de tantos lugares é uma alegria e um tremendo impulso anímico para o espírito. Cada uma de suas contribuições para a guerra, cada texto encorajando a Máfia, cada escrito resgatando as vidas dos povos primitivos, as reflexões enaltecendo o Oculto e o Desconhecido, e suas bocas lançando maldições pagãs em detrimento da civilização e a humanidade. Tudo isso é uma lufada de ar fresco para os individualistas que lhes custa tirar dentro de si as palavras, como é o meu caso.

Sabendo disso, atrevo-me a escrever algumas palavras sobre a autoridade da Natureza Selvagem, de suas indiscriminadas manifestações, de seus massacres contra a humanidade, do chamado que fizeram alguns compas para alegrarmo-nos com cada tragédia caótica da Terra sobre a civilização.

Os irmãos do grupo editorial da Revista Ajajema fizera-me o convite para eu somar com alguma contribuição para a sua terceira edição, e com prazer me animo e escrevo estas palavras soltas. Reflexões caóticas a quem interesse. Aí vou eu…

Comecemos com uma pergunta bastante básica, o que é autoridade? Ou, pelo menos, o que eu entendo por ela. A autoridade vem sendo uma figura (mística ou real) a qual você deve respeito e/ou obediência. A autoridade hoje em dia é vista como algo bastante ruim, repressiva, abusadora, tanto que há radicais que visam eliminá-la e, de certa forma eu encontro uma afinidade aí. Sem dúvida a autoridade civilizada é uma verdadeira merda, mas, ao contrário destes radicais, não me esforço para erradicá-la. Acredito que tudo dentro da vida civilizada é repugnante, então por que tenho que parar e me concentrar em apenas um aspecto dela? É uma pergunta muito boa. Eu não rechaço a autoridade humana como instinto, aquela ancestral que sempre esteve presente. Os compas escreveram bastante a respeito do termo autoridade “inócua” e “iníqua”.

A primeira coisa que tenho que dizer é que não tenho problemas com a “autoridade humana”, não tenho problemas com alguém que me diga o que eu tenha que fazer. Não sou um “anti-autoritário”, porque ao contrário deles, eu acredito na autoridade, creio ser capaz de dar ou receber uma ordem, e aqui não vejo nenhuma relação de submissão. Obviamente, aqui me refiro claramente àquela autoridade inócua que pode exercer, por exemplo, um compa quando estamos em uma ação, quando ele é o encarregado a me dar a ordem para que eu possa me aproximar do alvo para atacar, ou quando este mesmo cúmplice tem que me chamar a atenção quando estou cometendo um erro que pode colocar em risco o plano, ou quando eu devo ser o encarregado de decidir quais serão as rotas de fuga e então guiar os outros, e mais um monte de exemplos do exercício da autoridade. Eu poderia dizer da mesma forma que, em alguns casos, a “autoridade biológica” (os irmãos, os pais, os avós, etc.) podem ser também um exemplo de autoridade inócua. E mesmo sabendo o quão desgraçados podem ser os familiares biológicos em algumas ocasiões, ninguém pode negar o quão vital e necessária é a autoridade, por exemplo, de uma mãe a seus filhos pequenos.

Nem preciso falar sobre isso, que “sinto certo rechaço” pela autoridade humana civilizada, e aqui me refiro a todos estes seres que em sua maioria estão por trás de um uniforme dentro das grandes cidades. E quando digo que “sinto certo rechaço”, quero dizer que realmente não tenho um sério conflito com ela. Entendo e sou consciente de que as cidades e a civilização enquanto existam estão e estarão controladas pela autoridade, não há dúvidas quanto a isso, então, estar em “guerra contra a autoridade” pelo menos eu não vejo como algo para concentrar minhas energias e minha vingança.

Bem, isso é o que posso dizer sobre o que penso da “autoridade real”. Acredito que seja necessário dizer algo da autoridade ancestral e onipotente que é a Natureza Selvagem, daquela “autoridade mística” representada por todo o desconhecido da Terra, aquela que se manifesta com a chuva e o raio, com os tsunamis e as erupções, nas luzes do céu escuro após um terremoto e no som dos rios, evitando os séculos de intelectualidade e raciocínio científico do porque que as coisas acontecem, e jogando fora todo o lixo da teoria humanoide que se atreve a explicar o inexplicável. Para todos estes eu digo: humanos modernos híper-civilizados, me deixem com minha essência primitiva, essa que tinham os antigos humanos que sim sabiam de algo.

Eu digo isso com o maior orgulho, a Natureza Selvagem é minha autoridade, e por quê? Porque ela está acima de Mim, acima de tudo e todos, ela é quem me rege, a ela devo obediência e respeito, ponto. Seus ciclos naturais são os que me ditam as normas que devo seguir. Assim como a porra do motorista de um carro segue as leis do trânsito, eu sigo as leis a Terra. As nuvens negras me indicam chuva, a chuva me indica refúgio, e logo me sugere para me preparar para o frio posterior. Os rios tem a força ancestral e eterna da Terra, eu me aproximo deles quando estou perdido, sei que me guiarão em meu caminho. Os demais animais são capazes de seguir as leis da Terra, sabem onde e quando dormir, onde e quando acordar, onde e quando se esconder, onde e quando se alimentar ou procriar.

A espécie humana perdeu todo o contato com a maravilha da Terra. Ela se tornou incapaz de combater um resfriado, agora curam-no abruptamente com químicos nocivos. Como alguns irmãos disseram, “quem não tem dinheiro fica gripado”, pura verdade!

Muito tem sido dito sobre os desastres naturais, eles inclusive são festejados por alguns compas que fizeram um chamado para se alegrar com a desgraça humana, chamado ao qual, sem dúvida, me somo. Eu li que algumas pessoas por aí são contra a comemoração de desgraças como estas, já que em alguns casos as vítimas são pessoas extremamente pobres, elas ficam indignadas por nos alegrarmos com os mortos, especialmente quando são crianças, nos chamam de monstros perversos por essa e outras coisas mais.

O que me ocorre com estas posturas classistas é um tremendo asco, isto é, se o furacão destrói um bairro burguês cheio de milionários e mata a todos, que bonito! Mas se a chuva inunda algum povoado de algum país asiático bastante pobre, que pena. Como se as manifestações da Terra se importassem quão rica ou pobre uma pessoa é. Ou celebramos o Caos sem nenhum problema e sem a mínima culpa ou calamos a nossa boca de merda. Esses aí que andam se alegrando quando morrem policiais ou os filhos dos ricos empresários e que entram em choque quando nós nos regozijamos com a morte humana indiscriminada são uns hipócritas moralistas.

Devo o respeito e a obediência a todas as belezas e a violência da Terra, a cada um de seus ciclos primordiais. À garoa de manhãzinha em pleno verão que encharca os campos e montanhas. Aos insetos que se escondem embaixo da terra no inverno, e que saem em massa para estocar alimento no verão. Às chuvas de inverno que inundam toda a cidade, a que torpemente amaldiçoa o humano híper-civilizado. Ao verão infernal que esquenta a terra e propaga incêndios ferozes. Ao canto dos grilos e o voo do pássaro. Ao grito da raposa. Ao por do sol que nos mostra a maravilha do céu. À lua cheia que aparece quando tudo está escuro e que brilha como o dia. À precaução e o sigilo dos coelhos que esperam que as montanhas cubram a lua antes de saírem para comer. Ao medo que senti quando dormi em meio ao selvagem e que me paralisava ao escutar o som de algum animal, às pisadas de algum ser entre as árvores que fazem com que meu ser se angustie, à este maravilhoso pavor que só algumas pessoas experimentaram. Às profundidades dos oceanos. Aos abismos infinitos das montanhas. À cordilheira que mantém o gelo para sempre. À erva e as flores que persistem em pleno deserto. Às mariposas, borboletas e vespas que aparecem em meu caminho.

Eu rezo a todo o oculto e desconhecido da Terra, me curvo e me entrego. Decidi confiar-me aos espíritos dos antigos sempre que deixo o meu refúgio, lhes agradeço por terem cuidado de mim em minhas andanças terroristas até meu retorno. Eu toquei as terras com meus pés e mãos em um ato de conexão suprema com a Terra e toda a beleza dela. Me olharam com desgosto por falar com as plantas e saudar os animais de rua. Porque sempre peço permissão à árvore quando vou arrancar alguma de suas folhas, peço permissão e agradeço. Tudo isso faz parte de meus processos individuais e únicos que não se encontram regidos por nenhuma ideologia, é uma conduta caótica e selvagem que adora e enaltece o Selvagem e o esquecido pelo ser humano moderno híper-civilizado.

Pela autoridade da Terra sobre Meu ser!

Amém…

Espírito Tanu

A Águia e o Falcão

Conta uma velha lenda Sioux que uma vez chegou à tenda do feiticeiro mais velho da tribo um casal apaixonado de mãos dadas: Touro Bravo, o mais valente e honrado dos jovens guerreiros, e Nuvem Alta, a filha do cacique e uma das mais bonitas mulheres da tribo.

“Nos amamos”, começou o jovem.

“E vamos nos casar”, disse ela.

– “E nos amamos tanto que temos medo”.

– “Queremos um feitiço, uma conjuração, um talismã”.

– “Algo que assegure que estaremos lado a lado até encontrar Manitu no dia da morte”.

– “Por favor”, repetiram. “Há algo que possamos fazer?”.

O velho olhou para eles e ficou emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados…

– “Há algo…”, disse o velho depois de uma longa pausa. “Mas não sei… é uma tarefa muito difícil e sacrificial”.

– “Não importa”, disseram os dois.

– “Pode ser qualquer coisa”, ratificou Toro Bravo.

– “Bem”, disse o feiticeiro. “Nuvem Alta, você vê a montanha ao norte de nossa aldeia? Deverá escalá-la sem nada a mais além de uma rede em suas mãos, e deverá caçar o mais belo e vigoroso falcão da montanha. Então você deverá trazê-lo aqui com vida no terceiro dia após a lua cheia”.

– “E você, Touro Bravo”, continuou o feiticeiro. “Deverá escalar a Montanha do Trovão e, quando chegar ao topo, encontrar a mais valente de todas as águias e, somente com suas mãos e uma rede, pegá-la sem feri-la e trazê-la a mim, viva, no mesmo dia em que virá Nuvem Alta. Compreenderam?”

O casal assentiu e o velho xamã fez um gesto indicando que não tinha mais nada a dizer. Os jovens se entreolharam com ternura e depois de um fugaz sorriso partiram para cumprir a missão que lhes foi confiada, ela ao norte, ele ao sul. No dia estabelecido, diante da tenda do feiticeiro, os dois jovens esperavam com sacos de pano contendo as aves solicitadas.

O velho pediu-lhes que, como muito cuidado, as tirassem dos sacos. Os dois jovens retiraram-nas e expuseram, ante a aprovação do velho, os pássaros caçados. Eram verdadeiramente formosos, sem dúvida os melhores de suas linhagens.

– “Voavam alto?”, perguntou o feiticeiro.

– “Claro, como você pediu… e agora?”, perguntou o jovem.

“Esperamos um sacrifício? Devemos matá-los? O que temos que fazer?”

– “Não”, disse o velho sábio. “Faça o que eu disser: pegue as aves e amarre-as pelas patas com estas tiras de couro. Quando estiverem amarradas, solte-as e as deixe voar livres”.

O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi pedido e soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram levantar vôo, mas conseguiram apenas chafurdar no chão. Poucos minutos depois, frustradas, se arremeteram uma contra a outra à bicadas, até se lastimarem.

– “Este é o feitiço. Jamais se esqueçam o que viram. Vocês são como uma águia e um falcão: se são atados entre si, mesmo que por amor, não só viverão se rastejando, mas também, cedo ou tarde, começarão a machucar um ao outro. Se vocês querem que o amor de vocês perdure, voem juntos, mas jamais atados”.

Conto Siux.

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[SÉRIE] Nosso Planeta

Com imagens espetaculares e de altíssima qualidade da vida selvagem, o grandioso documentário Nosso Planeta traz a beleza natural de nosso planeta e mostra como as mudanças climáticas e outras ações da espécie humana têm impacto sobre todas as criaturas vivas e sobre a terra.

A série é um projeto ambicioso de oito episódios que ficou em produção durante quatro anos, realizando gravações em dezenas de países com a ajuda de uma equipe de 600 pessoas, com registros surpreendentes, arriscados e talvez nunca antes registrados da vida selvagem. A série Nosso Planeta foca na diversidade de habitats ao redor do mundo, como o remoto Ártico, as profundezas misteriosas dos oceanos, as vastas paisagens da África e as selvas variadas da América do Sul, um verdadeiro paraíso de biodiversidade com registros capazes de causar grande emoção devido à infinidade de beleza.

Em paralelo com toda a beleza selvagem exibida a série mostra também consequências das ações da espécie humana na natureza que está levando todas as outras espécies do mundo a uma extinção massiva e causando diversas alterações climáticas na terra através do aquecimento global e outras atividades destrutivas, registros realmente sensíveis e comoventes.

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Temperatura da Terra já é a maior dos últimos 120 mil anos

A diferença, porém, é que o aquecimento atual não tem nada de natural, sendo resultado das ações da humanidade.

Imagem mostra o efeito do aquecimento nas geleiras do Alasca. (Foto: NASA)

De Revista Galileu:

Os últimos três meses de julho na Terra foram os três mais quentes já registrados pelos cientistas. Mas, esses também podem ser os meses mais quentes que ocorreram em nosso planeta em cerca de 120 mil anos, conforme publicou Mark Kauffman, no site norte-americano Mashable.

Após o anúncio recente da NASA de que julho de 2018 foi o terceiro mês mais quente desde que o registro confiável começou em 1880, o cientista climático Stefan Rahmstorf, chefe da Análise de Sistema Terrestre do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, destacou que em julho passado também foi provavelmente um dos meses mais quentes desde o período geológico chamado de Eemiano.

Escalada das temperaturas globais. (Foto: NASA)

O período, com duração de cerca de 130.000 a cerca de 115.000 anos atrás, foi, em média, cerca de 1 a 2 graus Celsius mais quente do que é hoje.

Os hipopótamos amantes do calor percorriam a Europa atual, e os níveis do mar, devido às camadas de gelo derretido, estavam 6 a 9 metros mais altos do que hoje (grande parte da Flórida estava submersa).

O período Eemiano — e as eras do gelo antes e depois dele — eram processos naturais da Terra, explicáveis ​​através da física simples por nossa orientação ao sol da época, dizem os cientistas.

Esses eventos de aquecimento e resfriamento aconteceram gradualmente ao longo de milhares de anos. Mas o atual aquecimento rápido na Terra nos últimos 150 anos é inquestionavelmente nosso próprio feito, já que os potentes gases de efeito estufa produzidos pela queima de carvão e outros combustíveis se acumulam em nossa atmosfera.

As flutuações entre os períodos quentes e frios da Terra “duram para sempre”, disse Pat Bartlein, um paleoclimatologista da Universidade de Oregon, que pesquisou temperaturas desde a última era glacial, por e-mail ao Mashable.

“Mas o mais importante é que, desde a industrialização, fomos colocados em um cronograma completamente diferente“, disse Bartlein.

Há pouca dúvida entre os cientistas de que estamos provavelmente experimentando o clima mais quente em cerca de 120.000 anos, chegando até acima de um período particularmente quente, cerca de 7.000 anos atrás, durante um período após a era do gelo chamada Holoceno.

“Eu concordo inteiramente que é muito provável que os últimos verões tenham sido os mais quentes nos últimos ~ 100.000-115.000 anos”, David Black, um paleoclimatologista da Universidade Stony Brook, disse por e-mail. “É muito provável que tenhamos começado a exceder a parte mais quente do Holoceno”.

“É seguro dizer que é verdade”, acrescentou Jennifer Marlon, pesquisadora da Escola de Silvicultura e Estudos Ambientais da Universidade de Yale. “Você vai encontrar um consenso científico entre os especialistas, mesmo nesse ponto, agora eu aposto, o que diz muito.”

Marlon notou que durante aquele período mais quente, 7 mil anos atrás, apenas o hemisfério norte experimentou alguns verões bem quentes, “mas agora estamos mais quentes o ano todo”.

Em 2013, Rahmstorf já argumentava que o clima atual já havia ultrapassado esse período mais quente do Holoceno. E nos últimos cinco anos, o caso só ficou mais forte. “Houve mais aquecimento”, disse Rahmstorf ao Mashable. De fato, os três anos mais quentes registrados, 2015, 2016 e 2017, ocorreram desde então.

Além disso, a Terra caiu em sua última era do gelo por cerca de 90.000 anos após o fim do Eemian, uma época em que gatos com dentes de sabre, lobos medonhos e gigantescos mamutes colombianos ainda vagavam pela terra.

Não há evidências de que quaisquer pontos durante esse período mais frio tenham excedido as temperaturas médias que estamos experimentando hoje.

Enquanto a Terra continua seu ritmo acelerado de aquecimento, alguns cientistas, olhando para o que poderíamos esperar no futuro, sugeriram que a Terra pode ver condições similares às do Eemian no futuro, disse Black, o que significaria um clima dramaticamente mais quente.

Mas o Eemiano, como outros climas do passado, pode não ser um bom roteiro para onde estamos indo.

“Os seres humanos estão colocando gases de efeito estufa na atmosfera a uma taxa sem precedentes”, disse Black, acrescentando que “não há um analógico climático ideal no passado que possamos explorar para ver o que poderíamos esperar no futuro”.

A diferença crítica é o carbono

A principal diferença entre o período Eemiano e o presente, no entanto, é a quantidade de dióxido de carbono atualmente presente no ar. Hoje, as concentrações de dióxido de carbono são fenomenais – o mais alto em 800.000 anos.

Durante o Eemian essas concentrações pairavam em torno de 280 partes por milhão, ou ppm. Hoje eles estão em torno de 409 ppm. Os cientistas sabem desde o século XIX que o dióxido de carbono absorve calor, e os níveis históricos de hoje – quando comparados com os aumentos naturais de carbono no passado – estão aumentando vertiginosamente.

“O ritmo não é nem perto – isso não é natural”, Kristopher Karnauskas, um professor do Departamento de Ciências Atmosféricas e Oceânicas do Colorado Boulder. Com todo esse carbono acumulando a atmosfera, o problema iminente não é simplesmente o aquecimento de hoje, mas o quanto mais aquecimento está reservado.

“Colocamos todo esse carbono no ar, agora vai demorar um pouco para que tudo fique em dia”, disse Marlon. “A grande questão é, com que rapidez tudo será recuperado?”

Como o aquecimento no último século, essas mudanças de temperatura em escala global ocorrem ao longo de décadas a séculos, disse Karnauskas. Mas já há carbono suficiente no ar para elevar consideravelmente as temperaturas. “Mesmo sob o melhor cenário, vamos dobrar o aquecimento que já vimos”, afirmou, enfatizando a necessidade de se livrar dos combustíveis fósseis.

Um grau ou dois de aquecimento – se não fizermos a transição para energias mais limpas – nos aproximaria do Eemiano, uma época que não era apenas mais quente – era um período distintamente diferente dos dias atuais. “O mundo será um mundo quente ou um mundo muito diferente?” perguntou Karnauskas.

Aponte Mais Alto

Tradução do escrito Aim Higher, de Abe Cabrera.

Alfredo Bonanno abre sua famosa obra, “O Prazer Armado”, com esta passagem:

“Por que diabos estes benditos meninos atiraram contra Montanelli nas pernas? Não teria sido melhor ter disparado na boca? Claro que sim. Mas, além disso, teria sido mais grave. Mais vingativo e sombrio. Deixar fodida uma besta como esta pode ter um lado mais significativo, mais profundo, que vai além da vingança, do castigo pela responsabilidade de Montanelli, jornalista fascista e servo dos grandes senhores. Aleijá-lo significa forçá-lo a desistir, a lembrar-se. Por outro lado, é uma diversão mais agradável que atirar em sua boca, com pedaços de cérebros saindo de seus olhos.”

Claro, matar alguém é muito mais definitivo que deixá-lo coxo, sem dúvida. E talvez haja também consequências legais envolvidas (peso na consciência?). É como quando algumas pessoas dizem que a vida na prisão é pior que a pena de morte. Há um ponto aí, dependendo da perspectiva do observador. Pessoas inocentes podem ser libertadas, mas não podem ser ressuscitadas. Talvez um fascista coxo possa mudar seus costumes, ou talvez você apenas quer que ele sofra. Talvez você durma melhor à noite sabendo que “só o deixou coxo”. Ler a mente de alguém é um exercício fútil, então pararei por aqui.

Mas por que disparar na cara de um fascista seria mais “grave”, mais “vingativo e sombrio”? (“Ma sarebbe stato anche più pesante. Più vendicativo e più cupo.”) Bonnano passa a falar da piedade dos revolucionários, levando em consideração que a revolução está longe de ser piedosa. Para ele, estão apenas de fofoquinha, para se divertirem contra a máquina cinzenta que busca nos oprimir, e outro monte de blá blá blá insurrecional sobre ter esperança, mas sem realmente ter esperança, lutar, mas se divertir ao mesmo tempo, etc. Tudo se resume em ultrapassar estas dicotomias, e é por isso que a coisa menos grave é mais divertida enquanto que a coisa mais sensível (disparar na cara e eliminá-lo) é de alguma forma a coisa mais moral, o mais “sombrio”, e o menos subversivo.

Mas, de acordo com alguns grandes insurrecionalistas sem insurreição, ainda mais subversivo é não fazer completamente nada e fingir que o mundo “normal”, o mundo em que se vive de fato, o de milhões de pessoas, simplesmente não existe. Veja você, tudo se trata de fugas binárias, bem e mal, revolução e vida real, natureza e civilização, o Eu e Você, o Um e os Muitos, etc., apenas afirmando que não existem. (Isso me lembra a história talvez apócrifa da Rainha Vitória apagando a Bolívia do mapa após o Embaixador de Sua Majestade Real ter sido expulso do país e posto nas ruas montando um burro como forma de humilhação). Veja como tudo se trata da percepção; estar consciente em oposição e ser “inconsciente” (estar acordado* NdT 1, como as crianças dizem nos dias de hoje). E neste sentido, fazer qualquer coisa que se assemelhe remotamente ao terrorismo, violência revolucionária, ou mesmo a violência criminal, é cair nas mãos do Binarismo Opressor. Em sua bolha, se você denuncia o Binário desde o começo, você vencerá e terá transcendido. Sim, eu também sou um bastardo em minha imaginação. Meus amigos imaginários também pensam que sou especial (“Insurrecionalistas sem insurreição” me lembra a caracterização do comunista Bukharin dizendo que o anarquista é um liberal com uma bomba. Você pode fazer a aritmética sozinho). Foi aproximadamente na metade da minha vida, mas ainda posso me lembrar da Ideologia Alemã e processando o jovem Marx, seu ponto principal era que a refutação de algo no abstrato não destrói aquilo no mundo físico. Eu não vou entrar em toda a polêmica do “São Marx”, mas vou tentar citar Teses sobre Feuerbach encima de outra problemática hegeliana que o autor comunista aborda:

“O problema de saber se ao pensamento humano pode ser atribuído uma verdade objetiva não é um problema teórico, mas um problema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a mundanidade de seu pensamento. O litígio sobre a realidade ou irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico…

A vida social é, em essência, prática. Todos os mistérios que levam a teoria ao misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.”

Vamos salvar o leitor de toda a questão de “o ponto está em mudar isso”. Outro marxista (Trotsky?) resumiu o princípio mais sucintamente dizendo algo como (parafraseando): “Quando uma ideia busca o controle das massas, se converte em uma força material.” Não importa se uma ideia é “falsa”, se existe um deus ou não, etc. Deveria importar, mas realmente não é assim. Se as pessoas estão prontas para matar ou morrer por ela, é uma realidade física, pode até ser uma realidade física superior (um deus?). O progresso, por exemplo, pode ser um fantasma sem base na “realidade física”, mas essa ideia criou a Hidrelétrica das Três Gargantas na China: a crença firme na ordem, no futuro, na benevolência da dominação do homem sobre a natureza, νόμος sobre φύσις. Você se negar a lidar com isso e retrair sua própria imaginação e opinião significa simplesmente que você acaba protegido por sua fortaleza de opiniões intransponíveis. Isso parece uma vitória pírrica, se é que alguma vez existiu uma.

Mas vamos voltar ao tiro na perna: não poderíamos dizer que este “prazer” está infectado pela ideologia neo-cristã, como um malware criando um backdoor no software insurrecional? Por que não é divertido ver cérebros escorrendo pelo oco de um olho, mas ver um fascista se contorcendo de dor porque lhe espatifaram a patela é legal? Pode ser que haja medo que te considerem um psicopata por matar alguém, mas regojizar-se por deixar alguém coxo não deveria te catalogar no status de psicopata, é? (explique isso para uma pessoa comum para ver se compram a ideia). Não poderia ter nada a ver com todo o assunto de “Não Matarás”, certo? Ou o monopólio absoluto sobre a vida e a morte que o Rei, o Estado, etc., reivindicaram sobre as pessoas por milênios no contexto europeu? Talvez estas pessoas deveriam começar a ser honestas consigo mesmas, mas provavelmente não o farão. Elas não deveriam se surpreender, em todos os casos, quando algum de seus compas chegue a conclusão de que todo o derramamento de sangue é “fascista”, ou se alguns mais ainda confusos flertam com os “movimentos sociais” que promovem a intervenção do Estado para desarmar todo o mundo.

A moeda humana, mesmo para o mais fervoroso insurrecionalsita, para o traidor da espécie mais entusiasta, é preciosa demais. Não vamos invalidar esta moeda, eles exortam; ao fazê-lo, a pessoa cai no cálculo moral da sociedade. Ao ser imoral, reverencia-se a moralidade, em oposição a ter a atitude correta, a “consciência correta”. Uma percepção tão alta pode tornar a travessia de uma rua um ato revolucionário, pode criar abundância do nada, pode partir o mar. Mas em termos de desafiar o humanismo inerente, o cristianismo inerente a todas as ideologias “radicais”, não podemos fazer isso. Desculpe, não vamos prestar-lhes atenção, e seguiremos com a próxima moda da semana que prometa salvar uma sociedade que não quer ser salva, ou ao menos nosso confortável lugar nela.

Atirar no joelho é atirar nos ramos mais altos. O atacante está claramente perturbado por algo a ponto de usar a violência. Por que você quer ferir essa pessoa? Por que ela tem poder? Quem lhe deu esse poder? Ou quem consente que o tenha? Há mais de “nós” que “deles”, certo? Com quem você realmente está zangado? Você realmente acha que matará a árvore se você podar o suficiente? O que te impede de atirar na raiz? Quando você se vê de frente para o indivíduo e para o coletivo, o que te impede de apontar mais alto, acima dos joelhos, na direção de onde o problema realmente está? Além do bode expiatório para a Massa amorfa que o mantém em sua posição de poder?

Nota do Tradutor:

1. A palavra usada em inglês é “woke”, termo político de origem afro-americana que se refere a uma consciência perceptiva respeito à justiça social e a justiça racial. Nas acepções mais modernas do termo, é usado para falar de consciência social em termos gerais.

Secret Forest Society Plans to Kill Bolsonaro

Extraído do site da organização ecológica Deep Green Resistance.

Jair Bolsonaro, Brazil’s openly fascist President, is loathed by groups who care about preventing climate collapse and protecting the Earth’s last healthy ecosystems. According to the Guardian, Bolsonaro’s policies are now resulting in 3 football fields per minute of rainforest destruction, and scientists fear that the Amazon is reaching a critical tipping point, beyond which it will be impossible to save. If that “point of no return” is breached it will result in massive forest fires, which will release an immense amount of sequested CO2 into the atmosphere, accelerating climate collapse and annihilating one of the Earth’s sources of oxygen. Violence is also increasing and loggers have begun killing indigenous leaders and resistors from the over 400 tribes who call the forest home. Bolsonaro has overseen major funding cuts and firings at the Brazilian indigenous affair agency, which has gutted the few remaining governmental protections for these people.

Presumably this is why the Secret Forest Society (Sociedade Secreta Silvestre) have now targeted Bolsonaro for assassination. Two weeks ago, Veja Magazine interviewed one of the leaders of the Secret Forest Society (SSS), a branch of an international organization called the Individualists Tending Toward the Wild (ITS). The leader, identified as Anhangá, claimed that Bolsonaro was supposed to be executed on the day of his inauguration, but they were temporarily foiled by an unexpected security presence. Since then Bolsonaro has cancelled several key events, including an open car parade. Anhangá stated “We could easily blend in and carry out this attack, but the risk was enormous (…), so it would be suicidal. We didn’t want that.”

It is unclear how or when the Secret Forest Society plans to assassinate Jair Bolsonaro, but their affiliates in the ITS have been linked to letter bombs, University explosions, and the successful assassination of a biotechnology researcher. Their organization claims to stand up against people and systems that lead to environmental destruction, and they advocate for using extreme measures against nature’s enemies.

A Amazônia Queima, e Queima Também a Consciência dos Híper-civilizados

Texto traduzido do blog Maldición Eco-extremista.

A Amazônia arde, já é notícia mundial. O fogo avança e queima tudo, e os híper-civilizados temem… Os alarmes estão ligados e nas redes sociais todos gritam aos céus: por que ninguém faz nada? Nosso planeta está morrendo!

Parece que a consciência mundial sobre o estado catastrófico em que submergimos o mundo está despertando, EM 2019! Lamentamos informar que já é tarde demais para isso, e “nosso planeta” está desgraçadamente condenado, ou melhor, “nosso mundo”, porque o planeta seguirá adiante sem nós.

Mas nós os parabenizamos, já que conseguiram fazer com que a Amazônia se tornasse trending topic no Twitter, certamente os animais mortos estarão agradecidos, e não há dúvidas de que a partir de amanhã começaremos a ver como as árvores se regeneram com base em likes e compartilhamentos. Que piada de merda…

Há algo que não resta dúvidas, a fúria é uma resposta adequada à devastação, mas não a que se indigna, sim a fúria que queima, que detona e que castiga.

Todos os dedos apontam a Bolsonaro como o maior culpado, e embora seja o caminho mais fácil, não se pode negar que o bastardo está particularmente ligado à acelerada destruição ambiental, no entanto, quantos vão além das palavras? Até onde sabemos, apenas um grupo esteve planejando a execução do bastardo. Se perguntam qual é?

Já faz muito tempo que nós vimos a crueza deste mundo, e se alguém precisa que toda a Amazônia seja queimada para se dar conta disso, que assim seja, desde que a resposta seja proporcional. O tempo das lamentações acabou, como os guerreiros da ALF já disseram: se não é você, então quem será? Se não for agora, será quando?

Ataca, queima, assassina!
Que a raiva se traduza em ódio misantrópico!
Morte à humanidade moderna!

Alguns vídeos para entender os últimos acontecimentos na região amazônica.

Sobre o Eco-extremismo

Texto extraído da sexta edição da Revista Ajajema.

Minha relação com o eco-extremismo passou por muitas etapas ao longo dos anos, e recentemente senti uma espécie de necessidade de fazer uma reflexão pessoal sobre a tendência e minha relação com ela. Como uma nota destacada, o eco-extremismo não é um tema monolítico. Foi entendido de diferentes maneiras, até mesmo por aqueles dentro da própria tendência. Consequentemente, não pretendo oferecer nenhum comentário definitivo, apenas reflexões sobre minhas próprias abordagens (teóricas) com o eco-extremismo como uma tendência de ação e pensamento anti-civilização.

Antes de minha mais recente virada rumo à uma perspectiva mais “anti-civ” (um termo que chegou a me desagradar porque é muito amplo e inclui uma bagagem desagradável), minhas raízes se alojavam firmemente nos campos ideológicos do esquerdismo contemporâneo. Eu provavelmente teria me declarado como uma espécie de Marxista Libertário se tivessem me perguntando. Sustentei a doutrina do progresso, acreditava na delicada luta por um amanhã melhor, o futuro utópico. E fui, embora com relutância, um humanista, acreditava em uma espécie de bondade subjacente ao ser humano que poderia ser descoberta ou atualizada se apenas os meios de produção fossem liberados de suas contradições, derrubados, ou alguma outra merda como essa.

Eu encontrei alguns laços com o que agora sei que eram versões do anarco-primitivismo inspiradas por Zerzan, mas geralmente achava ridículo por várias razões. Mas minha primeira introdução ao eco-extremismo veio de uma série de trabalhos teóricos de um escritor eco-extremista sob o nome de Chahta-Ima. Muitos desses textos exploravam as nuances e as bases filosóficas da tendência. Eu encontrei nos escritos de Chahta-Ima e em grande parte do resto do material ligado à tendência (Revista Regresión, os comunicados de ITS e Reacción Salvaje, Atassa, etc.) algo que ressoava profundamente tanto em meus crescentes desacordos com toda a visão do mundo progressista e humanista e com a monstruosidade histórica que ele gerou, como com minha crescente reverência pelo inumano.

Em um nível teórico (e nível prático, no que diz respeito a isso) o eco-extremismo foi e ainda é um punhal frio no coração das estruturas filosóficas e materiais que sustentam o mundo progressista e humanista. Desde as desconstruções da filosofia humanista e progressista até a explosão de cada artefato incendiário, a tendência é uma manifestação visceral do rechaço violento da ordem existente.

Além de sua marca particular de “anti-modernismo violento” (por falta de um termo mais apropriado) os escritos expressam uma bela forma de reverência às raízes do inumano em grande parte por uma tentativa de reivindicar as crenças animistas/pagãs e seus correspondentes laços ancestrais com a terra, bem como um antigo legado de resistência violenta contra o avanço do progresso. Estas questões são amplamente desenvolvidas nas etapas de atividades eco-extremistas definidas pelo desenvolvimento de Reacción Salvaje e o trabalho articulado em vários números da Revista Regresión, e se mantiveram realizadas no ressurgimento de ITS, que ainda se sentia de várias formas em dívida devido suas ligações anteriores com Kaczynski, apesar de seu distanciamento teórico e prático com ele (para uma revisão muito detalhada deste período leiam “Rumo à Selvageria“, de Abe Cabrera).

Em suma, a tendência representou e segue representando uma manifestação ideal e material do ataque implacável contra a ordem da civilização moderna e todas as suas instâncias. Como disse um escritor eco-extremista, e assim os esforços pessimistas, niilistas, inumanistas do eco-extremismo são os pesadelos que atormentam os sonhos que constituem as fundações de todo o ideal humanista e progressista. A criança se contorce diante dos monstros que vêm à noite, subindo nas penumbras de seus sonhos para aterrorizá-la e destroçar suas mais preciosas fantasias. E ela chuta e grita e acorda suando frio de seu sonho, tremendo, por temor aquele mundo sombrio e impiedoso.

Tem sido principalmente estes elementos mencionados anteriormente que me acompanharam por mais tempo ao longo de minha aproximação da tendência, a veemente rejeição dos pilares da sociedade moderna e uma profunda reverência ao inumano. O realismo endurecido do rechaço eco-extremista pelos sonhos vazios do progresso (seu severo rechaço pelo futuro) e pela idolatria em direção ao humanismo (seu abraço à beleza profunda do inumano e seu rechaço aos delírios modernos sobre a superioridade humana) reflete e segue refletindo minha crescente convicção de que uma grande parte do projeto progressista/humanista era baseado em nada mais que escassas abstrações da mente humana. Uma espécie de obsessão com os sonhos nascidos nos sombrios confins da mente humana que jamais poderiam ser alcançados, quer sob a forma de nosso solipsismo moderno que nos cega para a beleza profunda do inumano com mentiras sobre a nossa própria significância ou a luta interminável por aquilo que está sempre no horizonte, o glorioso futuro que nunca haverá porque não existe em nenhum outro lugar a não ser na mente humana.

Certamente, estes pontos não são únicos do eco-extremismo, e eu fui exposto a eles em outro trabalho, mais significativamente no contato com as obras do poeta americano Robinson Jeffers e suas explicações sobre a filosofia do “inumanismo”. Eu também encontrei estes sentimentos incrivelmente poderosos nos escritos de Jeffers e provavelmente devo muito da mudança em minhas visões à perspectiva que me foi aberta por sua poesia. E assim, encontrar os mesmos sentimentos articulados nos escritos eco-extremistas (embora com uma dose mais saudável violência) foi igualmente comovente para mim e certamente me levou a uma ressonância mais profunda com as bases espirituais e filosóficas com eco-extremismo.

Curiosamente (ou talvez pouco surpreendente) é também neste aspecto, a maneira na qual o eco-extremismo se posiciona como uma crítica adequadamente sutil e poderosa às bases do progressismo e do humanismo, que é consistentemente pouco abordado na maioria, senão todas as críticas contra a tendência. A maior “disputa” contra o pensamento eco-extremista no mundo da língua inglesa foi, sem dúvida, devido a publicação da revista Atassa: Readings on Eco-extremism, nos volumes 1 e 2. Enquanto as publicações tem sido experiências diferentes para as distintas partes envolvidas em sua produção, algo que elas experimentaram da mesma forma além daquelas variadas intenções é um encontro violento para a paisagem ideológica contemporânea das políticas “radicais”, volumes que trouxeram à conversa o que o eco-extremismo vem dizendo (e respaldando com a ação) ao sul da fronteira. Bem, um encontro e também uma tempestade de fervorosa merda entre as filas da esquerda, a maior parte sendo só barulho e raiva, significando nada.

Para ser honesto, a estas alturas perdi o rastro de todos os furiosos escritos sórdidos com observações moralistas vazias para denunciar o “mal” que é o eco-extremismo, e ao mesmo tempo redobrando suas apostas contra as mesmas estruturas que o eco-extremismo tenta sangrar. Tudo isso parece ser entendido pelos anarquistas e sua classe como uma “competição” contra a tendência, “lidando com as perguntas difíceis”, ou algo assim. Ou é a verdadeira estupidez ou a conscienciosa ignorância para não ter que enfrentar algo que é verdadeiramente desafiador, em vez de um reforço superficial das fantasias reconfortantes que orientam e dão sentido ao ethos do mundo moderno. Dois volumes de barulho, e em todo caso, ainda não vi realmente nenhuma contestação verdadeiramente crítica aos questionamentos da filosofia humanista e progressista. E não é que o trabalho não esteja lá, há uma cuidadosa articulação realizada por um número de teóricos eco-extremistas para ampliar a plataforma filosófica do eco-extremismo. Mas suponho que não deveria ficar terrivelmente surpreso com a resposta do eco-extremismo. Não é e nunca quis ser uma marca de atração massiva. Não é uma reunião confortável. Encara sem piedade o coração do mundo moderno com uma navalha fria e um sacrifício de sangue para queles deuses sombrios além do reino do ser humano. Com o tempo, aprendi a deixar que essa reação seja o que é, os solavancos e gritos da espécie quando a arrancam de seus confortáveis sonhos e a colocam cara a cara com os poderes sombrios do mundo.

Rememorando o tempo que passei lidando com o eco-extremismo, descobri que é uma tendência para a qual não posso evitar sentir afinidade. Certamente há elementos que não aceito de todo o coração, e como indiquei na introdução, não é e nunca foi um assunto monolítico. À medida que a tendência cresceu ao longo dos anos, desenvolveu numerosas tensões dentro de si mesma. Esta é uma parte inevitável do crescimento, suponho. Versões de um niilismo misantropo mais retumbante, desprovido de uma reverência estilo animista/pagão tem se desenvolvido de uma aceitação mais profunda do niilismo e o egoísmo, uma aceitação do extincionismo e ideias semelhantes foram desenvolvidas na medida em que a tendência foi se expandindo. Eu pessoalmente não acho essas permutações muito interessantes, e eu expressei meus próprios problemas com o niilismo misantrópico, por exemplo, pelo menos no que me diz respeito. Também tenho dúvidas do que considero que são problemas não abordados nas bases filosóficas do extincionismo que provavelmente levariam a uma análise mais longa no futuro. Mas, no entanto, além da minha dúvida pessoal em relação a certos elementos, sempre encontrei nas minhas abordagens das bases filosóficas e espirituais da tendência algo que, além de todos seus elementos “problemáticos”, simboliza algo profundamente belo. No violento rechaço a nosso predicamento moderno e a reviravolta na direção da vasta e incompreensível glória do inumano, algo profundamente comovente é encontrado. Eu não sou um eco-terrorista. Passo meu tempo caminhando pelo bosque, escrevendo e tirando fotografias em vez de fazer bombas. Mas em sentimentos como este, não posso deixar de sentir uma profunda afinidade:

[O Homem Moderno] nunca se ajoelhará diante da imensidão e força da Natureza Selvagem e toda sua beleza, esplendor, sabedoria e riqueza. Sempre buscará manipular e dominar o Desconhecido, nomear o Inominável e desafiar sua fúria. Ele ousará colocar suas mãos sujas em tudo aquilo que é belo e vivente para arrancar as entranhas da Terra e impor seu mundo cinza, barulhento e cheio de fumaça. Nunca será capaz de compreender a beleza das constelações, o sabor das águas naturais, a serenidade dos bosques, o silêncio da noite, o mistério que é o desconhecido, a canção do animal no fundo do bosque, o movimento do vento, os cursos dos rios, a fúria das tempestades, o infinito dos céus, nunca. Enquanto caminhe pela Terra ele sempre trará vergonha para os Espíritos da Terra, pavimentando tudo o que é vital até que não haja nada mais além de suas metrópoles sujas e secas.

Vagabundo

Texto extraído de uma das edições da Revista Ajajema.

Como um egoísta com uma personalidade veementemente antissocial e niilista, deveria ser bastante aparente que meus interesses, paixões e desejos se movem de forma completamente contrária aos interesses, padrões, leis e moralidade de qualquer sociedade ou estado. Sem estar disposto a ceder, retroceder ou comprometer-me por alguém, minha vida de criminalidade e excomunhão se iniciou em minha juventude, quando decidi que não desperdiçaria um segundo sequer de minha vida tentando ganhar aceitação ou aprovação daqueles que me rodeavam.

Por que eu deveria me importar em ser valorizado por outras pessoas que, francamente, me enojam por completo, e que odeio sua asquerosa existência humana tanto quanto a minha? Rechaço essa prática humilhante que constitui a fábrica social em sua totalidade, um tecido vil de fraqueza, imbecilidade, timidez e estupidez. Esta rejeição, em todo caso, não é passiva, é algo que eu sempre abordei com desprezo absoluto, hostilidade e frequentemente com atos de violência contra aqueles que tentaram se impor a mim ou a quaisquer correntes que flutuavam sobre minha florescente individualidade.

Na medida em que eu aprendi a viver por minha própria força de vontade, os muros carcerários da escola já não puderam me conter e nem a imundice pode me alcançar, então passei todo o meu tempo matando aula e inicialmente aproveitei este tempo livre recém-adquirido vagando por florestas e edifícios abandonados, escutando música, desenhando e escrevendo. Quando isso não era particularmente satisfatório, mergulhava mais fundo em artes mais sombrias e secretas. Dia após dia, a prática de furtos, invasão de propriedade privada, roubo e vandalismo se tornou minha vida diária. Uma reação a ser criada nesta desprezível sociedade que eu nunca poderia pertencer, uma sociedade que nunca respeitei ou tolerei nem o mínimo.

Então, quando eu era apenas um adolescente, senti o desejo de “fazer uma declaração” sobre todos estes pensamentos e sentimentos fervendo dentro de mim, então eu fugi de casa uma noite e me dirigi a uma igreja local. Coberto pelas árvores, escalei a cerca ao redor do edifício e ergui uma pesada pedra do chão. Eu a levantei com os dois braços e lancei com toda a minha força, destruindo a cabeça e os braços das estátuas nos jardins da igreja, aquelas mesmas estátuas que eu via ao passar caminhando quase todos os dias, e as mesmas que eu cuspia vis maldições de ódio e nojo. Depois de alguns minutos de uma excitante iconoclastia, percebi que estava fazendo muito barulho, então decidi fugir antes que um potencial herói pudesse intervir. Mais tarde, reconheci que aquela atividade noturna foi meu primeiro ataque direto motivado por razões puramente egoístas contra um símbolo e pilar institucional da civilização.

Soube naquele momento que era apenas o começo. Pouco tempo depois, por várias razões acumuladas em relação à minha hostilidade e à minha personalidade inflexível, abandonei a escola. Rejeitei a ideia de combater a servidão a partir de dentro e, por quase dois anos, mantive um teto sobre minha cabeça graças ao envolvimento em vários golpes pequenos e atos de fraude. Eu enchia meu estômago, juntando uma quantia relativa de dinheiro de tempos em tempos através do meu engenho, habilidades, enganos e com a ajuda de amigos. Mas comecei a ficar cada vez mais insatisfeito com esta miserável existência, jogando videogames, fumando maconha e indo a festas me embebedar. Naquela época também comecei a me identificar como “anarquista” em vez daquele outro rótulo que eu tinha “portado”, de misantropo. (Também acho engraçado ver como como isso fechou o círculo e mais uma vez abraço minhas tendências misantropas e rejeito o altruísmo alardeado pelos numerosos sacerdotes dentro dos tempos ideológicos do “Anarquismo”.)

Continuei buscando a emoção do crime e a aventura da rebelião. Então peguei minha confiável mochila e dei um passo mais adiante. Eu fui para uma floresta onde vivi entre outros “anarquistas” por alguns anos, e lá passei incontáveis horas com zines e literatura eco-anarquista, descobrindo várias habilidades através do autoaprendizado. A fim de reduzir minhas chances de ser pego e acusado mais do que o habitual pela polícia da região, rejeitei por um tempo as artes obscuras do roubo e comecei a me sustentar praticando freeganismo. Também aprendi a fazer fogueiras, construir abrigos e viver com o que a natureza tivesse para me oferecer. Aprendi a identificar e a preparar plantas comestíveis, e também a me mover rapidamente entre as árvores, sem ser visto ou escutado. Havia aprendido muito, e ainda sim queria seguir aprendendo e crescendo.

Então veio a inevitável colisão entre aqueles indivíduos e eu. Numa manhã brilhante e ensolarada, mal consegui conter minha alegria e emoção, me aproximei dos meus “compas” com uma cópia impressa do comunicado recém publicado do Núcleo Olga da Federação Anarquista Informal, reivindicando a responsabilidade pelo disparo no joelho de Roberto Adionfli, um pedaço de merda a serviço da empresa nuclear italiana Ansaldo Nucleare. Apesar de ter sentido que compartilhávamos um desprezo mútuo pela indústria nucelar e pela sociedade em geral, eles ficaram revoltados com aquele corajoso ato de terrorismo e com a sua ousada afirmação, e soube aí que já não podia mais ter a verdadeira afinidade entre aqueles indivíduos e eu, então eu parti e os deixei com seu ativismo idealista e sua covardia anarco-social.

Depois de um particular encontro com os robôs da “lei e da ordem” da qual não darei mais detalhes, tive que fugir e retomar as artes negras mais uma vez, abraçando a vida de vagabundo “ilegalista”. Vivendo em permanente movimento. Já não tinha que me preocupar com a possibilidade dos policiais me reconhecerem, já que viajava de cidade em cidade, de costa a costa, de picos de montanhas até as margens de algum rio. Através do autoaprendizado adquiri mais habilidades vindas de gerações de canalhas e sem vergonhas, como por exemplo, usar disfarces que permitam uma pessoa atravessar cidades sem ser notado, deslocando-me sem deixar nenhuma impressão digital pelo caminho, sempre pedindo carona e utilizando bicicletas do mercado negro ou roubadas. Também comecei a praticar a arte de abrir fechaduras, extrair dinheiro de carteiras e o furto com a utilização de mais ferramentas e meios para alcançar minhas próprias metas e sem jamais submeter-me à ditadura moral-ética alheia e o sufocamento do trabalho.

Sou um marginal arrogante, inóspito e intolerante. Se me faço chamar “ilegalista” não é porque aderi a qualquer doutrina pré-estabelecida de “criminalidade”, não utilizo este termo como uma placa, pois creio que todas as identidades são mantos da civilização que reproduzem intermináveis papéis e ideais que só limitam a autodeterminação de minha individualidade no presente. Se me faço chamar “ilegalista” é porque sinto que viver contra as leis e a moralidade estabelecida por esta repugnante sociedade é a única forma que poderia viver sem sofrer a derrota da humilhação diária e o tédio, que são endêmicos da vida dentro da prisão que são estes sistemas que odeio, e se me faço chamar “ilegalista” é porque sinto muito fortemente que neste termo existe uma expressão muito compreensiva de meu implacável e desavergonhado ego.

“Fazia uma busca existencial eterna que parte desde mim, e nada mais. Devo domar a existência e não deixar que a existência me dome. Sou uma semente da civilização e seu veneno ao mesmo tempo…”

[VÍDEO] Próximo trabalho sobre Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS)

Em breve será disponibilizado na web um trabalho sobre ITS editado por Jake Hanrahan, jornalista e cinegrafista especializado em guerras modernas. Jake dirige a Popupar Front e já realizou diversos documentários e vídeos sobre grupos terroristas e guerrilhas ao redor do mundo. Jake já abordou ITS em outra ocasião durante um podcast com John Jacobi, confira neste link.

Abaixo a prévia do trabalho.

[ES – PDF] Revista Ajajema N° 7 – Contra El Progreso Humano Desde El Sur

Todas as edições neste link.

Editorial

Mais uma vez saímos, novamente nossas letras e nossa propaganda vem à luz. Seguimos incansáveis em nosso caminho de apologia e difusão em nome das siglas do caos; ITS. Das sombras, do mais feroz anonimato, continuamos editando nossas páginas, páginas destinadas e orientadas a aguçar a guerra das tendências eco-extremistas e misantropas/niilistas.

Há seis meses de nosso último número, na época com o sol queimando forte e temperaturas ardentes… Hoje, no inverno de 2019 da era do crucificado, nossa Revista Ajajema aflora mais uma vez. O sul está congelado e seu frio congela os ossos, a chuva transborda rios e converte suas ruas em rios civilizados… Nossa edição responde a esta inclemência, a este processo selvagem, em nome do clima voltamos a surgir como propaganda terrorística, apologizadora de atentados e assassinatos. Oh! Frio majestoso, assassino de homens, em teu nome escrevemos. Oh! Chuva indiscriminada, sabotadora de cidades e inimiga da humanidade moderna, por ti e por tua fúria nós editamos.

Contemplamos a cordilheira mais branca do que nunca, as ânimas da neve embranquecida falam conosco, estão furiosas, nos lembram o nosso caminho e sussurram em nossos olvidos; vingança! Os irmãos já responderam a este chamado… Você o escutou? Aquele sussurro? Tente não ficar sem resposta…
*
Muitas coisas aconteceram desde a nossa última edição, atentados, egos, pólvora, sigilos, amuletos… a Máfia ITS. Os individualistas extremistas ainda estão íntegros e à espera, pacientes e sempre em tocaia, livres e selvagens como o vento que atinge as estruturas civilizadas. Por pouco os irmãos da HMB juntamente com os cúmplices da SVS não matam aquele maldito da Metro de Santiago, por pouco não o desfiguram, por pouco não cravam parafusos no corpo de sua esposa ou filha.

Sabemos que os aparatos de inteligência chilenos e internacionais estão cientes do que dizemos, portanto, ouçam atentamente seus pedaços de merda; no Norte, no Sul e do outro lado do oceano, os irmãos caminham, pensem que paramos, que abandonamos a guerra, mas quando verem e escutarem o estrondo da bomba ou observarem as chamas ardentes do fogo, não se surpreendam… Vocês e todos seus aparatos tecnológicos, seus milhares de peritos especialistas em bombas e seus senis especialistas em terrorismo tenham cuidado conosco.

Porque a Revista Ajajema têm a bênção do antigo, seguimos as ordens do Desconhecido. Ajajema é, e sempre foi, Terror incivilizado, Ajajema é letra e é imagem, Ajajema é guerra, Ajajema é… ITS-Sul.

Sempre em tocaia, reunindo, buscando e analisando, nos espreitamos, aguardamos a ordem do Oculto, seu mandato será obedecido e praticado, esperem, esperem-nos…

Da total impunidade, das sombras praticamos o terror, ocultos sempre, bombas e revistas à civilização!

Morte ao progresso da humanidade!

Morte à sua vida civilizada e a seus habitantes fedorentos!

Viva a guerra dos irmãos de ITS no norte, no sul e no outro lado!

Individualistas Tendendo ao Selvagem – Chile

– Grupo Ajajema: Letras do Caos
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Conteúdo:

Poemas de Shagnessy
-Arboles
-Canción del mundo
-Sobre la tragedia
-Teología I
-Teología II
Moribundo anarquismo verde
Cuentos Kawesqar
-Cuento del Martín pescador
-Cuento del cisne de cuello negro
-Cuento de los sapos
Artículo Sobre Violencia De-colonizadora y Eco-extremismo Para la Conferencia ASN del 2018
Fiera
Theodore Kaczynski Revolución anti-tecnología: por qué y cómo, Una evaluación crítica
El Llamado de las Guerreras
Un Demonio Entre Ustedes
El Terrible Autoritario y la Terrible Union de Los Egoistas
Desvarío Antihumano
Apología del Caos
Hijos de Ted
Cronología Maldita
(Kawesqar) La Jornada de los Nómadas Acuáticos
El Credo Satánico
Paroxismo en el Delirio Nihilista
Los Eclipses en Karukinka

DESCARREGUE em PDF: Link 1Link 2Link 3 (via onion).

[VÍDEO] Bolsonaro na mira de grupo terrorista?

Vídeo pertinente de se assistir. Apesar de se concentrar nas ameaças do grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem – Brasil (ITS-Brasil) a Jair Bolsonaro divulgadas numa reportagem da Revista Veja, os apresentadores conseguem realizar uma interpretação bastante interessante de algumas questões ao redor do grupo e fazem uma análise mais séria do fenômeno eco-terrorista em ascensão. Dentre os destaques está a coesa análise do significado do nome “Anhangá” e suas interpretações. Anhangá é membro proeminente da Sociedade Secreta Silvestre (SSS), facção brasileira de ITS. Os apresentadores fazem uma pequena cronologia dos recentes ataques de ITS-Brasil, suas ameaças que chamaram bastante atenção e suas motivações, estritamente ecológicas e inumanistas.

Grupo ecoextremista reclama do agronegócio em MS e promete ataques neste ano

Replicamos aqui uma entrevista de Individualistas Tendendo ao Selvagem – Brasil (ITS-Brasil) concedida ao jornal eletrônico matrogrossense Mídiamax. A facção brasileira da organização eco-terrorista, a Sociedade Secreta Silvestre (SSS), contestou alguns pontos pertinentes levantados pelo jornal.

Foto encaminhada pelo ITS-Brasil.

Por e-mail criptografado, Anhangá falou com Jornal Midiamax sobre a situação dos agrotóxicos no Estado.

Por uma caixa de e-mail criptografada na Suíça, Anhangá, personagem conhecido nesta semana após relatar à Revista Veja que o grupo terrorista planeja atacar o presidente Jair Bolsonaro (PSL), revelou ao Jornal Midiamax que Mato Grosso do Sul é visto como um ‘inferno do agronegócio’ para a SSS (Sociedade Secreta Silvestre) e garantiu que o grupo planeja ataques para este ano no país.

Integrante de um grupo que se autodenomina eco-extremista, a sociedade faz parte do grupo terrorista internacional ITS (Individualistas que Tendem ao Selvagem), defendendo a natureza, contrária ao modo de vida atual, que prioriza a produção em larga escala em detrimento do meio ambiente. Para combater o modo de vida atual, a SSS quer difundir ‘guerra psicológica’ e afirma já ter sido autora de três ataques a bomba em Brasília.

“Uns danam colossalmente, outros danam pouco, mas todos danam e não fazemos distinções, e toda esta estrutura tecno-industrial só se sustenta porque há civis operando e a defendendo”, relata Anhangá.

Mas apesar de manter 83% da cobertura vegetal nativa, o bioma Pantanal tem apenas 4,6% da área protegidos por unidades de conservação, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. Terra da ministra do Agronegócio, Tereza Cristina (DEM), alvo de críticas após a liberação de agrotóxicos neste ano, o Jornal Midiamax conversou com Anhangá, que significa ‘espírito que protege os animais’, em tupi-guarani, sobre as questões que preocupariam o grupo extremista.

Ele seria um dos líderes do grupo e morador de Brasília, procurado pela Polícia Federal desde o vazamento do planejamento dos ataques ao presidente da República. Na troca de mensagens, é possível perceber que a Sociedade é pequena e que teria poucos recursos para planejar grandes ataques, como admitem.

Do contato inicial da reportagem com a organização terrorista internacional ITS no México até a primeira resposta de Anhangá a reportagem, foram dois dias. Por meio do representante, a organização revela se preocupar com a devastação do ecossistema do Pantanal e do Cerrado e afirma não ter lado político, apesar de não reclamar da visibilidade trazida pela reportagem da revista de circulação nacional para o pequeno número de membros no país.

O grupo eco-extremista reencaminhou o contato da equipe de reportagem a Anhangá pelo e-mail criptografado, nos respondendo que a mensagem já havia sido enviada ao representante do ITS no Brasil.

Anhangá, então, entrou em contato da sua caixa de e-mail criptografada com a da reportagem. Ao contrário do processo de produção da matéria da revista, quando ele encaminhou um link para um chat privativo, em que as mensagens eram destruídas após 24 horas.

Em troca de e-mails com a reportagem, Anhangá encaminhou imagens da SSS e de explosivos feitos pelo grupo.

Dois dias antes de a Revista Veja publicar uma possível nova ameaça ao presidente, o site oficial do ITS, Maldición Eco-extremista, divulgou um comunicado enviado pelo braço brasileiro do grupo intitulado Destruindo uma invenção política com o nosso nome”.

O texto tentava desligar qualquer atentado do SSS a ligações com a esquerda ou direita políticas. No entanto, Anhangá não negou em entrevista ao Jornal Midiamax o ódio ao que chama de ‘posturas cínicas’ do governo de Bolsonaro. O grupo também encaminhou fotos de dois explosivos que estariam sendo produzidos para serem utilizados ‘a qualquer momento’.

Ao Jornal Midiamax, Anhangá encaminhou fotos de explosivos feitos pelo ITS.

As mensagens foram reproduzidas na íntegra, mantidos os erros de digitação e de grafia.

Qualquer um pode ser alvo

“Uma coisa que deve ficar clara é que ITS não é um grupo que visa exclusivamente atacar governos, sejam eles quais forem, até porque isso gera um enorme trabalho e custo, algo que ainda não podemos bancar. Uma visão sobre nós está sendo moldada neste sentido, e está equivocada. Nós como eco-terroristas que somos podemos visar uma infinidade de alvos, desde um simples carro até pesquisadores, estudantes ou até civis, dado que desprezamos a vida humana civilizada e consideramos que a humanidade moderna, com o seu estilo de vida, é irreconciliável com a natureza selvagem e intrinsecamente danosa. Portanto, esperem por qualquer alvo. ITS como um grupo eco-extremista internacional já atacou presidentes de megaempresas, mas também atacou civis comuns indiscriminadamente, e todos sob o mesmo impulso. Uns danam colossalmente, outros danam pouco, mas todos danam e não fazemos distinções, e toda esta estrutura tecno-industrial só se sustenta porque há civis operando e a defendendo, conscientemente, por mais que neguem que assim seja, sobretudo os esquerdistas. Então, os alvos são infindos. Governos, sejam eles quais forem, sempre foram danosos, afinal o progressismo sempre foi buscado e ele é alcançado apenas através de danos graves à natureza, como mineração, desmatamento, barramento de rios, monoculturas, etc.. Acontece que o novo governo ressignificou o interesse em danos, nos parece proposital e há muito cinismo. Olhe aquele Salles, como é cínico. Bolsonaro fazendo papel de estúpido quis rebater esta semana dados objetivos do INPE com a intenção de negar o abissal desmatamento que ocorre no país. Então, é custoso visar alvos do governo e raramente o fazemos, mas esse governo tem nos enfurecido de uma maneira bastante particular devido a suas posturas cínicas e explícitas referente a questões ambientais”.

Liberação de agrotóxicos

“Não defendemos qualquer tipo de agronegócio, tampouco agrotóxicos, nossa perspectiva é outra. Mas é odioso o que esta pessoa tem feito, defender e liberar dezenas daqueles produtos químicos, muitos deles periculosíssimos e condenados em outros países. As consequências destes produtos sempre foram drásticas, sendo abruptas ou lentas, por “menos nocivos” que fossem. Sabe-se hoje que o declínio de insetos, especialmente aqueles polimerizadores, tem relação direta com a aplicação de pesticidas. Não é atoa que vulgarmente os chamam de “veneno”. Este país é um dos que mais consomem agrotóxicos no mundo, são toneladas todos os anos, estes produtos contaminam solos, rios, córregos, matam animais e insetos e se impregnam nos alimentos distribuídos. O resultado, além dos danos graves à natureza, são doenças neurológicas, câncer e tantas outras enfermidades. Mato Grosso é um inferno do agronegócio, e o Pantanal é rico e diverso, e como qualquer outro ecossistema neste país, especialmente o Cerrado, está ameaçado pela agropecuária. Tereza Cristina é como uma outra Kátia Abreu, a nova “rainha do motosserra”, e não hesito em dizer que será tão pior quanto.

Para ilustrar melhor o absurdo enquanto terminava minhas respostas, tive que voltar nesta pergunta para atualizá-la, já que hoje, 22 de Julho, acabo de saber que foi aprovado o registro de mais 51 agrotóxicos, totalizando 262, apenas neste ano, incluindo o Sulfoxaflor, inseticida do qual estudos mostram relação com o declínio da população de abelhas. Explosivos que dilaceram membros não são nada se comparados aos danos causados à natureza por nossa espécie’.

Ligações com o Paraguai

“Não existe nenhum membro de ITS no Paraguai. Mas já há algum tempo prestamos atenção no Exército do Povo Paraguaio (EPP), que inclusive realizou um interessante ataque há pouco tempo através de um braço indígena da organização, matando um brasileiro e causando danos materiais. Mas não temos qualquer tipo de contato ou relação com o grupo, há inclusive completa divergência em nossos caminhos, apenas tiramos lições da bela atuação destes insurgentes”.

SSS e PCC

“Não existem membros de ITS por “todo o país”. O grupo não possui esta dimensão. Quando emitimos aquele comunicado [de apoio ao PCC] estávamos apenas nos alinhando às intenções destas facções de atacar e retaliar autoridades e militares, já que um “salve geral” poderia ser dado a qualquer momento devido a transferência de líderes do PCC após planos de fuga frustrados. Se isso ocorresse, mesmo sem nenhuma ligação com o grupo, certamente atacaríamos contribuindo com as intenções caóticas da facção, porque diretamente isso contribuiria também com as nossas, caos e desestabilização da sociedade”.

Ataques planejados?

“Tem algo que sempre levamos em mente quando nos fazem esta pergunta. Em 1970 uma das informações cruciais para os militares alemães elaborarem um plano para aniquilar a organização palestina Setembro Negro na Alemanha, grupo terrorista que sequestrou e matou onze atletas israelenses, foi a quantidade de membros da organização. Durante as negociações na vila olímpica em Munique eles deixaram escapar seu contingente, e isso foi importantíssimo para uma contrainsurgência contra os rebeldes palestinos. Então jamais diremos quantos de nós existem, isso seria um tiro em nosso próprio pé. E sim, existem mais ataques planejados para este ano. Apenas aguardem.”

[MATÉRIA]: Líder de grupo terrorista revela plano para matar Bolsonaro

A edição edição nº 2644 da revista VEJA trouxe uma interessante matéria sobre ITS-Brasil. Na ocasião foi entrevistado Anhangá, membro proeminente da Sociedade Secreta Silvestre, a “ala” brasileira do grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS). Abaixo a reportagem na íntegra que esteve a cargo dos jornalistas Thiago Bronzatto e Laryssa Borges.

Em entrevista a VEJA, representante do SSS ameaça presidente, seus familiares e dois ministros.

Imagem enviada a VEJA por um dos membros da SSS: os terroristas já praticaram três atentados a bomba em Brasília (./.)

Em 1º setembro do ano passado, ninguém deu atenção a uma mensagem no Facebook que trazia uma ameaça ao então deputado Jair Bolsonaro. O autor escreveu que testaria “a valentia” do então candidato do PSL à Presidência da República quando os dois se encontrassem e que ele “merecia” levar um tiro na cabeça. Ninguém deu atenção à postagem porque ameaças assim quase sempre não passam de bravatas. Ninguém deu atenção porque o autor, um garçom desempregado, também costumava publicar em sua página na rede social textos desconexos e teorias conspiratórias absolutamente sem sentido. Parecia coisa de maluco. Cinco dias depois, no entanto, Adélio Bispo de Oliveira, o autor da mensagem, esfaqueou Bolsonaro em uma passeata em Juiz de Fora (MG). O agressor de fato era um desequilibrado mental, mas o atentado ensinou que ameaças não devem ser subestimadas, por mais improváveis que pareçam.

ALERTA -Jair Bolsonaro: alvo da SSS, organização que se diz ecoextremista (Ueslei Marcelino/Reuters)

Há seis meses a Polícia Federal caça, ainda sem sucesso, os integrantes de um grupo terrorista que já praticou pelo menos três atentados a bomba em Brasília e anuncia como seu objetivo mais audacioso matar o presidente da República. Nas duas últimas semanas, VEJA entrevistou um dos líderes da Sociedade Secreta Silvestre (SSS), que se apresenta como braço brasileiro do Individualistas que Tendem ao Selvagem (ITS), uma organização internacional que se diz ecoextremista e é investigada por promover ataques a políticos e empresários em vários países. O terrorista identifica-se como “Anhangá”. Por orientação do grupo, o contato foi feito pela deep web, uma espécie de área clandestina da internet que, irrastreável, é utilizada como meio de comunicação por criminosos de várias modalidades.

Anhangá garante que o plano para matar Bolsonaro é real e começou a ser elaborado desde o instante em que o presidente foi eleito. Era para ter sido executado no dia da posse, mas o forte esquema de segurança montado pela polícia e pelo Exército acabou fazendo com que o grupo adiasse a ação. “Vistoriamos a área antes. Mas ainda estava imprevisível. Não tínhamos certeza de como funcionaria”, afirma o terrorista. Dias antes da posse, a SSS colocou uma bomba em frente a uma igreja católica distante 50 quilômetros do Palácio do Planalto. O artefato não explodiu por uma falha do detonador. No mesmo dia, a SSS postou um vídeo na internet reivindicando o ataque e revelando detalhes da bomba que só quem a construiu poderia conhecer. Nessa postagem, o grupo também anunciou que o próximo alvo seria o presidente eleito, o que levou as autoridades a sugerir o cancelamento do desfile em carro aberto. “Facilmente poderíamos nos misturar e executar este ataque, mas o risco era enorme (…) então seria suicida. Não queríamos isso.” Na ação seriam usados explosivos e armas. “A finalidade máxima seriam disparos contra Bolsonaro ou sua família, seus filhos, sua esposa.”

EM VÍDEO – Incêndio de carros do Ibama em Brasília: o grupo gravou as cenas (CBMDF/Divulgação)

Depois disso, em abril, dois carros do Ibama foram incendiados em um posto do órgão em Brasília. Em meio aos escombros, encontraram-se palitos de fósforo, restos de fita adesiva e vestígios de um líquido inflamável. No local, havia pichações com ameaças de morte ao ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente. De novo, num vídeo postado na internet clandestina, o grupo assumiu a responsabilidade pelo atentado e exibiu o material utilizado durante o ataque, oferecendo provas de que era mesmo o autor do crime. De acordo com Anhangá, foi mais um aviso, dessa vez endereçado diretamente a Ricardo Salles. “Salles é um cínico, e não descansará em paz, quando menos esperar, mesmo que saia do ministério que ocupa, a vez dele chegará. (…) É um lobo cuidando de um galinheiro”, diz o extremista, que alerta para a existência de um terceiro alvo no governo: Damares Alves, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. “(Ela) se tornou a cristã branca evangelizadora que prega o progresso e condena toda a ancestralidade. O eco-extremismo é extremamente incompatível com o que prega o seu ministério”, diz.

Espécie de holding internacional dos chamados ecorradicais, o ITS foi fundado em 2011 no México e afirma ter representantes também na Argentina, Chile, Espanha e Grécia. A organização se diz contra tudo o que leva à devastação do meio ambiente e defende o uso de medidas extremas e atos violentos contra os inimigos da natureza (evidentemente tal discurso não tem coerência alguma). Em maio passado, os ecoterroristas do Chile assumiram a autoria de uma carta-­bomba enviada a um empresário. Dois anos antes, em 2017, um artefato similar foi endereçado ao presidente de uma mineradora, que ficou ferido. No México, o ITS reivindicou a autoria de várias explosões em universidades. Uma delas resultou, em 2016, na morte de um pesquisador. No fim do ano passado, o grupo também se responsabilizou por uma bomba deixada próximo a uma igreja ortodoxa em Atenas.

RECADO – Bomba em frente a uma igreja de Brasília: o primeiro recado da SSS (./Reprodução)

Os terroristas brasileiros vêm sendo monitorados pelas autoridades há algum tempo. Um relatório elaborado pela diretoria de inteligência da PF intitulado “Informações sobre Sociedade Secreta Silvestre” descreve que, em 2017, uma bomba foi deixada na rodoviária de Brasília. O documento, obtido por VEJA, ressalta que a imprensa não noticiou o atentado, mas, mesmo assim, os detalhes foram divulgados num site do grupo chamado Sociedade Secreta Silvestre, traduzidos para diversos idiomas e assinados por uma pessoa identificada como “Anhangá”. Em dezembro, depois da ameaça ao presidente Bolsonaro, a Polícia Federal decidiu pôr no caso os melhores agentes da seção antiterrorismo. Os policiais já seguiram várias pistas. Três suspeitos chegaram a ser presos. Mas os integrantes do grupo ainda não foram identificados. Anhangá provoca: “(Eles) são incompetentes (…). Não somos meros amadores, dominamos técnicas de segurança, de engenharia, de comportamento social. (…) Discutimos internamente com membros de outros países”.

Assim como para outros grupos, a internet exerce um papel importante na organização e divulgação de ideias. Os comunicados e vídeos do grupo terrorista ITS são postados num site chamado Maldición Eco-­extremista, traduzido para diversos idiomas. Foi por meio desse canal que VEJA solicitou uma entrevista com um integrante do ITS-Brasil. Um e-mail criptografado, de um servidor localizado na Suíça, indicou um endereço eletrônico para o qual deveriam ser enviadas as perguntas. Pouco tempo depois, Anhangá apareceu e disse que estava à disposição para esclarecer as dúvidas da reportagem. A partir daí, foi mandado um link de um chat privado, em que as mensagens eram destruídas após 24 horas. Nesse canal, foram feitas três entrevistas, reproduzidas ao longo destas páginas. Em fevereiro de 2019, a rede de televisão francesa TV5Monde utilizou o mesmo caminho para entrevistar o fundador do ITS, que se apresentou como “Xale”. A reportagem informava que o grupo tinha ramificação no Brasil.

EMBOSCADA – Aeroporto de Congonhas: o grupo planejou metralhar um ministro do STF na área de desembarque (Alf Ribeiro/Folhapress)

O máximo que Anhangá (que quer dizer espírito que protege os animais, em tupi-guarani) revela sobre si é que é do sexo masculino, tem entre 20 e 30 anos, está em Brasília e é um radical defensor da natureza. Com as vidas humanas, já não demonstra a mesma preocupação. Segundo ele, o presidente é um “estúpido populista” que “falha com sua segurança” e anda “sem uma proteção adequada”, o que facilita o atentado. Quando isso pode acontecer? “Um ataque a Jair Bolsonaro será sempre uma possibilidade latente.” Por quê? “Bolsonaro e sua administração tem declarado guerra ao meio ambiente.” Já há alguma preparação? “Tentamos sempre adquirir explosivos e armas mais potentes.” Onde? “Estudamos semanalmente nossos alvos.” Pode ser tudo bravata? Até pode, mas as evidências que se tem até agora apontam para o sentido contrário. Num inquérito sigiloso obtido por VEJA, a própria PF destaca que o grupo continua praticando atos criminosos com “extrema gravidade” e mostrando “profusão de ideias violentas e extremistas, além de divulgar ameaças contra a vida do Bolsonaro”. Isso, por si só, já se enquadra em crime de terror (leia mais nesta reportagem).

As ameaças contra autoridades de Brasília não envolvem apenas o Executivo. Em março, por determinação do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), foi instaurado um inquérito para apurar a origem de ataques a magistrados nas redes sociais. Numa primeira fase, os investigadores identificaram pessoas que usavam a internet para difundir notícias falsas e pregar agressões contra os ministros. Foi o caso de um advogado alagoano que publicou uma mensagem em que falava da necessidade de “matar aquele débil mental do irmão mongol do ministro Toffoli”. O irmão do ministro é portador de síndrome de Down. Identificado, o advogado prestou depoimento e disse que tudo não passava de bravata.

DO VIRTUAL PARA O REAL – Suzano: o massacre começou em fórum da internet (./Reprodução)

Mas não foi apenas isso. VEJA apurou que o inquérito do STF também reuniu evidências de um plano real de ataque contra um ministro da Corte. Os investigadores descobriram que um grupo havia monitorado durante algum tempo a rotina de um dos magistrados, cujo nome é mantido em sigilo, e de sua família, que mora em São Paulo. O objetivo era definir o melhor lugar para uma emboscada, e o local escolhido foi o Aeroporto de Congonhas. Por questões de segurança, autoridades e políticos têm acesso a salas vip em aeroportos. A ideia dos criminosos era cercar o carro do ministro na saída do terminal e metralhá-lo. “Eles diziam que ‘iam abrir fogo’”, revela um magistrado que teve acesso à investigação, conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes.

Curiosamente, o plano foi discutido em um chat da deep web também frequentado pelos estudantes Guilherme Monteiro e Luiz Henrique de Castro. Para quem não lembra, em março esses dois rapazes invadiram uma escola em Suzano, no interior de São Paulo, executaram cinco alunos e duas funcionárias e depois se mataram. No chat, o grupo que planejava o ataque ao ministro do STF trocava informações com os assassinos da escola. Por orientação da Polícia Federal, os juízes mudaram sua rotina e ampliaram o esquema de segurança. “Esse caso é diferente dos que já encontramos. Não se trata de alguém fazendo um desagravo ou uma bravata pela internet. Eram dois grupos distintos tramando dois ataques. O primeiro aconteceu. Não era brincadeira”, diz o mesmo magistrado. Infelizmente, o terrorismo, que durante tanto tempo não figurou entre as preocupações brasileiras, agora precisa ser levado a sério. Que os responsáveis sejam presos e punidos — antes que cometam as tais atrocidades que prometem.

INVESTIGAÇÃO - Alexandre de Moraes: ameaças não eram bravatas (Marcelo Chello/CJPress/.)

POSSIBILIDADE LATENTE

A conversa com o representante da SSS foi realizada através de um chat* na deep web. “Anhangá” confirma que o objetivo do grupo é matar o presidente

VEJA: O presidente da República, Jair Bolsonaro, é um dos alvos? Por quê?

Anhangá: Bem, ser um alvo ele é, só é bastante difícil às vezes de elaborar algo para alcançá-lo. Como ele é um estúpido populista às vezes falha com sua segurança e sai aqui em Brasília aleatoriamente sem uma proteção adequada. Ou em outros lugares como no Rio de Janeiro. As motivações carecem de justificativas porque são óbvias. Bolsonaro e sua administração tem declarado guerra ao meio ambiente, a Amazônia especialmente, tem feito de órgãos que teoricamente deveriam proteger a natureza catapultas para negócios danosos, facilitadores de exploração mineira, madeireira, caças, agropecuária, etc.

E isso de maneira intensa e explícita.

Proposital.

É um negacionista da catástrofe climática.

VEJA: Mas vocês ainda avaliam fazer um ataque ao presidente da República?

Anhangá: Um ataque a Jair Bolsonaro será sempre uma possibilidade latente. ITS-México feriu uma senadora mexicana com um livro-bomba, se não estou equivocado. ITS-Chile por pouco não mata o presidente de uma das maiores estatais do país com um pacote-bomba há dois meses, mais ou menos. Estas pessoas do alto escalão não são intocáveis, só é preciso saber das vulnerabilidades. As pessoas pensam que estamos parados, mas estudamos semanalmente nossos alvos, e tentamos sempre adquirir explosivos e armas mais potentes. Se a oportunidade bate em nossa porta Bolsonaro acabará como Luis Donaldo Colosio (político mexicano, morto em atentado em 1994).

*Foi mantida a grafia normal

NA CERIMÔNIA DE POSSE

“Conseguiríamos se tivéssemos tentado”

RECUO – Posse de Bolsonaro: um forte esquema de segurança impediu o ataque (Andre Penner/AP)

VEJA: Em relação à posse presidencial, qual era o plano de atentado?

Anhangá: Dificilmente conseguiríamos acessar a área restrita, havia barreiras e detectores de metal. Não era certo uma vista de longe para disparos, e mesmo que fosse, a área estava bastante vigiada por câmeras e atiradores, seriam deixadas sacolas com explosivos, na verdade iria atingir público, essa é a verdade.

Isso era viável.

Foi um público considerável, e facilmente poderíamos nos misturar e executar este ataque, mas o risco era enorme, e era previsível um ataque, então seria suicida.

Não queríamos isso.

E pensamos bem, outros membros de fora aconselharam também.

VEJA: Vocês desistiram, então, por causa da estrutura de segurança do evento?

Anhangá: De certo modo sim.

O risco era grande.

Mas conseguiríamos se tivéssemos tentado.

Só não é certo se sairíamos vivos.

VEJA: O que estava preparado?

Anhangá: Como mencionei, explosivos de extintores de incêndio e uma arma.

VEJA: Qual seria a finalidade da arma?

Anhangá: A finalidade máxima seriam disparos contra Bolsonaro ou sua família que desfilaria, seus filhos, sua esposa, o núcleo, mas sabemos que isso dificilmente aconteceria, mas essa era a finalidade. Não sabíamos se teríamos campo de visão para isso.

O MINISTRO DO MEIO AMBIENTE É ALVO

“Um lobo cuidando de um galinheiro”

INIMIGO – Salles e a “destruição” (Ueslei Marcelino/Reuters)

VEJA: Vocês também ameaçaram de morte o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Qual a razão disso?

Anhangá: Salles é um cínico, e não descansará em paz, quando menos esperar, mesmo que saia do ministério que ocupa, a vez dele chegará. Aquele sujeito já chegou a adulterar documentos para beneficiar mineradoras. Tudo o que faz e declara é antagônico ao cargo que ocupa. É um lobo cuidando de um galinheiro.

Ele foi condenado por isso.

É um aliado de empresas, mineradoras e ruralistas.

E não por acaso foi escolhido por Bolsonaro.

A MINISTRA NA MIRA

“A cristã branca que prega o progresso”

INIMIGA – Damares e o “progresso” Alves (Jorge William/Agência O Globo)

VEJA: Por que, além de Bolsonaro, vocês ameaçaram a ministra Damares Alves?

Anhangá Pelo símbolo que ela se tornou, a cristã branca evangelizadora que prega o progresso e condena toda a ancestralidade. Outro motivo é que o eco-extremismo é extremamente incompatível com o que prega o seu ministério, é um choque filosófico.

AS INVESTIGAÇÕES DA PF

“Não somos meros amadores”

(./.)

PREVENÇÃO – A Polícia Federal prendeu, em 2016, dez suspeitos de terrorismo. O documento acima mostra que a PF agora está no encalço da SSS (Ed Ferreira/Brazil Photo Press/)

VEJA: Por que até hoje a Polícia Federal não descobriu a identidade de vocês?

Anhangá: Porque são incompetentes e porque não somos meros amadores. Aqueles idiotas da Operação Hashtag foram presos enquanto preparávamos quase 10 quilos de explosivo. Não somos meros amadores, dominamos técnicas de segurança, de engenharia, de comportamento social. Pra falar a verdade discutimos internamente com membros de outros países e chegamos a conclusão que das polícias de cada país onde opera ITS a do Brasil é a mais avançada, mas ainda sim não foi capaz.

*de que

Como costumamos dizer, caminhamos com uma lebre, silenciosamente.

Uma Abordagem Extra-moral à Artificialidade

Tradução da reflexão Extramoral Approach Artificiality, extraída do blog Antisocial Evolution.

As leis sociais são um sistema de regras impostas à maioria das pessoas civilizadas desde o nascimento. Elas são um conjunto de regras que governam como você deve viver para fazer a sociedade funcionar: não roube, seja uma boa pessoa, trate os outros como você gostaria de ser tratado, somos todos iguais e se pudéssemos deixar de lado nossas diferenças e trabalhar juntos nós viveríamos em uma utopia de ouro. Estas leis são uma mistura da espuma borbulhante da doutrina judaico-cristã tradicional e o humanismo liberal moderno. É a maior fraude de todos os tempos, o engano mestre, um sistema de mentiras envolvidas em um lindo pacote e chamadas de civilização. É como ser fodido por um porco vestido de freira.

Logo está a lei natural, a lei real, a natureza primitiva do homem, a parte de nosso cérebro que se desenvolveu ao longo dos últimos milhares de anos, sobrevivendo às eras glaciais, secas, em florestas, desertos, à pragas e guerras. É o cérebro do lagarto, o cérebro animal, a parte de nós que impulsiona instintos e comportamentos nos níveis mais profundos.

Em nossa ignorância pensamos que somos removidos a um nível de distância das bestas da terra. Qualquer um que tenha animais de estimação ou que tenha estado no meio da natureza sabe que existe uma lei selvagem que reina acima de tudo: a sobrevivência do mais apto, afunda-se ou nada, aprende a voar ou morre tentando. “Vitória ou Valhala.”

Isso não quer dizer que o altruísmo em certo ponto não exista. Experimentos mostraram que os ratos arriscam suas vidas para libertar seus amigos do cativeiro. Os bonobos nas tribos compartilham a comida entre si. Um cachorro poderia adotar um gatinho órfão como se fosse seu e cuidar dele.

Não estou dizendo que a “bondade” não exista em nossa natureza primitiva. Mesmo assim, as leis da sociedade civilizada são uma farsa. As regras escritas em tábuas de pedra e assinadas por “deus” eram, obviamente, dirigidas a pessoas nos escalões mais baixos da sociedade – não para os ricos e poderosos.

Se você olha a demografia de hoje, são os pobres que são os mais religiosos e os ricos os menos. Os ricos mentirão, roubarão e serão opressivos contra qualquer um que cruze em seu caminho – isso se chama viver sob as leis naturais.

A lei natural é viciosa. Ela é a mãe que insiste e critica, que aponta suas maiores inseguranças com risadas em um sorriso maligno. Ela não é a pequena amorosa Terra, mãe das flores, doces e abraços. Ela é Kali em um embate, incendiando florestas no chão. É a furiosa e ciumenta Hera, atormentando e destruindo aqueles que se opõem a ela. Sua compaixão é grande para aqueles que a respeitam, mas sua ira é a morte experimentada milhares de vezes em um tsunami, por isso andamos em nossas vidas diárias, falando, atuando e respirando sob as leis sociais – quando no fundo de nosso subconsciente – estamos vivendo sob a lei natural. Por que o homem estabelecido com uma esposa e uma família arrisca tudo por uma noite de paixão com uma mulher jovem e bonita, mesmo quando ele sabe que as repercussões poderiam ser a solidão, o divórcio, e intermináveis pagamentos de pensão alimentícia? Por que os líderes de países levam seu próprio povo à ruína com dívidas intermináveis e guerras em busca de riqueza – mesmo quando estão em risco?

Os tolos e os idiotas quebram a cabeça e ficam com suas mandíbulas abertas, estáticos por aí, como se fossem uma horda de vaginas arregaçadas. Um ponto de interrogação que paira no ar como um fedor estagnado.

No início de nossas vidas, estamos posicionados em um tabuleiro de xadrez, mas nos dizem que é um tabuleiro de damas. Como peões obedientes, nos concentramos em avançar um quadrado de cada vez – apenas para nos vermos surpreendidos e espancados quando a torre captura nossas vidas com uma varredura limpa. Como ela pode fazer isso? É justo? Como ela pode simplesmente atravessar todo o tabuleiro? Claro que ela pode, quando você percebe o jogo que está jogando.

Assim que acorda, você está na selva, bebê. Como primatas, é onde começamos e nunca saímos realmente. É claro, talvez sejamos astutos o bastante para criar pequenas casas e estradas ou cercar subúrbios que podem dividir nossas falsas vidas acomodadas.

Mas a civilização, como a conhecemos, tem apenas 5.000 anos de idade. A moderna sociedade industrial tem apenas 200 anos de idade. As leis reais dos homens foram estabelecidas ao longo dos 40.000 anos de nossa existência como bestas, e até mesmo as leis de outros primatas antes disso sequer acontecer.

Poderia a psique humana mudar tão rápido para se adaptar às leis humanitárias, liberais e cristãs? Talvez quando se corte as genitais e lobotomize a mente. Por que você acha que os antidepressivos prevalecem tanto na sociedade de hoje? Por que você acha que as pessoas vão a caras terapias por causa de seus flácidos casamentos e vida sexual?

Então acorde da ilusão. Tudo o que foi dito a você é uma mentira. Perceba o jogo que você está jogando e jogue-o bem. Não há equivalentes. Apenas ganhadores e perdedores. Você é o lobo ou a presa?

Fortes, livres e suicidas: Sebastião Salgado fotografa os Suruwaha na Amazônia

Expedição do fotógrafo brasileiro documenta os índios suruwahas, que vivem sem cacique ou qualquer outra hierarquia em uma pequena comunidade isolada no sul do Amazonas, onde produzem toda sua comida, cultivam o vigor físico e preservam tradições –como a de usar poções venenosas para caçar, pescar e morrer jovem.

Kwakway leva cesto cheio de massa de mandioca ao igarapé Pretão, ajudado por Baxihywy e Warubi

De Amazônia.org:

Eles são 154 pessoas e sua população segue crescendo (eram cem nos anos 1980). Com a saúde exuberante, produzem todos os alimentos que consomem e têm grande orgulho de suas técnicas de agricultura, particularmente apuradas. Para caçar, usam armas tradicionais, o arco e a zarabatana, com que atiram setas de ponta envenenada. São mestres no uso de poções. Não têm caciques, mas os grandes caçadores, sempre reconhecidos pelo número de antas que mataram, são prestigiados, considerados “madi iri karuji”, ou “pessoas de valor”.

“Os suruwahas representam para mim aquilo de mais próximo ao que Pedro Cabral deve ter visto ao chegar ao Brasil.” Assim Sebastião Salgado define sua impressão após a expedição fotográfica de 25 dias que realizou à terra indígena.

A comunidade está localizada no sul do estado do Amazonas, entre igarapés da bacia do rio Purus. A área fica a cinco dias de barco da cidade de Lábrea (850 quilômetros a sudoeste de Manaus).

“Eles escolheram viver em estado de quase total isolamento e mantêm suas práticas e a expressão visual de sua tradição cultural muito preservadas. É muito impactante. Vê-los, ao chegar, me causou uma emoção muito grande”, acrescenta o fotógrafo, que ao longo das últimas décadas visitou alguns dos lugares e povos mais isolados da face da Terra.

Após contatos trágicos com outros índios e brancos na segunda metade do século 19, os suruwahas (pronuncia-se “suru-uarrás”) se retiraram para o fundo da floresta e lá ficaram isolados até o início dos anos 1980. Na época, pescadores, caçadores e seringueiros ameaçavam a área onde havia sinais da presença de índios.

Indigenistas do Cimi (Conselho Indigenista Missionário, ligado à Igreja Católica) fizeram contato com os suruwahas e, então, iniciou-se o processo oficial de reconhecimento da terra indígena, que foi homologada pela União em 1991.

Depois de um breve período de convivência com duas instituições religiosas -o Cimi e a evangélica Jocum (Jovens com uma Missão)-, desde o início dos anos 2000 os índios passaram a se beneficiar da chamada política do não contato.

A Coordenadoria de Índios Isolados ou de Recente Contato da Funai (Fundação Nacional do Índio) mantém apenas um posto que fica a mais de sete horas de viagem, por barco, da aldeia. Quando autorizado pela Funai, um visitante precisa, antes de ir até lá, fazer uma quarentena de 12 dias no posto da entidade para comprovar que não possui doença que possa contaminar os índios.

Apesar da distância, esse grupo frequenta o noticiário e é alvo de estudos acadêmicos por uma característica cultural geralmente chocante para um não suruwaha: a ocorrência frequente de suicídios, provocados com o uso do timbó, veneno usado por outros povos apenas para pesca. Essa tem sido a principal causa de mortes entre eles. A fama dessa ocorrência os levou a serem chamados de “os índios do veneno”.

A jovem Hatiri se banha no rio. Foto: Sebastião Salgado

Antropólogos, indigenistas e missionários se debruçaram sobre o tema sem uma conclusão sobre as causas desse comportamento e sem conseguir eliminar os casos – que, no entanto, têm diminuído.

A maior parte dos suicídios ocorre entre pessoas na faixa de 14 a 28 anos, em pleno vigor físico.

Contribui para isso sua mitologia. Os suruwahas acreditam na existência de três céus ou planos para os quais a pessoa ruma após a morte.

“Desses céus, aquele onde a vida é mais favorável é o que reúne os que morrem fortes e saudáveis, em vez dos dois outros: o que reúne os picados por cobra e aquele para onde vão os que morrem depois de velhos”, conta Salgado.

Os suruwahas são também uma sociedade anárquica. Não têm líderes, não têm chefia. ”Kwakway é o mais respeitado, dono da maior maloca, parte de uma família numerosa. Mas isso não dá a ele um papel de ‘chefe’”, explica.

O igualitarismo radical faz com que não haja entre os índios autoridade com mandato para cercear ou censurar alguém. As decisões de interesse comum são tomadas à noite, depois da comida, em conversas abertas. Atitudes pessoais são responsabilidade dos indivíduos: o grupo pode criticar alguma ação isolando seu autor, deixando de falar com ele. Mas não há punições.

Índios suruwahas participam de pescaria coletiva no igarapé Pretão, durante verão amazônico, quando as águas dos rios baixam. Foto: Sebastião Salgado

Comunidade atual é resultado da mistura de grupos sobreviventes

A imagem de isolamento que tanto impactou o fotógrafo Sebastião Salgado ao encontrar os suruwahas é consequência da história intensa e trágica que esse grupo viveu a partir da segunda metade do século 19.

Após meio século de epidemias e de um massacre, que quase os exterminou completamente, os suruwahas fugiram para o fundo da floresta, no início do século 20, onde vivem isolados nas terras altas até hoje.

A jovem Juwawi, com pintura de onça no rosto, carrega seu bebê em uma tipoia sobre a cabeça. Foto: Sebastião Salgado

A partir de relatos de memórias que foram passados de geração a geração ao longo dos últimos 150 anos, é possível saber que, por volta de 1880, eles mantiveram intercâmbio de produtos com outros índios ou com brancos, de quem adquiriam utensílios industrializados.

As ferramentas de metal, como machados e facões, tinham se tornado habituais entre os índios. Esses instrumentos causaram verdadeira revolução em suas técnicas.

A antropóloga Adriana Huber Azevedo, que trabalhou com os suruwahas entre 2006 e 2011, explica que os instrumentos transformaram a agricultura deles, como na abertura de roças, e que os índios passaram a depender dessas ferramentas.

Naquele fim de século 19, o modo de vida era bastante diferente. Divididos em vários grupos de língua semelhante (chamados ”dawas”), os indígenas viviam espalhados em um vasto território, do qual a terra atual é só uma pequena fração.

Eram ao menos 11 grupos originais, que habitavam em torno dos rios Cuniuá, Tapauá e Purus. Cada um era identificado pelo lugar em que morava: jokihidawas (que já viviam onde todos estão hoje), tabosorodawas, adamidawas, nakydanidawas, sarakoadawas, yjanamymadys, korobidawas, masanidawas, ydahidawas, zamadawas e um grupo chamado suruwaha.

Esses antigos suruwahas e os masanidawas se relacionavam com seringueiros.

Na proa da canoa, Bahahai pesca, à frente dos irmãos, Tiau (também com um peixe) e Hugi, da mãe, Xiriaki, e do pai, Ikiji. Foto: Sebastião Salgado

Segundo contam, esse tempo de contato com outros povos trouxe grandes epidemias de gripe. Os diversos grupos se afastaram das margens dos grandes rios, como o Purus, subindo por seus afluentes para tentar evitar as doenças. “É provável que eles participassem de festas e de encontros com outros povos, quando buscavam obter ferramentas de metal. Mas pegavam gripe e morriam. Podemos relacionar isso ao início do ciclo da borracha, na segunda metade do século 19”, afirma a antropóloga Adriana.

A população de muitos grupos indígenas foi drasticamente reduzida nesse período. Os suruwahas originais desapareceram. As epidemias, porém, não abateram tanto a população dos jokihidawas, que viviam às margens do igarapé Pretão.

Os sobreviventes de outros grupos indígenas buscaram como refúgio aquela região do igarapé Pretão, chamado de Jokihi (o nome jokihidawa quer dizer “povo do Jokihi”) e que integra a bacia do rio Purus.

No auge desse processo de epidemias, ocorreu um grande massacre, por volta de 1920, quando mais um grupo de índios foi dizimado.

Em suas narrativas, os suruwahas atribuem essa violência a um povo que eles chamam de jakimiadi e descrevem como canibais que usavam roupas e atacavam com armas.

“É muito difícil saber quem os massacrou. Mas não eram pessoas de sua etnia, porque tinham nomes estrangeiros”, diz a antropóloga.

Quando isso aconteceu, os suruwahas, destruídos pelas epidemias, somavam poucos indivíduos. Os sobreviventes foram encontrados por remanescentes dos outros grupos, que já viviam juntos como forma de sobreviver à dramática redução populacional. Assim, no começo dos anos 1930, os índios dos vários grupos de língua arawá da região se refugiaram no território dos jokihis, onde estão até hoje.

No kunaha, acampamento de pesca, Bambuhwa segura folha de caranaí e moqueia peixes, ao lado de Xamuwa. Foto: Sebastião Salgado

Ali, numa área de floresta densa, distante de todos os grandes rios da região, conseguiram viver em isolamento quase completo por cerca de 60 anos, às margens de igarapés como Riozinho e Pretão. Perderam o acesso a instrumentos de metal, mas deixaram de contrair doenças.

Recuperaram a saúde, constituíram um modo de vida ao mesmo tempo tradicional e novo e formaram uma só comunidade a partir da mistura de várias etnias, uma federação dos antigos dawas.

Eles passaram a viver juntos, mas não adotaram um nome comum, cada um se identificava como membro de seu grupo original.

No início dos anos 1980, surgiram novas ameaças de presença de não índios, que poderiam levar doenças à comunidade. Indigenistas do Cimi fizeram então o contato. Quando os primeiros integrantes do conselho chegaram, dois jovens disseram: “Somos suruwahas”, referindo-se ao dawa já dizimado. Embora fosse brincadeira, o nome colou.

Segundo o antropólogo Miguel Aparício Suárez, em sua dissertação de mestrado “Presas do Timbó” (2014), o fato de o nome ser de um grupo inexistente facilitou a sua adoção como denominação comum.

Alguns indivíduos ainda se identificam pelo nome de origem. Mas indigenistas, Funai e outros índios passaram a chamá-los de suruwahas.

A referência precisa a datas é uma característica peculiar dos suruwahas. Nem todos os povos indígenas lidam do mesmo jeito com a história. É graças a essa memória prodigiosa que sua trajetória pôde ser remontada a partir do século 19. “Os ianomâmis não usam os nomes dos mortos, o que torna mais difícil entender o passado e reconstituir a ordem dos fatos”, compara Adriana.

Os índios Uhwi, Niaxixibu, Bibi, Giani e Hymanai, do grupo suruwaha, na beira do igarapé Pretão, que banha sua terra, localizada no sul do Amazonas. Foto: Sebastião Salgado

“No caso dos suruwahas, sua memória é bastante precisa até 1880”, diz ela, que é autora da tese de doutorado “Pessoas Falantes, Espíritos Cantores, Almas-Trovões”, sobre os suruwahas. Daquele momento para trás, as narrativas parecem se misturar com um tempo mítico.

O relacionamento dos suruwahas com a sociedade é marcado por ambiguidade, ao mesmo tempo há atração e repugnância, como fica claro no depoimento de Adriana Huber Azevedo: “Se a palavra tradição é sinônimo de autonomia econômica, eles são muito tradicionais, porque nunca foram monetarizados”.

Até hoje, eles produzem toda a sua alimentação e grande parte dos utensílios que usam. “Não passa pela cabeça dos suruwahas viver como nós, mas querem ter coisas nossas. E o sentido que veem em se relacionar com a nossa sociedade está em que podemos lhes fornecer facas, machados, lanternas, roupas para caçar em meio aos piuns e linha para fazer tangas”, diz a especialista.

Quase todos os membros do grupo já passaram meses em cidades como Lábrea ou Manaus, no estado do Amazonas, para fazer tratamento de saúde, segundo Adriana. “Todos dizem que odeiam cidades e jamais viveriam nelas.”

Eles tomam seu veneno no rio e correm para morrer em casa

Uma das marcas culturais mais impactantes dos índios suruwahas é o suicídio. Pessoas saudáveis e fortes provocam a própria morte ingerindo timbó, o veneno que outros povos só usam para capturar grandes quantidades de peixe. Ocorrem dois a três casos por ano, em média, tanto de homens como de mulheres, a maioria entre jovens de 14 a 28 anos. A prática reduz a taxa de crescimento do grupo a 1,9% ao ano, apesar da alta taxa de natalidade (4% ao ano). O autoenvenenamento é a causa de 60% dos óbitos.

Quando os índios percebem que um indivíduo tomou a poção, tentam fazê-lo vomitar, mas, frequentemente, a salvação já não é possível. O líquido tóxico é ingerido na floresta, longe dos olhos da comunidade. O índio se envenena e espera antes de voltar para casa – correndo, já que tem que morrer na maloca.

“Se a pessoa toma veneno, vai para casa e morre no caminho, ela não vai para a casa dos valentes no outro mundo, o céu que eles querem atingir. Então, tem que ter um cálculo preciso de quando tomar o timbó e quando ir para casa, para não morrer antes nem chegar quando ainda dá para evitar a morte pelo vômito”, comenta Sebastião Salgado.

O menino Huwaxi entre dois fardos de casca de árvore usada para fazer redes, cordas e tipoias nas quais as índias carregam os filhos. Foto: Sebastião Salgado

Embora frequente, a perda de um membro da comunidade é sofrida, provoca nos outros a sensação de ter falhado no salvamento. Ainda mais quando se trata de pessoa influente, um caçador de sucesso.

“Não aconteceu nenhum caso enquanto eu estava lá. Eu deveria ter ido no ano anterior, mas houve o suicídio de alguém muito querido. Como eles ficam muito chateados nessas situações, não seria boa época para irmos”, conta o fotógrafo.

O suicídio pode ocorrer porque a pessoa está deprimida, por uma morte em família, porque algo deu errado. A pessoa, triste ou envergonhada em consequência de um desentendimento, se mata. “Mas pode acontecer também porque está muito feliz, como se quisesse congelar esse sentimento”, conta Salgado.

O suicídio está imbricado na cultura dos suruwahas desde antes da fase mais recente de contato, nos anos 1980. Os próprios indígenas descrevem o momento em que eles passaram a adotar a prática do autoenvenenamento, segundo a antropóloga Adriana Huber Azevedo.

“Eles contam que a primeira pessoa que tomou o timbó foi um homem chamado Dawari, bisavô de uma mulher da comunidade atual. Isso aconteceu em torno de 1930, quando já estavam todos vivendo na área de isolamento.”

Segundo a estudiosa, a técnica de ingestão do timbó já era conhecida pelos suruwahas desde o século 19, quando eles tinham contato intenso com outro grupo da região, os katukinas. Mas eles só começaram a praticar o ato quando remanescentes dos diferentes grupos (”dawa”) passaram a viver juntos, no século 20.

Com o corpo pintado de urucum, Gianzubuni segura as armas de caça dos suruwaha: na mão e no ombro direitos, uma zarabatana e a aljava com os dardos de ponta envenenados; na mão esquerda, um arco. Foto: Sebastião Salgado

Antes da fusão, os conflitos eram resolvidos no universo simbólico, pela intervenção de xamãs. Eles atribuíam os problemas de uma pessoa a feitiços feitos por alguém de outro grupo. Uma pessoa que se achava vítima de feitiçaria apelaria a seu pajé para devolver o ataque. Vivendo juntos em uma mesma maloca, esses atritos passaram a ser represados, o xamanismo perdeu a função de mediação, as relações interpessoais se tornaram diretas.

A partir desse momento, acredita a antropóloga, as pessoas passaram a manifestar a reação a conflitos pela ingestão de timbó. Sua interpretação é que o objetivo não é a morte, mas a resolução do conflito: “Cerca de 80% dos casos são resolvidos pela intervenção da comunidade, evitando a morte”, explica.

Os suruwahas são conhecidos pela habilidade de manipular poções. São apelidados “índios do veneno”, o que desperta temor em outros grupos e mesmo entre indigenistas. As principais poções que usam na pesca e na caça são o timbó e o curare.

O timbó é usado por diversas etnias para a pesca na época da seca, quando os rios baixam e ficam empoçados. Os suruwahas o extraem da raiz de uma planta (Lonchocarpus nicou) que produz um líquido leitoso. Jogado na água, ele atordoa os peixes deixando-os paralisados, na superfície. O efeito desaparece em minutos e não afeta o alimento.

O curare, conhecido como “veneno de flecha”, é usado para caça, na ponta de setas grandes, disparadas com arco, ou pequenas, sopradas com zarabatana. É produzido a partir de cipós que precisam ser cozidos. O efeito dessa poção também é paralisante e o animal atingido perde a capacidade de fugir.

Os suruwahas caçam macacos e aves com zarabatana e outros animais, maiores, com arco.

No princípio, Aji Marihi (deus ou herói criador) criou um povo de homens poderosos, chamados saramadys. São os ancestrais dos suruwahas, segundo sua mitologia. Eles aprenderam todas as habilidades necessárias para a vida: caçar, pescar, construir casas, produzir venenos, fazer a roça, plantar. As mulheres aprenderam como fazer a cerâmica, as roupas e tudo. Nessa época, todos os seres vivos eram humanos. Ao longo do tempo, alguns homens foram se transformando em outros bichos ou plantas, e assim se formaram todas as coisas.

Todo mundo tem uma alma, que habita o coração. Dali, ela comanda a memória e as emoções. O homem pode mentir, mas sua alma é sincera. Quando um suruwaha morre, conta a mitologia, a alma abandona seu corpo e vai para o igarapé Pretão, onde eles moram. Ali, no fundo escuro das águas, espera a época das chuvas para seguir viagem rumo aos grandes rios, até um momento em que consegue pular para o céu.

Ao saltar para o céu, cada alma se projeta para um dos três céus em que se divide o mundo segundo a cosmogonia dos suruwahas: as casas do Sol e da Lua, que se localizam em um plano superior; e o arco-íris, em um espaço intermediário entre os dois. Em cada um desses planos os mortos se concentram conforme seu destino específico. Embora não explique os suicídios, é possível relacionar a prática a essa crença.

A jovem Hahani e seu pai, Ania, que segura um arco e flechas. Foto: Sebastião Salgado

No caminho da cobra, que coincide com o traçado do arco-íris, ficam os mortos por picadas de serpentes. O arco-íris, que outros povos cultuam como linda expressão da natureza, é sinal de má sorte para os suruwahas: quando aparece, alguém vai ser mordido por uma cobra.

No caminho do Sol vão aqueles que morrem na velhice, por acidentes ou doenças, todas as pessoas que não foram picadas por cobra e nem provocaram a própria morte. O destino desses índios que morrem velhos é penoso, as almas vagam sem sossego até achar uma comida celeste que as faça renascer e conquistar a juventude eterna.

Por fim, para o “caminho do timbó”, que corresponde à trajetória da Lua, vão os que se autoenvenenam.

O melhor céu, portanto, é dos que morrem jovens e fortes. Eles vivem a verdadeira existência pregada nos cantos e mitos: um mundo embaixo das águas, onde as almas se tornam peixes (como aqueles que os suruwahas costumam pescar, atordoados pelo timbó). Esse é seu destino final. De certa forma, o lugar que concentra os suicidas é o mais parecido com o paraíso após a morte da cosmogonia cristã.

O mito suruwaha conta que o herói Aji Marihi era ao mesmo tempo homem e onça, tinha poderes de um grande xamã, capaz de transformar todas as coisas. Para criar a humanidade, esfregava entre as mãos as sementes de diversas plantas e as jogava no chão. Todas se transformavam em gente, índios e não índios.

Os primeiros homens a sair das mãos do criador foram os jaras, os civilizados ou não índios, feitos com a semente da sorveira (uma árvore alta, comum na região). Depois, com sementes de breu, foram feitos os samaradys, ancestrais dos suruwahas; e com envira, seus inimigos míticos, os jomas. E assim, um a um, foram sendo criados os povos.

Musy molda na argila um jawari (pote de água). Foto: Sebastião Salgado

GRUPO GANHOU FAMA AO VIRAR ALVO DE CAMPANHA CONTRA INFANTICÍDIO

Apesar do isolamento, os suruwahas ganharam exposição pública nos últimos anos devido a outro tabu: o infanticídio em grupos indígenas.

Usando principalmente a internet, a entidade evangélica Jocum (Jovens com uma Missão) incluiu o grupo entre os alvos de uma campanha contra morte de recém-nascidos.

Por considerar que a Jocum fazia proselitismo que prejudicava os índios, o Ministério Público Federal exigiu que a Funai descredenciasse a entidade, proibindo que ela trabalhasse com os suruwahas, a partir de 2004.

Com apoio da bancada evangélica, o deputado Henrique Afonso (PT-AC) apresentou, em 2007, um projeto de lei que obriga o poder público (Funai ou Sesai) a intervir em caso de risco, para evitar o infanticídio em famílias indígenas.

Aprovado na Câmara em 2015, o texto está parado na Comissão de Direitos Humanos do Senado, onde enfrenta reação contrária de entidades de direitos humanos e do presidente da comissão, Paulo Paim (RS), do mesmo PT.

“O infanticídio tem adquirido proporções insignificantes entre os suruwaha. Eles têm sido vítimas de uma campanha de criminalização e ‘animalização’”, diz o antropólogo Miguel Aparicio Sua´rez, autor da dissertação de mestrado “Presas do Timbó” (Ufam, 2014).

O índio Kwakway trabalha na construção de sua maloca, que será usada por toda a comunidade; as casas coletivas têm cerca de 20 metros de altura e trazem prestígio ao dono. Foto: Sebastião Salgado

Malocas de até 20 metros de altura podem abrigar toda a tribo

Os suruwahas vivem em grandes malocas, construídas em forma cônica, com até 20 metros de altura -equivalentes a um prédio de seis ou sete andares. Há cerca de dez malocas espalhadas pela terra indígena, aptas a receber toda a população, se necessário. Mas, em geral, apenas três ou quatro estão ocupadas a cada momento, porque os índios mudam em função de conveniências, como a disponibilidade de água (quando o igarapé junto a uma casa fica mais seco, por exemplo) ou a colheita de roças com mais alimentos.

Em razão de festas, caçadas ou pescarias coletivas, todos podem se juntar em uma mesma casa por um certo período.

Até recentemente, os suruwahas estavam distribuídos em cinco malocas, duas mais próximas entre si e as outras três mais distantes das primeiras. Para chegar a elas, o fotógrafo Sebastião Salgado teve que marchar por cerca de quatro horas. Já no domingo passado (26/8), toda a população estava concentrada em uma só moradia.

Há sempre uma casa em reforma ou em construção na aldeia, para que o grupo possa ficar mais próximo de uma roça recém-aberta.

Construir uma casa é uma decisão individual. No início, o trabalho é coletivo: muitos homens auxiliam na instalação das colunas principais, grandes troncos de madeira.

A cobertura será feita praticamente por uma só pessoa, o “dono” da casa, e esse é um dos elementos que o caracterizam como um homem generoso, provedor, que dá abrigo aos outros. Essa segunda parte leva mais de um ano.

Kwakway trabalha na construção de sua maloca; a obra das casas coletivas pode levar até um ano e costuma ser feita apenas pelo seu dono. Foto: Sebastião Salgado

A estrutura interna da maloca é composta por troncos longos, grossos e pesados e por outros mais finos, alternados. O dono escolhe as árvores na floresta, que serão cortadas e limpas. Para o transporte da madeira, ele conta com a ajuda de oito a dez índios.

Também é o dono quem determina as dimensões e a posição da construção – é ele quem abre os buracos no chão que receberão os troncos.

O processo de levantamento das colunas é quase uma festa. Vários homens iniciam a tarefa. Depois largam o tronco estrondosamente no chão, retomam o esforço e sobem um pouco mais, até que, para colocá-lo na posição final, usam forquilhas de outras madeiras. Isso é repetido várias vezes.

Por último, eles amarram aros feitos de madeira mais maleável às colunas, com diâmetros que vão ficando menores em direção ao topo, o que dá a forma cônica do edifício.

Os homens convocados ajudam ainda a montar os andaimes internos em que o construtor vai se equilibrar na longa jornada de instalação da cobertura de palha.

Nesse período, o dono da casa vai colher sozinho (ou apenas com um parente próximo) as folhas de uma palmeira baixa chamada caranaí; vai secá-las e desfiar suas fibras com faca, para produzir as peças que serão assentadas sobre a estrutura de madeira do telhado, como se fossem telhas de tecido vegetal. Na hora da chuva, a palha desfiada vai cumprir o papel de vedar a entrada da água.

A maloca dá a seu dono certa proeminência, porque os outros serão sempre recebidos como hóspedes, mesmo que por longos períodos ou toda a vida em comum. Embarcar na construção de uma casa é sinal de coragem já que depois, ele trabalhará muito para alimentar os visitantes.

O construtor então vira um líder, um ”madi iri karuji”, “pessoa inspiradora”. Essa influência não se traduz em um poder executivo, de decidir pelos demais ou mandar nos outros. O que diz respeito ao direito pessoal é decidido pelo indivíduo. “Por isso, às vezes uma pessoa combina uma coisa com outra e depois, quando isso envolve uma terceira, que pensa diferente, tudo é cancelado”, conta Salgado.

Dentro das malocas, as famílias se organizam em núcleos com cerca de quatro metros quadrados cada um, entre as colunas de sustentação e a parede de palha, formando um círculo em torno da praça central, reservada às atividades coletivas.

Os suruwahas preparam na maloca o agassi, o grande cesto feito de cipó e casca de árvore, usado para transportar de 600 a 800 quilos de mandioca ralada até o rio. Foto: Sebastião Salgado

Festa da mandioca é olimpíada de levantamento de peso

Um dos principais pratos da culinária dos suruwahas é o grolado, espécie de bolinho assado feito de massa de mandioca fermentada, ou puba. Depois da colheita, uma grande quantidade de mandioca brava é reservada para ser deixada a fermentar dentro da água do igarapé mais próximo. É assim o preparo da puba, que tem sabor mais acentuado do que a feita com a mandioca fresca.

Na água, ela será preservada como se estivesse em uma geladeira, para ser usada quando necessário, na falta da raiz fresca ou em viagens, para acampamentos de caça ou pesca. Como uma espécie de subproduto ritual, o preparo da puba resulta em uma verdadeira olimpíada de carregamento de peso, quando os homens levam para o igarapé os grandes cestos (chamados ”agassi”) onde acumulam a mandioca ralada.

O agassi é feito com cipó e casca de uma árvore. Tem cerca de dois metros de altura e 80 centímetros de diâmetro. É forrado com folhas largas, de forma a impedir que seu conteúdo seja levado pela água do rio.

Kwakway se prepara para carregar o cesto de cerca de dois metros de altura, cheio de mandioca ralada a ser fermentada no rio. Foto: Sebastião Salgado

Depois de ralada, a mandioca brava é espremida, para soltar parte do caldo venenoso, e colocada no cesto. Cheio, o agassi pesa cerca de 400 quilos. Depois de imerso no igarapé, com o acúmulo de água, pode pesar 700 ou 800 quilos.

O rito de levar o cesto para o rio é uma festa. “Eles juntam os homens mais fortes para levantar aquele enorme balaio. É uma prova de força que exige grande sofrimento e contenção. Vão trocando de lugar, quando as forças de uma pessoa se esgotam”, conta Salgado, que fotografou detalhadamente todo o processo.

“Senti que eles fizeram aquele ritual coincidir com a nossa visita, porque começaram a fazer o balaio quando nós chegamos e nos chamaram para ver o ritual”.

Mas também, como é típico da imprevisibilidade da alma suruwaha, após um longo período sendo retratados, os índios mudaram de ideia. “Depois de um bom tempo, disseram que eu precisava ir embora. Eles são muito interessantes, bem peculiares”, diverte-se o fotógrafo.

O esforço para carregar o peso imenso leva todos ao limite de suas forças. Os músculos são amarrados com fibras para não se rasgarem.

Baxihywy ajuda a carregar o agassi, cesto usado para transportar a mandioca ralada até o rio. Foto: Sebastião Salgado

Os homens trocam de posição, em um rodízio em que um deles, a todo momento, recebe a maior parte do peso em suas costas. “Evidentemente ele se destaca como o mais valente, um guerreiro mais forte.”

A mandioca é levada para o igarapé, que está a cerca de 500 metros, e será consumida aos poucos, ao longo de meses. Ou tudo de uma vez, se houver uma grande festa.

A puba também tem papel importante na caça, o melhor atalho para conquistar prestígio na comunidade.

O grupo faz grandes caçadas coletivas no “inverno” (a época da chuva, que corresponde ao verão do Sudeste), que sempre são organizadas e comandadas por um dos homens de prestígio.

A credencial para organizar uma caçada é ter um estoque de puba armazenado no igarapé, que irá servir de alimento a todos que vão participar do evento.

Os suruwahas dividem os animais em três tipos, em uma classificação que nada tem a ver com a taxonomia proposta pela ciência moderna: ”zamatemyro” são todas as caças que andam no chão, abatidas preferencialmente com flecha; ”igiaty” são animais que vivem nas árvores, como macacos e aves; e ”igiatykyry” são os bichos pequenos, como os ratos e os passarinhos, caçados com zarabatana.

Liderados por Kwakway, os índios mais fortes da aldeia carregam cesto de mandioca ralada, num misto de festa e prova de força. Foto: Sebastião Salgado

Se o inverno é da caça, o verão é o tempo das grandes pescarias coletivas, quando os suruwahas usam o timbó, forma tradicional de pesca. O convívio com outros povos deu a eles novas técnicas -linha e anzol, zagaia e arpão–, o que permite a pesca em rios maiores.

Os peixes são parte fundamental da dieta suruwaha, e estão tão imbricados na sua cultura que os homens imaginam que, após a morte, viram peixes, “presas do timbó”.

RITUAL DA PUBERDADE É MARCADO POR CABEÇA RASPADA E SURRA DE VARA

Quando ficam menstruadas pela primeira vez, as meninas suruwahas entram em um rito de iniciação, para se tornarem moças.

A garota deve ficar recolhida, sem se banhar, com o rosto coberto e os olhos vendados. Ela fica de cama e só se levanta para fazer suas necessidades, quando é conduzida por outra mulher.

Ao final do ciclo menstrual, vai ser banhada, ganha uma tanga nova e é surrada com vara pela mãe ou pela avó (trata-se de uma surra ritualizada). Seu cabelo é todo raspado.

Depois de se tornar mulher, há uma série de tabus relacionados ao ciclo menstrual que envolvem normas de comportamento (como a que proíbe que homens usem sua rede nesse período) e alimentares (não podem comer certos alimentos, como caça abatida com veneno, o que traria azar ao caçador).

Jovem toca o instrumento huriatini, uma trombeta feita de casca de envira, que serve para dar avisos. Foto: Sebastião Salgado

Os meninos se tornam homens em torno dos 15 anos. O rito de passagem envolve uma caçada ou pescaria coletiva. Ao voltar para casa, o jovem deverá ajudar a carregar os grandes cestos de alimentos, para mostrar que já é forte, e também o agassi, que é a maior oportunidade de exposição de força individual. À noite, haverá uma grande festa.

Ao amanhecer do dia seguinte, um homem entre seus parentes vai colocar o suspensório no pênis do jovem. Chamado de ”sokoady”, ele fecha o prepúcio sobre a glande e é sustentado por uma espécie de cinto.

O suspensório caracteriza o decoro masculino em diversas culturas indígenas. Para eles, a nudez (ou a “vergonha”) ocorre apenas quando o acessório está aberto. Entre os suruwahas, um homem confecciona o ”sokoady” e outro o coloca no jovem iniciado. Depois que ele é atado, os outros homens surram o jovem.

Quando volta para casa, ele vai armar sua rede bem no meio da maloca, deixando o espaço destinado a seus pais, como se “saísse de casa”.

O índio Miniari, filho de Giani e Buti, deitado em canoa durante pescaria no igarapé Pretão. Foto: Sebastião Salgado

Os suruwahas se casam preferencialmente com primos cruzados (os meninos se casam com filhas das irmãs do pai; as meninas, com filhos dos irmãos da mãe). Com a redução populacional, essa prática é difícil.

Hoje em dia, os jovens adotam a monogamia, mas a poligamia é admitida, ocorrendo tradicionalmente com homens casando com suas primas cruzadas.

A cerimônia é realizada por ação de um outro homem qualquer da casa coletiva, que leva a rede onde a moça dorme para perto da rede do possível noivo. Todos agem como se fosse uma surpresa. O rapaz, no primeiro momento, nega o desejo, mas depois cede. Pode acontecer de o jovem recusar a noiva.

Após o casamento, há uma espécie de lua de mel. No período de um ano ou um pouco mais, os jovens vivem com comida dada por suas famílias. Só depois, frequentemente quando têm o primeiro filho, eles vão começar a produzir seus próprios alimentos e se tornam realmente independentes.

Uma das duas índias suruwahas operadas de catarata pela ONG Expedicionários da Saúde, Wixikiwa segura macaquinho de estimação ao lado da neta. Foto: Sebastião Salgado

Cirurgia de catarata devolve o mundo a anciãs

Há cerca de 20 anos, a escuridão da floresta alta se tornou ainda mais escura para Xamã e Wixikiwa: as duas mulheres perderam a visão, com catarata. Seu mundo se fechou.

A vida cotidiana na selva exige o uso intenso dos olhos: nas grandes caminhadas para mudanças de maloca, para abrir novas roças ou para os acampamentos de caça e pesca ou mesmo o cuidado com as cobras em volta de casa. Tudo pede uma vista aguçada.

Seu sofrimento calado é narrado por histórias que os outros contam, como quando Xamã parou numa trilha para um acampamento de pesca, não conhecia o caminho de cor e não via os vultos de outros para seguir.

As duas mulheres suruwahas já estavam desacorçoadas com a longa cegueira quando, em maio deste ano, foram operadas.

Foi como um milagre. A uma antropóloga que trabalha com a comunidade, as índias disseram que “voltaram a viver” e “ganharam vida nova”.

As operações foram realizadas pelo médico Mauro Campos, chefe do departamento de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina (da Unifesp), como parte do atendimento dado aos índios durante a passagem da ONG Expedicionários da Saúde (patrocinada por empresas) pela região do médio rio Purus, onde moram os suruwahas e outros grupos. Na aldeia, os cirurgiões da entidade trataram três pessoas com catarata e quatro com hérnia.

Segundo o censo feito durante a viagem, o grupo indígena tem poucos casos de doença. “Eu examinei todos eles e vi poucas pessoas com problemas de saúde. Eles são muito saudáveis e fortes”, diz Campos.

O médico conta que, além das duas mulheres idosas, operou um jovem, de 27 anos, que desenvolveu um tipo menos comum da doença, a catarata traumática, causada por contusões no olho (batidas, perfurações) que não cegam, mas ferem o cristalino e ele fica opaco.

Ao descrever suas impressões sobre os índios, ele repete a sensação de Sebastião Salgado: “Os suruwahas foram uma novidade para nós. Fiquei emocionado, eles não têm celular, não têm roupas, não têm escolas. A presença do Estado se dá apenas pela casinha da Sesai”, diz, referindo-se ao pequeno polo de saúde.

“Os índios com mais contato normalmente mudam algumas coisas, culturalmente, mas eles não. Eles parecem ser muito tradicionais. Me senti realmente cuidando de índios isolados”, diz o professor da Unifesp.

“Ao longo do período em que estivemos lá, pudemos vê-los caçando com zarabatana. É impressionante a habilidade deles. Pegaram um tucano. Acertam as aves voando.” Outra cena ficou em sua memória: “Eles comem de tudo, inclusive urubus”.

O médico conta que chegou a ouvir de trabalhadores da região que os vizinhos temem o contato com os suruwahas porque eles conhecem muitos venenos. Mas Campos diz que não teve problemas em obter ajuda de agentes para tratá-los.

Também marcaram a lembrança do médico a arquitetura das casas, com mais de 20 metros de altura, a abundância de serpentes na aldeia e o fascínio dos índios por fotos. “Eles ficam o tempo todo olhando as fotografias que fazemos, sempre muito impressionados”, conta Campos.

Acidente com cipó na aldeia dos suruwahas machuca olho de fotógrafo

A ponta de um cipó espetou o canto interno do olho de Sebastião Salgado quando ele andava por uma trilha: “Uns poucos milímetros ao lado e eu estaria cego. Só para ir a um hospital levaria de três a quatro dias”.

Na selva, Salgado seguia um índio que abria caminho com facão. “Eu olhava para baixo, para ver onde pisar. Nisso, a ponta de um cipó que ele havia cortado, pontiaguda, entrou por baixo de meu chapéu e espetou o cantinho do olho.” Sangrou um pouco. Seu assistente, Jacques Barthélemy, fez a foto. “Tive muita sorte.”

A expedição aos suruwahas é parte do projeto “Amazônia”, que documenta o habitat e comunidades indígenas da maior floresta do planeta. Conhecido por reportagens de documentação como “Trabalhadores”, ”Êxodos” e “Gênesis”, Salgado prevê lançar livro e exposições sobre “Amazônia” a partir de 2021.

A Folha já publicou seus trabalhos sobre os índios korubos (5.dez.2017) e ashaninkas (20.mai.2018). Radicado na França desde a ditadura, Salgado começou a carreira de fotógrafo nos anos 1970. Trabalhou em agências internacionais, como a Magnum, fundada por Robert Capa e Cartier-Bresson em 1947. Desde os anos 1990, mantém sua própria agência, a Amazonas Images, com sede em Paris.

Edição: Heloísa Helvécia / Textos: Leão Serva / Fotos: Sebastião Salgado / Edição de fotos: Thea Severino / Coordenação de Arte: Thea Severino / Infografia: Marcelo Pliger / Design e desenvolvimento: Thiago Almeida, Pilker, Rubens Alencar e Angelo Dias

Índice atual de CO2 na atmosfera é o maior de todos os tempos

De acordo com análise realizada em laboratório nos Estados Unidos, esse é o maior nível de dióxido de carbono dos últimos 800 mil anos.

De Revista Galileu:

O Observatório Mauna Loa, no estado norte-americano do Havaí, detectou um índice de dióxido de carbono atmosférico de 415 partes por milhão (ppm). De acordo com os especialistas, esse nível é o maior dos últimos 800 mil anos — ou seja, é o mais alto da história da humanidade.

O meteorologista Eric Holthaus escreveu em seu Twitter, sobre a detecção: “[É a maior] Não apenas na história registrada, não apenas desde a invenção da agricultura, há 10.000 anos. [É a maior] Desde antes dos humanos modernos existirem milhões de anos atrás. Não conhecemos uma situação como essa.”

Cientistas do observatório têm medido os níveis de dióxido de carbono atmosférico desde 1958. Mas graças a outros tipos de análise, como as realizadas em bolhas de ar presas em núcleos de gelo, eles conseguiram reunir dados sobre níveis que remontam há mais de 800 mil anos. De acordo com a NASA, durante as eras glaciais, os níveis de CO2 na atmosfera estavam em torno de 200 ppm, enquanto durante os períodos interglaciais (como o que estamos vivendo neste momento) os níveis ficam em torno de 280 ppm.

Os especialistas afirmam que o ser humano é o principal culpado pela situação. Michael Mann, professor de meteorologia da Penn State University, avalia que os níveis de CO2 na atmosfera da Terra cresçam mais ou menos 3 ppm por ano: “Se você fizer as contas, bem, é bastante sério. Vamos cruzar 450 ppm em pouco mais de uma década”, disse o estudioso, de acordo com o Live Science.

Se a poluição por carbono continuar aumentando, mais calor ficará preso na Terra, o que resultará em um planeta ainda mais quente — a última vez que o planeta esteve aquecido dessa forma existiam árvores no Polo Sul, segundo pesquisadores.

[FILME] Princesa Mononoke

Princesa Mononoke é uma animação de Hayao Miyazaki.

A história se passa numa época onde as pessoas ainda conviviam com feras e deuses, e um jovem chamado Ashitaka é atacado por um deus-javali amaldiçoado enquanto tentava proteger sua aldeia de um vingativo ataque do animal. Ashitaka contrai uma maldição na batalha e decide deixar seu povo e segue para o oeste, em busca da cura para o seu problema. Sem que ele soubesse, no oeste, mineradores de ferro e os deuses-animais travam uma grande batalha. Do lado dos deuses-animais se encontra San (a princesa Mononoke), uma jovem garota que foi adotada e criada por uma tribo de deuses-lobo. Seu ódio pelos humanos que querem destruir a floresta dos deuses é tão grande, que ela acaba esquecendo-se de sua própria humanidade. Os mineradores são liderados por Lady Eboshi, que busca construir uma grande civilização avançada para época, e seria da floresta que eles retirariam as riquezas minerais, nem que para isso animais fossem mortos e árvores fossem derrubadas.

Ashitaka acaba tendo que ajudar San e os deuses-animais contra as intenções destrutivas do homem contra a natureza e uma grande guerra é iniciada.

Para baixar o filme dublado (e com legendas) acesse este link.

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Eco-terrorismo, Eco-fascismo, Eco-extremismo, Eco-anarquia e a Floresta Białowieża

Esta é a tradução de Eco-terrorism, Eco-fascism, Eco-extremism, Eco-anarchism and the Bialowieza Forest, respeitável opinião de Julian Langer, eco-radical radicado no Reino Unido responsável pelos blogs Eco-Revolt e Feral Culture. Na ocasião Langer se manifesta sobre as críticas de alguns anarquistas nos Estados Unidos em relação às ações dos eco-extremistas.

A última floresta primaveril da Europa é bela floresta Białowieża, lar de bisontes, raposas e uma infinidade de outras criaturas vivas, os últimos remanescentes de uma Europa selvagem agora lembrada apenas em mitos e lendas, que é situada na região da atual Polônia, e atualmente está sob ataque de madeireiros.

Como indicado no vídeo acima, o mais alto tribunal da União Europeia ordenou que o governo polonês parasse de entrar na área (1). O movimento nacionalista de extrema direita em ascensão na Polônia levou isso para sua pauta (2), (desta forma, a UE) chama os ambientalistas que buscam defender e apoiar a floresta de “terroristas verdes”.

Esta não é a primeira vez que os ecologistas e os anarquistas foram taxados de terroristas, houveram eventos como o de Langnau na Suíça em 2010 (3) que puseram o eco-anarquismo na imprensa britânica, sendo rotulados como terroristas. O FBI (4) lista grupos eco-anarquistas como Earth First!, ALF e ELF como grupos terroristas. Mas isso é completamente estranho por rotular grupos que na maioria dos casos causam danos à propriedade como grupos terroristas.

É terrorismo sabotar equipamentos madeireiros, escalar e sitiar árvores, e não danar pessoas, não infligir violência a ninguém e, em geral, fazer todo o possível para evitar ferir pessoas? É terrorismo cortar e destruir um dos ecossistemas vivos mais antigos do planeta, lar de mais vida silvestre do que se pode imaginar, uma fonte de cura para nossa atmosfera, um modo de vida em si, de uma maneira brutal? Um me parece terrorismo, e o outro não. No entanto, e quanto ao rótulo que os ecologistas muitas vezes chamam de “eco-fascismo”: tem algum peso nisso?

Em reação à ascensão do Trumpismo e aos crescentes movimentos de direita nos Estados Unidos e Europa, os antifas e o antifascismo tornaram-se mais visualmente ativos e cada vez mais fazem parte da política cotidiana. Os grupos anarco-comunistas, ligados aos antifas, realizaram recentemente entrevistas com a Fox News (5) sobre o tema do racismo e o autoritarismo na era política de Trump. Mas e os eco-anarquistas?

O Earth First! tem falado durante muito tempo contra o fascismo e a xenofobia, e apoiou ações que se opuseram diretamente a Trump antes de sua presidência. (6) O ambientalismo como movimento apoiou durante muito tempo as lutas anticolonialistas (7), e pode-se argumentar que o ambientalismo não pode ser separado do anticolonialismo, já que o fascismo italiano-imperialista têm laços inegáveis e relações amistosas com o colonialismo. (8)

O escritor ambientalista radical Derrick Jensen escreveu sobre, em oposição aos laços e a influência do fascismo nas indústrias e negócios hoje em dia. (9)

Muitos daqueles que querem vincular o ecologismo com o fascismo buscam inspiração na simpatia nazi pela natureza (10), extraindo o sangue e as narrativas do solo ligadas ao nazismo verde (11). Este é obviamente um argumento bastante pobre para o homem de palha, mas frequentemente é popularizado, e apela a argumentos baratos do tipo Reductio ad Hitlerum.

Então, qualquer tentativa de vincular os eco-radicais com o fascismo parece muito fraca, se é que isso pode ser feito, com eco-radicais e eco-anarquistas que têm vínculos mais estreitos com os antifascistas que com a extrema-direita. Mas quais são os sentimentos entre os grupos radicais?

O grupo anarquista-comunista It’s Going Down recentemente (12) criticou o grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS) através de uma rodada de artigos sobre o eco-extremismo e sua relação com o anarquismo. Em geral, as críticas foram direcionadas às táticas mais violentas deste grupo no México, que abraça a categoria do terrorismo e pretende criar terror para os civilizados.

It’s Going Down acusou este grupo eco-extremista de ser “eco-fascista”, e tentou manchar nomes de projetos anarquistas que têm algum tipo de ligação ou que estão em discussão com o eco-extremismo.

O eco-extremismo é um movimento que se separou do anarco-primitivismo e de Kaczynski, seguindo um viés ecologista radical em favor de uma abordagem do tipo niilista-pagã para o discurso e a prática eco-radical. Pessoalmente, não estou convencido de tudo o que vi emergir das escrituras eco-extremistas nem encontro o amor de ITS à violência aleatória completamente vulgar e indesejável, mas simpatizo com uma grande parte da crítica do argumento eco-extremista, particularmente suas críticas aos anarquistas e ecologistas de esquerda.

E simpatizo também com esta crítica aos anarquistas por parte deste escritor eco-extremista (13), sobre a fraqueza dos argumentos anarquistas, onde os anarcos simplesmente chamam “fascista” tudo o que não gostam, algo que parece estar acontecendo. Algo que me encanta no discurso eco-extremista é sua oposição ao antropocentrismo e o abraço à natureza selvagem, que definem como:

Natureza Selvagem: “A Natureza Selvagem é o principal agente da guerra eco-extremista. Os filisteus se opõem à invocação da “Natureza Selvagem” taxando isso de atavismo ou “superstição”, mas o fazem apenas por causa da sua própria domesticação e idiotice. “Natureza Selvagem” é tudo o que cresce e se manifesta no planeta em objetos animados e inanimados, de pedras a oceanos, de microrganismos a toda a flora e fauna que se desenvolveram na Terra. Mais especificamente, “Natureza Selvagem” é o reconhecimento de que a humanidade não é a fonte e o fim da realidade física e espiritual, mas apenas uma parte dela, e talvez nem mesmo uma parte importante.”, extraído de Atassa: Reading in Eco-Extremism. (14)

Este abraço ao selvagem é algo que grande parte do ecologismo e a maioria dos anarquistas perderam, já que ambos se fundiram cada vez mais à civilização e a suas narrativas.

Voltando à floresta Białowieża, um dos últimos lugares que encarna completamente o selvagem, se você olhar para ela desde um olhar do tipo pagão eco-extremista ou desde um olhar eco-anarquista ou eco-radical, é um lugar de óbvia beleza e valor.

Não podemos dizer se a proteção da UE fará muito ou não, especialmente com a crescente onda de nacionalismo dentro da Polônia e a quantidade de extração ilegal de madeira que não é controlada em todo o mundo. O que podemos fazer é sermos aliados do selvagem, viver vidas selvagens e sermos iconoclastas em relação a esta cultura/civilização/Leviatã que está destruindo antropocentricamente a biosfera, cuja beleza selvagem nós amamos.

Não somos fascistas nem terroristas, mas utilizaremos os meios que temos disponíveis e lutaremos pelo que amamos. Este site recentemente reeditou este o artigo sobre o Chamado Internacional de Mobilização Para a Defesa da Floresta Hambacher (15), como parte da resposta para defender esta floresta na Europa.

Necessitamos retornar ao bosque e defendê-los por todos os meios à nossa disposição.

Para terminar, algumas citações:

“O caminho mais claro ao Universo é através de uma floresta selvagem.” – John Muir

 

“A cultura nos levou a trair nosso próprio espírito e integridade aborígene, rumo a um reino cada vez pior de alienação sintética, isolante e empobrecedora. O que não quer dizer que não haja mais prazeres cotidianos, sem os quais perderíamos nossa humanidade. Mas à medida que nossa situação se agrava, vislumbramos o quanto deve ser apagado para a nossa redenção.” – John Zerzan

 

“Precisamos da tônica da loucura … Ao mesmo tempo em que somos sinceros para explorar e aprender todas as coisas, exigimos que todas as coisas sejam misteriosas e inexploráveis, que a terra e o mar sejam indefinidamente selvagens, sem serem inspecionados e não sondados por nós porque são insondáveis. Nunca podemos ter o suficiente da natureza.” – Thoreau

 

“O Selvagem ainda permanece nele, e o lobo nele simplesmente dormia.” – Jack London

Notas:

1) https://www.theguardian.com/environment/2017/jul/28/eu-court-orders-poland-to-stop-logging-in-bialowieza-forest
2) https://www.ft.com/content/67618b9e-8893-11e5-90de-f44762bf9896
3) http://www.independent.co.uk/environment/eco-anarchists-a-new-breed-of-terrorist-1975559.html
4) https://archives.fbi.gov/archives/news/testimony/the-threat-of-eco-terrorism
5) http://video.foxnews.com/v/5509083595001/?#sp=show-clips
6) http://www.earthfirst.org.uk/actionreports/node/23958
7) https://www.opendemocracy.net/uk/anna-lau/climate-stories-environment-colonial-legacies-and-systemic-change
8) https://medium.com/@malorynye/the-brutal-friendship-between-colonialism-and-fascism-some-thoughts-from-aim%C3%A9-c%C3%A9saire-on-9224e90550b5
9) http://www.derrickjensen.org/culture-of-make-believe/lamont-and-mussolini/
10) http://theunion4ever.com/general/environmentalism-new-fascism/
11) http://www.spunk.org/texts/places/germany/sp001630/peter.html
12) https://itsgoingdown.org/nothing-anarchist-eco-fascism-condemnation/
13) https://youtu.be/708mjaHTwKc
14) https://ia801606.us.archive.org/32/items/AtassaReadingsInEcoExtremism/Atassa%20-%20Readings%20in%20Eco-Extremism.pdf
15) https://feralculture.blog/2017/07/23/international-mobilisation-call-for-the-defence-of-hambacher-forest-2/

O que é o ITS, grupo eco-extremista que o governo do Chile acusa de atos terroristas

Publicação extraída da BBC.

Símbolo do grupo ITS no Chile.

Era meia-noite de terça-feira, 7 de maio, quando o presidente da Metro do Chile, Louis de Grange, recebeu um pacote em sua casa, no bairro de Las Condes, em Santiago.

O que parecia ser uma encomenda despertou suspeita, e ele decidiu chamar a polícia.

Quando o grupo especializado da OS9 dos Carabineros chegou à sua casa, o temor de De Grange foi confirmado: o pacote continha um dispositivo explosivo dentro.

O ataque frustrado ao presidente da Metro não foi um caso isolado. Em janeiro de 2017, um pacote semelhante foi enviado para o endereço do então presidente da Corporação Estadual do Cobre (Codelco), Óscar Landerretche, que não alertou a polícia.

A bomba explodiu e o gerente acabou com ferimentos no braço, antebraço e abdômen.

Em janeiro a detonação de um artefato deixou vários feridos.

Outro ataque aconteceu no dia 4 de janeiro em um ponto de ônibus da rede de transporte Transantiago, no centro da capital chilena, quando explodiu um artefato que deixou cinco feridos.

Quem reivindica a autoria desta série de ataques é o auto-intitulado grupo eco-extremista Individualistas Tendendo ao Selvagem (ITS).

O ministro do Interior chileno, Andrés Chadwick, chamou o ataque a De Grange de “ato terrorista”.

Mas de onde vem este grupo e no que acreditam?

Como afirmado em seu site, a organização é contra a “civilização moderna e o progresso humano, científico e tecnológico”.

O Presidente do Chile, Sebastián Piñera, com o presidente da Metro, Louis de Grange (à direita), para quem o explosivo foi enviado.

Para eles, estes são os “maiores responsáveis ​​pela devastação dos ecossistemas”, por isso são necessárias “respostas decisivas e extremas contra os responsáveis, isto é, contra a própria humanidade”.

Por meio de uma declaração pública, o grupo indicou que tinha escolhido De Grange para receber o explosivo por ele estar “no controle de corporações que destroem a Terra”.

Onde nasceu o grupo

O ITS nasceu no México em 2011, mas afirma ter presença não apenas no Chile, mas também na Argentina, no Brasil e em alguns lugares da Europa, como Espanha, Escócia e Grécia.

Em um comunicado publicado após o ataque frustrado contra o presidente da Metro, a organização afirmou que tinha laços com facções anarquistas argentinas e seria naquele país que vivia o “arquiteto da bomba”.

No México, foram atribuídos ao grupo ataques contra professores universitários que ensinam nanotecnologia e outras ciências relacionadas com o avanço tecnológico.

Os extremistas acrescentam, no comunicado, que não se limitaram a atacar apenas os responsáveis ​​pelo progresso tecnológico, mas também “meios de transporte público, profissionais, empresários, seguidores do catolicismo, veículos, máquinas, prédios, bancos, shopping centers, torres de telecomunicação, igrejas e grupos ambientais” que não compartilham de suas posições.

O Metrô de Santiago está entre os alvos de ITS.

“Esses grupos que não são sistêmicos e que são pequenos são muito difíceis de neutralizar porque a infiltração é quase impossível, então, é difícil saber o que eles pensam, qual é a sua ideologia e o que querem”, diz Hugo Frühling, diretor do Instituto de Relações Públicas da Universidade do Chile.

O grupo, além disso, teria relação com outros grupos anarquistas chilenos.

Preocupação

Há uma preocupação crescente entre as autoridades chilenas, já que o ITS fez um chamado para que sejam instalados explosivos em diferentes partes de Santiago durante o mês de maio.

Neste mês, completam-se dez anos da morte de Mauricio Andrés Morales Duarte, conhecido como “Punky Mauri”, um jovem anarquista que morreu depois que um explosivo detonou em sua mochila.

Até agora não há detidos pelo atentado a Landerretche, nem pela bomba colocada no ponto de ônibus da Transantiago e nem pelo frustrado ataque a De Grange.

Segundo Frühling, é muito difícil encontrar o perfil e saber como os membros desses grupos anarquistas operam.

ITS é um grupo radical que procura proteger o meio ambiente.

O acadêmico acredita que, sendo um grupo que opera além do Chile, a realização de uma colaboração policial internacional poderia ser “frutífera”.

Frühling diz que não está claro se esses grupos extremistas aumentaram no Chile.

“Ao ITS são atribuídas três ações em dois anos e meio, então, você não pode dizer que há um crescimento exponencial, embora o grupo possa estar participando de outras ações menos diretas ou visíveis, como ameaças ou estímulo a outras ações.”

“Então, sim, estamos enfrentando um perigo porque eles tentam causar danos por meio de atos que são claramente terroristas e isso é extremamente preocupante”, diz ele.

Alarme

No Chile, há preocupação especialmente sobre duas cúpulas importantes a serem realizadas no país no final do ano: a reunião mundial sobre mudança climática (COP25), que reunirá cerca de 22 mil pessoas, e o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, que reunirá mais 15 mil.

Frühling diz que, embora ele não acredite que haja perigo para as autoridades que comparecerão a essas reuniões, é preciso ter cautela.

“As autoridades têm seus próprios serviços de segurança e filtrarão a entrega de pacotes ou elementos desse tipo, mas o que poderia acontecer, talvez, seria que outros participantes pudessem estar sujeitos a ações desse tipo”, diz ele.

O ministro do interior do Chile, Andrés Chadwick, condenou o ato e chamou-o de ‘terrorista’ .

Para dar mais ferramentas às equipes de investigação desse tipo de evento, o ministro do Interior anunciou que nesta semana o governo promoverá no Parlamento chileno uma emenda à lei antiterrorista que já existe.

“Condenamos veementemente esses atos, e os chamamos diretamente pelo nome: atos terroristas, que são atribuídos a grupos de natureza anárquica”, disse Chadwick após o ataque fracassado contra De Grange.